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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Telenovelo: pobres homens


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Deixa ver se eu entendi “Amor à Vida”. Aline é uma piranha, que se emprega como secretária do César, de olho na fortuna dele. Trabalhada no decote, na saia curtíssima e nas caras e bocas. O otário cai na conversa, se apaixona, casa e passa para ela uma procuração com plenos poderes sobre seu próprio e vasto patrimônio. Mas não sem antes se deixar cegar, através dos efeitos de um pó mágico, que Aline o faz ingerir sistematicamente.

César é um médico famoso, dono de um grande hospital, casado com Pilar, a quem traiu vezes incontáveis, inclusive com a nora de ambos, Edith. A uma certa altura, cai de amores pela secretária Aline, a cascavel interesseira, que inclusive domina a arte de cegar médicos experientes com pós misturados ao uísque, que o desinfeliz bebe como água, sem nem desconfiar.

Amarílis é uma médica mal amada e amargurada. Grande amiga do Niko, uma bicha boazinha, ansiosa por ter uma família para chamar de sua. Niko é casado com Eron, e com ele planeja contratar uma mulher para gestar-lhes um filho, concebido por inseminação artificial. Amarílis se prontifica para a tarefa. Niko a traz para morar com o casal durante a gestação, e a mocreia faz o maior jogo duplo. Seduz o pobre Eron e o rouba de Niko, se nega a entregar o bebê ao amigo e se supera todos os dias na arte da manipulação e da chantagem emocional contra os dois.

Alejandra é outra criatura do mal, oriunda das trevas incas do Peru, cheia de péssimas intenções gratuitas, que resolve explorar o sentimento do ingênuo amigo Ninho, um artista plástico podecrê. Ele cai na conversa dela e concorda em sequestrar a própria filha, para se aproximar da menina e ficar numa boa com a vilã.

Ninho é um cara do bem, mas não resiste a uma bruxa competente, que o convença a praticar as piores maldades, pois seu estilo de vida alternativo negou-lhe a oportunidade de ter boas influências e construir um caráter respeitável. Na juventude, envolveu-se com Paloma, uma criatura frágil e aguada a ponto de se apaixonar por um bonitão inútil como ele, que só faz maldades porque mulheres más o perseguem. Aline se aproveita do coitadinho e o obriga a fazer coisas terríveis, como matar a tia Mariah com uma tesoura de cozinha. Glauce é a víbora ginecologista, obcecada pelo Bruno “Bofe de Ouro”, cuja mulher dá à luz em condições de alto risco, o que oferece à doutora a oportunidade de assassiná-la sem deixar rastro, para depois poder arrastar a asa para o viuvão sofredor. Mais tarde, torna-se amiga e aliada de Félix, a bicha má da história.

Leila é uma moça pobre e ambiciosa, que tem uma tia rica e uma irmã autista, a quem ela odeia. Através da tia, conhece uma garota milionária e sozinha no mundo. Bola um plano maquiavélico para roubar-lhe a fortuna e convence Thales, seu guapo namorado escritor, a participar do plano e seduzir a ricaça, casar com ela e eliminá-la, para que depois ambos se joguem juntos na dinheirama. Ele aceita, o plano funciona e a moça rica morre, deixando seus milhões de herança para o garboso rapaz. Mas ele é sensível, coitado, começa a ver a morta pela casa, e fica lhe fazendo juras de amor eterno. Natasha, meio-irmã de Nicole, o enreda em outra armação pérfida.

Félix é a quintessência do vilão: ambicioso, mesquinho, ardiloso e estridente. Apronta todas com todas e todos. Rouba da própria irmã a filha recém-nascida e a abandona numa caçamba de lixo, trapaceia, mata, planeja sequestros, faz um casamento de aparência com a Edith (uma vilãzinha de quinta), surrupia as economias da Amarílis para investi-las em suas falcatruas, pinta e borda em várias modelagens e tons. A certa altura, a solidariedade e a generosidade de uma suposta estranha o comovem de tal forma, que ele se vê como um ser totalmente desprezível, se arrepende de todas as suas incontáveis maldades e se regenera. No caminho do bem, terá a companhia de Niko, o bonzinho, com quem está prestes a iniciar o romance da superação.

Então, ficamos assim: César, Niko, Eron, Thales e Ninho são todos pobres vítimas das bruacas irremediáveis Aline, Amarílis, Alejandra, Leila e Glauce, enquanto Félix, ferino e perigoso, se regenera, conquista o afeto de todos e encontra o amor nos braços de Niko.

É isso mesmo, Arnaldo?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

TV contemporânea: mocinhos E bandidos?


por Maria Shirts     ilustração de estreia Camila Rocun*

Na semana passada comecei a assistir Breaking Bad. Segundo todos os amigos, a internet, os professores da faculdade e quiçá a Dilma, a melhor coisa desde o pão fatiado.

