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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os gatos de minha vida


por Thiago Domenici

 Para Mentor

Alvinegros, muita coisa diferencia a Piaf e o Zola. Nela, o nariz cor de rosa ganhou um leve “ponto final” preto. Nele, o nariz e o queixo, ambos brancos, ganharam uma cobertura preta sutil e meio triangular. Nela, o pelo é preto escuro e brilha. Nele, se esconde por baixo do preto uma tonalidade rajada num cinza grafite que só se vê com boa luz. Não são de sangue, mas são irmãos. E se amam. Nesse um ano de convivência, nem à distância é possível confundir a espreguiçada elegante da Piaf e o olhar de expectativa do Zola. O ritual da lambida de um e a faceirice da outra ao se jogar ao chão de barriga para cima ao identificar alguém que gosta é espetáculo à parte.

A adoção dos dois tem sido uma vivência das mais apaixonantes. Eu, que sempre gostei de bichos, tive algumas experiências dolorosas antes da emancipação a vida adulta. Emancipação significa ser o responsável, de fato, pelo bem estar do animal. Ao voltar no tempo lembro, por exemplo, de dois poodles (Snoopy e Baby) da minha infância que amei. Certo dia, sem mais, foram embora por conta de uma mudança de casa. Foi repentino e chorei muito.

Antes, tive outro cachorro vira-lata que nem Cesar Millan, o encantador de cães, daria jeito tão rapidamente. Eu, criança em flor, não sabia lidar e tive medo. E a cachorra se foi a desfrutar outro lar. Surgiria um gato siamês no horizonte. Era o Don Juan da rua Cantiga do Desencontro, onde morei parte da minha infância. Além dos amores e desamores felinos, o siamês arrumou inimigos zumanos na vizinhança, de quem roubava comida da panela. Era um boêmio e chegava sempre estropiado de suas quentes noitadas. Era livre. E um dia não voltou mais.

Antes de Piaf e Zola chegarem a bordo da nave, convivi com outro siamês: o Mentor. Além dele, ainda convivo com as persas Nina – carinhosamente chamada de Pipoca – e Fumaça. Tem ainda o Sombra, um vira-lata como a Piaf e o Zola, mas que de tão grande e peludo é confundido com a raça Maine Coon (aquela dos maiores gatos do mundo). Pois são quatro gatos e um cachorro além da Piaf e do Zola. Uma cachorra que tem certeza que é gato, no caso: a Lisa, uma pastora de shetland encantadora que merece um texto só para ela.

Todos são da família materna da Natalia (e dela também, é claro). Por assim dizer: da minha sogra e seu marido, além do meu cunhado. Nina lembra um algodão doce ou um pedaço de nuvem bem branquinho. Tem uma espécie de síndrome de down felina. A Fumaça, uma pequena maravilha, é de um cinza tenaz, desconfiada, mas amorosa, dona de um corpo lânguido que flutua em vez de andar. De olhos amarelo-ouro e expressão blasé, o Sombra, que é todo preto, não esconde sua verve gato de pelúcia dengoso.

E o Mentor? Ah, o Mentor. Logo nos primeiros meses de casa nova fora confundido com uma fêmea. Era macho, oras! E de olhos firmes e atentos. Um siamês voluptuoso e dono de uma inteligência difícil de explicar. Certa vez, conta Natalia, pegou uma caneta com uma patinha só e sentou com as duas patas traseiras. “Lembro que brinquei e cheguei a oferecer um papel pra ele”. Além disso, suas artes foram inúmeras: ficou preso no forro da cama-box, no edredon, com uma patinha presa na janela, no esgoto/fossa do banheiro, no telhado da casa do zelador. E sempre que alguém ia trocar uma lâmpada ele subia na escada e ficava estendendo a patinha como se fosse ajudar. Diz minha sogra que ele pegou uma mosca com uma pata só. É, sem dúvida, o felino mais perspicaz e curioso que conheci. Era dono de si mesmo, independente e orgulhoso. Resume bem o que o historiador Frances Taine escreveu: “conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria dos gatos é infinitamente superior.”

