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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 12 de março de 2014

Sabichões

por Fernanda Pompeu*

Na casa da internet circulam São Google, Mister Yahoo, Wikipédias ao lado de aplicativos que brotam como capins eletrônicos. Sem esquecer as redes sociais que congregam amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos tendo como matéria-prima informações e contrainformações, veiculadas por palavras e imagens.

Hoje, a gente não fala mais em mundo real e mundo digital. Eles se fundiram, configurando o nosso mundo. Da revolução internet, surgiram estonteantes novidades. Dentre elas, a profusão de especialistas e comentaristas. Todos têm, ao menos, uma opinião. Não importa o tema. Como um São Jorge de lança em punho atacamos o dragão dissonante, dissidente.

Ou, ao contrário, como Pietàs emocionadas acolhemos nossa turma, nossos pares, os que pensam parecido com o que pensamos. Sempre foi assim, não é? Por isso, no passado, inventamos partidos, sindicatos, associações. Para defender interesses de uma categoria, de uma classe, de um conjunto. E também para atacar quem atrapalha, trabalha contra, aqueles a quem chamamos eles.

Mas se a essência se mantém, o resto todo muda. Somos seres mais sabidos e capazes de fuçar dados, argumentos, gostos, avaliações em mínimos cliques. Antes era bem mais fácil para governos, empresas, políticos mentirem. Apenas uma pequeníssima parcela tinha acesso a informações e poder para se contrapor. Eram os chamados subversivos da ordem, do estado das coisas.

A nova pergunta é: o que faremos com tanta sapiência? Está certo, para chegar numa minúscula rua no extenso bairro de Parelheiros, extremo sul de Sampa, basta usar um aplicativo no celular. Para descobrir o caminho que me levará para o outro lado do rio, entre as árvores, só preciso de inteligência para cruzar informações ao usar um buscador. Ficou simples e imediato sair do ponto A para o B. Do C até o Z!

O que eu ainda não consigo encontrar na internet são elementos que me ajudem a mudar a rota da minha vida. Nenhum aplicativo me explica como aplacar a tremenda saudade que sinto do meu pai. Jogo algum me habilita a derrotar os inimigos que ardem no meu peito. Não acho nenhum sistema que minimize minha crise.

Talvez no futuro. Chegará uma época em que um programa secará lágrimas? Tempo em que um verbete da wikipédia ensinará a viver a vida? Não consigo dizer que sim nem que não. Sei que um pedaço da resposta que procuro pode estar no poema escrito por uma doceira, ou até na fala espontânea de uma menina de sete anos de idade.

* * * * * * * 

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis a partir da obra de Nam-June Paik.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

TV de LSD


por Carlos Conte  ilustração Caco Bressane*

 Deu nos reclames do plim-plim:

– TV LCD da Sony, modelo Bravia, KDL, 40 polegadas, FULL HD, USB Play e Rádio FM! Apenas 1599 reais à vista. Não é muito barato?...

Virei para o Galo e perguntei se ele gostaria de ter uma TV igual à da propaganda.

– Cara, quer saber? Pra mim tanto faz. Parabólica, a cabo, o escambau. TV eu uso é pra dormir, Carlão. Não tem calmante melhor. Um calmante eletrônico.

O Peri é outro que não liga pra televisão. Na sala, prefere rodar um disco do Chopin, Lou Reed ou a trilha do filme Laranja Mecânica. Pra TV não está nem aí. Se bem que, não faz dois meses, assistimos juntos à cena da novela das oito em que a Claudia Raia aplica uma injeção letal no pescoço da amiga que tinha acabado de descobrir o esquema do tráfico de mulheres.

– E a câmera de segurança do elevador?! – levantou o Peri, indignado. – E a câmera do elevador, bicho?! Que prédio hoje em dia não tem câmera no elevador? Não é possível... Esse roteirista tá maluco, cara! Foi o bastante para desligarmos a TV.

Aqui em casa é assim: temos uma relação de amor e ódio com a nossa Semp Toshiba, presente do tio Paulo, pai do Cabelo. Aliás, foi o Cabelo que, na tentativa de consertá-la, afundou pra sempre o botão ON/OFF, e desde então, pra que a TV não fique o tempo inteira ligada, é preciso desplugar o fio da tomada; para ligá-la, pluga-se o fio novamente. E vamos nesta toada: reclamando do chiado, xingando, batendo, coitada!, só falta fazer que nem o personagem Jacarandá, do João Antônio, que possuído de ódio pela propaganda do banco enfiou um balaço de 38 bem no meio da tela.

