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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Corrida maluca

por Carlos Conte*

Antes das 7 da manhã ainda é possível pegar 90 km/h na Marginal Pinheiros. Não há outra razão numa via expressa senão correr. E os caras metem o pé mesmo, inclusive eu. Acordo mais cedo só pra desfrutar desse prazer cada vez mais raro numa cidade congestionada.

André Gorz já havia anunciado o “apocalipse motorizado” (isso em 1973!): “o carro, como uma mansão à beira-mar, é somente desejável e vantajoso a partir do momento em que a massa não dispõe de um”, já que, segundo o filósofo, é impossível democratizar um bem de luxo sem diminuir o gozo de quem faz uso dele. Mas o problema é que o carro no Ocidente tornou-se “vaca sagrada”, em vez de ser tratado como deveria: um “luxo antissocial”. Diante do caos, o que fazem as pessoas motorizadas? Saem de casa cada vez mais cedo, pois continuam querendo gozar do privilégio de ter um carro. Inclusive eu. Sei que depois de um determinando horário a coisa engrossa. 7 da manhã. 7 milhões de automóveis nas ruas da cidade. Uma imagem que a mídia adora: uma fila de 7 milhões de carros é o suficiente para dar a volta ao mundo. Preciso chegar no Jabaquara às 7h15. O sinal da escola toca às 7h20. Professor não pode atrasar. Talvez seja uma das profissões em que o atraso é menos tolerado. Por isso, tenho tudo devidamente cronometrado. Nem pensar em me dar ao luxo, um luxo matinal do qual todos deveriam ter direito, de cagar, tomar café e ler o jornal, ou tomar café e ler o jornal cagando, ou ler o jornal e cagar tomando café... Não importa a ordem. Só sei que nos finais de semana faço tudo isso simultaneamente, só pra esbanjar.

24 de março, 15 minutos para as 7, cruzo a ponte da Cidade Universitária e aos poucos vou entrando na Marginal, sem dar seta (porque há tempos a seta da esquerda não funciona), primeiro pela via local, depois a expressa, onde automóveis, motos e caminhões, em alta velocidade, disputam furiosamente cada metro de pista, cada segundo do relógio. E pensar que estávamos todos dormindo alguns minutos atrás...

Às vezes acelerar torna-se um fim em si mesmo: estou adiantado, mas se posso correr, por que não fazê-lo? Piso no acelerador pelo prazer de correr, de ver os outros carros ficando para trás, como se ultrapassar veículos somasse pontos numa corrida maluca sem fim. E sem sentido. Meio sonolento, chego mesmo a esquecer pra onde estou indo, ouvindo no rádio o repórter Luiz Carlos Gertel falando que o sol vai aparecendo aos poucos entre nuvens e que o trânsito já vai mal nos principais corredores da cidade... A mesma coisa de sempre.

Quando chego à pista 3 (são 7 ao todo), um Palio cola perigosamente na minha traseira, mas finjo não dar importância. Que me passe pela esquerda, se quiser: hoje estou zen. Mudo de estação. Sei que mexer no rádio ao volante é um ato repreensível, mas faço isso com frequência. Está falando agora o professor Mário Sérgio Cortella: “Pensar bem nos faz bem, então vamos pensar juntos...”. Quando me dou conta, o Palio já me passou, agora está na pista 1, à minha esquerda, colado na traseira de um Corsa, que por sua vez está colado em outra traseira, isso a mais de 70km/h, até que a fila deles breca abruptamente: não há tempo, o Corsa freia, arrancando fumaça do asfalto, e entra com tudo na traseira do carro da frente, que é jogado imediatamente contra o carro seguinte... o Palio, por sua vez, se enfia na traseira do Corsa – strike! –, outro dá de cara na bunda do Palio, o seguinte tenta em vão manobrar para a direita, e fica praticamente sobre duas rodas, mas acaba destruindo a lateral dos outros carros, levando consigo retrovisores, lascas da lataria, estilhaços de vidro, até se chocar contra outro carro que vinha pela pista 2 a toda velocidade... E quando parece que as coisas enfim se acalmam, um carro semidestruído, vindo de não sei onde, cruza a pista à minha frente e, cambaleando, para na pista 4.

Apesar de tudo, continuo avançando mais alguns metros e só paro quando percebo que estou arrastando alguma coisa. Ligo o pisca alerta. Vejo que outros carros estão fazendo o mesmo. Há um retrovisor enorme de camionete preso entre o chão e o protetor de carter do meu Peugeot.

Por trás de uma neblina de pneu queimado, vejo atrás de mim carros destruídos, air bags inflados, vidros estilhaçados. Motoristas descem dos veículos falando no celular; outros, perplexos, continuam segurando o volante... A princípio, ninguém preso nas ferragens ou seriamente ferido. Carros desviam do engavetamento pelas pistas da direita. Não sou médico. O resgate certamente está a caminho. Vejo que o melhor a fazer é dar o fora dali.

Numa metrópole como São Paulo, ficamos tão habituados às tragédias da civilização que acabamos desenvolvendo um mecanismo de defesa muito peculiar: a indiferença. Sabe quando a gente se esquece de um sonho e só vai se lembrar dele mais tarde, horas depois, às vezes dias depois? Pois foi isso que aconteceu nesse dia. Trabalhei a manhã inteira como se nada tivesse acontecido. Até que no almoço, entre uma garfada e outra, a imagem do acidente voltou, e junto dela pensamentos sombrios sobre o futuro desta cidade. Pensei nas pessoas acidentadas e, claro, me senti culpado. Sentindo raiva de tudo, e sobretudo de mim mesmo, terminei o almoço, paguei a conta, e fui buscar meu carro.

* * * * * * * 

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tarde na biblioteca

por Carlos Conte  ilustração Tiago Candido

 Duas mesas atrás de mim, o ex-sócio do meu tio lia o Estadão. Compenetrado, debruçado sobre o jornal, às vezes levantava a cabeça e, olhando pra frente, soltava algum comentário sobre as notícias, como se estivesse conversando com alguém, mas não tinha ninguém na cadeira ao lado. Na verdade, não tinha ninguém sempre. Esse cara já foi rico, chegou a ter motorista particular, vários imóveis pela cidade, mulheres lindas, mas não suportou a falência da empresa, hoje é viciado em analgésicos pesados e pode ser visto, pele e osso, vagando feito fantasma pelas ruas da Lapa ou falando sozinho enquanto lê o jornal numa biblioteca pública da Vila Romana.

Anos frequentando essa biblioteca e ainda não me acostumei com o bibliotecário. Ele tem uma deformidade no pescoço que me deixa intrigado. Não consigo pensar em outra coisa quando estou perto dele. Se ele passa pela minha mesa, meus olhos são instintivamente capturados pela imagem: parece que tem um canudo daqueles mais grossos de refrigerante implantado sob a pele, uma elevação tortuosa (a maquete de uma cordilheira) que vai do peito até o queixo, e enquanto admiro esse pescoço fico pensando que isso pode ser fruto de alguma intervenção cirúrgica, quem sabe até alienígena. Nunca se sabe. Além disso, o sujeito não me parece ser muito bom da cabeça, mas até aí estamos todos no mesmo barco, com a certeza de que ninguém se salva neste mundão cansado. Viver entre livros pode fazer mal à saúde, prova disso é o doidão do Piauí que vivia (ou ainda vive?) entrando e saindo da biblioteca da FFLCH.

Dia agitado na biblioteca da Rua Catão. Vários tipos interessantes. Quanto mais acabados, mais interessantes. E eu ali no meio, querendo silêncio, fingindo ser um normal (repito: estamos todos no mesmo barco, estamos todos desesperados). Outro dia bati boca com duas faxineiras que estavam conversando alto no corredor, e hoje penso que o errado ali talvez seja eu. Um amigo arquiteto me falou que o melhor jeito de se projetar uma praça é o seguinte: instale uma câmera escondida, veja de que forma as pessoas estão usando esse espaço – isso vai determinar onde ficarão as passarelas, os canteiros, os postes e todo o resto. No caso da biblioteca, vejo que seus antigos frequentadores e funcionários já deram utilidades para o espaço, que não necessariamente é o uso considerado correto ou normal para uma biblioteca.

Crianças com uniforme da escola fazem “trabalho” em grupo com canetas coloridas e cartolina (imitam aos berros a professora de ciências). Um mendigo dorme profundamente duas mesas ao lado, de vez em quando soltando um ronco grave e profundo, um ronco clássico, que me faz lembrar aqueles roncos do Leôncio do Pica-Pau. Um homem de terno e mãos bem peludas e suadas faz exercícios numa apostila de inglês básico: esse ainda não desistiu, não largou a rapadura. Na mesa de trás, novamente o ex-sócio do meu tio sussurra alguma coisa que eu não escuto. E tudo isso na mesma sala de leitura, aonde eu fui com o objetivo de escrever uma crônica sobre o carnaval sem saber que seria forçado a mudar de assunto na última hora. Escrever crônica tem dessas.

Como se não bastasse, entrou um grupo de quatro mulheres falando pelos cotovelos, como se entrassem na padaria ou na mercearia, mas logo descobri que a biblioteca para elas era uma espécie de sala de estar: estavam ali para descansar as pernas e bater papo. Sentaram-se em frente à estante de revistas, uma delas pegou uma Super Interessante e começou a folheá-la, molhando a ponta do dedo cada vez que ia virar uma página, até que alguma coisa na revista a fez arregalar os olhos:

– Olha só o que diz aqui: pedra nos rins pode ser maior que um caroço de maracujá!

– Isso eu já sabia – completou a mais velha, a voz da experiência. – O Artur, filho do vizinho de fundos do... – e aí ela foi emendando um monte de nomes e referências até que as outras se lembrassem – o Artur quase teve um troço quando viu o tamanho da pedra que tiraram dele. Do tamanho de uma azeitona!