Piaf e Zola vieram da UIPA – União Internacional Protetora dos Animais. Zola chegou adulto e um tanto traumatizado. É um gato especial, sem dúvida. Seu miado é sua marca registrada: um cantarolar, quase um mantra, que varia de entonação conforme o seu desejo. Piaf, harmoniosa de ritmo próprio, dormia em meio a centenas de outros quando foi escolhida. “É calminha”, disse Natalia. De fato, é tranquila, mas com períodos de turbulência. Já Zola nos escolheu, estava decidido: olhou bem fundo nos nossos olhos e cantarolou: “me leva daqui, vai...”.

A adaptação nos primeiros meses foi complexa. Zola, por exemplo, se escondeu debaixo do armário da cozinha e depois no escritório. Foi preciso conquistar sua confiança,  coisa que veio umas 24h depois de sua chegada. Hoje, dorme diariamente ao pé da cama, acorda com minha esposa, toma “café” junto e volta a dormir. É um ritual, uma rotina inabalável.

Piaf, que adaptou-se bem a mudança de ambiente, foi acometida por uma espécie de gripe de gatos e sofreu com medicação pesada e rações especiais. Hoje, é a lady da casa e adora subir nas cadeiras, sofás (além de destruí-los) e se esfregar em nossas cabeças. Nesse um ano, nossa casa se encheu de alegria e nosso prazer é tão bom quanto o ronronar deles.


Thiago Domenici
, jornalista, coordenador e editor do NR. Ilustração: quadro do artista Aldemir Martins.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um abraço para outro



por Ricardo Viel*

 Un día, todos los elefantes se reunirán para olvidar. Todos, menos uno (Rafael Courtoise)

Não sei se era por educação, mas acabara de dizer ao garçom português, em um simpático portunhol, que aquele era o melhor bacalhau que comera na vida. Então me olhou demoradamente, mais do que o usual quando já se conhece a companhia de almoço, e pareceu duvidar de dizer algo. Por fim, tomou um gole da água e, como quem comenta sobre o clima, disse: sabe, você se parece muito a um amigo meu de muito tempo, da época do sindicato. E seguiu: você deve ser um pouco mais velho do que ele na época em que éramos amigos. Sou mais velho do que pareço, interrompi. Tenho 33 anos. Pois então sim, você é um pouco mais velho. Tínhamos vinte e poucos anos. Mas sim, você se parece muito com ele, os olhos, a barba, o nariz…

E começou a contar do que acontecia no Uruguai dos seus vinte e poucos anos; de como pouco a pouco os companheiros foram desaparecendo, sendo assassinados, até que já não havia outra opção a não ser ir embora. Comecei a criar imagens em minha cabeça, construídas a partir de filme, leituras e das vezes que andei por Montevidéu. Até que fui trazido de volta para aquela mesa com uma pergunta. E sabe o que fizeram com meu amigo? Era uma pergunta retórica, não tive que responder, só esperar. Um dia ele desapareceu, e uma semana depois encontramos seu corpo, desfigurado. Trazia um cartaz pendurado no pescoço que dizia: esse também pediu perdão.

Não contava com ódio, mas quase que com incredulidade. Como se às vezes tivesse que recordar aquilo para ter certeza que realmente aconteceu.

Ficamos em silêncio e em silêncio eu voltei ao bacalhau, que já não tinha o mesmo sabor. Depois reapareceram os assuntos amenos, como se aquela lembrança, igual à velha mendiga que entra em um shopping center e é rapidamente expulsa, tivesse ido embora. Se vai, mas a desgraçada imagem permanece na retina, fazendo-nos recordar o miserável que somos.

E quando nos despedimos, depois de promessas de seguirmos em contato, tive a impressão que o abraço que recebia estava guardado há décadas e tinha outro destinatário.

* * * * * * * *

Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR. Ilustração: Shanghai's Mojo Wang 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Vanzolini, um gênio imortal


por André Carvalho  ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Ele foi e foi sem pena, com o cravo branco na mão. Quanta vitória no passado, quanta página na história. Agora só toca harpa, de camisola e sandália. Aos sambistas, deixou a saudade, que corta como aço de “naváia”, deixando corações aflitos e os “óio cheio d’água”. No tempo em que tinha asa, piruetou, mandou brasa, mas agora a cachoeira desceu e não sobe mais a serra. Deus sabe o dia e a hora, vida como a dele não é feita para entender. É uma fumaça, e o tempo do homem, uma baforada. Deu na primeira edição: morte é paz.
Paulo Emílio Vanzolini foi um paulistano que trazia no sangue, como poucos, o micróbio do samba. Sambista dos bons, foi autor de grandes páginas do nosso cancioneiro, que fizeram com que o samba de São Paulo derrubasse fronteiras geográficas, alcançando ouvidos, mentes e corações pelo Brasil afora.

