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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Eu odeio guarda-chuva

por Maria Shirts*

A minha vida ficou muito melhor quando eu aceitei o fato de que guarda-chuvas são inúteis. Para não dizer que não servem para absolutamente nada, me limito a concordar que só ajudam para proteger cabelos e ombros, uma funcionalidade pouco interessante para a inconveniência que geram.

Se as pessoas aceitassem tomar uma chuvinha, ou esperassem as tempestades passarem debaixo dos toldos de boteco, não encharcariam os ônibus ou quaisquer outros estabelecimentos que oferecem refúgio àqueles que notam, no meio do caminho, que o acessório não dá conta do recado. (Quem nunca se viu entrando num café para esperar o mau tempo passar, com ou sem a porcaria do guarda-chuva?).

Além de molharem o chão – podendo, inclusive, causar um acidente –, são pesados, caros e ocupam demasiado espaço. Não bastassem todas essas inconveniências, me parece que foram feitos para serem esquecidos. Naturalmente: você chega a algum lugar, enquanto chove, recosta o trambolho na parede para se livrar logo e, quando vai embora, esquece de resgatá-lo, porque a chuva quase sempre cessa antes da partida (principalmente quando falamos em chuvas tropicais).

Lembro que esse era um motivo de alguma discórdia na residência Shirts. Meu pai, gringo bem humorado com um quê consumista, comprava cinco guarda-chuvas por semana na época das tempestades tropicais, não só para fazer piada ou justiça ao physique du role do bom americano, mas também porque eu, filha ingrata, perdia todos eles – um por dia. A época de chuvas parou, mas painho continuava a comprá-los para não perder a piada, falando que na verdade eles estavam se reproduzindo na porta de casa.

Outros parentes me reprimiram pela falta de atenção. Repetidas vezes ouvi, de minha vó, que eu tinha sumido com todas as “sombrinhas” da sua casa – algo tão condenável que só perde para o sequestro de tupperwares.

Em suma, resolvi abdicar do acessório. Mas confesso que achei garboso vê-lo em várias formas e cores pelas ruas de Belém do Pará, onde são usados como refúgio do Sol – aí sim, com uma utilidade respeitável.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Neguinho, o pistoleiro

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

“Oi… Marcio?”

“Isso!”

“Boa noite!” saúdo o taxista do apllicativo, entrando no carro.

“Posso te dar uma dica?”.

“Pode, claro”, respondi, um pouco apreensiva.

“Nunca pergunte o nome do taxista antes de entrar. Sempre diga ‘você veio buscar quem?’. Porque o cara pode tá agindo de má fé e vai falar que é o taxista quando ele não é, sabe”.

“Ahn…” me limitei a grunhir, um pouco perplexa com a paranoia do motorista.

“Hoje em dia a gente nunca sabe moça. E aí, vamo pra onde?”.

“Vamo lá pra Vila Romana. Acho que você pode ir aqui por dentro, pela Vanderlei, sabe?”.

“Ah esse caminho né bom não. Por dentro é escuro, vai que uma moto segue a gente…”

“Bom, moço, então faz o caminho que o senhor quiser”.

“To falando pro nosso bem senhora. Hoje em dia tem um monte de motoqueiro ladrão. Você nunca foi assaltada por um motoqueiro?”.

“Já….” respondi, agora já um tanto arrependida.

“Pois então. Esses dias um colega meu matou um filha da puta desses”.

“Como assim moço? Que horror”.

“Foi a reação dele ué”.

“Mas ele não ficou em choque de matar uma pessoa?”

“Ficou. Mas é o que dizem né, depois do primeiro…”

“Hein?”

“Sabe como é moça. Quem mata um pega gosto”.

“Na verdade não, não sei não”.

“O meu amigo neguinho que falava isso. Trabalhou pro meu pai lá na Mooca, quando a família tinha negócio no bairro. Na verdade ele começou a dormir lá porque era meio desabrigado, não tinha casa, mas era boa gente sabe. Aí meio que cuidava da loja, tipo vigia, sabe? Um dia entrô um cara lá pa roubar o caixa e assustou, de certo, quando viu o neguinho. Diz que o ladrão partiu pra cima, era ele ou o cara”.

