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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 12 de maio de 2015

Loira Gina

por Fernando Evangelista*

Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina

A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.

Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:

– A Gina é muito velha.

– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.

O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:

– Não parece velha, essa mulher é nova.

O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.

– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.

– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.

– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.

E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:

– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.

– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.

– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.

– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.

Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.

Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.

Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?

Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.

Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.

Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.

Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.

* * * * * * 

Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estimada e desconhecida alma gêmea

por Fernando Evangelista*

Saudações. Meu nome é Cristina – a família me chama de Tina, os colegas do trabalho me conhecem como Cris e tu podes me chamar como quiseres. Bom, eu estou escrevendo esta carta porque, puta que o pariu, cansei de te esperar.

Olha que te procurei pelos lugares mais respeitáveis e pelos becos mais suspeitos. Experimentei de tudo e não me arrependo de quase nada, exceto, verdade seja dita, do caso com o chinês e com aquele capixaba, que colecionava mulheres e passagens pela polícia.

Eu sei, só uma idiota para acreditar nessa bobajada de amor romântico, de amor perfeito, de príncipe herói. Sou uma idiota completa. Para te achar, rezei, fiz mandinga, simpatia, fingi indiferença, fiz promessa, dancei sertanejo universitário, fiz de tudo, só não espetei agulha em boneco, que não me serviria de nada.

Querida alma gêmea, amor da minha vida, tu és padre? Estás casada com a pessoa errada? Morreste há muitos anos e não cumpriste o destino? Eu sou aquela que sobrou?

Sou dramática, né? Dramática e um pouco louca, sabe? Várias vezes tive a certeza de ter te encontrado. No começo, todos os homens meio que se parecem contigo. São atenciosos, interessados, educados. Todos têm um brilho nos olhos, uma ternura, uma carinha que dá aquela alegria no coração. Mas depois...

Depois é aquela coisa desagradável que vem junto com a intimidade e a convivência diária.

Lá no fundo, vou ser sincera, sonho com um amor no estilo daquele noticiado pelo jornal The Sun. É a história de uma inglesa de 43 anos e uma porca. O nome da mulher é Janey Byrne e da porca é Meeka, ou alguma coisa assim, sem sobrenome.

Janey comprou a mini porquinha e confiou na promessa do vendedor de que o bicho permaneceria pequeno para sempre, como um cachorro maltês. Até o fim de sua suínica vida, garantiu o homem, Meeka seria um porquinho-anão, um bonsai-porquinho.

Pois três anos depois, criada desde então dentro de casa, a mini porquinha transformou-se numa porca de 107 quilos, com 76 centímetros de altura e 1,5m de comprimento.

Aí alguém perguntou para Janey sobre essa transformação drástica e ela, veja você, disse alguma coisa assim: “No início, fiquei decepcionada por Meeka não ser micro, mas agora não mudaria nada nela. Eu a amo assim”. Uau!

Eu queria um amor deste tipo – e você nem precisaria ficar com 107 quilos. Pensando bem, embora frustrante e doída, essa minha procura permite a ideia de perfeição, de eternidade, permite qualquer coisa, menos, lógico, viver um grande amor. Mas viver um grande amor, tu deves saber, é muito arriscado, perigoso mesmo. Ainda assim, sigo te procurando.

Onde tu estás?

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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve as terças-feiras no Nota de Rodapé. Crônica da série republicando.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sete dias entre a vida e a morte

por Fernando Evangelista*

Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.

Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.

“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”

Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.

 “Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.

Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.

 Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.

O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.

Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.

A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.

Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.

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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A rendição de Leopoldo


por Fernando Evangelista*

Venho por meio desta, com tristeza e pesar, alma condoída e inconformada, comunicar que o nosso querido Leopoldo, filósofo do Rio Tavares, sábio dos balcões, bebum incurável, romântico à moda antiga, foi internado neste domingo de Páscoa numa clínica psiquiátrica. E pior: foi por livre e espontânea vontade.

Aqui termina o comunicado e começa uma carta de espanto:

Como fizeste uma coisa dessas, Leopoldo? Logo tu, exemplo para os atormentados do submundo e adjacências, pastor sem sermão ou moralismo, sem ismo nenhum, vivendo a anarquia puríssima do inferninho mais próximo. Como assim? Me explica se puderes e se ainda tiveres alguma rebelião no espírito.

Sou testemunha, Leopoldo, de que nunca enganaste ninguém. Foste sempre o porra-louca mais autêntico que já conheci. E porra-louca com remédio tarja preta é como cerveja sem álcool, religião sem pecado, pecado sem gozo, poeta sem noite, noite sem sereno, Caim sem Abel e, finalmente, porque senão ficaremos nesta lista até o fim dos tempos, um livro sem leitor e um pé de milho sem Rubem Braga. (Obrigado, Gay Talese).

Leopoldo, não tenta te curar porque – como diria nosso parceiro João Antônio – não há cura para a tua “alma de cristal”. Quem são eles para te trancafiar nestas paredes brancas, cheias de boas intenções e péssimas fórmulas, que apaziguam o ânimo e enganam o desejo? Quem foi que te convenceu, irmãozinho, que a tua emoção é uma loucura e a tua liberdade uma ameaça?

Esses órfãos de Simão Bacamarte não sabem de nada. Não sabem que sem a tua alegria bêbada e teu humor descarrilado a vida fica com cara de paulistano no trânsito, sem esperança de praia, na primeira e segunda marcha da impaciência.

