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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A emoção quer ingressos para voltar aos estádios


Por Pedro Mox*

Lembro-me quando fui, ainda moleque, aos jogos do meu time pelas primeiras vezes. Filas intermináveis para chegar ao estádio. O melhor churrasquinho de gato da cidade vendido nos arredores. Toda a massa de torcedores lá reunidos pela mesma paixão. Havia apenas dois setores, sem contar os camarotes; a social, coberta, e o resto do estádio. Sem cadeiras, sem teto e com sanitários precários. Banco de reservas em concreto, idêntico à maioria dos pontos de ônibus da cidade. O lanche era espetinho de frango sem o espeto, amendoim e pipoca. Nas arquibancadas, circulavam vendedores de refri, cuba e cerveja.

Atentei a isso recentemente, enquanto fazia um trabalho no mesmo estádio – que, na verdade, não é mais o mesmo. Está muito mais bonito, modernizado. Quase todo coberto, várias entradas. As cadeiras (agora, todos os lugares são cadeiras) desenham o escudo do time. Internet sem fio, assentos confortáveis para comissão técnica e suplentes.

Enquanto esses dois estádios misturavam-se ante meus olhos e minhas lembranças, não pude não questionar o caminho que nosso futebol está tomando. Um rumo que parece não permitir modernidade e torcida  concomitantemente. Com a Copa vieram as arenas, modernas. Entretanto arrisco dizer que sem a mesma vibração dos tempos cujos gritos da geral do Maracanã ecoavam campo adentro. Podemos, quiçá devamos, nos acostumar à organização vinda dos estádios europeus.

No entanto, a transformação da torcida em platéia não me parece um quesito fundamental. O futebol vive dos torcedores, da turba que, faça chuva ou faça sol, deixa tudo de lado para apoiar o time.   

O estádio da minha infância lembra o que se vê até hoje na Argentina; muitas cantorias e trapos, como eles chamam bandeiras e faixas. A devoção dos hinchas, inclusive, merece ser notada. Toda a festa antes das partidas, músicas durante todo o jogo, incentivo, mesmo nas situações mais adversas. Isso não tem a ver com violência. Isso é estádio.  

O extremo oposto, igualmente, não é nada saudável. Torcedores não precisam de jaula, algo que felizmente conseguimos abandonar – é muito melhor sentar na arquibancada ao lado do banco de reservas do que fossos e gradis medievais. O arremesso de todo tipo de objetos dentro das quatro linhas foi coibido com punições aos clubes no Brasil, mas não raro, na Libertadores, policias precisam “blindar” jogador que bate um escanteio. Algo vergonhoso.

Aqui mesmo, em alguns estados, a entrada do batalhão de choque para “proteger” o árbitro ao final das partidas é, no mínimo, desproporcional.

O ponto central é: uma situação não implica ou impede a outra. Não precisamos de espectadores de futebol para acabar com vândalos disfarçados de torcedores. Tampouco necessitamos de brigas após qualquer partida para provarmos ser realmente apaixonados. Torcer implica ficar mal-humorado, se incomodar, não querer ver ninguém após a derrota num clássico. Chegar e sair do estádio xingando ou chacoteando o rival. O que  distancia-se anos luz de bater na cabeça de outro com uma barra de ferro pela camisa que usa.

No último Palmeiras x Corinthians, as confusões não foram causadas por uma briga entre torcedores rivais, mas entre torcedores palmeirenses e polícia, e entre os próprios corintianos. Torcida única, posto, não é a solução. Aliás, ela só serve para comprovar a apatia do estado nas questões relativas, mas não necessariamente ligadas, ao esporte bretão.

Tomemos como exemplo outra situação no mesmo final de semana: ao ver que num vagão do metrô estavam quatro são-paulino, 40 organizados do Corinthians resolvem invadir o trem para agredi-los. Findo o incidente, assinam um termo circunstanciado e vão para casa como se nada tivesse acontecido.

