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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Discoteca de músico: Flora Poppovic


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

A convidada deste mês do Discoteca de Músico, Flora Poppovic, é a voz feminina do Pitanga em Pé de Amora, grupo paulistano que reúne cinco jovens músicos muito talentosos e que deve lançar este ano seu segundo disco. Como a banda não tem bateria, é a Flora também quem dá o pulso em boa parte das canções, tocando os instrumentos de percussão que aprendeu a “batucar” desde cedo.

crédito: Camila Passos
Foi justamente essa faceta percussionista da Flora que conheci primeiro, antes de saber que ela tinha também uma bela voz. Pois desde a adolescência até poucos anos atrás, por cerca de uma década, ela foi integrante do Batuntã, outro grupo destacado da cena paulistana e que é bastante focado nos instrumentos de percussão. Hoje ela é também professora de percussão no Instituto Brincante e no Brincantinho (braço infantil do espaço criado por Antonio Nóbrega), atividade que concilia com os ensaios e shows do Pitanga.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram e Gabriel Basile, a Flora é a quinta entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Antônio Brasileiro”, do Tom Jobim. Bom, minha mãe é daquelas que quando gosta de um disco dá play de novo assim que ele acaba. E esse foi um dos que a gente escutou milhares de vezes no repeat! Eu decorei todas as músicas e queria muito ser a Maria Luiza, filha do Tom que canta com ele em duas faixas. Mais tarde, quando comecei a tocar percussão e conhecer um pouco sobre o universo da cultura popular brasileira, me encantei mais ainda com esse disco que trazia samba, bossa nova, jazz, baião, maracatu, peças instrumentais maravilhosas e até poema musicado do Manuel Bandeira. Hoje eu ainda ouço muito ele, e me sinto numa viagem passando por paisagens diferentes... Esse disco me traz paz.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Kind of Blue”, do Miles Davis. Eu demorei muito para ouvir discos gringos. Fui conhecer melhor só aos 18 anos, quando fui apresentada ao “Kind of Blue”. E mudou minha vida! Eu estava numa fase de muita música instrumental, ouvindo choro pra caramba, e esse disco caiu como uma bomba! Era sublime! Era calmo e revolto, melancólico e me deixava feliz... Anos depois, quando entrei na Groove Escola de Música para estudar, esse disco era muito usado nas aulas, seja para cantar a linha de baixo, fazer exercícios com baqueta, e a impossível tarefa de cantar os solos em “All Blues”. Me apaixonei ainda mais! Era como se eu estivesse conhecendo de novo o cd, e até hoje ainda sinto que tem muita coisa "escondida" nele pra descobrir! Esse disco é música pura!

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Vem Ver”, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, lançado em 2013. Em primeiro lugar, esse disco me marcou por ser extremamente corajoso: é o primeiro disco solo da carreira de dois jovens muito talentosos e é um duo de baixo e voz. Baixo e voz? Sim. E é impressionante como os dois se viram muito bem nessa corda bamba. A Vanessa com suas lindas interpretações nos leva a lugares de extrema ternura e a outros de malandragem pura. Faz coro com muitas vozes... Enfim, faz o que ela quiser! É uma danada! E o Fi é um baixista de fino trato, toca todos os baixos possíveis, batuca pra caramba e ainda enfeita com vozes de fundo em algumas faixas. O CD conta também com percussão, percussão corporal e vocal, e participações de Chico Pinheiro, Rafael Altério, Sergio Santos entre outros. Os arranjos são bonitos, criativos e a maioria das músicas desconhecidas. É um disco inspirador!

Um videoclipe que marcou sua formação

Stomp Out Loud- Kitchen, Stomp. O Stomp sempre foi uma referência pra mim!! A música está completamente integrada ao movimento, e sempre em instrumentos que não são instrumentos. Ele une música, pesquisa de timbres e humor, ou seja: diversão garantida. Por muito tempo o Stomp foi norteador de pesquisa para o Batuntã, grupo que eu fiz parte dos 14 aos 24 anos. Esse DVD inteiro me fascina, mas o vídeo que eu mais gosto é esse da cozinha, filmado todo num plano só, sem cortes, onde as coisas e a música vão acontecendo. Legumes cortados, panelas sujas, chefe mal-humorado, tudo vira som!!!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

The Writting's On the Wall, Ok Go. Esse clipe é demais! Muito criativo, muito bem feito. Ele é todo filmado sem cortes, e numa sala gigante cheia de coisas que te enganam e vão mudando conforme a câmera muda. É um jogo de perspectiva. A gente é surpreendido o tempo todo!




* * * * * * * * * 

Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Tom de Irará


por Marcos Grinspum Ferraz*

Tom Zé surpreendeu mais uma vez. Surpreendeu, primeiro, por fazer propaganda da Coca-Cola, o que gerou críticas fervorosas nas redes sociais. “Vendido! Americanizado!”, bradaram internautas. Mas surpreendeu ainda mais ao lançar, como uma espécie de resposta às críticas, o EP “Tribunal do Feicebuqui”, (baixe grátis aqui) com cinco faixas criadas a partir da polêmica que surgiu.

Surpreendeu também ao lançar músicas com letras como: “Tom Zé mané/ Baixou o tom/ Baba Baby/ Bebe e baba/ Velho babão”; e ainda ao convidar músicos da novíssima geração paulistana para criar e gravar ao seu lado. Tive o privilégio de participar desse processo (como integrante da banda Trupe Chá de Boldo) e nesta coluna, chamada Verbo Sonoro, não me ocorreu assunto melhor do que o novo trabalho desse incrível “velho babão”.

Liguei para Tom Zé na semana passada e perguntei se ele topava bater um papo para ser publicado no Nota de Rodapé. Aceitou e me pediu para aparecer no dia seguinte pela manhã em sua casa. Lembrei de ele comentar que almoçava às 9h, e fiquei preocupado em atrapalhar seus horários de rotina. Quando cheguei ele logo disse: “Não se preocupe, Marquinhos, já almocei. Pra quem tomou café da manhã às 3h, não tem problema”.

Nota de Rodapé – Você está feliz com o resultado do EP?
Tom Zé –
Pra te dizer a verdade, na hora que nós ouvimos as gravações prontas, eu e Neuza (mulher de Tom Zé), foi emocionante, nós achamos lindo, e a Neuza chegou a chorar.

NR – E com a repercussão?
TZ –
Sim. O Marcus Preto que é jornalista [idealizador do projeto] me disse que está muito boa a repercussão. E ele tem longa experiência na área. Estou satisfeito. É assim mesmo, esses altos e baixos do psicológico da pessoa.

NR – No Facebook, às vezes, as mesmas pessoas que elogiam num momento detonam em outro. Falam o que der na telha, né?
TZ –
Como todos nós, né? Nós mesmos que fazemos música, uma hora a gente fotografa a coisa com os olhos de determinada parte da população. Depois a fotografia é uma observação de outro grupo da população... é mais ou menos assim.

NR – É, mas nas redes sociais, às vezes, tem essa coisa raivosa, um lado meio assustador das pessoas.
TZ –
Não, nós todos. Por exemplo, eu não ouço rádio, nem música. Tenho horror à música. Só ouço música de amigos e tal, mas minha inspiração sempre veio mais de situações, de quadros, de teatro ou de outro tipo de arte que não é a própria música. Bom, mas a rádio Cultura FM, por exemplo, toca música erudita. Eu, como passei metade da minha vida no meio de música erudita, e como Beethoven e companhia não concorrem comigo, posso ouvir como se nem fosse música. Já se eu ouço música popular estou ouvindo os concorrentes, estou com o coração palpitando, e a música me ganha. E fica um eterno sofrimento. Então eu ouço música clássica. E quando a rádio Cultura ameaça começar a tocar música popular eu fico em fúria. Se eu fosse deixar minha criança falar ia dizer: “Vão pra puta que pariu! De dois em dois anos vocês inventam essa viadagem atrás de audiência!”. Mas eu não sou o tipo de pessoa que pode fazer isso. Mas as pessoas que podem fazem, é ótimo!

