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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 1 de setembro de 2015
O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte Final)
por Fernando Evangelista*
... E como ia dizendo, essa história de recolher giz, triturar tudo e espalhar pelas pás do ventilador de teto da nossa sala de aula, bem no dia da visita do governador do Estado, tinha tudo para dar errado.
Luciano teve a ideia e procurou dois cúmplices, Cristiano e eu. O plano foi traçado na escadaria do colégio, numa segunda-feira de novembro de 1988.
– Vai ser divertido.
– Acho arriscado.
– Que nada, é moleza.
Naquele ano, estudantes do colégio foram campeões brasileiros de xadrez e fizeram bonito na Olimpíada de matemática, conquistando uma medalha de ouro e outra de bronze.
Três dos integrantes da equipe de xadrez eram da nossa turma e por isso o governador passou na nossa sala, antes do evento oficial, para uma “saudação mais informal”.
A trupe oficial chegou, a regente deu as boas-vindas, o governador deu os parabéns para os “pequenos gênios do xadrez”, falou ainda sobre o trabalho em equipe, lealdade, honra e outras coisas bonitas e todo mundo bateu palmas e tudo bem ia bem até que alguém reclamou do calor.
– Liga o ventilador – ordenou a regente.
A partir daí, na minha memória, tudo acontece como se eu estivesse assistindo a um filme, daqueles da Sessão de Gala, quando existia Sessão de Gala, um típico filme B, exagerado nos closes e nas emoções.
Neste filme, o ventilador de teto aparece em primeiro plano, espalhando pó para todos os lados, lentamente. Corta. Closes em sequência dos olhos arregalados da madre superiora, da regente, dos alunos, das alunas e também da professora, que ainda não tinha aparecido nessa história. O governador permanece impassível, quase indiferente.
A câmera foca os alunos, de frente. Eu sou aquele lá no fundo da sala, à esquerda, pertinho da porta. Tenho medo desses homens engravatados, tenho medo da madre superiora, medo da regente e da neve falsa que continua a cair, devagar e sempre.
As meninas estão vestidas de saia bordô, camiseta bordô, casaquinho bordô, meias bordô e sapatos bordô. Os meninos estão também, de cima a baixo, de bordô - e tudo isso vai ficando branco, inclusive o hábito preto da madre, o cabelo da regente, os ternos dos assistentes do governador e o próprio governador parece, agora, bastante branco.
Não há trilha, só alguns gritinhos de espantos e tosses. Muitas tosses.
Luciano, mentor de tudo aquilo, está encolhido, quase desaparecendo, na pontinha da cadeira, queixo encostado à mesa. Cristiano, de cabeça baixa, parece petrificado. Me vejo outra vez: pálido, sem ar, arrependido. Por que me meti nisso?
Por respeito ao Luciano, provavelmente. O cara é o craque do time e, como todo craque, há meninas querendo namorar com ele. No fundo, todas as estripulias que a gente fazia se resumiam a três objetivos: chamar a atenção dos pais, afrontar professores e impressionar as meninas, principalmente impressionar as meninas. Aí a gente cresce, amadurece e... continua com os mesmos objetivos.
A neve continua a cair. Os homens do governador estão perfilados em frente à turma. Percebo que um deles me olha fixamente. É um olhar de acusação, de cão farejador, olhar de ameaça. Como ele poderia saber? Tento disfarçar, olho para os lados, mas me imagino com uma placa luminosa grudada na testa, dessas que piscam em vermelho à beira da estrada, em frente a hotéis sem categoria: Culpado!
Aquele homem sabia. Como ele poderia saber?
– Não imaginava que fosse ver neve hoje – disse o governador, quebrando o gelo, fingindo descontração.
Mas o governador é um homem sério, os homens do governador são sérios, a regente é séria e a madre superiora seriíssima. A turma, batizada-catequisada-quase-crismada, 100% católica, amedrontada por pecados e punições, também é séria.
Aquilo é sério pra cacete. É o suficiente para um processo de expulsão, no caso uma tripla expulsão.
– Senhores, foi um prazer – disse o governador, seguindo em direção à porta. Seus homens o acompanham, em fila.
Sentado na minha cadeira, lá no fundo, perto da porta, observo a marcha oficial e torço para que aquele homem-cão-farejador passe logo por mim e desapareça. Ele, porém, mantem o olhar e caminha na minha direção. Finalmente, ficamos frente a frente.
É muito mais alto do que imaginava. Ele me olha de cima a baixo e, sem mudar a expressão, sem levantar a voz, aperta o indicador de sua mão direita contra o meu peito magricelo e diz, marcando bem as quatro sílabas:
– De-sa-ca-to.
Que diabo significa aquilo?
O homem segue, cabeça erguida, mas a palavra gruda em mim. Ainda hoje, nas situações mais banais, a cena me vem à memória: o homem, o dedo, a acusação: “de-sa-ca-to”.
Apesar das investigações, pressões e centenas de ameaças, nunca ninguém descobriu quem tinha feito aquilo. E sabe por quê? Por uma razão bem simples e já citada: para impressionar as meninas, os mancebos (era assim que nos chamavam!) começarama reivindicar a autoria da ação.
Em menos de meia-hora, havia uns 40 culpados que, de peito aberto, contavam orgulhosos como tinha feito nevar na cabeça do governador, tudo nos mínimos detalhes.
Vendo aquela mentirada correndo solta, Luciano e Cristiano ficaram quietos. Eu, não, não gosto de mentira. E aí, para quem quisesse ouvir, confessei minha participação naquele ato subversivo. Eu, sim, eu mesmo, eu, mancebo desengonçado e rebelde, era um dos autores daquele feito.
Ninguém acreditou em mim.
* * * * * *
Fernando Evangelista é jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte 1)
por Fernando Evangelista*
A ideia foi do Luciano:
– Vamos pegar giz e triturar.
– Giz? Pra quê?
Ele explicou. Cristiano achou a coisa muito arriscada, eu também achei, mas a gente topou, a gente sempre topava as maluquices do Luciano. Ele tinha moral, era o artilheiro do nosso time.
Na escola, com aquele esquema de notas e competições, se aprende que para ser respeitado é preciso ser “o mais” em alguma coisa: ou o mais inteligente ou o mais valente ou o mais bonito ou o mais cdf ou o mais engraçado e, num colégio de freiras, também vale ser o mais católico. Luciano era o mais habilidoso – fazia gols em todas as partidas e de todos os jeitos.
Estávamos na escadaria do colégio. Era uma segunda-feira de novembro de 1988, por volta do meio-dia. O plano seria executado ainda naquela semana e coincidiria com a visita, em carne e osso, do excelentíssimo governador do Estado.
– Combinado?
Sim, claro, vamos nessa. E foi cada um para a sua casa, cabeça erguida e olhar atento, imitando a pose destemida dos fora da lei que a gente via no cinema.
Naquele ano, a equipe de xadrez do colégio sagrou-se campeã nacional nos jogos de Pernambuco, título inédito, que rendeu prêmios e viagens para os vencedores. Três desses jogadores estudavam na nossa sala; três nerds inteligentes e antipáticos que andavam sempre juntos e não falavam com mais ninguém. E, pela primeira vez, a Olimpíada Brasileira de Matemática fora conquistada por uma catarinense, ela também estudante do colégio, só que do período vespertino.
Como prova de reconhecimento oficial do Estado, o governador iria cumprimentar, pessoalmente, os gênios do xadrez e a menina prodígio da matemática. As homenagens ficaram agendadas para a sexta-feira, no período da manhã, no ginásio principal da escola.
Antes, porém, a pedido do próprio governador, ele passaria na nossa sala para uma saudação informal. O plano foi pensado para aquela sexta, mas começaria na manhã de quarta, bem cedo, antes do sinal.
Corredores ainda vazios, com duas sacolas de feira, nós três recolhemos giz em todas as salas do primeiro andar, em todas as salas do segundo e em todas as salas do terceiro. Exceto o encontro inesperado com a Irmã Veronice, na curva do corredor, correu tudo bem.
– O que é isso? – ela quis saber, olhando para as nossas sacolas.
– Maçãs – respondi. – A senhora quer uma?
Ela não quis.
Fomos embora antes das aulas começarem. Passamos a manhã triturando giz no quarto do Cristiano, num edifício rosa de três andares, pertinho do colégio. Era giz que não acabava mais e aquilo desencadeou em nós espirros em série. Achamos engraçado, a gente achava tudo engraçado naquela época.
Na quinta-feira, colocamos o pó dentro de sacolas plásticas de supermercado e essas a gente socou dentro das nossas mochilas, que ficaram redondas e pesadas. O plano foi concluído no fim da manhã, ao meio-dia.
Luciano improvisou uma escada, com mesa e duas cadeiras, no meio da nossa sala de aula. Cristiano subiu e foi colocando montanhas de giz triturado nas hélices do ventilador. Eu fiquei na porta, à espreita de algum inimigo. Não apareceu ninguém, nem a Irmã Veronice.
No dia D, sexta-feira, depois de duas aulas seguidas de matemática, a Madre Superiora e a regente apareceram para dar a notícia:
– O governador chegou.
Descobri naquele instante que governador nunca anda sozinho, está sempre rodeado de assistentes – um segura a pasta, outro segura o discurso, um controla o tempo, outro controla a multidão, quando há multidão, e assim por diante. Os homens do governador, de terno-gravata-e-sapatos-encerados, entraram porta adentro – e de repente a sala ficou apinhada de sobrenomes importantes.
Com fama de autoritário e antipático, o governador chegou feliz, distribuindo cumprimentos e sorrisos, como nos bons tempos da campanha eleitoral. – Fiz questão de vir aqui, pessoalmente, para dar os parabéns à equipe de xadrez, vencedora do prêmio nacional.
