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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 30 de novembro de 2013

Fácil publicar, difícil ser lido


por Fernanda Pompeu     Imagem: Régine Ferrandis

Um dos maravilhosos milagres da Nossa Senhora da Internet é possibilitar a expressão de uma multidão de escribas. Está quase todo mundo bordando palavras no Facebook, Twitter, blogs e congêneres.

A enorme vantagem de uma multidão de escribas é navegarmos na infinita leitura de pontos de vista, abordagens, opiniões. Veganos e carnívoros, devassos e evangélicos, anjos e demônios disputam olhos e atenção de leitores. Todos almejando aumentar o número de seguidores.

Mas também é fato que a redação interneteira tem seus tropeços. Às vezes, quer subir a ladeira e despenca. Outras, quer amanhecer, mas entardece. Há muita produção ruim. Talvez a facilidade espantosa de postar ideias e comentários nos leve ao afrouxamento de algumas regras básicas da comunicação.

As cinco perguntinhas O que? Quem? Como? Onde? Por quê? sumiram da maioria dos textos. Alguém nos chama para um evento, mas não diz onde é. Conta o final da história, mas omite o começo. Ou mesmo escreve o começo e fica com preguiça de desenvolver a continuação.

Ou seja, o leitor acaba órfão. Vira alguém convidado a atravessar uma avenida com os olhos vendados. Ora, quem quer isso? O leitor então foge. Vai procurar outro texto que o acolha e, principalmente, que produza sentido. Somos seres loucos por encontrar sentidos.

Não importa se a comunicação é impressa ou digital, a mensagem tem que cumprir seu ciclo de vida, tem que entregar um sentido. Ela sai da cabeça de alguém, materializa-se em frases, chega na cabeça de outro alguém. Operação simples e complexa ao mesmo tempo.

Daí quando você for escrever - de um curto parágrafo a um longo romance - lembre-se que sua matéria-prima é a língua. No nosso caso, o português-brasileiro. O idioma é a plataforma de lançamento dos foguetes levando nossas ideias, opiniões, interpretações do mundo.

Quanto mais íntimos ficarem língua e escriba, melhor será a expressão. Pois, no fundo, escrever é tirar as palavras para dançar. É levá-las para o meio do salão e fazê-las sonhar. Só assim o leitor sentirá ciúmes delas e nos seguirá.


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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto Publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Luta de classe


por Ricardo Sangiovanni*

 Escrevo hoje em solidariedade ao colega Antonio Prata, solitário cronista mundano de um jornal a serviço do Brasil.

Prata foi pai recentemente e, a tirar por suas últimas crônicas, luta, entre banhos e talcos, mamadas e choradeiras e mais a diaba da babá eletrônica, para manter preenchido o espaço dominical que o periódico lhe reserva.

Nunca fui pai, mas imagino o quanto deve ser difícil ser cronista de jornal nessa circunstância. Vejam o caso de Prata: há duas semanas, gastou sua crônica-estepe, uma que tinha de gaveta para o caso de qualquer eventualidade. Semana passada, não tinha cérebro para escrever coisa com coisa, mas mesmo assim, brioso e profissional, entregou ao leitorado um punhado de anotações sobre a rotina de pai recém-parido, as quais a mim ao menos inspiraram mais pena do que graça: deixe essas besteiras de lado e vá descansar, homem, ou cuidar de sua menina em paz, que o leitorado sobrevive sem você. Nesta semana voltou em boa forma, é verdade – mas, enquanto a bebê for pequena, sabe-se lá o que será das semanas que virão.

Então o Prata – goste-se mais, goste-se menos das coisas que ele escreve – o Prata é merecedor, neste momento, de todo o apoio de nossa classe, classe em vias de extinção que é essa nossa dos cronistas.

Porque o cronista de jornal, mundano, aquele contratado para encher umas tripas semanais ou diárias de miudezas e reflexões sem especialidade, historicamente, ou é um aristocrata ou burguês-rico que não escreve para ganhar o de comer, ou é um plebeu enganado, um tolo que achou de aceitar, em troca da suposta liberdade de dizer o que quer sobre qualquer coisa, o atroz compromisso de viver para contar.

Aceitou, por heroísmo ou vaidade, pertencer a essa estirpe rara de jornalista que pode escrever “eu”, como dizia Drummond. Mas isso aí logo passa, e sobra a vil obrigação de sentar-se à frente do computador ou pegar do lápis para escrever qualquer coisa, a ser publicada sempre naquele mesmo santo dia, em troca daquele vintém que, quando dá por si, o camarada já não pode mais dispensar. Quando passa a ter que sustentar família, aí é que lascou-se tudo mesmo.

Não me deixa mentir o velho Rubem Braga, que tantas vezes escreveu a crônica só pela obrigação de ter que redigir qualquer bobagem, quando o certo era estar na roça, chupando caju ou caçando paca. E mais, estão aí de prova os grandes que já se enfiaram nessa maluquice que é a crônica para jornal: Machado, Bilac, García Márquez, todos enfim uma vezinha pelo menos já abominaram a obrigação de ter que escrever aquela maçada quando, na verdade, o certo era terem ficado calados, porque afinal lhes faltasse coisa que prestasse a dizer. Vá lá: não fosse pela obrigação, talvez não houvesse Braga, nem Drummond, Bilac, Machado, Márquez e muitas de suas crônicas maravilhosas. Mas talvez eles tivessem tido mais momentos livres, de descanso, ou apenas simplesmente mais momentos vagabundos na vida – e quem, leitor ou patrão, tem real direito a negar-lhes isso?

