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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um álbum, uma vida


por Celso Vicenzi*

A fotografia é uma invenção do século 19, que fascinou pela possibilidade de reproduzir, fielmente, quaisquer objetos, paisagens ou pessoas. No começo, como sempre, acessível a poucos. Para além dos registros domésticos, as imagens fotográficas prestaram inestimável contribuição ao estudo da geografia, da antropologia e da sociologia – entre outras ciências. Com o passar dos anos, ganhou novas funções, entre elas, a de obra de arte e a de registro jornalístico.

Do século 20 até os dias de hoje, parte das pessoas que viveram no planeta possuíam pelo menos uma ou algumas fotos. No passado, antes da era da televisão, era comum, durante as visitas de parentes e amigos, apresentar o álbum de retratos da família. Toda uma história de vida resumida em algumas poucas páginas a marcar datas importantes, como o casamento, o nascimento dos filhos, o batizado, alguns aniversários (não todos!), uma ou outra foto do ingresso na escola ou da formatura. Ou ainda, em trajes militares, como reservista. Fotos posadas em uma charrete, no dorso de um cavalo, em uma bicicleta ou, ainda, em raros automóveis. Às vezes, algum fenômeno climático, como enchente ou neve. E, já entrando nos anos 60, uma ou outra foto de viagem em férias.

Uma vida inteira podia ser resumida em um álbum com poucas dezenas de fotos. Para algumas gerações, todas em preto e branco. Mais tarde, num colorido que o passar dos anos foi desbotando cada vez mais.

Quantas fotos um adolescente é capaz de registrar, atualmente, em apenas um dia? Em uma semana? Certamente, mais do que algumas gerações registraram ao longo de toda uma vida. Nossos avós – para os que têm mais de 50 anos –, talvez não mais do que duas ou três dezenas. Dos bisavós, com sorte, sobrou uma imagem solitária, que olhamos com certo espanto. Tanto quanto eles, os bisavós, olhavam para a estranha câmera, quase a duvidar sobre o que sairia daquele registro para a posteridade.

Atualmente, conseguirá uma criança ou adolescente que viva até a fase adulta localizar, em meio a milhões de fotos, aquelas que guardam algum significado para suas vidas? A frase já foi atribuída a John Lennon, mas é do escritor, jornalista e cartunista norte-americano Allen Saunders: “Vida é o que acontece com a gente enquanto estamos fazendo outros planos”. Talvez se pudesse dizer, diante de tanta ansiedade em registrar o dia a dia em imagens, que a vida é isso que acontece enquanto tiramos fotos em vez de prestar mais atenção aos ciclos da natureza e às pessoas à nossa volta. Porque a vida, essa não tem volta. Passa rapidamente e finda num clique.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

terça-feira, 11 de junho de 2013

Os óvnis do meu pai


por Tomás Chiaverini*

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

Meu pai está com quase setenta anos. Numa altura da vida em que o materialismo da juventude já foi bastante contaminado pelo esoterismo difuso – autodefesa frente à proximidade da morte e à assustadora possibilidade do fim, ordinário, implacável e definitivo. Mas está longe de ser um deslumbrado. Cientista de formação, é um dos homens mais cultos que conheço e ocupa boa parte do tempo pensando sobre a estranha natureza do mundo sensível. O OVNI era um belo material para esse passatempo.

As fotos tinham excelente definição e ele as ampliou ao máximo. Enviou por email para um primo meteorologista do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). As imagens circularam por entre alguns dos maiores especialistas em fenômenos atmosféricos do país. Nenhum deles disse se tratar de um disco voador, como meu pai evidentemente ansiava (imaginem, caros leitores desocupados, registrar a prova de vida extraterrestre inteligente?). Mas nenhum deles soube explicar o fenômeno.

Não havia qualquer experimento científico na região naquela data, nenhum evento celeste especial. Tampouco havia registros de imagens semelhantes àquelas. A cesta de luzes, portanto, permanecia como um objeto voador não identificado. Meu pai foi adiante na investigação. Entrou em contato com comunidades de ufólogos e enviou as fotos para eles também. A resposta foi semelhante, ainda que com mais empolgação. Algo como: “parabéns, o senhor presenciou um fenômeno inexplicável”.