Aplausos orgulhosos da turma. Os três alunos se levantaram e, orientados pela Madre Superiora, agradeceram. Mais aplausos. O governador, ex-aluno do colégio, falou rapidamente sobre honra e outras coisas bonitas. E já estava quase indo embora, quando alguém reclamou do calor.
– Liga o ventilador – ordenou a regente.
Nunca, até então, eu tinha ficado paralisado de medo. E quando digo paralisado não é força de expressão, não. Fui dominado por uma terrível sensação de arrependimento. Luciano escorregou a bunda pela cadeira, tentando sumir ou se desintegrar. Cristiano permaneceu de cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no caderno.
“Vai dar merda”, foi a única coisa que pensei. E deu.
(Continua na terça-feira que vem).
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
A ideia foi do Luciano:
– Vamos pegar giz e triturar.
– Giz? Pra quê?
Ele explicou. Cristiano achou a coisa muito arriscada, eu também achei, mas a gente topou, a gente sempre topava as maluquices do Luciano. Ele tinha moral, era o artilheiro do nosso time.
Na escola, com aquele esquema de notas e competições, se aprende que para ser respeitado é preciso ser “o mais” em alguma coisa: ou o mais inteligente ou o mais valente ou o mais bonito ou o mais cdf ou o mais engraçado e, num colégio de freiras, também vale ser o mais católico. Luciano era o mais habilidoso – fazia gols em todas as partidas e de todos os jeitos.
Estávamos na escadaria do colégio. Era uma segunda-feira de novembro de 1988, por volta do meio-dia. O plano seria executado ainda naquela semana e coincidiria com a visita, em carne e osso, do excelentíssimo governador do Estado.
– Combinado?
Sim, claro, vamos nessa. E foi cada um para a sua casa, cabeça erguida e olhar atento, imitando a pose destemida dos fora da lei que a gente via no cinema.
Naquele ano, a equipe de xadrez do colégio sagrou-se campeã nacional nos jogos de Pernambuco, título inédito, que rendeu prêmios e viagens para os vencedores. Três desses jogadores estudavam na nossa sala; três nerds inteligentes e antipáticos que andavam sempre juntos e não falavam com mais ninguém. E, pela primeira vez, a Olimpíada Brasileira de Matemática fora conquistada por uma catarinense, ela também estudante do colégio, só que do período vespertino.
Como prova de reconhecimento oficial do Estado, o governador iria cumprimentar, pessoalmente, os gênios do xadrez e a menina prodígio da matemática. As homenagens ficaram agendadas para a sexta-feira, no período da manhã, no ginásio principal da escola.
Antes, porém, a pedido do próprio governador, ele passaria na nossa sala para uma saudação informal. O plano foi pensado para aquela sexta, mas começaria na manhã de quarta, bem cedo, antes do sinal.
Corredores ainda vazios, com duas sacolas de feira, nós três recolhemos giz em todas as salas do primeiro andar, em todas as salas do segundo e em todas as salas do terceiro. Exceto o encontro inesperado com a Irmã Veronice, na curva do corredor, correu tudo bem.
– O que é isso? – ela quis saber, olhando para as nossas sacolas.
– Maçãs – respondi. – A senhora quer uma?
Ela não quis.
Fomos embora antes das aulas começarem. Passamos a manhã triturando giz no quarto do Cristiano, num edifício rosa de três andares, pertinho do colégio. Era giz que não acabava mais e aquilo desencadeou em nós espirros em série. Achamos engraçado, a gente achava tudo engraçado naquela época.
Na quinta-feira, colocamos o pó dentro de sacolas plásticas de supermercado e essas a gente socou dentro das nossas mochilas, que ficaram redondas e pesadas. O plano foi concluído no fim da manhã, ao meio-dia.
Luciano improvisou uma escada, com mesa e duas cadeiras, no meio da nossa sala de aula. Cristiano subiu e foi colocando montanhas de giz triturado nas hélices do ventilador. Eu fiquei na porta, à espreita de algum inimigo. Não apareceu ninguém, nem a Irmã Veronice.
No dia D, sexta-feira, depois de duas aulas seguidas de matemática, a Madre Superiora e a regente apareceram para dar a notícia:
– O governador chegou.
Descobri naquele instante que governador nunca anda sozinho, está sempre rodeado de assistentes – um segura a pasta, outro segura o discurso, um controla o tempo, outro controla a multidão, quando há multidão, e assim por diante. Os homens do governador, de terno-gravata-e-sapatos-encerados, entraram porta adentro – e de repente a sala ficou apinhada de sobrenomes importantes.
Com fama de autoritário e antipático, o governador chegou feliz, distribuindo cumprimentos e sorrisos, como nos bons tempos da campanha eleitoral. – Fiz questão de vir aqui, pessoalmente, para dar os parabéns à equipe de xadrez, vencedora do prêmio nacional.
Aplausos orgulhosos da turma. Os três alunos se levantaram e, orientados pela Madre Superiora, agradeceram. Mais aplausos. O governador, ex-aluno do colégio, falou rapidamente sobre honra e outras coisas bonitas. E já estava quase indo embora, quando alguém reclamou do calor.
– Liga o ventilador – ordenou a regente.
Nunca, até então, eu tinha ficado paralisado de medo. E quando digo paralisado não é força de expressão, não. Fui dominado por uma terrível sensação de arrependimento. Luciano escorregou a bunda pela cadeira, tentando sumir ou se desintegrar. Cristiano permaneceu de cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no caderno.
“Vai dar merda”, foi a única coisa que pensei. E deu.
(Continua na terça-feira que vem).
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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
terça-feira, 11 de agosto de 2015
A pessoa certa
por Fernando Evangelista*
Quando entrei, as duas já estavam no elevador. Cumprimentei a senhora, cumprimentei a adolescente, e me pus no canto, fingindo interesse na luz que pulava de botão em botão: 7º andar, 6º, 5º, 4º... de repente o elevador tremeu, ficou escuro e parou.
– Droga – eu disse.
A adolescente resmungou alguma coisa indecifrável e apertou o botão da emergência, o único iluminado. Como não houve resposta, insistiu e ficou nisso por alguns segundos.
Uma voz mal-humorada ecoou pelo interfone. Devia ser o porteiro.
– Que é?
– Estamos trancados no elevador – eu disse.
– Outra vez? Que porcaria. Espera aí, vou ver o que posso fazer.
A luz interna voltou, mas bem fraquinha. Olhei a adolescente – era alta, magra, morena, com dois piercings espetados na sobrancelha esquerda. A senhora, de cabelos brancos, vestida toda de preto, devia ter uns 80 anos.
Foi nesse tempo, à espera de ajuda, que a neta fez a pergunta, como se as duas estivessem sozinhas:
– Vó, como a gente reconhece a pessoa certa?
Vasculhei meus bolsos à procura de alguma bala ou chiclete. Achei só o celular, sem serviço e quase sem bateria. “Pessoa certa? Isso lá é pergunta que se faça, menina? ”
No elevador, até onde sei, quando vizinhos ou colegas de trabalho se encontram, são bem-vindos cumprimentos formais, frases curtas sobre a chuva da véspera e a previsão do tempo para o fim de semana. Comentários sobre futebol, desde que sem polêmicas ou agressões, também são aceitos. E mesmo entre familiares, não cabem assuntos graves, como esses dilemas amorosos.
Talvez a avó tenha pensado a mesma coisa porque rebateu a questão.
– Pessoa certa pra que, minha filha?
– Pra namorar.
Olhei para o chão, para os botões do painel e outra vez para o celular sem sinal.
– Só conheço um jeito – disse a senhora.
– E qual é?
A resposta da velha me surpreendeu:
– Experimentando.
Pronto, o papo poderia parar por aí. A neta, porém, queria mais.
– Como a vó soube que o vô Luís era o par ideal, a alma gêmea, o grande amor?
Tinha algo de irreal aquela situação.
– Isso é complicado, minha filha – disse a mulher.
As duas ficaram em silêncio por um tempo. Depois a adolescente voltou a perguntar.
– Como a vó soube que ele era a pessoa certa?
A mulher entendeu que se não desse uma reposta, a neta ficaria insistindo até o fim dos tempos. Então, pensou um pouco e falou:
– Eu soube que o teu avô era o homem da minha vida porque, desde o começo, ele despertou sentimentos bons em mim. Ele me inspirava, me respeitava, me fazia rir à toa.
O elevador, finalmente, voltou a funcionar e chegamos sãos e salvos ao térreo. Agradeci ao porteiro, plantado em frente à porta, com cara de tédio e de poucos amigos. Avó e neta foram para um lado, eu fui para outro.
Parei na padaria da esquina, pedi papel, caneta e escrevi: “Ele me inspirava, me respeitava, me fazia rir à toa”.
Escrevi porque a frase poderia render uma crônica. Escrevi também, e principalmente, para não me esquecer.
Para nunca mais me esquecer.
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Baiano voador
por Fernando Evangelista*
A conversa era daquelas banais.
– Moto é um troço perigoso – ele disse.
– E divertido – acrescentei.
Estávamos no meu carro. Eu dirigia, cruzando as avenidas do centro da cidade, e o pai, no banco do carona, relembrava a mobilete que havia me dado muitos anos antes.
– Aquele presente foi uma irresponsabilidade.
Foi aí que aconteceu. Lembro-me do pai gritando:
– Cuidado!
Tarde demais. Uma moto, dessas populares, furou o sinal vermelho e atingiu nosso carro. Para-choque e capô serviram de catapulta para lançar o motoqueiro pelos ares. Só que ele, por susto ou por reflexo, provavelmente pelos dois, não largou o guidão da moto. E isso fez com que ambos, o homem e sua moto, saíssem voando unidos pela avenida – ele plantando bananeira no ar, um salto de Cirque du Solei.
