.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador letras e caracteres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador letras e caracteres. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A mídia comanda o retrocesso

por Celso Vicenzi*

Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Roussef aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de gasolina de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país, mas todos os cidadãos e, principalmente, as mulheres, no Brasil e no mundo. A metáfora visual é a de uma penetração sexual, de um estupro.

Essa afronta não é um caso isolado. Pelo contrário, a passividade das principais autoridades do país tem autorizado uma série de crimes, contra a democracia e contra a dignidade humana. Por trás de gestos mais raivosos, tresloucados e imbecilizados, foi tecida uma competente estratégia de propagar o ódio e promover a agitação social necessária à aplicação de um golpe de estado para o qual só parece faltar o acerto de data. Mais que um golpe contra o resultado das urnas, seria um golpe contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64. Some-se a isso uma intolerância religiosa que era até então desconhecida no país e que hoje grita seus slogans medievais muito além dos púlpitos, nos parlamentos e nas emissoras de rádio e tevê.

Depois da quarta derrota eleitoral à presidência, os setores mais conservadores da sociedade brasileira perceberam que, pela via democrática, suas chances de ascender ao Palácio do Planalto tornaram-se remotas. Se não foi possível convencer pelo voto, importantes setores da mídia, do parlamento e do judiciário desenharam nova estratégia. Os principais veículos de comunicação passaram a desenvolver, diariamente, uma estratégia que consiste em omitir o que há de positivo no país e exagerar na análise pessimista. Mais que isso: o que poderia ser uma excelente oportunidade para desnudar como funciona o esquema de financiamento de campanhas políticas e o uso da máquina pública e de empresas estatais para troca de favores – em todas as esferas, federais, estaduais e municipais – resultou em uma justiça caolha, uma mídia manipuladora e um Congresso Nacional retrógrado, centrados no objetivo de criminalizar um único partido, um único governo e, especialmente, Lula e Dilma.

O festival de imagens agressivas vem sendo produzido há muito tempo. Um dos casos mais recentes ocorreu na coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo (29/6/2015), que pôs a cabeça degolada da presidenta Dilma em uma bandeja. O título acompanha o “primor” da ilustração: “Em jogo, a cabeça de Dilma”.

O jornal Correio Braziliense publicou no dia 8/9/2014, na capa, uma foto de Beto Barata em que uma metralhadora é apontada contra a face da presidenta, durante desfile militar de 7 de Setembro. O mesmo truque de angulação – usado à exaustão e, portanto, já sem nenhuma originalidade – deu a Wilton Júnior (O Estado de S. Paulo) o Prêmio Esso de Fotografia de 2012. Ilusoriamente uma espada trespassa o corpo da presidenta durante uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Se alguns dos principais veículos de comunicação, por repetidas vezes, simulam que a presidenta deve ser executada – e aí não há nenhuma possibilidade de inocência nessa metáfora de “morte à presidenta” –, porque deveríamos estranhar que essa convocação à “malhação de Judas” não encontraria campo fértil em meio a milhares de internautas ávidos por exibir toda a sanha reacionária e a falta de escrúpulo no debate político? Por que nos surpreenderíamos com tantos cartazes pedindo a volta da ditadura em passeatas que a mídia louva como a fina flor da democracia? Por que nos espantaríamos com as bancadas evangélicas, da bala e do latifúndio a vociferar contra os direitos humanos?

Houve quem tenha se recusado a reproduzir, nas redes sociais, a imagem sórdida de uma mulher, de pernas abertas na boca do tanque de combustível de um automóvel. Compreendo e louvo a tentativa de evitar a banalização da cena. Inclino-me, no entanto, na direção contrária, por uma razão: não podemos deixar de ver, compreender e estar alerta contra o que ameaça destruir a dignidade humana. Ver para não se iludir sobre o crescimento da barbárie. Ver para denunciar o ódio que cega tantas pessoas que se consideram humanas, amorosas.

Estranhamente, começaram a surgir, também na internet, os indignados contra quem se indignou. Houve muitas críticas aos que optaram por mostrar as imagens anexas aos textos de protesto a esse ato de misoginia. Boa parte dos críticos não atacou os autores da fotomontagem que escandalizou o país. Preferiu desviar o foco do debate, para tentar atingir apenas aqueles que se disseram profundamente impactados pelo ato vil.

A imagem é grosseira e não cabe banalizá-la com reproduções gratuitas e comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil, e acordem a tempo de evitar o pior. Há uma profusão de atentados à democracia e à dignidade humana. E, por serem desferidas contra o atual governo, contra Lula, Dilma e o PT, não faltam incentivadores desse ódio que brota de nossas raízes racistas, conservadoras e elitistas.

Há coisas que precisam ser vistas. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios. Algumas imagens têm o poder de alertar contra a fera humana, sempre numa tênue fronteira entre civilização e barbárie.

A imagem que repugnou o país é somente o ápice de uma ação que tem os donos da mídia como principais articuladores. É um movimento que também grita contra os direitos humanos, que não se conforma com a inclusão social, não se importa em entregar as riquezas e o futuro do país aos interesses do capital internacional, não se importa com uma justiça de duas caras, dois pesos e duas medidas, que não aceita as mudanças que ocorreram nos últimos anos beneficiando sobretudo os mais pobres. Essa imagem é só uma amostra do nível de degradação a que estaremos expostos se as forças reacionárias dominarem novamente o Brasil.


* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Chega de violência! Contra quem?


por Celso Vicenzi*

A violência toma conta das cidades. É o que se ouve, é o que se vê, é o que se lê, cada vez mais, nos principais veículos de comunicação. A tese não é equivocada, apenas é incompleta e mal explicada. Não faltam evidências empíricas, no dia a dia dos brasileiros, para concluí-la verdadeira. Tampouco as pesquisas e os estudos desmentem o que a mídia esforça-se por ampliar: a sensação de insegurança, de viver num cenário de permanente violência. Somos, sim, um país violento. E não é caso recente. A população indígena foi praticamente dizimada no contato com portugueses e outros povos europeus, no início da colonização. Fomos o penúltimo país a acabar com a escravidão. Chegamos ao século 21 entre as cinco nações mais desiguais do planeta. E, até hoje, a tortura tem sido largamente empregada por forças policiais no dia a dia das delegacias e penitenciárias.

Somos um país de subclasses, em que uma parcela da sociedade sente prazer em se diferenciar de seus semelhantes e de submetê-los a constantes humilhações. Boa parte galga postos importantes pela via de apadrinhamentos, mas sente-se confortável em defender a meritocracia. É o país que tem o maior número de dentistas do planeta, mas mais da metade da população não faz consultas anuais a esses profissionais, enquanto 11% dos que têm mais de 18 anos já perderam todos os dentes, índice que, entre os acima de 60 anos chega a 41,5%. A violência está presente no cotidiano da maioria da população, que não tem acesso a saneamento básico, a saúde, educação e moradia de qualidade. No entanto, a família, a escola, a mídia não costumam arrolar como violência as formas mais perversas de opressão e exclusão de milhões de seres humanos.

Mesmo que o foco seja apenas a violência praticada por arma branca ou de fogo, em roubos, assaltos e sequestros – com ou sem homicídio –, é preciso conferir melhor os dados. O senso comum aponta, principalmente, para a violência cometida por indivíduos de classe social baixa, analfabetos – ou quase –, jovens, geralmente negros. São “eles” os violentos. Ganha força no debate público, também, a situação “insustentável” em relação à violência praticada por menores de idade – como reverberam, todos os dias, emissoras de rádio e tevê, jornais e as redes sociais.

A proposta de redução da maioridade penal, que vários estudos não cansam de demonstrar como proposta ineficiente para combater o crime, poderia ser vista, também, de outra forma. Trata-se, no caso, de condenar duplamente quem já foi punido, desde o nascimento, por uma sociedade que não oferece educação, saúde, moradia e salário digno para a maioria da população. Que exclui e não ampara a maior parte dos brasileiros no acesso à renda, num país que, longe de ser pobre, está entre as dez maiores economias do mundo. Ou seja, nesse sentimento de vingança, a sociedade quer punir quem ela abandona e oprime.

Somos um país onde um adolescente é assassinado a cada hora, 24 por dia. Se continuarmos com essa política de tentar resolver somente pela repressão, sem nenhum sucesso até aqui, serão 42 mil adolescentes mortos até 2019, conforme cálculos de Gary Stahl, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil. Os jovens são 29% da população, mas concentram a metade das mortes por arma de fogo. O fracasso dessa política com foco na repressão pode ser demonstrado por um dado da Secretaria Nacional da Juventude, que apontava, em 2012, um crescimento de 74% da população carcerária nos últimos sete anos, sem que houvesse melhora significativa nos índices de contenção da criminalidade. A maioria dos delitos que ocupa boa parte do sistema de justiça do país é de crimes relacionados ao patrimônio e drogas. Crimes de pequeno porte, porque os criminosos de colarinho branco e os grandes traficantes – alguns deles certamente escondidos em cargos acima de quaisquer suspeitas – dificilmente irão para a prisão e jamais para aquelas que amontoam seres humanos como animais.

Somos o segundo país – atrás apenas da Nigéria – quando o assunto é assassinato de adolescentes. Entre 2006 e 2012 foram 33 mil homicídios. Estamos assassinando o nosso futuro. E como escreveu Gil Alessi, no El País, “os homicídios cometidos à bala no Brasil têm cor, idade e sexo”.

Um estudo do Programa de Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens, uma iniciativa coordenada pelo Observatório de Favelas, realizada em conjunto com o Unicef, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostrou que os adolescentes entre 12 e 18 anos têm quase 12 vezes mais probabilidade de ser assassinados do que as meninas dessa mesma faixa etária. Os adolescentes negros têm quase três vezes mais chance de morrer assassinados do que os brancos – geralmente por arma de fogo.

Ao mesmo tempo, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados em 2013 revelam que a polícia brasileira mata, em média, cinco pessoas por dia. É uma das polícias mais violentas do mundo. Somente no estado de São Paulo, entre 2005 e 2009, a PM matou 6% mais que todas as polícias dos EUA juntas. O Brasil aparece com 19 cidades entre as 50 mais violentas do mundo, segundo estudo de uma ONG mexicana. No Brasil, mata-se mais do que em regiões em guerra. Segundo a Anistia Internacional, são cerca de 56 mil homicídios por ano. Menos de 10% desses casos são esclarecidos.