NR – O público se sente meio dono do artista?
TZ –
Não, o público conversa, discute. E tem direito, afinal de contas, se abriram os canais de comunicação para uma pessoalidade que antes da internet era impossível.

"Eu acabei me agarrando 
em música como tábua
de salvação. Não é que eu nasci
para ser músico, nem sei se eu
tenho vocação para isso
"

NR – Mas você ficou chateado ao ler as críticas das pessoas sobre a propaganda da Coca-Cola?
TZ –
Não é chateado. Fiquei preocupado, porque tenho o hábito de tentar falar com essas pessoas que me acompanham. Sempre escolho assuntos que possam interessar, tento chamar a atenção pra certos aspectos do mundo moderno. E quando começaram a falar mal, fiquei preocupado. Mas quando gravei a propaganda, eu nem pensei, só me lembrei de futebol, que gosto, que eu joguei... Quis até ser profissional. Sabe, essa loucura de ter esperança em tudo quanto é coisa. Porque eu acabei me agarrando em música como tábua de salvação. Não é que eu nasci para ser músico, nem sei se tenho vocação para isso. Bom, mas eu fiquei preocupado, e postei aquela mensagem [no Facebook], dizendo que eu sempre tinha trabalhado com eles ao meu lado. Aí muita gente passou a me defender, mas uma pequena parte continuou falando mal, dizendo que “era uma coisa estranha”. E foi aí que o Marcus Preto teve essa ideia de chamar vocês [Trupe Chá de Boldo, O Terno, Filarmônica de Pasárgada, Tatá Aeroplano e Emicida] para tocar junto comigo, que foi uma ideia maravilhosa. E teve essa convivência, que é uma coisa alimentadora.

NR – Que coragem chamar esse monte de menino para trabalhar com você...
TZ –
Não, menino não. Eu já conhecia. Para mim, é o caso de dizer que o Brasil está em boas mãos. O Ezra Pound [Ezra Weston Loomis Pound foi um poeta, músico e crítico literário americano] disse que quando a poesia começa a enfraquecer em um país, significa que ele vai perder o comando de si próprio. No Brasil, como música talvez seja mais importante ainda que poesia – é a grande expressão cultural, cantada por gente séria e por gente irresponsável como eu –, então a próxima geração tem o país garantido como um país forte.

NR – Você disse que quando era pequeno, as suas tias comunistas falavam para você não tomar Coca-Cola. O que é isso que a Coca-Cola representa para as pessoas?
TZ –
Naquele tempo, para uma família comunista como a minha, era o principal símbolo do capitalismo. E qualquer garoto podia comprar com alguns centavos. Na Bahia tinha um concorrente forte, que eram os irmãos Fratelli Vita. Faziam uma gasosa de limão, de pera, de maçã, e um guaraná, que depois foi comprado pela Coca-Cola.
Mas é isso, a Coca-Cola continua sendo um símbolo. Você vê, a guitarra elétrica, em certo momento, foi esse símbolo também, o que é uma estupidez enorme. Vocês se esqueceram que um dos primeiros fabricantes de guitarra surgiu na Bahia? Usavam os fundamentos com os quais, depois, os americanos desenvolveram o instrumento. E mesmo assim teve até uma manifestação contra a guitarra no Brasil. O negócio mais fantástico de que eu já ouvi falar na minha vida...

"Como eu não
sou bom músico, eu
acabei nunca tendo um
estilo próprio (...) É por
isso que falam em
renovação "

NR – Os comentários que tenho lido das pessoas, sobre o novo EP, são sobre como o Tom Zé está sempre surpreendendo, reinventando-se. De onde vem essa inquietação?
TZ –
Mas veja bem: se reinventando, não. Primeiro, porque no disco vocês tocam o estilo de vocês, e estou como se fosse um patrono. Segundo, foi o Marcus Preto que teve a ideia, mesmo que em cima de um negócio que eu já tinha feito, que era a “imprensa cantada”. Aliás, o que é EP?

NR – É menor que um disco, tem quatro, cinco faixas...
TZ –
Ah, sim. Mas o negócio de se reinventar merece uma resposta. Como eu não sou bom músico, acabei nunca tendo um estilo próprio. Vou fazendo uma coisa que na hora penso que deve ser interessante para a população. Você podia imaginar que eu faria “Estudando o Pagode”? Que eu pudesse fazer um disco de bossa, que eu nem sabia a batida? Ou depois esse disco de tropicalismo? Porque eu pego um assunto e estudo e tento imitar. Então eu não tenho um estilo, é por isso que falam em renovação.

NR – E a ideia agora é fazer um disco?
TZ –
Isso. E que a gente possa, de alguma maneira, ir lá em Irará tocar. Ou pelo menos eu, se não der pra levar todos, porque tudo é caro. Eu dei o cachê todo da Coca-Cola lá pra banda de Irará. E a Prefeitura de Irará não tem condições de pagar, é paupérrima.

NR – Aliás, você está sempre falando de Irará, mesmo morando há tanto tempo longe. Irará é a sua base?
TZ –
A Neuza diz que eu posso estar em qualquer lugar do mundo, mas que eu não saio de Irará.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O partido de Marina Silva em oito (curtos) parágrafos


por Moriti Neto*

Não é fácil compreender a essência das propostas do recém-anunciado Rede de Sustentabilidade. O “partido que não é partido”, da ex-senadora Marina Silva, dona de quase 20 milhões de votos nas últimas eleições para a presidência da República, é atravessado por flacidez argumentativa.

Durante o último Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, dia 18, em que este colunista do NR esteve presente na bancada de tuiteiros, a nova querida da mídia tradicional mostrou que, além da busca por uma agremiação, tenta encaixar um discurso de pura espuma.

Discurso, aliás, que ficou ainda mais na superfície com a ausência do debate sobre a visão de Marina a respeito dos direitos civis e a hipócrita ideia de plebiscitar – caso seja eleita presidente – questões como descriminalização do aborto, da maconha, e reconhecimento do casamento gay, sabendo antecipadamente que elas sairiam derrotadas pelo conservadorismo da maioria. Isso, sem mencionar a postura a favor do ensino religioso na escola pública.

Alguns conceitos encerrados em frases como “nossa Rede vem para trazer protagonismo aos diversos setores da sociedade, algo que as siglas atuais não atendem” e “não somos nem de esquerda nem de direita, estamos a frente, somos pela sustentabilidade”, soam rasos vindo de alguém com a bagagem intelectual e política de Marina.

Sobre protagonismo e sustentabilidade, são muito mais slogans de campanha do que propriamente propostas. Como falar em formação de protagonismo político sem clareza de quem é a base social do tal Rede? Aliás, a líder do projeto chega, de forma generalizante, a afirmar que o formato da sigla permitiria que empresários e trabalhadores, entre outras categorias de atores pouco claras, lutem por uma causa. Daí entra em cena a ideia simplista de sustentabilidade. Seria ela a linha condutora, a causa comum entre classes distintas. De novo, o palavrório aponta para um conceito de rede capaz de envolver diversos grupos em torno da defesa do desenvolvimento sustentável. Porém, o que é sustentabilidade para o pobre? E para o rico? Como encara a ideia um megaempresário do agronegócio? E um índio?

Nesse raciocínio, se apresenta a parte que julgo mais preocupante por trás de seu discurso e dos “sonháticos da nova política”: é que jogar na vala comum as definições de esquerda e direita, como se a responsabilidade sobre alianças que buscam a governabilidade fossem apenas opções partidárias, enfraquece o debate necessário quanto a validade do nosso sistema de democracia representativa, construído pela e para a elite, gerador de grandes desequilíbrios na representatividade proporcional da sociedade.

O argumento de nem esquerda nem direita esvazia o debate, desideologiza, e deveria causar arrepios em quem se diz progressista. Nos anos 1990, a estratégia de radicalização da receita neoliberal passava justamente por colocar a ideologia a escanteio e reduzir as disputas políticas a critérios de avaliação dos “melhores gerentes”. Foi um momento de pobreza intelectual que paralisou movimentos sociais e diminuiu espaços para conquistas populares.

