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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de julho de 2015

Família Feliz

por Fernando Evangelista*

Saí do elevador, percorri o corredor mal iluminado e no instante em que toquei a campainha, li a plaqueta pendurada na porta do apartamento: “aqui vive uma família feliz”. 

Quase como um pressentimento, pensei em inventar uma desculpa, dar o fora e cancelar o jantar. Mas seria indelicado da minha parte e, além do mais, eu estava curioso. O casal feliz havia anunciado, por telefone e por e-mail, uma “grande novidade” e eu seria o primeiro a saber.  

A anfitriã me recebeu com um sorriso largo, contrastando com as olheiras fundas e o semblante cansado. Ouvi o marido gritar da cozinha um seja bem-vindo de megafone. Abraços daqui e dali, Caetano na vitrola, vinho em cima da mesa, cheirinho de tempero, clima gostoso. 

Os dois se conheceram na graduação, se casaram, tiveram dois filhos, os filhos já estavam crescidos e cursando a universidade. “Passa tão rápido”, murmurei, enquanto observava as fotos da família nos porta-retratos da sala. E pensei na plaquinha da entrada e na minha má vontade com essas afirmações de felicidade. Afirmações ou ostentações?  

“Felicidade”, dizia minha vó, “é uma sensação circunstancial e não deve ser usada para humilhar os outros”. Vó Rosa viveu 101 anos e acreditava nas alegrias degustadas em silêncio e com humildade. Para ela, “alegria em voz alta só no carnaval e nas partidas de futebol”, coisas, aliás, das quais nunca gostou. 

Há, porém, por toda parte, dentro e fora das redes sociais, um mundaréu de felizes fanáticos, seres barulhentos que gostam de exibir, a toda hora e a qualquer passo, suas magníficas vidas de propaganda de margarina. Vidas sem problemas nem angústias. 

Além de colocar plaquinhas na porta, notas nos jornais, fotos nas revistas e posts no facebook, esse pessoal gosta de decorar o carro com mensagens e confissões edificantes. Já vi um assim: “Sou feliz porque sou católico”. 

– Afinal, qual é a novidade? – eu perguntei, voltando a minha atenção ao jantar, enquanto minha amiga me servia o ravióli de mussarela com manjericão.    
       
– Decidimos dar um basta – ela disse. 

E me perguntou se eu lembrava a frase de Benjamin Disraeli que repetíamos na época de faculdade.

Frase? Não, eu não lembrava. Pedi, educadamente, que eles parassem de enrolar e contassem de uma vez a grande novidade. 

A novidade começa com uma tia solteirona, que vivia sozinha em Ribeirão Preto (não lembro se tia dela ou dele), e que bateu as botas, foi desta para uma melhor, descansou. E, além de descansar, deixou uma herança para o casal. “Nenhuma fortuna”, explicou o marido, “mas nada desprezível”. 

Chegara no momento certo, a herança. Ambos estavam de saco cheio da rotina e dos empregos, da cidade violenta e engarrafada, com discussões domésticas acumulando mágoas e desgastando a relação. 

– Vamos pegar esse dinheiro inesperado – ela contou – vender os dois carros, vender o apartamento e curtir a vida.  

– Sério? E vão fazer o quê? – perguntei, pensando outra vez na plaquinha da porta de entrada.

– Talvez a gente compre um barco e veleje por aí.  

Dois anos se passaram. 

Nessa última quinta-feira, fria e chuvosa aqui no Rio Tavares, recebi uma carta deles e algumas fotos das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Fiquei impressionado, em primeiro lugar, por descobrir que as Ilhas Seychelles realmente existem e, em segundo, por ver aqueles dois numa boa. Pareciam, talvez sem querer parecer, felizes de verdade.  

Com letra bem desenhada, no cantinho esquerdo da carta, na vertical, estava a frase que repetíamos no tempo de faculdade e que eu não lembrei naquela noite: “a vida é muito curta para ser pequena”.  

No dia seguinte, com olheiras profundas e sem heranças, sem carro e sem um imóvel próprio, acordei cedo e fui ao centro. Comprei uma plaquinha de madeira, em estilo de guirlanda de natal – absolutamente horrível – com os dizeres: “Aqui vive uma família feliz”. E preguei na porta de entrada da minha casa. Talvez funcione para alguma coisa, nem que seja para irritar os outros. 

* * * * * *


Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

terça-feira, 7 de julho de 2015

Delito e mistério no colégio católico


por Fernando Evangelista*

Numa quinta-feira de setembro de 1988, repetindo uma rotina de anos, o zelador do colégio abriu a porta da recepção, olhou o relógio de parede, conferiu com o seu relógio de pulso e suspirou satisfeito – estavam sincronizados: eram seis e meia da manhã. Em seguida, arrastou as cortinas para que entrasse um pouco de luz, ajeitou o tapete vermelho da entrada, estranhamente enrugado, organizou lado a lado as caixinhas de chá inglês, colocou um por um dos biscoitos Exupéry dentro de um recipiente de vidro, fez café, deixou a garrafa sobre a mesinha lateral e, quando ia ligar a iluminação do aquário, sentiu um calafrio: os peixes haviam sumido.

Símbolo não oficial da instituição, metáfora do ensino que se pretendia exemplar, o aquário com dezenas de peixes coloridos, alguns enormes, todos meio obesos, era o xodó da Madre Superiora. Além de superiora, a Madre era uma diretora linha dura, temida pelos professores, funcionários e alunos. Cochichava-se pelos corredores que até os bispos morriam de medo dela.  

A maioria dos habitantes do aquário tinha vindo do exterior, com exemplares importados do Vietnã, do Nepal e de outros lugares desconhecidos. Alguns chamavam atenção pelas cores brilhantes, especialmente o Chileno Dourado e o Yellow Tang.  O zelador coçou a cabeça, pressentindo tempestades, e concluiu que alguém surrupiara os 30 peixes de estimação da Madre. Mas quem faria isso?

Para piorar, três peixinhos foram encontrados mortos na calçada, quase em frente à porta da recepção. As vítimas eram o Chileno Dourado e as raridades asiáticas.

Foi um pandemônio. Pais foram chamados, aulas canceladas, cartas anônimas, com fofocas e intrigas, se multiplicaram. O fato se espalhou pelas ruas e ganhou destaque exagerado nas colunas sociais. Montou-se um intricado esquema de investigação, com interrogatórios constrangedores, ameaças de castigo, ameaças de expulsão, detonando uma boataria em série capaz de surpreender empreiteiros e cardeais. Os bagunceiros como eu, suspeitos de sempre, trataram de arranjar um álibi e algum apoio familiar.  

Quatro estudantes exemplares, nas notas e em comportamento, foram convocados para ajudar na investigação. Michel, meu amigo e vizinho, estava entre eles. Na manhã seguinte ao sumiço dos peixes, no palco do ginásio, acompanhada destes quatro alunos, a Madre proferiu um discurso que deixou todos, inocentes e culpados, cheios de apreensão e medo. Duas coisas que ela falou eu jamais esqueci:  

– Quem oferecer informações sobre esse ato de vandalismo, ato que desafiou e debochou de 100 anos de tradição, será recompensado.

Talvez sem saber, ela tenha inaugurado a delação premiada no Brasil. A frase final do discurso me marcou ainda mais:

– Por bem ou por mal, – disse a Madre, retorcendo os lábios, tentando controlar a fúria, – vou descobrir quem fez isso, porque eu conheço o mundo e as pessoas.

        “O mundo e as pessoas”, eu repetia mentalmente.

Nunca ninguém foi punido. O fato entrou para a história da instituição centenária e, até semana passada, o delito não havia sido esclarecido.

Mas alguns segredos não nasceram para a eternidade e aí neste último sábado, houve um encontro de ex-alunos num clube da cidade. Houve muita bebida, bebidas em excesso. E lá pelas tantas, houve também uma confissão.