A violência também é encarada por empresas como um excelente negócio. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calcula que os custos com violência no país chegam a R$ 258 bilhões. Os sistemas de segurança pública e privada investem, cada vez mais, na compra de armamentos e equipamentos de prevenção, defesa e combate. Cresce o uso de carros blindados pelas classes A e B. O Brasil tem hoje quase três vezes mais vigilantes privados do que policiais civis, militares, federais e bombeiros. Idem em relação às forças armadas.

A indústria de armas e munições elegeu, no último pleito, 70% dos candidatos que receberam doações legais de campanha. Dos 30 candidatos beneficiados pelo setor, 21 saíram vitoriosos: 14 deputados federais e sete estaduais. Esses fabricantes, cada vez mais ativos, financiaram políticos de 12 partidos em 15 estados – a maioria do PMDB e do DEM do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

Somos um país que viola direitos humanos. Há uma superlotação das prisões. Torturas e maus-tratos são comuns. Não punimos os crimes da ditadura (ao contrário de países vizinhos) e a impunidade costuma ser a norma diante dos excessos da polícia violenta. Índios, negros e mulheres costumam ser vítimas da falta de políticas públicas que combatam o preconceito, a discriminação e o ódio, que se torna ainda mais flagrante contra a comunidade LGBT.

A mídia, por meio de programas policiais sensacionalistas ou reportagens que não primam por um mínimo de isenção e qualidade, com distorção de fatos, enfoques e estudos, contribui para que se crie na sociedade um sentimento de “prende-lincha-mata”, como se o ódio e a vingança pudessem levar a algum tipo de solução. A inexistência de um debate mais qualificado nos veículos de comunicação favorece o oportunismo dos setores mais violentos da sociedade e amplia o espaço para a apresentação de propostas demagógicas, já comprovadamente ineficazes.

Por isso, mais do que repensar uma política de segurança para o país, é preciso tentar compreender que tipo de sociedade nos tornamos. Sem menosprezar a dor de quem é vítima da violência, é preciso perguntar de que forma estamos contribuindo para perpetuar os mecanismos que a impulsionam, por omissão ou adesão a um modelo de sociedade injusto, opressivo e excludente. Se não formos capazes de enxergar que os grupos sociais apontados como agressores e violentos são os primeiros a serem violentados, dificilmente haverá possibilidade de sonhar com um país em que a igualdade, o respeito, a ressocialização, a educação e a formação de cada cidadão se transforme na melhor arma para combater a violência.

Basta de violência, sim! Mas de qual violência estamos falando? Violência contra quem?

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 24 de março de 2015

A luta de classes, essa velha senhora, não morreu

por Celso Vicenzi*

Que fique claro, desde o início. Toda corrupção precisa ser combatida e punida. Apesar de redundante, cabe frisar: isso vale para corruptos e corruptores. E o rigor que vale para uns, deve valer para todos.

A corrupção está presente em todas as esquinas e praças do cotidiano brasileiro, nas esferas pública e privada, religiosa e filantrópica. Em todos os poderes, inclusive no Judiciário, onde é mais difícil pôr a mão. Basta lembrar que membros desse seleto grupo de “justos”, quando pegos cometendo arbitrariedades, raramente são punidos. Costumam ganhar como "pena" uma aposentadoria precoce. Ou seja, geralmente são "punidos" com férias eternas e um ótimo salário pago por todos nós.

Já houve casos de juízes vendendo sentenças. Qual a extensão desse tipo de irregularidade ou crime, se considerarmos que são milhares de ações que tramitam em juízo, envolvendo, diariamente, enormes quantias? Teriam alguns juízes a necessária isenção para investigar seus pares ou o corporativismo falaria mais alto? Fácil imaginar o quanto de tráfico de influência pode transitar em decisões que, apesar de sustentações técnicas, podem esconder, às vezes, interesses muito particulares. Numa sociedade permeada pela corrupção, difícil imaginar que o Judiciário seja uma ilha distante e imune ao que acontece no país, onde parte de seus magistrados participa, inclusive, de festas com os donos de boa parte do PIB brasileiro volta e meia envolvidos em escândalos de corrupção ou negócios que terão que ser decididos em diferentes instâncias judiciais.

No Brasil, no entanto, onde a cultura da corrupção teceu fortes raízes, elege-se apenas meia dúzia para pagar a conta desse "banquete de justiça". Coincidência ou não, isso acontece justamente quando o Estado brasileiro passa a investir mais em políticas públicas que reduzem a desigualdade social. Que integrantes do PT envolvidos com corrupção precisam ser alcançados pela lei, nenhuma discordância. Assim como os do PSDB, PMDB, PP, DEM...

Mas esse é apenas o efeito colateral das investigações. O que, parece, se busca, é deslegitimar a vitória de Dilma nas urnas, porque o partido teria recebido dinheiro de empresas envolvidas na Operação Lava Jato. Pouco importa se o dinheiro foi legalmente declarado ao TSE. Ou se as mesmas empresas financiaram todos os principais partidos. O foco é o PT. Única e exclusivamente o PT. As exceções apenas disfarçam a regra.

Teriam alguns integrantes desse partido desviado mais recursos do que outros? Estaríamos, como querem os principais comentaristas de jornais, rádios, web e tevês, principalmente da Rede Globo, diante “do maior caso de corrupção do país”? Difícil dizer, porque não houve, no passado, empenho semelhante para investigar outros escândalos. E também porque agora, quando surge a oportunidade de retroceder a governos anteriores aos do PT, há um indisfarçável desinteresse. Tanto que a CPI da Petrobras, no Congresso, não aceitou estender as investigações para o período dos governos de FHC, embora o mesmo doleiro que denunciou o PT tenha dito que já havia corrupção na Petrobras em 1997.

O empresário Ricardo Semler, filiado ao PSDB, afirmou em artigo na Folha de S. Paulo (21/11/2014) que “nunca se roubou tão pouco” e que já nos anos 70 sua empresa deixou de fornecer equipamentos para a Petrobras porque “era impossível vender diretamente sem propina” . A empresa da qual é sócio também tentou fazer negócios nos anos 80, 90 e até recentemente, mas desistiu porque o esquema sempre foi o mesmo. Nos últimos 40 anos, disse ele, só mudaram os percentuais da corrupção, que “caíram”. Ou seja, na contramão do que boa parte das emissoras de rádio e tevê, jornais e web tenta induzir, a corrupção na Petrobras vem de longa data e já foi bem maior. Nem vamos imaginar o que pode ter ocorrido no período da ditadura, quando ninguém ousaria investigar algo semelhante.

Há, portanto, um indisfarçável show de cinismo e hipocrisia. A justiça, em tese, deveria ser igual para todos. Não é e não tem sido assim, infelizmente. Derrotado quem se quer derrotar, alguém tem alguma dúvida de que o zelo do Judiciário e as denúncias dos principais meios de comunicação não terão mais o mesmo ímpeto contra outros corruptos e corruptores? Isso já acontece neste exato momento, quando alguns notórios corruptos e corruptores são poupados enquanto outros são massacrados. Muitos desses cidadãos envolvidos em escândalos, aliás, participaram das manifestações sem que a mídia tentasse ao menos desmascará-los. É um jogo de aparências, de mais sombra ou mais luz conforme as conveniências da mídia e de outros atores interessados. O que a sociedade brasileira deveria exigir é a equidade no tratamento das investigações, seja da justiça, seja da mídia.

Resultado de uma deturpação de nossa democracia, graças a abusos que não são coibidos, os veículos de comunicação inverteram o principal alicerce do Direito: agora todos são culpados até que se prove o contrário. E basta divulgar nos meios de comunicação os nomes dos acusados para a população condenar, antes que seja concedido o direito de defesa. Resultado de anos e anos de um jornalismo sensacionalista, substituímos a democracia por uma midiocracia. De nada resolve dizer que a mídia não condena quando ela promove uma superexposição do(s) acusado(s), sem o mesmo espaço para a defesa. Se, depois, o Judiciário vier a absolver, como algumas vezes acontece, pouco importa. Os denunciados já foram condenados à execração pública para o resto de suas vidas.

Claro que os meios de comunicação são fundamentais ao exercício da democracia, desde que não se especializem – como ocorre, não raro, no Brasil – em dar sustentação a partidos de oposição ou de situação, conforme a conveniência, ou, ainda, para dar suporte ou desestabilizar governos que não atendam a seus interesses ou de seus "clientes" (os donos do capital). Pra quem confunde justiça com vingança, tá ótimo! E se alguém achar que não tem a mão da CIA e dos EUA em todos os movimentos de desestabilização de governos latino-americanos que não se alinharam com Washington, ganha um doce, por sua ingenuidade.

Portanto, combater a corrupção, sim. Derrubar um governo com um golpe jurídico-midiático (militar parece uma hipótese mais remota), para abrir caminho para os interesses de classe e das grandes potências, NÃO.

Aperfeiçoar a democracia, sim. Fazer do combate à corrupção, nas ruas, uma escada para a ascensão de grupos fascistas e totalitários, NÃO.

Punir com o mesmo rigor todos os que se envolvem em corrupção, sim. Eleger apenas alguns para pagar essa conta, NÃO.

Investigar e punir quem tem culpa em cartório, sim. Usar as investigações para quebrar empresas brasileiras que garantem milhares de emprego, NÃO.

Fazer manifestações contra os escândalos de corrupção (todos!!!), sim. Achar perfeitamente normal caminhar lado a lado com fascistas, sexistas, sociopatas, homofóbicos, religiosos fanáticos e pessoas que pedem intervenção militar e não respeitam os Direitos Humanos, NÃO.

Ir às ruas gritar contra a corrupção, sim. Utilizar-se de "jeitinhos” – bem brasileiros! – para obter vantagens para si, familiares, amigos ou parentes, NÃO.

Desejar um Brasil melhor (para quem, para quantos?), sim. Dissimular o ódio às transformações sociais com o álibi de combater a corrupção, NÃO.

Aceitar as regras da democracia e lutar para que os Três Poderes e a sociedade façam os ajustes necessários ao desenvolvimento do país e ao combate à corrupção, sim. Disfarçar preconceitos de classe para pedir a derrubada de um governo legitimamente eleito e que, com todos os defeitos, permitiu a ascensão das camadas mais pobres, NÃO.

Entre o sim e o não, caminharemos para um Brasil com menos desigualdade, mais Direitos Humanos, que reafirme a sua soberania diante dos interesses das grandes potências. Ou para um Brasil novamente (mais) excludente, concentrador de renda e subserviente aos poderosos donos do capital internacional, como quase sempre aconteceu, ao longo da história.