A conivência com a qual estado, polícia e organizadas lidam com esse tipo de fato explica o porquê deles ainda acontecerem. Medidas paliativas como sempre, discursos vazios e ação zero, como tendemos a tragicamente acostumarmo-nos. É um crime, além de esdrúxulo, deslocado do campo de jogo. Contudo, por ser relativo ao futebol, recebe tratamento leniente e inócuo.

Todos lembram da briga generalizada entre torcedores do Atlético-PR e Vasco, na última rodada do brasileiro de 2013. Dos 31 indiciados, 22 tiveram, esta semana, direito à suspensão do processo. Em contrapartida, não poderão ir a eventos esportivos nem cometer outros crimes durante dois anos. Parênteses, como se não poder cometer crimes fosse punição para qualquer coisa.

Da batalha campal no Couto Pereira em 2009, num Coritiba x Fluminense, apenas 14 pessoas foram identificadas. Metade cumpriu penas brandas e metade ainda aguarda julgamento. Ninguém está/foi preso.

Em Santa Catarina, torcedores organizados não podem frequentar estádios com artefatos das torcidas, mas podem ir a todos os jogos desde que usem outro fardamento. Reprime-se a entidade, como se fosse um ser próprio, e, por tabela, os que não têm nenhum problema com confusões. Porém às pessoas que executam atos passíveis de punição, medida alguma é tomada.  
 
O medo e os problemas com violência – sim existentes – fizeram com que grande parte da população se afastasse dos gramados. O combate acabou dando-se, todavia, com a simultânea extinção do torcedor torcedor, que chora e comemora os feitos de sua agremiação. Dentro de campo, ou melhor, dentro dos estádios, desenhou-se uma situação que parece não poder coexistir, mas ela pode.    

2015 poderá apresentar passos importantes para o futebol brasileiro. No ano seguinte à Copa do Mundo, nossos clubes tiveram algo próximo ao que pode se chamar de pré-temporada. O Bom Senso FC articula-se em favor do esporte. A medida provisória que permitiria o refinanciamento das dívidas dos clubes sem qualquer contrapartida foi felizmente vetada. Apesar da CBF, novos ares podem soprar sobre nossos gramados. 

Por fim, sim, eu gosto de belos estádios. Torço apenas para que a emoção de antigamente volte a frequentá-los.



* * * * * * 

 Pedro Mox
, jornalista e fotógrafo, especial para o NR. Imagem: Jornalismo FC

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Outro mundo


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

O trem cata-jeca suíço desliza entre cidadezinhas impecáveis, lagos, montanhas, túneis e vacas. A cada três ou cinco minutos, uma rápida parada, para deixar e pegar passageiros das comunidades rurais. Enquanto isso, minhas impressões sobre esse outro mundo vão se organizando. Passamos por muitos pequenos milharais espalhados, que eu não esperava encontrar aqui, tão longe da América Latina. Aliás, nem as plantações de girassóis, onde se pode comprar as majestosas florzonas colhendo-as pessoalmente e deixando o dinheiro num recipiente, pois não tem ninguém para atender.

Embora o lugar esteja completamente vazio, a mesa redonda que escolhemos num café não está disponível. Daqui a poucos minutos, os trabalhadores das obras próximas (há construções por todo lado) vão chegar para o trago da tarde, e aquele é o canto deles, nos avisa o proprietário, muito compenetrado. Somos trasladadas a outra mesa, com copos, bebidas e duas crianças pequenas.

O passeio nos arredores do grande lago cercado de mata nativa no auge do verde, tão apreciado nesta bela tarde de fim de verão, inclui a passagem por churrasqueiras públicas, onde se ouve música de tudo quanto é lugar, enquanto famílias assam linguiças e espetinhos de carne. A Europa multi-cultural é um fato, apesar dos muitos narizes torcidos. À beira da água, patos e cisnes vêm dar um dedo de prosa com os humanos e encantar as crianças. No meio do mato, um banheiro público numa cabana de madeira dá uma impressão de rusticidade que se desfaz rapidamente. Por dentro, é ultra-moderno, confortável e imaculado.