As outras ficaram chocadas. Eu também. O bibliotecário se levantou e foi na direção da mesa delas. Estavam largadas sobre as cadeiras como se estivessem num sofá. Uma bandeja com café e sequilhos ia bem, pensei. Nem o trabalho de ciências do 6º ano era tão barulhento, por isso imaginei que o bibliotecário estava indo até elas pedir silêncio, afinal aquilo ainda era uma biblioteca.

Quando ele passou por mim, não pude resistir ao seu pescoço, irresistivelmente feio. Sentou-se numa cadeira vaga junto delas e falou:
– Eu conheço o Artur, Margarete! Ele mora no meu prédio.

Só eu não conhecia o Artur. Estava mesmo deslocado.

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Tiago Candido, ilustrador, especial para o Nota de Rodapé

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Quer lutar?

por Carlos Conte*

Tem gente que gosta de começo de ano. Eu não. Pra mim só melhora depois, talvez semanas, meses depois, quando já não me lembro mais do baque que é voltar de férias e recomeçar. Recomeçar sempre!, diz o personagem Carlos do filme “São Paulo S.A.”. O título do primeiro roteiro escrito por Luiz Sergio Person era “Agonia”.

Ao voltar de viagem constato, com pesar, que a vida só recomeça se houver trabalho. Os cães estão desesperados de fome e carência, há um rato na lavanderia, a calçada da frente está cheia de mato e sujeira, meu quarto precisa ser arrumado (e essa arrumação vocês não imaginam como é difícil); há um ano inteiro de trabalho pela frente, e então me dou conta de que as férias nunca são o bastante e que este novo ano só vai mesmo pegar no breu no momento em que eu recolher o primeiro cocô do quintal e jogar no lixo o feijão que está podre na geladeira desde o ano passado.

Por isso adotei um instrumento de autoajuda bem curioso: estou usando uma foto do Bukowski (outro Charles) como plano de fundo da área de trabalho do meu computador. É uma das poucas fotos em que o velho não aparece com um copo na mão: está de pé, de frente para o fotógrafo, em posição de guarda, chamando pra briga. Assim, toda vez que eu abro meu laptop de manhã, dou de cara com o velho safado prestes a me acertar um jab.

– Quer lutar?
– De novo, Buk?...
– Em guarda, garoto!

E então é preciso fazer alguma coisa, é preciso reagir, matar um leão por dia, recolher as contas na caixa de correspondências, escovar os dentes, pagar as contas que eu acabei de recolher, trabalhar. Recomeçar. Como Sísifo e sua pedra maldita, recomeçar a cada dia. E nisso o Buk me ajuda, por incrível que pareça.

Vão me dizer que ele era um péssimo exemplo: alcoólatra, agressivo, machista. Na verdade, ele mesmo diria isso, porque ninguém melhor do que Charles Bukowski para destruir Charles Bukowski: “Bukowski chorou em hotéis que eram verdadeiras espeluncas, Bukowski não sabe se vestir, não sabe falar, tem medo de mulher, sofre do estômago, vive assustado, não gosta de dicionários, freiras, moedas, ônibus, igrejas, bancos de praça, aranhas, moscas, pulgas, tarados; Bukowski não foi pra guerra. Bukowski já está velho... ; se fosse macaco, seria expulso do convívio da espécie”.

Como ele mesmo diz nos textos autobiográficos, era um zero à esquerda no quesito “administrar a própria vida” – aluguéis sempre atrasados, pilhas de garrafas de vinho em cima da pia, nenhuma cueca limpa para vestir... Pior quando ficava sem luz por falta de pagamento. Pior quando estava de ressaca (isso sempre). A vida pode estar sempre pior – mas o velho Buk tirava de letra, rindo dos outros e de si mesmo, sem autopiedade. Quando acordo de manhã, não espero que me deem a mão...

– Quer lutar?
– Que tal conversar antes?
– Nada disso, garoto, conheço você e suas desculpas. Em guarda!
– Vai encher o saco de outro, porra!... – e tento correr para longe daquela visão dos infernos.

Mas não há saída. É preciso enfrentar. Por mais que meu corpo implore “Não vá, por favor, não vá!”, num misto de preguiça e desesperança, lamentando o fim dos sonhos, o fim das férias, lamentando, acima de tudo, o fato de um dia ter saído do útero quente e confortável de mamãe, é preciso levantar guarda e ficar atento antes que seja desferido o primeiro golpe.

– Quer lutar?
– Desiste, Buk, já era. Eu sou mesmo um perdedor... Que foi? Tá rindo do quê?
– Só agora você se deu conta de que é um perdedor?
– Vai se foder, velho brocha!
– “Todo homem é vítima de um meio que se recusa a compreender sua alma”.
– Li isso em algum lugar...
– Claro que você leu isso em algum lugar! Fui eu que escrevi.
– Pois é, você é chato mas pelo menos escreve bem...
– Eu sou o melhor de todos, garoto!
– Ai!
– Levanta essa maldita guarda!
– Meu nariz, filho da puta!...

* * * * * * *

Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O barbeiro machão

por Carlos Conte*

Esperava sentado numa cadeira escolar, quieto no meu canto, enquanto o Barbeiro (vou chamá-lo assim) cortava o cabelo de um homem velho, narigudo e careca – aqui na Vila Romana é um tipo clássico – até que, me olhando pelo reflexo no espelho, o Barbeiro ordenou:

– Não lê essa revista aí, meu! Tenho coisa melhor. Claro: pra quem gosta de mulher!

Sem largar a tesoura, abriu uma gaveta e tirou dali uma pilha de revistas de mulher pelada.

– Lá no armário tem mais! – jogou as revistas no meu colo. – Depois me fala qual é a melhor. Minha preferida é a Patrícia Jordane. Esse Neymar é um cara de sorte, você não acha?...

Patrícia Jordane, ex-affair do Neymar. Essa não conhecia. A edição era recente mas o exemplar estava tão surrado que não pude evitar um princípio de nojo. Muitos pares de mãos masculinas já tinham virado aquelas páginas, só espero que ninguém tenha lido no banheiro (sabemos que isso é quase impossível).

Talvez fosse apenas sua maneira de receber bem um cliente, pondo à sua disposição toda pornografia disponível a fim de agradá-lo. Mas fico com a hipótese de que ele queria me provar alguma coisa, marcar posição, com sua exibição testosterônica exagerada e sem sentido, além de muito constrangedora. Acho que na cabeça dele funciona assim: pelo fato de tocar um salão de beleza masculino – afinal, barbearia não deixa de ser isto: um salão de beleza masculino, sendo barbearia só o nome “macho” para distingui-lo dos salões femininos –, o Barbeiro precisava provar aos clientes que não jogava no “outro time”. Atitudes como a dele, afobadas, atrapalhadas, escondem na verdade um medo terrível. Medo de passar por “cabeleireiro”.

Ao mesmo tempo em que provava sua “macheza”, ele me testava. Notei que o Barbeiro, entre uma tesourada e outra, ficava me olhando pelo espelho enquanto eu folheava a revista. Dependendo da minha reação diante da Playboy, ficaria provado se eu jogava ou não no “time” dele.

– E aí, aprovou?

– Nada mal...

Quando perguntada pelo repórter se vale tudo entre quatro paredes (já que no futebol existem regras bem definidas), a Maria Chuteira não titubeou: “com certeza!”.

O problema dessas revistas é que as fotos são ruins e cheias de photoshop. Um pouco de olhar crítico já faz você perder o tesão. Tem que entrar no jogo, abstrair. Tipo futebol. Se você começa a pensar um pouco, já era. Por isso que na adolescência eu gostava tanto de revista de sacanagem. Hoje não sinto a menor emoção. E a Playboy já foi uma revista melhor.

– Viram a polêmica da Viviane Araújo? Lembrei disso agora porque o cara que aparece no vídeo é careca...

O cliente e eu nos entreolhamos pelo espelho.

– Não viram? Não acredito! Dá uma olhada nisso aqui... – e me empurrou o iPhone.

Eram imagens de uma câmera de vigilância, dessas que nos filmam pra lá e pra cá o dia todo. Um carro estaciona numa rua deserta, um homem e uma mulher saem do veículo, abrem a porta traseira, ela se debruça no banco de trás, ele fica em pé atrás dela, e então, sem desconfiar de nada, começam a fazer sexo ali mesmo. Tem uns 2 minutos. O homem é calvo. A mulher, de fato, é bem parecida com a garota do Fantástico 94. Nunca vou me esquecer dela apagando a lousa na Escolinha do prof. Raimundo.

Claro que no dia seguinte ela negou tudo. No Instagram, descolou um álibi: no mesmo dia e no mesmo horário, cumpria compromisso com uma escola de samba. Abri a edição do mês seguinte e comecei a ler uma entrevista com o deputado Jean Wyllys, em que ele conta da sua experiência com maconha, diz que já ficou com meninas e admite que é um cara feio. Já pensou se o Barbeiro descobre que eu estou lendo a entrevista do Jean Wyllys? Ia ser divertido. Corrijo: ia ser pavoroso. Mas nunca, nunca mesmo, se deve arrumar encrenca com um barbeiro. Caso você brigue com um, nunca mais ponha os pés lá. Quem está com a navalha é ele, não você. O pescoço é o seu, não o dele. Enfim, essas coisas do dia a dia às quais precisamos estar sempre atentos. E com garçom é a mesma coisa.

Chegou minha vez. O de sempre: diminuir o volume e fazer um corte “normal” (seja lá o que isso signifique), mas não tem muito o que inventar na minha vasta cabeleira.

– Gostou da Viviane? – ele insistiu.

– Gostei.

– Lembra quando o professor Raimundo chamava ela pra apagar a lousa?