Já trocamos de antena duas vezes para ver se melhorava. Bombril. Tapinha nas costas, pra não magoar. Que nada! Parece que não tem mais jeito.

Mas a verdade é que gostamos dela. Apesar de todos os seus defeitos; ora, quem não os tem? Amparada por uma pilha de Barsas, que são como tijolos, olho pra ela, orgulhoso, e digo: é a nossa TV! Apesar do seu chiado, é assim que gostamos dela. Também, não temos grandes desejos televisivos – mais de 250 canais, alguns só de filme, outros de desenho animado, notícias 24 horas e tudo o mais. Como nossa necessidade televisa é, digamos, modesta, vamos deixando como está. Em 2 anos, confesso que aprendi até a respeitá-la. Corajosamente sobrevive em meio à ânsia disseminada pela tela de plasma, entrada HDMI, imagem e som digitais e todo o aparato do cacete a quatro dos aparelhos televisores hoje em dia. Sabe que prefiro minha TV de LSD?

Até o Diegão, que tem TV a cabo em casa, de vez em quando dispensa o som digital e a mais alta definição pra assistir futebol aqui em casa. Segundo o Diegão, ver jogo aqui é mais emocionante. Quanto pior a imagem, mais difíceis as divididas, mais incertas as patadas da intermediária, mais confusos os escanteios. Mais sofrido, portanto mais Corinthians. 44 jogadores embaralhados em campo, dois juízes, um correndo atrás do outro. Nem a pau que dá pra enxergar o tempo de jogo, que fica na parte superior da tela. Vai na intuição.

Mas, por outro lado, não dá pra enxergar nitidamente os peitões da Cristiane Pelajo, nem o sorriso que o Peri adora da Letícia Spiller, nem as curvas da Camila Pitanga, unanimidade. Pra compensar somos poupados da cara de agente da CIA do Willian Waak. No lugar do rosto, máscaras sobrepostas, uma mistura psicodélica, ou uma forma monstruosa. Em vez dos números do último pregão da Bolsa, valores oníricos, ininteligíveis, ideogramas caleidoscópicos, signos fantásticos, lúgubres, indecifráveis.

Diante da telinha, em estado vegetativo, ao qual a droga nos induziu, alguém aciona a função MUDO e abraça o violão. O Peri faz questão que a famiglia jante toda junta. Depois, Gaisnburg na vitrola, Bony and Clyde, porque o aparelho de CD tá zoado faz tempo. Até que alguém, enfim, abre uma Brahma e despluga a TV da tomada, antes do Corujão.


* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

sábado, 12 de novembro de 2011

A espetacularização da barbárie

Mal a humanidade inicia a sua caminhada pelo século XXI adentro e os sinais exteriores da barbárie reclamam seu perverso protagonismo no dia a dia de todos nós cidadãos e começam a pontuar, a se destacar, nos grandes feudos de comunicação em massa. O capitalismo perdeu a compostura de vez e escancara para quem quiser ver a verdadeira natureza de suas entranhas.

A mídia corporativa, a televisão em especial, dominada pelo entretenimento e pelo jornalismo de mau gosto dos últimos anos, avançou um degrau no plano de embrutecimento das consciências, na banalização sistemática dos costumes, dos sentimentos, e na alienação política dos cidadãos.

Mas com uma curiosa e, sobretudo, perversa estratégia: a culpa dessa tragédia que nos enfiam pelos olhos e ouvidos, a sua articulação, será sempre dos terroristas muçulmanos ou poderá ser também dos excluídos e seus líderes populistas, ou ainda dos que insistem em teses anticapitalistas... E contra toda essa gente será necessária uma ação profilática e de preferência seguida por uma propaganda de impacto, o mais realista possível.

Nessa nova escalada para impor o terror e o medo, o primeiro a tombar foi Sadan Hussein após o genocídio no Iraque. Alguns anos depois vem a morte do “tão procurado” Osama Bin Laden e o genocídio do Afeganistão provocado pela caça ao líder da Al Qaeda. Agora, o cruel assassinato de Muhamar Khadafi e o genocídio líbio. Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?