Com um emaranhado de frases de efeito, como “quero democratizar a democracia” (???), Marina Silva, até agora, diz mais do mesmo conteúdo em nova embalagem. E o pior: o tom de que nenhum partido existente serve à construção de seus projetos e que o Rede de Sustentabilidade é o paraíso dos puros de coração, a arremessa ao salvacionismo, que serve, historicamente, aos interesses de grupos reacionários.

*Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar. Foto: Pedro Ladeira/AFP

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ele enganou o El País?

NR entrevista Tommaso Debenedetti, 43 anos, que se diz professor de literatura e história em Roma, com “vida normal” e pai de “dois filhos”. Ele afirma ser o responsável por plantar a falsa foto de Hugo Chávez publicada na capa do jornal espanhol El País no mês passado. Além desse ato, Debenedetti alega ser o autor de outras mentiras publicadas em jornais e divulgadas na internet nos últimos anos.

por Ricardo Viel, de Lisboa

No último 24 de janeiro o prestigiado jornal espanhol El País cometeu um erro que custou à empresa cerca de 300 mil euros e arranhou profundamente sua credibilidade: publicou uma suposta foto do presidente venezuelano Hugo Chávez sendo operado em um hospital cubano. Como se confirmou em seguida, não era Chávez, mas uma fraude grosseira.

Durante a madrugada daquela sexta-feira, o periódico espanhol, após perceber o erro, colocou em marcha uma operação para resgatar seus exemplares das bancas. Conseguiu, em parte, recuperá-los e substituí-los por outra edição, mas a foto falsa já havia se espalhado pelo internet – onde o jornal também a publicou com destaque em seu site.

Como foi possível que um dos mais prestigiados periódicos do mundo cometesse um erro tão grosseiro? Parte da resposta deu o próprio jornal, ao publicar no domingo dia 26 um extenso relato em que conta, passo a passo, a sucessão de erros cometidos até a publicação da imagem (leia aqui).

Falhas tão absurdas como, por exemplo, não contatar o seu correspondente na Venezuela e nem sua colunista em Cuba. O jornal relata que a foto foi comprada por 15 mil euros de uma agência que prestava serviços ao jornal. Venderam a foto como tendo sido feita por uma enfermeira cubana que tinha familiares na Espanha. Era mentira.

O que o jornal não explica é como essa foto chegou à agência. Um personagem pode ter a resposta. Tommaso Debenedetti é um italiano que ficou famoso em 2010 quando foi desmascarado (o próprio El País publicou uma entrevista muito divertida com ele).

Durante dez anos o jornalista inventou entrevistas que nunca aconteceram e as vendeu para pequenos jornais da Itália. Foram mais de cem, com personalidades como Mijaíl Gorbatchov, Dalai Lama, Joseph Ratzinger, além de dezenas de prêmios Nobel de literatura. Ficou conhecido como o campeão italiano da mentira, e foi descoberto quando o escritor norte-americano Philip Roth, indagado sobre uma suposta entrevista em que criticava Obama, disse nunca ter feito tal afirmação. Foi quando a farsa veio abaixo.

Debenedetti classifica suas mentiras como um “jogo literário” e continua gerando falsas notícias na rede. Recentemente criou um perfil de Vargas Llosa no Facebook e plantou declarações polêmicas publicada por vários meios como sendo do Nobel peruano.

No ano passado, o italiano “matou” o escritor Gabriel García Márquez e Fidel Castro. Agora, assegura ser o autor da falsa foto que o El País publicou. O Nota de Rodapé o entrevistou por email. Leia a seguir.

O "campeão" da mentira Debenedetti (Foto: Stephanie Gengotti / Iberpress / Caters)

NR – Foi você que fez a foto que o El País publicou?
TD – Sim, eu sou o “autor” da falsa foto de Chávez publicada pelo El País. Posso dizer que se tratava de um jogo, um jogo de suplantar midiaticamente uma notícia para denunciar a falta de credibilidade dos meios.

NR– Como foi que criou esse jogo?
TD – No dia 10 de janeiro, por circunstâncias casuais, encontrei no Youtube o vídeo de um homem sendo entubado. Pensei: “parece um pouco a Chávez. Um pouco não, muito!” Portanto, como um jogo, tomei uma foto desse vídeo e a enviei a três agências de notícias, uma na Costa Rica, outra na Venezuela e outra de Cuba. Enviei a foto de uma conta falsa no nome do ministro venezuelano de cultura Pedro Calzadilla. Mandei com as seguintes palavras: o comandante Hugo Chávez hospitalizado em Havana. Não recebi resposta e a foto não foi publicada, mas dois dias depois um homem que se apresentava como jornalista cubano respondeu o correio: “muito importante, vamos enviar a Porto Rico e Madri.” Dias depois a conta de e-mail falsa que eu criei foi bloqueada, não sei por que, e não tive mais respostas. Só na manhã do dia 24 a foto apareceu na capa do El País. Tenho para mim que a foto foi enviada a Madri por jornalistas cubanos com duas finalidades: tirar dinheiro e, sobretudo, desacreditar o El Pais e, de certa forma, a imprensa ibérica.

NR – Teme ser processado? Recebeu algo pela foto?
TD – Ninguém me ameaçou e eu não tenho nenhum medo de ser processado: sou o autor “intelectual” da farsa, mas não tenho responsabilidade nenhuma na publicação da foto por um periódico. Não me deram qualquer dinheiro pela foto.

NR – Crê na versão que o El País dá sobre toda essa história?
TD – Acho que a reconstrução que o jornal faz é justa e verdadeira. Mas eu, como “autor” da foto e quem iniciou sua circulação, posso dizer que o jornal foi claramente vítima de uma manobra política que não deve ser ignorada. Repito: creio que de dentro de Cuba alguém quis desacreditar a imprensa europeia e por isso inventou essa história de que a foto teria partido de uma enfermeira cubana com familiar na Espanha.

NR – Mudando um pouco de assunto. Gostaria de saber sobre as entrevistas que o senhor criou. Como as justifica? Nesses casos o senhor recebeu pelo trabalho?
TD – As entrevistas eram jogos literários. Eu recebi 20 euros por cada entrevista, e só isso. Era um jogo de suplantar a identidade própria da literatura do último século. Eu gostava muito de fazer e a imprensa italiana, onde normalmente ninguém checa qualquer informação, me ofereceu a possibilidade de fazê-lo.

NR – Depois das entrevistas falsas, o senhor partiu para as redes sociais. Criou perfis falsos e plantou notícias. Há alguma surpresa que está preparando?
TD – Continuo com o Twitter e tenho duas grandes surpresas: um texto literário que aparecera assinado por um grande escritor Prêmio Nobel e que é, na verdade, meu. Também sou o autor de vários erros no Wikipédia. Faço para demonstrar como falta credibilidade na internet. Eu aconselharia os jornalistas a ficarem atentos com textos e fotos que são apresentadas como exclusivas. O caso Chávez pode se repetir em outros países.

Finalizada a entrevista durante a semana passada, Debenedetti enviou-me uma nova mensagem, em que dizia:

Posso lhe passar outra informação sobre ideias minhas futuras. As contas do Twitter do Papa (especialmente as em inglês, espanhol e português) não são seguras: é muito fácil encontrar o password e entrar. Se o Vaticano não muda seus critérios, será possível para mim escrever tweets com o nome do Papa. A mesma fragilidade de senhas há no Brasil com duas personalidades. Um famosíssimo escritor e um político. Saudações, Tommaso Debenedetti

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guerra virtual, parte 2

Nessa entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange segue o papo da semana passada com seus companheiros de armas, os criptopunks, virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. O debate é sobre a arquitetura da internet, a liberdade de expressão e as consequências da luta por novas políticas na web

“ O nono episódio da série World Tomorrow continua com os Criptopunks, ativistas da liberdade de informação na internet, Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn, Jeremie Zimmerman e, claro, Julian Assange, no papel de advogado do diabo. “Trole-nos, mestre troll”, brinca Jacob.

Na luta pela liberdade na web, os Criptopunks lançam algumas luzes sobre a guerra virtual entre o compartilhamento livre e o roubo, o poder dos governos em intervir versus a liberdade de expressão – e as consequências dessa batalha.