O seriado é, de fato, bem cativante. Apesar de já ter acabado nos Estados Unidos em setembro, ainda passa no Brasil no canal AXN todas as sextas às 22h. Quem tiver a assinatura pode assistir via Netflix também.

Pra quem não sabe, se é que alguém não sabe, a série trata da vida de um professor de química pra lá de mal pago que descobre estar com câncer terminal. Para ganhar um extra que possa deixar para a família (um filho com deficiência e uma esposa grávida), resolve fabricar cristais de metanfetamina.

Como um bom químico, o nosso protagonista Walter (Bryan Cranston) consegue produzir o melhor cristal da praça, que se diferencia dos outros pela cor azul. E assim segue o enredo vivendo sua dupla personalidade de pai exemplar da classe média americana e produtor de drogas pesadas. Por vezes não sabemos qual delas é pior.

Independente da trama, que é bem pensada e roteirizada, o que tenho achado mais interessante em Breaking Bad é a complexidade da personagem de Walter. Quer dizer, como “engolir” um professor de química classe média que opta pela vida clandestina e ilícita do tráfico? É no mínimo arrojado.

Mas por nenhum momento se questiona a verossimilhança dessa personagem. Ao contrário, torcemos cegamente por ele, sem colocar em xeque nossos valores morais e bons costumes. É como se a opção de ganhar um troco com o mundo da metanfetamina não fosse tão horrível assim, “ok, poxa, sempre vejo isso por aí.”

É verdade que a atuação de Bryan Cranston ajuda a convencer-nos da trama, tendo ganhado elogios até de Antony Hopkins (leia a carta de Hopkins a Cranston).

De qualquer forma, já tem um tempo que comecei a reparar nessas personagens ambíguas dos programas contemporâneos. Não sei se é uma particularidade das novas tramas. Mas me parece ser um recurso cada vez mais popular.

É o caso, por exemplo, do vilão da novela Amor à Vida, ainda em exibição no horário nobre da Rede Globo. O Félix (Mateus Solano) carrega o mal em praticamente todas as suas ações. Deixou a sobrinha numa caçamba quando ainda recém-nascida, internou a irmã num hospício barra pesada, chantageou pessoas para chegar à presidência da empresa da família… entre outras peripécias dignas de um vilão da Rede Globo.

Mas em vários momentos o espectador sente uma compaixão pela personagem. Ri de suas piadas, sente muito quando ele é reprimido pelo pai por ser homossexual… Ainda essa semana, por exemplo, meus olhos lacrimejaram quando ele declarou amor pelo filho o qual descobriu não ser o pai.

Essas ambiguidades de Félix e Walter permitem, ao público, se identificar melhor com esse tipo de personagem. Claro que as caracterizações são mais exageradas que na vida real. Quer dizer, ainda não conheci nenhum professor meu que traficasse drogas (mas, quem sabe?). No entanto, só o fato deles serem mais complexos que simples mocinhos ou bandidos faz com que o espectador não se sinta (tão) subestimado pelos teledramas.

* * * * * * * *

*Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, estreia no NR a coluna mensal Transeunte Urbana. Ilustração de Camila Rocun, graduanda em Design Digital, ilustradora e apaixonada por cinema, divide seu tempo entre fazer arte pelo Portal R7 e ser mãe do Léo. Estreia hoje no NR.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

TV de LSD


por Carlos Conte  ilustração Caco Bressane*

 Deu nos reclames do plim-plim:

– TV LCD da Sony, modelo Bravia, KDL, 40 polegadas, FULL HD, USB Play e Rádio FM! Apenas 1599 reais à vista. Não é muito barato?...

Virei para o Galo e perguntei se ele gostaria de ter uma TV igual à da propaganda.

– Cara, quer saber? Pra mim tanto faz. Parabólica, a cabo, o escambau. TV eu uso é pra dormir, Carlão. Não tem calmante melhor. Um calmante eletrônico.

O Peri é outro que não liga pra televisão. Na sala, prefere rodar um disco do Chopin, Lou Reed ou a trilha do filme Laranja Mecânica. Pra TV não está nem aí. Se bem que, não faz dois meses, assistimos juntos à cena da novela das oito em que a Claudia Raia aplica uma injeção letal no pescoço da amiga que tinha acabado de descobrir o esquema do tráfico de mulheres.

– E a câmera de segurança do elevador?! – levantou o Peri, indignado. – E a câmera do elevador, bicho?! Que prédio hoje em dia não tem câmera no elevador? Não é possível... Esse roteirista tá maluco, cara! Foi o bastante para desligarmos a TV.

Aqui em casa é assim: temos uma relação de amor e ódio com a nossa Semp Toshiba, presente do tio Paulo, pai do Cabelo. Aliás, foi o Cabelo que, na tentativa de consertá-la, afundou pra sempre o botão ON/OFF, e desde então, pra que a TV não fique o tempo inteira ligada, é preciso desplugar o fio da tomada; para ligá-la, pluga-se o fio novamente. E vamos nesta toada: reclamando do chiado, xingando, batendo, coitada!, só falta fazer que nem o personagem Jacarandá, do João Antônio, que possuído de ódio pela propaganda do banco enfiou um balaço de 38 bem no meio da tela.