O “Complexo Industrial/Militar”, expressão tão em voga nos anos 60, não só não deixou de atuar à sombra todos esses anos, como tem se modernizado e feito – para usar linguagem atualíssima – o “upgrade” de suas atividades, alardeando a propaganda menos dissimulada de seus interesses.

O desuso dessa expressão apenas mascara a contínua busca por outros eufemismos que escondam a ganância, a selvageria e a brutalidade que toma conta da minoria de milionários que comandam as grandes corporações de sociedades anônimas, as multinacionais que mantêm em suas mãos as rédeas econômicas e políticas de um mundo cada vez menos civilizado. Segundo pesquisa recente feita na Suíça por um Instituto de Tecnologia, pouco mais de 1300 grandes empresas entrelaçam-se nessa rede de domínio da economia mundial.
Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?
Como nos clássicos romances da literatura policial cabe aqui uma primeira pergunta: a quem interessam essas mortes e a grande e insana orgia midiática em volta delas? A lista real e hipotética indicada num dos parágrafos acima aponta para direção bem clara: a “democracia” ocidental e cristã, tutelada por meia dúzia de países no mundo sob o comando cruel e cínico dos Estados Unidos da América, procura, já sem nenhum escrúpulo, manter sob seu domínio alguns dos maiores produtores de petróleo e gás mundiais, ainda e por bom tempo as principais fontes de energia, para tocar os seus grandes negócios e não só.



Não há aqui meio termos. Sob o olhar passivo e subserviente da ONU e a sempre que necessária e providencial ajuda profilática da OTAN (organismos que necessitam exercitar os músculos de seus diplomatas e soldados em férias compulsórias após a queda da ex-União Soviética), a África Setentrional, o Oriente Médio, uns tantos países asiáticos e sul americanos, precisam – sempre e quando isso for possível – continuar explorados e mantidos sob dependência como fornecedores de matéria prima e mão de obra escrava. E importadores de manufaturados. Tudo para o regozijo dos “homens de bem” que tanto se preocupam apenas com as liberdades humanas que lhes dizem respeito.

O cinismo midiático atual não deixa dúvidas quanto a isso. Antiga ou não, essa visão de mundo e essa teoria continuam a ser postas em prática, apesar de se apresentarem em novos e sedutores envoltórios, onde as insinuantes sereias do neoliberalismo tiveram e têm papel de destaque, não importando aqui que os novos Ulisses sejam de esquerda, de direita ou não tenham ideologia nenhuma. E não é pequeno entre nós o número de defensores dessa ignomínia, seja sob qualquer pretexto, inclusive o religioso.

Mas, salvo erro de avaliação, parece que o tiro, a qualquer momento, pode sair pela culatra. A insanidade dos grandes bancos mundiais e dos agentes financeiros do capital especulativo, onde a produção de mais e mais capital (real ou virtual) – incluídos aqui o tráfico de drogas e armas, cujo volume em bilhões de dólares não sofre qualquer tipo de controle – já supera em muito a produção de bens para o consumo.

Esse capital especulativo dá sinais de preocupação quanto ao futuro, não da humanidade (seria esperar demais dessa gente), mas com o futuro de seus próprios negócios, numa demonstração inequívoca de que todo o sistema pode estar à beira de uma crise não só de nervos, mas de anomalias mais profundas.

A ágora grega, outrora palco milenar de grandes festas e debates democráticos, transformou-se nos últimos meses em cenário de lamentações e revoltas, onde o desespero e a dor de milhões de cidadãos fez subir o índice de suicídios, numa antevisão macabra do que poderá ocorrer em outros países. O temor toma conta do mundo e a hora é de reflexão. Mais do que isso, talvez: é hora de ação.

Contudo, na contracorrente das manifestações e revoltas populares por inúmeras cidades no mundo, os insensatos apologistas de um sistema que vaza água por muitos lados e seus irresponsáveis porta-vozes midiáticos, insistem em nos fazer crer que determinados governos, os árabes em particular (muçulmanos ou não), bem como outros, eleitos democraticamente ao redor do mundo, são comandados por “ditadores” que merecem ser abatidos como cães para se dar a impressão de que a democracia ocidental e cristã que defendem (a sua, claro) é quase que a expressão de um direito divino. As cruzadas e a Inquisição não fariam melhor.
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. 
Se você consegue mostrar um ser humano cruel, ditador em seu país cheio de gás e petróleo, acuado, abatido como um animal selvagem dentro de um buraco, estuprado numa tubulação ou num fundo de quintal, salpicando as cenas seguintes com grupos fanáticos agitando bandeiras e armas em nome da “liberdade e da democracia”, como insiste a hipocrisia de Hilary Clinton e Obama, mais um passo é dado na manipulação de mentes e consciências. Um passo estratégica e maquiavelicamente preparado.