Fui até a cabeceira da mesa, tirei de lá meu querido amigo Michel, sentei, peguei uma faca e bati no copo, pedindo silêncio. E então, para surpresa geral, revelei:

– Fomos nós, Michel e eu, que roubamos os peixes do aquário.

Fez-se um silêncio de perplexidade, daqueles que acompanham as revelações inesperadas. Mas depois foi um barulhão de vozes, com as pessoas perguntando ao mesmo tempo as mesmas coisas. Michel limitou-se a dizer: “Já era hora de contar. ”

Contei tudo. Ainda no começo daquele semestre, março de 1988, sem um objetivo definido, nós dois afanamos a chave da porta principal do colégio, que dava acesso à recepção, onde o aquário era exibido. Fizemos uma cópia naquele mesmo dia e devolvemos a original para que ninguém sentisse falta.

Mas o que fazer com a chave? Foi Michel, aluno acima de qualquer suspeita, quem teve a ideia de roubar os peixes e, se não falha a memória, o plano nasceu durante uma aula de Educação Moral e Cívica.

Lembrei-me de um aquário desativado na casa de minha Vó, que na época morava sozinha. Conversei com ela semanas antes da gatunagem.

– Vó, ganhei numa rifa 30 peixes e preciso de um lugar pra eles.

– Que rifa mais esquisita – ela disse, mas se prontificou a reativar o aquário e a acolher os novos hóspedes.

Por acaso, ouvindo uma conversa entre professores no corredor, descobri que seu Romero, o vigia noturno, estava com sarampo e não iria trabalhar. Aproveitamos a chance.

 Michel e eu carregamos um isopor cheio de água, pesadíssimo, para depositar os peixes. Da chegada à fuga, esse isopor foi a nossa cruz. Por causa do peso, na saída do colégio, despejamos um pouco de água no meio-fio e não nos demos conta, devido à escuridão e à adrenalina, de que os peixes asiáticos e o Chileno Dourado haviam mergulhado de cabeça na sarjeta.

Os anos se passaram, o colégio perdeu alunos e o ranço autoritário, eu perdi cabelo e outras coisas, Michel também perdeu cabelo, mas ganhou um bocado de dinheiro, trabalhando com informática e sistemas de vigilância. Nenhum de nós dois, apesar do episódio, enveredou pelos caminhos do crime.

Os peixes se adaptaram bem ao novo habitat e tiveram uma vida longa e saudável. Seria de bom tom dizer que, por todos estes anos, carreguei a culpa pela rapina. Mas não seria verdade porque, no fundo, eu me sentia orgulhoso e importante, tal qual um Ronald Biggs, por ter “desafiado 100 anos de tradição”. A única coisa a me pesar a consciência foi a morte daqueles três peixinhos que, do berço à cova, viveram sempre em mundinhos apertados.  

 Minha vó – e esta era a única certeza que eu tinha – nunca suspeitou de nada. Porém, alguns meses antes dela falecer, numa festa de família, com 101 anos, lúcida e dinâmica, olhando-me nos olhos, rindo da minha ingenuidade, e celebrando ela também um segredo de tantas décadas, contou:

– Fernando, escuta só, eu sempre soube a verdade sobre os peixes do aquário.

E riu discretamente, como aquele jeito de quem realmente conhecia bem o mundo e as pessoas.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma morena e um acaso


por Fernando Evangelista*

No colégio-católico-apostólico, o professor de redação, culto e sisudo como um lorde inglês, disserta sobre enredos, personagens e elipses. É uma segunda-feira de ventania, raios e trovões. Há algo de cinematográfico nessas tempestades.

Apesar do dilúvio, a aula prossegue sem grandes imprevistos ou complicações. E então a porta se abre: “Professor, desculpe interromper” – diz uma voz feminina, “eu gostaria de fazer uma pergunta para a turma. Posso?”

É a professora de artes, recém-contratada. Bonita e misteriosa, vestindo sempre roupas leves e esvoaçantes, mesmo em dias frios, ela seria descrita pelo meu tataravô Córis, corsário poliglota, como um “pezzo di gnocca”.

- Alguém perdeu alguma coisa? – pergunta a mulher.

A turma faz cara de ponto de interrogação, como quem diz sem dizer: do que você está falando? Perdeu o quê? Onde? Quando? A princípio, ninguém sente falta de nada e a morena vai embora.

A morena vai, mas a pergunta fica. Prevendo que o falatório acabaria em desordem, o professor desafia os alunos a escreverem um texto curto, respondendo à pergunta: O que você perdeu?

Isso aconteceu em 17 de agosto de 1987.

Eu era um dos alunos e cursava o ensino fundamental. Lembro-me do fato e do dia porque guardei o texto e, principalmente, por causa de uma coincidência estranha. Transcrevo a composição com alguns retoques de estilo e com as vírgulas nos seus devidos lugares:

Perdi muita coisa na vida. Perdi um rolimã, várias pipas, um álbum de figurinha da seleção brasileira de 1982, dois jogos do Atari, uma mochila de escoteiro, a chave de um baú, que vai ficar eternamente fechado, um autógrafo do Zico, maior herói brasileiro de todos os tempos. Perdi a paciência com a minha irmã e acertei-lhe um violão na cabeça. Perdi um amuleto da sorte, que só me dava azar, e duas cartas da Eliza, minha primeira namorada. Primeira e única, registre-se. Por enquanto, registre-se isso também. Perdi ainda duas amígdalas e um apêndice.

A coincidência vem agora. Naquele dia, a pedido de minha mãe, eu havia ido à biblioteca da escola à procura do recém-lançado O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas peguei por engano um chamado A Rosa do Povo, do Carlos Drummond de Andrade, de quem nada sabia, apenas que tinha sido expulso de um colégio de padres na infância, acusado de “insubordinação mental”, o que lhe garantia um lugar de honra no meu pantheon imaginário.

Para parecer culto e sensível e ganhar elogios do professor, citei um verso que encontrei no livro do poeta. O verso falava sobre perdas.

Naquela noite, montando um quebra-cabeça no tapete da sala de estar, assustei-me quando ouvi a musiquinha do Plantão da Globo, prenúncio de todas as tristezas e tragédias dos anos 80. Sérgio Chapelin anunciou: “Carlos Drummond de Andrade, maior poeta brasileiro de sua geração, morreu às 20h45 desta noite, de insuficiência respiratória, exatamente 12 dias depois de enterrar sua única filha. Drummond tinha 84 anos”.

Foi só uma coincidência, obviamente, mas gostaria que não tivesse sido. Seria bom acreditar numa ligação entre o poeta e aquele menino franzino e assustado, metido a filósofo, apaixonado por morenas e vestidos esvoaçantes.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Da série Republicando.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A música da floresta

por Fernando Evangelista*

 Quando Leopoldo me contou a história, não gostei. Pareceu-me tolinha.

– Autoajuda – eu disse.

Leopoldo, o filósofo do Rio Tavares, argumentou que aquilo era profundo como um oceano e que eu era um sujeito insensível de coração e fraquinho das ideias. Estávamos de papo no balcão do bar, lado a lado, mesas vazias atrás de nós.

– Boteco vazio é um troço triste – eu disse. E me corrigi: triste é essa história. Onde você leu?

– Uma antropóloga me contou. Ela viveu na África durante alguns anos.

– Antropóloga?

– De olhos verdes.

Pelo jeito como falou “olhos verdes”, detectei indícios de paixão.

A história é mais ou menos assim: Numa tribo do Zimbábue, quando uma mulher descobre que está grávida, vai para a floresta e, acompanhada de outras mulheres, reza e medita até que a “canção da criança” seja revelada. Leopoldo tentou me explicar como essa revelação se dava, mas não entendi.

Cantada pela comunidade em ocasiões especiais, a música irá acompanhar o novo ser durante toda a vida, da infância à velhice.

– Tem mais, tem mais – ele me disse, segurando no meu braço. – Com a música, aquele que estava perdido, engolido por tempestades, à deriva, tem a chance de se reencontrar e se redescobrir.