“Eu hein”.

“Pois é… aí o neguinho matou o bandido na facada. Vomitou a noite inteira, ficou mal, disse que nunca mais ia conseguir dormir. Precisou remédio pra derrubar o hômi. E olha que ele era grande. Ma nunca tinha relado o dedo em ninguém sabe”.

“Sei…”

“Fia, eu sei que o hômi pegou um gosto pela coisa. Ma um gosto. Que depois disso ele virou o maior matador de aluguel que a Mooca já viu”. “Como assim moço?”.

“Assim ué. Matava com prazer. Tinha vez que ele matava sem receber, quando os cara assaltava loja de amigo dele”.

“Geeente… que horrível”.

“Tem quem goste né”.

“Tem?”

“Ô…”

“Mas e aí moço, que fim deu o neguinho?”

“Morreu”.

“Do que?”

“Matador de aluguel. Encomendaram a morte dele”.

“….”

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração Ligia Morresi, especial para o texto

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Arquétipos do busão

por Maria Shirts*

Quem anda de busão já deve ter notado que o transporte é cheio dos arquétipos.

Só de cobradores eu consigo tipificar uns 3. Por exemplo:

O cobrador que dorme

Quem usa o Bilhete Único não se relaciona com o cobrador que dorme . Mas quando a tarjeta eletrônica se esvai de créditos, é preciso passar por aquela situação do sorriso amarelo na cara, da delicada-cutucada na mão do sujeito que abre os olhos, assustado, enquanto pega o dinheiro estendido no ar.

O cobrador sociável

É o mais bacana dos cobradores. Faz piada, enche o saco do motorista e te conta milhões de casos que, provavelmente, não aconteceram de verdade. É o Forest Gump dos cobradores.

O cobrador xavequeiro

Tá sempre de óculos escuros e escutando música. E mesmo com os olhos escondidos é possível saber que ele mira a bunda de todas as meninas que passam pela catraca.

Falando em escutar música, quase todo ônibus tem o cara da música alta, que pode não ser o cobrador xavequeiro, mas sim um passageiro inconveniente que acha que todos merecem partilhar de seu gosto melódico. Quem não quer cantar junto que ponha os fones de ouvido, oras.

Do fone de ouvido

Sou eu, no caso. Fico balançando a cabeça junto do balancê do busão e paro de cantar, um pouco avexada, quando percebo que estou sendo observada por exceder os decibéis permitidos a uma cantante amadora no transporte público.

Do escandaloso do celular

Ele não fala, mas berra ao telefone móvel. Apesar da indiscrição, devo confessar que eu gosto um pouco do escandaloso do celular porque eu adoro ouvir conversa alheia. Quase sempre rende uma boa crônica.

Do babão

Aquele que dorme. Profundamente. (Eu não sei como essas pessoas não perdem o ponto. Ou perdem, né, vai saber.)

Do perdido

Para o busão pra perguntar pra onde ele vai, empata a fila da catraca pra perguntar onde para, não sabe se senta ou fica de pé e atrapalha toda dinâmica espaço-temporal do coletivo.

Do antisocial

É o que eu mais desgosto: senta na cadeira do corredor só para evitar que as pessoas sentem do seu lado. Constrangidos, os demais passageiros desistem de pedir licença para sentar na janela e escolhem outro assento.

E, por fim, há o motorista alucinado que simula cenas de Velocidade Máxima com gosto.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Entristecida Moda


por Maria Shirts*

Foi uma temporada meio maluca. Fogosa, eu diria. Estou falando da 37ª edição do São Paulo Fashion Week, ou “semana de moda” para os mais despretensiosos, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 4 de abril.

Quem me conhece sabe que, de vez em quando, ajudo na cobertura jornalística desse evento para um site de moda. A princípio, acham incondizente com a minha pessoa. Mas eu já dismistifiquei essa e algumas outras premissas sobre o SPFW aqui.

