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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

sábado, 6 de abril de 2013

Otimistas, pensem bem (mais)


por Pedro Mox*

Algum tempo atrás, Mino Carta utilizou cena do filme Os Companheiros para titular sua coluna semanal: “Que país é este?”. Tomo emprestada a pergunta ao ver os comerciais de Itaú e Brahma, patrocinadores da seleção brasileira de futebol – ambos produzidos pela mesma agência.

O mote de um é “imagina a festa”, do outro “vamos jogar bola”. E eu penso, as preocupações do brasileiro hoje são tão pífias que devemos apenas relaxar e assistir o maior espetáculo do futebol em nosso quintal tomando uma gelada?

No um minuto do filme da cerveja, o expectador é levado a crer que todos os problemas nacionais serão resolvidos num passe de mágica, apenas porque somos brasileiros. Exibe um pôster com Ronaldo fenômeno à tio Sam e os dizeres pessimistas, pensem bem. Ou seja, toda e qualquer voz discordante é um pessimista, um cidadão que não valora seu país, quase um traidor da pátria.

Diz “temos os maiores clássicos”, o que é verdade. Um derby entre Palmeiras e Corinthians não perde em nada aos grandes jogos europeus. Entretanto, a violência aqui existente também não. O sociólogo Mauricio Murad, em seu livro Para Entender a Violência no Futebol – lançado ano passado – mostra que em 2012 aconteceram, até setembro, 17 mortes relacionadas a torcidas de futebol.

Enquanto na Inglaterra torcedores violentos são banidos, aqui nada acontece – aliado ao marasmo da justiça brasileira, nada impede quem se mete em confusão de estar semana seguinte na mesma atividade. Belo Horizonte tem sérios problemas com depredação de ônibus em dias de clássico, o que gerou até uma campanha, a gol contra, na tentativa de coibir estragos no patrimônio. Isso não deveria preocupar?

Parte da mídia tupiniquim, junto à confederação brasileira de futebol, quer fazer-nos parecer que nada na copa pode dar errado, que será um grande espetáculo, daremos inveja à Alemanha etc. Pior, qualquer tipo de questionamento é encarado como falta de patriotismo, quase motivo à pena de morte por deserção. O Brasil, contudo, não pode se preocupar em fazer a melhor copa da história, como quer a Brahma. Tem de fazer a sua copa, admitindo as limitações que temos e tentando melhorar o que for possível.

Nossa megalomania permite gastar fortunas na construção de estádios. Mas, e depois do mundial? Um estádio de futebol pode servir para muitos eventos, entretanto sempre será um estádio de futebol. Cidades como Manaus ou Cuiabá, cujos times ao final da temporada 2012 jogam apenas a terceira divisão, realmente necessitam de tais estruturas? Será que o Estádio Nacional, em Brasília, receberá o clássico câmara x senado?

Natal, que tem três times na primeira divisão estadual, já possui três estádios, mesmo assim está sendo erguida a Arena das Dunas. Em São Paulo, por birra da FIFA um novo estádio está sendo construído, quando uma reforma no Morumbi era plenamente plausível.

Reportagem publicada no portal Uol mostrou que a previsão de gastos com construção/reformas em estádios para o mundial subiu 992 milhões de reais: dos 5,912 bilhões de reais estimados em 2010 para 6,904 bilhões. Com um detalhe que agrava drasticamente tal cenário: 97% deste valor será bancado com dinheiro público. E ninguém garante que esta quantia não vai aumentar. Lembremos dos jogos Panamericanos realizados no Rio de Janeiro. Inicialmente fora orçado em 400 milhões de reais, mas no apagar das luzes sua conta foi bem mais salgada: passou dos 4 bilhões.

No livro Gol Contra, o jornalista inglês Andrew Jennings explica claramente como a FIFA realiza seus negócios – e sua conduta ética passa longe do louvável. Não é a toa que João Havelange presidiu a entidade por 24 anos, e Joseph Blatter reina desde 1998. Eleições recheadas de escândalos, acordos escusos, propina... Mas atenho-me à declaração de um executivo da Mastercard, à página 308 da obra, após um negociação sem muito fair-play por parte da football association: “(qualquer empresa) deveria ter sérias preocupações ao fazer negócios com a Fifa, onde a mentira, a fraude e a má-fé são o procedimento-padrão”.

O caos aéreo, que não é de hoje, também não apresenta muitas perspectivas de melhora. Absurdos como vôos cancelados e o passageiro que se arrume não são casos isolados. Nossos estádios – não no evento copa do mundo, mas hoje, jogos comuns para pessoas comuns – deixam a desejar em diversos aspectos. Dificuldades de acesso, filas quilométricas para entrar, falta de planejamento. Não seria o caso, por exemplo, dos trens funcionarem até mais tarde em dias de jogo no Engenhão?

Em junho próximo teremos a Copa das Confederações, evento teste para a Copa. Será uma boa oportunidade para ver, além de como está a seleção, como será o transporte dos torcedores, acomodações, organização nos estádios etc. Até lá, que Charles Miller nos ajude.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O avô da história

por fernanda pompeu*

A queixa é antiga. A base se esfola, carrega o piano, beira a exaustão. Na hora do crédito e de virar tinta impressa nos livros, a massa se evapora. Se perpetuam os cabeças, os líderes, os abastados, os poderosos.

Qual era o nome do cozinheiro que alimentou Pero Vaz de Caminha enquanto ele se divertia descrevendo o Brasil para o Rei de Portugal? Qual o nome do segurança do Zumbi de Palmares que evitou que o líder quilombola fosse capturado em várias ocasiões?

Na música, costuma-se dar crédito ao segundo violino. O cinema nacional credita inclusive os motoristas. Mas os compêndios de história e os poderes padecem de uma amnésia severa.

Grupos se reúnem, organizam fóruns, trabalham muitas vezes gratuitamente, queimam pestanas, gastam salivas, põem a cara para bater. Transformam a pequena iniciativa em uma política pública. Então lá chega o governo (de qualquer partido) e se apropria do feito.

Talvez esse hábito de ressaltar seis e esconder seiscentos seja até anterior aos portugueses - que a gente adora culpar pelo ruim em nós. Talvez tenha a ver com os caciques indígenas. Ou, diriam os céticos, seja inerente ao ser humano.

Mas será? O que vemos hoje na internet é um movimento de aparições. Uma tremenda atividade de comentar, completar, discordar. Usando uma imagem gasta - mas nem por isso fraca - parece um rio pulando do leito, tomando as margens.

Outro dia, escrevi uma crônica na qual eu citava que havia estudado no Instituto La-Fayette, no Rio. Essa escola ocupava um casarão que tinha sido uma das residências do Duque de Caxias.

Eu lamentava que o casarão tivesse vindo abaixo para dar lugar a um supermercado sem nenhuma personalidade arquitetônica. Pois um leitor comentou que não se importava. Ele contou que a casa do avô dele também tinha sido derrubada. E ninguém, além dele, havia protestado.

Isso me fez pensar que ele comparava o avô dele ao Duque de Caxias. O comentarista igualava em importância um anônimo ao general da guerra Paraguai-Brasil. Um casarão histórico à casinha do avozinho.

Porém o comentário desse leitorweb não saiu da minha cabeça. Ainda está dando voltas, indo do hemisfério esquerdo para o direito. Pergunto-me: Será que estamos na boquinha de ver surgir uma nova maneira de encarar os donos da história?

Seja o que for. Sinto um cheiro de chuva no ar. Um temporal redentor? Pois o mundo é como ele é. Mas é também como o pensamos. Toda lógica social é datada. Tudo que é datado tem prazo de validade.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.
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