Durante meses meu pai mostrou essas imagens e repetiu a história, acrescida de justificativas e reflexões. As luzes pairavam no céu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Duas das maiores metrópoles do planeta. E estavam ali na véspera do ano novo, momento exato em que hordas de humanos migram para o litoral num bizarro ritual de celebração cósmica. Não há duvida de que a data e o local seriam ideais para estudar os hábitos da nossa espécie.

O tempo passou. Meu pai continuou a espalhar e história. Até um fim de tarde em que resolveu fotografar um navio de cruzeiro, em frente à sua casa. O balde de água fria veio quando ele ampliou a imagem para conferir o foco. Todas as luzes do navio tinham o mesmo formato de cestinha do famigerado OVNI. Meu pai, que se sustentou a vida inteira como professor de fotografia, finalmente percebeu do que se tratava o seu querido disco voador. A nova lente tinha um defeito. O anel de foco ia um pouco além da posição “infinito” causando uma pequena distorção que borrava as luzes.

A vida alienígena não passava de uma ilusão de ótica. Ainda assim, enganou um punhado de ufólogos e alguns dos maiores cientistas do país. Moral da história: o pior cego, na verdade, é aquele que quer ver.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tem coisas que eu olho, tem coisas que eu vejo


por Ana Mendes ilustração Victor Zalma*

No último dia em Recife, não pude deixar de conhecer o famoso Mercado São José, um casarão verde-água no centro da cidade. Me ocorreu comprar alguns colares, mas o Ton apareceu a tempo para me dizer que era melhor não. “Guias de proteção são usadas quando há um fim específico, Ana”.

Insatisfeita com a censura, escorreguei os dedos por colares vermelhos de Iansã, amarelos de Oxum, azuis de Ogum e brancos de Oxalá. Desejei todos. São vendidos a três reais nas casas de candomblé. Entrei numa: duas mulheres, sentadas em um canto, afundavam a mão em cestos cheios de missangas e dali montavam anéis infinitos em fios de naylon. Com uma habilidade impressionante, respingavam contas coloridas da ponta dos dedos. “Saí daí, guria!”, minha mãe sussurrou no meu ouvido. Fulminei ela também, com meu olhar estrangeiro.

No corredor, um homem com um cajado e uma cartola preta nos observava sossegadamente. Ele estava encostado em uma das portas de saída do mercado, onde era possível ver pingar grossas gotas d'água. Fui atraída pela porta que chovia: feirantes encharcados vendiam quiabos e outras cores para fregueses que tão pouco se preocupavam com a exacerbação dos céus. Ao contrário, estavam todos ocupados em negociar o preço dos legumes. Sob um vento forte e quente a cena se repetia como uma cascata, a feira, a chuva e os fregueses tomavam a rua inteira.

Amontoados de gente aqui e ali, entoavam em coro, que nem fossem cigarras acasalando nomes de frutas, ervas, conservas e legumes. Às pressas, um menino riscou uma poça com a bicicleta e o feirante escoou a água que se acumulava em cima da lona amarela, “shuuuuaaaaa”. Finalmente o sol chegou rasgando nuvens e mudando o f. da minha íris. Porque não fotografei? Fotografei sim.

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Título inspirado em Poemicro de Climério Ferreira, poeta brasiliense do Piauí. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Evasão de privacidade!



por Cidinha da Silva*

Gostou do título? Chamou sua atenção, não foi? Achou criativo. Uma sacada inteligente, não é? Também achei, mas não é meu, não! É de José Wilker. Foi ele quem definiu de maneira ferina e feliz a prática das celebridades de fazerem de sua intimidade um reality show.

Aquele negócio de chamar os paparazzi para fotografar um encontro secreto com o novo affair, mas pautá-los antes, explicando que o casamento antigo ainda não acabou, mas há uma crise e, a expectativa da fotografada é que a publicização de uma nova possibilidade afetiva via veículos especializados em devassar a vida alheia, sensibilize o parceiro antigo para devotar a ela mais atenção e presentes. Aviso importante: é só para insinuar, criar um clima, pois a celebridade é mulher de família e quer manter o casamento.

Tem também o esquecido garotão musculoso, que sai da água do mar quase abandonado pela sunga e faz poses de halterofilista displicente, tudo previamente acordado com um paparazzi. O objetivo da performance é se mostrar para o autor da novela. Se der certo o fotógrafo ainda leva um troco e mais do que isso, ganha prioridade para clicar os novos centímetros de bíceps e adutores acrescidos ao corpitcho depois de dedicada malhação.