Bebeu a cerveja, limpou com as costas da mão a espuma que ficara no bigode, e concluiu:

– Se por acaso, algum dia, a pessoa se meter em alguma encrenca feia, se cometer algum erro grave ou algum delito, os integrantes da tribo se reúnem e, em círculo, cantam juntos a canção para que a pessoa recupere a lucidez e o bom-senso.

Estranho, esse filósofo. Ele sempre foi um homem cético, às vezes cínico, inimigo dos moralismos, do purismo, do romantismo, de todos os ismos, mas agora alguma coisa nele parecia diferente.

– Tu achas que isso ia dar certo aqui no Rio Tavares? – perguntei.

Ele sorriu. E, como um aluno aplicado, explicou que a autora da história era uma tal de Tolba Phanem e que a antropóloga havia lido, se emocionado, e decidido conhecer pessoalmente a tribo.

Em seguida Leopoldo pediu a conta, pagou a dele e a minha, fato inédito, olhou-me fundo e me disse sem medo de parecer piegas:

- Descobri a minha música, cara.

E foi se encontrar com a antropóloga de olhos verdes.

Dia desses, investiguei na internet essa historinha africana. Descobri que essa tal de Tolba Phanem, embora citada centenas de vezes, na verdade não existe. A história existe. A antropóloga também. E é bonitona, tem olhos verdes e, pelo que anda cochichando o povo do Rio Tavares, está perdidamente apaixonada pelo nosso Leopoldo, o sábio dos balcões.

Que os deuses da floresta protejam essa paixão.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Foto de Michele Menegon.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quase novo

por Júnia Puglia

É quase uma grande novidade. Três anos depois de ter-me inaugurado como alguém com enorme parcela de controle sobre o próprio tempo, decisões, prioridades e preferências, fiz um rápido flashback na rotina de acordar, banho, café da manhã corrido, modelito escolhido e vestido, voar para o escritório, muitas horas de ralação ininterrupta, voltar pra casa exausta, cochilar na frente da televisão, dormir um sono fuleiro, acordar… Por poucos dias, para mal e para bem.

No caso, o mal é a consciência aguda do espaço que o trabalho ocupa na vida da gente e da energia que ele consome, bem como das míseras aparas que sobram para o espontâneo e o inesperado. Ah, e também do estrago que o dia inteiro à frente do computador faz nas costas, braços e dedos da pessoa. E o bem é revisitar o que se fez por muitos anos, já um tanto forasteira (só que não), reencontrar pessoas e passar por uma reciclagem que ajuda a desenferrujar habilidades já meio abaladas. Tudo no ritmo da internet, a grande e insaciável patroa.

Bem, acabou de novo, e a sensação de acordar de man
hã em câmera lenta e poder recuperar a frouxidão é que é quase nova de novo. É bom devolver o noticiário a um lugar de certa desimportância. O próximo passo talvez seja ir para São Paulo de carro, como quem não tem nada mais relevante pra fazer.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estimada e desconhecida alma gêmea

por Fernando Evangelista*

Saudações. Meu nome é Cristina – a família me chama de Tina, os colegas do trabalho me conhecem como Cris e tu podes me chamar como quiseres. Bom, eu estou escrevendo esta carta porque, puta que o pariu, cansei de te esperar.

Olha que te procurei pelos lugares mais respeitáveis e pelos becos mais suspeitos. Experimentei de tudo e não me arrependo de quase nada, exceto, verdade seja dita, do caso com o chinês e com aquele capixaba, que colecionava mulheres e passagens pela polícia.

Eu sei, só uma idiota para acreditar nessa bobajada de amor romântico, de amor perfeito, de príncipe herói. Sou uma idiota completa. Para te achar, rezei, fiz mandinga, simpatia, fingi indiferença, fiz promessa, dancei sertanejo universitário, fiz de tudo, só não espetei agulha em boneco, que não me serviria de nada.

Querida alma gêmea, amor da minha vida, tu és padre? Estás casada com a pessoa errada? Morreste há muitos anos e não cumpriste o destino? Eu sou aquela que sobrou?

Sou dramática, né? Dramática e um pouco louca, sabe? Várias vezes tive a certeza de ter te encontrado. No começo, todos os homens meio que se parecem contigo. São atenciosos, interessados, educados. Todos têm um brilho nos olhos, uma ternura, uma carinha que dá aquela alegria no coração. Mas depois...

Depois é aquela coisa desagradável que vem junto com a intimidade e a convivência diária.

Lá no fundo, vou ser sincera, sonho com um amor no estilo daquele noticiado pelo jornal The Sun. É a história de uma inglesa de 43 anos e uma porca. O nome da mulher é Janey Byrne e da porca é Meeka, ou alguma coisa assim, sem sobrenome.

Janey comprou a mini porquinha e confiou na promessa do vendedor de que o bicho permaneceria pequeno para sempre, como um cachorro maltês. Até o fim de sua suínica vida, garantiu o homem, Meeka seria um porquinho-anão, um bonsai-porquinho.

Pois três anos depois, criada desde então dentro de casa, a mini porquinha transformou-se numa porca de 107 quilos, com 76 centímetros de altura e 1,5m de comprimento.

Aí alguém perguntou para Janey sobre essa transformação drástica e ela, veja você, disse alguma coisa assim: “No início, fiquei decepcionada por Meeka não ser micro, mas agora não mudaria nada nela. Eu a amo assim”. Uau!

Eu queria um amor deste tipo – e você nem precisaria ficar com 107 quilos. Pensando bem, embora frustrante e doída, essa minha procura permite a ideia de perfeição, de eternidade, permite qualquer coisa, menos, lógico, viver um grande amor. Mas viver um grande amor, tu deves saber, é muito arriscado, perigoso mesmo. Ainda assim, sigo te procurando.

Onde tu estás?

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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve as terças-feiras no Nota de Rodapé. Crônica da série republicando.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

História Universal do Desperdício

por Ricardo Sangiovanni*

Meu tio me acha um desperdício. Não é maledicência, é bem-querer: pois tenho, ele diz, inteligência como em rara gente se encontra (perdoem o pobre: ele me viu nascer), devia estar era figurando nos altos escalões, sendo um da família a ter virado alguém.

Já poderia ter ficado rico, ou estar ficando. Calma lá também, que dinheiro não é tudo; mas é que gente assim inteligente merece mais é ter tudo do bom e do melhor: morar numa coberturazona no Corredor da Vitória, e ter carrão sim; não é pra morar em predinho feio, com esse carrinho de pobre envelhecendo no sol da vaga descoberta.

Assim diz meu tio. Assim subo do porão onde me empreguei como arraia miúda certo de ser um desperdício. Sim, mas que homem nesse mundo não é um desperdício? Que homem não é menos do que poderia, nesta terra patrimonialista em que subir na vida é, se muito, coisa franqueada a umas cepas de "inteligentes" ou de "fortes", de "bonitos" ou "espertos" no lugar e hora certos para serem incorporados ao sistema, nosso magnífico sistema social de ascensão pela exceção?

Não quero ser exceção de nada, não desejo o que se promete às exceções: quero mais é ser desta classe dos desperdiçados mesmo. Somos uns desperdícios, eu e meus colegas de todos os porões onde se sonha com a transformação das gentes e do mundo pela inteligência e pela educação, pelo talento e pelo trabalho, por tudo enfim de diverso que nos faça mais iguais. Nós, mas também os que ganham a vida correndo atrás de nós e dos mais pobres que nós: é que no fundo somos todos, maltrapilhos e engravatados, os da Federação e os da Vitória, cabos e coronéis, parangolés e barões, uns subaproveitados no que de melhor nos vai na alma. Somos a História Universal do Desperdício.

Aí, em minha fantasia, resigno-me a sentir-me mais rico que o maior dos magnatas quando desfruto a fortuna que meu empreguinho proporciona, que é encerrar o expediente às catorze, e subir a tempo de alcançar o sol ainda alto, e comprar um cacho de bananas, e olhar o jeito do povo, e ficar secretamente à espreita, à espera de, num dia desses, avistar dobrando a esquina uma multidão fazendo a revolução, e ir atrás dela, e não voltar nunca mais.