Subimos a um restaurante panorâmico onde a vista dos lagos e seus ancoradouros lotados, montanhas verdes e pequenos núcleos urbanos dá um susto bom, acompanhado da sensação de ordem estética, como numa pintura acadêmica. Afinal, estamos na Suíça. O grande salão envidraçado está lotado de gente e do ruído das conversas animadas em grandes grupos de velhos, famílias com crianças e amigos, celebrando a tarde ensolarada e o verão, que se despede.

Para esta brasileira convicta, isto aqui parece mesmo um outro mundo, com seu silêncio, sua rigidez e sua competência organizativa, um lugar onde sempre se espera que tudo funcione, com um propósito definido, regularidade e horário. Será que eles realmente acreditam que a vida pode ser assim controlada? Tenho a impressão de que um acontecimento espontâneo pode desconcertá-los de tal forma, que é melhor não. Mas tem seus lugares cheios e barulhentos, felizmente.

* * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Tudo ao mesmo tempo agora

Foram décadas de gestação do desejo de conhecer Berlim, uma cidade outrora efervescente, mas que se encontrava dividida por um muro, num país partido por razões difíceis de entender pra uma adolescente bisbilhoteira do que rolava pelo mundo. Nos últimos anos, a curiosidade só aumentou, pelo incrível desfecho da divisão, posta abaixo pelos moradores da cidade, com suas próprias mãos.

Cheguei agora, quando o que sobrou do malfadado muro é um traçado no chão, alguns pequenos trechos preservados intencionalmente e “lascas” que dizem ser dele, vendidas em medonhos invólucros de acrílico nas lojas de badulaques turísticos. Meu hotel fica na antiga parte ocidental, próximo à praça Wittenberg e a uma rua de comércio das mais concorridas. Até onde pude perceber numa visita de poucos dias, nada restou na vida cotidiana da cidade que sugira que algum dia ela foi dividida. Difícil imaginar o dia a dia controlado pela Stasi em sórdidos detalhes, magistralmente registrado no filme “A vida dos outros”.
enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos.
Tendo sido palco de tudo quanto é acontecimento relevante para a história da Alemanha, em que pese o gosto germânico pela grandiosidade, e destruída e reconstruída diversas vezes, a monumentalidade do miolo de Berlim é de deixar brasiliense de queixo caído e pés maltratados. Além das grandes distâncias, é preciso contornar quilômetros de tapumes. A cidade é bonita, com céu amplo e profundo, mas parece que resolveram reformar todas as avenidas, edifícios históricos e praças ao mesmo tempo. Para nossa sorte, os museus estão ali, paradinhos, esperando que entremos e aproveitemos tudo o que pudermos dos magníficos acervos. Valem a viagem, o frio e a chuva.

Multidões de turistas se deslocam pra lá e pra cá, e aposto que muitos nem percebem que o conjunto de blocos de concreto geométricos que formam um grande labirinto a céu aberto, ladeado pela rua Hannah Arendt, é o Memorial do Holocausto. Mas como não perceber?

Hoje, quando desci para o café da manhã no hotel, dei de cara com uma mulher toda coberta de preto, naquele traje que deixa aberta só uma frestinha para os olhos, usado pelas muçulmanas em algumas regiões mais conservadoras. Estava acompanhada de outras duas mulheres, que tinham a cabeça coberta mas vestiam roupas “ocidentais”, e um homem jovem, que ostensivamente comandava o grupo. Os quatro ocuparam sozinhos uma grande mesa. Foi difícil controlar o incômodo que aquele grupo me causou. Esta convivência é inevitável na Europa de hoje, e está na origem de tantas situações de estranhamento e intolerância.