Combater a corrupção é fundamental, mas isso não pode servir como uma cortina de fumaça para permitir que as maiores conquistas sociais do povo brasileiro, atestadas por idôneos organismos nacionais e internacionais, sejam golpeadas por ações jurídico-midiáticas com o intuito de desestabilizar um governo e aniquilar os avanços obtidos nessa área nos últimos anos.

As consequências podem perdurar por décadas, como aconteceu com a ditadura, que ainda mantém influências na vida da população. E há risco de haver um grande retrocesso: político, econômico e social. Isso deveria ser o mais importante e conduzido com mais responsabilidade. A prisão de uma dúzia ou mais de pessoas não deveria ser feita sem medir as consequências, com os exageros apelativos de uma superexposição dos fatos na mídia, geralmente em tom sensacionalista, o que contribui para criar um clima de instabilidade e quase-histeria entre a população. Inclusive porque donos dos principais veículos de comunicação, dessa mesma mídia, e vários de seus colaboradores também estão envolvidos em um escândalo de contas secretas no HSBC na Suíça, fato que pode indicar crimes de sonegação, lavagem de dinheiro e informação privilegiada para auferir lucros no mercado financeiro.

 A luta de classes, essa velha senhora – para usar a metáfora do momento –, está nas ruas, novamente. Pode ser que a maioria não saiba, mas é disso que se trata, principalmente quando a justiça e a mídia parecem operar com dois pesos e duas medidas.

Se antes eram as camadas mais pobres que tomavam as ruas para reivindicar direitos. Agora, majoritariamente, são as camadas de maior poder aquisitivo, que não aceitaram a quarta derrota eleitoral seguida e clamam por impeachment ou intervenção militar. Sim, há o álibi de “varrer toda a corrupção”, eu sei. E sei também que há muita gente bem intencionada, críticos de um mau governo. É possível encontrar cidadãos e cidadãs, com razão, indignados com um partido que elegera a ética como uma de suas bandeiras. Há também muitos ingênuos e desinformados, incapazes de perceber outras intenções por trás de quem lidera os protestos. E há, ainda, não poucos, querendo enganar a outros ou a si. O que sei, também, é que o jogo que se joga neste momento é bem maior do que o necessário e desejável combate à corrupção.

Cidadãos e cidadãs estão convidado(a)s a assumirem suas responsabilidades nessa jornada por um Brasil melhor. Mas é preciso definir desde já: melhor para quem, para quantos? O combate seletivo e parcial à corrupção, com ares de solução para todos os males, é apenas pretexto para ocultar onde se quer chegar. A luta de classes está aí, mais viva do que nunca.

Que tenhamos boa sorte!

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Outros paus

por Celso Vicenzi*

O pau do momento, nas tribos, nas praias, nas rodas sociais, até em casas de família – quem diria! – é o pau de selfie. Juro que não queria meter a minha colher de pau no assunto, mas não pude resistir. Afinal, em mãos de anônimos ou famosos, o tal disputa pau a pau com outras sensações do atual verão. Não sei se o veremos em outras estações, mas, atualmente, é um pau muito disputado. Por homens e mulheres – sem preconceito! Verdade que precisa ter um pouco de cara de pau para armar essa vara em pleno espaço público. Mas, mesmo correndo o risco de levar pau, em comentários ao vivo ou em rede, o sujeito toca o pau e segue em frente.

Outros paus, no entanto, já fizeram sucesso em terras brasileiras e além-mar. Na época em que aqui aportaram, os portugueses logo se interessaram pelo pau nativo. Calma! Não era exatamente o pau dos índios, que viviam pelados. A cobiça maior, além das índias, naturalmente, era pelo pau-brasil (Caesalpinia echinata), uma árvore originária da Mata Atlântica que foi largamente usada, principalmente, para tingir tecidos e fabricar a tinta para escrever e ilustrar as páginas de manuscritos. Nos primeiros 30 anos após a chegada da frota de Cabral, cortaram a árvore a dar com pau! E levaram tudo para Portugal. Essa exploração do pau brasileiro se estendeu ainda por três séculos, levando a árvore quase à extinção.

Em matéria de tamanho, o pau de selfie – por maior que seja o ego de quem o segura – é muito pequeno comparado ao pau-brasil, que chega a atingir 30 metros de altura e 1,5 metro de envergadura. Tão importante em nossa história que o nome do país deve-se exatamente a esse pau. Vermelho-púrpura. Lindo!

Não sei exatamente quantos paus valia, na época, cada árvore. Sei que Portugal e muitos portugueses enriqueceram. Só para ter uma ideia, uma única nau, em 1511, levou para a Europa 150 mil quilos de pau-de-tinta, um dos muitos nomes dessa árvore também conhecida por pau-rosado, pau-de-pernambuco, ibirapitanga, ibirapiranga, ibirapita, muirapiranga, orabutã e brasileto. O carregamento rendeu cerca de 2.500 ducados – ou 70 quilos de ouro. Coisa para o sujeito chutar o pau da barraca e viver feliz pelo resto de seus dias. Dinheiro suficiente para dar-se ao luxo de pagar um pintor para fazer um, digamos, self portrait.

Outro pau que ainda faz sucesso, mas foi mais festejado no passado, é o pau de fita. Uma dança folclórica trazida ao Brasil por portugueses e espanhóis, e também presente em países do México à Argentina. Um pau é fincado no chão e os participantes dançam segurando fitas coloridas que vão sendo entrelaçadas, em zigue-zague, até que o movimento, de tão encurtado, não seja mais possível. Daí, faz-se o movimento contrário, destrançando as fitas.

Nas festas juninas tem outro pau que faz muito sucesso: o pau de sebo, também denominado de cocanha ou mastro de cocanha. O costume vem do Egito e, nesse caso, o pau não é somente metafórico. É mesmo um falo, em homenagem ao deus da fertilidade, o pagão Baal. Mais tarde, a Igreja Católica cristianizou a tradição, que chegou aos nossos dias nos festejos de São João. A brincadeira consiste em tentar alcançar um prêmio no alto do mastro untado com uma substância gordurosa. O pau-de-sebo (Sapium sebiferum) é o nome de uma árvore da família das euforbiáceas, nativa da China, que foi aclimatada em solo brasileiro.

Nosso país tem ainda um outro pau bem conhecido, só que este é uma referência triste e trágica em nossa história. O pau de arara é o nome dado ao transporte de passageiros na carroceria improvisada de caminhões, ainda presente em muitos lugares pobres do país. Milhares de nordestinos, principalmente, se deslocaram por vastas regiões do Brasil usando esse meio de transporte, por vontade ou necessidade, como cantou Luiz Gonzaga, ao contar a saga de quem tentava resistir à seca e só iria abandonar suas terras, no Cariri, “no último pau de arara” (letra de Venâncio/Corumbá/J. Guimarães).

Pau de arara é também um método de tortura que foi muito utilizado pelo regime militar após o golpe de 1964. Consiste numa barra atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos da vítima, que fica pendurada e, com o passar do tempo, sofre dores terríveis que, se não bastassem, eram combinadas com eletrochoques, espancamentos e afogamento.

Era uma época em que boa parte da juventude brasileira enfrentava um inimigo que torturava e matava. Havia menos individualismo e mais sonhos de mudança, embora já fosse uma geração que desfrutava da sociedade de consumo, o que, desde então, só vem se acentuando. Mas essa idolatria narcísica não começou somente agora. Vivemos, há mais de uma geração, um culto exagerado à juventude, uma necessidade de se manter sempre “jovem”, de não querer envelhecer, de buscar a melhor imagem de si.

O que, em muitos casos, se resume em muitos sorrisos – nem todos sinceros – que ficarão registrados, em milhares de cenas compartilhadas, graças a um pau de selfie.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Do riso ao pranto

por Celso Vicenzi*

Os veículos de comunicação têm aproveitado os acontecimentos que resultaram no atentado terrorista ao Charlie Hebdo para reiterar os valores da liberdade de expressão. Em muitos casos, essa defesa aconteceu sem que o conceito fosse plenamente explicitado para além do senso comum. Pela narrativa de compenetrados locutores, comentaristas e “especialistas”, nada pode se opor a essa liberdade. Alguns comentaristas foram além e utilizaram os últimos acontecimentos para dizer que quem defende a regulamentação da mídia é inimigo da liberdade de expressão e adepto da censura. Duas coisas completamente diferentes são incorporadas, sutilmente, aos acontecimentos, muito mais para uma defesa de interesses corporativos, comerciais e políticos do que para propugnar pela defesa de interesses públicos e universais.

Ao contrário do que expressa o senso comum, liberdade não é o direito de fazer tudo o que se quer. Até em dicionários esses limites aparecem claramente. Segundo, por exemplo, o Caldas Aulete, liberdade é a “possibilidade de agir segundo a própria vontade (dentro dos limites da lei e de normas socialmente aceitas)”. Liberdade e responsabilidade estão intrinsicamente ligadas.

Vários filósofos se debruçaram, ao longo da história, sobre esse emaranhado território. Immanuel Kant, considerado um dos pais da filosofia moderna, diz que só é livre aquele que age exclusivamente com base na razão. E mostra o quanto a liberdade está ligada à responsabilidade: somos livres para agir, desde que não causemos dano à liberdade do outro. Ou, como ele mesmo escreveu: “Ninguém pode me constranger a ser feliz à sua maneira (como ele concebe o bem-estar dos outros homens), mas a cada um é permitido buscar a sua felicidade pela via que lhe parecer boa, contanto que não cause dano à liberdade dos outros (isto é, ao direito de outrem) aspirarem a um semelhante, que pode coexistir com a liberdade de cada um, segundo uma lei universal possível”.

Quem advoga que não pode haver limites para a liberdade de expressão teria que compactuar, por conseguinte, com a barbárie ou a inexistência de direitos humanos. Com a completa irresponsabilidade por seus atos. Se a liberdade não aceita limites, é possível submeter cidadãos e cidadãs a situações monstruosas que, em última instância, seriam a própria negação de sua humanidade. Alguns exemplos: em nome da liberdade de expressão pode-se estimular a pedofilia? O estupro? O racismo? A tortura? Pregar a morte, abertamente, de outros seres humanos? (Bandido bom é bandido morto! Morte aos gays! Acabem com Israel! Exterminem os palestinos!).

