Nesta sexta-feira, dia 16 de novembro, o escritor português José Saramago completaria 90 anos. Morto em 2010, o único Nobel da língua portuguesa será homenageado em vários cantos do mundo, entre eles o Brasil. Em São Paulo, no teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, haverá a exibição de cinco horas de imagens inéditas do documentário José e Pilar (2010). O realizador português Miguel Gonçalves Mendes, 34 anos, responsável pelo filme que conta a vida de Saramago e sua esposa, estará presente na homenagem ao escritor.
Atualmente residente no Brasil, onde desenvolve um projeto com Fernando Meirelles e trabalha na sequencia da série “Nada Tenho de Meu” (exibida pelo Canal Brasil), Miguel conversou com o NR sobre a experiência de ter convivido por quatro anos com o autor de Ensaio Sobre a Cegueira. Diz que ter passado esse período ao lado de Saramago e Pilar del Río mudou sua maneira de encarar a vida.
Nota de Rodapé – No documentário que você fez fica evidente que Saramago era quase um "pop-star". Era idolatrado por onde passava. Por que acha que ele atingiu esse status tão raro para um escritor, ainda mais de língua portuguesa?
Miguel Gonçalves Mendes – Acho que por várias razões. Primeiro, porque Saramago é um dos autores que mais pode ser reconhecido nos seus livros. Ou seja, o narrador e muitas vezes a trama mesmo são o próprio Saramago ou a sua visão do mundo. Por outro lado ele nunca se demitiu de agir. Como ele dizia, o trabalho de um escritor é obviamente escrever, mas também intervir na sociedade. Penso que Saramago várias vezes deu voz àqueles que não a tem. E por último, e talvez o principal, a qualidade incrível da sua obra que, exatamente por isso, é universal.
Nota de Rodapé – Portugal, e a Europa como um todo atravessam hoje uma crise profunda, e não parece haver saída. Saramago era um intelectual que não se furtava de opinar, alertar e convocar as pessoas a se rebelarem. Faltam intelectuais como ele em um momento como esse?
MGM – Penso que não faltam intelectuais, o que falta é que estes mesmos intelectuais não tenham medo. Assumam e lutem pelas suas condições. Nenhum ser humano se pode demitir das suas obrigações enquanto cidadão, algo que muitas vezes esquecemos. E a nossa obrigação base é contribuir para o bem comum. O que se passa na Europa é exatamente o oposto: o fim da solidariedade, o fim do respeito, o fim da crença no outro e o inicio de um discurso xenófobo e racista. Ora, ninguém no seu perfeito juízo lutara para defender esta Europa, e o que é lamentável é que se ponha em causa um dos projetos mais utópicos e bonitos da civilização ocidental. Países que reconheciam necessitar dos outros para melhorar o bem estar de todos...
NR – Vejo as pessoas muito desesperançadas e resignadas aqui na Europa. Há um fatalismo rondando a cabeça de todos, não há?
MGM – O que é triste é que não sabemos o que se seguirá e talvez o que segue sejam bem pior para todos. E quando digo todos, refiro-me ao mundo. Bem ou mal a Europa era um farol no que toca aos direitos pelos quais toda a humanidade lutou e o seu fim só poderá ser ruim para todos nós.
NR – Você conviveu quatro anos com Saramago, conheceu sua intimidade e acabou por tornar-se amigo dele. Além do documentário, o que guardou desse período?
MGM – Eu agradeço à vida por ter-me dado a possibilidade de conhecer uma mente brilhante como a de Saramago e poder construir uma relação de amizade com ele. O meu objetivo na vida é sentir que a vivo de uma forma plena, e tê-los conhecido (Saramago e Pilar) contribuiu em muito para atingir esse meu objetivo. Tê-los conhecido mudou efetivamente a minha vida, e fez-me perceber que não há tempo a perder. Esta é a única oportunidade que nós temos e como tal não podemos perder tempo a chorar ou a dizer que o mundo é horrível. Se é horrível é levantar as mangas e mudá-lo. Como Saramago dizia: não tenhas pressa e não percas tempo.
Miguel Gonçalves Mendes lançou recentemente, pela Companhia das Letras, um livro de entrevistas com Saramago e Pilar del Río.