– Jesus! – eu disse.
O motoqueiro desabou sobre o capô de outro veículo que vinha ao nosso lado, destruindo o para-brisa. O som do vidro quebrando me tirou do choque e eu murmurei, talvez tenha só pensado:
– Morreu.
Saí do carro e fui até o motoqueiro, estatelado no asfalto:
– Tudo bem?
Pergunta cretina, mas eu queria saber se o homem estava vivo. Juntou um mundaréu de curiosos. E já havia gente, com celular em punho, batendo foto dos dois carros, da moto e do motoqueiro.
– Tudo bem? - insisti.
Ele tirou o capacete, coisa que não se deve fazer em caso de acidente e, quase com um sorriso de alívio, respondeu:
– Tudo em paz, meu rei.
Não havia dúvida, o motoqueiro voador era baiano. Pareceu-me muito simpático, apesar da circunstância e do jeitão que ele ficou no asfalto, deitado de banda, assim meio de lado, com uma perna esticada e outra flexionada, como um corredor de maratona visto de perfil. Negro, 20 e poucos anos, o homem tinha um quê de Lázaro Ramos.
A partir daí aconteceram coisas que, suponho, sejam possíveis só no Brasil: Uma senhora, gordinha e disposta, queria levantar o motoqueiro pelos braços para reposicioná-lo porque “assim deve estar muito desconfortável”. Alguém explicou que isso não se pode fazer, é preciso chamar os socorristas. Uma estudante, com saia e coque de antigamente, entregou um santinho de são Judas Tadeu para o homem deitado no meio da rua:
– Este é o santo das causas impossíveis – ela disse. Tenha fé.
Foi juntando mais gente. Apareceu um que esbravejou contra a prefeitura, que não sinaliza direito os cruzamentos, outro falou que a prefeitura não tinha culpa no cartório, a culpa era dos motoqueiros irresponsáveis, que só fazem “trapalhada no trânsito”.
Um homem, aparentemente embriagado, argumentou que isso só iria melhorar quando fossem todos presos – políticos e motoqueiros, opinião que causou divergência entre o público. O bêbado queria colocar uma vela ao lado baiano. Eu o impedi:
– Vela para quê? O homem tá vivo!
A polícia chegou antes da ambulância – três policiais, em três motos diferentes. Meu pai explicou o que aconteceu, com muitos detalhes e alguns floreios. Sempre achei isso impressionante: ele não consegue – seja contar a história de um acidente de trânsito ou descascar uma vergamota – sem altas voltagens de entusiasmo.
Só então veio a ambulância.
– Eles estão chegando! – gritou uma mulher no ouvido do motoqueiro, como se ele fosse surdo. – Fica tranquilo. Não precisa entrar em pânico – mais gritos no ouvido.
Acionei o serviço de um guincho porque o meu carro não pegava. Antes da ambulância partir, o baiano me chamou, pediu meu telefone e entregou o seu cartão. Nome: Rodnei da Silva Santos. Profissão: Acrobata. E em letras bem grandes, na parte de baixo e de cima do cartão, o nome do circo: Grand Circo di Vitória da Conquista.
Parecia piada. O motoqueiro voador é um baiano acrobata. Conversamos um pouco e nos despedimos como dois velhos conhecidos.
Quando o guincho chegou, já sem plateia, pai e eu recolhemos os objetos que estavam no meu carro. Entre papeis de bala e extratos de banco, achei discos do Caetano, do Gil e um dos primeiros do João Gilberto, um livro de crônicas do João Ubaldo Ribeiro e outro do Ricardo Sangiovanni, um documentário, em DVD, sobre Glauber Rocha e, por último, um livro de memórias do meu tio Emanuel, irmão mais novo do meu pai.
Todos eles são baianos, com exceção do meu tio, que nasceu em Florianópolis, mas mora em Salvador e tem alma de baiano. O Glauber, para completar a coincidência – e isso só lembrei depois - nasceu em Vitória da Conquista, terra do motoqueiro voador.
Naquele instante, sem saber bem o motivo, fiquei feliz de conhecer a Bahia e de entender um pouquinho da sua grandeza.
– Tudo bem? – perguntou-me o condutor do guincho.
Olhei para ele, sorri e respondi com aquela inconfundível musicalidade:
– Tudo em paz, meu rei.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
terça-feira, 28 de julho de 2015
A orquestra e o país
por Fernando Evangelista*
Meu nome é Wesley, com y, tenho 29 anos e trabalhava, até sexta-feira passada, numa ONG dedicada a ensinar música erudita para jovens da periferia. Tudo ia bem, como nas propagandas de margarina, até que um patrocinador faliu, outro morreu, veio a crise e eu acabei metendo o nariz onde não devia.
A ONG, criada por um maestro e dois irmãos, começou pequena, oferecendo aulas gratuitas de piano e violino. Com apoio do município e de um patrocinador privado, além de doações ocasionais, ela cresceu, ampliou os cursos e formou uma orquestra.
Eu não entendo nada de música, mas aquela orquestra era coisa fina. As apresentações, concorridíssimas, lotavam praças, teatros e ginásios. Dava gosto de ver. Ano retrasado, a orquestra ganhou um prêmio do Ministério da Cultura e apareceu numa reportagem em rede nacional. Foi um sucesso.
Minha função na ONG estava escrita numa placa de madeira sobre a mesa: telefonista. Eu mesmo comprei a placa numa feira de artesanato. Diariamente, recebia uma porção de telefonemas e atendia cada um com atenção e gentiliza. Modéstia à parte, sempre fui bom de papo. Tinha especial simpatia pela Dona Dalva, que ligava quase todos os dias, por volta das cinco da tarde, para falar de um gato siamês recém-adotado.
Mas aí começou o drama: o patrocinador da orquestra faliu. E como notícia ruim nunca vem sozinha, o prefeito bateu as botas, abotoou o paletó, e assumiu o vice, que não gostava do maestro, nem de música, e decidiu cancelar o apoio. O dinheiro acabou.
Convocou-se uma reunião de emergência. Foi chamado o Conselho consultivo, o Conselho deliberativo e Conselho financeiro, cada qual munido de calculadora, tabela e planilha. Na sala de ensaios, umas 30 pessoas espremidas e abatidas ouviram o maestro, que vinha a ser também o diretor e fundador da ONG, anunciar:
– Ou encontramos uma saída ou teremos que fechar.
Aquele homem, sempre tão otimista, parecia a sinfonia da desesperança. O vice-diretor também estava arrasado. O maestro passou a palavra ao grupo. Ninguém falou nada. Então, meio sem pensar, levantei timidamente o braço, o coração deu aquela disparada, devo ter ficado vermelho.
– Fale, Wesley – autorizou o maestro.
Confesso que sou atropelado pela vaidade quando ouço o meu nome dito assim, com certa formalidade. Cá entre nós, é um nome de presença. Wesley, com y. Um dia vou ser deputado.
– Por que não vendemos alguns instrumentos? – sugeri.
As pessoas me olharam de um jeito estranho. Não gosto que me olhem assim. Alguém perguntou há quanto tempo eu trabalhava como telefonista. Respondi.
Os representantes do Conselho consultivo, do Conselho deliberativo e Conselho financeiro, canetas suspensas sobre as folhas rabiscadas de cálculos e dívidas, não disseram nada. Quem disse foi o maestro.
– Pode ser uma saída.
E assim foi feito. Primeiro foram vendidos os carrilhões, xilofones, vibrafones, marimbas, pratos, triângulos e castanholas. Quando os alunos de percussão chegaram à escola, deram de cara com o recado pregado na porta de entrada. Foi de cortar o coração.
Era, porém, por uma boa causa. Como se diz por aí, é “melhor perder alguns anéis do que perder o dedo”. Entrou dinheiro, as coisas estavam saindo como planejado. “Boa, Wesley”, disse para mim mesmo, orgulhoso. Um dia vou ser deputado.
A alegria durou pouco. Logo se constatou que o valor arrecadado era insuficiente. Aí foi a vez de vender as flautas, clarinetes, saxofones, oboés, trompas, trombones e trompetes. Os alunos de sopro se surpreenderam com o aviso pregado na porta de entrada. Outra comoção.
Alguns dias depois, os Conselhos administrativo, deliberativo e financeiro constataram que a conta ainda não fechava. E, por unanimidade, decidiu-se seguir com as vendas. E lá se foram os violinos, violas, violoncelos, contrabaixos e o piano de cauda. Falei para um dos alunos, o mais abatido de todos, aquele ditado dos anéis e dos dedos. Ele me mandou à merda.
Outra vez reunidos, os Conselhos decidiram seguir com as vendas. Mas vender o quê?
Já não havia mais nenhum instrumento para vender.
Vou dizer uma coisa: orquestra sem instrumento é um troço feio pra burro, feio e triste como um rio seco. Parece cemitério abandonado. Ouvi uma voz interna me dizendo: “Culpa tua, Wesley, culpa tua”. Eu nunca vou ser deputado.
Para tristeza geral, nessa última sexta-feira, 24 de julho de 2015, a ONG fechou as portas definitivamente. Quando eu estava saindo, depois de limpar minha mesa e guardar na mochila a plaquinha de madeira, ouvi o telefone tocar. Fiquei na dúvida, não sabia se atendia ou não. Atendi porque achei que fosse dona Dalva. Era engano.
Cheguei em casa, liguei a televisão e vi o ministro da Economia, acompanhado de uma trupe de assessores - munidos de calculadoras, tabelas e planilhas -, explicando as razões do novo pacote econômico. Ele falou termos esquisitos como “austeridade” e “governabilidade”. E, coincidência estranha, falou também sobre perder alguns anéis para não perder os dedos.