Pois é, enquanto algumas são obrigadas a se cobrir de preto e andar pela vida como zumbis anônimos, outras se submetem a tiranias diversas, como padrões de beleza e comportamento que nos roubam a autoestima e tentam eliminar as diferenças individuais que fazem de cada uma de nós aquilo que somos. Mas tudo bem, eu sei, este é um outro assunto. Só está aqui porque me fez pensar em muros, barreiras que estão esperando para ser derrubadas e superadas.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pragueações breves

Nas minhas andanças por aí, já passei alguns sufocos típicos de estar em viagem. Como pedir informação onde se deve, e receber desinformação. Já me aconteceu várias vezes, inclusive em lugares com fama de sérios, competentes e precisos, onde não se espera este tipo de falha. Sempre me faz lembrar que gente é gente em qualquer lugar, até naqueles onde se acha que as pessoas alcançaram uma condição “mais adiantada”. Lembrar disso é muito bom.
Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”
 Meu analfabetismo também me choca. Explico: desde a primeira vez que estive num país onde meu limitado conhecimento de idiomas era inútil, constatei a miséria que é não conseguir ler instruções, placas, cardápios, nada. Cada vez que isto me acontece, como agora, aqui em Praga, penso em como a leitura e, mais que isso, a capacidade de entender e interpretar o que se lê, é essencial. Conclusão nada original: deixar de investir pesado na educação é uma escolha perversa, mas parece que os governantes leem isto e não entendem...

Ontem pude conversar um bom tempo com uma senhora daqui, em espanhol. Considerando minha notável ignorância sobre esses lados do mundo, ouvir um pouco sobre esta cidade encantadora e seu povo foi um luxo. Tendo ela vivido todo o período do regime comunista e presenciado a divisão da Tchecoslováquia em dois países, perguntei-lhe qual tinha sido a melhor coisa do socialismo. No seu jeito suave e direto, ela respondeu: “A melhor coisa é que eu era jovem. Mas, falando sério, duas coisas eram muito boas: a inexistência de desigualdades de renda e acesso à educação, e o fato de que todos trabalhavam muito menos do que atualmente. Isto era considerado um absurdo por alguns, mas a verdade é que esta vida que se leva hoje, de trabalhar doze, catorze horas por dia e jamais ter tempo para outras coisas, é horrível. Os jovens de hoje não vivem, só trabalham.”

Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”. E depois de ver um pouco desta cidade tão linda, que transpira arte, cultura e humanismo em cada detalhe, vou dormir pensando na necessidade urgente de reabrirmos o espaço do ócio e da contemplação da beleza.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Todas as flores para Pilar

Cinzas de Saramago em frente a FJS
(crédito: Daniela Martins Gutierrez)
Era abril, eu passaria uns dias em Portugal, e escrevi para Miguel sem muita esperança de receber resposta. A vida de repórter independente na Europa é uma sucessão de tentativas frustradas de entrevista – chego a ficar feliz quando pelo menos me respondem que não é possível.

Com ele foi diferente. Respondeu uma hora depois e disse “sim, claro”.

Miguel Gonçalves Mendes, diretor do documentário José e Pilar (sobre o prêmio Nobel Saramago e sua esposa), me recebeu em um bar no centro de Lisboa, dias depois daquela primeira troca de e-mails. Pensei que com sorte conversaríamos uma hora e meia. Foram quatro dias. Conheci lugares fantásticos graças a ele e, mais do que isso, conheci, por sua causa, a uma mulher incrível. “É a mulher mais encantadora que eu já vi”, me disse ele.

Falava de Pilar del Rio, a viúva de Saramago, que depois de um telefonema de Miguel me abriu as portas da Casa dos Bicos – prédio que passava por reformas para abrigar a nova sede da Fundação José Saramago (FJS). Conversamos, ela me mostrou alguns projetos da FJS, e fui embora com a sensação de que Miguel tinha razão quando falou do encanto e da força daquela mulher que consegue ser, ao mesmo tempo, dura e doce.