Com meu copo de cerveja meio vazio, meio de saco cheio, olhando teu banquinho desocupado, debruçado neste nosso balcão e pensando na vida cara e na tua filosofia barata, imploro para que voltes para a boemia nossa de cada dia. Se quiseres, escuta com atenção, te resgato daí na marra, mesmo que na maca ou em camisa de força.

Leopoldo, meu sábio, não desiste, não te rende.

Mesmo sozinho, brindo à tua loucura para que ela, como a casa bíblica, resista fincada sobre a rocha e que os ventos da lucidez e os jalecos da ciência não te façam cair nas tentações do equilíbrio, da vida zen e da alimentação macrobiótica. Amém!

* * * * * *

Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé.

terça-feira, 31 de março de 2015

Sorria, mantenha a linha e não se afogue


por Fernando Evangelista*

No dia 10 de junho de 1914, o capitão escocês C. H. Brown acordou às quatro e meia da manhã, fez xixi no penico, vestiu a roupa, colocou o suspensório, olhou-se no espelho e disse: “É hoje!”.

Amante das marés traiçoeiras e das mulheres perigosas, de bacalhaus e papagaios, o capitão era instrutor da Escola de Navegação de Glasgow e realizava uma pesquisa sobre as correntes marítimas da Escócia.

O método consistia em lançar garrafas ao mar, colocando no interior uma mensagem explicativa sobre a pesquisa e um pedido de devolução a quem as encontrasse. Com a informação do horário e do local onde o objeto fosse resgatado, o cientista poderia mapear a rota percorrida, identificando as correntezas. Em 1914, o capitão lançou 1.890 garrafas ao mar.

O tempo passou, apenas 315 foram achadas, o cientista morreu e a pesquisa obteve sucesso considerável, mas havia sido completamente esquecida. E seria o fim desta história não fosse um cidadão escocês de 43 anos, gordinho e careca, chamado Andrew Leaper.

Em abril de 2012, na costa das ilhas Shetland, ele pescou uma das garrafas, exatamente 97 anos e 309 dias depois de ter sido arremessada ao mar pelo capitão Brown. O Livro Guinness dos Recordes confirmou Andrew como o autor do resgate da mais antiga garrafa com mensagem no mundo.

Com o jornal nas mãos, Leopoldo - o sábio dos balcões, filósofo bêbado do Rio Tavares, - leu essa notícia em voz alta para que todos ouvissem e como estávamos só ele, o dono do bar e eu, sua missão teve êxito.

Leopoldo dobrou cuidadosamente o jornal, colocou-o sobre o balcão, olhou para o copo de cachaça na sua frente, olhou para o ventilador de teto, deu uma geral no bar vazio à sua volta, fez que ia pegar o copo, mas pegou o meu braço e disse:

– Meu rapaz, nesta história da garrafa, neste pedacinho de jornal, está a tradução da minha vida e da vida de um bocado de gente.

Farejei o início de lampejos metafísicos. Pelo espelho, o dono do bar lançou-me um olhar que dizia sem dizer: “é sempre assim”, e concentrou-se na lavação dos copos, na nossa frente.

– Eu sou – continuou Leopoldo, com seu jeitão antigo e formal – este velho capitão a jogar mensagens no oceano, com a esperança de que alguém as encontre e as compreenda. Sou aquele que espera e vai fingindo paciência, fingindo não se importar.

– Isso parece letra de samba – eu disse.

Leopoldo esvaziou o copo e prosseguiu:

– Eu sou um pedaço de papel, enclausurado numa maldita garrafa, às vezes em branco, à espera de ideias, outras vezes manchado de erros, à espera de correção. Sou também a garrafa que, mesmo não querendo, mesmo com alguma resistência, vai seguindo a correnteza, indo para direções incertas, talvez girando em círculo, como esta do jornal, achada a apenas 18 quilômetros de onde foi lançada.

– De uma forma ou de outra, quase todo mundo está em busca de um porto seguro – interveio o dono do bar.

– Nada faz sentido – arrisquei.

– Ateu! – gritou o filósofo. Apontou o copo vazio sobre o balcão para que o dono o enchesse mais uma vez e prosseguiu, comparando-se ao mar, imprevisível, marcado por naufrágios, profundezas e por outras coisas que não cheguei a compreender. Parecia mesmo letra de samba.

Com um discreto balançar de cabeça, Leopoldo agradeceu mais uma dose servida pelo dono da bodega, deu outra espiada no ventilador de teto e seguiu a ilação:

– Nosso grande medo é ficar à deriva, sem alguém para nos acolher, é ver o mar nos engolindo e não dar conta do que nos exigem e eles exigem a mesma coisa em todo lugar: “sorria, mantenha a linha e não se afogue”.

Fez uma pausa e seu rosto ficou iluminado.

– Duas coisas, porém, duas coisinhas o marzão não vai me levar, porque são minhas e delas não abro mão.

E mantendo o tom grave e teatral, concluiu:

– Ninguém tasca a minha liberdade e a minha lucidez.

Sorriu, secou mais um copo de cachaça e se foi, sem pagar a conta.

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Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Trabalha na biblioteca comunitária Barca dos Livros em Florianópolis. Esta crônica, publicada ano passado aqui no Nota de Rodapé, foi reescrita e fará parte do livro O Piano de Casablanca (Editora Insular), que será lançado em maio.
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