por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
O trem cata-jeca suíço desliza entre cidadezinhas impecáveis, lagos, montanhas, túneis e vacas. A cada três ou cinco minutos, uma rápida parada, para deixar e pegar passageiros das comunidades rurais. Enquanto isso, minhas impressões sobre esse outro mundo vão se organizando. Passamos por muitos pequenos milharais espalhados, que eu não esperava encontrar aqui, tão longe da América Latina. Aliás, nem as plantações de girassóis, onde se pode comprar as majestosas florzonas colhendo-as pessoalmente e deixando o dinheiro num recipiente, pois não tem ninguém para atender.
Embora o lugar esteja completamente vazio, a mesa redonda que escolhemos num café não está disponível. Daqui a poucos minutos, os trabalhadores das obras próximas (há construções por todo lado) vão chegar para o trago da tarde, e aquele é o canto deles, nos avisa o proprietário, muito compenetrado. Somos trasladadas a outra mesa, com copos, bebidas e duas crianças pequenas.
O passeio nos arredores do grande lago cercado de mata nativa no auge do verde, tão apreciado nesta bela tarde de fim de verão, inclui a passagem por churrasqueiras públicas, onde se ouve música de tudo quanto é lugar, enquanto famílias assam linguiças e espetinhos de carne. A Europa multi-cultural é um fato, apesar dos muitos narizes torcidos. À beira da água, patos e cisnes vêm dar um dedo de prosa com os humanos e encantar as crianças. No meio do mato, um banheiro público numa cabana de madeira dá uma impressão de rusticidade que se desfaz rapidamente. Por dentro, é ultra-moderno, confortável e imaculado.
Subimos a um restaurante panorâmico onde a vista dos lagos e seus ancoradouros lotados, montanhas verdes e pequenos núcleos urbanos dá um susto bom, acompanhado da sensação de ordem estética, como numa pintura acadêmica. Afinal, estamos na Suíça. O grande salão envidraçado está lotado de gente e do ruído das conversas animadas em grandes grupos de velhos, famílias com crianças e amigos, celebrando a tarde ensolarada e o verão, que se despede.
Para esta brasileira convicta, isto aqui parece mesmo um outro mundo, com seu silêncio, sua rigidez e sua competência organizativa, um lugar onde sempre se espera que tudo funcione, com um propósito definido, regularidade e horário. Será que eles realmente acreditam que a vida pode ser assim controlada? Tenho a impressão de que um acontecimento espontâneo pode desconcertá-los de tal forma, que é melhor não. Mas tem seus lugares cheios e barulhentos, felizmente.
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*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