Os programas matinais e vespertinos de emissoras de rádio, “talk-shows”, novelas e séries de televisão, alguns filmes de Hollywood, denúncias jornalísticas de origem duvidosa, revistas semanais impressas muitas delas naquele papel do Alfredo, jornais diários despudoradamente pusilânimes, e isso em quase todo o planeta, formam o renovado e agressivo pelotão de frente da ideologia dominante, usando a força de imagens e palavras para iludir, confundir, levantar suspeitas onde muitas vezes elas não existem; encobrir crimes dos apaniguados e, criar, enfim, a impressão de que esse – se não é o melhor dos mundos possíveis – é o mundo que se tem. E devemos todos nos conformar com isso. Devemos?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948 diz em seu artigo 1º: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Parece incrível que estas palavras tenham sido escritas um dia, mesmo levando-se em conta as circunstâncias de terem sido impressas no final de uma guerra devastadora. A isso, entende-se. E com elas concordamos. Contudo, a memória capitalista é cada vez mais curta e seletiva, como convém a todos aqueles para quem o sistema é vantajoso, ou seja, os próprios donos do capital e seus vassalos.

A barbárie vai fazendo suas vítimas reais e virtuais, sob os clarins da indiferença de uns, da hipocrisia e do cinismo de outros e do regozijo daqueles que, cegos e surdos diante do sofrimento de milhões de seres humanos, insistem também debochadamente que o problema não é sistema econômico, o problema é o “ser humano”, e que esse não tem jeito.

O natal se aproxima. Sabemos que o Papai Noel não existe, mas como é bom acreditar no bom velhinho, não é mesmo? A árvore enfeitada e os presentes à sua volta dão validade ao espírito cristão por mais 24 horas, juntando os despojos de nova e lucrativa campanha consumista, bem como nos tranqüilizando a todos a consciência de bons cidadãos.

Exorcizados, preparamo-nos para os novos espetáculos da barbárie.

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

terça-feira, 3 de maio de 2011

Novela "Amor e Revolução" ou: Sílvio Santos e o Baú da Felicidade

Quando ouvi dizer que o canal de televisão do senhor Sílvio Santos iria produzir uma telenovela sobre o golpe de 1964, fiquei logo curioso. O SBT?!!! Seria contra ou a favor do golpe? Ou, antes, pelo contrário? A ideia era interessante, mas conhecendo a televisão brasileira... Tinha eu que vencer o preconceito. Afinal, pensei, na pior das hipóteses existiria a possibilidade das novas gerações conhecerem um pouco sobre a nossa ditadura mais recente.
“Amor e Revolução” é uma novela maquiada de
imparcialidade para falar de um período bastante difícil e
controverso da  política contemporânea brasileira.
Veio a divulgação, a expectativa da estreia, as entrevistas sobre pesquisas, investigações históricas, depoimentos de militares e ex-presos políticos, enfim todo o pano de fundo necessário para, quem sabe, tirar alguns pontinhos do Ibope das emissoras concorrentes. E, claro, justificar a escolha de tema tão delicado e polêmico, mas aliciante para um gênero dramatúrgico de grande empatia no Brasil.
Contudo, pensei, o empresário Sílvio Santos, com seu eterno e enigmático sorriso, não é diferente de outros empresários na área da comunicação social, quer em jornais, revistas, rádio, televisão e a atual coqueluche mundial: a internet e suas redes sociais. A exceção de alguns sites e blogs dessa última forma de comunicação, todas as outras mencionadas, quer no Brasil e mesmo no mundo, na sua maioria pertencem a grupos que têm dado provas mais do que evidentes de serem apenas porta-vozes de interesses corporativos próprios ou de seus principais anunciantes. Até aí, nenhuma novidade, pois essa é a chamada regra do jogo. E para aqui a ética não foi chamada, ou melhor, foi abandonada.