Ricardo Viel, colunista do NR, também publica hoje no Valor Econômico um especial sobre os 90 anos do escritor português.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Todas as flores para Pilar
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| Cinzas de Saramago em frente a FJS (crédito: Daniela Martins Gutierrez) |
Com ele foi diferente. Respondeu uma hora depois e disse “sim, claro”.
Miguel Gonçalves Mendes, diretor do documentário José e Pilar (sobre o prêmio Nobel Saramago e sua esposa), me recebeu em um bar no centro de Lisboa, dias depois daquela primeira troca de e-mails. Pensei que com sorte conversaríamos uma hora e meia. Foram quatro dias. Conheci lugares fantásticos graças a ele e, mais do que isso, conheci, por sua causa, a uma mulher incrível. “É a mulher mais encantadora que eu já vi”, me disse ele.
Falava de Pilar del Rio, a viúva de Saramago, que depois de um telefonema de Miguel me abriu as portas da Casa dos Bicos – prédio que passava por reformas para abrigar a nova sede da Fundação José Saramago (FJS). Conversamos, ela me mostrou alguns projetos da FJS, e fui embora com a sensação de que Miguel tinha razão quando falou do encanto e da força daquela mulher que consegue ser, ao mesmo tempo, dura e doce.
Pilar trabalha todos os dias, sempre está elegante e disposta. Costuma dizer que é assim porque pertence a outra geração e não a atual, que já “nasceu cansada”.
Perguntei a Miguel se ele nunca havia visto a Pilar triste. Sua resposta foi definitiva: “Claro que vi, mas ela se nega, se nega a deixar a tristeza ficar”.
Hoje, dia 13 de junho, a Fundação José Saramago começa a funcionar no novo espaço, um prédio lindo, de três andares e quase cinco séculos de história. É um dia especial para todos os leitores de Saramago, que de certa forma contribuiram para que o espaço se tornasse realidade – a fundação se mantém com um percentual do dinheiro da venda dos livros do escritor.
Não há financiamento público, mas há, sim, interesse público no que a entidade faz. Na FJS trabalham pessoas muito capazes e comprometidas – conheci algumas delas –, o que me faz crer que projetos interessantíssimos serão gestados ali nos próximos tempos.
Hoje é um dia muito especial também para Pilar. Eu vi com que carinho ela cuidava de cada detalhe do novo prédio e posso imaginar sua satisfação com a chegada do dia de hoje.
Abrir as portas da Casa dos Bicos para o público significa para ela a realização de um compromisso. Quando Saramago estava bastante doente, os dois tiveram uma conversa. “E depois, o que faço eu?”, ela perguntou. O escritor pensou um pouco e respondeu: “Continua-me”. Para continua-lo, Pilar decidiu mudar-se para Lisboa (moravam na ilha espanhola de Lanzarote) e acompanhar ainda mais de perto os trabalhos da fundação.
Hoje, como todos os dias, ela vai chegar à fundação e depositar uma rosa aos pés da oliveira que fica no passeio onde estão enterradas as cinzas de Saramago – bem em frente à Casa dos Bicos.
Hoje, como todos os dias, Pilar também merecia receber flores. Hoje, em especial, merecia todas as flores do mundo ou pelo menos aquela do conto infantil que Saramago escreveu: “A Maior Flor do Mundo”.
Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas. Hoje, especialmente, manda essa ótima contribuição.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Um ano sem Saramago
Neste sábado, dia 18 de junho, completa-se um ano da morte de José Saramago. O escritor português morreu em casa, na ilha de Lanzarote (Espanha), às 12h30 (hora local), mas o relógio de parede de sua residência marcava as mesmas 16h de sempre. Os ponteiros estavam congelados por e para Pilar fazia mais de 20 anos.
Foi no ano de 1986, às quatro horas das tarde, que José Saramago viu, pela primeira vez, a mulher que o acompanharia pelo restante da vida e que, segundo ele próprio, a prorrogou – em A Viagem do Elefante, a dedicatória diz: A Pilar, que não deixou que eu morresse. E ela quem hoje toca a fundação que cuida da obra e da memória do escritor.
“Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou”, contou certa vez o escritor que costumava dizer que as melhores coisas de sua vida haviam acontecido tardiamente. Não era uma queixa, mas uma constatação que fazia muito sentido. Saramago decidiu tornar-se escritor depois do 50 anos, conheceu Pilar depois dos 60 e recebeu o Nobel aos 74 anos.