Àqueles que a genialidade habita, transcende a normalidade, o simples, o comum. Bom de caneta, de verso e prosa, ritmados em compasso de samba, o compositor era também doutor. Dr. Paulo Vanzolini, zoólogo altamente gabaritado, foi um dos maiores especialistas em répteis do mundo e diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo por mais de 30 anos.

A paixão pelo samba veio na tenra infância, quando tinha seus inocentes seis anos de idade e passava horas a fio escutando os grandes cartazes da música popular brasileira no rádio, aproveitando os momentos em que não estava na escola. Ainda menino, dava suas escapadas para ver a orquestra tocar em bailes na sede do Glorioso Futebol Clube. Depois, muitas vezes, no ginásio, a despeito de sua paixão pelos estudos, matava aula para assistir memoráveis rodas de samba.

O gosto pela música ganhou força na juventude, quando passou a frequentar os “inferninhos” do centro da capital paulista, desafiando versadores com rimas afiadas e iniciando-se na arte da composição. Vanzolini criou muito samba, fruto de histórias cotidianas que, atento, observava com intenção de transformar em música. Muitas composições se perderam pelas madrugadas paulistanas, junto ao sereno que caía do céu e se dissipava com os primeiros raios de sol da manhã. Outros, no entanto, permaneciam vivos, latentes em sua mente.

“Ronda” 

Certa vez, quando fazia ronda pelo centro da cidade, em seus tempos de cabo do Exército brasileiro, teve a inspiração para criar aquele que seria um dos grandes clássicos da música popular brasileira, “Ronda”. A primeira gravação deste samba, que fez com que Paulo Vanzolini ingressasse no meio musical profissional – ainda que ele se mantivesse, por toda a vida, focado em sua profissão de zoólogo –, foi um tanto curiosa.

Inezita Barroso, cantora paulista que gravou muita música caipira, sendo também grande conhecedora de temas folclóricos e sambas, era muito amiga da primeira mulher de Vanzolini, Ilze. Quando Inezita foi ao Rio de Janeiro, nos idos de 1953, gravar “Marvada Pinga”, um de seus maiores sucessos, levou à tiracolo o casal de amigos paulistas.

Noite Ilustrada
Chegando aos estúdios da RCA, surgiu um problema: ela não tinha em mente nenhuma música para registrar no lado B do disco. Precisava de alguma solução rápida. Perguntou a Vanzolini se ele não tinha nada “na meia” para ela gravar. Ele ofereceu, então, “Ronda”. Rapidamente, junto ao conjunto regional da gravadora, a cantora aprendeu o samba. E realizou o primeiro registro deste clássico, que, no entanto, não alcançou, nesta ocasião, grande repercussão.

Vanzolini ingressava, de forma inusitada, no meio artístico. Cronista musical, o compositor tinha sempre à mão um cantor, a quem chamava de “tradutor”, que o ajudava a trabalhar o samba que imaginava na cabeça. Adauto Santos e Luiz Carlos Paraná muito o ajudaram nisso, mas ele destacava um sambista chamado Zelão como um de seus maiores “tradutores”.

Era ele quem Vanzolini gostaria que gravasse “Volta por cima”. O destino fez, no entanto, com que o samba fosse imortalizado por Noite Ilustrada. Foi no ano de 1963 que veio o enorme sucesso. “Reconhece a queda e não desanima / Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” caiu na boca do povo. Vanzolini costumava dizer que a mensagem mais importante do samba não era o “volta por cima”, e sim o “reconhece a queda”.

“Eu me lembro quando Noite Ilustrada gravou ‘Volta por cima’, em 1962. Eu tinha 12 anos e já gostava de samba. Foi um sucesso enorme esta gravação”, afirma Eduardo Gudin – cantor e compositor paulistano, parceiro e arranjador de Vanzolini –, ressaltando que “o fato dele ser autor de dois clássicos absolutos da música brasileira, ‘Ronda’ e ‘Volta por cima’, engrandece muito seu nome e faz dele um ícone do samba paulista”. O compositor vai além e pontua que “poucos sambistas de São Paulo têm a visibilidade nacional” de Vanzolini. “Ele é muito respeitado, transcende as fronteiras regionais e se destaca nacionalmente”.