Pilar trabalha todos os dias, sempre está elegante e disposta. Costuma dizer que é assim porque pertence a outra geração e não a atual, que já “nasceu cansada”.

Perguntei a Miguel se ele nunca havia visto a Pilar triste. Sua resposta foi definitiva: “Claro que vi, mas ela se nega, se nega a deixar a tristeza ficar”.

Hoje, dia 13 de junho, a Fundação José Saramago começa a funcionar no novo espaço, um prédio lindo, de três andares e quase cinco séculos de história. É um dia especial para todos os leitores de Saramago, que de certa forma contribuiram para que o espaço se tornasse realidade – a fundação se mantém com um percentual do dinheiro da venda dos livros do escritor.

Não há financiamento público, mas há, sim, interesse público no que a entidade faz. Na FJS trabalham pessoas muito capazes e comprometidas – conheci algumas delas –, o que me faz crer que projetos interessantíssimos serão gestados ali nos próximos tempos.

Hoje é um dia muito especial também para Pilar. Eu vi com que carinho ela cuidava de cada detalhe do novo prédio e posso imaginar sua satisfação com a chegada do dia de hoje.

Abrir as portas da Casa dos Bicos para o público significa para ela a realização de um compromisso. Quando Saramago estava bastante doente, os dois tiveram uma conversa. “E depois, o que faço eu?”, ela perguntou. O escritor pensou um pouco e respondeu: “Continua-me”. Para continua-lo, Pilar decidiu mudar-se para Lisboa (moravam na ilha espanhola de Lanzarote) e acompanhar ainda mais de perto os trabalhos da fundação.

Hoje, como todos os dias, ela vai chegar à fundação e depositar uma rosa aos pés da oliveira que fica no passeio onde estão enterradas as cinzas de Saramago – bem em frente à Casa dos Bicos.

Hoje, como todos os dias, Pilar também merecia receber flores. Hoje, em especial, merecia todas as flores do mundo ou pelo menos aquela do conto infantil que Saramago escreveu: “A Maior Flor do Mundo”.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas. Hoje, especialmente, manda essa ótima contribuição.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um rolê em Amsterdã

Para uns, Amsterdã é a cidade da maconha. Para muitos outros também, e de fato poder fumar ou comprar sem problemas é um dos atrativos utilizados para atrair turistas. Todavia, é também singular por n motivos que fazem por merecer uma visita.

Muito arborizada e entrecortada por canais, é gostoso passear por suas ruas – se o clima ajudar, claro. A parte central, mais próxima do mar, tem muitas lojas, a maioria dos coffe shops, o red light district. Um pouco distante vê-se apenas residências, casas muito boas, como nos entornos do Vondelpark, o maior da cidade, ótimo para um piquenique ou apreciar as holandesas no banho de sol.

No meio do parque há uma grade circular utilizada como achados e perdidos do local. Quando alguém encontra um objeto, o pendura e ali ele fica até o dono pegar. Fiquei intrigado ao ver um tênis (só um pé)...

Achei o clima local um misto de liberdade com um quê de pesado – Amsterdã respira sexo e drogas. Em qualquer birosca encontra-se biscoitos, sementes, pasta dental, camisinha e tudo que puder ser feito de maconha. Numa delas, na qual minha amiga queria comprar um guarda-chuva, o vendedor nos ofereceu um doce ótimo e totalmente seguro. Achei prudente não confiar nele.

O famoso red light district não passa de algumas vielas nas quais prostitutas ficam em vitrines a espera de seus clientes. Há todas as idades e etnias, e acho que 80% dos que lá vão são atraídos pela curiosidade, não pelos serviços.

Ao contrário do Brasil, lá acontece tudo acontece à luz do dia e de forma legalizada. No entanto, é impactante assistir a uma mulher exposta vendendo a si mesma.