Apesar de eu não entender nada de economia, nem de anéis, a lógica da autoridade me pareceu semelhante à minha ideia infeliz de vender os instrumentos para salvar a orquestra.
Pensei em escrever uma carta para o ministro, contando esta história. Mas acho que o ministro não tem tempo para ler essas coisas – ele está ocupado, com suas planilhas, calculadoras e tabelas, salvando o país.
Tomara que consiga.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
terça-feira, 21 de julho de 2015
Família Feliz
por Fernando Evangelista*
Saí do elevador, percorri o corredor mal iluminado e no instante em que toquei a campainha, li a plaqueta pendurada na porta do apartamento: “aqui vive uma família feliz”.
Quase como um pressentimento, pensei em inventar uma desculpa, dar o fora e cancelar o jantar. Mas seria indelicado da minha parte e, além do mais, eu estava curioso. O casal feliz havia anunciado, por telefone e por e-mail, uma “grande novidade” e eu seria o primeiro a saber.
A anfitriã me recebeu com um sorriso largo, contrastando com as olheiras fundas e o semblante cansado. Ouvi o marido gritar da cozinha um seja bem-vindo de megafone. Abraços daqui e dali, Caetano na vitrola, vinho em cima da mesa, cheirinho de tempero, clima gostoso.
Os dois se conheceram na graduação, se casaram, tiveram dois filhos, os filhos já estavam crescidos e cursando a universidade. “Passa tão rápido”, murmurei, enquanto observava as fotos da família nos porta-retratos da sala. E pensei na plaquinha da entrada e na minha má vontade com essas afirmações de felicidade. Afirmações ou ostentações?
“Felicidade”, dizia minha vó, “é uma sensação circunstancial e não deve ser usada para humilhar os outros”. Vó Rosa viveu 101 anos e acreditava nas alegrias degustadas em silêncio e com humildade. Para ela, “alegria em voz alta só no carnaval e nas partidas de futebol”, coisas, aliás, das quais nunca gostou.
Há, porém, por toda parte, dentro e fora das redes sociais, um mundaréu de felizes fanáticos, seres barulhentos que gostam de exibir, a toda hora e a qualquer passo, suas magníficas vidas de propaganda de margarina. Vidas sem problemas nem angústias.
Além de colocar plaquinhas na porta, notas nos jornais, fotos nas revistas e posts no facebook, esse pessoal gosta de decorar o carro com mensagens e confissões edificantes. Já vi um assim: “Sou feliz porque sou católico”.
– Afinal, qual é a novidade? – eu perguntei, voltando a minha atenção ao jantar, enquanto minha amiga me servia o ravióli de mussarela com manjericão.
– Decidimos dar um basta – ela disse.
E me perguntou se eu lembrava a frase de Benjamin Disraeli que repetíamos na época de faculdade.
Frase? Não, eu não lembrava. Pedi, educadamente, que eles parassem de enrolar e contassem de uma vez a grande novidade.
A novidade começa com uma tia solteirona, que vivia sozinha em Ribeirão Preto (não lembro se tia dela ou dele), e que bateu as botas, foi desta para uma melhor, descansou. E, além de descansar, deixou uma herança para o casal. “Nenhuma fortuna”, explicou o marido, “mas nada desprezível”.
Chegara no momento certo, a herança. Ambos estavam de saco cheio da rotina e dos empregos, da cidade violenta e engarrafada, com discussões domésticas acumulando mágoas e desgastando a relação.
– Vamos pegar esse dinheiro inesperado – ela contou – vender os dois carros, vender o apartamento e curtir a vida.
– Sério? E vão fazer o quê? – perguntei, pensando outra vez na plaquinha da porta de entrada.
– Talvez a gente compre um barco e veleje por aí.
Dois anos se passaram.
Nessa última quinta-feira, fria e chuvosa aqui no Rio Tavares, recebi uma carta deles e algumas fotos das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Fiquei impressionado, em primeiro lugar, por descobrir que as Ilhas Seychelles realmente existem e, em segundo, por ver aqueles dois numa boa. Pareciam, talvez sem querer parecer, felizes de verdade.
Com letra bem desenhada, no cantinho esquerdo da carta, na vertical, estava a frase que repetíamos no tempo de faculdade e que eu não lembrei naquela noite: “a vida é muito curta para ser pequena”.
No dia seguinte, com olheiras profundas e sem heranças, sem carro e sem um imóvel próprio, acordei cedo e fui ao centro. Comprei uma plaquinha de madeira, em estilo de guirlanda de natal – absolutamente horrível – com os dizeres: “Aqui vive uma família feliz”. E preguei na porta de entrada da minha casa. Talvez funcione para alguma coisa, nem que seja para irritar os outros.
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Um homem bom
por Fernando Evangelista*
Ditas de supetão, muitas vezes sem sentido e sem contexto, as frases eram lançadas no meio de uma conversa qualquer:
– Basta de experiências, beba Caxambu.
E o pai ria sozinho. Ele mesmo falava e apenas ele entendia e eu ficava com cara de ponto de interrogação.
Dentro do carro, me levando à escola pela manhã, ele dizia sério, com voz de barítono:
– Toque outra vez, Sam.
– Quem é Sam? – eu queria saber, embora intuísse que ficaria sem resposta.
– Prendam os suspeitos de sempre.
– Pai, para com isso!
– Sempre teremos Paris.
Ele se divertia às custas da minha ignorância.
Anos mais tarde, descobri que “basta de experiências, beba Caxambu”, era uma publicidade de água mineral. E quando vi o filme Casablanca pela primeira vez, reconheci, nos diálogos de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, as citações que meu pai repetia naquela época e que continua repetindo ainda hoje.
Incompleto, de mão única, engraçado para ele e frustrante para mim, esse diálogo marcava a lonjura de nossos mundos, tão distantes quão distintos.
Às vezes as frases eclodiam como ordens ou reprimendas:
– Alto lá, moleque, eu sou da época do elixir paregórico!
– Ah?
– Dura Lex Sed Lex, no cabelo só Gumex.
Meu pai nasceu nos anos 30, numa Florianópolis muito pequena, quase uma aldeia, e as pontes que o ligavam ao resto do mundo eram o rádio – com suas novelas inesquecíveis e intermináveis; o cinema – com faroestes americanos dominando as matinês dos finais de semana – e, finalmente, a literatura, com as histórias de Edgar Allan Poe, Emílio Salgari, Rafael Sabatini, Edgar Rice Burroughs no topo da lista.
Se o pai começou a ver filmes e a ler para acessar mundos desconhecidos, eu o fiz para penetrar no mundo dele, para entender suas frases e assim, “entendido”, manter um diálogo que fizesse sentido para mim e despertasse algum interesse nele.
Futebol seria um caminho mais simples e mais rápido, caso ele entendesse alguma coisa do riscado. Nunca entendeu e nutriu, ao longo da vida, uma recíproca relação de desconfiança com a bola - nas poucas ocasiões em que se arriscou a jogar, deixou um rastro de vidraças quebradas, canelas inchadas e gols contra.
De minha parte, nunca gostei de papos jurídicos, nem de vê-lo, madrugada adentro, trabalhando naqueles processos intermináveis, que ocupavam sua mesa e o seu tempo. Gostava, porém, de vê-lo com a toga preta, que lhe dava um ar de super-herói, uma mistura de Batman e Zorro.
Unidos pelo afeto, mas sem interesses comuns, seguimos tropeçando em diálogos incompletos. E então, no fim da minha adolescência, a literatura nos ofereceu um amor em comum. Foi paixão à primeira vista e à altura de Casablanca e viramos, ele e eu, leitores de Carlos Heitor Cony, escritor fascinado por balões de São João e pelo assassinato, jamais esclarecido, de uma milionária chamada Dana de Teffé.
Devoramos todos os livros do Cony. Além dos romances, líamos e relíamos suas crônicas publicadas na imprensa e as melhores guardávamos numa pasta amarela. Essa pasta, mais do que um depósito de textos velhos, era o indício de uma aproximação, uma esperança de ponte entre nós.
Outros autores e outros filmes foram sendo descobertos e compartilhados. Também virei fã de Casablanca, embora não seja capaz de reproduzir, como ele, os diálogos da primeira à última cena. Ele assistiu ao filme centenas de vezes e não para de rever, para desespero de minha mãe que, bem antigamente, se comoveu com aquela história, mas se cansou de tantas reprises e de tantas citações.
O pai não se cansou. Cada vez que revê Casablanca ou lê uma crônica do Cony – daquelas que mereceram abrigo na pasta amarela, – ele se emociona e volta aos “anos mais antigos do passado”, volta ao seu tempo de descobertas, quando era um guri magrelo, de bigodinho indecente, que fumava Hollywood sem filtro e fazia política estudantil, usando qualquer meio-fio ou para-choque de carro para inflamados discursos contra prefeitos e presidentes. Entre um e outro ato político, sonhava com o Rio de Janeiro e com as pernas da Marlene Dietrich.
Neste último final de semana, no apartamento dele e da mãe, durante a macarronada nostra di ogni domenica, lembrei-me daquela famosa mistura linguística, ouvida à exaustão na infância: “Dura Lex Sed Lex, no cabelo só Gumex”.
– É o slogan de um gel de cabelo – ele explicou. – A frase foi inventada numa transmissão radiofônica, durante um jogo de futebol. O locutor precisava anunciar o gel e, sem saber o que dizer, saiu-se com aquilo.
Ele me pergunta se eu sei quem era o locutor.
– Não faço ideia.
– Ary Barroso, autor de Aquarela do Brasil.
– É? E a frase do elixir paregórico?
Aí o pai empertigou-se, deitou cuidadosamente o garfo sobre o prato, ajeitou o guardanapo sobre o colo, pegou o copo de vinho, deu um gole e, sem disfarçar o orgulho, disse:
– Essa é minha!