A resposta é “não”. Porque há um componente “destruidor” no exercício de uma liberdade sem limites que leve em consideração apenas o direito de dizer e fazer o que se bem entender, sem se preocupar se isso viola outros direitos ou desencadeia reações que podem violentar ainda mais outros seres humanos, que podem provocar mortes em grupos sociais, minorias étnicas ou, ainda, propugnar abertamente por guerras contra outros povos, que venham a ser declarados “inimigos”.

Há consequências em todo ato humano. As mensagens que os veículos de comunicação emitem, cotidianamente, reforçam ou amenizam preconceitos, ódios, discriminações, injustiças, humilhações...

A palavra, o desenho, a fotografia, o título, a legenda, o comentário, a reportagem, o vídeo, a imagem – todo o arsenal de técnicas e conteúdos que os veículos de comunicação utilizam e divulgam diariamente – não são neutros. De algum modo desenham modelos de sociedade que podem ser mais inclusivos ou excludentes. Podem construir ideologias solidárias ou individualistas; interceder por justiça social ou justificar a desigualdade; aceitar o diferente ou ampliar a hostilidade; romper com tradições perversas ou incentivá-las; podem transmitir mensagens de paz ou acirrar conflitos que resultem em guerras.

Para não poucas pessoas, o humor dos chargistas do Charlie Hebdo, sobretudo o de conteúdo religioso, era profundamente agressivo e de mau gosto. Algo que, não raro, excedia o humor e se aproximava mais da ofensa, gratuita, e de menosprezo à crença de bilhões de pessoas, de escárnio àquilo que lhes é mais sagrado. Nada, em princípio, é intocável, mas é preciso saber que nossos gestos e mensagens tocam o coração das pessoas. E se prestam, de alguma forma, a fazer avançar ou retroceder os valores humanos. A liberdade de expressão é um valor, mas não está acima de outros.

O problema é saber onde passar a régua do que é tolerável. Porque, por mais brando que seja o humor ou a opinião, sempre que valores forem confrontados e pessoas ou instituições criticadas, haverá reações de quem considera que o padrão aceitável foi ultrapassado.

Seria desejável que todas as divergências ou eventuais excessos pudessem ser arbitrados, de alguma forma, no campo jurídico, enquanto o debate, o diálogo, a diplomacia – sem abrir mão da crítica – pudessem encontrar novas formas de convivência entre pessoas e povos. Mas as leis são apenas um espelho da sociedade, em que os embates, políticos, econômicos e sociais acontecem. E boa parte das leis é também uma representação da cultura, das crenças, da moral e da ideologia de um povo. Portanto, costumam reforçar muito mais o status quo do que amparar o direito da maioria dos injustiçados. E, no campo internacional, costumam ter pouco efeito sobre a independência de cada Estado – alguns deles, inclusive, agem à revelia de decisões da ONU. E, afinal, nem tudo se resolve nos tribunais. Quando há um embate de modelos de sociedade, a informação, o esforço de compreensão, a aceitação das diferenças e costumes, os acordos justos, as campanhas educativas e outras ações podem ser a melhor receita para uma vida comunitária mais estável e menos violenta. É provável que o atentado terrorista em solo francês não teve apenas as charges como elementos motivadores, mas um conjunto de situações históricas, de guerras, de humilhações e de racismo que contribuíram para o trágico desfecho.

Imigrantes, sobretudo os muçulmanos, são tratados como cidadãos de segunda classe, discriminados, olhados com preconceito e, mesmo para seus descendentes que já nasceram em solo francês, as oportunidades são muito restritas. O envolvimento da França em guerras coloniais ou em forças de coalizão que combatem o terrorismo em vários países, com ações que acabam atingindo a sociedade civil, também são o estopim de atos extremos, principalmente protagonizado por jovens com desejos de vingança.

Há, ainda, um outro componente gerador de permanente tensão: a injusta distribuição de renda, fonte primária da maioria dos conflitos. Enquanto houver assimetria nos negócios entre nações, exploração do trabalho humano, enquanto se mantiver, por diferentes meios – uns mais violentos, outros menos – seres humanos distantes de uma vida digna, enquanto se propugnar mais por valores individuais do que coletivos, enquanto tentarmos impor a outros o nosso modelo de princípios, estaremos sentados, inevitavelmente, sobre um barril de pólvora. As injustiças sociais sempre forneceram combustível para embates violentos.

Também não são poucos os exemplos, na história da humanidade, em que pessoas se dispõem a matar por uma ideia, sobretudo política ou religiosa. Paradoxalmente, são pessoas que professam ideologias baseadas no “divino”, no “sagrado” valor à vida, as que estão mais determinadas a impor ou defender, até a morte, suas crenças e padrões culturais. Nem que para isso seja preciso matar, seja lá em nome de qual deus.

Ainda no calor do atentado terrorista contra o Charlie Hebdo, a França decidiu proibir os muçulmanos de rezar em público. Já havia proibido, anteriormente, o uso do hijab (véu islâmico integral) em locais públicos. Para os franceses de fé islâmica e para os imigrantes, há cada vez menos liberdade, igualdade e fraternidade.

Qualquer semelhança com um passado nem tão distante que resultou em perseguição a judeus (e também a ciganos, negros, gays etc.) não é mera coincidência. Restrições, ao que tudo indica, deverão aumentar, cada vez mais, em relação aos praticantes do islamismo e imigrantes em geral. Qual o próximo passo? Colocá-los num gueto? A ascensão de grupos de direita, principalmente na Europa, e a propagação de discursos racistas contra os imigrantes (como no passado contra os judeus) parece que tem tudo para se repetir, com trágicas consequências.

A história deveria servir para evitar a reprodução de erros que custaram muito caro. Mas a espécie humana tem enorme inclinação – por conta da ganância, do lucro, da exploração e do preconceito – para criar tensões que resultam em guerras. Novos conflitos, de grandes proporções, entre grupos extremistas do Ocidente e Oriente não parecem muito distantes. Quase mil anos depois das Cruzadas, a "guerra santa", que durou cerca de 200 anos, com milhares de mortos, setores radicais do mundo ocidental cristão e fanáticos muçulmanos estão novamente chocando o ovo da serpente, com consequências imprevisíveis.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O encantador de palavras

por Celso Vicenzi*

Constam nos registros que Manoel Wenceslau Leite de Barros, que se assinava Manoel de Barros, faleceu no dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos. Posto que tudo é finito e um dia completa o seu ciclo, isso é o que menos importa. O essencial é que semeou palavras que brotam e rebrotam a cada nova leitura. Sabia que a vida tem hora marcada para terminar. E não perdeu tempo. No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado por Pedro Cezar em 2008, o poeta, que construiu uma obra exuberante sobre as “grandezas do ínfimo”, resumiu, pleno de consciência: “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.

Ciente de que “Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”, estabeleceu para si uma outra rotina. “Não aguento ser apenas um sujeito que abre / portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que / compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, / que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. / Perdoai. / Mas eu preciso ser Outros. / Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

Poetas, escritores, músicos, artistas de modo geral são alguns dos que procuram “amarrar o tempo no poste”. Dão algum sentido à vida para que não seja apenas a soma de esforços pela sobrevivência – e, em muitos casos, a busca desenfreada da opulência, com apetites insaciáveis que destroem a natureza, sem que tanto consumo e riqueza sejam capazes de preencher os buracos da alma e dar um pouco de plenitude ao tempo que vai do nascimento à morte.

Manoel de Barros, desde cedo, foi enfeitiçado pelo verbo que “delira”. E se tornou “encantador de palavras”. Fez desse feitiço o seu ofício, não sem antes esbarrar com todas as exigências de uma vida que pede muito mais utilidades do que poesias “sobre nada”. Ele só “queria crescer pra passarinho” e essa sabedoria o levou a roçar o infinito e devolver o ínfimo grão de pó à poeira interestelar.

Foi o poeta que iluminou “o silêncio das coisas anônimas”, desconstruiu estruturas para se aproximar da “infância da língua” com o intuito de “causar distúrbios no idioma”. Tanta originalidade e beleza acabou por criar um “idioleto manoelês archaico”. Uma nova forma de “desver o mundo”. É uma poesia que se faz de “inutensílios”, coisas, objetos e resíduos desprezados no cotidiano, tudo “o que pode ser carregado como papel pelo vento”. E tudo o que está na natureza: aves, árvores, rãs, lesmas, musgo, limo, água, barro, bichos e gentes, de todos os tipos, principalmente como Bernardo, dono de um acervo que incluía “um martelo de pregar água” e um “guindaste de levantar vento”.

A fábrica de palavras de Manoel de Barros vai do chão ao céu e contempla tudo que se move e respira, e presta atenção – mais que isso, louvação! – às miudezas de seres e objetos que compõem a paisagem dos dias e noites de uma vida a contemplar o infinito ao seu redor.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um Brasil dividido?

por Celso Vicenzi*

Quem deu a vitória para Dilma Rousseff foram os estados do Sudeste e Sul, principalmente, com 49% do total de votos que a elegeram. Se acrescentarmos os votos do Centro-Oeste, sobe para 54,9%. Dilma obteve no Nordeste 37% (quase o mesmo no Sudeste, 36,5%). O Norte deu à candidata mais 8,1% dos votos. Fácil concluir que cada voto, não importa a região, contribuiu para o resultado. Então, por que os principais veículos de comunicação (em TV, rádio, jornal, revista e internet) insistem na tese de um país dividido? A divisão por estados distorce a realidade. Mais do que isso, contribui fortemente para instigar ódio de classes e ódio regional, sobretudo contra os nordestinos.

Atribui-se ao primeiro-ministro britânico, falecido em 1881, Benjamin Disraeli, a célebre frase: “Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras descabeladas, e estatísticas.” A mídia brasileira usou a terceira forma de mentira para pintar o mapa do país de azul e vermelho e obter uma conclusão irreal. Nele, assinalava os estados em que a candidatura de Aécio foi vencedora e onde Dilma havia vencido. Não haveria problema em mostrar essa informação, se fosse seguida de outras, como, por exemplo, os municípios em que uma candidatura ou outra foi vencedora. Neste caso, o mapa já estaria mais diluído em sua justaposição de cores. Mas deveria ser acrescido, necessariamente, de um terceiro mapa: o que mostrasse a mistura dos votos e, portanto, das cores. Quem fez isso foi o mestrando em História Econômica pela Unicamp (SP), Thomas Conti. Seu mapa, reproduzido em vários portais, muda completamente a forma de olhar para o resultado da eleição. (www.jornalggn.com.br/noticia/o-mapa-das-eleicoes-por-thomas-conti).