Só queria dizer a ele que não precisava forçar tanto a barra para provar sua heterossexualidade. “Já entendi, cara. Você gosta de mulher, parabéns! Eu também. Mas isso agora não importa. Corta meu cabelo e dá um tempo!”.

Claro que não foi isso que eu disse. Melhor não contrariar quem está com a navalha na mão. Afinal, o pescoço é o meu, não o dele.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Bar do Elvis

por Carlos Conte*

Mais uma crônica de bar. Na verdade, um ex-bar: depois da morte do Vavá, foi demolido e se não me engano virou estacionamento. Vavá era dono de bar à moda antiga. Jaleco branco, cabelos igualmente brancos e meio amarelados, metodicamente penteados para trás e fixados com gel, magro, alto, fã do Elvis. Tão fã que muita gente chamava o lugar de bar do Elvis: um bar temático numa época em que não se falava em bares temáticos. Ali era parada obrigatória do bloco de carnaval Vai-Quem-Quer.

O lugar era bem estreito, pequeno, com um longo balcão dividindo o salão em duas partes desde a porta até os fundos, onde ficava o banheiro. As paredes eram forradas de objetos do rei: cartazes, quadros, discos. Na TV, sempre estava passando algum vídeo do Elvis, e me lembro de ter visto inteiro o show que ele fez no Havaí nos anos 70: o Elvis de colar havaiano usando aquelas roupas coloridas bregas que eu nunca entendi direito, e que são a sua marca registrada, tanto que se você entrar em qualquer loja de fantasia e pedir uma do Elvis vão lhe trazer a versão azul ou dourada de um macacão, além de umas costeletas postiças. Eu sei porque meu pai uma vez foi de Elvis numa festa. Eu estava de gladiador. Uma dupla realmente incrível.

Ali no bar do Elvis tinha umas figuras carimbadas. Todo bar tem. Sempre estava lá um velho barbudo que eu e o Dudu apelidamos só entre nós de Velho Marinheiro, por causa da boininha na cabeça. Uma vez, o Velho Marinheiro dormiu no balcão, e logo em seguida as pessoas começaram a ver uma poça de mijo crescendo embaixo dele, formando uma represa de mijo no chão do bar! Sonhando estar diante de uma privada ou uma árvore, o Velho simplesmente tirou pra fora e começou a fazer ali mesmo. Mas não foi de sacanagem. O Velho, na verdade, era um tipo muito interessante. Tinha estilo. Mijou de bêbado, mas mijou com estilo, dormindo, a braguilha discretamente aberta, apoiando-se no balcão. Depois, como sempre, alguém chamou o táxi, pôs o Velho lá, e o Vavá telefonou para a mulher avisando que o marido bebum estava a caminho.

Num texto chamado “Supermarket”, eu anunciei, bem de passagem, a história que eu vou contar agora. Na verdade foi o irmão mais novo João, e não o próprio Vavá, que uma vez puxou papo comigo e me revelou o verdadeiro motivo da morte do rei do rock. João era tão fanático pelo Elvis quanto o Vavá. Acho que nesse dia o Galo estava tomando cerveja comigo.

– Vou contar uma coisa – disse o João, como se viesse dar uma notícia quente. –Infelizmente o Elvis morreu.

– Morreu sim – respondi.

– Pois tem gente que acha que ele não morreu, mas que ele fugiu, sem deixar pistas! Hoje vive escondido em algum lugar, protegido por uma tal lei de proteção a testemunhas ou alguma coisa do tipo. Mas isso é coisa de fanático! Eu não caio nessa conversa! Com tanto paparazzi, já teriam pegado ele de sunga numa praia do Caribe, você não acha?

Concordei com o João: Elvis estava morto.

– “Elvis não morreu” é uma isca pra manter as lojas vendendo – eu disse, com ares de sociólogo de boteco.

– Dizem que foi droga, mas não foi droga.

– Isso eu não sabia, João. Achei que tinha sido abuso de calmante ou...

– Ele morreu cagando.

– Sério?

– Sério. Acharam o corpo caído no chão do banheiro, mas ele estava sentado na privada fazendo força quando a veia da cabeça se rompeu.

– Quê?!

– Ele só comia lanche do Mc Donald’s! Gente assim não dura. Falta fibra no organismo e aí prende tudo. O Elvis fez tanta força que a veia não aguentou! E aí, você sabe, a versão oficial não vai ser essa, por respeito à imagem do ídolo etc. e tal... mas a realidade pouca gente sabe. Eu sei porque estudei.

– Leu numa biografia?

– Nenhuma biografia vai falar isso porque todos foram muito bem pagos para calar o bico. Você mesmo disse: as lojas têm que continuar vendendo camisas com a cara do rei. E assim a banda toca. Você sabe...

Então, calou-se. Enquanto passava flanela na TV, seus olhos fixaram a tela: ali estava Elvis cantando Love Me Tender. Seu rosto, cada vez mais próximo do rosto do Rei, iluminou-se, e em movimentos circulares João passava o pano na tela como se fizesse carinho no jovem Elvis que cantava “Ame-me com ternura / Ame-me com doçura / Nunca me deixe partir”. Da escatologia às lágrimas: João começou a chorar. Aí me dei conta de que o assunto era sério. Resolvi não perguntar mais nada. É duro falar da morte de um ídolo.

“Então o Rei morreu no lugar apropriado: o trono!”. Ia fazer essa piada mas felizmente desisti. Era hora de chorar.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Imagem: Futepoca

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Balcão, bebiba, barra, Biro

por Carlos Conte*

O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.

Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.

Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...

Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).

Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.

Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.

Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...

Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.

Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.

Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ressaca


por Carlos Conte*

Fico com a charge de Rodrigo Visca, Folha de S. Paulo, dia 6 de agosto: o dia da ressaca. A festa da democracia acabou com meu fígado. E o seu? Já reparou no gorfo no pé da cama? Não deu tempo de chegar no banheiro, a ânsia foi tanta que não deu tempo de tirar o tênis, o jeans, a camisa, e a lâmpada está acesa, e da cama vejo a luz do dia, árvores, o muro do vizinho, está tudo lá, e não existe vontade nenhuma de encarar a realidade, mas é preciso. É preciso ficar atento. Foi uma festa destruidora: só tinha gente chata e cerveja morna.

Fiquei sabendo que uma idosa escorregou num monte de santinhos e bateu a cabeça feio na calçada. Essa para mim é a imagem dessas eleições. Fui votar querendo ir ao parque. O trânsito estava pior que em dia de semana. Ninguém espera pegar congestionamento num domingo, acho que é por isso que as pessoas acabam ficando mais nervosas. Na fila de votação, um homem na minha frente pediu pra esposa ver na lista de candidatos se o deputado fulano de tal estava concorrendo. Ela foi. Não, fulano não estava. Então perguntou à esposa em quem ela ia votar. Também não sabia. Qual é o número mesmo daquele que defende o consumidor na TV? A esposa voltou ao quadro. Ali estava!

A fila estava uma merda comprida quebrada pela metade, em forma de L, dando a volta no corredor, um pedaço dela apontando para o pátio, o outro entrando na sala de votação, em que alguns meninos morrendo de sono faziam alguma coisa pra que aquilo tudo funcionasse decentemente, anotavam documentos, faziam assinar um papel e tudo estava pronto. Próximo! Nenhum bêbado, nenhuma bandeira. Pessoas apressadas querendo acabar de vez com aquilo para acender a churrasqueira. Nem futebol. Uma menina feia com roupa de academia e cara de tucana veio pro meu lado na fila perguntando se aquela era a seção eleitoral correta. Infelizmente era. Ficou olhando pra minha cara, talvez querendo saber em quem eu ia votar, por um momento pensei que ela estava a fim de mim, mas era mesmo papo de eleição, e eu não queria mesmo falar sobre isso. Se não fosse tão feia...

– Não sei. Estou indeciso.

– Indeciso?! Até agora?! – mas falou tão alto que outras pessoas na fila ouviram e passaram a participar da conversa. Aí todo mundo se sente autorizado a participar da conversa, tipo quando tem engarrafamento monstro na estrada e todo mundo sai do carro ou quando cai árvore na rua de casa e as pessoas vão ver o que aconteceu. Está todo mundo no mesmo barco. E foi então que eu confirmei minhas suspeitas: todos ali eram tucanos e não poderia ser de outro jeito numa escola de classe média na zona oeste de São Paulo. Tucanos e Telhadas. Tucanos e Russomanos. Onde estavam os Tiriricas? E os Felicianos? Aliás, você viu esse cara agradecendo ao movimento LGBT pela votação? Falou que a vitória não foi dele, mas da família tradicional. Eu seria capaz de dar uma surra nesse cara. No meio de tanta lei, tanta regra, será que não tem nenhuma pra dar um jeito nele?

As Jornadas de Junho terminaram quando a imprensa abraçou a causa e centenas de milhares de pessoas foram às ruas com a bandeira do Brasil. Na verdade, as Jornadas nem deveriam ter começado. Melhor se ficasse naquelas primeiras manifestações no centro de São Paulo. Mas, de qualquer forma, as pessoas ficaram esperançosas depois de junho. Bem ou mal, alguma coisa se acendeu, as pessoas se entusiasmaram, parecia que até que as pessoas estavam mudadas. Cheguei a acreditar nessa história. Sou otimista, embora não aparente. E por um instante acreditei. Não demorou, vieram as bandeiras do Brasil. Não demorou, as famílias reunidas cantando o hino. Não demorou, a imprensa... e os partidos, todos eles, da extrema esquerda à extrema direita, assumiram o grito das ruas como se fosse deles. Pulei fora.