Se a gravação de “Ronda”, de Inezita Barroso, fez pouco sucesso – assim como os registros posteriores de Cláudia Moreno, Carmen Costa e Marlene –, foi com um disco produzido por Eduardo Gudin que a música entrou, definitivamente, para o cancioneiro nacional. “Em 1977, produzi um disco da Márcia, que levava o nome deste samba. Somente aí que “Ronda” estourou de vez”, lembra.

“Onze sambas e uma capoeira”

Gudin conheceu Paulo Vanzolini sete anos depois de se impressionar com a força do samba “Volta por cima”. Corria o ano de 1969. Com “Gostei de ver”, feito em parceria com Marco Antônio da Silva Ramos, Gudin alcançou as finais do V Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Vanzolini gostou, e quando encontrou o futuro parceiro no Bar Jogral – ponto de encontro da boemia paulistana –, fez questão de cumprimentá-lo, iniciando aí uma amizade que levaria para o resto da vida.

De propriedade do cantor e compositor Luiz Carlos Paraná e do publicitário Marcus Pereira, o Jogral, fundado em 1966, reunia músicos, artistas e boêmios paulistanos, que ali se encontravam para cantar e discutir os rumos da cultura popular brasileira. Um ano depois da fundação do bar, Marcus Pereira teve a ideia de produzir um disco com as músicas de Paulo Vanzolini, para ser distribuído entre os clientes de sua agência de publicidade. O disco “Onze sambas e uma capoeira” seria o embrião do selo Marcus Pereira Discos, que reuniria em seu catálogo pérolas da discografia brasileira, como, por exemplo, os dois primeiros discos solos de Cartola.

“Onze sambas e uma capoeira” contou com as participações de Luiz Carlos Paraná, Adauto Santos, Cláudia Moreno, Mauricy Moura e os irmãos Chico e Cristina Buarque. Com 16 anos de idade, Cristina fazia ali sua primeira gravação profissional, cantando o samba “Chorava no meio da rua”. A cantora lembra-se de sua estreia nos estúdios: “Minha mãe não queria deixar, se preocupava com meus estudos, achava que eu não deveria seguir carreira de artista”.

O fato de o disco ter sido lançado, à princípio, em tiragem limitada, como brinde para clientes da agência de publicidade de Marcus Pereira (depois seria relançado comercialmente), fez com que o publicitário e produtor musical conseguisse dobrar sua mãe, Maria Amélia. “Paulo Vanzolini foi o responsável pelo pontapé inicial na minha carreira”, diz a sambista ao Nota de Rodapé.

Vanzolini, por Cristina e Gudin

“Paulo era muito amigo de meu pai e frequentava muito a minha casa, quando morávamos em São Paulo. Minha mãe também era muito amiga da primeira mulher dele. Era aquela amizade de família, gostosa”, relembra Cristina, ressaltando que, com a morte de Sérgio [Buarque de Hollanda], a amizade permaneceu. “Ele gostava de ver as cantorias das meninas, ficava encantado, adorava participar daquilo”.

Cristina homenagearia Vanzolini em 1974, quando gravou em seu disco de estreia o samba “Cara limpa”, brilhante criação do compositor paulista (“Já me acostumei com dia a dia em vez de vida inteira / Relógio em vez de retrato na cabeceira”). Em 2002, gravaria outras quatro composições do paulista, no “Acerto de contas”, caixa com 4 CDs, contendo a grande maioria das músicas criadas por Vanzolini: “Falta de mim”, “Morte é paz”, “Noite longa” e “Mente”, esta última feita em parceria com Eduardo Gudin.

“Foi nossa primeira parceria”, conta Gudin. “Ele me mandava a letra e eu fazia a música por cima, fizemos quatro sambas nesse esquema”, diz. Além de “Mente”, o sambista fez melodia para as bem colocadas palavras criadas por Vanzolini em “Longe de casa”, “Condição de vida” e “Pra tirar você do sangue”. Há, no entanto, a possibilidade desta lista aumentar. “Tenho duas letras inéditas dele comigo”, revela o compositor.

A forte amizade entre Gudin e Vanzolini fez com que o primeiro produzisse e criasse os arranjos do disco “Inéditos de Paulo Vanzolini”, lançado em 1987, e que não chegou a ser comercializado – foi distribuído, tal como a primeira edição de “Onze sambas e uma capoeira”, como brinde para clientes de uma empresa.