Simplificação
É sabido que no Brasil o grande mercado televisivo se alimenta dos horários distribuídos entre as telenovelas, os jogos de futebol, os telejornais e os programas de auditório, onde se despejam as grandes verbas publicitárias. Como jogos de futebol e programas de auditórios se nivelam pelas paixões mais comezinhas e deixam a desejar quanto a formar a opinião política dos cidadãos, é na área do telejornalismo e da telenovela que a porca torce o rabo, como diria meu velho pai... Aqui, sim, não dá para tapar o sol com a peneira.
No jornalismo, apesar de tudo, ainda se encontram alguns bolsões de dignidade e de profissionais que se mantêm dentro da prática de um jornalismo investigativo de qualidade, com a apresentação de questões relevantes nas ciências, nas artes, na política, ou que apresentam denúncias baseadas em fatos que as comprovam, na tentativa de ouvir os dois lados de uma questão, na busca do contraditório etc. Não muitos, como seria desejável, mas existem. E quanto às telenovelas?
“Amor e Revolução” é uma novela maquiada de imparcialidade para falar de um período bastante difícil e controverso da política contemporânea brasileira. Caricata e mal feita, quer à direita e à esquerda do espectro político. De repente, a tal geração, para a qual a novela procuraria mostrar o que foram os “anos de chumbo”, desinformada que é, e pelo que se viu até agora, ficará dividida mais uma vez entre “torcer” para os bons contra os maus. Mas para muitos personagens, como o general Lobo Guerra e os policiais torturadores, ou mesmo alguns dos depoentes finais, os maus são os comunistas, que queriam transformar o Brasil numa China, União Soviética ou Cuba... E agora?
Qual o sistema econômico ideal, o regime político ideal? Já que se criou ao longo dos tempos a falsa dicotomia que identifica ditadura com fascismo e/ou comunismo e democracia com capitalismo, a resposta – para muitos, óbvia – será democracia e capitalismo. Mas qual democracia? A democracia do poder econômico? A democracia onde a justiça é realmente cega? A democracia que favorece a especulação financeira no lugar da produção? A democracia que ignora a justiça social? A democracia que tolera a impunidade e a corrupção?

O opinião do patrão 
Acabei, por fim, decifrando o enigma. No seu programa dominical do dia 24 de abril, o senhor Sílvio Santos – contando com a presença de uma atriz mirim da novela – expressou a sua opinião como cidadão, artista e empresário. Considerou ele que a novela deveria ter mais amor e menos revolução, isto é, mais beijos e menos cenas de tortura. Dirigindo-se à pequena atriz que participava do programa, SS arrematou: “Se você vivesse no comunismo, hoje teria que dividir o seu apartamento com mais de 20 pessoas”.
Agora entendi a novela do SBT: se não fossem os militares à maneira do general Lobo Guerra e os policiais à imagem dos personagens Fritz e do delegado Aranha livrarem o Brasil do comunismo à custa de torturas, prisões, desaparecimentos, cassações de mandatos, fechamento de sindicatos e entidades estudantis, censura à imprensa, tudo isso com o apoio de empresários brasileiros e da embaixada norte-americana no Brasil, nós hoje seríamos um país onde o próprio Sílvio Santos teria que dividir sua mansão no Morumbi provavelmente com 20 desses miseráveis da periferia. Pasmem.E com certeza, muitos desses miseráveis compraram carnês do Baú da Felicidade.

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrevinhador

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A infeliz reinvenção do Roda Viva

