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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Os meus botões


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna

 No passado recente, o mundo se dividia entre capitalismo e comunismo, Estados Unidos e União Soviética, como consequência da divisão de áreas de influência territorial e política que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Como sabemos, a rendição do Japão, que precipitou o fim do conflito global, foi obtida pelo uso de bombas atômicas, um recurso extremo e definitivo.

A partir daí, esses dois lados, de tendências políticas divergentes, que se haviam aliado para ganhar a guerra contra forças realmente opostas, passaram a viver em permanente beligerância, cada qual latindo para o outro o tempo todo e ameaçando usar seu respectivo arsenal nuclear para ampliar e jamais perder um milímetro sequer do poder ou dos territórios divididos entre eles. Instalou-se, assim, a "guerra fria", feita de espionagem, infiltrações, manipulação, muitas ameaças e alguns quase-ataques. A vida no planeta estava em jogo, uma vez que as ogivas nucleares em poder de cada lado eram mais que suficientes para não deixar nenhuma florzinha ou passarinho de lembrança, caso os botões dos mísseis fossem acionados. Talvez baratas, bichos de idade contada em milhões de anos, sobreviventes de todas as catástrofes anteriores, segundo as piadas lúgubres que se contavam.

Mas um dia essa dureza toda afrouxou, os alemães derrubaram com as mãos o muro que simbolicamente dividia o mundo, um historiador decretou o fim da História e todo mundo prendeu a respiração, pra soltar em seguida, num anticlímax que, olhado à distância, teve o seu lado cômico, tão bem registrado no filme "Adeus, Lenin!". Alguns dinossauros perduraram e resistem, mais por teimosia e conveniência do que por convicção, e preservam seus países como parques temáticos, tristes disneilândias ideológicas.

Em termos históricos, tudo isso aconteceu de ontem pra hoje, e muita gente ainda tem dificuldade de perceber que o binarismo político virou pó de traque, a dicotomia de pensamento caducou de vez, o certo e o errado de viés religioso e ideológico se transformaram em peças de museu. Estão nos atrasando, e muito.

Ainda somos bem capazes de destruir a vida no planeta, minando-a na sua própria essência, quando destruímos os elementos essenciais para a sua manutenção e fazemos desaparecer a água, entupimos o mundo com motores movidos a combustíveis fósseis e lixo de todo tipo e desprezamos a urgência de dividir a comida de maneira que encha a barriga de todos os seres vivos todos os dias, entre outras tantas coisas. E, ironia das ironias, substituímos as disputas políticas por terrorismo de inspiração religiosa, como se andar para trás nos devolvesse as referências estáticas, que tanta falta fazem a quem não consegue perceber a beleza, a força imensa e a possibilidade de justiça embutidas no pluralismo e na diversidade, filhos mimados da liberdade.

Ultimamente, pouco se fala dos arsenais nucleares, mas isto não significa que tenham deixado de existir. Por enquanto, estão quietos, e nós continuamos aqui. Se formos espertos o suficiente e conseguirmos avançar, mais do que retroceder, poderemos ficar por muito mais tempo.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 
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