Além de “Onze sambas e uma capoeira” (1967), “Acerto de contas” (2002) e deste raro “Inéditos de Paulo Vanzolini” (1987), a discografia do compositor contempla o álbum “A música de Paulo Vanzolini” – lançado em 1974, com Paulo Marques dividindo o microfone com Carmen Costa – e o disco “Por ele mesmo”, de 1979, onde o sambista, finalmente, interpreta suas canções. “Ele era engraçado cantando, todo desafinado, sem ritmo”, lembra, com graça, Cristina.

Na opinião de Cristina e Gudin, o que salta aos olhos na obra de Paulo Vanzolini é o extremo esmero que tinha com as palavras. Cronista social de primeira grandeza, burilava as letras de seus sambas até conseguir o resultado perfeito, que desse ritmo às rimas e às ideias expostas sob a melodia de sambas, choros, valsas, toadas e capoeiras.

“As letras dele são geniais. Ele tinha cada sacada... Era muito louco. Sempre bem humorado”, aponta Cristina. “Era um cronista, tinha um linguajar muito peculiar. Gostava de contar história dos outros, coisas que observava em suas andanças pela cidade e em suas viagens que fazia trabalhando como zoólogo”.

Gudin endossa o argumento da caçula dos irmãos Buarque de Hollanda. “Ele tinha uma preocupação com a letra. Tinha um cuidado, um capricho com as palavras, buscava o tamanho certo, a medida exata. Era um cronista, como Noel e Chico”. Para o sambista, Vanzolini “armou um esquema musical só dele. Ele era diferente mesmo, tinha um talento incrível. Era superdotado, um gênio”.

As criações de Paulo Vanzolini

Das crônicas urbanas do mestre, a vida boêmia se faz presente em composições como o samba “Falso boêmio” (“Porque não é boemia trocar noite pelo dia / Beber com ar de tristeza / Ser boêmio é diferente / É viver clinicamente, padecendo com grandeza”) ou a “Valsa das três da manhã” (“Eu não bebo pra esquecer / Bebo pra lembrar / Bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado / É o meu instante de felicidade”).

A praça Clóvis, em São Paulo, na década de 1960
O retrato de São Paulo é pintado com cores de tragicomédia, simbolizando uma metrópole onde problemas como a falta de segurança e a ausência de infraestrutura são amenizados pelo fim de um romance mal desenrolado ou por uma bela paisagem do alto de um morro. Os exemplos citados são os sambas “Praça Clóvis” (“Na Praça Clóvis, minha carteira foi batida / Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato / Vinte e cinco, eu francamente achei barato / Pra me livrarem do meu atraso de vida”) e “Seu Barbosa” (“Ô Seu Barbosa, nóis era dois casado certo / Morando num bairro longe, mas passando ônibus perto / Uma vista tão linda, de cima do nosso morro / E as crianças precisando de um pronto-socorro”).

A sua maneira particular de exaltar a mulher, era feita com uma boa pitada de ironia. Em “Mulher que não dá samba” ele diz que “Ainda se fosse brava, porém competente / Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente / Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro / Eu lhe asseguro: não faria falta a paz / Mulher que não dá samba, eu não quero mais”. Já na composição “Mulher, toma juízo”, ele  afirma: “Mulher que se vira pro outro lado tá convocando a suplente / Mulher que não ri não precisa dente”.

De uma temática recorrente na música popular brasileira, o pranto, criou outras duas pérolas: a clássica “Volta por cima” (“Chorei, não procurei esconder / Todos viram / Fingiram / Pena de mim, não precisava / Ali onde eu chorei, qualquer um chorava /Dar a volta por cima que eu dei / Quero ver quem dava”) e a pungente “Chorava no meio da rua” (“Você diz que eu choro escondido / Ai, meu deus, que ingenuidade sua / Se eu tivesse que chorar / Chorava no meio da rua”).