Magnoli foi o entrevistado de segunda-feira

Na última segunda feira, 6 de setembro, assisti à “nova versão” do programa Roda Viva, da TV Cultura, que, agora, tem Marília Gabriela como âncora. Na tela, um formato em cor predominantemente verde, com bancada de entrevistadores menor e o entrevistado no centro, como sempre, mas na altura dos perguntadores.
A forma não causou espanto e tampouco se esperava que o conteúdo o fizesse, já que o sabatinado era o geógrafo Demetrio Magnoli, colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Globo, logo de cara denominado por Marília Gabriela como “polemista”. Na verdade, não poderia aguardar muito da entrevista de alguém que não reconhece a necessidade da correção de injustiças históricas, como a escravidão negra, por meio de ações objetivas, como as cotas raciais na universidade, e que tenta encaixar um discurso ultraconservador sempre que pode. Contudo, nada que não pudesse piorar.
Rodeado por uma bancada que contava com os jornalistas Augusto Nunes (Revista Época) Paulo Moreira Leite (Estadão) Delmo Moreira (IstoÉ) e o escritor Paulo Lins (Cidade de Deus), os assuntos em destaque foram a “refundação da oposição no Brasil” (leia-se PSDB/DEM) e, claro, a história das quebras de sigilo na Receita Federal.
Sobre o primeiro, Magnoli falou da “saudade de uma direita inteligente”. Nenhum problema em haver direita – se inteligente, melhor – mas se esse raciocínio simplista é o que se que tem a dizer a respeito de conceitos políticos doutrinários, saído da boca de um acadêmico, a coisa está mesmo feia. Nessa linha, o sociólogo reforçou a necessidade de resgatar os anos FHC para estabelecer uma oposição. Seria essa, pois, a “direita inteligente”?
No embalo do discurso de oposição e direita fortes, Magnoli entrou na quebra de sigilos dos tucanos. Tá. Houve quebra. Como há, por exemplo, quando uma empresa manda uma mensagem na sua caixa de emeios sem que você tenha permitido ou quando o telemarketing entra em ação, oferecendo produtos de uma companhia da qual você nunca ouviu falar. Contatos assim são conseguidos com a obtenção de cadastros vendidos nos centros das grandes cidades, gravados em CDs. Infelizmente, algo corriqueiro.
Não estou diminuindo a gravidade da violação de dados. É fato sério, mas daí a afirmar que a tal invasão na Receita tenha sido iniciativa de Dilma Rousseff – ou do comando da campanha dela – é estapafúrdio e irresponsável. Crime também grave, pois expõe e tenta criminalizar, sem provas, a pessoa, o ser humano, a colocando no banco dos réus antes mesmo de qualquer investigação.
Demétrio Magnoli e os entrevistados bateram, ainda, na tese de “estado policial”, “stalinista”, “ditatorial”, dominado por um partido, o PT, que vigia e cerceia as liberdades civis. Bem, se assim fosse, como estariam os nobres debatedores falando tão livremente?
Nestes quase oito anos, pode-se contraditar muita coisa sobre o governo federal, mas nunca vi e ouvi um presidente da República ser tão ofendido como Lula, estampado em capas de revista com chifres e marca de pé na bunda ou chamado de bandido, como em editorial do Estadão, publicado na sexta-feira passada, dia 3.
No Roda de segunda, a liberdade para falar era tanta que permitiu a uma histriônica Marília Gabriela, gesticulando freneticamente, dizer: “Pra que serve nossa profissão de jornalista? Por que a história do sigilo não cola? Por que nada cola no Lula?”. Atenção às expressões “nossa profissão de jornalista” e “não cola”. Admitem, mesmo inconscientemente, que, na nossa (ou deles?) profissão de jornalista, é preciso fazer as pessoas acreditarem em algo, espalhando e repetindo boatos até que “colem”.
Nessa roda toda, sobrou para os blogs que, recentemente, foram classificados por José Serra de “sujos’ e “financiados pelo governo do PT”. Magnoli usou argumento idêntico. Ora, se há blogs recebendo recursos públicos, o fazem por anúncios governamentais. Pequenos, diga-se de passagem. Sobre o financiamento aos grandes veículos, nas páginas de jornalões/revistonas e nos intervalos comerciais de TVs e rádios, ninguém falou. Por acaso, eles sobrevivem do quê? Apenas de publicidade privada?
No caso, o problema não é o financiamento em si, mas a parte do bolo que a mídia corporativa está perdendo. Sequer a questão é o dinheiro, mas, sim, a disputa pelo monopólio da informação, porque a rede, hoje, proporciona nova relação com o cidadão, diminuindo a passividade, a perplexidade diante da “voz da verdade”, e incentiva mobilização e participação.
Enfim, tentando desclassificar Lula, Magnoli, professor que é, esqueceu-se dos conceitos acadêmicos mais básicos. Ao analisar as aprovações de governo e presidente, disse que se deve levar em consideração que os institutos de pesquisa juntam “bom e ótimo” e que “bom” – a maioria na coleta de dados dos pesquisadores – é uma “aprovação não entusiasmada”. E eu achando que regular, inclusive nas universidades, é que implicava em aluno aprovado de maneira “não entusiasmada”, no esquemão do “passou raspando”, média 5.
Na realidade, os institutos consideram como positiva a avaliação contendo bom e ótimo, onde a administração Lula soma 77%, segundo a última pesquisa CNI/ibope, publicada em 3 de setembro. Fazendo uma conta inversa a do geógrafo, considerando os regulares (18%) que avaliam no esquema do “passou raspando”, o governo, atualmente, é aprovado por 95% da população brasileira.
Como observado, contas podem ser feitas de várias formas, mas não é admissível manobrar números, esquecendo princípios elementares, algo que um acadêmico como Magnoli tem obrigação de conhecer.
Depois de toda essa cantilena reacionária e distorcida, o Roda Viva da última segunda não poderia terminar pior. Encerrou-se com desconforto no ar, quando se instalou o debate sobre cotas raciais. O escritor Paulo Lins rebatia um argumento de Magnoli, enfatizando que a raça negra, apesar das políticas compensatórias, está longe de ter espaço equilibrado em relação ao branco. Ele, único negro ali, apontou a própria ocasião como microcosmo da situação, explicando, calmo, a representação da falta de equidade. Foi interrompido abrupta e deselegantemente por Marília Gabriela e quase não falou mais até o final do programa. Talvez Lins tenha se esquecido de onde e com quem estava. Já eu, tristemente, não esqueci ao que estava assistindo.