Quem assistiu ao documentário José e Pilar viu a luta do escritor português contra a morte. O corpo começou a dar sinais de fadiga, mas Saramago ainda queria escrever e amar. Em 2007 ele havia se recuperado de uma grave doença. Naquela época Saramago disse: “Nossa única defesa contra a morte é o amor”. Em junho de 2010, numa sexta-feira, a morte chegou para ele.
É uma ausência presente, como escreveu Pilar recentemente. “Um ano já sem Saramago. Como é possível, perguntar-se-ão alguns, se continua a publicar livros, se está nas conversas dos analistas políticos, se os jovens saem à rua com as suas frases escritas em cartazes ou em t-shirts, se há concertos de rock onde o aplaudem ou se organizam outros de música erudita em seu nome? Que estranha ausência é essa?”.
Já faz um ano, mas o relógio da casa de Lanzarote não se moveu sequer um segundo. Continua marcando as mesmas 16 horas de sempre. As 16 horas do início da segunda vida de Saramago.
Nesta dia 18 as cinzas de José Saramago serão levadas a Lisboa e depositadas em frente à sede da fundação que leva seu nome. Ele descansará à sombra de uma oliveira trazida de Azinhaga, sua terra natal. Os visitantes terão o gosto de sentar-se no banco de jardim e admirar, ao lado do escritor, o rio Tejo.
Ricardo Viel é jornalista e colunista do NR
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| Saramago pelo ótimo lápis de Cássio Loredano |
“Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou”, contou certa vez o escritor que costumava dizer que as melhores coisas de sua vida haviam acontecido tardiamente. Não era uma queixa, mas uma constatação que fazia muito sentido. Saramago decidiu tornar-se escritor depois do 50 anos, conheceu Pilar depois dos 60 e recebeu o Nobel aos 74 anos.
Quem assistiu ao documentário José e Pilar viu a luta do escritor português contra a morte. O corpo começou a dar sinais de fadiga, mas Saramago ainda queria escrever e amar. Em 2007 ele havia se recuperado de uma grave doença. Naquela época Saramago disse: “Nossa única defesa contra a morte é o amor”. Em junho de 2010, numa sexta-feira, a morte chegou para ele.
É uma ausência presente, como escreveu Pilar recentemente. “Um ano já sem Saramago. Como é possível, perguntar-se-ão alguns, se continua a publicar livros, se está nas conversas dos analistas políticos, se os jovens saem à rua com as suas frases escritas em cartazes ou em t-shirts, se há concertos de rock onde o aplaudem ou se organizam outros de música erudita em seu nome? Que estranha ausência é essa?”.
Já faz um ano, mas o relógio da casa de Lanzarote não se moveu sequer um segundo. Continua marcando as mesmas 16 horas de sempre. As 16 horas do início da segunda vida de Saramago.
Nesta dia 18 as cinzas de José Saramago serão levadas a Lisboa e depositadas em frente à sede da fundação que leva seu nome. Ele descansará à sombra de uma oliveira trazida de Azinhaga, sua terra natal. Os visitantes terão o gosto de sentar-se no banco de jardim e admirar, ao lado do escritor, o rio Tejo.
Ricardo Viel é jornalista e colunista do NR
sábado, 19 de junho de 2010
E agora, José?
Para José Saramago, o poema José, de Carlos Drummond de Andrade, era como um mantra. O escritor contou que o repetia cada vez que a vida lhe trazia uma dúvida. Saramago morreu ontem (dia 18 de junho), em sua casa, em Lanzarote, na Espanha, aos 87 anos. Feito o anúncio, surgiu na internet farto material sobre o escritor português – muita coisa já na gaveta, preparado em 2008 quando ele quase foi embora.
Eu, simples leitor (atento, é bem verdade) de Saramago, me atrevo a escrever sobre. Espero acrescentar algo.
Antes de ateu, pró-Cuba, comunista, expulso de Portugal, “inimigo” da Igreja e dono de uma escrita única, José Saramago foi um grande escritor e um grande homem.
Homem de origem simples, de família de camponeses, o escritor tinha o avô, que era analfabeto, como maior exemplo. Fez questão de falar disso quando recebeu o Nobel, em 1998. “O homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever.” Jorénomi Melrinho, que se despediu da figueira que tinha no quintal quando, sabendo que ia morrer, foi levado ao hospital, jamais soube que o neto seria escritor e usaria muito do que com ele aprendeu para criar seus personagens. Figuras humildes e encantadoras, como a camareira Lídia em O Ano da Morte de Ricardo Reis:
Se não quiser perfilha o menino, não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito, como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade, distingua-se quem puder.