Dois dias depois, tento entender por que ainda vivo neste estado. Neste país. Dá-lhe, Eparema. A bebedeira foi brava. Não foi? E esse papo que tá rolando no face de ir pro Uruguai, confere?... Tô sabendo que é difícil, mudar de vida, largar o trampo, mas o Uruguai é logo ali. Desencana desse Feliciano, depois a gente dá um jeito nesse cara, agora é hora de descansar a cabeça. Dormir. Ouvir o Suplicy cantando “Blowin in the Wind”. Tomar uma ducha. Calma. Uma hora passa.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hippie de BR

por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira

Nas últimas férias, dei carona para um sujeito chamado Gnomo. Gnomo é seu nome de estrada. Três anos na estrada, pegando carona e caminhando pelas BRs com sua pequena mochila e seu mostruário hippie feito de pano e canos de PVC.

– Valeu pela carona, brother! – tirou do próprio pulso uma pulseira de linha de bordado adornada com uma pedra azul e me deu. – Presentinho do Gnomo pra lembrar do brother da estrada!

Agradeci, amarrei no pulso e acelerei rumo ao sul. Saímos de Salvador com o sol nascendo. Nosso destino: Vitória.

– Vou terminar um Filtro dos Sonhos antes de chegar em Vitória. Peguei umas penas de arara no zoológico de Recife. O guardinha não queria deixar. Mas eu voltei lá depois quando ele não tava olhando. Vou fazer um Filtro dos Sonhos pra você com essas penas de arara. Curte?

Mesmo sem saber o que era um Filtro dos Sonhos, aceitei. Era a maneira de me retribuir, já que estava completamente liso. Penas de arara colhidas do chão não afetaram minha consciência ecológica a ponto de recusar. “Se ele tivesse arrancado da arara, recusaria”, pensei. Mas Gnomo era um sujeito pacífico. Sua matéria-prima vem da coleta. Na primeira parada, enquanto eu abastecia o carro e tomava um café, ele se ocupou catando coisas no mato atrás do posto de gasolina. Voltou com uma sacola cheia de materiais:

– Olha só, brother, achei umas coisinhas legais: pedra, semente, corda, arame, cipó... Seu Filtro dos Sonhos vai ficar massa: vai ser de galho de chorão! As pessoas jogam muita coisa boa no lixo. O que eles jogam fora eu uso na minha arte – orgulhou-se.

Encontrar Gnomo me fez lembrar de uma andarilha que pedia carona na viagem de ida. Fiquei mal por não ter dado carona pra ela. A mais de 100km/h, não deu tempo. Pedir carona exige estratégia e ela estava no lugar errado! Gnomo me explicou detalhadamente: tem que escolher um trecho de velocidade reduzida, de preferência trevo ou ponto de lombadas, e é preciso que o acostamento seja largo e longo, na verdade um recuo é o ideal para o carro conseguir desviar-se da pista sem provocar acidente.

– Você foi um anjo no meu caminho, Carlão! Carona de 2 dias não é toda hora que aparece!

Fiz questão de dar carona para ele porque, de certo modo, me sentia em débito. Quando vi a menina, já tinha passado por ela e logo atrás de mim vinham carros e carretas a toda velocidade... Acostamento estreito. Não teve jeito. Segui viagem. Agora era a vez de Gnomo e eu precisava dar essa carona, como se minha viagem ganhasse muito mais sentido com um estradeiro de verdade ao meu lado. Faz tempo que sou fascinado pela vida na estrada: desde que li On the Road pela primeira vez, Dean e Sal cruzando os Estados Unidos com uma mochila nas costas, ou o relato zen de Os Vagabundos Iluminados; desde que ouvi falar dos sadhus, monges andarilhos indianos que vivem de doações, de sol e de água; ou o relato de Che Guevara pela América Latina explorada e miserável; desde então, a viagem me fascina e não me canso de ir atrás de outros relatos de viagem: a desobediência civil de Thoureau, as andanças de Rousseau pelos bosques suburbanos, as perambulações opiáceas de De Quincey pela Inglaterra. E Gnomo, de certa forma, era a realização desse modo de vida (pelo menos no que diz respeito à simplicidade e ao nomadismo). Gnomo, meu copiloto. Mais de mil quilômetros ao lado do Vagabundo Solitário Gnomo, que sempre que encontrava oportunidade exaltava as qualidades de sua arte. “Arte hippie”, ele dizia.

Mas o encantamento durou pouco. Romantismo. Idealização. Os livros também falam do “lado B” da vida andarilha. Os beats nunca esconderam isso. A vida na estrada é dura, como se pode imaginar, e Gnomo estava definitivamente na pior. Em vários sentidos. Pra começar, estava duro. Convidei-o para almoçar: ele fez um prato gigantesco – “vai saber quando vou almoçar de novo?”. Contou-me seus infortúnios: a ex-mulher voltou para o Chile e levou o cachorro; a única filha está em Pernambuco sendo sustentada pelos avós; as vendas andam mal... Em Salvador, vendeu pouco e bebeu muito. “É a fase...”, lamentou-se. Agora precisava encontrar uns amigos em Belo Horizonte: fixar-se por um tempo, trabalhar bastante, juntar mercadoria e só então seguir viagem de novo. Por ora, seu mostruário hippie tinha pouco a oferecer aos fregueses, algumas pulseiras e brincos... Era preciso fazer uma parada estratégica até a temporada de fim de ano, quando as praias se enchem de gringos e paulistas. Mas enquanto dezembro não vem, trabalhar, esperar... Gnomo não escondia sua aflição. Ele sabia que estava na pior.

Em Teixeira de Freitas, pequena cidade perto da divisa com o Espírito Santo, paramos para dormir. Gnomo já havia anunciado que deixaria suas coisas no carro e iria se ajeitar na rodoviária, o lugar mais iluminado e seguro da cidade. Para ele, numa boa. Já estava acostumado a fazer isso. Mas eu não conseguiria dormir tranquilo pensando em Gnomo na rodoviária. Afinal de contas, éramos parceiros de viagem e aquilo não estava certo. Paguei 20 reais pelo pernoite dele, assim como paguei a carne de sol do jantar e a cerveja. Gnomo se encostava em mim sem nenhum grilo, resignado. Se não fosse em mim, seria em outro. Se não fosse em ninguém, seria pedindo, como um sadhu indiano. Mendigando. Virei umas pingas e fui me deitar, pensando em Gnomo. Pensava também como seria fazer como ele: escapar de tudo e viver na estrada, dormindo ao relento, conhecendo lugares novos, vivendo da natureza e da bondade dos outros. Mas havia as dificuldades, os “perreios”... E cheguei à conclusão de que Gnomo vivia num “perreio” eterno, embora ele não se importasse muito com isso. Talvez ele se importasse um pouco. Não sei... talvez eu me importasse muito mais do que ele.

Dia seguinte, cruzamos a fronteira de estados, Gnomo foi dormindo quase todo o caminho embalado pelo som de Gil: “O sonho acabou/quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.

O tempo na estrada vai rápido. 100km ficam cada vez mais curtos. “É logo ali...”, dizem os caminhoneiros, “É logo ali, só mais uns 100km...”. Para falar com caminhoneiro, é preciso se referir a grandes distâncias. Sempre que falava que tinha saído de São Paulo dias atrás, percebia que me olhavam com alguma consideração, porque sabem que essas BRs são sofridas pra cacete, ainda mais pra um carro de passeio. O lema dos carreteiros é “Veículo leve que saia da frente!”. Se não estiver alerta, eles passam por cima mesmo.

Entramos em Vitória quando anoitecia. Parei em frente à praia e anunciei a ele o fim da carona.

– Agora vou pra catedral, onde os brothers se juntam pra vender. Valeu pela carona, Carlão! Foi foda! Te agradeço de coração...

Antes de ir, me pediu umas moedas para o ônibus, pegou suas coisas e seguiu adiante, enquanto fiquei encostado no carro olhando para aquela imagem pequena, cheia de dreads que foi ficando cada vez mais escura e pequena até desaparecer no meio do tráfego. Dia seguinte, tentaria entrar clandestinamente no trem que vai pra Belo Horizonte. Mais um dia de viagem, nessa viagem tão incerta e fugidia que era o seu próprio modo de vida. Fiquei triste e admirado vendo Gnomo partir. Só mais tarde me dei conta de que sua sacola de “materiais” de coleta tinha ficado no banco traseiro. E o Filtro dos Sonhos prometido, feito de galho de chorão e penas de arara, vai ficar para a próxima.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Supermarket


por Carlos Conte  ilustração de Rafael Gentile*

O supermercado estava vazio, meu coração também. Esqueci completamente o que tinha ido fazer ali. Sabe quando você entra na cozinha e demora alguns segundos, às vezes minutos, para se lembrar o que o levou até lá, e aí, quando enfim cai a ficha que você foi pegar água, simplesmente água, você já abriu a geladeira, mastigou uns pepinos em conserva, tomou Coca, afanou uns bombons de licor e se certificou de que o estrogonofe embolorou?... Sim, a água! Apenas água. Fui ao supermercado provavelmente fazer alguma coisa bem simples, mas esqueci.

Debruçado no carrinho, abri um saco de amendoins fritos, uma lata de cerveja, e fui andando pelos vastos corredores vazios para ver se a memória refrescava. Que nada! O que me veio à mente, de imediato, foi aquele programa que passava na Band, apresentado pelo Ricardo Corte Real, chamado Supermarket, em que dois casais disputavam o prêmio – um ano de compras com tudo pago! – procurando pistas escondidas nas prateleiras de um supermercado, numa espécie de caça ao tesouro televisionada para promover algumas marcas. Andei à esmo, sem encontrar nenhum apresentador, nenhuma pista que me ajudasse a esclarecer aquele meu pequeno mistério cotidiano.