Já trocamos de antena duas vezes para ver se melhorava. Bombril. Tapinha nas costas, pra não magoar. Que nada! Parece que não tem mais jeito.

Mas a verdade é que gostamos dela. Apesar de todos os seus defeitos; ora, quem não os tem? Amparada por uma pilha de Barsas, que são como tijolos, olho pra ela, orgulhoso, e digo: é a nossa TV! Apesar do seu chiado, é assim que gostamos dela. Também, não temos grandes desejos televisivos – mais de 250 canais, alguns só de filme, outros de desenho animado, notícias 24 horas e tudo o mais. Como nossa necessidade televisa é, digamos, modesta, vamos deixando como está. Em 2 anos, confesso que aprendi até a respeitá-la. Corajosamente sobrevive em meio à ânsia disseminada pela tela de plasma, entrada HDMI, imagem e som digitais e todo o aparato do cacete a quatro dos aparelhos televisores hoje em dia. Sabe que prefiro minha TV de LSD?

Até o Diegão, que tem TV a cabo em casa, de vez em quando dispensa o som digital e a mais alta definição pra assistir futebol aqui em casa. Segundo o Diegão, ver jogo aqui é mais emocionante. Quanto pior a imagem, mais difíceis as divididas, mais incertas as patadas da intermediária, mais confusos os escanteios. Mais sofrido, portanto mais Corinthians. 44 jogadores embaralhados em campo, dois juízes, um correndo atrás do outro. Nem a pau que dá pra enxergar o tempo de jogo, que fica na parte superior da tela. Vai na intuição.

Mas, por outro lado, não dá pra enxergar nitidamente os peitões da Cristiane Pelajo, nem o sorriso que o Peri adora da Letícia Spiller, nem as curvas da Camila Pitanga, unanimidade. Pra compensar somos poupados da cara de agente da CIA do Willian Waak. No lugar do rosto, máscaras sobrepostas, uma mistura psicodélica, ou uma forma monstruosa. Em vez dos números do último pregão da Bolsa, valores oníricos, ininteligíveis, ideogramas caleidoscópicos, signos fantásticos, lúgubres, indecifráveis.

Diante da telinha, em estado vegetativo, ao qual a droga nos induziu, alguém aciona a função MUDO e abraça o violão. O Peri faz questão que a famiglia jante toda junta. Depois, Gaisnburg na vitrola, Bony and Clyde, porque o aparelho de CD tá zoado faz tempo. Até que alguém, enfim, abre uma Brahma e despluga a TV da tomada, antes do Corujão.


* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Corporalidade Negra em Lado a Lado



por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto ao buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas e o povo, erradamente, chama de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Racismo no Brasil e afetos correlatos

por Cidinha da Silva*

Pilar, a vilã e Pitanga, a mocinha negra
Na novela Lado a lado três personagens femininas são centrais para pensar o tema do racismo. Laura (Marjorie Estiano), mocinha branca, filha da vilã, professora idealista e mulher divorciada, melhor amiga da mocinha negra. Constância (Patrícia Pillar), baronesa cruel, saudosa dos tempos escravistas e Isabel (Camila Pitanga), mocinha negra, arrojada, bela, libertária e pertencente a uma comunidade negra. Três excelentes atrizes potencializadas por belos papeis. Patrícia e Camila conseguem ser magistrais e ratificam o lugar de seguidoras de grandes atrizes como Fernanda Montenegro, demonstrado nas múltiplas e surpreendentes personagens que ambas vêm interpretando com competência ao longo da carreira.

Constância é protótipo da elite escravista decadente que manteve o poderio econômico, a mentalidade de subjugo aos negros e que consegue se reinventar na política, da corte imperial a família migra para o Senado.

Laura faz oposição à mãe: é humana, honesta, respeita as outras pessoas, acredita em uma sociedade igualitária e empenha-se para construí-la nas mínimas atitudes. Isabel é a rainha negra, a mulher que vence pelo trabalho artístico e emprega o dinheiro economizado durante seis anos no exterior para comprar uma casa, um teatro e construir uma escola para as crianças do Morro, do qual também é originária.

Marjorie (à dir): filha da vilã
e amiga da mocinha negra
Isabel tem um filho, fruto de relação acidental com o filho da vilã. O recém-nascido é raptado no momento do parto e trocado por um bebê morto entregue à parturiente enfraquecida pelo clorofórmio. Tudo isso planejado por Constância e executado por suas comparsas, a saber, a empregada branca e pobre que, por sua vez, contrata um homem branco que compra o corpo de um bebê para trocar pelo nascido vivo; uma parteira, também branca, reconhecida pela “habilidade” de matar crianças indesejadas no momento do nascimento e outra mulher (branca) que ajuda a parteira ao fugir com o bebê de Isabel.