É uma experiência e tanto. Entro em todos os camarins, de todos os desfiles, entrevisto vários profissionais, pergunto a respeito de tendências, questiono o uso de certos produtos...

Essa foi a minha quarta experiência. Costuma sempre ser agradável, divertido e também muito cansativo. Trabalho com jornalistas muito competentes, inteligentes e amigos. Independente disso, me reparei um pouco menos excitada, nessa temporada, com as ebulições deste “mundo fashion”. Tive uma percepção diferente, mais cética, talvez.

Aconteceu no terceiro dia, acho. Estava esperando para entrar no backstage de algum desfile para conversar com o maquiador responsável quando aconteceu o famigerado “cruzamento”. Calma, é menos animalesco do que parece (ou não): as modelos saem do camarim do desfile anterior para adentrar ao próximo. Parece simples, mas é um momento tenso porque elas têm pouquíssimo tempo para serem preparadas, já que tudo gera atrasos. Nessa temporada, então, que programaram 8 desfiles para o mesmo dia, por exemplo, foi mais confuso ainda.

Enquanto eu esperava, notei um homem de uns 30 anos na porta do camarim, um tanto quanto alucinado, berrando: “Cade a Tamara??? E a Luana??? Cade essas meninas???”. Não bastasse, o vi puxando uma das modelos pelo braço com tanta agressividade que pensei que fosse quebrar seu pulso frágil. Então me dei conta de que nunca havia notado essa personagem no evento: o booker.

Em suma, é ele quem cuida da agenda das modelos, que faz o meio de campo entre os contratantes e contratadas. Já havia ouvido falar, através de uma amiga que foi modelo, que eles podem ser muito sádicos. Não são todos, é claro. Não se pode generalizar, mas há muitos desses profissionais que parecem projetar alguma frustração nas meninas das quais “tomam conta”; são impacientes, hostis; exigem que elas emagreçam quando não precisam, mandam pintar o cabelo desnecessariamente, depilar sei lá aonde e já ouvi até em pedirem para raspar o osso do quadril, “porque é muito largo!”. Enfim, não parecem entender de que estão lidando com pessoas e não com um cabide.

Depois que eu presenciei essa cena fiquei bem entristecida. Percebi vários sofrimentos intrínsecos e pouco relatados. Para fechar com chave de ouro, a sala de imprensa do evento pegou fogo no último dia, deixando um bocado de pessoas assustadas, mas nenhum ferido. Mas essa já é outra história….

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 Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Por que os brasileiros não gostaram do Oscar?


por Maria Shirts*

A resposta ao título é simples: “porque Gravidade ganhou tudo”. E, diferentemente dos norte-americanos, os brasileiros não gostam de filmes como Gravidade.

O que aquela Academia de Cinema preza não tem nada a ver com os nossos valores estéticos e narrativos. Gravidade é um filme de efeitos especiais. Foi inteiramente feito em estúdio, e ainda com dois atores queridinhos de Hollywood (George Clooney e Sandra Bullock). A trama, uma espécie de Odisséia pós-pós-moderna, tem superação de desafios, é um périplo heróico e de final feliz que ainda por cima foi dirigido por um latino americano, o que pode ser considerado um belo fetiche aos olhos dos norte-americanos politicamente corretos.

Creio que os brasucas gostem de filmes com mensagens existenciais, do tipo Nebraska e, se for pra ter mais “ação”, com uma estética mais chamativa e interessante, do tipo d’O Lobo de Wall Street. Aliás, muitos amigos se surpreenderam pelo fato d’O Lobo não ter ganhado nada. A maior frustração talvez tenha sido com o prêmio de melhor ator, que não ficou com Leo DiCaprio, que encenou o protagonista. No entanto, segundo minha amiga Clara Holtz, que já apareceu em outras mal-traçadas minhas sobre o Oscar, ele não tinha como competir com o ganhador desse ano, Matthew McConaghey, que levou o prêmio pelo filme Clube de Compras Dallas. Afinal “quem emagrece muito e pela primeira vez para fazer filme em Hollywood sempre ganha o Oscar”, justifica.