Os coffe shops são um capítulo a parte. Pensava que encontraria vários locais bacanas, esperando clientes para relaxar. Ledo engano, a maioria deles é apertado, meio capenga e com uns três chapados encostados num canto. Ficaria decepcionado, mas a sorridente garçonete do restaurante do Amsterdan Museum deu-me uma boa sugestão de onde ir, indicando o Dampkring – isto após trazer minha almôndega tradicional holandesa com mostarda especial. Descobri ser uma almôndega comum num pão de trigo e um sache de mostarda, mas valeu.

Voltando ao coffe shop, o Dampkring serviu de locação para o remake de “11 homens e um segredo”. Há fotos de George Clooney e Brad Pitt na parede, além de cenas do filme. O atendente conta que, durante as gravações, Clooney apenas visitou o lugar, enquanto Pitt provou algumas de suas especialidades.

O cardápio tem uma dúzia de opções, todas com descrições de o que provocam e preços entre 8 e 20 ou 25 euros o grama. E também os famigerados space-cakes, bolinhos de maconha.

Outra experiência que só Amsterdã pode proporcionar diz respeito ao hostel. Quando chegamos não havia ninguém, após uns 20 minutos aparece um cara jovem, de óculos way-farer com uns desenhos que lembravam o metrô londrino e cara de chapado. Pergunta, com uma voz lenta “are you the brazilians, Yes?”.

Figura, nem havia como ficar brabo com ele, nem mesmo após ser acordado às três da manhã por um casal que teoricamente ocuparia o quarto aonde estou. O gerente obviamente sumiu, e ninguém sabe o que acontece. Uma ligeira mudança e três mochilas depois estou num quarto novo – apenas pela sorte que minhas amigas não foram a nenhuma balada, senão provavelmente eu teria dormido com eles.


A capital holandesa é relativamente pequena, fácil de andar. Bicicletas são vistas por todo canto, é o principal meio de transporte – embora os bondes sejam também bastante úteis. Tanto neles quanto nos metrôs ou trens não há catraca, porém ser pego sem bilhete implica em pagar 50 euros no ato. O problema é que, até eu descobrir isto, dei umas voltas na boa vontade do condutor.

Ao deixar a cidade o motorista do ônibus “lembra” aos passageiros que na Inglaterra portar quaisquer substâncias como marijuana, cocaína, êxtase é terminantemente proibido, que as autoridades aduaneiras são severas, têm cães farejadores; e encerra “aconselhando” os passageiros que porventura esqueceram alguma coisa no bolso a irem no banheiro despejar o conteúdo. Aos esquecidos, nada mais apropriado.

Pedro Mox, fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 9 de março de 2011

Escambo e telegramas do Wikileaks

A julgar pelo conteúdo de telegramas do Departamento de Estado dos EUA, o Brasil poderia ter enorme campo de manobra para barganhar bastante a compra bilionária dos novos jatos para a Força Aérea brasileira. Acontece que a agência noticiosa Reuters se deu ao trabalho de garimpar na montanha de telegramas do wikileaks coisas que pareciam insólitas. Eles toparam com misteriosas negociações entre exportadores militares americanos e governos estrangeiros, intermediados pelo departamento de Estado.
Por exemplo, a Lockheed Martin queria vender aviões C-130 de transporte militar pesado para o Chad, mas o departamento de Estado observou que o país não tinha como pagar a conta e além disso havia mentido sobre o uso dos aviões, que seriam usados para bombardear revoltosos e não para transporte de cargas. Mesmo assim deu sinal verde para a transação para reforçar alianças regionais.
O acordo que mais interessa ao Brasil foi a tentativa da Lockheed Martin vender caças F-16 para os miltares tailandeses. Como aqui, lá os soviéticos e suecos estavam na concorrência, oferecendo caças parecidos em pacotes com diferentes vantagens. A Lockheed descobriu que os militares, sem muitos dólares disponíveis, estavam dispostos a fazer um inusitado escambo, pagando em mercadorias. O departamento de Estado concordou porque os soviéticos iriam ser derrotados na transação e porque a Lockheed iria ter um lucro tremendo. O pagamento iria ser feito com 80 mil toneladas de frango congelado, com grande valor de mercado. A transação só não deu certo porque outra junta militar derrubou a anterior e preferiu vender os frangos no mercado.
Dai o Brasil poderia tentar incluir alguma forma de escambo nas negociações. Talvez cachaça para os russos, mulatas para os franceses, estatais para os americanos e, para os suecos, eu não sei o que eles gostam.