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Ricardo Sangiovanni, jornalista, mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Roupa nova


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Acontecia uma ou duas vezes por ano e era um assunto muito sério, restrito a formaturas, casamentos ou grandes eventos religiosos. Em qualquer caso, "roupas feitas" (aquelas compradas prontas nas lojas) ainda eram raras e caríssimas, muito além das nossas possibilidades. Tudo o que nos cobria era produzido pelas costureiras da vizinhança ou por nossas mães e avós, até mesmo pijamas, calcinhas e cuecas. Ninguém perguntava às crianças o que queriam ou gostariam de vestir. O que saísse das máquinas movidas a pedaladas era vestido, geralmente nos maiores, e depois repassado a irmãs e irmãos menores, primas, vizinhos e uma enorme cadeia de aproveitamento, pois tudo era usado até acabar.

Com os sapatos era a mesma coisa, com a diferença de que, não podendo ser feitos em casa, eram recebidos e repassados entre a mesma cadeia ou, com muito menor frequência, comprados. Os novos eram reservados para as principais ocasiões e calçados com reverência. Pequenos acidentes resultavam de caminhar com os olhos fixos neles. Os da formatura da quarta série, de verniz em duas cores, branco e cinza, ocupam um lugar de destaque na memória afetiva.

Num certo verão, nossa tia nos levou, minha irmã e eu, a uma loja que acabara de receber uma grande novidade: sandálias de dedo feitas de borracha colorida azul, amarela ou verde, com solado branco na face em contato com os pés. Cada uma de nós ganhou um par, e até pudemos escolher a cor. Recebemos nossas primeiras havaianas dentro de sacos plásticos amarrados com barbante colorido, fascinadas, de longe o acontecimento mais importante daquelas férias.

Também ficou gravado na minha biografia o episódio do vestido pesado, de veludo vermelho, herdado de uma prima, que maravilhou mãe e tias, mas que eu detestei completamente. Além de a textura do veludo me ser insuportável, dentro dele eu ficava parecendo a gata borralheira numa roupa das meio-irmãs ricas. Recusei-me terminantemente a usá-lo, para enorme decepção das adultas.

Elas ainda nem desconfiavam, mas eu começava a odiar as roupas que me eram destinadas. Queria poder escolher e, entre as minhas preferências, não havia lugar para os invariáveis modelos desmilinguidos, lambidos, cheios de flores, rendas, fitas e laçarotes. Eu olhava comprido para algumas roupas nas vitrines das lojas, nas telenovelas e nas revistas, pois me pareciam cheias de personalidade e capazes de refletir algo ainda indefinível, que se tornaria para mim uma obsessão: liberdade, ou aquilo que para mim mais se parecesse com ela. Era eu começando a pensar em agir como eu mesma. Terremotos se seguiram.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 7 de abril de 2015

A rendição de Leopoldo


por Fernando Evangelista*

Venho por meio desta, com tristeza e pesar, alma condoída e inconformada, comunicar que o nosso querido Leopoldo, filósofo do Rio Tavares, sábio dos balcões, bebum incurável, romântico à moda antiga, foi internado neste domingo de Páscoa numa clínica psiquiátrica. E pior: foi por livre e espontânea vontade.

Aqui termina o comunicado e começa uma carta de espanto:

Como fizeste uma coisa dessas, Leopoldo? Logo tu, exemplo para os atormentados do submundo e adjacências, pastor sem sermão ou moralismo, sem ismo nenhum, vivendo a anarquia puríssima do inferninho mais próximo. Como assim? Me explica se puderes e se ainda tiveres alguma rebelião no espírito.

Sou testemunha, Leopoldo, de que nunca enganaste ninguém. Foste sempre o porra-louca mais autêntico que já conheci. E porra-louca com remédio tarja preta é como cerveja sem álcool, religião sem pecado, pecado sem gozo, poeta sem noite, noite sem sereno, Caim sem Abel e, finalmente, porque senão ficaremos nesta lista até o fim dos tempos, um livro sem leitor e um pé de milho sem Rubem Braga. (Obrigado, Gay Talese).

Leopoldo, não tenta te curar porque – como diria nosso parceiro João Antônio – não há cura para a tua “alma de cristal”. Quem são eles para te trancafiar nestas paredes brancas, cheias de boas intenções e péssimas fórmulas, que apaziguam o ânimo e enganam o desejo? Quem foi que te convenceu, irmãozinho, que a tua emoção é uma loucura e a tua liberdade uma ameaça?

Esses órfãos de Simão Bacamarte não sabem de nada. Não sabem que sem a tua alegria bêbada e teu humor descarrilado a vida fica com cara de paulistano no trânsito, sem esperança de praia, na primeira e segunda marcha da impaciência.

Com meu copo de cerveja meio vazio, meio de saco cheio, olhando teu banquinho desocupado, debruçado neste nosso balcão e pensando na vida cara e na tua filosofia barata, imploro para que voltes para a boemia nossa de cada dia. Se quiseres, escuta com atenção, te resgato daí na marra, mesmo que na maca ou em camisa de força.

Leopoldo, meu sábio, não desiste, não te rende.

Mesmo sozinho, brindo à tua loucura para que ela, como a casa bíblica, resista fincada sobre a rocha e que os ventos da lucidez e os jalecos da ciência não te façam cair nas tentações do equilíbrio, da vida zen e da alimentação macrobiótica. Amém!

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Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pelas praças


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Minha encarnação candanga já dura muito mais que a anterior. Considerando uma expectativa de vida realista, será a mais longa, mesmo que eu me mude daqui amanhã. Viver num lugar insólito como Brasília tem suas consequências, e para mim uma das mais fortes é o fascínio por cidades "normais", aquelas onde tudo se mistura. São as áreas mistas das cidades que me seduzem, lugares onde é só por os pés na rua e se acha de tudo, gente, loja, cinema, cachorro, padaria, pastelaria, banco, café e praça. Se tiver uma feira livre no caminho, me perco de vez na felicidade. Quando viajo, quase não consigo fazer outra coisa que não seja andar sem destino certo, sentindo a energia urbana sem filtros e sem intermediários.

Ah as praças! Nelas a gente capta o espírito do lugar, quase o apalpa. E como eu saio sem plano e sem programa, pedindo para ser surpreendida, elas me atendem, generosamente. Assim aconteceu em Lisboa, quando cruzei o arco da Praça do Comércio pela primeira vez, num dia de céu azul profundo, o Tejo logo ali na frente, o espaço aberto vibrando sob o sol. E no Largo do Chiado, com sua delicada iluminação noturna, convidando a gente a se sentar e desfrutar a suave melancolia portuguesa matizada pela Babel em que se transformou essa magnífica cidade coalhada de lugares de encontro.

Também em Madri, num fim de tarde, ao entrar na Plaza Mayor por uma lateral singela, e dar com o retângulo enorme todo ladeado de edifícios centenários da mesma altura, nos quais se vê uma infinidade de arcos e varandas. O impacto foi tremendo, como se ali, onde pairam a memória e o eco de um mercado aberto, eu pudesse sentir toda a verve espanhola em plena pulsação.

Outras são tímidas, como a Plazoleta Carlos Pellegrini, que descobri num canto da Recoleta, em Buenos Aires. Numa cidade com arquitetura e gente dramática e monumental, a pracinha tem um toque introvertido, quase singelo. Linda.

Entre as mais belas, está a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, que visitei há muitos anos, mas não me sai da memória. Tem um quê de tragédia no ar, mas parece dizer, sutilmente, mineiramente, que é preciso superar a dor e tocar em frente.

Como em tantas cidades brasileiras, lá na minha querida Araraquara também tem uma Praça Independência, tão bonita, mas tão bonita, que dá vontade de armar uma barraca na grama e ficar por lá, curtindo as árvores poderosas e pensando na vida num banco compartilhado com gatos vagabundos. E lá nos cafundós do interminável interior de São Paulo fica Jurupema, um povoado de duas mil almas com uma pequena igreja redonda em formato de farol, rodeada por uma praça aonde me senti dentro de uma pintura de Portinari e engasguei, quase chorei.

