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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol e seus mistérios

por Celso Vicenzi*

Sim, há muitas explicações. Nenhuma delas suficiente, tampouco convincente. Darão boa ou má literatura, inesgotável assunto para mesas de bar e mesas-redondas de futebol na TV. Páginas e páginas serão escritas, milhões de comentários nas redes sociais. Os mais exaltados xingarão o técnico, os jogadores, o país onde vivem. Haverá oportunistas, como sempre. E também mal-educados. Não faltarão os que sempre irão se curvar diante da “superioridade europeia”, resquícios de um passado de nação colonizada que, gradativamente, parece perder sua força. Mas é possível identificar também muitos brasileiros sensatos, que amam seu país, capazes de separar vida e jogo, política e esporte, virtudes e defeitos de uma nação.

Nelson Rodrigues, o escritor que melhor traduziu o que pode acontecer dentro de um campo de futebol, criou o personagem Sobrenatural de Almeida, um fantasma que seria responsável por gols improváveis, normalmente contra o seu adorado Fluminense. É dele também a crítica aos “idiotas da objetividade”, aqueles que tentam explicar pela razão o que pertence ao imponderável.

Os gregos sabiam que há no mundo lugar para a tragédia. Haveria algo que estaria acima da vontade dos seres humanos, porque dependeria dos humores dos deuses. Nelson Rodrigues, não por acaso um dramaturgo, expressou muito bem: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe.”

Há os que se agarram às explicações esportivas. Se o treinador fosse outro, se o esquema tático fosse diferente, se houvesse mais treinos, se a escalação fosse mais prudente, se outros jogadores estivessem entre os convocados, se o Neymar e o Thiago Silva pudessem jogar, se houvesse menos oba-oba, se, se, se...

Há outros que preferem adentrar searas mais “científicas”, uma espécie de “sociologia do futebol”. Perdemos porque não somos um país decente, porque há corrupção, porque somos desorganizados, porque preferimos a improvisação e a malandragem ao estudo, à disciplina, à qualificação, porque falta educação, falta saúde, falta um país...

Tudo simples. Mas não explicam como, sendo tudo isso que nós somos – e queremos ser melhores! –, somos os maiores vencedores, com cinco títulos mundiais em 20 disputados ao longo de 84 anos.

Não explicam por que a toda poderosa Alemanha, que ganhou de fáceis 7 a 1 do pentacampeão Brasil, havia empatado com Gana e penado para ganhar da Argélia na prorrogação.

Sim, nosso time atual parece não ser dos melhores, ou não teve a sorte que bafeja os campeões. Mas o que dizer, então, de potências como Itália, Espanha, Portugal e Inglaterra, que saíram logo na primeira fase? A Bélgica iria ser a sensação dessa Copa. Não foi. Houve candidatos que surpreenderam, mas ficaram todos pelo caminho. Já fomos campeões do mundo com um time apenas razoável, em 1994. Já perdemos Copas com timaços, em 1950 e 1982.

Talvez, seja justamente isso que faz do futebol um esporte fascinante, uma paixão. Porque não cabe nos manuais. Nem esportivos, muito menos “sociológicos”. Ou a organizada Alemanha teria mais títulos do que o Brasil. E campeões mundiais como França e Espanha não passariam pelo vexame de cair fora já na primeira fase, logo depois de conquistarem a primeira Copa, como aconteceu em 2002 e 2014, respectivamente. Há pequenas e grandes tragédias esportivas, para todos os gostos. O mundo, apesar dos esforços de cientistas, filósofos e teólogos, é cheio de mistérios. O futebol, às vezes, é só mais um deles.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Tudo ao mesmo tempo agora

Foram décadas de gestação do desejo de conhecer Berlim, uma cidade outrora efervescente, mas que se encontrava dividida por um muro, num país partido por razões difíceis de entender pra uma adolescente bisbilhoteira do que rolava pelo mundo. Nos últimos anos, a curiosidade só aumentou, pelo incrível desfecho da divisão, posta abaixo pelos moradores da cidade, com suas próprias mãos.

Cheguei agora, quando o que sobrou do malfadado muro é um traçado no chão, alguns pequenos trechos preservados intencionalmente e “lascas” que dizem ser dele, vendidas em medonhos invólucros de acrílico nas lojas de badulaques turísticos. Meu hotel fica na antiga parte ocidental, próximo à praça Wittenberg e a uma rua de comércio das mais concorridas. Até onde pude perceber numa visita de poucos dias, nada restou na vida cotidiana da cidade que sugira que algum dia ela foi dividida. Difícil imaginar o dia a dia controlado pela Stasi em sórdidos detalhes, magistralmente registrado no filme “A vida dos outros”.
enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos.
Tendo sido palco de tudo quanto é acontecimento relevante para a história da Alemanha, em que pese o gosto germânico pela grandiosidade, e destruída e reconstruída diversas vezes, a monumentalidade do miolo de Berlim é de deixar brasiliense de queixo caído e pés maltratados. Além das grandes distâncias, é preciso contornar quilômetros de tapumes. A cidade é bonita, com céu amplo e profundo, mas parece que resolveram reformar todas as avenidas, edifícios históricos e praças ao mesmo tempo. Para nossa sorte, os museus estão ali, paradinhos, esperando que entremos e aproveitemos tudo o que pudermos dos magníficos acervos. Valem a viagem, o frio e a chuva.

Multidões de turistas se deslocam pra lá e pra cá, e aposto que muitos nem percebem que o conjunto de blocos de concreto geométricos que formam um grande labirinto a céu aberto, ladeado pela rua Hannah Arendt, é o Memorial do Holocausto. Mas como não perceber?

Hoje, quando desci para o café da manhã no hotel, dei de cara com uma mulher toda coberta de preto, naquele traje que deixa aberta só uma frestinha para os olhos, usado pelas muçulmanas em algumas regiões mais conservadoras. Estava acompanhada de outras duas mulheres, que tinham a cabeça coberta mas vestiam roupas “ocidentais”, e um homem jovem, que ostensivamente comandava o grupo. Os quatro ocuparam sozinhos uma grande mesa. Foi difícil controlar o incômodo que aquele grupo me causou. Esta convivência é inevitável na Europa de hoje, e está na origem de tantas situações de estranhamento e intolerância.

Pois é, enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos. Mas tudo bem, eu sei, este é um outro assunto. Só está aqui porque me fez pensar em muros, barreiras que estão esperando para ser derrubadas e superadas.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora. 
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