“A arquitetura é a verdade. E isso vale para a internet em relação às comunicações. Os chamados ‘sistemas legais de interceptação’, que são só uma forma branda de dizer ‘espionar pessoas’. Certo?”, cutuca Jacob. “Você apenas coloca “legal” após qualquer coisa porque quem está fazendo é o Estado. Mas na verdade é a arquitetura do Estado que o permite fazer isso, no fim das contas. É a arquitetura das leis e a arquitetura da tecnologia assim como a arquitetura dos sistemas financeiros”.

O debate segue apoiado nas possíveis perspectivas para o futuro. Para os Criptopunks, as políticas devem se pautar na sociedade e nas mudanças que seguem com ela, não o contrário.

“Temos a impressão, com a batalha dos direitos autorais, de que os legisladores tentam fazer com que toda a sociedade mude para se adaptar ao esquema que é definido por Hollywood. Esta não é a forma de se fazer boas políticas. Uma boa política observa o mundo e se adapta a ele, de modo a corrigir o que é errado e permitir o que é bom”, diz Jeremie.

Mas a busca por novas políticas e uma nova arquitetura tem seu preço. Jacob, detido várias vezes em aeroportos americanos, conta: “Eles disseram que eu sei por que isso ocorre. Depende de quando, eles sempre me dão respostas diferentes. Mas geralmente dão uma resposta, que é a mesma em todas instâncias: ‘porque nós podemos’”.

E provoca: “A censura e vigilância não são problemas de ‘outros lugares’. As pessoas no Ocidente adoram falar sobre como iranianos e chineses e norte-coreanos precisam de anonimato, de liberdade, de todas essas coisas, mas nós não as temos aqui”.


O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A guerra virtual

Na oitava entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange se junta aos seus companheiros de armas, os criptopunks, virtuosos cyberativistas que lutam pela paz na internet. E avisam: não haverá paz sem liberdade.

“Uma guerra invisível e frenética pelo futuro da sociedade está em andamento. De um lado, uma rede de governos e corporações vasculham tudo o que fazemos. Do outro lado, os Criptopunks, desenvolvedores que também moldam políticas públicas dedicadas a manter a privacidade de seus dados pessoais na web. É esse o movimento que gerou o WikiLeaks”, diz Julian Assange, na introdução da oitava entrevista da série World Tomorrow. 

Dividida em duas partes, a entrevista traz Assange reunido com seus companheiros Andy Muller Maguhn, Jeremie Zimmerman e Jacob Appelbaum, cyberativistas que lutam pela liberdade na internet. “É só olhar o Google. O Google sabe, se você é um usuário padrão do Google, o Google sabe com quem você se comunica, quem você conhece, do que você pesquisa, potencialmente sua orientação sexual, sua religião e pensamento filosófico mais que sua mãe e talvez mais que você mesmo”, fala Jeremie.

No bate-papo, eles conversam sobre os desafios técnicos colocados pelo furto do governo a dados pessoais, a importância do ativismo na web e a democratização da tecnologia de criptografia. “A força da autoridade é derivada da violência. As pessoas deveriam conhecer criptografia. Nenhuma quantidade de violência resolverá um problema matemático. 

E esta é a chave-mestra. Não significa que você não pode ser torturado, não significa que eles não podem tentar grampear sua casa ou te sabotar de alguma forma, mas se eles acharem alguma mensagem criptografada, não importa se eles têm força de autoridade. Por trás de tudo que eles fazem, eles não podem resolver um problema matemático”, sentencia Jacob. Na entrevista, os criptopunks avisam: para se ter paz na internet, é preciso haver liberdade. Ou a guerra vai continuar".

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A conversa entre Assange e Rafael Correa do Equador

Na sexta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Rafael Correa, presidente do Equador, que recentemente concedeu asilo político ao fundador do WikiLeaks

Em setembro , o Equador concedeu asilo político a Julian Assange, que já estava refugiado desde junho na sua embaixada em Londres. Fazia mais de um ano que os documentos diplomáticos da diplomacia americana no Equador haviam sido publicados, todos de uma vez, pelo WikiLeaks.

Em entrevista feita por videolink para a série “O Mundo Amanhã” no começo de 2012, Assange revela que o governo equatoriano procurou o WikiLeaks, na época do vazamento, pedindo que publicasse todos os documentos diplomáticos.

“Quando o WikiLeaks começou a publicar os cables sobre o Equador, nós o fizemos com dois grupos de mídia, o El Universo e o El Comercio. O governo equatoriano nos procurou e disse ‘por favor, WikiLeaks, queremos que vocês publiquem todos os cables sobre o Ecuador’. O governo jamaicano também fez isso. Por que você nos pediu que publicasse todos os documentos?”, pergunta Assange.

“Porque quem nada deve nada teme. Nós nada temos a ocultar. De fato, os [telegramas divulgados por] WikiLeaks nos fortaleceram. A Embaixada dos EUA nos acusava de sermos excessivamente nacionalistas e defendermos a soberania do governo equatoriano. E é claro que somos nacionalistas! E é claro que defendemos a soberania do Equador!” – responde prontamente o entrevistado.

A pergunta serve de introdução para Corrêa explicar sua polêmica briga contra a mídia do Equador – o presidente é acusado de cercear a liberdade de imprensa. “Os veículos têm sido, aqui, os maiores eleitores, os maiores legisladores, os maiores juízes, os que criam a alimentam a ‘agenda’ da discussão social, os que sempre submeteram governos, presidentes, cortes de justiça, tribunais”, diz.

Eleito em 2007, o economista Rafael Correa é considerado o presidente mais popular da história democrática do país. Inimigo declarado da política americana para a região, uma das suas primeiras atitudes no governo foi determinar o fechamento de uma base militar norte-americana em Manta. “Se é assunto tão simples, se não há problema algum em os EUA manterem uma base militar no Equador, ok, tudo bem: permitiremos que a base de inteligência permaneça no Equador, se os EUA permitirem que estabeleçamos uma base militar do Equador em Miami”, justifica.

Críticas e ironias à política externa norte-americana e o destino político da América Latina também permeiam a conversa.”A influência dos EUA na América Latina está diminuindo. Isso é bom. Dizemos que a América Latina está passando, do ‘consenso de Washington’, para o consenso sem Washington”, comenta Correa.

“Talvez venha a ser o Consenso de São Paulo…”, retruca imediatamente Assange. 

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guantánamo em foco

Na quinta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Moazzam Begg, ex-detento de Guantánamo, e Asim Qureshi, advogado que largou o mundo corporativo para lutar contra os abusos da guerra ao terror

Desde o início da ofensiva norte-americana, em 2001, na chamada Guerra ao Terror, centenas de prisioneiros foram levados à base de Guantánamo onde permanecem encarcerados sem acusação formal e sem direito à defesa.

O britânico Moazzam Begg, intelectual muçulmano detido sob suspeita de ser integrante da Al-Qaeda, é um deles. Preso em 2002 no Afeganistão, só foi libertado três anos depois, sob muita pressão do Reino Unido. Jamais foi acusado formalmente de terrorismo.

Ao sair de Guantánamo, Begg juntou-se ao advogado Asim Qureshi para fundar Cagepriosioners, organização que defende o direito ao devido processo legal para prisioneiros detidos na guerra contra o terrorismo.

“O que você tem que entender é que, até onde os muçulmanos sabem, eles estão sob ataque em países ao redor do mundo todo. Há centenas de milhares de pessoas morrendo”, diz Asim Qureshi, em entrevista concedida a Julian Assange durante sua prisão domicliar, no interior da Inglaterra.
“E se você olhar o conceito de jihad no contexto atual, ele diz que, como muçulmanos, temos o direito de nos defendermos. Não tem sentido dizer que as pessoas que estão sendo mortas por ocupações, domínios coloniais, racismo, não devem se defender e devem continuar levando tapas, sendo estupradas…”

Julian pergunta, então, se esta “defesa” significaria resistência militar. “Claro”, responde o advogado, ponderando que as “armas” da Cageprisoners são o lobby e as campanhas.