Ultimamente, descobrimos uma nova paixão em comum: as séries. A genial Família Soprano foi a primeira e, ano passado, assistimos à Breaking Bad, enredo capaz de causar dependência nos telespectadores. Ainda no domingo, quando nos despedíamos em frente à porta do elevador, ele disse, citando uma passagem famosa da série:
- Aprendi na reabilitação a aceitar quem eu realmente sou. Eu aceito quem eu sou.”.
– E quem você é?, perguntei, dentro da brincadeira e já de dentro do elevador.
– E quem você é?, perguntei, dentro da brincadeira e já de dentro do elevador.
– Eu sou o cara mau” ele respondeu.
Rimos enquanto a porta se fechava.
Saí satisfeito, as frases faziam sentido. Havia diálogo e interesses em comum. Havia cumplicidade e ela não estava, apenas, naquela pasta amarela.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
terça-feira, 7 de julho de 2015
Delito e mistério no colégio católico
por Fernando Evangelista*
Numa quinta-feira de setembro de 1988, repetindo uma rotina de anos, o zelador do colégio abriu a porta da recepção, olhou o relógio de parede, conferiu com o seu relógio de pulso e suspirou satisfeito – estavam sincronizados: eram seis e meia da manhã. Em seguida, arrastou as cortinas para que entrasse um pouco de luz, ajeitou o tapete vermelho da entrada, estranhamente enrugado, organizou lado a lado as caixinhas de chá inglês, colocou um por um dos biscoitos Exupéry dentro de um recipiente de vidro, fez café, deixou a garrafa sobre a mesinha lateral e, quando ia ligar a iluminação do aquário, sentiu um calafrio: os peixes haviam sumido.
Símbolo não oficial da instituição, metáfora do ensino que se pretendia exemplar, o aquário com dezenas de peixes coloridos, alguns enormes, todos meio obesos, era o xodó da Madre Superiora. Além de superiora, a Madre era uma diretora linha dura, temida pelos professores, funcionários e alunos. Cochichava-se pelos corredores que até os bispos morriam de medo dela.
A maioria dos habitantes do aquário tinha vindo do exterior, com exemplares importados do Vietnã, do Nepal e de outros lugares desconhecidos. Alguns chamavam atenção pelas cores brilhantes, especialmente o Chileno Dourado e o Yellow Tang. O zelador coçou a cabeça, pressentindo tempestades, e concluiu que alguém surrupiara os 30 peixes de estimação da Madre. Mas quem faria isso?
Para piorar, três peixinhos foram encontrados mortos na calçada, quase em frente à porta da recepção. As vítimas eram o Chileno Dourado e as raridades asiáticas.
Foi um pandemônio. Pais foram chamados, aulas canceladas, cartas anônimas, com fofocas e intrigas, se multiplicaram. O fato se espalhou pelas ruas e ganhou destaque exagerado nas colunas sociais. Montou-se um intricado esquema de investigação, com interrogatórios constrangedores, ameaças de castigo, ameaças de expulsão, detonando uma boataria em série capaz de surpreender empreiteiros e cardeais. Os bagunceiros como eu, suspeitos de sempre, trataram de arranjar um álibi e algum apoio familiar.
Quatro estudantes exemplares, nas notas e em comportamento, foram convocados para ajudar na investigação. Michel, meu amigo e vizinho, estava entre eles. Na manhã seguinte ao sumiço dos peixes, no palco do ginásio, acompanhada destes quatro alunos, a Madre proferiu um discurso que deixou todos, inocentes e culpados, cheios de apreensão e medo. Duas coisas que ela falou eu jamais esqueci:
– Quem oferecer informações sobre esse ato de vandalismo, ato que desafiou e debochou de 100 anos de tradição, será recompensado.
Talvez sem saber, ela tenha inaugurado a delação premiada no Brasil. A frase final do discurso me marcou ainda mais:
– Por bem ou por mal, – disse a Madre, retorcendo os lábios, tentando controlar a fúria, – vou descobrir quem fez isso, porque eu conheço o mundo e as pessoas.
“O mundo e as pessoas”, eu repetia mentalmente.
Nunca ninguém foi punido. O fato entrou para a história da instituição centenária e, até semana passada, o delito não havia sido esclarecido.
Mas alguns segredos não nasceram para a eternidade e aí neste último sábado, houve um encontro de ex-alunos num clube da cidade. Houve muita bebida, bebidas em excesso. E lá pelas tantas, houve também uma confissão.
Fui até a cabeceira da mesa, tirei de lá meu querido amigo Michel, sentei, peguei uma faca e bati no copo, pedindo silêncio. E então, para surpresa geral, revelei:
– Fomos nós, Michel e eu, que roubamos os peixes do aquário.
Fez-se um silêncio de perplexidade, daqueles que acompanham as revelações inesperadas. Mas depois foi um barulhão de vozes, com as pessoas perguntando ao mesmo tempo as mesmas coisas. Michel limitou-se a dizer: “Já era hora de contar. ”
Contei tudo. Ainda no começo daquele semestre, março de 1988, sem um objetivo definido, nós dois afanamos a chave da porta principal do colégio, que dava acesso à recepção, onde o aquário era exibido. Fizemos uma cópia naquele mesmo dia e devolvemos a original para que ninguém sentisse falta.
Mas o que fazer com a chave? Foi Michel, aluno acima de qualquer suspeita, quem teve a ideia de roubar os peixes e, se não falha a memória, o plano nasceu durante uma aula de Educação Moral e Cívica.
Lembrei-me de um aquário desativado na casa de minha Vó, que na época morava sozinha. Conversei com ela semanas antes da gatunagem.
– Vó, ganhei numa rifa 30 peixes e preciso de um lugar pra eles.
– Que rifa mais esquisita – ela disse, mas se prontificou a reativar o aquário e a acolher os novos hóspedes.
Por acaso, ouvindo uma conversa entre professores no corredor, descobri que seu Romero, o vigia noturno, estava com sarampo e não iria trabalhar. Aproveitamos a chance.
Michel e eu carregamos um isopor cheio de água, pesadíssimo, para depositar os peixes. Da chegada à fuga, esse isopor foi a nossa cruz. Por causa do peso, na saída do colégio, despejamos um pouco de água no meio-fio e não nos demos conta, devido à escuridão e à adrenalina, de que os peixes asiáticos e o Chileno Dourado haviam mergulhado de cabeça na sarjeta.
Os anos se passaram, o colégio perdeu alunos e o ranço autoritário, eu perdi cabelo e outras coisas, Michel também perdeu cabelo, mas ganhou um bocado de dinheiro, trabalhando com informática e sistemas de vigilância. Nenhum de nós dois, apesar do episódio, enveredou pelos caminhos do crime.
Os peixes se adaptaram bem ao novo habitat e tiveram uma vida longa e saudável. Seria de bom tom dizer que, por todos estes anos, carreguei a culpa pela rapina. Mas não seria verdade porque, no fundo, eu me sentia orgulhoso e importante, tal qual um Ronald Biggs, por ter “desafiado 100 anos de tradição”. A única coisa a me pesar a consciência foi a morte daqueles três peixinhos que, do berço à cova, viveram sempre em mundinhos apertados.
Minha vó – e esta era a única certeza que eu tinha – nunca suspeitou de nada. Porém, alguns meses antes dela falecer, numa festa de família, com 101 anos, lúcida e dinâmica, olhando-me nos olhos, rindo da minha ingenuidade, e celebrando ela também um segredo de tantas décadas, contou:
– Fernando, escuta só, eu sempre soube a verdade sobre os peixes do aquário.
E riu discretamente, como aquele jeito de quem realmente conhecia bem o mundo e as pessoas.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Barca dos livros, confira o ensaio fotográfico
Com o maior acervo de literatura infantil e juvenil de Santa Catarina, a Barca dos Livros é uma biblioteca comunitária que funciona na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Em 2014, concorrendo com 998 projetos de todo o país, a Barca conquistou o Prêmio Vivaleitura, promovido pelo Ministério da Cultura, Ministério da Educação e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos, e foi eleita a melhor biblioteca comunitária do Brasil.
A página da Barca no facebook é esta aqui.
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
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Ensaio Fotográfico Fernando Evangelista
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Uma morena e um acaso
por Fernando Evangelista*
No colégio-católico-apostólico, o professor de redação, culto e sisudo como um lorde inglês, disserta sobre enredos, personagens e elipses. É uma segunda-feira de ventania, raios e trovões. Há algo de cinematográfico nessas tempestades.
Apesar do dilúvio, a aula prossegue sem grandes imprevistos ou complicações. E então a porta se abre: “Professor, desculpe interromper” – diz uma voz feminina, “eu gostaria de fazer uma pergunta para a turma. Posso?”
É a professora de artes, recém-contratada. Bonita e misteriosa, vestindo sempre roupas leves e esvoaçantes, mesmo em dias frios, ela seria descrita pelo meu tataravô Córis, corsário poliglota, como um “pezzo di gnocca”.
- Alguém perdeu alguma coisa? – pergunta a mulher.
A turma faz cara de ponto de interrogação, como quem diz sem dizer: do que você está falando? Perdeu o quê? Onde? Quando? A princípio, ninguém sente falta de nada e a morena vai embora.
A morena vai, mas a pergunta fica. Prevendo que o falatório acabaria em desordem, o professor desafia os alunos a escreverem um texto curto, respondendo à pergunta: O que você perdeu?
Isso aconteceu em 17 de agosto de 1987.