Moriti Neto é jornalista e colunista do NR

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sala de Cinema entrevista Silvio Tendler

Amanhã, 8/07, às 22h, Miguel de Almeida entrevista Silvio Tendler, cineasta documentarista autor de registros dos principais acontecimentos da história política do Brasil em filmes como "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980); "Jango" (1984) e "Utopia e Barbárie" (2005), entre outros. A exibição faz parte da série Sala de Cinema, do SESCTV e esse que vos escreve participou como entrevistador. A entrevista foi no ano passado - novembro, se não me engano - quando Tendler tinha lançado seu último filme, Utopia e Barbárie. Eu ainda estava na Revista do Brasil quando fui convidado a participar da entrevista. O vídeo abaixo explica a dinâmica do programa. Fica a dica!

ATENÇÃO PARA AS REPRISES:
09/07/2010 : 02h00 : sexta-feira
10/07/2010 : 20h00 : sábado
11/07/2010 : 04h00 : domingo
11/07/2010 : 17h00 : domingo
12/07/2010 : 00h00 : segunda-feira

PARA SINTONIZAR O SESCTV
Canal 3, da Sky.
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br




Thiago Domenici, jornalista

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A mofa é da política e não do CQC

A notícia de que o presidente interino da Câmara, Marco Maia, do PT do Rio Grande do Sul pediu à assessoria jurídica da Casa proteção para evitar “constrangimento” de parlamentares por jornalistas não me surpreendeu. Por mais que eu não concorde com o pedido de querer inibir o bom trabalho do CQC (Custe o Que Custar) não me parece adequado tergiversar sobre o fato real de que parlamentares assinam sem ler as Propostas de Emenda a Constituição (PEC).
Na edição de segunda-feira, 14, o programa da TV Bandeirantes foi à Câmara com uma atriz contratada para colher assinaturas para que uma suposta PEC pudesse tramitar. O documento trazia a inclusão de um litro de cachaça na cesta básica entregue pelo Programa Bolsa Família. Assisti ao quadro (veja no vídeo abaixo) e, se não me engano, apenas um parlamentar não assinou. Um deles, no entanto, perdeu a linha e agrediu a equipe do programa. Estava na pauta a repórter Monica Iozzi que foi empurrada pelo parlmentar Nelson Trad do PMDB do Mato Grosso do Sul. Advogado e professor, Trad foi um dos que subscrevera o tal abaixo-assinado sem ler. Além de um palavrão o político emendou um “tapa-soco” no cinegrafista da equipe.

