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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Luta de classe


por Ricardo Sangiovanni*

 Escrevo hoje em solidariedade ao colega Antonio Prata, solitário cronista mundano de um jornal a serviço do Brasil.

Prata foi pai recentemente e, a tirar por suas últimas crônicas, luta, entre banhos e talcos, mamadas e choradeiras e mais a diaba da babá eletrônica, para manter preenchido o espaço dominical que o periódico lhe reserva.

Nunca fui pai, mas imagino o quanto deve ser difícil ser cronista de jornal nessa circunstância. Vejam o caso de Prata: há duas semanas, gastou sua crônica-estepe, uma que tinha de gaveta para o caso de qualquer eventualidade. Semana passada, não tinha cérebro para escrever coisa com coisa, mas mesmo assim, brioso e profissional, entregou ao leitorado um punhado de anotações sobre a rotina de pai recém-parido, as quais a mim ao menos inspiraram mais pena do que graça: deixe essas besteiras de lado e vá descansar, homem, ou cuidar de sua menina em paz, que o leitorado sobrevive sem você. Nesta semana voltou em boa forma, é verdade – mas, enquanto a bebê for pequena, sabe-se lá o que será das semanas que virão.

Então o Prata – goste-se mais, goste-se menos das coisas que ele escreve – o Prata é merecedor, neste momento, de todo o apoio de nossa classe, classe em vias de extinção que é essa nossa dos cronistas.

Porque o cronista de jornal, mundano, aquele contratado para encher umas tripas semanais ou diárias de miudezas e reflexões sem especialidade, historicamente, ou é um aristocrata ou burguês-rico que não escreve para ganhar o de comer, ou é um plebeu enganado, um tolo que achou de aceitar, em troca da suposta liberdade de dizer o que quer sobre qualquer coisa, o atroz compromisso de viver para contar.

Aceitou, por heroísmo ou vaidade, pertencer a essa estirpe rara de jornalista que pode escrever “eu”, como dizia Drummond. Mas isso aí logo passa, e sobra a vil obrigação de sentar-se à frente do computador ou pegar do lápis para escrever qualquer coisa, a ser publicada sempre naquele mesmo santo dia, em troca daquele vintém que, quando dá por si, o camarada já não pode mais dispensar. Quando passa a ter que sustentar família, aí é que lascou-se tudo mesmo.

Não me deixa mentir o velho Rubem Braga, que tantas vezes escreveu a crônica só pela obrigação de ter que redigir qualquer bobagem, quando o certo era estar na roça, chupando caju ou caçando paca. E mais, estão aí de prova os grandes que já se enfiaram nessa maluquice que é a crônica para jornal: Machado, Bilac, García Márquez, todos enfim uma vezinha pelo menos já abominaram a obrigação de ter que escrever aquela maçada quando, na verdade, o certo era terem ficado calados, porque afinal lhes faltasse coisa que prestasse a dizer. Vá lá: não fosse pela obrigação, talvez não houvesse Braga, nem Drummond, Bilac, Machado, Márquez e muitas de suas crônicas maravilhosas. Mas talvez eles tivessem tido mais momentos livres, de descanso, ou apenas simplesmente mais momentos vagabundos na vida – e quem, leitor ou patrão, tem real direito a negar-lhes isso?

De sorte que nós do presente, nós jovens cronistas destes anos dous mil e poucos, nos solidarizamos ao colega Antonio Prata, e em seu nome requeremos a si uns bons meses de folga sem prejuízo de seus vencimentos, a fim de que possa dedicar-se à sua bebê em paz, sem ter que pensar em diabo de crônica nenhuma. Nós intercedemos por você, ó Prata, nós jovens cronistas mundanos de hoje, que em nossa imensa maioria não recebemos um centavo pelo que escrevemos de bom nem de ruim, mas que, talvez por isso mesmo, sejamos um dedinho mais livres, não só para cronicar sobre o que nos der na veneta, mas sobretudo para deixar nosso espaço em branco quando a vida se nos afigura dura, incompreensível ou apenas mais necessária do que a escrita. Nós cronistas, colega Prata, que, como você, iremos todos no final das contas parar na mesma vala comum, que é a lata do lixo ou o esquecimento, ou (dá na mesma) n’algum livrinho para o limbo dos anais que um dia – não é certo – alguém no futuro distante terá interesse em etnografar, para mostrar como se usava pensar nesta nossa epoquinha absurda e remota.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O pijama de Antônio

por Ricardo Sangiovanni*

Queria fazer aqui uma denúncia ao pessoal das centrais sindicais: quinta-feira passada, dia da manifestação, Antônio, um dos dois Antônios que é porteiro aqui no prédio onde alugo este apartamento, veio trabalhar normal, não se abalou nem nada de ir para a rua protestar.