Independente das questões nutricionais de McConaghey, me parece que os filmes de Martin Scorsese estão um nível acima do que Hollywood gosta e entende. Isso porque quando o espectador norte-americano não sabe exatamente pra quem torcer, fica aflito e perde o interesse. Eles precisam de um herói, e precisam que ele seja do bem. O que aparentemente não dividiu tantas opiniões entre lá e cá foi o também premiado 12 Anos de Escravidão. Percebi que tanto brasileiros quanto americanos gostaram desse filme, se emocionaram com ele. Apesar da luta racial e da escravidão terem acontecido de maneira bem diferente nos dois países, desconfio que esse tema sempre sensibilizará os habitantes das Américas, mesmo que dirigido por um inglês... Encenado ainda por Lupita Nyong’o, chega a ser covardia. A atriz, que levou o prêmio de melhor coadjuvante por sua personagem Patsey, deveria ter um filme só dela. Não me surpreenderia se os víssemos nos cinemas em breve.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Historietas Urbanas


por Maria Shirts* 

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Da Solidariedade

Ambiente: Ônibus na Avenida Angélica

O motorista estaciona no meio da Avenida Angélica, em Higienópolis, bairro central da capital paulista. Em meio às muitas buzinas dos Audis detrás do ônibus, ele fala com o passageiro do primeiro banco:

– Vamos lá André?

Os passageiros, atônitos, procuram ver o homem, que se levanta com agilidade e uma bengala própria para cegos na mão.

O motorista abre a porta do veículo, pega André pelo braço, cruza a Angélica parando, mais uma vez, o trânsito de carros. Volta correndinho, entra e retoma o caminho.

***

Histeria sem noção

Ambiente: Rua Coronel José Eusébio

Vindo a mais de 60 por hora numa rua estreita e pequena, a senhora teve que freiar suas 2 toneladas de carro quando uma mãe com seu pequeno filho atravessava a rua, uns 20 metros antes da faixa de pedestres.

Ela, que vinha buzinando histericamente há bons 50 metros parou e começou a bater palma ironicamente, ao mesmo tempo em que gritava “DÁ PRÓXIMA VEZ VAI PELA FAIXA SUA SEM NOÇÃO”.

***

Em inglês

Ambiente: Busão na Avenida Sumaré

Dei sinal para descer e me levantei para esperar o meu ponto de ônibus junto à porta. Estava lendo O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, em inglês. Já chegando em meu destino o cobrador perguntou:

– Você fala inglês?

– Falo sim

– Demorou pra aprender?

– Com certeza, acho que fiz uns 10 anos de aula

Levantou as sobrancelhas em expressão de surpresa e disse:

– Deve ser legal falar inglês

Emudeci. E desci no ponto.

***

Xavequeiros Indecisos

Ambiente: Rua Aspicuelta

Passaram por mim buzinando. Eram quatro homens num só carro:

– Gostosaaa!!!! Gostosa!!!! Uhuu!!!!

Respondi:

– Vai à merdaaa!!! Bando de folgado!!!!

O trânsito, parado, os fez frear. Eu, a pé, continuei pela calçada que beirava o veículo do quarteto fantástico. Sem delongas, gritaram: - Fiu fiu! Que princesa hein!!! Gostosaaaa!!!

Me limitei a fazer um tradicional e obsceno gesto com as mãos.

Eles, ofendidos, gritaram:

– Vai se fudêê! Gordaaaaa!! Feiaaa!!!

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Louco de Wall Street


por Maria Shirts*

Vou ter que confessar uma coisa: eu gosto do Oscar. Sim, sei que é uma pataquada só, marmelada pura, uma cafonice. Aliás, se você não quiser continuar lendo esse texto, tudo bem, eu entendo. Mas eu gosto do Oscar. E eu não só gosto como faço do Oscar um evento: me reúno com as amigas, faço um lanchinho lá pelas 8, 9 da noite, que é pra dar tempo da gente ver (e comentar, é claro) o tapete vermelho no E! Entertainment.