O problema agora é forçarem a barra para que as mulheres que amam mulheres e têm declarado isso publicamente também o façam. Será um tal de perguntar com microfone aberto o que duas lésbicas fazem na cama... mas quanto a isso é fácil adiantar a resposta, sugerida como padrão. Elas lêem, suspendem as pernas para tonificar a panturrilha e ajudar o retorno venoso, vêem TV, uma opera o smartphone enquanto a outra faz tricô. Brigam com as crianças que pulam na cama delas com os pés sujos, conversam, trocam carinho, namoram também, como fazem por toda a casa.

Invasão de privacidade nem sempre é evitável, mas a evasão o é, e evitá-la, doravante, fará parte das guerras a vencer para conquistar um pouco de paz.

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.
(Imagem: La dolce vita do cineasta Federico Fellini)

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ton


por Ana Mendes*

Entra no bar, pede um cigarro avulso. A criança atônita, deixa a coca-cola de lado. Estava vendo um faraó egípcio de perto. Num impulso, pergunta: tu é homem ou mulher? Os pais rangem as cadeiras. É mais uma daquelas típicas situações em que as crianças colocam os velhos num beco sem saída. Constrangidos sorriem com as gengivas e deixam o olhar escapar em direção a porta da rua, não queriam estar ali.

– Sou os dois, diz.

– Pará piá, deixa o moço em paz!

– Mas por que eu pareço uma mulher? Insiste, a fim de conversa.

– Porque tu usa colar e short, isso é coisa de mulher.

– E homem?

– Tu tem barba. Meu pai tem barba.

– Sou homem e mulher no mesmo corpo. Faz tempo... Gostou da minha maquiagem?

– É bem legal.

– Qual é o teu nome?

– Ariel.

– E o teu?

– Akhenaton.

Este é Ton. Uma grande amiga que mudou a maneira como uso artigos e substantivos.


*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto e é curadora da coluna Coisa Íntima, autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores publicada aos domingos neste espaço.  

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Coisa Íntima # Autorreflexão

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.



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Título Autorreflexão
Ano 2012
Autora
Heloisa Marques, artista visual
Saiba mais: http://cargocollective.com/percevejos

domingo, 27 de janeiro de 2013

Coisa Íntima # Nós

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.

Título: Nós
Descrição: fotografia em baixa exposição
Autor: Michelle Costa
Data
: Março de 2011

domingo, 20 de janeiro de 2013

Coisa Íntima # Turismo dentro do próprio organismo

Série Coisa Íntima
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.
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Título: "Turismo dentro do próprio organismo", verso da poesia de Troy Rossilho
Descrição: Uma curitibana visitando o Rio de Janeiro, explorando a si mesma em seus passeios pela cidade. Lagoa Rodrigo de Freitas - Rio de Janeiro.
Autor: Larissa Nowak
Data
: 24/04/2008

domingo, 2 de dezembro de 2012

Coisa Íntima # Santa Ceia

Série Coisa Íntima
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 

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Título: Santa Ceia
Autor:
Luiz Achutti
Mais em http://www.achutti.com.br/ 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Maré de dentro

Fábio Caffé, AF Rodrigues, Elisangela Leite e Ratão Diniz. (Foto de Edmilson de Lima)
A cidade do Rio de Janeiro tem uma população de mais de 6 milhões de habitantes. 22% dessas pessoas moram em 700 favelas que apresentam baixos Indíces de Desenvolvimento Humano (IDH). Há quem diga que, na cidade maravilhosa, vive-se sob o império da violência e do crime, pois os números se assemelham aos países em estado de guerra – baseado em dados estatísticos de 12 mortes por dia no estado

Sob esse estigma, reforçados dia e noite nos noticiários, os moradores das favelas cariocas trabalham, estudam, festejam, brincam, amam. Mesmo quando a mídia publica uma notícia positiva sobre a favela ou algum morador, a exaltação normalmente reforça os conceitos pré-concebidos sobre quem vive no território geográfico-social da periferia: “ele não era bandido, mas um trabalhador”, surpreende-se o repórter ao falar sobre a chacina que aconteceu na Baixada Fluminense em 2011.