Ou o revisor Raimundo Silva, em a História do Cerco de Lisboa:
Raimundo Silva olhou e tornou a olhar o universo, murmurou sob a chuva, Meu Deus, que doce e suave tristeza, e que não nos falte nunca, nem mesmo nas horas de alegria.
Saramago também foi capaz de criar diálogos simples e profundos, como este entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis:
Sempre vivi só, Também eu, Mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia para alguém ou alguma coisa que está dentro de nós.
E o que dizer das reflexões de seus narradores, como em A Janguada de Pedra?
A barca de pedra está lá, alta e aguda como na primeira noite, Pedro Orce não estranha, cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos vêem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedras, e as altas proas, ainda que sejam de ilusão.
Em uma época em que livros de auto-ajuda são best-sellers, ler Saramago serve como antídoto: nunca fechei um livro seu como respostas prontas; sempre, cheio de perguntas e inquietações.
Uma vez perdi um livro de Saramago no ônibus. Faltavam menos de 20 páginas para terminar. O ódio por minha burrice deu lugar à resignação quando pensei que a pessoa que o encontrasse poderia conhece-lo e tirar proveito da obra. Fui a uma livraria e, de pé, devorei as páginas que faltavam.
Que sua morte sirva para que seus livros sejam lidos ainda mais. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, Saramago desenvolve a tese de que, assim como demoramos nove meses para nascer, demoramos nove meses para morrer. Sua obra o tornará imortal.
Olhos precisos
Antes de tudo, esse português foi um homem capaz de ver o mundo como poucos. Por trás de lentes enormes para corrigir a miopia, estavam olhos precisos; de um homem sábio, dono de um senso de justiça e amor ao próximo que nada tinha que ver com religião, mas humanidade. Homem que nunca perdeu os ideais e a utopia de mudar o mundo, e que usava a literatura como arma. “Antes escrevia porque não queria morrer. Mas agora mudei. Hoje escrevo para compreender o que é um ser humano.” Acrescentaria: e para ajudar-nos a tentar compreender essa incógnita.
Em uma entrevista, pediram a Saramago um conselho aos jovens. O escritor demorou uns instantes e respondeu: “Não percam tempo, mas também não tenham pressa”.
Pressa foi o que o português não teve na vida. Escreveu seu primeiro livro aos 25 anos e descobriu, segundo ele mesmo, que nada tinha a dizer. Calou-se por mais 20 anos. Costumava dizer que tudo na sua vida aconteceu tarde: virar escritor, conhecer o grande amor da vida...
E a morte, veio na hora certa? Saramago morreu aos 87 anos, lúcido e produtivo. Há duas semanas disse a Pilar, sua mulher, que tinha vontade de escrever um novo livro. Foi aconselhado a esperar, porque tinha a saúde debilitada.
Saramago se foi. Azar dos que ficam, que agora se perguntam: e agora, José? A luz se apagou.
Pilar colocou sobre o corpo de Saramago, velado na biblioteca de sua casa, um lenço com os seguintes dizeres: estaremos extremamente conectados à bondade do mundo. A frase fora mandada por um leitor argentino.
Recomendo a leitura de dois excelentes textos sobre Saramago publicados por conta de sua morte. De Luiz Schwarcz, Saudade não tem remédio. E de Juan Cruz, La felicidad era uma isla para Saramago.
Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
Eu, simples leitor (atento, é bem verdade) de Saramago, me atrevo a escrever sobre. Espero acrescentar algo.
Antes de ateu, pró-Cuba, comunista, expulso de Portugal, “inimigo” da Igreja e dono de uma escrita única, José Saramago foi um grande escritor e um grande homem.
Homem de origem simples, de família de camponeses, o escritor tinha o avô, que era analfabeto, como maior exemplo. Fez questão de falar disso quando recebeu o Nobel, em 1998. “O homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever.” Jorénomi Melrinho, que se despediu da figueira que tinha no quintal quando, sabendo que ia morrer, foi levado ao hospital, jamais soube que o neto seria escritor e usaria muito do que com ele aprendeu para criar seus personagens. Figuras humildes e encantadoras, como a camareira Lídia em O Ano da Morte de Ricardo Reis:
Se não quiser perfilha o menino, não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito, como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade, distingua-se quem puder.