Talvez o leitor ou a leitora tenha sentido certo desconforto na reiteração da branquitude das personagens da novela Lado a lado, escrita por Cláudia Lage e João Ximenes Braga. Paciência! Mas considerem que pela primeira vez há mocinhas e vilãs negras e brancas, portanto, é necessário distingui-las.

Os autores, de maneira inaugural na teledramaturgia tupiniquim rasgam, dilaceram, escancaram os privilégios dos brancos brasileiros alicerçados na exploração reiterada e arraigada dos negros ao longo de séculos. Eu não queria estar no lugar dos brancos, deve ser desconfortável mesmo. Digo isso porque outro dia, em uma dessas listas de comentários sobre o texto de alguém, li um rapaz branco reclamando do absurdo de pretenderem “culpar os brancos de hoje pelo que os de ontem fizeram, foram outros tempos e agora é bola para frente, sem olhar para o passado.” Quanto a isso, não dá para ter paciência.

Há também os que jogam no time de Laura e transformam o desconforto em atitude de mudança, em desconstrução dos privilégios da branquitude. Para estes, como para os autores da novela, flores, em que pese o tema dos afetos que ainda obsta entendimento pleno da questão.

Qual é o laivo de humanidade de Constância? O declínio da decisão de matar o neto, resolvendo entregá-lo a uma mulher (irmã da vilã negra) que pudesse criá-lo, financiada por sua generosidade. Aqui começa o problema do afeto e sua convivência harmônica com o racismo no Brasil. Constância tem pena de matar o neto mestiço (existe sentimento maternal difuso por ele), mas não titubeia em roubá-lo da mãe negra, mero ventre parideiro sem qualquer valor humano, como o ventre das mulheres outrora escravizadas por ela. E como um filho de mulher escravizada, real ou simbolicamente, também o é, Constância rouba o bebê da mãe negra, singelo capricho de senhora branca escravizadora.

ERA assim lá, naqueles tempos, e permanece assim cá, nos tempos de hoje. A discriminação racial é relativizada pelo afeto do branco pelo negro, é o carinho do senhor pelo escravo

Elias (Afonso Nascimento Neto) recebe da avó-megera quinhões mensais de atenção: dinheiro suficiente para garantir a sobrevivência de uma mulher adulta, dois adolescentes e uma criança, além de propina para a tia Berenice (Sheron Mennezes), intermediadora do negócio – cabe aqui a observação de que não deve ser muito dinheiro, é que pretos, naquela época e ainda hoje, vivem com muito pouco.

Elias recebe também olhares carinhosos. Ele é tão bonito, um tanto escurinho, é verdade, mas uma graça de menino. Às vezes até, o garotinho mestiço tem o beneplácito de aproximar-se daquela beleza radiante da avó e trocar duas ou três palavras com ela. Certa feita recebe um doce como presente e é fulminado pelo olhar de nojo da tia-avó Carlota (Christiana Guinle), também presente à cena.

Era assim lá, naqueles tempos, e permanece assim cá, nos tempos de hoje. A discriminação racial é relativizada pelo afeto do branco pelo negro, é o carinho do senhor pelo escravo, como disse tia Jurema (Zezé Barbosa). Ou você vê alguma diferença entre a postura de Constância e das patroas (sabidamente brancas) que tratam as empregadas domésticas (negras majoritariamente, não porque eu queira, mas porque assim atestam as estatísticas) como seres a quem fazem o favor de pagar salário irrisório, negam direitos trabalhistas e como compensação, doam roupas velhas e retalhos de carne para levar à casa nos finais de semana? Afora as humilhações, os palavrões, toda sorte de maus tratos e a possível iniciação sexual dos filhos ou assédio dos decrépitos maridos!

Outro aspecto importante para compreender a dinâmica do afeto como reforço da assimetria nas relações raciais, principalmente no Brasil, é a postura de Laura que, mesmo sabendo o quanto a mãe é peçonhenta, tenta relativizar o processo preparatório do veneno junto à Isabel, principal alvo da crueldade materna. Laura ouve as justificativas e explicações da mãe e surpreendentemente, tomada por amor filial, dá crédito a elas e tenta amainar o coração da amiga em relação à genitora. Isabel não aceita sequer ouvir, não tem paciência (como eu), mas Laura prossegue, é a representação da mulher branca não-racista que não compreende a ignomínia do racismo e por isso rejeita o fato de que uma igual, a mãe, a quem ela percebe como um ser humano ruim, mas humano, possa ser tão racista.

E, se Laura continuar assim, com a visão ingenuamente obliterada pelo afeto, não caminhará a humanidade, pois haverá, sempre, o carinho do escravizador pelo escravizado.


* escritora, Cidinha da Silva estreia hoje sua coluna mensal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

E a novela continua...