De sorte que nós do presente, nós jovens cronistas destes anos dous mil e poucos, nos solidarizamos ao colega Antonio Prata, e em seu nome requeremos a si uns bons meses de folga sem prejuízo de seus vencimentos, a fim de que possa dedicar-se à sua bebê em paz, sem ter que pensar em diabo de crônica nenhuma. Nós intercedemos por você, ó Prata, nós jovens cronistas mundanos de hoje, que em nossa imensa maioria não recebemos um centavo pelo que escrevemos de bom nem de ruim, mas que, talvez por isso mesmo, sejamos um dedinho mais livres, não só para cronicar sobre o que nos der na veneta, mas sobretudo para deixar nosso espaço em branco quando a vida se nos afigura dura, incompreensível ou apenas mais necessária do que a escrita. Nós cronistas, colega Prata, que, como você, iremos todos no final das contas parar na mesma vala comum, que é a lata do lixo ou o esquecimento, ou (dá na mesma) n’algum livrinho para o limbo dos anais que um dia – não é certo – alguém no futuro distante terá interesse em etnografar, para mostrar como se usava pensar nesta nossa epoquinha absurda e remota.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Que eu sou eu?

por Fernanda Pompeu*

Leitores consolidados sabem que o autor é diferente do narrador. Essa maravilha permite que uma escritora use a primeira pessoa de um personagem masculino e um poeta fale em nome de um eu feminino. Para ficar num exemplo doméstico, Chico Buarque se "fez" de mulher em Tatuagem, Atrás da Porta, Olhos nos Olhos.

Quando uso o eu - em poema ou prosa - não é necessariamente a Fernanda Andrade Pompeu, nascida no Rio de Janeiro, moradora de Sampa. O eu que escrevo pode ser a dona Laurinda que fumava cachimbo e passava as anáguas da minha avó. Pode ser meu pai com vinte anos ao fazer sua carteirinha no PCB.

Quem é leitor de boa data dirá: isso é óbvio! Mas esse óbvio não é tão cristalino para os novos leitores - particularmente os jovens que xeretam histórias em blogs. Observo pelos comentários postados que a maioria acredita que autora e narradora são uma única persona.

Talvez o Facebook e o Twitter contribuam para essa confusão. Uma vez que nas redes sociais a escrita é sempre em primeira pessoa, acompanhada de uma fotinho de cada eu. Curto, comento, compartilho, escrevo. Isso cria a ilusão de que o eu que escreve é o ego.

Longe de mim dizer que as pessoas usam a primeira pessoa para contar mentiras. Elas recorrem ao eu para contar uma parte da verdade. Ou a verdade daquele momento. Pois o eu é entidade líquida, mutante. É de um jeito às oito da manhã, de outro às treze horas.

O eu que escrevemos é um eu linguagem. Eu que mostra e que esconde. Que lembra e inventa. Que esquece. Um eu tentando editar a vida. Por que não? um eu louco para consertar o que sai errado. Um eu Pinóquio.

Qual eu - da galeria dos meus - escreve essa notinha? O eu bom? O eu ruim? O eu inteligente? O eu burro? O eu feminino? O eu masculino? O mascarado, ou sem máscara? Mais sincero dizer: o eu múltiplo. Meio fictício, meio realidade. Eu escrevinhadora.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O avô da história

por fernanda pompeu*

A queixa é antiga. A base se esfola, carrega o piano, beira a exaustão. Na hora do crédito e de virar tinta impressa nos livros, a massa se evapora. Se perpetuam os cabeças, os líderes, os abastados, os poderosos.

Qual era o nome do cozinheiro que alimentou Pero Vaz de Caminha enquanto ele se divertia descrevendo o Brasil para o Rei de Portugal? Qual o nome do segurança do Zumbi de Palmares que evitou que o líder quilombola fosse capturado em várias ocasiões?

Na música, costuma-se dar crédito ao segundo violino. O cinema nacional credita inclusive os motoristas. Mas os compêndios de história e os poderes padecem de uma amnésia severa.

Grupos se reúnem, organizam fóruns, trabalham muitas vezes gratuitamente, queimam pestanas, gastam salivas, põem a cara para bater. Transformam a pequena iniciativa em uma política pública. Então lá chega o governo (de qualquer partido) e se apropria do feito.

Talvez esse hábito de ressaltar seis e esconder seiscentos seja até anterior aos portugueses - que a gente adora culpar pelo ruim em nós. Talvez tenha a ver com os caciques indígenas. Ou, diriam os céticos, seja inerente ao ser humano.

Mas será? O que vemos hoje na internet é um movimento de aparições. Uma tremenda atividade de comentar, completar, discordar. Usando uma imagem gasta - mas nem por isso fraca - parece um rio pulando do leito, tomando as margens.

Outro dia, escrevi uma crônica na qual eu citava que havia estudado no Instituto La-Fayette, no Rio. Essa escola ocupava um casarão que tinha sido uma das residências do Duque de Caxias.

Eu lamentava que o casarão tivesse vindo abaixo para dar lugar a um supermercado sem nenhuma personalidade arquitetônica. Pois um leitor comentou que não se importava. Ele contou que a casa do avô dele também tinha sido derrubada. E ninguém, além dele, havia protestado.

Isso me fez pensar que ele comparava o avô dele ao Duque de Caxias. O comentarista igualava em importância um anônimo ao general da guerra Paraguai-Brasil. Um casarão histórico à casinha do avozinho.

Porém o comentário desse leitorweb não saiu da minha cabeça. Ainda está dando voltas, indo do hemisfério esquerdo para o direito. Pergunto-me: Será que estamos na boquinha de ver surgir uma nova maneira de encarar os donos da história?

Seja o que for. Sinto um cheiro de chuva no ar. Um temporal redentor? Pois o mundo é como ele é. Mas é também como o pensamos. Toda lógica social é datada. Tudo que é datado tem prazo de validade.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.
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