Levanto os olhos da tela, e é Brasília que eu vejo lá fora, com este céu escancarado ameaçando despejar um baita de um temporal e as maritacas fugindo dele, apressadas e tagarelas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 31 de março de 2015

Sorria, mantenha a linha e não se afogue


por Fernando Evangelista*

No dia 10 de junho de 1914, o capitão escocês C. H. Brown acordou às quatro e meia da manhã, fez xixi no penico, vestiu a roupa, colocou o suspensório, olhou-se no espelho e disse: “É hoje!”.

Amante das marés traiçoeiras e das mulheres perigosas, de bacalhaus e papagaios, o capitão era instrutor da Escola de Navegação de Glasgow e realizava uma pesquisa sobre as correntes marítimas da Escócia.

O método consistia em lançar garrafas ao mar, colocando no interior uma mensagem explicativa sobre a pesquisa e um pedido de devolução a quem as encontrasse. Com a informação do horário e do local onde o objeto fosse resgatado, o cientista poderia mapear a rota percorrida, identificando as correntezas. Em 1914, o capitão lançou 1.890 garrafas ao mar.

O tempo passou, apenas 315 foram achadas, o cientista morreu e a pesquisa obteve sucesso considerável, mas havia sido completamente esquecida. E seria o fim desta história não fosse um cidadão escocês de 43 anos, gordinho e careca, chamado Andrew Leaper.

Em abril de 2012, na costa das ilhas Shetland, ele pescou uma das garrafas, exatamente 97 anos e 309 dias depois de ter sido arremessada ao mar pelo capitão Brown. O Livro Guinness dos Recordes confirmou Andrew como o autor do resgate da mais antiga garrafa com mensagem no mundo.

Com o jornal nas mãos, Leopoldo - o sábio dos balcões, filósofo bêbado do Rio Tavares, - leu essa notícia em voz alta para que todos ouvissem e como estávamos só ele, o dono do bar e eu, sua missão teve êxito.

Leopoldo dobrou cuidadosamente o jornal, colocou-o sobre o balcão, olhou para o copo de cachaça na sua frente, olhou para o ventilador de teto, deu uma geral no bar vazio à sua volta, fez que ia pegar o copo, mas pegou o meu braço e disse:

– Meu rapaz, nesta história da garrafa, neste pedacinho de jornal, está a tradução da minha vida e da vida de um bocado de gente.

Farejei o início de lampejos metafísicos. Pelo espelho, o dono do bar lançou-me um olhar que dizia sem dizer: “é sempre assim”, e concentrou-se na lavação dos copos, na nossa frente.

– Eu sou – continuou Leopoldo, com seu jeitão antigo e formal – este velho capitão a jogar mensagens no oceano, com a esperança de que alguém as encontre e as compreenda. Sou aquele que espera e vai fingindo paciência, fingindo não se importar.

– Isso parece letra de samba – eu disse.

Leopoldo esvaziou o copo e prosseguiu:

– Eu sou um pedaço de papel, enclausurado numa maldita garrafa, às vezes em branco, à espera de ideias, outras vezes manchado de erros, à espera de correção. Sou também a garrafa que, mesmo não querendo, mesmo com alguma resistência, vai seguindo a correnteza, indo para direções incertas, talvez girando em círculo, como esta do jornal, achada a apenas 18 quilômetros de onde foi lançada.

– De uma forma ou de outra, quase todo mundo está em busca de um porto seguro – interveio o dono do bar.

– Nada faz sentido – arrisquei.

– Ateu! – gritou o filósofo. Apontou o copo vazio sobre o balcão para que o dono o enchesse mais uma vez e prosseguiu, comparando-se ao mar, imprevisível, marcado por naufrágios, profundezas e por outras coisas que não cheguei a compreender. Parecia mesmo letra de samba.

Com um discreto balançar de cabeça, Leopoldo agradeceu mais uma dose servida pelo dono da bodega, deu outra espiada no ventilador de teto e seguiu a ilação:

– Nosso grande medo é ficar à deriva, sem alguém para nos acolher, é ver o mar nos engolindo e não dar conta do que nos exigem e eles exigem a mesma coisa em todo lugar: “sorria, mantenha a linha e não se afogue”.

Fez uma pausa e seu rosto ficou iluminado.

– Duas coisas, porém, duas coisinhas o marzão não vai me levar, porque são minhas e delas não abro mão.

E mantendo o tom grave e teatral, concluiu:

– Ninguém tasca a minha liberdade e a minha lucidez.

Sorriu, secou mais um copo de cachaça e se foi, sem pagar a conta.

* * * * * *

Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Trabalha na biblioteca comunitária Barca dos Livros em Florianópolis. Esta crônica, publicada ano passado aqui no Nota de Rodapé, foi reescrita e fará parte do livro O Piano de Casablanca (Editora Insular), que será lançado em maio.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Insignificância


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

 "Como brilha a insignificância das pessoas quando as coisas começam a dar errado." Comentário ácido e certeiro da escritora espanhola Rosa Montero, a propósito de um funcionário sindicalista que quer se aproveitar do assassinato de uma líder para emplacar sua carreira política. Pulou do papel enquanto eu lia o romance de ficção científica "Lágrimas na chuva", cujo bem tramado enredo gira em torno da uma detetive androide, contratada para investigar uma série de mortes de semelhantes seus, num futuro situado no ano de 1109.

Com a criatividade e a competência que lhe sobram, e tendo como ponto de partida a cena final do filme "Blade runner" (quando o protagonista replicante, antes de morrer, diz: "vi coisas nas quais vocês não acreditariam… todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva"), Rosa coloca humanos e androides numa convivência complicada, permeada por situações que remetem às crenças supremacistas e práticas racistas que conhecemos tão bem. No futuro imaginado por ela, o caráter e o comportamento humanos continuam intactos, bem como a recorrente ênfase da autora na empatia e solidariedade entre os marginalizados e os esquisitos, uma das características mais cativantes da sua escrita. Para o grande prazer de seus leitores, ela já escreveu sobre um bocado de coisas.

A frase é tão bem sacada que dá a sensação de ser, simultaneamente, uma bela surpresa e uma velha conhecida. Isto acontece sempre que alguém consegue dar uma forma exata a algo que captamos ou sentimos, mas não conseguimos ou não nos detemos em formular. Tive que compartilhá-la.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

segunda-feira, 23 de março de 2015

Washingtonianas

por Nina Madsen*


Viver em um país diferente do seu é reaprender a vida cotidiana todos os dias. Um exercício de alteridade e de desautomatização que sempre me pareceu dos mais estimulantes e, ao mesmo tempo, inquietantes. O familiar, o que se faz já sem sequer pensar, os códigos incorporados nas pequenas rotinas diárias – é tudo novo. No detalhe. Atravessar a rua, entrar e sair do supermercado, subir e descer escadas, cumprimentar os vizinhos, relacionar-se com prestadores de serviços... enfim, a lista é longa.

E no topo da minha, tem estado, ultimamente, o manter-se informada e situar-se em um novo contexto político. E olha que é dos EUA que estou falando, nada assim tão distante da nossa americanizada gramática política e cultural. Mas o fato é que ler os jornais todos os dias tem sido como ler um mapa ao caminhar pelas ruas de uma nova cidade. Primeiro, você mal consegue se situar no miúdo das ruas mais próximas (bem, talvez não você, orientada/o de nascença, mas eu sou assim, ligeiramente perdida nos espaços concretos da vida), para então começar a adquirir alguma noção de sentidos, bairros, movimentos urbanos. Até se sentir no domínio do espaço leva algum tempo. E até se sentir no domínio do contexto político de cada notícia também. Não tenho visto noticiários na televisão – hábito que já não tinha no Brasil e que decidi manter afastado da minha rotina por aqui. Então, converso com as pessoas, leio o jornal e escuto o rádio. E que instituição, o rádio! Nada empoeirado, nada envelhecido, o rádio é fresco e revigorante. São muitas as estações, algumas com alto grau de engajamento político.