O papel do jornalismo não é apenas mostrar dados. É, sobretudo, contextualizá-los. Saber interpretar fatos ou números é o que diferencia jornalistas competentes de mal preparados ou mal intencionados. Infelizmente, temos lido, ouvido e visto cada vez mais jornalistas, comentaristas e colunistas na grande mídia que são apenas produtores de sofismas, ou seja, “raciocínios ou argumentos aparentemente lógicos, mas que são falsos e enganosos”.

É por isso que boa parte do discurso de ódio presente nas redes sociais tem na mídia o seu principal combustível. Porque a desinformação gera distorção, que gera preconceito, que gera discurso de ódio. Se Aécio tivesse vencido por um voto, todos os que destilam nas redes sociais grosserias e sentimentos anticivilizatórios e desumanizadores estariam comemorando a “vitória da democracia”. Evidente que a maior parte dos eleitores e eleitoras do candidato derrotado do PSDB não se enquadra nesse perfil. Mas, certamente, poderiam refletir sobre o que os leva a fazer companhia, na hora do voto, a pessoas tão desqualificadas para viver em sociedade.

Mas, se não há a divisão maniqueísta entre “o Brasil que produz” e o “Brasil atrasado”, entre o Brasil de azul e o Brasil de vermelho, há, sim, sinais expressivos de cisões no país. Diferenças que também não podem ser pintadas apenas de azul e vermelho, "nós ou eles", porque igualmente não representam a diversidade de opiniões e as motivações que levam o eleitor e a eleitora a optarem por uma candidatura.

Há cada vez mais brasileiros que se aliam a duas formas diferentes de pensar o país e que se expressam mais vigorosamente nas redes sociais. A dos brasileiros que querem um país menos desigual e a dos que se negam a abrir mão de privilégios. A dos brasileiros que preferem um Estado forte para fazer políticas públicas e outros que preferem que o mercado se encarregue de fazer justiça social. A dos brasileiros que desejam fazer avançar os Direitos Humanos e a dos que propõem tratar questões sociais à bala, com mais repressão. Aqueles que concordam em oferecer mais oportunidades para os negros e brasileiros que se acostumaram a vê-los como mão de obra barata. Os cidadãos e cidadãs que lutam por uma sociedade menos patriarcal e machista e os brasileiros e brasileiras que se mantêm omisso(a)s, sem falar na parcela expressiva que continua a tratar as mulheres sem igualdade, com discriminação e preconceito.

Há um esboço de divisão que não é geográfica, mas de projetos políticos. Há muitos brasileiros que são solidários à manutenção de uma diplomacia externa que una a América Latina, que dialogue com a África, com culturas não ocidentais, ou seja, com todos os povos, e há outros que gostariam de ver o Brasil alinhado às posições do governo norte-americano e das principais potências europeias, que, não raro, têm optado por uma diplomacia muito mais beligerante em relação a alguns países.

Tudo indica que há um aprofundamento das discórdias e a construção desse fosso tem na mídia boa parcela de responsabilidade, pela falta de um debate mais plural, que acolha opiniões destoantes do senso comum e da linha editorial imposta pelos donos dos veículos de comunicação. Por isso, há brasileiros que lutam por mais informação e conhecimento, que defendem a regulamentação da mídia, e há outros que não se sensibilizam para isso e ainda confundem a democratização dos meios de comunicação com censura. Há brasileiros que apoiam políticas públicas que propiciem educação de qualidade, em todos os níveis, para que haja uma ascensão social das classes menos favorecidas, inclusive com ações afirmativas, a exemplo das cotas, enquanto outra parcela de brasileiros acredita que as oportunidades já são iguais e vê como injustiça a criação desses mecanismos compensatórios. Há sinais de uma divisão quando parte da população manifesta orgulho pelas mudanças sociais que têm sido implementadas e igualmente outra parcela de brasileiros tratam esses avanços com desprezo, como esmolas para vagabundos.

Há brasileiros que anseiam por um país que se reconheça em todas as suas diferenças culturais e regionais e se orgulhe delas, e outros que exibem, potencializados pelas redes sociais, muros de preconceito, ódio e discriminação. Enfim, há divisões que, mais do que geográficas, são políticas e ideológicas. Na mais disputada eleição presidencial dos últimos tempos, apareceram fissuras que ameaçam a consolidação de um país democrático, que respeite o resultado das urnas e a vontade soberana expressa pelos brasileiros em cada voto. Terá que haver um enorme esforço para promover o diálogo – e nisso, novamente, a mídia tem um papel fundamental –, para estancar os discursos de uma aberta pregação golpista e as manifestações de rancor e raiva. A democracia é o sistema que legitima a igualdade política e social. Isso precisa ser melhor debatido e praticado entre os brasileiros e brasileiras.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Egoísmo à direita e à esquerda

por Celso Vicenzi*

Há dois tipos básicos de egoístas: o de Direita e o de Esquerda.

O egoísta de Direita não suporta a igualdade, quer sentir-se superior. É um cidadão que obteve muitos privilégios ao longo da vida, mas acha que tudo que conquistou é mérito.

O egoísta de Direita costuma dar o nome de “meritocracia” à falta de oportunidades iguais na sociedade.

Para o egoísta de Direita, quanto mais pobres, melhor. Assim, ele pode pagar menores salários, ter mão de obra farta e barata, e sentir-se vitorioso diante de quem pouco tem.

Para o egoísta de Direita, pobre não vence na vida porque é vagabundo e não quer trabalhar, embora trabalhe desde muito cedo e ajude a enriquecer muitos daqueles que mais se utilizam de sua mão de obra.

O egoísta de Direita acredita que as melhores coisas da sociedade não são para repartir entre todos, mas destinadas apenas a um grupo qualificado, a nata da sociedade.

Para o egoísta de Direita, pobre não precisa de muita instrução, afinal, quem precisa estudar muito para ocupar empregos de baixa qualificação? O egoísta de Direita acha absurdo investir meio por cento do PIB em Bolsa Família e beneficiar 50 milhões de brasileiros. Mas é favorável ao Bolsa Empresário, que abocanha generosas fatias do orçamento da União, Estados e Municípios, com isenção de impostos por vários anos na construção de indústrias, doação de terras para erguer fábricas, empréstimos a juros e taxas subsidiadas, cancelamento de dívidas que nunca são pagas, contratos superfaturados e realização de obras públicas que beneficiam empreendimentos privados – entre outras benesses muito comuns em todo o país.

O egoísta de Direita não gosta de dividir espaço com o povo. Prefere ser tratado com regalias, como se fosse um predestinado a viver em opulência. Para o egoísta de Direita, não há racismo no Brasil, o feminismo é movimento de mulheres feias e mal amadas, e o homossexualismo é uma doença que precisa ser tratada... na porrada!

O egoísta de Esquerda é diferente. É a favor dos pobres, da luta de classes. Organiza os trabalhadores contra a exploração. Sai em defesa dos mais fracos. Está presente nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos espaços políticos onde, acredita, a luta pode avançar. O egoísta de Esquerda tem fortes convicções políticas, combate o capitalismo e acredita numa sociedade sem classes.

Mas, no entanto, o egoísta de Esquerda, quando estão em jogo questões ideológicas, não costuma ser muito solidário com o povo. Quando confrontado a decidir, em momentos decisivos da história, costuma ajudar a luta dos egoístas de Direita. Prefere lavar as mãos, indiferente ao que isso poderá significar para milhões de pessoas. Prefere ficar em paz com a sua consciência.

Alguns egoístas de Esquerda, no entanto, vão além e costumam fazer um percurso de médio e longo prazo até tornarem-se autênticos egoístas de Direita. Vários intelectuais, jornalistas e, especialmente, comentaristas de veículos tradicionais da mídia, que emprestam seus conhecimentos para, sob os mais disfarçados argumentos, deter todos os avanços sociais, no passado já estiveram ao lado dos mais pobres, dos mais fracos – e alguns até militaram em partidos de Esquerda.

O egoísta de Esquerda diz que no segundo turno das eleições vai votar em branco ou nulo porque nenhuma das candidaturas aponta para avanços na sociedade. Para o egoísta de Esquerda, tanto faz Aécio ou Dilma.

Para o egoísta de Esquerda, se não for exatamente um governo do seu jeito, ele permanece insensível, mesmo consciente de que hoje há milhões de brasileiros que comem onde antes havia milhões passando fome.

Para o egoísta de Esquerda, melhorar de vida, no sistema capitalista, não tem nenhum sentido. Não importa se antes o cidadão pagava aluguel e hoje tem casa própria, se pode investir em um pouco mais de conforto ou se o filho de um trabalhador de salário mínimo agora pode sonhar com uma universidade e uma profissão em que poderá ganhar melhor e quebrar o ciclo de pobreza que se perpetuava há gerações em sua família.

Para o egoísta de Esquerda, Aécio ou Dilma, tanto faz, é tudo igual. Reconhece que as forças políticas representadas por Dilma são um pouco melhor, mas não o suficiente para contribuir com o seu voto, solidariamente, para que tantos brasileiros que deixaram a pobreza para lá não retornem tão brevemente. O egoísta de Esquerda, no seu egocentrismo, não consegue ser solidário com milhões que hoje, apesar dos pesares, podem esboçar um sorriso por ter conquistado mais dignidade.

O egoísta de Esquerda, tão politizado, estranhamente pouco se importa se haverá um governo com uma política externa mais solidária com a América Latina e países menos desenvolvidos ou outro mais atrelado com os Estados Unidos e às forças mais reacionárias do capital internacional. Para o egoísta de Esquerda, as suas convicções ideológicas são mais importantes do que as esperanças de milhões de brasileiros. Pouco interessa ao egoísta de Esquerda o quanto foi duro e difícil conseguir o pouco – que para quem nunca tinha nada representa muito – de avanço na sociedade brasileira. Porque, afinal, para os egoístas de Esquerda e de Direita, não importa o quanto a realidade concreta tenha mudado para a imensa maioria do povo brasileiro. Ambos, por razões opostas, estarão juntos para ajudar a derrotar o que foi tão difícil de conquistar. Mesmo com todos os erros, mesmo com todos os desacertos.

O egoísta de Direita, numa eventual vitória da Direita, irá comemorar muito, ao mesmo tempo em que irá destilar todo o seu ódio, preconceito, discriminação e arrogância pelos próximos anos – que podem durar muitos, muitos anos.