Flávio de Carvalho Serpa é jornalista, especial para o NR

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Estreia: Território Europa de Sergio Denicoli

Os bebês que vêm de Paris

Na Europa a lenda diz que os bebês são feitos em Paris e distribuídos pela cegonha. Entre os brasileiros a ave é bem conhecida, mas a história de que seríamos fabricados na cidade-luz não nos soaria bem. São muitos quilômetros de distância e o pobre animal não suportaria tão pesada viagem. No entanto, no Brasil dos novos tempos, da grande potência econômica, do lulismo desmedido, não poderíamos ficar aquém dos nossos companheiros e companheiras do outro lado do Atlântico. Se as cegonhas não suportam a viagem de Paris aos trópicos, vamos ajudá-las a transportar as encomendas comprando os caças do presidente francês, Nicolas Sarkozy.
Apenas o mundo da fantasia pode explicar os gastos de mais de 12 bilhões de reais, anunciados pelo Brasil, para adquirir aviões de guerra fabricados na França. No seu delírio, o governo tenta justificar a negociação dizendo que não vai comprar apenas caças, mas sim transferência de tecnologia. Só que os próprios jornais parisienses deixam claro que estamos caindo no conto do vigário. Destacam que o ciclo de vida de um avião de combate é de 40 anos. Dizem que, com os 36 caças que devem ser comprados, o Brasil estará equipado até 2050 e, até lá, a tecnologia das aeronaves estará mais do que superada.
A Dassault Aviation, companhia que fabrica os aviões, foi profundamente atingida pela crise e os franceses ficaram impressionados com os frutos do potente lobby de Sarkozy. Ele conseguiu do presidente Lula uma garantia diplomática de preferência, em detrimento aos dois outros concorrentes, os Estados Unidos e a Suécia, que apresentaram propostas mais baratas e tecnicamente melhores, conforme relatório da própria Força Aérea Brasileira. Com a transação em vias de ser concluída, não apenas a empresa será salva de um grande colapso, mas também será garantida a geração de 5 mil empregos na França, com o dinheiro suado dos brasileiros.
Com o valor a ser gasto, o Brasil poderia contratar a mais competente equipe de técnicos e pesquisadores do mundo, para desenvolver uma tecnologia própria. Poderia ainda investir na formação de cientistas brasileiros, projetando o futuro do país com base em educação e não em ilusões militares, que parecem vindas dos filmes de guerra de Hollywood. Algo completamente distante da vocação brasileira.
A guerra que o Brasil tem que vencer é contra os seus traumas, a sua polícia corrupta, as fronteiras mal vigiadas - por onde passam drogas e contrabando, a violência e a corrupção política. Mas, no super Brasil, propagado por um marketing com base em números e não em dados sociais, os nossos grandes problemas são meros detalhes. Nas tabelas dos economistas estamos à frente de muitos países desenvolvidos e precisamos deixar isso claro, posando para a foto com a Torre Eiffel ao fundo. Portanto, é melhor esquecermos os relatórios técnicos, pois o que importa mesmo é que os bebês brasileiros também venham de Paris.

Sergio Denicoli é jornalista e pesquisador de mídias digitais na Universidade do Minho, em Portugal. Estreia hoje sua coluna Território Europa no Nota de Rodapé
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