Mas trabalhando – disso fiquem sabendo vocês, pessoal das centrais – Antônio protesta mais, bem mais do que se parasse um dia só para se manifestar.

Antônio pega no serviço todo dia às dezoito da tarde, para largar só às seis do dia seguinte. (Por sinal, doze horas, pessoal das centrais sindicais: cadê vocês? Enfim, deixa quieto, que não é sobre isso a crônica.)

Se o morador daqui chega em casa cedo, até umas vinte, vinte-e-uma da noite, capaz que ainda pegue Antônio todo empertigado, de sapato lustrado, calça social, camisa de botão com o nome do condomínio bordado, de cinto e tudo, luxando numa fineza danada.

Mas passou desse horário, é batata: lá vai Antônio abrir o portão arrastando pendurado no pé seu borrachudíssimo chinelo (também, não tem pé que aguente aquele tijolo de sapato), já vestido com sua calça preta moleton (a mais velhinha que a pessoa tem, a do elástico folgado, sabe?), mais o usual blusão vermelho, puído mas de estimação – de manga comprida, é claro (porque de noite bate um ventinho, aquilo esfria os ossos que só vendo).

E assim, todo dia, Antônio se manifesta: imprime um pijâmico ritmo a uma parte de seu trabalho inglório, que é levantar-se da cadeira toda santa vez que chega alguém na porta, a pé ou de carro – aliás, a esse propósito, amigos, creiam: moro num prédio 1) de cujos portões nenhum morador possui a chave, dependemos todos do porteiro; e 2) no qual se arranja muito dinheiro para reformar as pastilhas da fachada, e nenhum para instalar um bendito de um portão automático para facilitar a vida ao trabalhador da portaria. (A síndica a esta altura estará pegando da caneta para escrever-me uma carta, lembrando-me de que o condomínio recentemente fez uma benesse aos porteiros, comprou-lhes uma televisão nova, grandona, inquirindo que isso eu não boto na crônica. Pois boto, dona síndica, e digo mais: arranja-se muito dinheiro para comprar televisão, e nenhum para instalar um bendito de um portão automá…)

E tem mais, pessoal das centrais sindicais: não é só Antônio não, viu? É todo mundo, no Brasil todo mundo é cedo ou tarde obrigado a dar um galho no trabalho, porque aqui pelo trabalho paga-se uma miséria, dá-se uns benefícios indignos do nome, e cobra-se em troca o couro do cidadão. Essa Bahia onde vivo é talvez a prova maior de que o ato, a noção mesma de trabalho, no Brasil, já leva em si, incorporada, um quê imenso e diário de protesto.

O brasileiro trabalhador já está se manifestando, pessoal das centrais sindicais, desde que se inventou o trabalho neste país. E está desde sempre acordado, pessoal das centrais sindicais. De pijama, que seja, mas muito bem acordado obrigado.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 7 de abril de 2013

Pilates do Brasil


por Ricardo Sangiovanni*

Fernanda despendurou-se debaixo do sol quente para a aula experimental – aquela primeira grátis – do Pilates. Que hoje ela volta cheia de dor pelo corpo, apostei; voltou foi com dor de cabeça.

Quem dera fosse só o sol: é que desabara-lhe sobre a moleira uma tarde inteirinha de pedradas sobre a nova (a tardia) lei que reconhece plenos direitos trabalhistas às empregadas domésticas no Brasil. Arte das coleguinhas de academia: meia dúzia de dondocas esguias, que aproveitavam o convescote vespertino – oh sucedâneo do chá-das-cinco – para matraquear sobre o que seria agora da vida, oh deus, após a lei temerária.

“Elas já são péssimas: comem horrores, roubam, quebram tudo”, rasgou uma das meninas, feito dissertasse sobre uma espécie de homo sub sapiens a quem agora acharam de dar direitos. “Certeza que vão fazer corpo mole, minha filha, só para ganhar hora extra. Pode escrever.”

Outra ajuntou: “Já tive uma – e dizia como recordasse uma velha mula – que inventou de fazer dieta. Gastava um dinheiro danado só de salada pra ela. Vê se pode…”

“Ah, menina, pior é a minha, que é diabética. Tenho que comprar Molico para dar a ela, vocês acreditam?”, alardeou uma terceira coleguinha, para pasmo geral.

No tocante às babás para os pimpolhos pequenos, unanimidade: com essas não se deve ralhar jamais, porque “é reclamar, que no outro dia elas vão e descontam no filho da gente”. A tática é tratá-las com sorrisinho para cá, bombonzinho para lá e, ao primeiro vacilo, demita-se: melhor cortar o mal pela raiz. “Mas, e agora, como é que vai ficar com esse negócio de aviso prévio?” Silêncio. Vivem-se dias de verdadeira incerteza.