Para Moazzam Begg, que hoje é um reconhecido defensor de direitos humanos, a grande diferença na guerra ao terror entre as administrações Bush e Obama foi a seguinte: “Eu costumava dizer que Bush era o presidente do governo em que as detenções extrajudiciais estavam acontecendo. Mas o Obama é o presidente do governo em que as mortes extrajudiciais estão acontecendo. Então, Obama prometeu uma mudança, disse que a mudança tinha chegado à América. E é isso: a mudança é de detenções extrajudiciais para mortes extrajudiciais”.


O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A primavera árabe continua

Na quarta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Alaa Abd El-Fattah e Nabeel Rajab, lideranças importantes da Primavera Árabe no Egito e no Bahrein

Em 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um jovem tunisiano de 26 anos, ateou fogo ao próprio corpo. A auto-imolação, motivada pelo descontentamento com a situação geral das condições de vida no país, tornou-se símbolo de uma revolução que, posteriormente, se espalhou por outros 16 países do Oriente Médio, numa série de eventos que foram intitulados de “Primavera Árabe”.

Argélia, Egito, Líbano, Palestina, Bahrein, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Israel, Marrocos, Arábia Saudita, Síria, Iêmen e Emirados Árabes seguiram o exemplo da Tunísia e articularam suas próprias mobilizações. Em meio às transformações no mundo árabe, dois nomes se destacam: Alaa Abd El-Fattah, blogueiro e ativista egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein.

Assange conversou com os dois ativistas para saber se eles acreditam que as manifestações foram bem sucedidas e também para entender o que os motiva a continuar lutando na linha de frente, mesmo sob forte repressão. 

Antes da entrevista, Alaa havia sido repetidamente detido sob acusações que dão inveja ao Super Homem: sabotagem e roubo de tanques, assassinatos, violência contra pelotões inteiros: “eu tinha uma boa reputação e moral na prisão. Sabe, quando as pessoas são presas por roubarem carros… Mas eu fui acusado de roubar tanques”, ironizou na conversa. Hoje ele continua impedido de viajar.

Rajab havia sido sequestrado, torturado e preso pela sua oposição ao governo do Bahrein, país no qual atua como diretor do Centro de Direitos Humanos, causa que defende desde a década de 90. 

Sobre a experiência de viver num país com uma revolução em curso, Nabeel acredita que o custo que se paga pela liberdade é alto, “mas queremos pagar por mudanças pelas quais lutamos”, diz. Um dia antes da entrevista, Rajab tuitou sobre ela na sua conta no Twitter; pouco depois, sua casa foi cercada por policiais armados e ele foi intimado a comparecer à Promotoria de Justiça para prestar esclarecimentos.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

   

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um rebelde na presidência da Tunísia

Na terceira entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, conversa através de medialink com o presidente da Tunísia, o ex-exilado Moncef Marzouki 

A revolução na Tunísia em 2011 marcou o início da Primavera Árabe, inspirando a população de outros países do Oriente Médio que, até hoje, seguem saindo às ruas contra governos autoritários. 

Após meses de protestos, a revolução tunisiana derrubou o ditador Ben Ali, abrindo espaço para as primeiras eleições democráticas no país em 23 anos.

Mas, passada a euforia, fica o desafio: como conduzir um governo realmente capaz de mudar a vida da população tunisiana?

“Você ficou surpreso com a falta de poder ao se tornar presidente?”, pergunta Assange ao presidente eleito no país, Moncef Marzouki. “Eu estou descobrindo que o fato de ser chefe de Estado não significa que você tenha todo poder”, responde o líder tunisiano.

Marzouki é médico e opositor de longa data do ditador Zine El-Abidine Ben Ali, o que o levou à prisão na década de 1990. Fundou o Comitê Nacional em Defesa dos Prisioneiros de Consciência e foi presidente da Comissão Árabe de Direitos Humanos. Em 2002, exilou-se na França onde, junto com outros tunisianos na mesma situação, fundou o partido político Congresso pela República.

Desde 2001, ele declarara que pressões externas e revoltas armadas não derrubariam Ben Ali, mas sim um movimento popular que empregasse os métodos da resistência civil. 

Em janeiro de 2011 a Tunísia mostrou que ele estava certo. Depois da queda de Ben Ali, Marzouki voltou do exílio para anunciar sua candidatura e foi eleito presidente interino pela nova Assembleia Constituinte da Tunísia, em outubro de 2011.

A grande pergunta, nas palavras de Assange, é: “Moncef Marzouki, ativista pelos Direitos Humanos, deve agora liderar o Estado que o aprisionou. Poderá ele transformar o Estado?”.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Slavoj Žižek x David Horowitz

Na segunda entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista o intelectual esloveno Slavoj Žižek na sua prisão domiciliar na Inglaterra. Ambos conversam, via satélite, com um dos líderes da direita americana, David Horowitz

O intelectual superstar Slavoj Žižek é conhecido por suas contribuições à teoria da psicanálise, à crítica cultural e à política, na qual sempre se engajou para além das discussões acadêmicas – ele foi candidato à presidência da Eslovênia nos anos 90. Cultuado pela jovem vanguarda intelectual europeia, esse notório provocador se define como leninista mas também como lacaniano. 

Já David Horowitz é um soldado linha dura do pensamento conservador americano – e um sionista sem o menor pudor. Nos anos 60 e 70, foi uma liderança de esquerda na cidade californiana de Berkeley. Depois de colaborar com os Panteras Negras, começou seu caminho sem volta para a direita. 

Hoje, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política. Este encontro entre mentes tão diferentes é, no mínimo, acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”. 

Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”. Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente. “Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar e nos livrar deste liberal aqui!” brinca Žižek para Horowitz, referindo-se a Assange. 

O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz. No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h. Na próxima semana, o blog publica o terceiro episódio da série em que o líder do Wikileaks entrevistará Moncef Marzouki, um ativista político tunisiano.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Hezbollah propôs à oposição síria negociar com Assad

Na primeira entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista o líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah.

Esta é a primeira entrevista de Nasrallah feita em inglês em uma década. Enquanto os conflitos se acirram no Oriente Médio, Assange aborda temas espinhosos como a posição de Hezbollah – visto como grande aliado do regime de Assad – no conflito da Síria. “Somos amigos da Síria, mas não agentes da Síria”, responde o libanês, antes de revelar que o Hezbollah procurou setores da oposição síria para pedir que dialogassem com Assad, sem sucesso. 

Impossibilitado de deixar a Inglaterra, onde estava em prisão domiciliar, Assange entrevista Nasrallah através de um videolink na casa onde esteve por mais de 500 dias. Por sua vez, Hassan Nasrallah participa da entrevista na sede do Hezbollah no Líbano, cuja localização exata é mantida em segredo por segurança. É lá que ele trabalha sob constante medo de ser assassinado por diferentes grupos e Estados.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h. Na próxima semana, o blog publica o segundo episódio da série em que o líder do Wikileaks entrevistará o filósofo e psicoanalista Slavoj Zizek e o advogado David Horowitz.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Proseando com Tadeu Vilani

Tadeu Vilani por Ana Mendes
Ele saiu de Santo Ângelo e rodou algumas cidades, mas por força do destino encontrou, em Porto Alegre, um amigo roqueiro que tinha aberto um negócio: um laboratório fotográfico. Foi ampliando chapas dentárias que Tadeu pôs em prática os seis meses de curso de fotografia que tinha acabado de fazer na capital.
Antes foi officeboy, barbeiro e digitador; morou em pensão, cortou cabelo de milico e casou com a amiga do amigo. Fotógrafo mesmo só se tornou aos 30 anos quando foi contratado como freelancer pelo Jornal Zero Hora. É que quando era pequeno entre um filme de neo-realismo italiano e outro ele desejou ser um contador de histórias. E foi. O tio, porteiro do cinema da cidade, abriu a porta definitiva na vida do guri do noroeste gaúcho.
Aos 47 anos, Tadeu soma diversos ensaios documentais que desenvolve paralelamente ao cotidiano do jornal. Atualmente se dedica a fotografar os negros. Este trabalho é em homenagem ao bisavô que assustava as crianças contanto histórias de boitatá e negrinho do pastoreio.“Quero fotografar até o final da minha vida sobre a formação étnica do Rio Grande do Sul.” afirma. E para isso, já percorreu o estado produzindo imagens dos índios Guarani, dos imigrantes poloneses, alemães e italianos.
Na região metropolitana de Porto Alegre, registrou o cotidiano dos moradores da Vila Dique e Vila Umbu com o qual ganhou, em 2011, um dos maiores prêmios da fotografia brasileira, o Corado Wessel. “As raízes da Vila Dique são do interior. São como eu, eu vim do interior também. Todos vieram para, de alguma forma, vencer na vida.”. Ele é um regionalista, no melhor dos sentidos, porque quando fotografa olha pra si e para os seus. É um deleite conhecer o Rio Grande do Sul através dos olhos e do coração de Tadeu Vilani. Bom proveito!
Por Ana Mendes