Tudo bem. Sempre há coisas para comprar. Ainda mais quando seu cartão-alimentação está carregado. Já notei que sinto um prazer especial em usar o cartão-alimentação, como se não fosse o “meu” dinheiro que estivesse sendo gasto, mas um “bônus” ofertado mensalmente pela empresa. Mais uma bobagem da minha cabeça, eu sei, mas essa é uma sensação inevitável. Quando eu era pequeno, ao ver meu pai pagando alguma conta usando cheque ou cartão, tinha a mesma sensação: não estávamos gastando “nosso” dinheiro, mas de algum trouxa qualquer, tipo o governo, ou sei lá o quê... Pagar com cartão, e não com dinheiro vivo, era o mesmo que comprar “de graça”. Tudo bem: tinha apenas 6 anos e não conseguia fazer abstrações. Hoje faço abstrações, mas a sensação permanece. Será que ainda tenho dificuldade para fazer abstrações? Quanta coisa tem num supermercado! Estamos tão acostumados que raramente nos surpreendemos. Certa vez, num free shop do Chuí uruguaio, assim que passamos pela porta automática e avistamos aquele mundo fantástico das mercadorias que se abriu diante de nossos olhos, meu amigo Pedro Gongom soltou uma de suas pérolas: “Carlão, me encontre daqui meia hora: vou ver do que estou precisando!”. Com 150 mangos no Sodexo, fui atrás do que eu estava precisando. Mas o que era mesmo?...

Bananas. É sempre um acerto comprar bananas, pois evitam câimbras no futebol e são muito gostosas com sucrilhos. Sim, sucrilhos, do tigre, mas sem açúcar porque açúcar, todos dizem, faz mal pra cacete a ponto de deixar o sujeito cego e outros males irreversíveis. Granola não é tão gostoso quanto sucrilhos mas dizem que não tem nada melhor pra ir ao banheiro, pois é rica em fibras. (Qualquer dia conto a história do Vavá, um cara fanático em Elvis, que dizia que o que matou o rei do rock foi uma veia de sua cabeça que estourou enquanto fazia força sentado no trono... “Falta de fibra!”, ele dizia). Para não ter o mesmo fim, pus um saco de granolas no carrinho. Melhor prevenir do que remediar. Depois não posso me esquecer do papel higiênico para acompanhar as granolas. Uma coisa puxa a outra. Destino curioso: será que o rei morreu mesmo sentado no trono? O finado Vavá sabia das coisas.

Entrei na fila dos frios. Deixei o carrinho guardando lugar e fui buscar outra cerveja. Só aposentados e pensionistas do INSS às 4 da tarde na fila dos frios. Que maravilha! Dou risada sozinho. Só tragédia: uma teve que tirar uma pedra dos rins do tamanho de uma azeitona – que exagero! Mas tem gente que adora exagerar doença, como se isso fosse motivo de orgulho, vê se pode! Eu me matando pra manter a saúde com meus coopers quase diários, comendo granola, e espalhando pra todo mundo que agora eu sou um cara 100% saúde, e a turma da fila contando vantagem pra ver quem é que vai pior. É rim, vesícula, intestino. Câncer de não sei o quê. Infecção no baço, nas tripas, no estômago. Fraqueza nos ossos, nas juntas, nas articulações, e sei lá mais qual doença foi mencionada em poucos minutos de fila, só sei que me deu nojo olhar aquelas carnes frias sendo fatiadas, presuntos rosados, mortadelas alaranjadas, peitos de peru esbranquiçados, salames vermelhos, presuntadas e rosbifes, tudo da mesma cor das tripas recém-relatadas com tanto realismo e tanto detalhamento pelos meus colegas de supermercado que acabei ficando com náuseas, e por isso na minha vez só pedi queijo. 200 de Minas. 200 de prato. 200 de mussarela. Vazei.

Fui tomar um ar nas geladeiras. Manteiga. Nunca faz falta. Iogurte, para acompanhar toda aquela granola. Requeijão. Chandeles e Danetes da vida. Leites longa vida e tudo mais que foi aparecendo. E o carrinho foi aos poucos se enchendo, e nada de me lembrar do motivo daquelas compras. Volumosas compras.

Que mais? Café. Sim, café nunca é demais. Sempre tem aos montes em casa, mas não pode faltar. É o óleo das engrenagens. Impossível trabalhar sem ele. Mas como café deixa a gente muito ligado, não poderia esquecer de pegar alguns maracujás antes de ir embora, pra ficar “calminho calminho...”, como diz o comercial do Maracugina. E pra entorpecer ainda mais os nervos, um fardinho de cerveja, uma garrafa de vinho, que sugere macarrão, tomates, alho, cebola. Dizem que fica bom acrescentar cenoura no molho vermelho. Portanto, cenoura, está decidido.

Quando dobrei mais uma esquina, vi uma menina bem bonitinha em frente à gôndola dos enlatados. Estava indecisa: ervilhas, milhos, aspargos? Antes que ela se virasse e me visse, ajeitei a gola da camisa, endireitei as costas para parecer mais alto e, durante essa checagem que todos fazemos para aparentarmos ser mais interessantes do que de fato somos, me lembrei do que me levou até o Mambo naquela tarde de segunda: Listerine. Isso! A menina foi a minha senha do programa Supermarket! Nunca usei Listerine nem Cepacol em toda minha vida. Mas andava meio noiado com essa história de mau hálito. Sei lá. Noias temos sempre, cada hora uma diferente, e naquela semana, eu me lembro, a noia da vez era o bafo. Ninguém tinha reclamado de nada, nenhum amigo tinha me dado “um toque” – “Amigo que é amigo avisa quando tem pele de feijão no meio dos dentes, e o mais importante: avisa quando você está com bafo!”. Pois é, não tinha acontecido isso comigo, mas encanei que precisava comprar enxaguante bucal. Precisava. Precisava! E aí, ao ver a menina parada no corredor dos enlatados, me lembrei do Listerine. Poderia ter ido a uma farmácia. Teria economizado uma boa grana... Mas como já estava lá, catei uma lata de pepino em conserva, dei uma secada tremenda na gata, e fui atrás do meu Listerine, que me salvaria dos germes por 12 horas além de eliminar o mau hálito e a minha paranoia.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Rafael Gentile, especial para o texto

terça-feira, 29 de abril de 2014

Uísque de cobra



por Carlos Conte

– Aqui está, Charlene, seu velho cão! Presentinho do Laos... – e me estendeu uma garrafinha cheia de um líquido amarelo, meio turvo, através do qual se via, envolta em folhagens, uma cobra. Como a cabecinha dela não estava submersa, cheguei a pensar, com certo nojo, que poderia estar podre.

Combinamos de beber aquilo numa ocasião especial. Não é todo dia que se ganha um uísque de cobra, ainda mais vindo de tão longe, e por isso decidimos que a rolha só seria removida numa data importante. A princípio não definimos quando seria, mas ficou acertado, com ares de seriedade, que para beber aquele destilado exótico armaríamos uma espécie de ritual.

Não demorou, surgiram voluntários querendo participar. Talvez fosse o fascínio por aquele réptil mergulhado em aguardente, um sabor ainda não experimentado, a possibilidade de uma experiência mística, não sei precisar ao certo por que tanta gente se interessou por aquele uísque... A propósito: uma cobrinha bem sem vergonha, dessas que de vez em quando a gente encontra na beira de um córrego ou terreno baldio, dois centímetros de espessura, toda verde, com detalhes em vermelho e amarelo, e a língua esticada pra fora, os olhos esbugalhados, como se quisesse lembrar aos vivos beberrões que na origem do prazer etílico havia uma triste história de perseguição, sofrimento e morte.

Mas isso, na verdade, só alimentava nosso desejo. Saber que aquele animal havia sido assassinado para que pudéssemos desfrutar do seu sabor fazia aumentar a nossa responsabilidade: que sua morte não tenha sido em vão! Façamos jus ao sacrifício dessa cobra!

Tudo bem que não tinha a nobreza de uma naja, sucuri, jiboia, cascavel, mas se tratava, apesar de tudo, de uma cobra, naturalmente ardilosa, dotada de estratégias caçadoras que fazem inveja ao mais hábil caçador da espécie humana. Por menor que seja, uma cobra sempre impõe respeito. Quantas histórias de expedicionários que não voltaram para casa porque o veneno foi mais rápido, espalhando-se implacável pela corrente sanguínea, provocando uma morte lenta e terrivelmente dolorosa... Aquela, porém, não parecia ser venenosa. Com esforço, Migue e eu recordamos as aulas da biologia do colégio e, analisando com atenção aquele exemplar conservado em álcool, chegamos à conclusão de que uma cobra, para que possa ser considerada venenosa, tem que ter a cabeça em formato triangular e a cauda mais fina que o restante do corpo. O Migue também me explicou que cobra venenosa tem um orifício a mais além das narinas e dos olhos, com um nome esquisito do qual agora não me recordo (como várias outras coisas da época da escola, essa informação deve ter ido parar em algum arquivo morto da minha memória).

Mas não fiquei menos tenso por causa disso. Mesmo se um zoólogo me dissesse que não se tratava de indivíduo peçonhento, sobraria uma pontinha de desconfiança. Não tem jeito. Os japoneses que vão ao restaurante para comer aquele baiacu venenoso, que só pode ser manuseado e limpo por um sushiman licenciado, pagam caro justamente porque têm consciência do risco que estão correndo. Sabem que o sushiman não vai errar, que ele foi treinado para detectar e extirpar a bolsa de veneno das entranhas do peixe, mas ainda assim fica alguma dúvida, e é por causa desse resíduo de desconfiança que o baiacu mortal é tão famoso.