Já o egoísta de Esquerda, em paz com a sua consciência, voltará tranquilo para a sua residência, para o bar, para o sindicato, para a sua corrente política, onde o aguarda uma certeza histórica de que a revolução, se um dia vier, terá que ser à sua imagem e semelhança. Embora, até lá, tudo indique que milhões de brasileiros voltarão a não ter casa, a não ter oportunidades de estudo, a não ter uma boa formação, a ficarem desempregados e terem salários arrochados novamente por uma Direita que sempre soube se unir nos momentos fundamentais da história.

Ao contrário de parte da Esquerda, que sempre desenvolveu uma enorme capacidade de fazer exatamente o que a Direita quer.

Neste momento crucial da história do Brasil, decidir por não decidir pode levar a consequências graves e imprevisíveis. Nunca se sabe onde está o “ponto de retorno”. Pode-se trilhar um caminho sem volta e condenar gerações a pagarem o preço. Omitir-se, diante do que está posto, caracteriza, no mínimo, egoísmo ideológico.


* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Vivo ou morto

por Celso Vicenzi*

Uma das cenas clássicas dos antigos filmes de faroeste era o cartaz de “Procura-se, vivo ou morto” com o valor da recompensa. No Brasil do século 21, não há esse tipo de cartaz, mas vive-se situação semelhante. Todos os anos, instituições bancárias e o INSS vão à caça de uma legião de idosos e idosas que recebem pensões ou aposentadorias. Para não perderem benefícios, precisam provar que estão vivos.

Em princípio, não deveria haver tanta dificuldade assim por parte de diligentes organizações, públicas ou privadas, para identificar quem está vivo e quem está morto. Verdade que alguns estão quase mortos de fome. Mas, repare bem: mesmo assim, continuam vivos!

Pense num idoso de 80, 90 anos, com dificuldade de locomoção, saúde debilitada ter que se deslocar até uma agência, às vezes distante, enfrentando o trânsito, com risco de queda e atropelamento, só para dizer: “Olá! Estou vivo, não morri!”. E, com mãos trêmulas, assinar mais um papel para provar que não é um fantasma.

A Constituição é clara: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. No entanto, para tentar impedir que alguém receba pensão ou aposentadoria indevida, pune-se, preventivamente, todos os idosos, quando seria mais justo aplicar as sanções do Código Penal a quem cometesse, de fato, esse tipo de crime.

Há casos, também, em que, por um “erro do sistema” – sempre ele! – um vivo é declarado morto. A sua presença (respirando!) e os documentos que apresenta valem muito pouco para as autoridades que, geralmente, preferem confiar em um computador que informa ser você uma assombração. Até, pelo menos, demorada prova em contrário.

Há leis para todos os gostos. Será que não há umazinha só que possa ser acionada para que milhões de idosos não precisem se submeter, anualmente, a esse ritual humilhante? A sensação, principalmente para os mais longevos, é a de que a Previdência sente-se ligeiramente incomodada com tanta saúde, e conta os meses, dias e horas para vê-los deitados em caixões.

Parece-me, embora leigo, que é algo muito próximo do conceito de assédio moral, aplicado a trabalhadores. Mas, e o que dizer de ex-trabalhadores submetidos a situações constrangedoras e repetitivas? A humilhação é um sentimento de menosprezo, inferioridade, ultraje, que compromete a dignidade humana. E estudos provam que é causa de dor, tristeza e sofrimento. Ter que provar, ano após ano, que se está vivo, afinal, não é humilhante?

Espero estar vivo para ver o Brasil pôr um fim a essa crueldade. Quem sabe o Ministério Público se compadeça da condição desses cidadãos e cidadãs que merecem um pouco mais de descanso e respeito nessa etapa da vida, e resolva abraçar a causa. Em troca, receberá, de “honorários”, emocionados e sinceros abraços.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Vício de linguagem

por Celso Vicenzi*

Se você é do tipo que encara de frente os desafios, que presta atenção em pequenos detalhes, planeja antecipadamente, gosta de fazer planos para o futuro, sem adiar para depois, costuma seguir a grande maioria e não vê razão para preocupar-se, leia novamente a frase, agora com mais atenção, e repare como costumamos ser redundantes no dia a dia, falando ou escrevendo. Raros são aqueles capazes de manter uma comunicação, principalmente informal, sem cometer nenhum deslize com os vícios de linguagem, como as redundâncias, que são repetições inúteis, porque nada acrescentam ao que a palavra já expressa.

Quem encara, só pode fazê-lo de frente. Detalhes são sempre pequenos, todo planejamento é antecipado e ninguém faz planos para o presente ou passado – sempre para o futuro. Da mesma forma, quem adia algo, é para depois. Maioria nunca pode ser pequena, assim como minoria nunca será grande, logo, os reforços (grande, pequena) são dispensáveis.

O que não se deve dispensar é o uso correto da linguagem, que é a roupagem de toda a comunicação oral e escrita. Também não há necessidade de tornar-se obsessivo em relação ao uso culto da língua, salvo se você for um profissional que a utiliza para ganhar o pão de cada dia, como, por exemplo, um professor de português, um escritor, um jornalista.

Por preguiça, por (mau) hábito ou desconhecimento, certo é que não passamos incólumes, vez ou outra, de escorregar em uma redundância. É fácil lembrar das óbvias, como subir para cima, descer para baixo ou recuar para trás.

A redundância é um vício de linguagem, enquanto o pleonasmo – parecido – é uma figura de linguagem, utilizada para reforçar e dar expressividade à oração. O recurso é muito utilizado em letras de músicas, algumas antológicas, como por exemplo, do rei Roberto Carlos (“Detalhes tão pequenos de nós dois...”), ou de Jorge Benjor (“Chove chuva...”). E também entre grandes escritores e poetas. Vinicius de Moraes, em um de seus poemas mais famosos, o Soneto de Fidelidade, escreveu: “E rir meu riso...”.

Mas, na linguagem do dia a dia, melhor tomar cuidado para não piorar mais, reincidir de novo, abusar demais, porque, regra geral, não é de bom tom repetir outra vez o que é desnecessário.

Sei que é difícil, porque até mesmo em jornais, revistas, na tevê e no rádio ocorre cotidianamente. Ou você nunca leu e ouviu que há um consenso geral sobre a descoberta de novos indícios de uma quantia de dinheiro recebida em mãos numa negociata suja em que o principal protagonista é figura por demais conhecida de todos?

É fato verídico em boa parte do Brasil. E agora que nova eleição se aproxima e você vai comparecer em pessoa à urna, mostre que está atento(a). Às redundâncias e ao futuro do país.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O meu candidato é o dos outros

por Celso Vicenzi*

O meu voto é o dos outros. Milhões de outros – com esperança de que sejam maioria – que sonham com uma pátria mais justa e solidária. Não penso em votar em candidaturas que, eventualmente, melhorem a minha condição de cidadão de classe média. Ou que possam fazer mais pela minha profissão, pelo meu estado, pela minha região ou cidade. Há quem vote assim e é um direito. Mas, num país com as desigualdades sociais do Brasil, o voto de quem vive melhor deveria ser mais solidário, menos egoísta e desumano.

Os meus candidatos serão aqueles com currículo e história de vida comprometida com as transformações sociais, com ações voltadas à independência e soberania do país, com igualdade de acesso aos bens gerados pela nação. Seria ótimo – e inteligente! – se boa parte dos integrantes das classes média e alta, antes de pensarem em si, apoiassem aqueles que menos têm e há séculos são alijados da distribuição de renda num dos 10 países mais ricos do mundo.

Voto pensando nos milhares de moradores em situação de rua e nos milhões que sonham com a casa própria. Meu voto vai para os 72% de trabalhadores que produzem a maior parte da riqueza e, no entanto, recebem em troca não mais do que dois salários mínimos. Desses, 41% têm renda de no máximo um salário mínimo. Quase a metade da força de trabalho vivendo com muito pouco, pressionada por toda uma existência a usufruir do mínimo, no limite da sobrevivência.

Quero votar com os 80 milhões de brasileiros que agora têm acesso à saúde bucal (em 1998, 30 milhões nunca tinham ido ao dentista) e que ganharam 4 milhões de próteses nos últimos quatro anos. Gente que tinha poucos motivos para sorrir e quando o faziam, ficavam expostos ao escárnio e à ridicularização.

Não peçam o meu voto para candidaturas que vão ampliar ou manter um modelo político e econômico excludente, responsável por classificar o Brasil entre as 10 nações mais desiguais do planeta. Não apoiarei candidaturas que, sob nomes pomposos do economês, irão implementar políticas de arrocho contra o trabalhador, aumentar o desemprego, diminuir as ações sociais, investir contra conquistas históricas dos Direitos Humanos e trazer dogmas religiosos para o centro da agenda republicana.

Não voto em candidaturas que, num país onde há muito preconceito, discriminação e racismo, são contra as políticas de ações afirmativas (cotas para negros, por exemplo) sob o argumento da justiça e da igualdade que nunca garantiram para a maioria da população. Dados do Ministério da Saúde apontam que 53% dos homicídios no Brasil atingem pessoas jovens, das quais 75% são negros e negras, de baixa escolaridade. Não voto em quem apregoa meritocracia como sinônimo de justiça, sem levar nunca em conta a desigualdade de acesso às oportunidades.

Não voto em quem critica o Bolsa Família, que, com algo em torno de 0,5% do PIB, diminuiu a mortalidade infantil, melhorou a alimentação do povo e ajudou a colocar os filhos dos pobres nas escolas. Segundo o Relatório Mundial da Saúde, o Bolsa Família reduziu em 28% a pobreza no país (quase um terço!) e foi responsável direto pela diminuição de 65% das mortes causadas por desnutrição e por 53% dos óbitos causados por diarreia em crianças menores de cinco anos. Eu voto contra os preconceituosos que dizem que Bolsa Família é para sustentar malandro, porque desconhece ou omite que 75% dos beneficiários trabalham e 12% já deixaram de receber voluntariamente, por terem melhorado de vida.

Eu voto com os outros. Com aqueles 50 milhões de brasileiros que, até recentemente, não tinham atendimento médico, porque moram em pequenas localidades do país ou nas periferias das grandes e médias cidades. Voto por mais educação e formação profissional para combater a violência. Por mais acesso à cidadania e menos políticas repressoras no combate à criminalidade e atos infracionais. Por uma educação mais inclusiva e humanista, menos voltada a atender o mercado de trabalho, que questione os privilégios, as desigualdades e as distorções desse modelo consumista de sociedade, predador da natureza, gerador de poluição, doença e morte.