O lamento do jornalista – publicado no Observatório de Favelas – sobre a morte de um inocente não destaca a violação dos direitos dos moradores, a importância em reduzir a violência policial ou mesmo sugere a aplicação de políticas públicas em prol da valorização da vida. A mídia, por sua vez, sempre espanta-se ao constatar que um morador não tinha passagem pela polícia. Por quê? Do ponto de vista da grande mídia a culpa antecede o crime nas favelas brasileiras.

Na contramão das manchetes diárias o fotógrafo documental João Roberto Ripper afirma que “99% da população das favelas nada tem a ver com o tráfico”. Ele é um dos idealizadores do projeto que em 2013 irá comemorar nove anos de existência: a Escola de Fotógrafos Populares.

Fundada em 2004 e aliada ao Observatório de Favelas, a Escola já formou mais de 200 fotógrafos. Os alunos, que cursam nove meses de disciplinas de comunicação e fotografia, são prioritariamente moradores das comunidades que compõem o Complexo da Maré.

Empunhando câmeras fotográficas, eles clicam uma favela rica em belezas. Se posicionam ao lado dos moradores e mostram o lugar sob um olhar cúmplice. São imagens de afeto e carinho, numa constante descoberta sobre a comunidade em que vivem. Estas fotografias resignificam a favela e renovam o repertório de imagens que se tem sobre ela, retirando assim, nossos olhares da pobreza da informação única.

Preocupados em escoar essa produção fotográfica e continuar acompanhando os ex-alunos da Escola, criou-se o banco de imagens e agência-escola Imagens do Povo. Nesta plataforma online é possível comprar fotos e serviços  – composto por seis mil imagens e mais de trinta profissionais de vasto currículo, com exposições e prêmios no exterior, o grupo publicou o primeiro livro neste ano, disponível gratuitamente para download na internet.

O bem-querer de João
Além de mestre e um dos fundadores da Escola de Fotógrafos Populares, João Roberto Ripper é visto também como orquestrador do olhar sob a favela a partir de um conceito que cunhou com a prática: o bem-querer. Conhecido por aliar seu trabalho fotográfico à luta pelos direitos humanos, Ripper busca retratar a beleza das relações mesmo quando ela está submetida a grande injustiça social. Ele mostra a multiplicidade e a riqueza das histórias, saberes e fazeres, contribuindo para a difusão de uma imagem que valorize os grupos com os quais trabalha. Para ele, o fotógrafo deve ser o elo que alimenta a autoestima das comunidades. Professor do time de fotógrafos que compõe o Imagens do Povo, ele ensina a fugir dos esteriótipos e semear o bem.

De babá a fotógrafa:
'Assino Elisangela Leite'


A entrevistada por AF Rodrigues
Elisângela Leite, 37 anos, pernambucana, vive há 15 anos no Rio de Janeiro. Foi aluna de Ripper na turma que se formou em 2007. Elis, como é mais conhecida, foi babá e morava na casa dos patrões em Copacabana. "Assistia a favela pela televisão", diz. Somente aos 22 anos, quando foi viver com a tia na Nova Holanda, ela compreendeu que a Maré era mais complexa e interessante. Abaixo, um bate-papo sobre sua história. Em seguida, um slideshow de imagens de fotógrafos formados na escola, que aparecem reunidos na imagem de abertura desse texto.

Nota de Rodapé – Fale um pouco sobre a tua infância. 
Elisangela Leite – Há pouco tempo lembrei que meu pai gostava muito de fotografar. Tem uns quatro ou cinco meses que eu lembrei dessa história: o meu pai vinha em casa de ano em ano, porque ele trabalhava fora em uma usina em Minas Gerais, e sempre fazia várias fotos da gente. O hobby dele era fotografar e escutar música. O meu pai não bebia e não jogava, então gostava dessas coisas. Eu fui buscando saber por que eu gosto de fotografia, porque até pouco tempo eu não gostava. Todas as fotos que eu via eram somente mais uma foto. Até que fiz o curso e comecei a ver o mundo com outros olhos.

NR – Estimulada pelo teu marido?
EL – Sim, estimulada pelo A.F Rodrigues. Se não fosse ele, acho que não teria entrado pra Escola de Fotógrafos. Ele me deu o maior apoio.

NR – Tu tem imagens feitas pelo teu pai? 
EL – Tinha muitas fotos, mas sabe como é criança, né? A gente rasgava tudo. Hoje em dia sinto a maior falta. Não tenho uma foto que meu pai tenha feito da gente.