Eu era um dos alunos e cursava o ensino fundamental. Lembro-me do fato e do dia porque guardei o texto e, principalmente, por causa de uma coincidência estranha. Transcrevo a composição com alguns retoques de estilo e com as vírgulas nos seus devidos lugares:
Perdi muita coisa na vida. Perdi um rolimã, várias pipas, um álbum de figurinha da seleção brasileira de 1982, dois jogos do Atari, uma mochila de escoteiro, a chave de um baú, que vai ficar eternamente fechado, um autógrafo do Zico, maior herói brasileiro de todos os tempos. Perdi a paciência com a minha irmã e acertei-lhe um violão na cabeça. Perdi um amuleto da sorte, que só me dava azar, e duas cartas da Eliza, minha primeira namorada. Primeira e única, registre-se. Por enquanto, registre-se isso também. Perdi ainda duas amígdalas e um apêndice.
A coincidência vem agora. Naquele dia, a pedido de minha mãe, eu havia ido à biblioteca da escola à procura do recém-lançado O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas peguei por engano um chamado A Rosa do Povo, do Carlos Drummond de Andrade, de quem nada sabia, apenas que tinha sido expulso de um colégio de padres na infância, acusado de “insubordinação mental”, o que lhe garantia um lugar de honra no meu pantheon imaginário.
Para parecer culto e sensível e ganhar elogios do professor, citei um verso que encontrei no livro do poeta. O verso falava sobre perdas.
Naquela noite, montando um quebra-cabeça no tapete da sala de estar, assustei-me quando ouvi a musiquinha do Plantão da Globo, prenúncio de todas as tristezas e tragédias dos anos 80. Sérgio Chapelin anunciou: “Carlos Drummond de Andrade, maior poeta brasileiro de sua geração, morreu às 20h45 desta noite, de insuficiência respiratória, exatamente 12 dias depois de enterrar sua única filha. Drummond tinha 84 anos”.
Foi só uma coincidência, obviamente, mas gostaria que não tivesse sido. Seria bom acreditar numa ligação entre o poeta e aquele menino franzino e assustado, metido a filósofo, apaixonado por morenas e vestidos esvoaçantes.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Da série Republicando.
terça-feira, 16 de junho de 2015
A música da floresta
por Fernando Evangelista*
Quando Leopoldo me contou a história, não gostei. Pareceu-me tolinha.
– Autoajuda – eu disse.
Leopoldo, o filósofo do Rio Tavares, argumentou que aquilo era profundo como um oceano e que eu era um sujeito insensível de coração e fraquinho das ideias. Estávamos de papo no balcão do bar, lado a lado, mesas vazias atrás de nós.
– Boteco vazio é um troço triste – eu disse. E me corrigi: triste é essa história. Onde você leu?
– Uma antropóloga me contou. Ela viveu na África durante alguns anos.
– Antropóloga?
– De olhos verdes.
Pelo jeito como falou “olhos verdes”, detectei indícios de paixão.
A história é mais ou menos assim: Numa tribo do Zimbábue, quando uma mulher descobre que está grávida, vai para a floresta e, acompanhada de outras mulheres, reza e medita até que a “canção da criança” seja revelada. Leopoldo tentou me explicar como essa revelação se dava, mas não entendi.
Cantada pela comunidade em ocasiões especiais, a música irá acompanhar o novo ser durante toda a vida, da infância à velhice.
– Tem mais, tem mais – ele me disse, segurando no meu braço. – Com a música, aquele que estava perdido, engolido por tempestades, à deriva, tem a chance de se reencontrar e se redescobrir.
Bebeu a cerveja, limpou com as costas da mão a espuma que ficara no bigode, e concluiu:
– Se por acaso, algum dia, a pessoa se meter em alguma encrenca feia, se cometer algum erro grave ou algum delito, os integrantes da tribo se reúnem e, em círculo, cantam juntos a canção para que a pessoa recupere a lucidez e o bom-senso.
Estranho, esse filósofo. Ele sempre foi um homem cético, às vezes cínico, inimigo dos moralismos, do purismo, do romantismo, de todos os ismos, mas agora alguma coisa nele parecia diferente.
– Tu achas que isso ia dar certo aqui no Rio Tavares? – perguntei.
Ele sorriu. E, como um aluno aplicado, explicou que a autora da história era uma tal de Tolba Phanem e que a antropóloga havia lido, se emocionado, e decidido conhecer pessoalmente a tribo.
Em seguida Leopoldo pediu a conta, pagou a dele e a minha, fato inédito, olhou-me fundo e me disse sem medo de parecer piegas:
- Descobri a minha música, cara.
E foi se encontrar com a antropóloga de olhos verdes.
Dia desses, investiguei na internet essa historinha africana. Descobri que essa tal de Tolba Phanem, embora citada centenas de vezes, na verdade não existe. A história existe. A antropóloga também. E é bonitona, tem olhos verdes e, pelo que anda cochichando o povo do Rio Tavares, está perdidamente apaixonada pelo nosso Leopoldo, o sábio dos balcões.
Que os deuses da floresta protejam essa paixão.
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Foto de Michele Menegon.
Quando Leopoldo me contou a história, não gostei. Pareceu-me tolinha.
– Autoajuda – eu disse.
Leopoldo, o filósofo do Rio Tavares, argumentou que aquilo era profundo como um oceano e que eu era um sujeito insensível de coração e fraquinho das ideias. Estávamos de papo no balcão do bar, lado a lado, mesas vazias atrás de nós.
– Boteco vazio é um troço triste – eu disse. E me corrigi: triste é essa história. Onde você leu?
– Uma antropóloga me contou. Ela viveu na África durante alguns anos.
– Antropóloga?
– De olhos verdes.
Pelo jeito como falou “olhos verdes”, detectei indícios de paixão.
A história é mais ou menos assim: Numa tribo do Zimbábue, quando uma mulher descobre que está grávida, vai para a floresta e, acompanhada de outras mulheres, reza e medita até que a “canção da criança” seja revelada. Leopoldo tentou me explicar como essa revelação se dava, mas não entendi.
Cantada pela comunidade em ocasiões especiais, a música irá acompanhar o novo ser durante toda a vida, da infância à velhice.
– Tem mais, tem mais – ele me disse, segurando no meu braço. – Com a música, aquele que estava perdido, engolido por tempestades, à deriva, tem a chance de se reencontrar e se redescobrir.
Bebeu a cerveja, limpou com as costas da mão a espuma que ficara no bigode, e concluiu:
– Se por acaso, algum dia, a pessoa se meter em alguma encrenca feia, se cometer algum erro grave ou algum delito, os integrantes da tribo se reúnem e, em círculo, cantam juntos a canção para que a pessoa recupere a lucidez e o bom-senso.
Estranho, esse filósofo. Ele sempre foi um homem cético, às vezes cínico, inimigo dos moralismos, do purismo, do romantismo, de todos os ismos, mas agora alguma coisa nele parecia diferente.
– Tu achas que isso ia dar certo aqui no Rio Tavares? – perguntei.
Ele sorriu. E, como um aluno aplicado, explicou que a autora da história era uma tal de Tolba Phanem e que a antropóloga havia lido, se emocionado, e decidido conhecer pessoalmente a tribo.
Em seguida Leopoldo pediu a conta, pagou a dele e a minha, fato inédito, olhou-me fundo e me disse sem medo de parecer piegas:
- Descobri a minha música, cara.
E foi se encontrar com a antropóloga de olhos verdes.
Dia desses, investiguei na internet essa historinha africana. Descobri que essa tal de Tolba Phanem, embora citada centenas de vezes, na verdade não existe. A história existe. A antropóloga também. E é bonitona, tem olhos verdes e, pelo que anda cochichando o povo do Rio Tavares, está perdidamente apaixonada pelo nosso Leopoldo, o sábio dos balcões.
Que os deuses da floresta protejam essa paixão.
* * * * * *
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Foto de Michele Menegon.
terça-feira, 2 de junho de 2015
A maconha da lata
– Se existisse a possibilidade de viajar no tempo...
– Já existe – ele interrompeu.
– Existindo a possibilidade de viajar no tempo, para onde o senhor
iria?
Já passava das dez da noite e ninguém arredava o pé do auditório
da faculdade. Todos os lugares, os oficiais e os de improviso, estavam
ocupados.
Doutor honoris causa em diversas universidades, com quase 80 anos,
lúcido e bem-humorado, o nobre cientista respondeu:
– Se pudesse viajar no tempo, eu iria para o Rio de Janeiro em
1987.
Como ninguém entendeu, ele explicou. E fez a alegria da plateia.
Em setembro de 1987, tripulantes do Solana Star, barco pesqueiro
de bandeira panamenha que navegava próximo à costa brasileira, despejaram 22
toneladas de maconha no mar. A erva estava em latas de alumínio, parecidas com
latas de leite em pó, cada uma de um quilo e meio.
Os tripulantes livraram-se do entorpecente porque descobriram que
a Polícia Federal brasileira, alertada pelo DEA – órgão de combate às drogas da
Polícia Federal americana –, já sabia do carregamento. Para evitar o flagrante,
jogaram tudo no mar.
A peripécia do Solana Star, e de seus sete tripulantes, quase
todos americanos, começa na Austrália, passa por Cingapura, onde permanece
alguns dias e onde teria sido abastecido com as latas, e segue em direção ao
Brasil. O plano era repassar a maconha para duas outras embarcações menores no
Rio e levá-la para Miami, o destino final. Não deu certo.
Os traficantes, porém, não se desesperaram. Com o barco “limpo”,
fundearam calmamente no porto do Rio e, sem serem incomodados, saíram do país
para nunca mais voltar. Ficou só o cozinheiro, o único tripulante preso nessa
história. Condenado em primeira instância a 20 anos de prisão, foi absolvido
por falta de provas pelo Tribunal Federal de Recursos.
E assim, como por encanto, 15 mil latas chegaram às praias
brasileiras, concentrando-se em São Paulo e no Rio de Janeiro. Tanto para os
policiais, quanto para a turma do fumacê, foi um Deus nos acuda – não só pela
quantidade, mas também pela qualidade da erva.