Acredite quem quiser, mas a novela “Amor e Revolução” continua o seu calvário no SBT. A última pesquisa do Ibope (06 de junho) apresentava um índice de audiência de 3%, o mais baixo entre as novelas que estão sendo apresentadas no momento. Segundo o Instituto de pesquisa, para cada 100 televisores ligados no horário, apenas seis estavam sintonizados na novela. E isso é mau, segundo os especialistas no assunto.

Até aí nada de mais, pois sempre haverá um dos folhetins eletrônicos que ocupará a última posição na pesquisa, até mesmo com índices de audiência maiores do que este apresentado por “Amor e Revolução”. O grande problema é que os autores ainda não conseguiram encontrar o norte, o rumo certo para o enrosco em que se meteram. E tenho sérias dúvidas se o encontrarão.

Não me parece que o gênero telenovela, tal qual é feito no Brasil, aceite qualquer tema para ser dramatizado, sobretudo quando se trata de “contar histórias” a partir da realidade. E quando essa realidade envolve questões políticas, opções ideológicas, luta de classes, o confronto visceral entre ditadura e democracia, por exemplo, e ainda traz no seu bojo feridas não de todo cicatrizadas pela sociedade brasileira, torna-se necessário que seus autores conheçam minimamente o assunto que escolheram. E esse, definitivamente, não é o caso.


E não lamento. Ao contrário: quando ainda tenho paciência para ver algum capítulo e as situações e diálogos ridículos e inconsistentes que tentam fazer avançar uma história sem pés nem cabeça, compadeço-me com o desrespeito à memória de homens e mulheres como Carlos Marighella, Mário Alves, Heleny Guariba, Iara Yavelberg, Eduardo Leite (o Bacuri), Joaquim Câmara Ferreira, Carlos Lamarca, Aurora do Nascimento Furtado, Vladimir Herzog, Maria Lucia Petit, Rubens Paiva, Maurício Grabois e tantos outros que perderam a vida para que o Brasil não só recuperasse a democracia que lhe haviam aprisionado com baionetas e canhões, mas que pudesse também ser um país de maior igualdade e justiça social.

Não deixa de ser curioso que um grupo de militares, assim que os primeiros capítulos foram ao ar, manifestassem a intenção de impedir a exibição da novela sob a alegação de que ela dava uma ideia preconceituosa de nossas FFAA. Atitude, quanto a mim ridícula e desnecessária, pois além de afirmarem na prática o sentimento autoritário que caracterizou os seus pares nos anos 60/70, não atentaram para o fato de que a estrutura da novela, digamos desse modo, ridicularizava também a esquerda revolucionária.

A tal ponto, que mais recentemente um grupo de militantes da época organizou um abaixo assinado na internet pedindo que os autores da novela excluíssem dos depoimentos finais as opiniões de defensores do golpe e dos métodos empregados para livrar o Brasil do comunismo, sob o argumento de que o país está para aprovar a Comissão da Verdade justamente para passar a limpo esse período e punir os torturadores.

Concordo com o argumento, mas não concordo com o método, pois seria também uma forma de censura e o que é pior: daria subsídios aos criadores da novela para que, falaciosamente, argumentassem que faziam uma novela “democrática”, dando voz aos dois lados da contenda.

Com essa fraca audiência, a pergunta que se torna necessária é a seguinte: se a novela, de grande realismo – segundo os autores – pretendia mostrar às novas gerações o que foi o Brasil dos anos 60/70 (assunto para o qual não se prepararam, insisto) o que explica audiência tão baixa? Estão as novas gerações desinteressadas do assunto ou perceberam que estão diante de uma tentativa de se vender gato por lebre?

Izaías Almada é autor entre outros do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Editora Boitempo) e colunista do NR.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Novela "Amor e Revolução" ou: a homossexualidade e o golpe