Depois, na premiação, a gente tenta ficar chutando os ganhadores, e essa é a parte mais legal porque uma das minhas amigas, a fotógrafa Clara Holtz, acerta todos. Todos. “A gente tem que levar ela pra Las Vegas e ganhar um dinheiro com isso”, disse meu pai, no ano passado, chocado com a habilidade da Cleidinha, como gostamos de chamá-la. Bem, como eu sou uma pessoa que gosta do Oscar, também gosto de assistir todos os filmes que dele participam. E semana passada fui ver O Lobo de Wall Street, do diretor Martin Scorsese (com a Cleidinha, inclusive).

O filme conta a história verdadeira de Jordan Belfort, um corretor da bolsa oriundo de uma família de classe média novaiorquina, mas com uma sede de dinheiro insaciável, quase sinistra. O jovem, que segundo a Wikipédia tentou carreira de dentista para se dar bem na vida, foi desestimulado por um professor da faculdade e optou pelo caminho da bolsa. Em pouco tempo vira um vendedor hábil, com uma lábia fascinante que só as pessoas desse ramo têm. Abre o seu próprio negócio e consegue consumar o seu sonho primordial: ficar rico.

Mas a que custo? O filme nos conta as várias tramóias do corretor, seus malabares muito bem dirigidos e com cenas impressionantes, que se eu tentar descrever vão perder toda a graça. Vale assistir, também, pela exímia atuação de Leonardo DiCaprio, o Belfort. Chega a impressionar o modo com o qual consegue interpretar a babaquice e boçalidade wall-streetiana. Em pouco tempo o espectador percebe que a sua conta bancária é inversamente proporcional à qualidade de seu caráter.

Em suma, é um filme que vale a pena ser visto, mas em casa. Nem eu nem a Clei sabíamos que o filme tinha 3 horas de duração, o que pra nós foi bem angustiante. Pode parecer que não, mas é deveras aflitivo ficar todo esse tempo assistindo a um milionário idiota e cocainômano humilhando mulheres, colegas e até o FBI só porque ele tem dinheiro. Se eu pudesse, teria pausado um pouco, desanuviado a cabeça e digerido a vergonha alheia, para depois ver o final (talvez até em outro dia).

Mas, agora que eu já passei por tudo isso, só me resta torcer para o DiCaprio ganhar a sua primeira estatueta. A ver!

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Terminal Pinheiros 209P



por Maria Shirts    ilustração Camila Rocun*

Esses dias peguei um ônibus de Perdizes com destino à minha casa, que fica em algum limbo entre a Sumaré e a Vila Madalena (num daqueles bairros que ninguém nunca sabe o nome). O trajeto é fácil e corriqueiro na minha vida: basta aguardar o Terminal Pinheiros que vai toda vida pela Paulo VI, onde desço no último ponto.

Pra quem não sabe, sou uma ativista fervorosa do transporte público. Nunca aprendi a dirigir, e nem vontade tenho. Acho os automóveis inconvenientes, grandes carcaças de toneladas mal-educadas. Não sei porque, mas tenho algum incômodo com o individualismo que o modal representa.

Por isso, fico militando nas vidas virtual e real em prol do busão. Tento espalhar a notícia de que as novas faixas estão mudando a cidade e o nosso modo de se locomover. “É muito melhor do que você imagina”, costumo dizer com frequência. No mês passado, entretanto, o Terminal Pinheiros demorou um pouco mais do que o comum. Quando veio, chegou um ônibus enorme, daqueles de sanfona, anunciando uma mudança de numeração no letreiro.

Era o Terminal Pinheiros 209P, antiga linha 117Y. Perguntei pro cobrador o porquê da demora: “Muito trânsito senhor?”. “Não minha filha, é que essa linha mudou né, por enquanto tá meio confuso”.