Adoraria prosseguir, caro leitor, bisbilhotando as preocupações com o futuro dessas mulheres distintas. Mas não, porque não fui eu, foi Fernanda quem presenciou a cena; não pude escolher meus detalhes. Ademais, seria desmoralizante para o cronista semanal encher o espaço inteiro da crônica com uma história que não se lhe tenha dado à vista – ainda que ele, evidentemente, muito confie nos olhos e ouvidos de sua amada.

***

Ágil então, sem perder o fio da meada, devo pensar em algo interessante que dizer a vocês sobre essa grita toda em torno da bendita lei.

De saída: discutir sobre essa história de que família não é empresa, não dá lucro, então não tem que pagar direitos trabalhistas integrais, vocês me desculpem, mas aí me recuso.

Poderia, pretendendo ser persuasivo, dizer que na Europa, há já uns bons pares de décadas, ninguém mais lava os panos de bunda de ninguém – senão, evidentemente, em troca de gordíssima paga. A quem prefere por parâmetro os Estados Unidos, daria liga invocar a legião de sertanejos que já fez a vida – comprou casa ajardinada, carrão do ano, passagem para Disneylândia e muito frango frito com bacon e pasta de amendoim para os filhotes parrudos – lavando privada na América.

Ou quem sabe devesse empreender um sermão mais agressivo, e então exortar cada qual a tomar vergonha na cara e passar de uma vez a buscar o próprio copo d’água, a varrer o chão em que pisa, a cozinhar ou comprar congelada a comida que come. A lavar as próprias cuecas, arear panelas e esfregar lodinhos de ralo, passar a escovinha na privada para tirar o grude. Para não falar em arranjar um diabo de tempo na vida para cuidar dos próprios filhos. E, com sorte, a aprender a extrair disso tudo genuíno prazer (quando nada alguma dignidade) por não ter que delegar a ninguém, a troco de uma miséria, os desconfortos da existência.

Mas novamente me esquivo – o amigo leitor perdoará – de escrever coisas assim. Nem tanto pela falta de originalidade, mas porque é sobremaneira humilhante para o cidadão que batalhou, leu o quanto pôde, estudou a vida inteira para forjar-se um cronista semanal tolerável, flagrar a si mesmo esvaindo-se em lições de moral a seus leitores, essa gente criada, adulta, esclarecida.

Qual nada: sou só um cronista semanal, não tenho obrigação nenhuma de pensar em nada por ninguém, tampouco de nada afirmar. Vou mais é me limitar, só para completar a crônica, à velha artimanha da justaposição de semelhanças. Cai bem, dá menos trabalho e, de quebra, evito que me acusem de simplório, de moralista.

***

E então recordo-lhes certo 1888, quando anunciou-se certa lei que aboliria a partir de 13 de Maio certa escravidão em certo país por vossas mercês sabido. Viviam-se – bem mais que esses nossos, ma non troppo – dias de verdadeira incerteza.

Previa-se o caos. Dizia-se que abolir a escravidão representaria prejuízo sem precedentes para as finanças nacionais.

E foi um tal de senhor libertando escravo semanas antes da entrada em vigor da lei, para posar de benfeitor, inspirar gratidão. Um tal de senhor prometendo que ia sim “conceder” a liberdade… mas só no Natal. Para não falar naqueles que, desesperados, amarraram os recém-ex-escravos de volta no tronco e desceram-lhe a ripa, tentando desesperadamente preservar sua condição senhorial.

Preservar a condição senhorial: eis o fundamento de todos os medos. Um jornal até escreveu assim: “Risque-se dos dicionários e nunca mais se profira a palavra escravo. Conserve-se a palavra senhor, porque exprime um tratamento decente que se dá ao cidadão…” Questionava-se o absurdo: será que de fato “a extinção do elemento servil realmente significava que cabia a todos o pleno exercício da liberdade”? As elites estavam empenhadas em “fazer transbordar para a sociedade pós-abolição as regras sociais do mundo escravista”.

E assim quis-se, em nosso Brasil brasileiro, o impossível: extinguir o escravo sem extinguir o senhor. “Corria-se o risco de ver riscada da gramática das relações sociais, junto com a palavra escravo, a condição senhorial dos homens brancos, construída por séculos com tanta eficiência. (…) A certeza de que o mundo social não podia mais ser definido pela oposição entre senhores e escravos comprometia vínculos pessoais e referências de autoridade – não só relações de trabalho.” Quem conta é a historiadora Wlamyra Albuquerque, em seu ótimo “O Jogo da Dissimulação”.

Haverá quem diga que isso tudo é passado, que hoje os tempos são outros, que o Brasil mudou. Pois: estão aí os dados, cada um sabe de si, que pense como bem quiser. Eu, na condição de cronista semanal, só lhes posso assegurar uma coisa: àquele Pilates, Fernanda não volta mais.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Imagem de abre da agência GettyImages
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