Finalmente, sobressai em suas letras o ritmo, o andamento da poesia, cadenciada com palavras em posições cirúrgicas. Em “Mente”, consegue esse efeito de ritmo com rimas: “Me chama de meu amor, constantemente / No meio de toda a gente / E a sós, entre nós dois, mente”. Já em “O rato roeu a roupa do Rei de Roma”, o compositor vale-se de um famoso trava-língua e vai além: “O rato roeu a roupa do rei de Roma / O sapo saltou do saco, se sacudiu e sumiu da soma / Tatu, tamanduá, tejubina transaram umas trovas, tolices totais / O vento da vida ventou e varreu você pro nunca mais”.

Mais que uma obra, um legado

Paulo Vanzolini teve mais de 50 sambas gravados, por nomes da mais alta patente da música popular brasileira. Entre seus intérpretes estão: Nelson Gonçalves, Carlinhos Vergueiro, Nara Leão, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clara Nunes, Elza Soares, Maria Bethânia, Roberto Silva, Ana Bernardo, Márcia, Inezita Barroso, Jair Rodrigues, entre outros.

Para ele, compor era um processo de extrema dedicação. Muitas vezes, demorava meses até achar a rima perfeita para seus versos. Sua última composição, feita em 1997, simboliza sua marca, sua passagem, seu legado. “Quando eu for, eu vou sem pena / Pena vai ter quem ficar”. Paulo Vanzolini foi sem pena. Mas, para quem fica, no entanto, permanece vivo seu cancioneiro, repleto de beleza e genialidade.

Em suas andanças pela floresta, o zoólogo costumava dizer que “na mata, todas as partes são mais que o todo”, já que cada animal, cada folha caída ao chão, cada sopro de vento e raio de sol que penetra pelas árvores têm um valor imensurável, não podendo ser descrito apenas como uma parte do ecossistema. Em sua obra, ocorre o mesmo. Em cada composição, um pedacinho de boemia, de madrugada, de drama, de denúncia, de crítica social, de humor, de poesia, do viver paulistano, do povo brasileiro. No total, seus sambas, valsas, toadas e capoeiras formam muito mais do que uma obra, simbolizam um estilo, uma maneira peculiar de criar versos e melodias originais. Mais que uma obra, é um legado para a música popular brasileira.

Escute os sambas de Vanzolini, entre eles,
Noite Ilustrada cantando "Volta por Cima"





*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Brasília



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

 Nunca na nossa vida houve uma mudança como aquela. Um dia, saímos do interior de São Paulo, onde vivíamos na maior pobreza e no mais profundo provincianismo puritano, e no outro chegamos a Brasília, onde tudo era novo e borbulhante.

Sim, porque, ainda que o ano fosse 1974, e a nova capital apenas um espectro do que é hoje, para nós, autênticos bichos do mato, era Manhattan. Cheguei com dezessete anos e muita disposição pra desbravar o mundo novo.

Pra começar, viramos classe média da noite pro dia. Isso porque meu pai, que até então havia sido pastor evangélico numa comunidade pobre em todos os sentidos, acabava de ser contratado em Brasília como professor, com um salário antes inimaginável. Nossa família de seis almas instalou-se num modestíssimo apartamento de três quartos, num bloco de três andares, sem garagem nem elevador. Mas quem se importava com isto, se o simples fato de vivermos num apartamento era visto e sentido como se tivéssemos sido finalmente promovidos a verdadeiros seres urbanos?

Aqui todo mundo tinha carro e telefone, nenhum vizinho demonstrava qualquer interesse pelo que se passava no apartamento ao lado, e pessoas separadas, homens e mulheres, refaziam sua vida numa boa, com seus novos pares, com a maior naturalidade. Um espanto.

E eu adorava tudo. Aqui provei pão de queijo pela primeira vez na vida e conheci uma confeitaria de verdade, que me deslumbrou com suas bombas de chocolate e tortinhas de morango e maçã. Fui também apresentada a um restaurante chinês, onde entrei com muitas reservas, morrendo de medo do que ia encontrar; o frango xadrez teve gosto de outro mundo. Filé com fritas, conheci na cantina da Câmara dos Deputados.

Podíamos, finalmente, comprar roupas e comer pizza com coca-cola de vez em quando. Passear no Conjunto Nacional era um grande programa, mas o Beirute e o Gilberto Salomão eram antros de perdição onde se bebia cerveja e se dançava, e que só fui explorar muitos anos depois.

Aqui ninguém entrava na sua casa sem ser convidado, nem aparecia sem avisar, e as portas dos apartamentos estavam sempre fechadas. Percebi que existia uma coisa chamada privacidade, que me seduziu para sempre.