Eu voto com os outros, sim. Outros que desejam a manutenção do emprego, melhores salários e aumentos acima da inflação para quem ganha salário mínimo. Segundo o IBGE, em 10 anos houve um crescimento de 65% na geração de empregos, e o salário mínimo teve aumento real de mais de 70%. Voto em quem se propõe a prosseguir nessa direção. Meu voto é o dos outros, de milhares de outros, que sempre foram explorados, no campo e na cidade, enquanto enriquecem uma pequena parcela da população brasileira. Voto por reforma agrária, por uma reforma política e fiscal, por impostos que onerem mais a classe rica e menos os assalariados, por mais distribuição de renda, pelo estado laico, pela igualdade entre sexos e a valorização da mulher, pelo respeito aos Direitos Humanos, por mais creches, por educação de qualidade em tempo integral, pela demarcação das terras e respeito aos direitos indígenas, pela soberania do país, por políticas públicas que garantam melhores condições de vida à maioria da população.

Voto por uma política de transporte público de qualidade, pela redução do desmatamento e por mais apoio à agricultura familiar. Meu voto se une ao voto dos que desejam o fortalecimento do SUS e das políticas públicas de saúde, daqueles que querem mais investimentos em pesquisas para fortalecer a independência e a soberania nacional, pela democratização da comunicação e por uma regulamentação do setor, semelhantes as que já existem em vários países. Meu voto é amplo, geral e irrestritamente popular.

Em síntese, meu voto pertence ao povo brasileiro, que luta para emancipar-se e construir uma sociedade mais justa e fraterna.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres. Ilustração é obra da artista plástica Gertrudes de Arruda

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um álbum, uma vida


por Celso Vicenzi*

A fotografia é uma invenção do século 19, que fascinou pela possibilidade de reproduzir, fielmente, quaisquer objetos, paisagens ou pessoas. No começo, como sempre, acessível a poucos. Para além dos registros domésticos, as imagens fotográficas prestaram inestimável contribuição ao estudo da geografia, da antropologia e da sociologia – entre outras ciências. Com o passar dos anos, ganhou novas funções, entre elas, a de obra de arte e a de registro jornalístico.

Do século 20 até os dias de hoje, parte das pessoas que viveram no planeta possuíam pelo menos uma ou algumas fotos. No passado, antes da era da televisão, era comum, durante as visitas de parentes e amigos, apresentar o álbum de retratos da família. Toda uma história de vida resumida em algumas poucas páginas a marcar datas importantes, como o casamento, o nascimento dos filhos, o batizado, alguns aniversários (não todos!), uma ou outra foto do ingresso na escola ou da formatura. Ou ainda, em trajes militares, como reservista. Fotos posadas em uma charrete, no dorso de um cavalo, em uma bicicleta ou, ainda, em raros automóveis. Às vezes, algum fenômeno climático, como enchente ou neve. E, já entrando nos anos 60, uma ou outra foto de viagem em férias.

Uma vida inteira podia ser resumida em um álbum com poucas dezenas de fotos. Para algumas gerações, todas em preto e branco. Mais tarde, num colorido que o passar dos anos foi desbotando cada vez mais.

Quantas fotos um adolescente é capaz de registrar, atualmente, em apenas um dia? Em uma semana? Certamente, mais do que algumas gerações registraram ao longo de toda uma vida. Nossos avós – para os que têm mais de 50 anos –, talvez não mais do que duas ou três dezenas. Dos bisavós, com sorte, sobrou uma imagem solitária, que olhamos com certo espanto. Tanto quanto eles, os bisavós, olhavam para a estranha câmera, quase a duvidar sobre o que sairia daquele registro para a posteridade.

Atualmente, conseguirá uma criança ou adolescente que viva até a fase adulta localizar, em meio a milhões de fotos, aquelas que guardam algum significado para suas vidas? A frase já foi atribuída a John Lennon, mas é do escritor, jornalista e cartunista norte-americano Allen Saunders: “Vida é o que acontece com a gente enquanto estamos fazendo outros planos”. Talvez se pudesse dizer, diante de tanta ansiedade em registrar o dia a dia em imagens, que a vida é isso que acontece enquanto tiramos fotos em vez de prestar mais atenção aos ciclos da natureza e às pessoas à nossa volta. Porque a vida, essa não tem volta. Passa rapidamente e finda num clique.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não se pode deixar de ver

por Celso Vicenzi*

As imagens que chegam da Faixa de Gaza, bombardeada por Israel, com muitas vítimas entre crianças, mulheres e idosos, circulam como um grito impotente pelas redes sociais. Impossível manter-se impassível diante do uso desproporcional da força por parte do governo israelense. Tenho feito circular artigos e reportagens que falam dos abusos que ali são cometidos. Evito publicar imagens, mas compartilhei uma delas, recentemente, com várias crianças palestinas mortas, amontoadas, porque são o retrato cruel de como o terrorismo de estado pouco se diferencia do terrorismo de grupos que usam a população civil como alvo. Sob o pretexto de buscar alvos militares, contam-se às centenas os “efeitos colaterais” que vitimam pessoas inocentes.

Tão logo publiquei a foto, surgiu um debate sobre o que é ou não “sensacionalismo”. A cena é forte, sim, mas há situações que não podemos deixar de ver. Mais que isso: temos a obrigação de olhar, com muita dor e indignação. Afinal, quantos civis ainda precisam ser mortos – e já são mais de mil, além de milhares de feridos – para configurar um massacre? Os álibis do governo israelense e de seus apoiadores são insustentáveis, embora a mídia de vários países ocidentais – o Brasil não é exceção – não cansa de tentar legitimar.

O jornalismo deve poupar o cidadão – regra geral – de cenas violentas e desnecessárias. Mas há exceções, porque a instantaneidade de uma imagem é fundamental para traduzir algumas tragédias humanas. O bombardeio dos Estados Unidos na Guerra do Iraque, a primeira que assistimos ao vivo, com cenas aéreas das cortinas de fogo que se levantavam ao céu, sobretudo à noite, mais parecia um videogame high tech. A brutalidade, a essa distância, sem a visão de mutilações e mortes, tem menos chance de emocionar a opinião pública. Houve um enorme esforço das forças norte-americanas para impedir ao máximo o acesso dos jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas ao campo de batalha. Até a linguagem tornou-se asséptica. Falava-se em “ataques cirúrgicos”.

O massacre que vem sendo perpetrado pela máquina de guerra de Israel contra a população civil palestina tem gerado muitas imagens brutais. Num mundo povoado por câmeras e quase anestesiado diante de tantos horrores de guerras, essas imagens ainda impactam as consciências de quem se nega a ser apenas testemunha de mais uma atrocidade.

Os Estados Unidos começaram a perder a Guerra do Vietnã quando pacatos cidadãos estadunidenses tomaram conhecimento do que seus concidadãos faziam em terras distantes. A chacina só começou a ter fim depois que, durante os telejornais, o sangue espirrou nas mesas de refeições de milhões de cidadãos em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos.

Não sou voyeur da crueldade humana, nem tampouco cego para a dor dos que imploram por socorro ou dos que morrem à míngua por injustiças em algum lugar do planeta. Foram as fotos de Don McCulinn, o primeiro fotógrafo a registrar a fome em Biafra, em 1969, que acordaram o mundo para uma catástrofe que precisava do apoio de outras nações. Não há como esquecer a imagem da menina Kim Phuc, correndo nua, gritando de dor com o corpo queimado pelas bombas de napalm, numa estrada perto de Trang Bang, no sul do Vietnã. Ou a execução, a sangue frio, com um tiro na cabeça, em plena rua de Saigon, de um vietcong – registro feito pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968.

Não há por que confundir. Sensacionalismo é a “exploração de notícias com o objetivo de causar sensação ou escândalo”. Ao exibir algumas cenas dantescas (como as valas com corpos de judeus mortos em campos de concentração nazista), o objetivo não é causar sensação. Primeiramente, é certo que causa indignação. Mas é também registro que permanece para que se possa tentar compreender, de alguma forma, o que e por que aconteceu. É também o testemunho para pôr no banco dos réus os responsáveis. São imagens que precisam fazer parte do “currículo” da espécie humana. Servem para lembrar-nos do quanto podemos ser ferozes e – paradoxalmente – inumanos em certas circunstâncias.

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado testemunhou, com sua câmera, muito sofrimento, ódio e violência. E aos críticos, que não veem sentido em registrar a desgraça humana, respondeu: “Este é o nosso mundo, precisamos assumi-lo. Não são os fotógrafos que criam as catástrofes, elas são os sintomas da disfunção do mundo do qual todos participamos. Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas. E não venham me falar de voyeurismo! Voyeurs foram os políticos que deixaram as coisas acontecerem e os militares que facilitaram a repressão.” O comentário era sobre Ruanda, palco de um genocídio em 1994, mas vale para qualquer situação. O relato está no livro Sebastião Salgado – da minha terra à Terra, (entrevista à amiga Isabelle Francq, editora Paralela), no qual ele também afirma: “Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo, porque somos todos responsáveis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver.” No caso presente dos ataques de Israel, é evidente a brutalidade e a insensatez de uma ideologia política e religiosa sustentada, principalmente, pelos Estados Unidos, uma das nações que mais se envolve em ações violentas por todo o planeta.

Infelizmente, pela lógica do capital e da guerra (as duas coisas costumam andar juntas), seres humanos de determinadas etnias ou nações são atacados e exterminados em nome de vários interesses. O Estado de Israel tem incorporado e ocupado territórios palestinos pela força e mantido a população sob permanente estado de terror. A qualquer momento sente-se legitimado a usar a força de maneira desproporcional. E controla quase tudo que pode ou não se pode fazer.

Não estivesse sob a proteção dos Estados Unidos e das principais nações do Ocidente, seus líderes já estariam sentados em um tribunal para responder por crimes de guerra. A certeza da impunidade, no entanto, só amplia os abusos contra os Direitos Humanos.

O Estado de Israel tem o direito de se defender, mas não o de perpetrar massacres. Tem o direito de lutar contra inimigos que tentam golpeá-lo, mas não pode atacar alvos civis e matar mulheres, crianças e idosos. Palestinos têm o direito a ter de volta suas terras ocupadas por Israel. Palestinos têm direito a ter um Estado, conforme a Resolução 181 da ONU, que data de 1947 e jamais foi cumprida – em boa parte, pela intransigência israelita.