É verdade, pensei comigo mesma, lembrando que a mudança faz parte da reestruturação nas linhas que procuram, até onde entendi, otimizar as viagens de ônibus, tornando-as menores e mais rápidas. “Entendi. Mas por que que trocaram por esse ônibus enorme?”, perguntei. “Pra levar mais gente né”, respondeu. “Uhm!” murmurei, um pouco envergonhada com minha própria ingenuidade.

Mas isso não pareceu incomodar o cobrador, o Sergio, que percebeu que eu sou dessas que puxa papo no busão. Sem mais delongas, ele começou a me mostrar todas as vantagens desse novo ônibus, que tinha duas câmeras (uma em cada saída) pra auxiliar o motorista, um painel eletrônico, luzes mais modernas e o melhor de tudo: era bem mais gostoso de dirigir. “Afinal, eu sou motorista também, sabe, tô de cobrador só por hoje”, avisou. E prosseguiu: “Adivinha quanto custa esse ônibus?”.

“Não tenho ideia!”. Já havia cometido uma ingênua gafe e fiquei tímida de lançar outra. “1 milhão e 200. E sabe quem paga? O BNDES”.

Fiz aquela cara de nossa, não sabia! Acho que o Sergio pressupôs o que eu estava pensando e continuou: “Pois é minha filha, os empresários não tiram R$ 1 do bolso, o preço da passagem é que vai pagar tudo!”.

O preço da passagem é que vai pagar tudo. E mais um pouco, concluí, mas quando fui responder já tinha chegado no meu ponto e me limitei a desejar apenas uma boa noite pro Sergio, que ia continuar a viagem naquele novo Terminal Pinheiros 209P, antigo 117Y.

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

TV contemporânea: mocinhos E bandidos?


por Maria Shirts     ilustração de estreia Camila Rocun*

Na semana passada comecei a assistir Breaking Bad. Segundo todos os amigos, a internet, os professores da faculdade e quiçá a Dilma, a melhor coisa desde o pão fatiado.

O seriado é, de fato, bem cativante. Apesar de já ter acabado nos Estados Unidos em setembro, ainda passa no Brasil no canal AXN todas as sextas às 22h. Quem tiver a assinatura pode assistir via Netflix também.

Pra quem não sabe, se é que alguém não sabe, a série trata da vida de um professor de química pra lá de mal pago que descobre estar com câncer terminal. Para ganhar um extra que possa deixar para a família (um filho com deficiência e uma esposa grávida), resolve fabricar cristais de metanfetamina.

Como um bom químico, o nosso protagonista Walter (Bryan Cranston) consegue produzir o melhor cristal da praça, que se diferencia dos outros pela cor azul. E assim segue o enredo vivendo sua dupla personalidade de pai exemplar da classe média americana e produtor de drogas pesadas. Por vezes não sabemos qual delas é pior.

Independente da trama, que é bem pensada e roteirizada, o que tenho achado mais interessante em Breaking Bad é a complexidade da personagem de Walter. Quer dizer, como “engolir” um professor de química classe média que opta pela vida clandestina e ilícita do tráfico? É no mínimo arrojado.

Mas por nenhum momento se questiona a verossimilhança dessa personagem. Ao contrário, torcemos cegamente por ele, sem colocar em xeque nossos valores morais e bons costumes. É como se a opção de ganhar um troco com o mundo da metanfetamina não fosse tão horrível assim, “ok, poxa, sempre vejo isso por aí.”

É verdade que a atuação de Bryan Cranston ajuda a convencer-nos da trama, tendo ganhado elogios até de Antony Hopkins (leia a carta de Hopkins a Cranston).

De qualquer forma, já tem um tempo que comecei a reparar nessas personagens ambíguas dos programas contemporâneos. Não sei se é uma particularidade das novas tramas. Mas me parece ser um recurso cada vez mais popular.

É o caso, por exemplo, do vilão da novela Amor à Vida, ainda em exibição no horário nobre da Rede Globo. O Félix (Mateus Solano) carrega o mal em praticamente todas as suas ações. Deixou a sobrinha numa caçamba quando ainda recém-nascida, internou a irmã num hospício barra pesada, chantageou pessoas para chegar à presidência da empresa da família… entre outras peripécias dignas de um vilão da Rede Globo.