Foi no rádio que ouvi, no dia 11 de março, que Obama declarou a Venezuela uma ameaça à segurança nacional. À segurança nacional dos EUA, veja bem. E que Maduro respondeu dizendo que, oras, ameaça à segurança nacional são os EUA! E depois ouvi as análises dos especialistas convidados, todas destacando o equívoco de Obama ao jogar lenha nessa fogueira. Ouvi que estão substituindo Cuba pela Venezuela como bode expiatório na América Latina. Que a Cúpula das Américas está chegando e as manifestações se farão sentir, comprometendo inclusive a recente reaproximação entre EUA e Cuba. Que a dureza das declarações sobre a Venezuela não são nada coerentes com o retardo e a quase negligência das declarações e ações a respeito do que tem acontecido no México, por exemplo. Ouvi uma representante da Casa Branca sendo descascada por repórteres em uma coletiva, ao afirmar que os EUA há muito tempo não se envolvem com mudanças de poder e de governo inconstitucionais. “Como assim, não se envolvem?”. “A senhora poderia definir o que considera muito tempo?”. “A senhora poderia definir o que o governo considera inconstitucional?”.

Tenho ouvido também, desde o início da semana, que em Ferguson a luta pelo enfrentamento ao racismo continua com força. As pessoas seguem nas ruas, fazendo muita pressão. Especialmente depois do julgamento que inocentou o policial que matou Michael Brown. O Departamento de Justiça divulgou um relatório que traz dados sobre o racismo institucional e seu impacto nas ações da polícia (confira aqui). Logo depois, vieram a público trocas de e-mails entre policiais com expressões bastante explícitas de racismo (leia mais aqui). Resultado? Departamento de polícia em crise, com pedido de renúncia de policiais e, mais recentemente, do chefe da polícia. Que, aliás, demorou demais, como afirmaram manifestantes à repórter da rádio. [A rádio a que me refiro é a WPFW, que você pode conhecer e ouvir online, aqui].

E assim vão compondo meu mapa político as notas washingtonianas capturadas a cada dia. Um mapa tão parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente daquele ao qual me acostumei no Brasil. Parecido o suficiente para reconhecer, por exemplo, em Ferguson, nossas racistas cidades e polícias brasileiras. Diferente o suficiente para me inquietar ainda mais diante de sua violenta resistência a toda e qualquer evidência de que o racismo segue matando muito, todos os dias.

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Nina Madsen. Escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Desde janeiro de 2015, vive em Washington, DC – novo cenário de aventuras e leituras pelo avesso do mundo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Beijos de língua


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

 alecrim mexerica jamelão jerimum

gérbera jenipapo jerico alabastro

libélula cajuína primavera cambraia

fúcsia alcaçuz bruma sirigaita

zimbro zumbi libélula escarlate

brim bugiganga luz estrela

claraboia filigrana urucum cítara

mirabolante lampreia púrpura

berinjela gloxínia quinquilharia

picolé marroquino negritude prisma

alfazema pirilampo frenesi purpurina

amálgama sucuri sangria cardamomo

salamandra silhueta bromélia

mafuá manjericão

Lindas. Agora, em voz alta, pausadamente. Delícia!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Quer lutar?

por Carlos Conte*

Tem gente que gosta de começo de ano. Eu não. Pra mim só melhora depois, talvez semanas, meses depois, quando já não me lembro mais do baque que é voltar de férias e recomeçar. Recomeçar sempre!, diz o personagem Carlos do filme “São Paulo S.A.”. O título do primeiro roteiro escrito por Luiz Sergio Person era “Agonia”.

Ao voltar de viagem constato, com pesar, que a vida só recomeça se houver trabalho. Os cães estão desesperados de fome e carência, há um rato na lavanderia, a calçada da frente está cheia de mato e sujeira, meu quarto precisa ser arrumado (e essa arrumação vocês não imaginam como é difícil); há um ano inteiro de trabalho pela frente, e então me dou conta de que as férias nunca são o bastante e que este novo ano só vai mesmo pegar no breu no momento em que eu recolher o primeiro cocô do quintal e jogar no lixo o feijão que está podre na geladeira desde o ano passado.

Por isso adotei um instrumento de autoajuda bem curioso: estou usando uma foto do Bukowski (outro Charles) como plano de fundo da área de trabalho do meu computador. É uma das poucas fotos em que o velho não aparece com um copo na mão: está de pé, de frente para o fotógrafo, em posição de guarda, chamando pra briga. Assim, toda vez que eu abro meu laptop de manhã, dou de cara com o velho safado prestes a me acertar um jab.

– Quer lutar?
– De novo, Buk?...
– Em guarda, garoto!

E então é preciso fazer alguma coisa, é preciso reagir, matar um leão por dia, recolher as contas na caixa de correspondências, escovar os dentes, pagar as contas que eu acabei de recolher, trabalhar. Recomeçar. Como Sísifo e sua pedra maldita, recomeçar a cada dia. E nisso o Buk me ajuda, por incrível que pareça.

Vão me dizer que ele era um péssimo exemplo: alcoólatra, agressivo, machista. Na verdade, ele mesmo diria isso, porque ninguém melhor do que Charles Bukowski para destruir Charles Bukowski: “Bukowski chorou em hotéis que eram verdadeiras espeluncas, Bukowski não sabe se vestir, não sabe falar, tem medo de mulher, sofre do estômago, vive assustado, não gosta de dicionários, freiras, moedas, ônibus, igrejas, bancos de praça, aranhas, moscas, pulgas, tarados; Bukowski não foi pra guerra. Bukowski já está velho... ; se fosse macaco, seria expulso do convívio da espécie”.

Como ele mesmo diz nos textos autobiográficos, era um zero à esquerda no quesito “administrar a própria vida” – aluguéis sempre atrasados, pilhas de garrafas de vinho em cima da pia, nenhuma cueca limpa para vestir... Pior quando ficava sem luz por falta de pagamento. Pior quando estava de ressaca (isso sempre). A vida pode estar sempre pior – mas o velho Buk tirava de letra, rindo dos outros e de si mesmo, sem autopiedade. Quando acordo de manhã, não espero que me deem a mão...

– Quer lutar?
– Que tal conversar antes?
– Nada disso, garoto, conheço você e suas desculpas. Em guarda!
– Vai encher o saco de outro, porra!... – e tento correr para longe daquela visão dos infernos.

Mas não há saída. É preciso enfrentar. Por mais que meu corpo implore “Não vá, por favor, não vá!”, num misto de preguiça e desesperança, lamentando o fim dos sonhos, o fim das férias, lamentando, acima de tudo, o fato de um dia ter saído do útero quente e confortável de mamãe, é preciso levantar guarda e ficar atento antes que seja desferido o primeiro golpe.

– Quer lutar?
– Desiste, Buk, já era. Eu sou mesmo um perdedor... Que foi? Tá rindo do quê?
– Só agora você se deu conta de que é um perdedor?
– Vai se foder, velho brocha!
– “Todo homem é vítima de um meio que se recusa a compreender sua alma”.
– Li isso em algum lugar...
– Claro que você leu isso em algum lugar! Fui eu que escrevi.
– Pois é, você é chato mas pelo menos escreve bem...
– Eu sou o melhor de todos, garoto!
– Ai!
– Levanta essa maldita guarda!
– Meu nariz, filho da puta!...

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A luz


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Coisas acontecem enquanto cozinhamos. Dia desses, na casa de uma amiga, aberta a garrafa de vinho da inspiração culinária e providenciado o fundo musical, as vozes de Simon & Garfunkel me levaram a uma viagem no tempo e na memória. Há muito não os ouvia, o que é lamentável e exige imediata correção de rumo. Algumas das canções que essa dupla compôs e interpretou décadas atrás estão entre as mais lindas que me acompanharão sempre.