Qualidade jamais vista na história deste país, extremamente pura e
potente. No livro Verão da Lata, do
jornalista Wilson Aquino, o delegado Antônio Royal resume o inusitado da
situação: “Imagine o sujeito que é usuário de droga, está na praia, vê uma lata
boiando, abre e está cheia de maconha. Quer dizer, isso é como a lâmpada do
Aladim! Onde já se viu maconha boiando de graça?”.
Nunca ninguém tinha visto, nem boiando, nem de graça. Nem mesmo o
experiente pescador Messias, entrevistado por Aquino: “Por causa da força da
situação, eu experimentei. Fiz um charutão numa folha de banana, dei uma, duas
e não consegui dar a terceira tragada. Comecei a rir sem parar. Chamei a minha
mulher, ela experimentou e caiu na risada. A gente ficou muito louco”.
Loucos ficaram também os traficantes locais, que viram os clientes
minguarem. Ninguém precisava comprar porque todo mundo tinha, da melhor e de
graça. A turma ficou feliz da vida, os policiais furiosos e o fato entrou para
a história da cultura underground brasileira.
Muitas pessoas, lembrou o velho cientista, resgataram quantidades significativas de latas e as entregaram às autoridades. Multiplicaram-se surfistas e pescadores e o desafio policial era diferenciar quem eram os “do bem” ou “do mal”. Um delegado adotou uma solução curiosa: quem fosse pego com um abridor de latas, flanando serelepe pela praia com cara de felicidade, seria sumariamente levado para a delegacia.
Muitas pessoas, lembrou o velho cientista, resgataram quantidades significativas de latas e as entregaram às autoridades. Multiplicaram-se surfistas e pescadores e o desafio policial era diferenciar quem eram os “do bem” ou “do mal”. Um delegado adotou uma solução curiosa: quem fosse pego com um abridor de latas, flanando serelepe pela praia com cara de felicidade, seria sumariamente levado para a delegacia.
Segundo testemunhas oculares, o verão carioca de 1987-1988 foi o
mais festivo, pacífico e divertido da década. Nunca se foi tanto à praia, nunca
se matou tanta aula chata e tanto trabalho inútil. Paz e amor em versão
completa, sob a proteção do Cristo Redentor.
Das dezenas de reportagens veiculadas na tevê sobre o caso, uma é
especialmente reveladora. Um delegado caçador de latas, Marlboro nas mãos,
afirma: “As drogas são o mal do mundo”. A cena seguinte é de um promotor, entrevistado
em casa, dizendo que quem for pego com as latas será severamente punido. Atrás
do digníssimo promotor, uma estante de bebidas alcoólicas de todos os tipos.
Há algum tempo, psiquiatras, psicólogos e outros especialistas
debateram a questão dos entorpecentes no Senado. A droga, segundo eles, que
mais causa dano à sociedade é o álcool. Estudo publicado na revista inglesa The
Lancet, medindo os danos à sociedade e ao usuário, também coloca o álcool no
topo da lista. Em segundo e terceiro lugares, estão a heroína e o crack. De
acordo com esse estudo, o tabaco é mais prejudicial do que a maconha.
Depois de contar a história, provocando risadas na plateia, o cientista
lamentou: “Naquele momento, o Brasil perdeu uma grande chance de discutir aberta
e profundamente a questão das drogas”. E concluiu: “Só o conhecimento pode nos
salvar”.
O conhecimento e, claro, um pouco de bom humor, que não faz mal a
ninguém, não tem contraindicações, nem causa dependência.
******
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Ilustrações de Vicente Mendonça, feitas especialmente para o texto. Crônica da série: republicando.
terça-feira, 26 de maio de 2015
O tempo que nos resta
por Fernando Evangelista*
Minha crise existencial começou numa longínqua manhã de agosto de 2012, exatamente às 15h58min, quando a norte-americana Katie Ledecky tocou sua mão direita na borda da piscina do Parque Aquático de Londres e sagrou-se campeã olímpica de natação. Katie tinha 15 anos de idade.
“Ultimamente têm passado muitos anos”, percebeu Rubem Braga décadas atrás. E eles, os anos, parecem mais velozes e fugidios do que a adolescente americana, nascida em 17 de março de 1997. Valha-me Deus, 1997 foi logo ali, quase um piscar de olhos, quase anteontem. Certo? Errado – faz um tempão.
Em março de 1997, o Brasil mal conhecia o tenista Guga Kuerten – passou a conhecê-lo depois da vitória em Roland Garros, em junho daquele ano. Logo em seguida, outro cabeludo surpreenderia o mundo, sendo anunciado – com pompa e capim – como o primeiro mamífero clonado da história. Muita água poluída correu sob a ponte: Guga está aposentado e a ovelha Dolly já passou desta para a melhor.
Foi o ano do Guga, da Dolly e do escândalo da compra de votos no Congresso, para aprovação da emenda da reeleição do Fernando Henrique Cardoso, que na época não gostava de maconha. Lula e o PT eram baluartes da ética e denunciaram a falcatrua.
Quando a campeã olímpica nasceu, ninguém conhecia a inglesa J. K. Rowling, porque a saga Harry Porter ainda não havia sido lançada. A Princesa Diana não havia morrido, Titanic era uma famosa tragédia marítima (e não um estrondoso sucesso cinematográfico) e a seleção francesa de futebol havia derrotado o Brasil apenas uma vez, na Copa de 1986.
Alhos e bugalhos à parte, há algo em comum entre navios, ex-presidentes, bruxos ingleses, uma princesa samaritana e a seleção brasileira. Todos prometeram fantasia e um final redentor, bateram recordes de popularidade e, em certos momentos, nos deram a sensação de invulnerabilidade.
Entretanto, a história ensina e a morte confirma, essas promessas só funcionam na literatura de ficção, porque na ficção da política ou mesmo na vida real, elas frequentemente acabam em retumbantes quebrações de cara, em naufrágios irremediáveis, como aquele (já faz tanto tempo) jogo entre Brasil e Alemanha na Copa de 2014.
Voltando ao passado remotíssimo, Neymar tinha 5 anos em 1997 e o maior medalhista olímpico da história, o anfíbio Michael Phelps, 12. Em 1997, a internet engatinhava e o bate-papo virtual mais conhecido era um troço chamado mirc – que a gurizada só usava depois da meia-noite por causa da conta telefônica. Não existia tela-plana, televisão HD, iPads, iPods, Android ou Michel Teló.
Para não pensar na rapidez do tempo, resolvi desperdiçá-lo na internet. E passei a vasculhar nas gavetas virtuais a identidade do esportista mais velho a conquistar uma medalha olímpica. Este deveria ser a minha referência e exemplo. Tremi de emoção ao descobrir que o mais velho atleta olímpico a ganhar uma medalha tinha 72 anos.
O sueco Oscar Swahn – este é o nome do vovô – conquistou medalha de bronze nos jogos olímpicos da Antuérpia em 1920. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: ele ganhou medalha e fama mundial praticando “Tiro Duplo ao Veado”. Sendo eu vegetariano e a favor da diversidade, este sueco foi uma baita decepção.
Depois da descoberta deste vovô, até alegrei-me com o ouro conquistado pela adolescente Katie Ledecky, que poderia estar por aí matando bichos, mas vive de superar limites e bater recordes, numa luta constante contra o tempo.
E esta parece ser a grande ironia porque quanto mais os homens e as mulheres superam cronômetros e limitações, o tempo se defende correndo mais e mais, para que ninguém o alcance, nem mesmo o jamaicano Usain Bolt.
A nós, pobres mortais, medalhistas ou não, cabe a tarefa de lembrar o tempo que passou e, a partir daí, sem pressa e sem preguiça, usufruir o tempo que nos resta.
Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.
terça-feira, 19 de maio de 2015
O adesivo do Fusca
por Fernando Evangelista*
As seis letras estavam grudadas no vidro traseiro do fusca: vida ok.
Eliza estava no trânsito, viu o fusca e não esqueceu aquele adesivo. Alguns dias depois, no sofá da minha casa, já tarde da noite, ela me disse:
– O dono do carro poderia ter escolhido aquelas lições de autoajuda ou gratidões religiosas. Preferiu a simplicidade.
– Tá, e daí?
– Daí nada.
Mas mudou de ideia, tomou um gole do vinho tinto, e se corrigiu:
– Daí tudo – ela disse – porque, em primeiro lugar, é muito difícil ser objetivo e simples. A gente tem a tendência de complicar as coisas. E também porque é assim que deve ser a vida, pelo menos a vida que procuro ter: curta nas explicações e infinita nos sentidos.
Ela esticou as pernas no sofá – sempre que se põe a filosofar ela estica as pernas – e continuou:
– Uma vida ok nas miudezas da rotina, simples no banal e no desimportante e, por isso mesmo, extraordinária. Tô viajando, né?”.
A viagem dela me fez pensar nas minhas crônicas e reportagens. Queria, sempre quis, e falei isso pra ela, produzir textos como o adesivo do fusca. Certeiros, sem firulas ou truques. Nunca consegui.
Citei Drummond em Confissões de Minas: – “certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples”.
A partir daí, pensando em voz alta, e nem um pouco impressionada com minha memória literária, ela juntou tudo e me confundiu, como de costume:
– No fundo, por alguns anos, andei procurando um amor que me levasse e um texto que me escrevesse e que ambos – amor e texto – deixassem a minha vida mais ok.
Não sabia a qual texto ela estava se referindo, supôs que estivesse falando da própria história.
– É tudo uma maneira de ver, entende? Quando menina, li uma frase assim: ‘Não vemos as coisas como são, mas como somos'. De quem será essa frase?