Nota de Rodapé – Me diz teu nome, idade e profissão.
Tadeu Vilani – Meu nome completo é Luiz Tadeu Vilani, eu assino Tadeu Vilani porque quando eu comecei na Zero Hora já tinha o Luiz Armando Vaz, pra não ter confusão foi assim. Eu sou de Santo Ângelo [RS], nasci no dia 3 de março de 65, em casa, por uma parteira. Parto natural. Somos seis filhos, três casais. Meu pai foi um barbeiro que tinha uma cantina dentro do quartel e minha mãe uma dona de casa que trabalhou muito. Os dois trabalharam muito, enfim, vamos em frente...

NR – Infância e família parecem estar muito presentes no teu trabalho.
TV – Isso é interessante. O meu pai foi sempre um trabalhador, mas ele nos proporcionava umas coisas. Por exemplo, a primeira televisão em preto e branco do bairro foi nossa, em Santo Ângelo da década de 1970. Não tinha calçamento, era terra de chão batido, mas nós tivemos a primeira televisão. A casa vivia cheia de gente, trinta, quarenta pessoas assistindo televisão. Me recordo bem da Copa de 1970. Eu era criança, tinha cinco anos, mas aquelas coisas ficam na tua cabeça. Aquelas imagens em preto e branco. Na realidade não me recordo da copa de 70, mas do movimento das pessoas, eu tinha cinco anos, não podia lembrar mesmo... Uma coisa peculiar daquela época: quando foi lançado o primeiro voo tripulado para a lua, o Apolo12. É impressionante isso. Quando o homem foi a lua se falava muito. Se comentava muito sobre aquela conquista, sobre aquela guerra espacial, então isso mexia com o imaginário das pessoas. Quando era criança acreditava em boitatá!
Na década de 70 imagina, né? Tu não tinha informação nenhuma, tu tinha o imaginário e o que as pessoas te falavam. Não existia internet, não existia facebook, não existia celular. Telefone tinha pra poucos. Então a fertilidade da imaginação da gente era muito grande. Muito grande.

Vila Umbu

NR – E como é Santo Ângelo?
TV – Foi onde tive, com a ajuda dos amigos, a minha formação de personalidade. O pessoal ia pra Europa e trazia fita cassete, o MP3 daquela época, e nós trocávamos, saia aquela música de som mais agudo. Não sei se vocês sabem disso, cada vez que tu reproduz uma fita cassete ela fica mais aguda. Então tinha algumas musicas que nós conhecíamos de um jeito e anos mais tarde é que descobrimos que ela era um pouquinho diferente. Outra coisa peculiar daquela época era o cinema, o meu tio era porteiro de um cinema e eu assisti muito filme. Aqueles do Teixeirinha em preto e branco eu vi bastante. Eu ia duas, três, quatro vezes na semana ao cinema. O cinema tem uma influência imensa na minha fotografia e muito do cinema italiano, o neorrealismo italiano, o francês também, a Nouvelle Vague. Mais o italiano, porque descendo de italianos (com uma parcela de polonês e negro também). Aqueles filmes, aquela dramaticidade... Ladrões de Bicicleta, do Vittorio De Sica, é um filme que me ajudou muito. Quando assisti, pensei: “É isso que eu quero fazer da minha vida: ser um contador de histórias.”. Ele conta a história de uma época da Itália. De uma forma muito dramática. Eu não era fotógrafo ainda, nem sabia fotografar. Mas aquilo lá mexeu comigo lá no interior do estado e eu disse “um dia quero fazer algo parecido”e acho que a fotografia foi a forma que encontrei de me expressar.

NR – E como foi o início com a fotografia?
TV – Até os 23 anos eu morei em Santo Ângelo e quando sai fui morar em Joinville [SC]. Lá eu trabalhei um ano no Plano Collor como office boy numa empresa, fui demitido e fui morar em Rio Negro, no Paraná. O quartel do exército que existia em Santo Ângelo foi transferido para o Rio Negro onde tinha meus parentes que mantinham o mesmo seguimento do meu pai. Daí eu fui aprender a cortar cabelo. Trabalhei um ano dentro do quartel cortando cabelo de milico, faz parte né? Foi bem legal, mas não fotografava ainda. Em 94 eu retornei para Porto Alegre (tive uma tentativa antes, em 90, de vir morar em Porto Alegre quando saí de Santo Ângelo, mas não deu certo, não achei emprego e voltei) e fui morar no centro em uma pensão ali na rua Vigário e aí que entra uma história bacana. Ali nessa pensão, na Vigário José Inácio eu tinha um amigo e falei pro cara assim “um dia que tiver uma festa legal que não precise gastar muito me convida que quero ir junto”. Eu já era digitador na Caixa Econômica Federal. Não saia muito, não tinha grana pra gastar em festa. Então nós fomos jantar na casa de uma amiga dele. Saímos, jantamos e ela se tornou minha esposa. E ela é muito importante na minha vida porque ela me ajudou muito a ser fotógrafo. Ela pagou meus cursos de fotografia, minha primeira câmera foi ela que comprou. Eu já queria isso, mas não tinha oportunidade de financeira de comprar câmera, essas coisas...

NR – Tu trabalhou como laboratorista, não foi?
TV – Isso. Fiz o curso de seis meses no Senac da Cidade Baixa, depois revi um amigo de Santo Ângelo que era músico e por destino, não sei, ele abriu um laboratório especializado em preto e branco e cromo na Rua dos Andradas. Naquela época os médicos faziam foto de arcada dentária pra analisar, então tu revelava. Eu estava começando, tinha seis meses de laboratório e fotografia, quase nada. Então, começar a ampliar foto dos outros e fazer corte no ampliador te dá uma noção muito grande de enquadramento, perspectiva e tonalidade de cinza, todas essas coisas me ajudaram bastante. Foi bem interessante, até hoje tenho minha Nikon FM2 que preservo daquela época. Venho do analógico, mas não me agarro ao analógico, eu tô no digital e tá bem legal assim. Não sou aquele cara saudosista que tem que estar agarrado ao passado. Foi maravilhoso, foi bom, mas a vida continua. Daqui a pouco virão outros processos e tu vai ter que te adaptar. Porque o processo é um processo e acabou. O que vale na fotografia pra mim é o teu pensamento, teu caráter, teu comprometimento com a fotografia. Se a máquina é uma Canon, uma Nikon, uma Leica, isso é um mero detalhe.

NR – Ela está a teu serviço, né?
TV – Claro, exato. A fotografia é o teu pensamento. É o modo como tu vê o mundo. É o teu coração que está ali, não é a máquina fotográfica.


NR – Tu não tem formação acadêmica?
TV – Não tenho, infelizmente. Acho que faz falta. Mas não tive a oportunidade de fazer.

NR – O fotojornalismo parece que ainda é uma das poucas profissões em que o diploma não é essencial. Acho que isso tem a ver com a atuação do fotojornalista ser muito prática, não acha?
TV – Acho que sim. Talvez eu sinta falta de ter o diploma, nada mais que isso. Tu não fotografa com teu diploma. Tu fotografa com o que tu é. Acho que a faculdade talvez te dê alguns subsídios, mas o mais importante é o caráter. Se tu não tiver ética no teu trabalho não adianta ter curso de jornalismo.