Recentemente escrevi que a ordem veio de cima, do patrão: “Mais amor e menos revolução”. O autor da novela entendeu o recado e tascou o primeiro beijo gay da telenovela brasileira. Com o baixo índice de audiência, quem sabe assim se poderiam ganhar uns pontinhos a mais com duas mulheres se beijando... E já se anuncia também o beijo gay masculino, cenas de sexo dentro de uma igreja, fantasmas e outras armadilhas de pegar incautos para animar essa novela que já nasceu debilitada.
Turbinando a audiência: o primiero beijo gay em novelas
Ultrapassada a casa dos trinta e tais capítulos exibidos, a telenovela “Amor e Revolução”, produzida e apresentada com grande divulgação pelo SBT, trouxe consigo a expectativa de resgatar em termos dramatúrgicos um período polêmico da história política contemporânea do país e que, segundo seus próprios criadores, seria uma novela realista, baseada em extensa pesquisa e investigação sobre os anos que antecederam e precederam ao golpe civil e militar de 1964.
Uma escolha sob vários pontos de vista acertada, até porque a telenovela brasileira tem uma enorme empatia com o público, independentemente da qualidade daquilo que apresenta. E o SBT, em particular, canal que costuma ou costumava privilegiar a importação de novelas de outros países, tinha agora a oportunidade de mostrar a sua efetiva intenção de mudança, de melhorar o seu repertório nacional no gênero.
O velho e surrado adágio popular diz, no entanto, que “de boas intenções o inferno está cheio”. “Amor e Revolução” confirma o adágio: é um desastre. E sob todos os aspectos. Texto medíocre, interpretação sofrível da maioria dos atores, direção mais do que convencional, cenários alguns deles inverossímeis (a mansão do general Lobo Guerra é apenas um exemplo) se somam e se confundem num apanhado de situações muitas delas também inverossímeis, onde a política e os complexos e conflituosos caminhos que a permeiam são reduzidos a uma retórica desprovida de qualquer sentido, repleta de lugares-comuns, sendo a ação dramática conduzida por cenas grotescas de um jogo de faz de conta, onde a tortura e até uma inesperada homossexualidade feminina ilustram, no limite da ambiguidade, a escolha do título. Confusão propositada, incompetência ou desconhecimento da matéria prima?
A tal pesquisa histórica, se existiu, não ajudou lá muita coisa, pois há uma ligeira confusão cronológica em situar guerrilheiros que propugnavam pela luta armada antes mesmo de se dar o golpe em março/abril de 1964. Mas isso não é lá tão relevante assim, dirão alguns. Afinal, trata-se de um folhetim e como todo folhetim televisivo, seus ingredientes se constituem de grande carga emotiva, mas na maioria das vezes toda ela ficcional.
Como todos sabem, a ficção é o ato de fingir, de dissimular, de criar fantasias, coisas imaginárias. Como, pois, não considerar relevante uma pesquisa histórica e a realidade dela extraída? Por acaso tortura, prisões ilegais, censura à imprensa, cassação de mandatos, mortes de oposicionistas, desaparecimentos, quebra da legalidade democrática, seqüestros, exílio, tudo isso seria parte de uma ficção que o país viveu naqueles anos? Em outras palavras: mostrar esses acontecimentos, ficcionando-os indevidamente ou por falta de conhecimento do que foi de fato a ditadura brasileira de 64, absolve os autores e produtores de um confronto mais direto e verossímil com aquela realidade?