Eu não sabia. Ela continuou:
– Quando parei de procurar, encontrei. Não é louco isso?
– .....
– É louco ou não? – ela insistiu
– É – respondi.
Depois de algum tempo em silêncio, perguntei se ela estava bem. Eliza encolheu as pernas, tomou mais um gole de vinho, levantou as sobrancelhas e disse, sorrindo:
–Tudo ok.
E adormeceu no sofá.
* * * * * *
Fernando Evangelista escreve as terças no Nota de Rodapé. Foto: arquivo do autor.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Loira Gina
por Fernando Evangelista*
Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina
A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.
Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:
– A Gina é muito velha.
– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.
O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:
– Não parece velha, essa mulher é nova.
O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.
– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.
– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.
– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.
E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:
– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.
– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.
– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.
– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.
Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.
Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.
Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?
Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.
Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.
Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.
Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.
Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina
A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.
Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:
– A Gina é muito velha.
– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.
O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:
– Não parece velha, essa mulher é nova.
O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.
– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.
– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.
– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.
E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:
– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.
– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.
– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.
– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.
Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.
Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.
Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?
Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.
Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.
Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.
Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.
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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Estimada e desconhecida alma gêmea
por Fernando Evangelista*
Saudações. Meu nome é Cristina – a família me chama de Tina, os colegas do trabalho me conhecem como Cris e tu podes me chamar como quiseres. Bom, eu estou escrevendo esta carta porque, puta que o pariu, cansei de te esperar.
Olha que te procurei pelos lugares mais respeitáveis e pelos becos mais suspeitos. Experimentei de tudo e não me arrependo de quase nada, exceto, verdade seja dita, do caso com o chinês e com aquele capixaba, que colecionava mulheres e passagens pela polícia.
Eu sei, só uma idiota para acreditar nessa bobajada de amor romântico, de amor perfeito, de príncipe herói. Sou uma idiota completa. Para te achar, rezei, fiz mandinga, simpatia, fingi indiferença, fiz promessa, dancei sertanejo universitário, fiz de tudo, só não espetei agulha em boneco, que não me serviria de nada.
Querida alma gêmea, amor da minha vida, tu és padre? Estás casada com a pessoa errada? Morreste há muitos anos e não cumpriste o destino? Eu sou aquela que sobrou?
Sou dramática, né? Dramática e um pouco louca, sabe? Várias vezes tive a certeza de ter te encontrado. No começo, todos os homens meio que se parecem contigo. São atenciosos, interessados, educados. Todos têm um brilho nos olhos, uma ternura, uma carinha que dá aquela alegria no coração. Mas depois...
Depois é aquela coisa desagradável que vem junto com a intimidade e a convivência diária.
Lá no fundo, vou ser sincera, sonho com um amor no estilo daquele noticiado pelo jornal The Sun. É a história de uma inglesa de 43 anos e uma porca. O nome da mulher é Janey Byrne e da porca é Meeka, ou alguma coisa assim, sem sobrenome.
Janey comprou a mini porquinha e confiou na promessa do vendedor de que o bicho permaneceria pequeno para sempre, como um cachorro maltês. Até o fim de sua suínica vida, garantiu o homem, Meeka seria um porquinho-anão, um bonsai-porquinho.
Pois três anos depois, criada desde então dentro de casa, a mini porquinha transformou-se numa porca de 107 quilos, com 76 centímetros de altura e 1,5m de comprimento.
Aí alguém perguntou para Janey sobre essa transformação drástica e ela, veja você, disse alguma coisa assim: “No início, fiquei decepcionada por Meeka não ser micro, mas agora não mudaria nada nela. Eu a amo assim”. Uau!
Eu queria um amor deste tipo – e você nem precisaria ficar com 107 quilos. Pensando bem, embora frustrante e doída, essa minha procura permite a ideia de perfeição, de eternidade, permite qualquer coisa, menos, lógico, viver um grande amor. Mas viver um grande amor, tu deves saber, é muito arriscado, perigoso mesmo. Ainda assim, sigo te procurando.
Onde tu estás?
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve as terças-feiras no Nota de Rodapé. Crônica da série republicando.
Saudações. Meu nome é Cristina – a família me chama de Tina, os colegas do trabalho me conhecem como Cris e tu podes me chamar como quiseres. Bom, eu estou escrevendo esta carta porque, puta que o pariu, cansei de te esperar.
Olha que te procurei pelos lugares mais respeitáveis e pelos becos mais suspeitos. Experimentei de tudo e não me arrependo de quase nada, exceto, verdade seja dita, do caso com o chinês e com aquele capixaba, que colecionava mulheres e passagens pela polícia.
Eu sei, só uma idiota para acreditar nessa bobajada de amor romântico, de amor perfeito, de príncipe herói. Sou uma idiota completa. Para te achar, rezei, fiz mandinga, simpatia, fingi indiferença, fiz promessa, dancei sertanejo universitário, fiz de tudo, só não espetei agulha em boneco, que não me serviria de nada.
Querida alma gêmea, amor da minha vida, tu és padre? Estás casada com a pessoa errada? Morreste há muitos anos e não cumpriste o destino? Eu sou aquela que sobrou?
Sou dramática, né? Dramática e um pouco louca, sabe? Várias vezes tive a certeza de ter te encontrado. No começo, todos os homens meio que se parecem contigo. São atenciosos, interessados, educados. Todos têm um brilho nos olhos, uma ternura, uma carinha que dá aquela alegria no coração. Mas depois...
Depois é aquela coisa desagradável que vem junto com a intimidade e a convivência diária.
Lá no fundo, vou ser sincera, sonho com um amor no estilo daquele noticiado pelo jornal The Sun. É a história de uma inglesa de 43 anos e uma porca. O nome da mulher é Janey Byrne e da porca é Meeka, ou alguma coisa assim, sem sobrenome.
Janey comprou a mini porquinha e confiou na promessa do vendedor de que o bicho permaneceria pequeno para sempre, como um cachorro maltês. Até o fim de sua suínica vida, garantiu o homem, Meeka seria um porquinho-anão, um bonsai-porquinho.
Pois três anos depois, criada desde então dentro de casa, a mini porquinha transformou-se numa porca de 107 quilos, com 76 centímetros de altura e 1,5m de comprimento.
Aí alguém perguntou para Janey sobre essa transformação drástica e ela, veja você, disse alguma coisa assim: “No início, fiquei decepcionada por Meeka não ser micro, mas agora não mudaria nada nela. Eu a amo assim”. Uau!
Eu queria um amor deste tipo – e você nem precisaria ficar com 107 quilos. Pensando bem, embora frustrante e doída, essa minha procura permite a ideia de perfeição, de eternidade, permite qualquer coisa, menos, lógico, viver um grande amor. Mas viver um grande amor, tu deves saber, é muito arriscado, perigoso mesmo. Ainda assim, sigo te procurando.
Onde tu estás?
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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve as terças-feiras no Nota de Rodapé. Crônica da série republicando.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Sete dias entre a vida e a morte
por Fernando Evangelista*
Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.
Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.
“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”
Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.
“Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.
Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.
Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.
O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.
Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.
A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.
Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.
Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.
Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.
Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.
“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”
Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.
“Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.
Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.
Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.
O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.
Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.
A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.
Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.
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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.
terça-feira, 7 de abril de 2015
A rendição de Leopoldo
por Fernando Evangelista*
Venho por meio desta, com tristeza e pesar, alma condoída e inconformada, comunicar que o nosso querido Leopoldo, filósofo do Rio Tavares, sábio dos balcões, bebum incurável, romântico à moda antiga, foi internado neste domingo de Páscoa numa clínica psiquiátrica. E pior: foi por livre e espontânea vontade.
Aqui termina o comunicado e começa uma carta de espanto:
Como fizeste uma coisa dessas, Leopoldo? Logo tu, exemplo para os atormentados do submundo e adjacências, pastor sem sermão ou moralismo, sem ismo nenhum, vivendo a anarquia puríssima do inferninho mais próximo. Como assim? Me explica se puderes e se ainda tiveres alguma rebelião no espírito.
Sou testemunha, Leopoldo, de que nunca enganaste ninguém. Foste sempre o porra-louca mais autêntico que já conheci. E porra-louca com remédio tarja preta é como cerveja sem álcool, religião sem pecado, pecado sem gozo, poeta sem noite, noite sem sereno, Caim sem Abel e, finalmente, porque senão ficaremos nesta lista até o fim dos tempos, um livro sem leitor e um pé de milho sem Rubem Braga. (Obrigado, Gay Talese).
Leopoldo, não tenta te curar porque – como diria nosso parceiro João Antônio – não há cura para a tua “alma de cristal”. Quem são eles para te trancafiar nestas paredes brancas, cheias de boas intenções e péssimas fórmulas, que apaziguam o ânimo e enganam o desejo? Quem foi que te convenceu, irmãozinho, que a tua emoção é uma loucura e a tua liberdade uma ameaça?
Esses órfãos de Simão Bacamarte não sabem de nada. Não sabem que sem a tua alegria bêbada e teu humor descarrilado a vida fica com cara de paulistano no trânsito, sem esperança de praia, na primeira e segunda marcha da impaciência.
Com meu copo de cerveja meio vazio, meio de saco cheio, olhando teu banquinho desocupado, debruçado neste nosso balcão e pensando na vida cara e na tua filosofia barata, imploro para que voltes para a boemia nossa de cada dia. Se quiseres, escuta com atenção, te resgato daí na marra, mesmo que na maca ou em camisa de força.
Leopoldo, meu sábio, não desiste, não te rende.
Mesmo sozinho, brindo à tua loucura para que ela, como a casa bíblica, resista fincada sobre a rocha e que os ventos da lucidez e os jalecos da ciência não te façam cair nas tentações do equilíbrio, da vida zen e da alimentação macrobiótica. Amém!
* * * * * *
Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé.
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