A sorte é que o caldo do risoto já estava pronto e a minha principal tarefa era orientar na preparação do prato, porque o golpe foi forte. Viajei para aqueles tempos em que a música nos consolava pela falta de liberdade e perspectiva, e nos conduzia a lugares mais amenos, cheios de poesia e respostas, ora amorosas, ora engajadas, ora inquietantes, para nossos jovens corações e mentes repletos de perguntas.

Tempos em que as letras das músicas vinham impressas nos encartes dos discos. Na ausência deles, exercitávamos nossos ouvidos e nossos rudimentos de inglês, transcrevendo as palavras conforme as entendíamos. Coisas incríveis resultavam dessas tentativas, que já renderam muito texto divertido por aí. Levei anos para acertar alguns trechos da antológica “O bêbado e a equilibrista” (de Bosco e Blanc), por exemplo.

“Kathy’s song”, composta pelo Paul Simon, é uma das que amei muito e estava submersa na memória. Emergiu ali, à beira do fogão, grudou no meu juízo, enquanto eu despejava conchas de caldo no arroz, e ficou de campana em alguma dobra, esperando o momento de me atormentar. Este chegou hoje e me fez buscar a letra, comprar a gravação (bendita internet!) e mergulhar no seu lirismo.

É tão bonita, mas tão bonita, que nem sei explicar. As palavras justas, simples e diretas, enfileiradas e costuradas à melodia com perfeição, descrevem sentimentos conhecidos e recorrentes, de maneira única. Melancolia, saudade, solidão e a chuva encharcando a rua, paredes e telhados. Quem desentende? Para mim, a melhor poesia e a melhor comida se fazem com ingredientes básicos, precisão, simplicidade e a sensibilidade de quem prepara. O resultado depende do estado de espírito, da inspiração e da intimidade com os ingredientes. Beleza pura foi o que encontrei lendo Adélia Prado ou ouvindo “Mucuripe” (de Fagner e Belchior) pela primeira vez, para mencionar apenas duas entre as muitas maravilhas que essa vida danada de complicada nos oferece. E sentidos atentos são indispensáveis para que se produza o encanto.

Tocar os sentidos e sentimentos das pessoas parece fácil e barato, ainda mais agora, com a facilidade que temos para entupir o espaço digital com enxurradas de palavrório e notas musicais amontoadas – aonde encontramos também um sem-número de aulas, dicas e receitas culinárias. Engano. É preciso ter a luz.


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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Como se faz uma crônica


por Fernanda Pompeu*

Em três fases. Pois tudo sobre a Terra - abaixo e acima dela - tem três etapas. Nossa própria existência: nascer, viver, morrer. Todas as narrativas: começo, meio, fim. Prato brasileiríssimo: arroz, feijão, farinha. Do mestre Lao-Tsé: “O Tao gerou Um. Um gerou Dois. Dois gerou Três. Três gerou todas as coisas”.

Primeira fase:

Encontrar o tema. Nem sempre é difícil, às vezes ele vem como um santo que baixa. Você está tomando um copo d´água e, antes de terminar, surge o assunto. Num dia de sorte, pode até despontar inteiro, perfeito, redondo. Mas nem sempre é fácil, de repente, vem a pergunta: Escrever sobre o quê? Silêncio de sepulcro. Aí a orientação é ir para a rua e esticar os ouvidos para frases alheias. Também ajuda assistir a um filme. Quem sabe um cena, um diálogo acenda uma luzinha na sua cabeça. Ou se inspirar no vídeo do cartunista Alpino mostrando como se faz uma charge. Também vale se refugiar no Dom Casmurro, do Machado de Assis. Todas as ideias estão lá. Se nada disso adiantar (e muitas vezes não adianta), a dica infalível é olhar para dentro de você e aguardar que o tema venha. Ele virá alegre ou tristemente. Mas virá.

Segunda fase:

Moldar a forma da ideia. O assunto será tratado de jeito engraçado? Trágico? Ele é sério ou risonho? Em geral, o tratamento crônico mistura as categorias acima. Pois a crônica é um gênero do cotidiano, das chamadas coisas pequenas. Uma crônica não se dispõe a mudar o mundo, quando muito, ela muda seu estado de espírito enquanto você lê. Dos pesos da literatura, ela é categoria peso leve. Tudo isso é certo para o leitor, pois para a pobre da cronista ela dá um trabalhão. Por exemplo, escrever sobre a morte, o amor, o desespero, o frescor de maneira leve. Crônica tem que ter leveza, antes de tudo. Nela, cada frase tem o efeito de um parágrafo.

Terceira fase:

Soltar os dedos no teclado. Chamo esse momento de a hora da verdade. O acaso e a teoria ficaram para trás. Agora é você e a língua portuguesa. Todas as decisões são suas. As consequências da escolha do tema, do formato da ideia, da escrita propriamente dita também. Comece, continue e termine. Depois vem a revisão: checagem de ortografias, nexos sintáticos, resultados semânticos. Aqui você deixa de ser cronista para se tornar carpinteiro. Cortar, lixar, polir. Pronto, agora é postar. O passo seguinte é com o leitor.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora e colunista do Nota de Rodapé. O texto acima foi publicado originalmente em sua coluna Mente Aberta no Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Bem vivos


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

Mesmo que eu me esforce muito na formulação e na elaboração, sei, de partida, que será bem difícil ajustar o tom e expressar a profundidade do que quero dizer. A clássica frase dos discursos, de que “não tenho palavras”, aqui se encaixa justinha. Palavras me faltam até mesmo para começar. Mas insisto.

Durante rápida caminhada aqui perto de casa, o olhar do belo rapaz negro cravou em mim um largo e genuíno sorriso, acompanhado do melhor “bom dia” que eu poderia esperar. E despertou as borboletas dormidas no meu estômago.

Algumas semanas atrás, a seção brasileira da Anistia Internacional lançou a campanha “Jovem Negro Vivo” (https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/), uma iniciativa de conscientização da sociedade, anestesiada sobre a realidade do genocídio da juventude negra. Se você acha exagerado usar o termo “genocídio” para definir o que acontece, o Aurélio, em versão resumida, me acode: “destruição metódica de um grupo étnico pelo extermínio dos seus indivíduos”. O termo foi forjado no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, para definir a eliminação sistemática de grupos étnicos praticada pelos nazistas.

Todas as pessoas que conhecem o Brasil e vivem aqui sabem do que estou falando, por mais que evitem ver. Nossa cegueira está calcada em séculos de desprezo por qualquer indivíduo que tenha ou aparente ter menos. Aqui, nascer negro ou negra define ter e ser menos, de saída. Simples assim. No rap “Haiti”, Caetano Veloso adverte sobre o cenário contemplado a partir do adro da Casa de Jorge Amado, no Pelourinho de Salvador: “a fila de soldados quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos... só pra mostrar... como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”. Mas só pretos se importam com pretos. Só pretos choram os milhares de jovens pretos amputados de viver e realizar seu potencial e suas habilidades em benefício próprio.

Enquanto isso, nossa capacidade de copiar gringuices esquisitas parece inesgotável. Até Halloween e Black Friday entraram na lista de eventos apreciados por jovens brancos, que falam uma língua diferente da minha, salpicada de palavras inglesas adaptadas à força de customização, blutuf, delivery e companhia. Lá na gringolândia, a segregação e a discriminação dos negros foi muito mais profunda e escancarada do que aqui, é o argumento que os tolos usam para nos fazer sentir menos responsáveis pela nossa própria tragédia racial. Porém, se os branquinhos de shopping prestassem atenção nas imagens dos protestos que vêm acontecendo por conta dos recentes assassinatos de jovens negros por policiais nos Estados Unidos, veriam que há muito deixaram de ser manifestações só de negros. E estão sacudindo o país com sua indignação e clamor.