Ou o revisor Raimundo Silva, em a História do Cerco de Lisboa:
Raimundo Silva olhou e tornou a olhar o universo, murmurou sob a chuva, Meu Deus, que doce e suave tristeza, e que não nos falte nunca, nem mesmo nas horas de alegria.
Saramago também foi capaz de criar diálogos simples e profundos, como este entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis:
Sempre vivi só, Também eu, Mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia para alguém ou alguma coisa que está dentro de nós.
E o que dizer das reflexões de seus narradores, como em A Janguada de Pedra?
A barca de pedra está lá, alta e aguda como na primeira noite, Pedro Orce não estranha, cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos vêem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedras, e as altas proas, ainda que sejam de ilusão.
Em uma época em que livros de auto-ajuda são best-sellers, ler Saramago serve como antídoto: nunca fechei um livro seu como respostas prontas; sempre, cheio de perguntas e inquietações.
Uma vez perdi um livro de Saramago no ônibus. Faltavam menos de 20 páginas para terminar. O ódio por minha burrice deu lugar à resignação quando pensei que a pessoa que o encontrasse poderia conhece-lo e tirar proveito da obra. Fui a uma livraria e, de pé, devorei as páginas que faltavam.
Que sua morte sirva para que seus livros sejam lidos ainda mais. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, Saramago desenvolve a tese de que, assim como demoramos nove meses para nascer, demoramos nove meses para morrer. Sua obra o tornará imortal.
Olhos precisos
Antes de tudo, esse português foi um homem capaz de ver o mundo como poucos. Por trás de lentes enormes para corrigir a miopia, estavam olhos precisos; de um homem sábio, dono de um senso de justiça e amor ao próximo que nada tinha que ver com religião, mas humanidade. Homem que nunca perdeu os ideais e a utopia de mudar o mundo, e que usava a literatura como arma. “Antes escrevia porque não queria morrer. Mas agora mudei. Hoje escrevo para compreender o que é um ser humano.” Acrescentaria: e para ajudar-nos a tentar compreender essa incógnita.
Em uma entrevista, pediram a Saramago um conselho aos jovens. O escritor demorou uns instantes e respondeu: “Não percam tempo, mas também não tenham pressa”.
Pressa foi o que o português não teve na vida. Escreveu seu primeiro livro aos 25 anos e descobriu, segundo ele mesmo, que nada tinha a dizer. Calou-se por mais 20 anos. Costumava dizer que tudo na sua vida aconteceu tarde: virar escritor, conhecer o grande amor da vida...
E a morte, veio na hora certa? Saramago morreu aos 87 anos, lúcido e produtivo. Há duas semanas disse a Pilar, sua mulher, que tinha vontade de escrever um novo livro. Foi aconselhado a esperar, porque tinha a saúde debilitada.
Saramago se foi. Azar dos que ficam, que agora se perguntam: e agora, José? A luz se apagou.
Pilar colocou sobre o corpo de Saramago, velado na biblioteca de sua casa, um lenço com os seguintes dizeres: estaremos extremamente conectados à bondade do mundo. A frase fora mandada por um leitor argentino.
Recomendo a leitura de dois excelentes textos sobre Saramago publicados por conta de sua morte. De Luiz Schwarcz, Saudade não tem remédio. E de Juan Cruz, La felicidad era uma isla para Saramago.
Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago partiu sereno e tranquilo
O mundo hoje está mais triste, a humanidade mais desinteressante, o mundo das ideias e dos ideais, mais pobre. Morreu nesta sexta-feira, 18 de junho, o escritor José Saramago, aos 87 anos, “em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu acompanhado da família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”, informou em nota a Fundação que leva seu nome.
Saramago tinha a saúde debilitada há algum tempo. Em 2007, uma doença respiratória conseguiu o impossível: fazer o ateu convicto quase acreditar num milagre, o da sua recuperação. Pelo menos foi o que ouviu dos médicos. E também impediu o escritor de escrever. À época, Saramago se viu obrigado a interromper a produção da obra “A Viagem do Elefante” por seis meses. Apenas dois dias após a alta médica, retomou o que considerava o livro mais jovial e mais divertido que já escreveu. Saramago contou essa história com o bom humor típico de suas sempre brilhantes palavras durante o lançamento do livro no Brasil, em novembro de 2008.