Ensaio Alemães
Mãos, Ensaio Alemães [Premio Categoria P&B Leica Fotografe]


NR – Tu é um fotógrafo que foge a regra do eixo Rio/São Paulo. Claro que têm muitos outros, a gente sabe disso. Mas quero saber como é ser um fotógrafo gaúcho e se tu tem desejo de sair daqui.
TV – Sabe, essa coisa assim de eixo Rio-São Paulo tá mudando, felizmente. Até dez anos atrás era só São Paulo e Rio, mas os festivais que estão ocorrendo pelo país – o daqui de Porto Alegre que o Carlos Carvalho faz com muita qualidade – nos ajudaram a abrir nossas cabeças para as possibilidades que existem. Acho que os festivais de fotografia são fundamentais pra isso: abrir o leque no país.

NR – E tu tem vontade de sair daqui?
TV – Acho que não. Talvez pro Rio de Janeiro porque gosto muito dos morros, das favelas. Tenho amigos lá dentro, acho muito legal. Mas acho que tem que fotografar muito o Rio Grande do Sul, a gente fotografa muito pouco. O interior do estado é muito rico. O pampa gaúcho é fantástico. A região aqui da Lagoa do Peixe e do Taim eu nunca fui. Queria fotografar estes lugares ainda.

Violino e o Rio, Guarani, RS

NR – Queria que tu me contasse um pouco sobre este grande trabalho, que tu vem desenvolvendo há anos, a respeito da formação étnica do Rio Grande do Sul.
TV – Quando eu fui contratado pela Zero Hora, em 2001, fui pra Passo Fundo e fiquei 8 anos. Fiz um trabalho bem banaca tanto em Santo Ângelo quanto nas Missões [Sete Povos das Missões]. Desde o princípio procurei desenvolver trabalhos documentais na minha vida, porque acho importante o fotojornalismo não ficar focado somente no cotidiano da redação. Tem pessoas que acham bacana, eu respeito isso e ponto final. Mas eu comecei a desenvolver um trabalho nas missões com os índios Guarani e as arquiteturas missioneiras. Fotografei nas Missões na Argentina e no Paraguai, fiquei em reduções e Reservas Indígenas pra fazer todo esse trabalho. E deram bons resultados com exposições lá na região e na Itália. Quero fotografar até o final da minha vida sobre a formação étnica do estado do Rio Grande do Sul. Já fotografei os italianos, os poloneses, os alemães e agora tô fotografando os negros.

Daniela Benvegnú Ensaio Italianos
Dal Ben, Ensaio Italianos
PEDRETTI, Ensaio Italianos
NR – Como foram essas etapas?
TV – Quando comecei eu não tinha muita coisa em mente. Pensei: “vou fotografar as minhas origens, fotografar quem eu sou” para entender um pouquinho esse processo de um monte de gente vindo de outros países formar esse caldeirão cultural de etnias e influências que é o resultado da mistura de raça, cor, credo, religião e tal. Daí comecei pelos italianos que são os mais próximos. Depois fui para os poloneses que é a minha bisavó e a minha avó. Depois os negros porque meu bisavô era negro. Ele era negro e a minha bisavó polaca, um bem brancão e o outro bem pretão! Foram os únicos bisavós que conheci. Moravam na colônia e vinham sempre pra cidade nos visitar. Ele era um gauchão com chapéu e lenço branco. Jogava o chapéu pra trás, usava camisa arremangada, bota e faca cruzada. Chegava em casa com um assobio assim: “fiiiuu”. Vinha pra assustar a gente. Ele contava história de boitatá e negrinho do pastoreio. Nós adorávamos ouvir as histórias, mas morríamos de medo. Era criança, né? De oito, dez anos. Eu curti muito meus bisavós, tive a felicidade de conhecê-los. Meu avô também. A primeira vez que fiquei embriagado foi com meu avô materno, ele era churrasqueiro. Um dia ele chegou em casa e sentamos juntos comendo carne e tomando um garrafão de vinho. Ficamos ali, como se diz, proseando os dois: neto e avô. Só que depois teve efeito!

NR – Teus parentes estão fotografados nos teus ensaios?
TV – Sim. Fiz uma foto homenageando meus pais, eles estão na exposição dos italianos. A minha avó tá na exposição dos poloneses. Tem que homenageá-los.

NR – Quando tu pensa em um novo ensaio fotográfico sempre trás como pano de fundo essa questão regional?
TV – Acho que sim, até por conta da minha infância, o meu pai veio da colônia aos 18 anos para servir o exército e minha mãe também veio da colônia aos 16 anos. Então, tenho nas minhas raízes a vida rural. Durante as férias do colégio eu sempre ia pra colônia ficar na casa dos meus tios. Ficava dois meses vivendo como colono. Trabalhava no arado, na carroça, capinava a lavoura, ajudava no paiol de milho, carregava saco de calcário e cimento nas costas. Todas essas coisas eu fiz. Essas são as memórias da minha vida. É por isso que quando vou pro interior do estado quero de alguma forma deixar isso transparecer na minha fotografia. Porque a fotografia é o que tu é. É a carga da tua existência. É a forma como tu vê o mundo. Pra mim isso é indiscutível.

NR – Como é a tua relação com as pessoas retratadas e o que é essencial para se realizar um bom retrato?
TV – Na verdade o retrato é uma forma de tu interagir com a pessoa, de se aproximar dela. Eu procuro, dentro das possibilidades que a pauta ou a situação me permite, ficar próximo e trocar alguma experiência. Porque as pessoas por mais humildes que sejam têm prazer em te receber, eles veem um cara circulando no meio deles interessado em saber as suas histórias, isso enche eles de orgulho. É bacana, sabe? Quando tu consegue ter essa aceitação as fotos acontecem. Nem sempre é possível, mas se tu puder chegar neste nível é o ideal.

NR – Eu percebo que nos teus ensaios tu não trás um aspecto degradante das pessoas, embora trabalhe em contextos de pobreza.
TV – Acho que não é necessário. Expor uma pessoa a uma situação que não vai trazer nenhum retorno, acho que não é legal. Não vai acrescentar valor, só vai te prejudicar e fechar portas. A a minha ideia é continuar fotografando, não quero fechar portas.

NR – Queria que me contasse sobre os registros que fez na Vila Dique. Qual era o contexto desse lugar no momento em que tu chegou lá?
TV – Quando fui transferido da Zero Hora em 2008, quis continuar meus projetos fotográficos, daí eu disse: “vou dar uma pequena guinada no que faço”, porque eu só vinha fazendo etnias. Daí comecei a olhar o que estava acontecendo aqui, neste contexto da região metropolitana de Porto Alegre, especificamente. Uma matéria da Aline [Custódio], do Diário Gaúcho, sobre a transferência dos moradores da Vila Dique (próximo ao aeroporto Salgado Filho) para o Porto Seco me chamou a atenção. Nem tinha começado o processo ainda, estava só se falando. Então eu fui falar com a Aline. Ela me apresentou pros líderes da comunidade. Comecei em maio de 2009 e até hoje estou fotografando a Vila. Vou na nova. Pra fazer um comparativo de como era a vida deles naquele período e como estão hoje no local novo, pra saber se eles estão felizes.

Banho, Porto Alegre, 2010. Vila Dique


NR – E isto já faz três anos.
TV – É, mas os projetos são assim, têm que durar. É uma bola de neve, tu faz um aqui outro ali e eles vão indo. Daí o que aconteceu: por causa dessa aceitação e desse convívio tenho, até hoje, uma amizade com as pessoas de lá. Eu ligo pra eles de vez em quando pra saber como eles estão. Vou lá no Vavá, na Enedina e outros que não me lembro o nome. São tantas pessoas! Teve uma guria que eu dei de presente de aniversário as fotos dos 15 anos dela. Ela não tinha pai, vivia com a avó. Essas trocas são legais, sabe? Eles me deram alguma coisa. Eu tenho que dar outra coisa em troca. Acho que é o mínimo que posso fazer. Todas as pessoas que fotografo eu dou fotos. Todas, sem exceção. Tem umas criancinhas que eu fotografei que tinham cinco anos quando comecei e hoje já estão com 8, 9 anos. Tu vê essa mudança. Daqui algum tempo tu pode voltar e os caras vão estar com 16 anos. Quero fazer essa linha do tempo...