Cinema mudo
foi mais eficiente

Os personagens, vindo eles não se sabe muito bem de onde, aterrissaram nas cenas como paraquedistas e começaram a discutir sobre temas delicados, polêmicos, em alguns momentos como se estivessem todos na Escolinha do Professor Raimundo. Não há qualquer preocupação em se contextualizar o momento histórico, o antes, o durante e o depois do 1º de abril de 1964, a não ser com alguns poucos e surrados lugares comuns usados na época, sejam eles contra ou a favor do golpe de estado.
A preocupação com os fatos e situações apresentadas, pois não se trata aqui de pura ficção e sim de trabalhar em cima de uma realidade histórica contemporânea, em si mesmo complexa, confere a boa parte dos diálogos um didatismo primário, onde a ação é substituída e explicada pela fala, num erro dramatúrgico, no caso de cinema e televisão, dos mais primários. Dou um exemplo simplista: na redação do jornal, uma senhora vestida mais à maneira dos anos 50 diz para a proprietária, qualquer coisa como: “Hoje, dia primeiro de abril começou o golpe militar no Brasil”. Como a ação, a narrativa dramática e seus conflitos, sequer mostraram uma cena que ilustrasse o golpe de estado, como a presença de tropas nas ruas, por exemplo, ou coisa parecida, optou-se por uma personagem que falasse (anunciasse) a outra a barbaridade acima. Tosco... Os letreiros do cinema mudo eram mais eficientes.
Contudo, tive a oportunidade de ouvir e mesmo de ler, apesar da fraca qualidade da novela e de seus erros primários, que ainda assim era louvável a sua presença na televisão, pois mostraria às novas gerações uma fase da história brasileira que elas desconhecem. Bobagem. Do jeito como é apresentada a novela, as novas gerações continuarão desconhecendo essa fase da nossa história política.
Discordo, pois, de tais opiniões. Onde é que a novela esclarece alguma coisa sobre a luta de classes, por exemplo, quando é disso que trata a quartelada apoiada por empresários brasileiros e a Embaixada dos EUA? Ou sobre a geopolítica que dividia o mundo entre dois sistemas políticos e econômicos opostos e que provocaram crises, levantes e guerras de independência no terceiro mundo? Ou sobre o que se chamava de Guerra Fria? Ou sobre os objetivos das reformas de base defendidas pelos progressistas e pelo programa do próprio governo de João Goulart? Ao contrário: o mote é sempre o mesmo: evitar que o Brasil se transformasse numa União Soviética, China ou Cuba.
 "A tortura é apresentada de forma caricata, inconsequente"
A reunião de estudantes na UNE, incendiada no dia 1º de abril de 64, foi uma piada de mau gosto. O grupo de teatro que se reúne para falar do golpe de estado e se propõe a montar uma peça de protesto que nunca se sabe qual é, quase resvala para a debilidade mental. A família de militares que passa o tempo todo dentro de casa, com os homens fardados em seus uniformes de gala como se fossem a uma parada do dia 7 de setembro, sessões de tortura onde a forma de torturar esconde o conteúdo do próprio interrogatório, tudo isso configura um painel caricato – no pior sentido – daquilo que se viveu no Brasil nos difíceis anos da ditadura civil militar. E essa caricatura medíocre se dá à esquerda e à direita, é bom que se diga, num exercício maniqueísta dos mais rudimentares.
Tomemos o exemplo das cenas de tortura, tão comentadas a ponto de serem criticadas pelo próprio Sr. Sílvio Santos, dono da emissora. Para começar, é provável que a maior violência da tortura não seja a física, mas a moral. A humilhação de se colocar alguém nu (não sendo aqui o caso, pois a censura não permitiria, com certeza), completamente desprotegido e à mercê de algozes animalizados, não esclarece absolutamente nada, pois, além de não haver qualquer comentário sobre essa prática irracional de se interrogar um ser humano, ela é apresentada de maneira caricata, inconsequente. A tortura, é bom que se lembre, continua a ser exercida nos dias de hoje em delegacias, presídios e reformatórios brasileiros, sem que a sociedade, como um todo, se importe com isso.
Sociedade, aliás, que não manifesta concretamente a sua indignação e a sua revolta, como nossos vizinhos argentinos, bolivianos e equatorianos, para ficarmos apenas nesses três exemplos. Seria a tortura mais violenta, intolerável e desumana só quando empregada contra presos políticos, por exemplo? Não quero acreditar em tamanha hipocrisia, mas...
Durante o período ditatorial, repito, a sociedade brasileira se calou contra a tortura, as prisões, os desaparecimentos de cidadãos, como hoje ainda se cala diante dos flagrantes casos de tortura a prisioneiros ditos comuns, ou bandidos, como a eles costumamos nos referir. Ainda é comum se ouvir entre nós que “bandido bom é bandido morto”. Sociedade que se cala também contra a prática dos crimes chamados de “colarinho branco”; como acredita nas mentiras inventadas ou criadas por certo tipo de imprensa para denegrir o passado de muitos daqueles que sofreram durante a ditadura. A última campanha presidencial deu inúmeros exemplos dessa afronta e de intolerável desrespeito para com a presidenta eleita.
“Amor e Revolução” pode até ser uma tentativa bem intencionada, não duvido, mas inteiramente defasada entre a intenção e a realização. E defendê-la, como obra teledramatúrgica, só porque pode esclarecer alguma coisa aos nossos jovens ou porque a televisão nunca falou sobre a tortura ou a mostrou, por exemplo, revela certo grau de ingenuidade de muitos brasileiros, cujo idealismo sincero, também não duvido, sucumbe diante das armadilhas de uma televisão que mistura no mesmo saco (eu diria quase que no mesmo horário) o programa do Ratinho, a Praça da Alegria e outras bobagens do gênero.

Não fossem
os depoimentos...

Diante da “violência” das torturas dos capítulos iniciais (como se a televisão não escancarasse inúmeras outras violências no seu dia a dia) resolveu-se que o amor homossexual seria uma guinada fantástica na trama, pois até a frágil tentativa de se fazer um “Romeu e Julieta” dos anos de chumbo não sensibilizou os espectadores. E o golpe de 64 é reduzido a um beijo gay, numa tentativa desesperada em busca de audiência para quem pretendia apresentar com realismo o tal Brasil que as novas gerações não conheceram.
Criméia Almeida em depoimento
Cabe aqui um comentário sobre o depoimento de ex-presos políticos da ditadura no final dos capítulos. Homens e mulheres que deram uma parte da sua vida por um ideal, por uma luta de transformação da sociedade brasileira e que devem ser respeitados. A novela, entretanto, procura nesses depoimentos a verdade ou o grau de veracidade para conflitos que não consegue mostrar nas cenas e nos capítulos que vai construindo. Ao contrário do que supõem seus autores, torna-se um apêndice com vida própria, pois falam de suas dolorosas experiências com a emoção que falta aos personagens da trama novelesca. Se não fossem esses depoimentos, e estou sendo generoso, tudo indica que estaríamos diante de um folhetim banal sobre como brincar de guerrilheiros e militares, de bandidos e de mocinhos. E isso é muito pouco, quase nada, para quem não viveu os tais “anos de chumbo”.
A novela prova à exaustão que, antes de esclarecer as novas gerações, é preciso antes de tudo que os autores entendam sobre aquilo que estão falando.