Muita gente tem vergonha de dizer que mora na favela. Eu não, aonde for eu falo “eu moro na favela, Favela da Nova Holanda, Maré, conhece?” 
Laço - Elisangela Leite

NR – Me conta mais sobre a tua trajetória. 
EL – Eu nasci na Paraíba, mas fui criada em Pernambuco, então me considero pernambucana. Vim para o Rio de Janeiro aos 15 anos e comecei trabalhando como babá. Dos 15 aos 23 anos fui babá. Depois, o garoto cresceu e fui trabalhar numa loteria, que era dos avós dele. Trabalhava na loteria e morava na casa deles. Então, o que eu conhecia de favela dessa época era o que a televisão mostrava. Mesmo tendo a minha tia que morava na Nova Holanda, eu morava em Copacabana. Eu não conhecia nada, só ia lá no final de semana. O que a tevê mostrava era o certo, o verdadeiro. Só mostra violência, né? Não mostra o outro lado. Com 22 anos fui morar com a minha tia, daí entendi o que realmente era a favela. Mas só me senti favelada depois, por meio da fotografia.

NR – Explica pra mim o que significa positivar este termo: favelado. 
EL – Se sentir própria daquele espaço, como se você tivesse nascido ali. Se assumir. Muita gente tem vergonha de dizer que mora na favela. Eu não, aonde eu for eu falo “eu moro na favela, Favela da Nova Holanda, Maré, conhece?” Algumas pessoas ficam olhando, mas perguntam logo como é. Daí a gente fala que tem vários projetos, que tem aula de fotografia. A gente tenta mostrar a favela com outros olhos, os olhos além da grande mídia.

Os pescadores que eu fotografei ficam no Parque União, que é uma das dezesseis comunidades da Maré, embaixo da linha vermelha (...) Depois a gente saia pra pescar. Eu ficava ouvindo as histórias deles, nós conversávamos mais que fotografávamos.

NR – Fale mais sobre essa diferença entre o olhar da grande mídia e o olhar dos fotógrafos populares.
EL – A grande mídia só entra na favela para mostrar a tragédia. Nós não, estamos ali mostrando o cotidiano, a alegria, a dança, as brincadeiras, as famílias. Ali as pessoas vivem normalmente, estudam, trabalham, fazem faculdade, intercâmbio e elas têm direito a tudo o que a dita cidade tem. A gente tenta mostrar este outro lado, o lado humano das pessoas. É isso que o Ripper nos ensinou. A gente tenta passar isso pra frente. Conversamos com os moradores para eles também se sentirem pertencentes do lugar. Porque muitos não se sentem, ficam com vergonha. Se você não se assumir, quem é que vai te assumir? Quem é que vai te dar valor?
O prêmio - Elisangela Leite

NR – Queria agora que tu me falasse do teu trabalho com os pescadores. Explicando também pra quem não é do Rio, onde eles ficam?
EL – Eu comecei a pesquisar estes pescadores por intermédio da Jaqueline Félix, Adriano (AF Rodrigues) e Ratão (Diniz), que são o meus amigos mais próximos. A Jaque, na mesma época em que o Ratão e o Adriano faziam a Escola, trabalhou o tema dos pescadores. Quando eu tive que escolher o meu projeto na Escola fiquei pensando: "vou fotografar o que?" Criança, idoso... “vou voltar lá nos pescadores, eu gostei deles. Vou fotografar a história deles, não quero fotografar eles pescando, mas eles ali no dia a dia, no cotidiano dentro da colônia, costurando a rede, construíndo barcos, consertando barcos”, e esse foi o meu projeto. Os pescadores que eu fotografei ficam no Parque União, que é uma das dezesseis comunidades da Maré, embaixo da linha vermelha. Eu ia pra lá quase todos os dias e ficava batendo papo com eles, alguns já me conheciam, já tinham uma certa confiança e outros eu fui conquistando. Depois a gente saia pra pescar. Eu ficava ouvindo as histórias deles, nós conversávamos mais que fotografávamos. Eu quero voltar lá. Tá faltando tempo.