Ficou decidido: 1º de janeiro de 2014. O dia da cobra. O renascimento selvagem das nossas almas ressacadas. O dia em que deglutiríamos o espírito da serpente. Pode parecer história de pescador o que vou contar agora, mas garanto que foi exatamente assim:

Estávamos na casa de um pescador, o Toninho, na Enseada da Baleia, Ilha do Cardoso. Chovia, como é comum no primeiro dia do ano. Alguns dormiam, outros aproveitavam os últimos momentos de luz do gerador para ler, jogar cartas, arrumar o quarto, antes que a escuridão tomasse conta de tudo. Lembro que estava coçando na rede quando o Migue veio até mim e anunciou que aquela era a hora. O Dani estava lendo Manoel de Barros e passou. A Iza, esmaltando as unhas, passou. O Galo passou. Mumu também. Só o Cabelo quis participar. Estávamos reunidos na cozinha mal iluminada, e os pingos de chuva grossa que caíam esparsos na telha de Brasilit davam o ritmo.

Algo dizia que aquele momento era solene, mas já não estava tão convicto disso. É que alguns dias atrás, numa de suas histórias sobre as peregrinações pelo leste asiático, o Migue contou que essas cobrinhas dão que nem rato no Laos, Vietnã, Camboja, e não tem nada de especial topar uma dessas pelo caminho. Andando de moto pelas estradas vicinais do Laos, é comum vê-las saindo do meio do mato e cruzando o asfalto. Até na cidade as crianças pegam essas cobrinhas pelo pescoço brincando no quintal. Faz parte do dia a dia dessas pessoas encontrar cobras. E confesso que esse papo me tirou um pouco do tesão pelo ritual.

Além disso, uma sensação vaga me dizia que aquele uísque era meio “fake”, coisa pra inglês ver, pra se trocar por um punhado de dólares e, no fim, decorar a estante da casa de algum gringo metido a exótico. Sem dúvida, a garrafa era bonita: a cobra envolvida em plantas de arroz, mergulhada no uísque, daria um ótimo bibelô. Mas a bebida, pensei, não devia ser nada de mais... Esperava que fosse forte, com elevada graduação alcoólica, mas isso independente da cobra, que ali cumpria função de mero ornamento. Em outras palavras: não acreditava que estava prestes a beber o corpo de uma cobra morta.

Lavamos três copos e nos sentamos em volta da mesa. Migue, como mestre cerimonial, abriu a garrafa. Não foi fácil remover a rolha. Estava cravada no gargalo com tanta pressão que chegamos a cogitar usar um facão para arrancá-la, mas esse procedimento pouco digno felizmente não foi necessário porque o Migue meteu a garrafinha no meio das coxas e puxou a rolha com tanta força que o líquido quase foi pro chão. O estampido foi alto. Um “ploc” de verdade que nos causou boa impressão, sobretudo por estarmos no primeiro dia do ano. Depois do “ploc”, um cheiro forte que eu nunca tinha sentido. Subiu com extrema velocidade, preenchendo em poucos segundos o ambiente. Um misto de peixaria com álcool de cereais, uma coisa terrível, e não tive como não ficar assustado com aquela primeira manifestação da cobra, sua carta de apresentação, que imediatamente provocou ânsias no Cabelo, historicamente fraco do estômago.

Recuperados do primeiro golpe, demos as mãos, os três, fechamos os olhos e pensamos em alguma coisa. Não tínhamos preparado nada. Fiz mentalmente uma oração, pedindo um ano bom ou qualquer coisa do gênero, mas o cheiro da cobra era tão violento que minhas preces foram confusas, como um pesadelo. Um pesadelo oriental, pensei, como os sonhos torturantes do comedor de ópio Thomas De Quincey.

Ninguém estava preparado. Senti medo. Medo de passar mal, de tomar veneno e morrer naquele casebre litorâneo em pleno 1º de janeiro, medo de nem começar o ano. Os copos foram servidos até a metade. Acho que foi o Galo que começou a dedilhar o violão dentro do quarto. Havia muitos resíduos sólidos boiando no líquido, conferindo-lhe aspecto sujo, como as águas do canal do mangue que passa atrás do casebre. Matéria orgânica de cobra, pensei. Aquilo não era nada “fake”. E assim que o Migue deu o sinal, viramos, todos juntos, até o fim, a dose mais incrível e asquerosa que eu já tomei na vida, uma mistura de carne podre com formol, e nesse momento o gerador parou de funcionar, a escuridão tomou conta de toda a ilha, alguém tossiu, a cobra, enfim, estava dentro de todos nós.

Acendemos velas. Tinha sobrado meia garrafa. A Iza, preocupada, disse que não precisávamos provar mais nada com aquilo e que era melhor jogar o resto fora. Mas ninguém atendeu aos seus apelos. Servimos mais uma dose para cada, o Cabelo segurou o vômito, e mandamos pra dentro a dose final.

Depois disso, o que posso dizer? Levantei-me zonzo. Apenas duas doses e estava completamente dominado pela embriaguez. Não conheço bebida mais forte. Fui em direção ao quarto buscar a escova de dente (afinal, não poderia dançar forró com aquele bafo de cobra morta), mas puxei a porta de madeira com tanta força que, não me perguntem como, as duas dobradiças se estraçalharam e a porta veio pra cima de mim como um poste ou um tronco cortado – “Madeira!” – e eu tive que me virar para apará-la com as duas mãos, evitando que ela caísse em cima dos meus pés.

Perguntem ao Migue, ao Cabelo, a quem estava lá. Perguntem à Iza, que ficou boquiaberta.

Dia seguinte, acordamos bem, sem ressaca. Tive de dar explicações ao Toninho, dono da casa, pescador há mais de 40 anos, de como aquela porta tinha sido arrancada da parede. Falei a verdade: “Foi a pinga de cobra, Toninho...”. Mas duvido que ele tenha acreditado na minha história.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Roque sabe


por Carlos Conte    ilustração Ligia Morresi*

Vão pensar que estou ficando maluco. Por educação, ninguém vai ter coragem de me falar isso, mas vão pensar, tenho certeza: “Que coisa, o Carlos enlouqueceu! O que se pode fazer?...” Mas é verdade, pensem o que quiserem. Meu cachorro, o Roque, um vira-lata preto que acaba de completar 3 anos de vida no último 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, consegue ler meus pensamentos.

Não entendo de psicologia canina, mas o pouco que sei de psicologia humana me faz duvidar do fenômeno da telepatia, assunto estudado pelos defensores da parapsicologia e seus métodos tão pouco científicos. Já tinha ouvido falar de cães com supostas habilidades paranormais: “Ah, o meu cachorro sabe quando estou triste”, ou “sabe que vou mandar ele pra casa da avó”, ou “sabe que está na hora de comer”... sabe isso, sabe aquilo, coisas que o animal, evidentemente, não teria como saber, pois estão na cabeça do dono, mas o que não falta é gente que acredita em transferência de pensamento, seja entre pessoas, seja entre bichos ou até mesmo entre pessoas e bichos.

Sempre duvidei. Papo aranha! Ora, cachorros são condicionados, como são condicionadas as orcas do Sea World, o Rin-Tin-Tin, ou o Flipper, aquele golfinho dos filmes antigos. Não sabem coisa nenhuma, mas foram amestrados, por algum espertinho que tem o olho na grana e poderia trabalhar num circo ensinando elefantes a dançar no picadeiro. É a velha história de estímulo-resposta inventada pelo Skinner. O elefante dança ao ritmo da música porque foi treinado por um longo tempo a associar a música com a experiência dolorosa de pisar numa chapa quente.

Por exemplo, tive uma cadela, a Tifany, que previa quando íamos sair de viagem. Imagino que ela relacionasse o fato de tirarmos as malas do guarda-roupa com a longa ausência que se seguiria, talvez pelo cheiro de mofo das malas sem uso durante meses, talvez pela simples imagem das malas. Fosse pelo cheiro, fosse pela imagem das malas, era começar a arrumar as bagagens que ela se enfiava debaixo do sofá, começava a salivar e a tremer, coitada, em completo desespero, porque tinha aprendido que as malditas malas eram o prenúncio de dias de solidão.

Com o Roque também é assim. Mas o Roque é mais inteligente que a Tifany. Ele sabe das coisas, diferentemente de cães comuns. (Todo dono de cachorro acha que o seu é mais esperto que os outros: “Ah, igual ao Brutus eu nunca vi! Até parece uma pessoa”). Pois o Roque, garanto, é como se fosse uma pessoa. Mais que isso. Pessoas não leem pensamentos, o Roque sim. Já disse: ele sabe das coisas.

No começo, não me espantei: a chave era o sinal. Quando ele ouvia o tilintar do molho de chaves, latia, porque sabia que ao som metálico das chaves se seguiria o nosso cooper diário. Até aí tudo bem. A Tifany também associava o barulho da coleirinha com o passeio. Sei de muitos cães que fazem isso. Mas o Roque foi além. Com o tempo, ele começou a se antecipar à etapa das chaves. Bastava tirar o shorts da gaveta que ele, lá embaixo, no quintal (meu quarto fica na parte de cima do sobrado), começava a latir. Incrível, pensei. Certamente está associando o cheiro do shorts com a corrida, que ele tanto adora. E cachorros, todos sabem, têm um faro extremamente apurado, a ponto de serem usados por caçadores atrás de veados ou por policiais federais atrás de drogas. Penso que o Roque bem que poderia ser útil pra essa gente, devido a essa enorme capacidade olfativa, mas está fora dos meus planos, e também dos planos do Roque, caçar veados ou prender alguém. Ele sabe, por exemplo, quando vai chover, sabe quando vou sair de casa (porque sente o cheiro da mochila), sabe todas essas coisas – ou, melhor dizendo, não é que ele saiba, mas está acostumado, condicionado, a associar o cheiro ao fenômeno que a ele está diretamente relacionado. Até aí nada de novo, porque os outros cães também sabem dessas coisas.