Isto, nem lhes ocorre imitar. Deixe quieto, aqui a gente tem outras prioridades de mobilização, atividade há pouco ressuscitada na nossa vida política. No topo da lista, o inconformismo com o resultado do jogo democrático, que inclui uma bizarra vertente chamando os carrascos militares de volta, por mais incrível que possa parecer.

Eu, na minha inescapável brancura, quero todos os meninos e meninas, de todas as cores, bem vivos. Você me acompanha? Então clique no link acima e veja mais sobre o que estou tentando falar.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O barbeiro machão

por Carlos Conte*

Esperava sentado numa cadeira escolar, quieto no meu canto, enquanto o Barbeiro (vou chamá-lo assim) cortava o cabelo de um homem velho, narigudo e careca – aqui na Vila Romana é um tipo clássico – até que, me olhando pelo reflexo no espelho, o Barbeiro ordenou:

– Não lê essa revista aí, meu! Tenho coisa melhor. Claro: pra quem gosta de mulher!

Sem largar a tesoura, abriu uma gaveta e tirou dali uma pilha de revistas de mulher pelada.

– Lá no armário tem mais! – jogou as revistas no meu colo. – Depois me fala qual é a melhor. Minha preferida é a Patrícia Jordane. Esse Neymar é um cara de sorte, você não acha?...

Patrícia Jordane, ex-affair do Neymar. Essa não conhecia. A edição era recente mas o exemplar estava tão surrado que não pude evitar um princípio de nojo. Muitos pares de mãos masculinas já tinham virado aquelas páginas, só espero que ninguém tenha lido no banheiro (sabemos que isso é quase impossível).

Talvez fosse apenas sua maneira de receber bem um cliente, pondo à sua disposição toda pornografia disponível a fim de agradá-lo. Mas fico com a hipótese de que ele queria me provar alguma coisa, marcar posição, com sua exibição testosterônica exagerada e sem sentido, além de muito constrangedora. Acho que na cabeça dele funciona assim: pelo fato de tocar um salão de beleza masculino – afinal, barbearia não deixa de ser isto: um salão de beleza masculino, sendo barbearia só o nome “macho” para distingui-lo dos salões femininos –, o Barbeiro precisava provar aos clientes que não jogava no “outro time”. Atitudes como a dele, afobadas, atrapalhadas, escondem na verdade um medo terrível. Medo de passar por “cabeleireiro”.

Ao mesmo tempo em que provava sua “macheza”, ele me testava. Notei que o Barbeiro, entre uma tesourada e outra, ficava me olhando pelo espelho enquanto eu folheava a revista. Dependendo da minha reação diante da Playboy, ficaria provado se eu jogava ou não no “time” dele.

– E aí, aprovou?

– Nada mal...

Quando perguntada pelo repórter se vale tudo entre quatro paredes (já que no futebol existem regras bem definidas), a Maria Chuteira não titubeou: “com certeza!”.

O problema dessas revistas é que as fotos são ruins e cheias de photoshop. Um pouco de olhar crítico já faz você perder o tesão. Tem que entrar no jogo, abstrair. Tipo futebol. Se você começa a pensar um pouco, já era. Por isso que na adolescência eu gostava tanto de revista de sacanagem. Hoje não sinto a menor emoção. E a Playboy já foi uma revista melhor.

– Viram a polêmica da Viviane Araújo? Lembrei disso agora porque o cara que aparece no vídeo é careca...

O cliente e eu nos entreolhamos pelo espelho.

– Não viram? Não acredito! Dá uma olhada nisso aqui... – e me empurrou o iPhone.

Eram imagens de uma câmera de vigilância, dessas que nos filmam pra lá e pra cá o dia todo. Um carro estaciona numa rua deserta, um homem e uma mulher saem do veículo, abrem a porta traseira, ela se debruça no banco de trás, ele fica em pé atrás dela, e então, sem desconfiar de nada, começam a fazer sexo ali mesmo. Tem uns 2 minutos. O homem é calvo. A mulher, de fato, é bem parecida com a garota do Fantástico 94. Nunca vou me esquecer dela apagando a lousa na Escolinha do prof. Raimundo.

Claro que no dia seguinte ela negou tudo. No Instagram, descolou um álibi: no mesmo dia e no mesmo horário, cumpria compromisso com uma escola de samba. Abri a edição do mês seguinte e comecei a ler uma entrevista com o deputado Jean Wyllys, em que ele conta da sua experiência com maconha, diz que já ficou com meninas e admite que é um cara feio. Já pensou se o Barbeiro descobre que eu estou lendo a entrevista do Jean Wyllys? Ia ser divertido. Corrijo: ia ser pavoroso. Mas nunca, nunca mesmo, se deve arrumar encrenca com um barbeiro. Caso você brigue com um, nunca mais ponha os pés lá. Quem está com a navalha é ele, não você. O pescoço é o seu, não o dele. Enfim, essas coisas do dia a dia às quais precisamos estar sempre atentos. E com garçom é a mesma coisa.

Chegou minha vez. O de sempre: diminuir o volume e fazer um corte “normal” (seja lá o que isso signifique), mas não tem muito o que inventar na minha vasta cabeleira.

– Gostou da Viviane? – ele insistiu.

– Gostei.

– Lembra quando o professor Raimundo chamava ela pra apagar a lousa?

Só queria dizer a ele que não precisava forçar tanto a barra para provar sua heterossexualidade. “Já entendi, cara. Você gosta de mulher, parabéns! Eu também. Mas isso agora não importa. Corta meu cabelo e dá um tempo!”.

Claro que não foi isso que eu disse. Melhor não contrariar quem está com a navalha na mão. Afinal, o pescoço é o meu, não o dele.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Vai sim


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

Eita 2014 da moléstia! Não passaram três dias sem alguma notícia trágica. Quantas bruxas precisam estar à solta pra fazer tamanho estrago? Já aprontaram de um tudo, desembestadas, mirando a torto e a mais torto. No meio do ano, quando a cota de maldades me parecia cumprida, considerei que 2014 estava bom de acabar, mas não, ele insistiu, e ainda teve muito mais. Sobrou até pro Chespirito, o querido Chaves do pessoal da geração seguinte.

Estar vivo ainda é a única condição indispensável para se morrer, mas que urgência foi essa que apareceu na produção? E no atacado, valhamedeus! Vamos parando aí, bruxaiada! Voltem a se ocupar com poções, maus olhados, chuvas, raios e trovões, voos de vassoura turbinada, servicinhos leves. Ou, melhor ainda, tirem umas férias em Júpiter ou Plutão, enquanto a gente aqui descansa um bocado dessa trabalheira de vocês.

Bruxas que se prezam estão sempre acompanhadas de urubus, que adoram uma teoria conspiratória destrambelhada, um comentário ferino sobre o que não entendem, uma matéria venenosa no blog político. Perdem amigos e a compostura, mas não perdem o comentário e o veneno. Em ano de eleição, então, se esbaldam. Teve de sobra, não é?

Na era dos retratos instantâneos, rebatizados de selfies, e das redes sociais, a gente está o tempo todo na berlinda, ainda que longe de ocupar ou mesmo aspirar a ocupar algum degrau na escala das celebridades. Até para tomar um café no boteco tem que ter cuidado. Vai que alguma câmera pouco amiga te pilha meio caidinha, antes das oito da manhã, ou com pelos de dois milímetros à mostra nas axilas, e pronto. Sua reputação de coroa que encara mais alguns caldos vai para o vinagre.

Mas não tem nada não, moçada! O ano finalmente está se despedindo, exausto, quase se arrastando, depois de segurar até campanha política com tragédia no pacote, além de um rebuliço danado no cenário institucional investigativo corruptivo. O clima de fim de ano já se instalou. Festas e comilanças na agenda, com os personagens, cardápios e piadas de sempre. A confraternização corporativa é inescapável, à base de cerveja morna, vinho no copo de plástico, champanhe duvidoso, perus, chesters e companhias aladas e assadas. É hora de celebrar. Porque está demorando um bocado, mas 2014 vai embora, ah se vai!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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