Natureza em tela - Elisangela Leite
NR – O que eu acho bacana no teu trabalho é que tu surpreende quem vê as fotos. Mostrando a relação da favela com as águas. 
EL – O legal das minhas fotos é que você vê a Baía de Guanabara. E você sabe que ela é toda poluída. Mas nas minhas imagens você não vê essa poluição. Eu tentei mostrar o belo, como o Ripper sempre ensinou pra gente “fotografe o melhor, mostre o belo, tente fazer outra imagem, não faça o que todo mundo faz”. Cada vez que eu ia clicar eu pensava no que ele falava. Este era o meu objetivo e ainda é, mesmo hoje trabalhando para um jornal. Eu trabalho pra um jornal comunitário, dentro da Nova Holanda mesmo, o Maré de Notícias. Eu fotografo com esse pensamento. E se alguém não quer ser fotografado eu não insisto. Até ganhar a confiança dele.

NR – E qual é teu próximo projeto? 
EL – Continuar com os pescadores. Ainda falta muita coisa, falta registrar outras colônias no entorno da Maré. A z10 de Ramos e a sub-colônia no Pinheiro ainda não fotografei. Eu quero fazer fotos dessas pessoas, quero mostrar a luta deles. Os pescadores estão lutando por essa tradição pesqueira que está morrendo. Os filhos não querem seguir, não dá dinheiro. E eles precisam trabalhar em outras coisas, uns são pedreiros, outros costuram redes pra ganhar um trocado e tentam pescar mais longe da baía, em alto mar. Isso quando conseguem um barco grande. O que eles mais fazem é passeio turístico nos finais de semana. É assim que eles sobrevivem. Eu gostaria muito de divulgar mais esse trabalho em prol deles.

 Imagens dos fotógrafos da Agência-Escola Imagens do Povo



Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto e é curadora da coluna Coisa Íntima, autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores publicada aos domingos neste espaço. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Coisa Íntima # 341

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 





Título: 341
Autor:
Pedro Mox
Descrição:  341 to abbotsford avenue
Data: Junho de 2011

domingo, 18 de novembro de 2012

Coisa Íntima # Fulana e eu

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.

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Título: Fulana e eu
Autor:
Daisy Schio
Descrição:  Fulana, a cadela Lhasa Apso resume, em minha vida, o amor que um humano pode nutrir por seu bicho de estimação. O companheirismo e a vivência do dia-a-dia. Um caminho trilhado a dois, o humano e o cão.
Data: 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Coisa Íntima # Daniel Kfouri

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.
http://www.danielkfouri.org/


Autor: Daniel Kfouri
Data:
2011

domingo, 4 de novembro de 2012

Coisa Íntima # Em trapos

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 



Título - Em trapos
Autor - Pamela Ferrer
Data - 2011

domingo, 28 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Júlia Berenstein

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 

Título - Júlia Berenstein
Descrição - Essa foto foi feita em uma praça em Dresden, em um dos passeios de bicicleta que costumava fazer pela cidade durante a participação em um intercâmbio acadêmico. A bicicleta foi comprada por 15 euros em um leilão feito na universidade e me acompanhou durante aquele período.
Autor - Júlia Berenstein
Data - 10/06/2009

domingo, 21 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Protegido

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.




Autor Rafa Éis e Diana Kolker
Título Protegido
Descrição "Quando a defesa do capital se sobrepõe à integridade física das pessoas, faz-se necessária a criação de estratégias poético-políticas que se mostrem contrárias aos efeitos da constituição das cidades-empresas no contexto da copa. De fato, tatudoerrado."
Data 2012

domingo, 7 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Ana Flor

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 


Título: Ana Flor
Descrição: A forma, a cor e a luz de dias de ansiedade na companhia apenas da bagunça. Autor: Ana Flor
Data: Abril, 2011

domingo, 30 de setembro de 2012

Coisa Íntima # Eduardo Seidl

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.
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Título: ¡1mín!
Descrição: Quero lembrar de alguma história desta foto. Mas se novamente eu cair no buraco fundo do tempo e não te responder, vai uma descrição técnica: "Pinhole em lata de leite em pó com papel fotográfico, luz matinal de um dia nublado, 1 min de exposição, ao lado do laboratório adaptado no banheiro do apartamento.
Autor: Eduardo Seidl
Data: Primavera de 2001

domingo, 23 de setembro de 2012

Coisa Íntima # Ana Mendes

Série Coisa Íntima
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“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 
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Título: Tendência
Descrição: ANA consultou três especialistas em moda e descobriu os modelos ideais para você usar no dia a dia, no trabalho, na balada, em uma festa chique e até para parecer mais magra.
Autor: Ana Mendes
Data: 2011
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