O susto veio num dia em que, escrevendo no laptop, pensei (não falei, nem fiz nenhum sinal – apenas pensei): “Bom, mais um parágrafo e vou correr!”. Mal termino de combinar isso comigo mesmo, ouço o Roque latindo lá embaixo. Olho pela janela e vejo que ele está sentado, língua de fora, bem debaixo da minha janela, naquela velha posição ansiosa, me esperando descer. Vejam: saio para correr todos os dias, portanto é de se esperar que ele, esperto que é, já tenha registrado isso na sua memoriazinha de cão; mas nem sempre corro nos mesmos horários. Tem dias que vou logo cedo, assim que acordo. Tem dias que vou à noite, pra fugir do calor. Não me perguntem como, mas ele sabe.

A partir de então é assim: não espera que o shorts saia da gaveta, nem que o molho de chaves faça o seu característico tilintar, sinal tão óbvio para qualquer cachorro normal. Posso estar no banheiro, lendo jornal enquanto me alivio, tomando banho, olhando os últimos posts no facebook: é pensar, mesmo que vagamente, que está na hora de correr, que o Roque começa a latir lá embaixo. Nos dias em que estou com preguiça, isso até me serve de estímulo. “Bom, ainda preciso enviar uns e-mails, preparar umas aulas, terminar esta crônica... Acho que hoje, só hoje, vou cabular a corrida...”. Mas aí, como um amigo pentelho convidando pra tomar cerveja numa segunda à noite, ou o louco do Cadão nos tempos de criança na Vila Ipojuca tocando a campainha insistindo pra jogar futebol, o Roque, percebendo minha hesitação, antecipa-se, e decide por ele mesmo, ou por nós dois, que hoje, sim, vai ter corrida. Nesses dias, talvez seja melhor não pensar.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Perseguição


por Carlos Conte   ilustração Leandro Lobo*

Enquanto ela descia, eu subia a Av. Angélica. Pena que foi dessa maneira, ao acaso, no meio da cidade. Apenas uma desconhecida. Vejo hoje uma pessoa na rua e provavelmente não voltarei a vê-la.

Mas foi impossível ignorá-la. Sim, tinha cruzado meu caminho, enquanto eu subia e ela descia a Av. Angélica: o encontro de dois roteiros, um que leva ao centro, outro que leva ao bairro. Sei que faz parte da rotina cruzar com meninas interessantes, totalmente desconhecidas. E ninguém é louco de sair se apresentando, ainda que seja a mais bonita de todas as meninas.

Como andava rápido! Paulistana demais. Calça jeans apertada, marcando-lhe as coxas, cintura, bunda. Caminhava com o tronco firme, mas a cintura rebolando. Seus braços, como se atendessem a uma rígida disciplina, não se afastavam muito do corpo; apenas se movimentavam para frente e para trás. Pulseira discreta no pulso direito, mais o relógio. Cabelos pretos, cacheados, até a cintura, contrastando com a pele branca, sob a blusinha de alça vermelha (e fiquei imaginando o ritmo dos seus seios, já que a observava de costas). Estava apaixonado.

Atravessou a rua, entrou na Sergipe. Quem sabe uma vestibulanda... Ou talvez procurasse pelo número de um laboratório, uma clínica médica. Impassível, atravessou a rua imersa nas sombras gigantescas das árvores, caminhou mais alguns metros e parou no sinal. Assim ficamos lado a lado, esperando o farol fechar.

Atravessamos e descemos a Consolação. Juntos. Já não pensava nas minhas obrigações. Meus compromissos do dia foram subjugados pela loucura. Pelo desejo. Queria me aproximar o suficiente para sentir o seu perfume. Queria sussurrar alguma coisa no seu ouvido.

Entrou na padaria. Eu entrei também, e nos sentamos juntos ao balcão. Ela pediu café com leite. Eu pedi um expresso e peguei um livro na mochila, para disfarçar. Acho que ela me olhou. Pela primeira vez eu pensei, um pouco humilhado, que tinha me desviado do caminho de casa há 20 minutos, em plena segunda-feira, por causa de um rabo de saia. Mas levantei a cabeça e continuei minha perseguição, assim que ela pagou a conta e se levantou.

Viramos na Rua Augusta, atravessamos na faixa, atingimos a outra calçada. Aonde me levava? Ela me guiava, eu consentia. Nossa relação era essa.

Até que parou em frente a um sobrado. Sacou da bolsa o telefone celular, depois um batom e um pente de plástico. Virou-se na minha direção: “Oi, gato!”, como se nos conhecêssemos. Pelo que entendi, deveria esperar meia hora. Em meia hora ela estaria pronta. “Sabe que fui com a sua cara, gato? Gosto de homem corajoso... Você faz isso sempre?”. “Isso o quê?”. “Seguir as meninas na rua... Não que eu tenha me incomodado”. Respondi que não, que raramente fazia isso.

O porteiro a cumprimentou com um beijo no rosto e um abraço efusivo. “São 10 reais pra entrar”, ele me disse, “e enquanto a menina se apronta você pode ir tomando uma cerveja, uma caipirinha...”. Esse lero conhecido dos que experimentam descer a rua Augusta até o fim. Entrei.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Leandro Lobo, convidado especial para o texto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Querida Bety


por Carlos Conte      ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Querida Bety, conheci você há alguns anos, dentro de um sebo no bairro de Pinheiros. Seu nome está na folha de rosto do livro que eu comprei, “6 propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino: “Bety, espero que me perdoe. Feliz 92. Te amo demais! Alfredo. 31/12/91”, diz a dedicatória. Livro especial, sem dúvida. O Alfredo, além do bom gosto, tinha ótimas intenções ao lhe ofertar esses valores literários que o Calvino transmitiu para as gerações do novo milênio. O que o Alfredo te fez, Bety? Alguma mancada grave? Para o livro ter ido parar na estante do sebo, acredito que sim. Com certeza quis apagá-lo da lembrança. Você não o perdoou.

Confirma minha hipótese o fato do livro estar praticamente novo. Mais de 20 anos depois, Bety, e nenhuma folha amassada, nenhuma orelhinha sequer... Você não leu esse livro, tenho certeza. Tivesse lido, teria deixado algum sinal. E olha que eu sou atento! Consigo divisar um vestígio em livro como poucos. Aliás, confesso, tenho mania por livros usados. Dizem que cada qual tem a sua. Ou até mais de uma. No meu caso, livros usados. E por isso não ligo para rasuras, como a maioria. Para mim, é interessante saber como um desconhecido leu as mesmas palavras que eu estou lendo. Comentários marginais, exclamações, interrogações – ah, como pode esse cara não entender esse parágrafo!... Me divirto.

Só me deixam angustiados os trechos grifados, alguns marcados com asteriscos, que eu leio, releio, e não entendo. Como pode alguém ter encontrado tanto sentido nessa parte tão difícil?... Nessas horas, Bety, tendo a me considerar um mau leitor. Desatento. Limitado. Meio burrinho, se é que você me entende.

Tudo bem. Quem sabe um dia, pegando de novo o bicho, eu entendo. Vou passar pelas mesmas linhas, pelas mesmas frases, e me deparar com as interrogações aflitas que eu mesmo rabisquei anos atrás. Dois Carlos, enfim, se encontrando, separados por um intervalo de cinco, dez anos. E aí, Bety, nesse encontro inusitado, vou olhar com indulgência para as minhas garatujas preocupadas de outros tempos, minhas antigas marcas da adolescência.

Já ganhei trevos de quatro folhas, recortes de jornal, fotos pessoais. Objetos esquecidos no meio de livros. Livros que foram parar em sebos, não se sabe por quais circunstâncias da vida: desinteresse pela leitura, falta de grana (caso de quem vende parte de sua biblioteca para levantar algum), falta de espaço, mudança de endereço, falecimento.

No seu caso, Bety, deduzo que tenha se livrado do livro por falta de amor. Mas também pode ter sido por excesso. Sim, excesso de amor é uma hipótese plausível. Isso já aconteceu comigo mais de uma vez. Para me livrar completamente de uma pessoa que eu amo demais, mas que preciso esquecer de qualquer maneira, já que esquecê-la é a única maneira de tornar a existência suportável, preciso jogar fora todos os seus vestígios materiais: chinelos, presilhas de cabelo, cartas, calcinhas, presentes... Livros, dentre os presentes, têm importância especial. Afora as pessoas que escolhem livros como quem escolhe meias numa gôndola de supermercado, presentear com um livro geralmente requer sensibilidade, sofisticação. Não é um presente qualquer. Acertar na escolha de um livro significa que se está em sintonia com a pessoa presenteada. Quase telepatia. E há livros que, de tão especiais, acabam se tornando marcos de um relacionamento: positiva ou negativamente. Exemplifico. Num momento de fogo, de grande libertação, inclusive sexual, quando viajávamos e nos descobríamos, comprei para uma ex-namorada On the Road, do Jack Kerouac (que ela não leu). No final do namoro, simbolizando a lápide fria da inércia típica do final de um relacionamento, ela me deu de presente de aniversário um dicionário (extremamente útil, um Houaiss tamanho grande, completo, atualizado com a nova grafia), mas um dicionário.

Sabe, Bety, no seu lugar não teria me livrado do livro, como você fez. Apagar o Alfredo da memória talvez fosse mesmo inadiável, mas não em troca de um ótimo livro, como esse do Calvino. Poderia, em vez disso, ter rabiscado a dedicatória, ou arrancado a folha de rosto. Por causa do Alfredo? Não deve valer grande coisa... Ao menos deveria ter ficado com a literatura. Mas aí eu nem te conheceria. De qualquer maneira, espero que tenha passado um feliz 92, querida Bety.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brincadeira


por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Aproveitando a tranquilidade da tarde de sábado, levei a cadeira de praia para o quintal da frente e abri um livro. Notei, entre uma página e outra, que um grupo de meninos curtia o dia de sol brincando no terraço da casa da frente. Não jogavam futebol nem empinavam pipa. Talvez já tivessem esgotado o rol de brincadeiras possíveis e, sem ter mais o que fazer, começaram a me importunar.