Izaías Almada é dramaturgo, escritor e colunista do NR. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Novela "Amor e Revolução" ou: Sílvio Santos e o Baú da Felicidade

Quando ouvi dizer que o canal de televisão do senhor Sílvio Santos iria produzir uma telenovela sobre o golpe de 1964, fiquei logo curioso. O SBT?!!! Seria contra ou a favor do golpe? Ou, antes, pelo contrário? A ideia era interessante, mas conhecendo a televisão brasileira... Tinha eu que vencer o preconceito. Afinal, pensei, na pior das hipóteses existiria a possibilidade das novas gerações conhecerem um pouco sobre a nossa ditadura mais recente.
“Amor e Revolução” é uma novela maquiada de
imparcialidade para falar de um período bastante difícil e
controverso da  política contemporânea brasileira.
Veio a divulgação, a expectativa da estreia, as entrevistas sobre pesquisas, investigações históricas, depoimentos de militares e ex-presos políticos, enfim todo o pano de fundo necessário para, quem sabe, tirar alguns pontinhos do Ibope das emissoras concorrentes. E, claro, justificar a escolha de tema tão delicado e polêmico, mas aliciante para um gênero dramatúrgico de grande empatia no Brasil.
Contudo, pensei, o empresário Sílvio Santos, com seu eterno e enigmático sorriso, não é diferente de outros empresários na área da comunicação social, quer em jornais, revistas, rádio, televisão e a atual coqueluche mundial: a internet e suas redes sociais. A exceção de alguns sites e blogs dessa última forma de comunicação, todas as outras mencionadas, quer no Brasil e mesmo no mundo, na sua maioria pertencem a grupos que têm dado provas mais do que evidentes de serem apenas porta-vozes de interesses corporativos próprios ou de seus principais anunciantes. Até aí, nenhuma novidade, pois essa é a chamada regra do jogo. E para aqui a ética não foi chamada, ou melhor, foi abandonada.

Simplificação
É sabido que no Brasil o grande mercado televisivo se alimenta dos horários distribuídos entre as telenovelas, os jogos de futebol, os telejornais e os programas de auditório, onde se despejam as grandes verbas publicitárias. Como jogos de futebol e programas de auditórios se nivelam pelas paixões mais comezinhas e deixam a desejar quanto a formar a opinião política dos cidadãos, é na área do telejornalismo e da telenovela que a porca torce o rabo, como diria meu velho pai... Aqui, sim, não dá para tapar o sol com a peneira.
No jornalismo, apesar de tudo, ainda se encontram alguns bolsões de dignidade e de profissionais que se mantêm dentro da prática de um jornalismo investigativo de qualidade, com a apresentação de questões relevantes nas ciências, nas artes, na política, ou que apresentam denúncias baseadas em fatos que as comprovam, na tentativa de ouvir os dois lados de uma questão, na busca do contraditório etc. Não muitos, como seria desejável, mas existem. E quanto às telenovelas?
“Amor e Revolução” é uma novela maquiada de imparcialidade para falar de um período bastante difícil e controverso da política contemporânea brasileira. Caricata e mal feita, quer à direita e à esquerda do espectro político. De repente, a tal geração, para a qual a novela procuraria mostrar o que foram os “anos de chumbo”, desinformada que é, e pelo que se viu até agora, ficará dividida mais uma vez entre “torcer” para os bons contra os maus. Mas para muitos personagens, como o general Lobo Guerra e os policiais torturadores, ou mesmo alguns dos depoentes finais, os maus são os comunistas, que queriam transformar o Brasil numa China, União Soviética ou Cuba... E agora?
Qual o sistema econômico ideal, o regime político ideal? Já que se criou ao longo dos tempos a falsa dicotomia que identifica ditadura com fascismo e/ou comunismo e democracia com capitalismo, a resposta – para muitos, óbvia – será democracia e capitalismo. Mas qual democracia? A democracia do poder econômico? A democracia onde a justiça é realmente cega? A democracia que favorece a especulação financeira no lugar da produção? A democracia que ignora a justiça social? A democracia que tolera a impunidade e a corrupção?

O opinião do patrão 
Acabei, por fim, decifrando o enigma. No seu programa dominical do dia 24 de abril, o senhor Sílvio Santos – contando com a presença de uma atriz mirim da novela – expressou a sua opinião como cidadão, artista e empresário. Considerou ele que a novela deveria ter mais amor e menos revolução, isto é, mais beijos e menos cenas de tortura. Dirigindo-se à pequena atriz que participava do programa, SS arrematou: “Se você vivesse no comunismo, hoje teria que dividir o seu apartamento com mais de 20 pessoas”.
Agora entendi a novela do SBT: se não fossem os militares à maneira do general Lobo Guerra e os policiais à imagem dos personagens Fritz e do delegado Aranha livrarem o Brasil do comunismo à custa de torturas, prisões, desaparecimentos, cassações de mandatos, fechamento de sindicatos e entidades estudantis, censura à imprensa, tudo isso com o apoio de empresários brasileiros e da embaixada norte-americana no Brasil, nós hoje seríamos um país onde o próprio Sílvio Santos teria que dividir sua mansão no Morumbi provavelmente com 20 desses miseráveis da periferia. Pasmem.E com certeza, muitos desses miseráveis compraram carnês do Baú da Felicidade.

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrevinhador
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