Mas em vários momentos o espectador sente uma compaixão pela personagem. Ri de suas piadas, sente muito quando ele é reprimido pelo pai por ser homossexual… Ainda essa semana, por exemplo, meus olhos lacrimejaram quando ele declarou amor pelo filho o qual descobriu não ser o pai.

Essas ambiguidades de Félix e Walter permitem, ao público, se identificar melhor com esse tipo de personagem. Claro que as caracterizações são mais exageradas que na vida real. Quer dizer, ainda não conheci nenhum professor meu que traficasse drogas (mas, quem sabe?). No entanto, só o fato deles serem mais complexos que simples mocinhos ou bandidos faz com que o espectador não se sinta (tão) subestimado pelos teledramas.

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*Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, estreia no NR a coluna mensal Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo. Estreia hoje no NR.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O mundo tá muito doente


por Maria Shirts*

No último fim de semana fui assistir ao filme Elysium, em cartaz nos cinemas de shopping mais próximos de você. A megaprodução [de George Clooney], uma ficção científica, conta a história do planeta Terra em 2154 sob o ponto de vista da personagem Max da Costa (Matt Damon, com o diretor Neill Blomkamp, na imagem acima).

Depois de séculos de espoliação ambiental, política e social, a Terra de 2154 é a imagem do fim do mundo: inóspita, estéril, e doente. Aqui só restaram os miseráveis, porque os endinheirados abandonaram o barco para morar numa estação interplanetária chamada Elysium.

Elysium vem do grego antigo; é um lugar, segundo os religiosos, em que heróis ou mortais relacionados aos deuses vão após a morte. Também conhecido como a “Ilha dos Abençoados”, poderia ser comparado com o Paraíso católico, enquanto o outro reino dos mortos, Hades, o Inferno.

A analogia se aplica ao filme: em Elysium não há “meros mortais”. Não há pobreza, doença e nem feiúra. As pessoas são imortais e quase não envelhecem porque têm tratamento de ponta. Lá todo mundo fala francês ou inglês e seguem a mais pura etiqueta. Todos têm casas de vidro com vegetação biodiversificada e nenhuma preocupação.

Enquanto isso, na Terra, todos são proletários e pobres. Largados ao relento, sofrem a violência de uma polícia robótica e as mazelas do emprego industrial (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência). É o caso, por exemplo, do nosso herói Max da Costa que, exposto à radiação massiva no seu local de trabalho, é condenado a apenas 5 dias de vida.

Bem, não preciso dizer que “da Costa” irá fazer de tudo para se curar… em Elysium. Para tanto, contará com a ajuda de Spider (Wagner Moura), o traficante de pessoas latino e de Frey (Alice Braga), enfermeira e mãe de uma menina com câncer terminal que também precisa da tecnologia curandeira de Elysium.

Independente do desenrolar da história, que não irei contar para não estragá-la aos interessados, saí do cinema angustiada ao refletir que a desigualdade e a segregação sociais da Terra de 2013 pouco diferem das vividas por Max da Costa. Talvez a percepção dessa segregação seja até pior, na nossa conjuntura, porque os miseráveis terráqueos convivem no mesmo ambiente dos prósperos “elysianos”: eles os veem, diariamente, dentro de suas SUVs, com Rolexs ostensivos, próteses dentárias e plásticas anti-aging.

“Mas os miseráveis terráqueos, se batalharem muito, têm a oportunidade de ascender na vida”, dirão os tarados pela meritocracia, usando o desgastado (e único) exemplo do Silvio Santos. Pois é, mais ou menos. Se países de economia como a dos BRICS ainda apresentam um coeficiente Gini de desigualdade inaceitável, a que ponto chegaremos?

Talvez o destino da Terra seja mesmo o de uma segregação interplanetária. Espero, entretanto, que iniciativas de governo como os programas de transferência de renda (aliado a outros de moradia, educação e saúde) continuem tentando reverter tão cruel porvir.


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*Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, estreia no NR a coluna mensal Transeunte Urbana
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