O século 20 presenciou, além de duas guerras mundiais, vários crimes de guerra em acertos de contas regionais que escandalizaram o mundo. Prova de que somos animais de uma ferocidade jamais vista anteriormente sobre a face da Terra e, por isso mesmo, a única espécie capaz de destruir milhares de outras espécies e de ameaçar a sua própria existência.

Diante da brutalidade que se verifica em Gaza, golpeada por milhares de mísseis a estraçalhar corpos humanos inocentes, não é justo que o horror se esconda por trás de uma linguagem diplomática, utilizada diariamente pela mídia para encobrir crimes de guerra. Não é justo pedir que tenhamos bons modos diante do terror. A violência cega. Por isso, mais do que nunca, é preciso ter olhos para ver. E dizer não à barbárie.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol e seus mistérios

por Celso Vicenzi*

Sim, há muitas explicações. Nenhuma delas suficiente, tampouco convincente. Darão boa ou má literatura, inesgotável assunto para mesas de bar e mesas-redondas de futebol na TV. Páginas e páginas serão escritas, milhões de comentários nas redes sociais. Os mais exaltados xingarão o técnico, os jogadores, o país onde vivem. Haverá oportunistas, como sempre. E também mal-educados. Não faltarão os que sempre irão se curvar diante da “superioridade europeia”, resquícios de um passado de nação colonizada que, gradativamente, parece perder sua força. Mas é possível identificar também muitos brasileiros sensatos, que amam seu país, capazes de separar vida e jogo, política e esporte, virtudes e defeitos de uma nação.

Nelson Rodrigues, o escritor que melhor traduziu o que pode acontecer dentro de um campo de futebol, criou o personagem Sobrenatural de Almeida, um fantasma que seria responsável por gols improváveis, normalmente contra o seu adorado Fluminense. É dele também a crítica aos “idiotas da objetividade”, aqueles que tentam explicar pela razão o que pertence ao imponderável.

Os gregos sabiam que há no mundo lugar para a tragédia. Haveria algo que estaria acima da vontade dos seres humanos, porque dependeria dos humores dos deuses. Nelson Rodrigues, não por acaso um dramaturgo, expressou muito bem: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe.”

Há os que se agarram às explicações esportivas. Se o treinador fosse outro, se o esquema tático fosse diferente, se houvesse mais treinos, se a escalação fosse mais prudente, se outros jogadores estivessem entre os convocados, se o Neymar e o Thiago Silva pudessem jogar, se houvesse menos oba-oba, se, se, se...

Há outros que preferem adentrar searas mais “científicas”, uma espécie de “sociologia do futebol”. Perdemos porque não somos um país decente, porque há corrupção, porque somos desorganizados, porque preferimos a improvisação e a malandragem ao estudo, à disciplina, à qualificação, porque falta educação, falta saúde, falta um país...

Tudo simples. Mas não explicam como, sendo tudo isso que nós somos – e queremos ser melhores! –, somos os maiores vencedores, com cinco títulos mundiais em 20 disputados ao longo de 84 anos.

Não explicam por que a toda poderosa Alemanha, que ganhou de fáceis 7 a 1 do pentacampeão Brasil, havia empatado com Gana e penado para ganhar da Argélia na prorrogação.

Sim, nosso time atual parece não ser dos melhores, ou não teve a sorte que bafeja os campeões. Mas o que dizer, então, de potências como Itália, Espanha, Portugal e Inglaterra, que saíram logo na primeira fase? A Bélgica iria ser a sensação dessa Copa. Não foi. Houve candidatos que surpreenderam, mas ficaram todos pelo caminho. Já fomos campeões do mundo com um time apenas razoável, em 1994. Já perdemos Copas com timaços, em 1950 e 1982.

Talvez, seja justamente isso que faz do futebol um esporte fascinante, uma paixão. Porque não cabe nos manuais. Nem esportivos, muito menos “sociológicos”. Ou a organizada Alemanha teria mais títulos do que o Brasil. E campeões mundiais como França e Espanha não passariam pelo vexame de cair fora já na primeira fase, logo depois de conquistarem a primeira Copa, como aconteceu em 2002 e 2014, respectivamente. Há pequenas e grandes tragédias esportivas, para todos os gostos. O mundo, apesar dos esforços de cientistas, filósofos e teólogos, é cheio de mistérios. O futebol, às vezes, é só mais um deles.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A ideologia do fracasso

por Celso Vicenzi

Manchete da Folha de São Paulo de domingo, dia 29 de junho, após a vitória brasileira nos pênaltis contra o Chile: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa”.

Há muito tempo – mas cada vez mais – os maiores veículos de comunicação do país têm feito escolhas editoriais que procuram menosprezar os avanços sociais e criar um sentimento de derrota, em todas as áreas. Tentaram de tudo para transformar a Copa do Mundo num pesadelo nacional e não pouparam más notícias. Algumas catastróficas (caos aéreo, imobilidade urbana, violência etc).

A Copa não foi um primor de organização, mas está longe de comprometer o espetáculo. Pelo contrário: os estádios estão cheios, os turistas e torcedores – exceções à parte – só têm elogios para o clima de alegria e fraternidade. Os imprevistos são aqueles comuns a qualquer grande evento em qualquer lugar do mundo. Os gastos com estádios, que pareciam fora da realidade, revelaram-se bem menos exorbitantes do que a imprensa tentou incutir entre os brasileiros. Segundo a própria Folha, o equivalente a uma semana do que se investe em educação no país. E parte do dinheiro investido é empréstimo e retornará aos cofres públicos. Quase nenhuma reportagem abordou as vantagens de sediar a Copa, os empregos gerados, os investimentos realizados na infraestrutura, que irão permanecer. E mais do que tudo: quanto vale uma imagem positiva do país, como esta que parece que os turistas e as seleções que aqui estiveram estão levando a seus países? Quanto vale ser o centro da atenção do mundo por 30 dias? Quanto vale mexer com a autoestima de um país? E, aqui, não me refiro ao desempenho da seleção, mas à alegria de receber elogios à nossa hospitalidade, às belezas do país, às virtudes de nosso povo.

Vale muito. E é por isso que a Folha – aqui apenas como exemplo, pois representa o pensamento de boa parte da nossa mídia – exagera e tenta criar na população brasileira, em contraponto à autoestima que vive neste momento, um clima de menosprezo ao seu país. Perder um jogo, ainda mais em Copa do Mundo, desde que não seja por um placar elástico, nunca foi nem nunca será um vexame. Temos a mania de achar que, sobretudo no futebol, qualquer adversário é fácil de ser batido. Mais do que isso: não basta vencer, é preciso dar show, é preciso dar olé. Nas derrotas, dificilmente o brasileiro reconhece as qualidades do time adversário, preferindo encontrar culpados: o treinador, o goleiro, um ou mais jogadores. Nesta Copa, o último campeão – a Espanha – não passou da primeira fase e foi fragorosamente derrotado por 5 a 1 na estreia. Depois de vencer a Copa de 1998, no mundial seguinte, a França também não passou da primeira fase, perdendo dois jogos e empatando um. Saiu do mundial sem ter feito um único gol. Imaginem se fosse o Brasil!

A seleção brasileira não tem a obrigação de vencer a Copa porque joga em casa. É apenas um dos favoritos. Das 19 Copas já realizadas, em apenas seis o campeão foi o país sede: Uruguai em 1930, Itália em 1934, Inglaterra em 1966, Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1978 e França em 1998. Ou seja, ganhar em casa é exceção. A disseminação do espírito “vira-lata”, como bem o definiu o escritor Nelson Rodrigues, do país que nunca faz nada certo, o exagerado endeusamento de outros países, resquícios de uma nação que foi colonizada, tudo isso ganha amplitude em boa parte da mídia brasileira. A crítica é fundamental, mas a manipulação de fatos com interesses políticos e econômicos torna-se evidente, em milhares de exemplos no cotidiano de boa parte de nossas emissoras de rádio e TV, revistas e jornais – agora também em portais mantidos pelos principais veículos de comunicação.

Temos grandes problemas a resolver no país, entre eles a necessidade de democratizar os meios de comunicação – o que tendenciosamente a mídia traduz por censura, omitindo que vários países democráticos impedem tamanha concentração da propriedade dos meios de comunicação e impõem regras que levam em consideração muito mais o interesse da população do que o dos donos desses veículos.

A ideologia do fracasso, do “vira-latismo” – já quase uma ciência! – gera na população a falsa ideia de que tudo de pior que acontece no mundo ocorre com mais intensidade no Brasil. No entanto, não somos o país mais corrupto, embora sejamos um dos mais desiguais. Segundo a ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 72ª posição entre 177 países. Apesar de ser a sétima economia do planeta, é o 12º com maior desigualdade – o quarto na América Latina. E quando se instituem programas como o Bolsa Família, elogiado pela ONU como exemplo no combate à miséria, a desinformação e a omissão da mídia levam boa parte da população a considerá-lo apenas um programa eleitoreiro ou um gasto desnecessário e sem resultado.

Embora não se diga, setores poderosos da economia e da política brasileira, da nossa elite, têm muito a ganhar com a corrupção. A honestidade tem um custo que nem todos estão dispostos a pagar. Gostamos de alardear a meritocracia num país que se notabiliza pelo apadrinhamento das relações, já amplamente estudado por vários sociólogos e intelectuais.

Por vias tortas, o Brasil vive um momento peculiar da sua história, marcada até aqui principalmente por um passado colonialista, escravocrata e ditatorial. Vivemos o mais longo período democrático e estamos aprendendo a enxergar o que de fato impede a criação de um país mais justo e com melhor qualidade de vida. Durante séculos, tentaram culpar o povo – miscigenado, analfabeto, ignorante, malandro – pelo “atraso”. Hoje, está mais claro que nos falta uma elite disposta a empoderar o povo, libertá-lo da opressão e da exclusão em que vive, derrubar privilégios entre os mais ricos e dividir a riqueza para que alcancemos o desejado patamar de um país com mais justiça social, melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e menos violência (sem esquecer que a desigualdade social é a maior de todas as violências). Contra a ideologia do fracasso, das frases feitas do tipo “aqui nada dá certo”, “o Brasil é assim mesmo”, “o governo não faz nada”, “o brasileiro não trabalha”, “o povo não sabe votar” e outros chavões, há que se disseminar um sentimento de construção, de valorização do que temos de melhor, de crítica ao que precisamos mudar, mas, sobretudo, de responsabilidade pelo país que somos.

Sem ufanismo, mas também sem catastrofismo. Para isso, ajuda muito um bom jornalismo.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
Web Analytics