Do outro lado da rua, gritaram:

– Tio, ô tio!...

Ainda não me acostumei com essa história de ser chamado de “tio” por moleques de 10 anos de idade. Não faz muito tempo, eu que chamava os mais velhos de “tio”, e até hoje, carinhosamente, trato de “tia” a Ivani do bar da Rua Aurélia, e ela me chama carinhosamente de “teacher”.

Mas não era com carinho que os moleques me chamavam de “tio”. Empoleirados no terraço do vizinho, uns três ou quatro metros acima do nível da calçada, eles acabavam de eleger o alvo de suas brincadeiras.

– Tio, ô tio!...

Ora, tenho apenas 28! Tio é a mãe! O que esses moleques estavam pensando?... – Olha pra cá, tio! Olha pra cá!...

Claro que eu não olhava. Não lhes daria esse prazer. Além do mais, não estava a fim de papo. Só queria ler e ficar em paz. Por isso optei pela estratégia tão usada para acalmar ânimos infantis: não dar corda.

Mas a indiferença não funcionou. O coro, que começou baixo, foi ganhando força. Eram quatro, cinco, seis – não sei ao certo quantos meninos, porque evitava olhar diretamente para eles, demonstrando que eu nem me importava. Meia dúzia de moleques que decidiram tirar o sossego do meu sábado.

Quanto mais os ignorava, mais insistentes ficavam. Ah, crianças! Pobres crianças... Uma hora dessas, os pais deviam estar largados no sofá, em frente à TV, comemorando silenciosamente a tranquilidade temporária que o filho e os amiguinhos lhes davam. Mas à custa de quem?

– Ô tio! Olha pra gente! Ô do bigode!

Decidi que não olharia, em hipótese alguma. Pronto! Caísse a árvore da rua, caísse o mundo, não faria a vontade deles. Discretamente, por cima do livro, arrisquei uma olhadela: estavam todos voltados para mim, alguns debruçados perigosamente no parapeito. E confesso que, por alguns instantes, não que tenha desejado o pior, mas cheguei a imaginar como seria se o pior acontecesse. Daquela altura, do terraço até o chão... Um grito agudo, um crânio rachado, sangue escorrendo pela calçada em direção ao meio-fio, tragédia na Vila Romana... Mas afastei rapidamente esses pensamentos malignos da minha cabeça. Ora, os pais que se preocupassem com a segurança dos filhos!

– Ô do bigode! Não vai olhar? Fala alguma coisa, pô!

Não, não queria falar. Só queria ler... E pra isso precisava de silêncio. Com crianças por perto, eu sabia, seria difícil. Aliás, um dos motivos de eu ter me esquivado até hoje da ideia de ter um filho é justamente este: a encheção de saco. Sei que algum dia vai dar vontade. Sei que filhos, apesar de todas as dúvidas, é melhor tê-los. E sei que algum dia voltarei a pensar nesse assunto. Por enquanto, não. Só quero ler meus livros e beber com os amigos. Nada de filhos. Já me basta a semana na escola lidando com os filhos dos outros. Sábado não!

– Ô tio! Ô do bigode!...

Bom, nem preciso dizer que a essa altura minha concentração tinha ido pras cucuias e, quando me preparava para jogar a toalha, levantar acampamento e me instalar no quintal dos fundos, veio a primeira ofensa:

– Fala alguma coisa, veado! Ô veado!...

Em seguida, completaram:

– É veado e maconheiro!

– Veado, maconheiro e careca!

E o coro de impropérios, cada vez mais alto e teimoso, encontrou seus melhores adjetivos: careca, veado e maconheiro. Ofensas infantis, eu pensei. Mas ofensas infantis somente pelo fato de serem proferidas por crianças, pois na verdade não têm nada de infantis. Fosse mulher, talvez emendassem “puta”. Fosse negro, “crioulo”, “tição”. Fosse pobre, “mendigo”, “fracassado”, “fodido”. Ficava, então, sendo velho, pela calvície, além de veado e maconheiro, por terem encontrado algum motivo na minha aparência, ou quem sabe na má fama da minha casa, para me chamar de veado e maconheiro. Registrei todas as injúrias na folha de rosto do livro que estava lendo e, ao me ver escrevendo, um dos moleques gritou:

– Já sei: ele tá escrevendo um livro. Vai postar no facebook, no site dos idiotas... Era a gota d’água: “Site dos idiotas?!”. Esses moleques mereciam uma surra, isso sim. Tinha ficado na moita até agora, sem reagir, feito adulto. Mas já fui moleque um dia. Um moleque nervoso, de estopim curto, como diz minha tia. Os palavrões me subiram, fervendo. Os piores nomes que conheço!

Mas não deu tempo. Já estava com as quatro pedras na mão, quando anunciaram a retirada: – V’ambora, gente. Ele é surdo, deixa ele em paz...

Um a um, foram se afastando do parapeito e saíram do terraço, atrás de outra coisa para brincar.

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*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Meu amigo moçambicano


por Carlos Conte     ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Outro dia, enquanto lia o “Conto de Escola”, de Machado de Assis, e discorria sobre o dilema ético da história, um aluno me perguntou se alguma vez já colei ou recebi cola. Dizer o que para crianças de 12 anos? Ainda mais quando se é professor de uma disciplina chamada Orientação de Estudos, cujo objetivo deveria ser ensinar técnicas, ferramentas de estudo, não a cola. Sorri ao me lembrar do provérbio aprendido na adolescência: “Quem não cola não sai da escola”. Nada de “contaminar” os meninos!, pensei. Mas ao mesmo tempo, lembrei-me do Filipe, meu amigo moçambicano da época da faculdade, e resolvi contar-lhes sobre a minha última cola.

Filipe estava terminando o intercâmbio na Faculdade de Economia da USP. Nós nos conhecemos no curso de Estatística do IME, obrigatório para economistas e aspirantes a cientistas sociais, como eu. Sempre o via na fila da monitoria, antes do início das aulas do período noturno, e logo nos identificamos: ambos odiávamos as aulas de Estatística. Eu, na verdade, porque não entendia patavina, e minha primeira reação diante daquilo que não entendo é detestar. Já o Filipe se saía melhor com os números, mas pelo fato de estar cursando simultaneamente cinco disciplinas – as cinco disciplinas do seu último semestre de intercâmbio –, não tinha muito tempo para se dedicar a cada uma delas.

Graças ao Filipe, tirei cinco na primeira prova. Nossas sessões de estudo na cantina, à base de Coca-Cola e esfirra de calabresa, tinham funcionado. Filipe tirou sete. Mas poucos colegas tinham conseguido ficar acima da média, confirmando a má fama dos professores do IME de serem os maiores carrascos do campus. Todos estávamos no mesmo barco – cientistas sociais, economistas. Todos deveríamos passar pela dura provação que era convencer os professores de Estatística de que tínhamos aprendido minimante sua disciplina.

Filipe, então, deu uma sumida. Começou até a faltar nas aulas, o que não era comum. Não o via mais nos plantões para tirar dúvidas, nem na cantina para estudar. Um dia ele apareceu no samba da Biologia: estava uma pilha de nervos. Nas vésperas da segunda prova, ele acumulava muitas faltas e ainda nem tinha começado a estudar. Compreensível, porque cursava, além dessa, mais quatro disciplinas na Economia e por isso não lhe sobrava tempo. Mas o pior de tudo, confessou-me virando a cerveja, era que não poderia nem pensar em ir mal nesse segundo exame; seu pai o trucidaria! Isso porque não poderia fazer a terceira prova (uma última oportunidade para os que não atingiram a média), que seria aplicada em meados de dezembro, época em que Filipe já deveria estar em Maputo, onde seria padrinho do casamento da irmã. Seu pai já havia inclusive comprado a passagem.

Impossível, mesmo para o bom matemático que era o Filipe, pegar a matéria em poucos dias. Eu vinha me matando há semanas para aquela segunda prova. Pedi-lhe calma. Pensaríamos numa saída. Comprei meia dúzia de fichas de cerveja. Filipe já estava caindo na cachaça. Seria uma tragédia familiar caso tivesse que ficar em São Paulo para fazer a terceira prova! Para sempre seria lembrado como o padrinho relapso, o irmão desnaturado. A solução emergiu do estudante malandro que um dia já fui, mas que ainda vive meio escondido no meu âmago. Cola! Ora, Filipe, uma medida emergencial para uma situação desesperadora. Ninguém vai ficar sabendo, meu chapa. Um dia escreverei uma crônica sobre isso, mas prometo que mudo seu nome.

No dia da prova, fingindo estar resfriado, deixei um rolo de papel higiênico em cima da mesa. À minha direita, duas carteiras ao lado (porque o professor exigia que uma carteira ficasse vazia entre nós), estava Filipe, aparentemente concentrado. Meia hora depois, o sinal: deixei a caneta cair no chão. Filipe desatou a tossir e espirrar (que atuação!), a ponto de ficar vermelho. Educadamente, levantei-me e lhe passei o papel para assoar o nariz. As respostas estavam numa folha amassada dentro do rolo. Com essa cola, punha em risco minha nota, meus créditos, minha vida acadêmica.

Valeu a pena ver a felicidade de Filipe uma semana depois, quando chegou o resultado. Sete e meio! Desce meia dúzia de Brahma! Prometeu-me nunca mais se esquecer do meu ato de generosidade e que, se um dia for a Maputo, me receberia na sua casa e me levaria aos melhores lugares da cidade. Eu, seu amigo brasileiro. Filipe, meu amigo moçambicano. Disse aos meus alunos, para encerrar, que a cola é uma prática condenável, reprovável (e todo esse papo aranha que a gente ouve desde pequeno...), mas que em alguns casos, só em alguns casos!, ela se justifica.


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*Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto
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