Mediocridade exposta incomoda
Não é de hoje que o CQC expõe com bom humor a mediocridade e falta de preparo de muitos parlamentares brasileiros. Não estou generalizando, mas em linhas gerais o saldo do programa nas abordagens é de deixar boquiaberto o telespectador. Perguntas sem resposta ou com afirmações erradas e estapafúrdias são frenquentes. “Qual Coreia é a comunista?”, “O que é DNA?”, “O que significa PSDB?”, “O que é Reffis?” revelam nas respostas desinformação entre os políticos que “comandam” o país. Muitos deputados fogem e outros entram na brincadeira rindo de si mesmo. O CQC é um programa que faz um trabalho relevante e deveria continuar assim. Quanto aos outros humorísticos como Pânico e afins não opino porque não assisto.
Segundo Maia, as ações devem preservar a liberdade de imprensa, mas assegurar o direito dos deputados de não autorizarem o uso de imagens pelos programas de humor.
Digo, então, Marcos Maia, que quem fica constrangido sou eu ao saber que além de desinformação por parte dos seus colegas com questões óbvias, vocês consideram “ato comum” assinar uma PEC sem ler. Isso é irresponsabilidade e os jornalistas que cobrem Brasília deveriam, sim, como fez o CQC, denunciar essa excrescência cotidiana.
Nelson Trad aparece como vítima do episódio e não é! Falou ontem em pronunciamento na Câmara dos Deputados e recebeu apoio de vários deputados, entre eles, José Genoino (PT-SP). O deputado sul-mato-grossense disse esperar que essa possível medida de inibir o trabalho dos jornalistas-humoristas “sirva de lição e não faça novas vítimas de um programa inconsequente que coloca em dúvida a seriedade da TV brasileira”. E a seriedade dos deputados? E de que tevê brasileira estamos falando? Não se esqueça, caro deputado, que um colega de partido, Antônio Carlos Martins de Bulhões (PMDB-SP), é o político que detêm o maior número de veículos de comunicação em seu nome (sete), contrariando a Constituição Federal. Seria ele, portanto, um inconsequente?

Verborragia não resolve
Segundo o site Donos da Mídia, 271 políticos são sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação no Brasil. No Mato Grosso do Sul, seu Estado, três políticos controlam 6 canais de comunicação. Antonio João Hugo, senador pelo PTB (3 veículos); Ilda Salgado Machado, prefeita pelo PL (1 veículo) e Londres Machado, deputado estadual pelo PL (2 veículos).
O senhor atribui uma agressão a “legitima defesa” e que, portanto, “não precisa pedir desculpas” já que defendeu sua “dignidade” e a “instituição” a que pertence há mais de 30 anos. Quer dizer que faz tempo que o senhor anda pelos corredores assinando documentos sem ler? Em vez de verborragia em plenário vamos discutir, de fato, a atuação da tevê como educadora e formadora e rever as concessões públicas, muitas delas, nas mãos de seus colegas?



Thiago Domenici é jornalista

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Copa, TVs de LCD e eleições

Não sou comentarista de futebol mas sei que a Copa do Mundo este ano será de grandes emoções. Imagina ver Lúcio, Grafite e companhia jogando em alta definição? Oh sufoco! Pois é, pode se acostumar com a ideia. A Copa de 2010 será a Copa das telas finas, da alta definição e da TV digital. Esse era o momento que toda a indústria vinha esperando nos últimos quatro anos. É que no Brasil não existem datas fortes todo ano que impulsionem a troca massiva de TVs. Nos Estados Unidos, por exemplo, tem a final do futebol americano, do campeonato de basquete etc. Fica mais fácil vender. Por aqui, qual seria o argumento?
Veja o último capítulo da novela das 20h (que passa às 21h) em alta definição? Não cola né. Pois eis que chega a Copa, que coincidentemente é em ano de eleição. E o que o governo faz? Inclui a
fabricação de telas de LCD no país dentro do Processo Produtivo Básico (PPB), mecanismo que reduz diversos impostos para quem decide investir na fabricação de um determinado produto no Brasil. Pelo menos duas fabricantes já demonstraram interesse público no desconto - Philips e
AOC. As outras certamente seguirão a tendência. E você já viu como as TVs estão baratas ultimamente? Tem até fabricante fazendo parceira com operadora de TV a cabo pra vender os dois produtos juntos.
E o povo parece ter respondido ao estímulo. Só no primeiro trimestre, a demanda por esses aparelhos foi três vezes maior do que no mesmo período do ano passado. Até o fim do ano a expectativa é de que sejam vendidas de 10 a 12 milhões de TVs. Tudo bem, já existia uma tendência (e um interesse) natural dos fabricantes em reduzir os preços desses produtos, então não dá para dizer que o movimento está totalmente atrelado à isenção fiscal. Mas que o governo certamente se beneficia do bem-estar social gerado com o fato de mais pessoas terem esses
aparelhos em casa, isso é inegável. E pode ter certeza que mesmo de forma sutil, isso estará presente na campanha eleitoral. Putz, não tinha me dado conta. Imagina ver o Serra e a Dilma em alta definição?
Cruzes.

Gustavo Brigatto é jornalista e escreve sobre tecnologia, mantém a coluna Binária neste Nota de Rodapé
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