“Foi escrito em estado de pura felicidade por ter escapado. E mais: saí dessa doença com uma serenidade interior que nunca tinha experimentado. Pilar diz que é um livro cheio de sabedoria... e talvez seja”, disse, emocionado, a uma plateia privilegiada, de pouco mais de 700 pessoas, que ouviu naquele dia, durante quase duas horas, o escritor pensador falar de sua vida, suas histórias, do amor pela mulher, Pilar del Rio.
Eu estava lá e tive certeza de que aquele era um momento da minha vida do qual me orgulharia sempre, sentiria saudades e sobre o qual lembraria com muita dor quando Saramago se fosse. E foi exatamente como me senti hoje.
Saramago é um gênio, um escritor criativo, um contador de histórias como poucos. Mais que tudo isso, José Saramago era um homem muito especial. Escrevia sobre as injustiças do mundo e, sem alarde, trabalhava para ajudar a corrigi-las. O mais recente lance foi a reedição de seu livro “Jangada de Pedra”, cuja venda foi totalmente revertida para o fundo da Cruz Vermelha no Haiti. O que segundo ele só foi possível graças “à pronta generosidade das entidades envolvidas na edição do livro”.
Saramago era assim. E faz cada vez mais falta ao mundo seres da espécie humana que sejam assim: verdadeiros, poéticos, generosos, simples.
Seus dias de sobrevivente, como se autodefinia, acabaram. Faz lembrar daquela noite em que falava para o auditório lotado sobre o fim da viagem do elefante “que fez longa viagem num rigoroso inverno, para ter um triste fim. Uma metáfora que trata da inutilidade da vida, de não conseguirmos fazer da vida mais do que ela é”.
Mas Saramago conseguiu. Fez da vida mais do que ela é.
Claudia Motta é jornalista e escreveu especialmente ao Nota de Rodapé
Saramago tinha a saúde debilitada há algum tempo. Em 2007, uma doença respiratória conseguiu o impossível: fazer o ateu convicto quase acreditar num milagre, o da sua recuperação. Pelo menos foi o que ouviu dos médicos. E também impediu o escritor de escrever. À época, Saramago se viu obrigado a interromper a produção da obra “A Viagem do Elefante” por seis meses. Apenas dois dias após a alta médica, retomou o que considerava o livro mais jovial e mais divertido que já escreveu. Saramago contou essa história com o bom humor típico de suas sempre brilhantes palavras durante o lançamento do livro no Brasil, em novembro de 2008.
“Foi escrito em estado de pura felicidade por ter escapado. E mais: saí dessa doença com uma serenidade interior que nunca tinha experimentado. Pilar diz que é um livro cheio de sabedoria... e talvez seja”, disse, emocionado, a uma plateia privilegiada, de pouco mais de 700 pessoas, que ouviu naquele dia, durante quase duas horas, o escritor pensador falar de sua vida, suas histórias, do amor pela mulher, Pilar del Rio.
Eu estava lá e tive certeza de que aquele era um momento da minha vida do qual me orgulharia sempre, sentiria saudades e sobre o qual lembraria com muita dor quando Saramago se fosse. E foi exatamente como me senti hoje.
Saramago é um gênio, um escritor criativo, um contador de histórias como poucos. Mais que tudo isso, José Saramago era um homem muito especial. Escrevia sobre as injustiças do mundo e, sem alarde, trabalhava para ajudar a corrigi-las. O mais recente lance foi a reedição de seu livro “Jangada de Pedra”, cuja venda foi totalmente revertida para o fundo da Cruz Vermelha no Haiti. O que segundo ele só foi possível graças “à pronta generosidade das entidades envolvidas na edição do livro”.
Saramago era assim. E faz cada vez mais falta ao mundo seres da espécie humana que sejam assim: verdadeiros, poéticos, generosos, simples.
Seus dias de sobrevivente, como se autodefinia, acabaram. Faz lembrar daquela noite em que falava para o auditório lotado sobre o fim da viagem do elefante “que fez longa viagem num rigoroso inverno, para ter um triste fim. Uma metáfora que trata da inutilidade da vida, de não conseguirmos fazer da vida mais do que ela é”.
Mas Saramago conseguiu. Fez da vida mais do que ela é.
Claudia Motta é jornalista e escreveu especialmente ao Nota de Rodapé
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