TV, Vila Dique, Porto Alegre
NR – E como tu elaborou a ideia de enquadrar as pessoas dentro das televisões?
TV – Ali na Vila Dique a maioria das famílias vive da reciclagem. Eu estava fotografando aquele contexto de trabalho dos papeleiros e um dia vi uma carcaça de televisão velha sem o tubo. Como eu já tinha um forte relacionamento com eles, perguntei pro filho do Ricardo se ele se importaria de ser fotografado dessa forma, ele disse que não tinha problema. Qual foi a minha ideia quando eu vi aquela sucata e olhava para aquela situação? Queria dar rosto para essas pessoas. Porque todos que estão ali são imigrantes gaúchos. Eles vieram da fronteira de Porto Xavier com a Argentina, alguns vieram de São Gabriel. As raízes da Vila Dique são do interior. Todos vieram para, de alguma forma, vencer na vida. Daí aquela carcaça fez uma linguagem bem forte da contextualização daquela situação. Não sei se deu certo ou não. Me inscrevi no concurso da Conrado Wessel e tive a felicidade de ganhar. E na verdade tu não ganha sozinho, quem ganha são todas aquelas pessoas que veem a suas situações assim reconhecidas num prêmio importante.

Vaqueiros, Ensaio Negros
Vaqueiros, Ensaio Negros

NR – O teu trabalho mais recente é Vaqueiros. Como ele se desenvolveu?
TV – Vaqueiros é assim: tá dentro do contexto dos negros gaúchos. É uma homenagem ao meu bisavô.  Um dia eu estava olhando para os quilombos gaúchos e o de Santana do Livramento, Ibicuí da Armada, me chamou atenção. É muito peculiar. Porque esses quilombolas vivem no mesmo local há 300 anos com as mesmas tradições e costumes da lida rural, do pastorio, do cuidado com o gado. Então, eu fui pra lá e dormi quatro dias no quilombo. E descobri uma particularidade: aqueles quilombolas têm o sobrenome Vaqueiros. Porque quando a Lei Áurea aconteceu o fazendeiro batizou eles de Vaqueiro. Lá tem o Luiz Vaqueiro, a Marta Vaqueiro, o Paulo Vaqueiro, a Maria Vaqueiro. Naquele quilombo 90% é Vaqueiro. Mas muitos quilombolas saem de lá porque as famílias vão crescendo e não tem espaço para todo mundo. Eles estão na região metropolitana de Porto Alegre. Minha ideia é fotografar os Vaqueiros que estão aqui e fazer um comparativo do Vaqueiro metropolitano com o Vaqueiro do pampa gaúcho.

NR – E a utilização do Preto e Branco nos teus ensaio fotográficos?
TV – Me recordo que quando era criança minha mãe ouvia rádio novela. Me lembro dela trabalhando em casa e eu do lado. Ficava imaginando aquelas cenas. Como naquela época era tudo em preto e branco tu já imaginava assim também. Então, eu acho, que o mundo era meio monocromático. Uma vez fizemos uma brincadeira bem colorida (a gente era bem danado quando era pequeno): na frente da minha casa não tinha calçamento, só chão batido e num dia de chuva tinha uma kombi estacionada, pegamos uma melancia que nós tínhamos comido e colocamos embaixo das rodas traseiras pra o cara não conseguir sair. Coisa de piá, né? É uma brincadeira colorida porque tem o vermelho da melancia e o verde da casca. Então, nem tudo é monocromático. Mas acho que o preto e branco é uma coisa natural. Será que aqueles filmes neo-realistas italiano teriam o mesmo contexto e dramaticidade se fossem em cor? Acho que não. O impacto daquelas imagens faz tu pensar. A fotografia em preto e branco tem essa força porque ela direciona o teu olhar.

Todos, Porto Alegre,2010. Vila Dique
NR – Tu te considera um fotojornalista, um artista ou um fotógrafo documental? O que tu me diria sobre essas definições?
TV – Essas coisas pra mim não são importantes. O importante é contar tua história, tua fotografia fazer tu pensar como ser humano. Se ela é arte, se ela não é arte... eu não posso entrar em muitos detalhes, acho que não é importante isso. Acho que a gente é ser humano que fotografa. Acho que é isso. Mas se eu fosse definir seria fotodocumentarista.

NR – Criticam o fotojornalismo por ser o óbvio eficiente, por ter imagens criativas, mas que nada dizem, por ilustrar mais que informar. Qual é a tua opinião sobre o fotojornalismo que se faz hoje em dia?
TV – Aquele fotojornalismo romântico que existia nos anos 60, 70 e 80 não existe mais. O mundo mudou e isso é uma coisa que nós temos que entender. As câmeras analógicas não existem mais, aquela coisa de sair e ficar dez dias numa pauta, isso não existe mais, as coisas são mais imediatas, o mundo é outro. Então, acho que o caminho para o fotojornalismo dar vasão a essa produção de imagens, essas histórias mais profundas é a internet. É o melhor caminho para poder dar esta vasão e construir histórias profundas, fotograficamente falando.

NR – Tu não é daquela turma de fotógrafos que se incomoda com a dita vulgarização da fotografia?
TV – Claro que não me incomoda. Porque vou me incomodar com isso? Eu não tenho nenhum poder nenhum de dizer o que as pessoas tem que fazer ou não. Elas são livre pra expor, tu é livre pra ver! Tu é livre pra fazer, tu é livre pra ver. Eu vou focar no que eu gosto. Não vou navegar na internet num mar tenebroso cheio de situação. Eu vou no que eu quero ver e ponto final, não fico sofrendo porque tem um trilhão de fotos. As pessoas tem que curtir a vida delas, né? Se acham que é bacana. Coloquem! Hoje eu procuro inserir vídeos nos meus trabalhos porque não dá mais pra imaginar um trabalho fotográfico sem o vídeo. São complementos muito bons. Quando eu fotografei os italianos, viajei durante seis anos por 40 cidades, não fiz um vídeo com aqueles dialetos, com aqueles nono falando e jogando nos salões. Eu não tenho nada disso! Tem que ter!  Acho que os fotógrafos tem que estar mais aberto pra essas novas linguagens. Eu não tenho nenhum preconceito. Se o pessoal da Magnun faz, porque nós não podemos fazer? Os caras são os ban ban ban. Nós que somos daqui do extremo sul temos que fazer também, né? Não tem porque não. Depois tu olha o teu trabalho bem editado na internet é muito legal. Hoje tem vários festivais que recebem documentários de fotojornalistas, né? Tu tem que migrar, não pode ficar parado no passado. O mundo continua. É uma evolução constante, é um ser vivo. O mundo é mutante também. Acho que tu não pode jamais mudar a tua personalidade, tua ética, teu caráter, mas as ferramentas tem que usar elas em prol, em benefício. Igual vocês aí [aponta para a filmadora], daqui a pouco vão estar com outras coisas...

NR – Pra terminar, um conselho para os fotógrafos iniciantes, como eu.
TV – Acho que pra fotografar tem que ser muito persistente. Tem que se doar. Porque o retorno é muito lento na construção de um trabalho documental. Mas primeiro, tem que acreditar em si próprio. Se tu não acreditar que vai conseguir, que teu trabalho é importante, que tem alguma coisa a dizer não vai dar certo. Tem que ler muito, ficar atento aos novos pensamentos fotográficos (com a internet ficou mais fácil) e ver as produções maravilhosas mundo afora. Tem também que estar aberto pros outros (se tu não souber ouvir e perceber o mundo ao teu redor também não adianta insistir). E por fim saber que nem sempre as tuas verdades são as verdades do mundo.

A entrevista em vídeo:





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Ana Mendes, 26 anos, gaúcha de nascimento, errante de coração e profissão. Fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Trabalha como fotojornalista freelancer entre Brasília e Porto Alegre. Mantém a coluna mensal Faço Foto.
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