Aqui fugi da escola, antes de terminar o segundo grau, e nunca mais voltei. E mesmo assim pude sempre ter bons empregos e até fazer carreira num organismo internacional, por estar no lugar certo, na hora certa.

Aqui me dei conta de que a armadura da religião podia ser desvestida, e era perfeitamente possível viver sem ela. O alívio que senti foi diretamente proporcional ao calor do fogo eterno que me ameaçava até então.

Em suma, aqui comecei a virar gente.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sumidinhos


por Fernanda Pompeu  Ilustração Fernando Carvall

Tive que bater pernas – e anote que moro em Sampa – para achar alguém que consertasse o relógio carrilhão de propriedade da minha mãe. Para os mais jovens explico: o carrilhão soa horas e meias horas com badaladas. O exemplar foi comprado por meu bisavô Cassiano, nascido na época da carochinha, no Minuto Inglês no bairro carioca Estácio de Sá.

Por fim, em uma obscura galeria da Brigadeiro Luís Antônio, consegui um mago capaz de manipulá-lo. Um velho japonês, encurvado e seco. Numa simples olhada, disse o problema e o orçamento. Uma semana depois, mamãe sorria feliz com o som do carrilhão.

Fiquei pensando que afinal as pessoas morrem. O velho japonês não ficará para semente. E não deixará seguidores. Com a imposição de objetos cada vez mais descartáveis, relojoeiros, técnicos de máquinas de lavar e congêneres estão a meio passo da extinção.

Mas não só técnicos de coisas tangíveis correm perigo. Também os doutores da palavra entram na fila para o além. Por exemplo, está cada vez mais complicado encontrar revisores. E quando os encontramos, não nos atendem de tão assoberbados.

É claro que não me refiro a revisores de conveniência. Ou seja, a secretária que foi boa aluna em português, o colega que nunca desgruda de um livro, o autor do texto. Aliás, este último é o menos indicado. Pois por ter escrito, ele fica cegueta na hora de revisar.

Faço menção aos revisores que conhecem a língua como a quebradeira, o coco. Aquele pessoal que zela pela correção e elegância. Que manja de sintaxe e semântica. Os que saboreiam conjugar, concordar, ritmar.

Alguém lembrará: esse "desparecimento" ocorreu em massa com os bancários. Quando entraram as caixas eletrônicas e bancos onlines, a categoria murchou. Minha irmã, uma bancária aposentada, costuma dizer: "Os correntistas foram transformados em bancários. Esse é o melhor do mundo para o lucro dos banqueiros."

Alguém que goste de história dirá que sempre foi assim. Profissões desparecem e outras nascem. Citará o que ocorreu na Revolução Industrial, no século dezoito. Artesãos se tornaram operários. O feito à mão perdeu espaço para o feito à máquina.

Hoje com a revolução digital, numa aceleração espantosa, profissões e profissionais são descartados, ao mesmo tempo que centenas de ofícios surgem a cada manhã. As pessoas, notadamente as mais velhas, reagem ora com nostalgia, ora com depressão, ora com entusiasmo.

Eu estou na turma das entusiastas. Acredito que o reino da internet veio para incluir e potencializar interações. Macaqueando o slogan da loja de hamburger, amo muito tudo isso. Filha da Remington e da Olivetti tento me adaptar no máximo.

No entanto, isso não impede que me arrepie ao calcular quanto de experiência e conhecimento irão morrer. Assistimos ao velório da arte de consertar relógios, somar números, revisar palavras. É o momento em que o real esvanece para no futuro ressuscitar como mito.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Memórias impregnadas


por Alexandre Luzzi*

Pode não parecer, mas nutrição e economia são dois assuntos muito comuns entre os profissionais da saúde e o público em geral. É que o ato de comer passou a ser tratado como um índice econômico, com taxa adequada para tudo, seja com medida certa ou percentual a ser alcançado. Não é à toa que, recentemente, um dos programas de maior audiência da televisão aos domingos exibiu um jogador famoso aumentando sua conta bancária na mesma proporção em que perdia calorias.

Sendo o corpo, obviamente, um dos seus alvos, essa produção de imagens ideais e a oferta excessiva de produtos vinculados ao prazer e a felicidade são mecanismos que se contrapõem dando as nuances perversas de nossa sociedade mercadológica que insiste em transformar tudo em espetáculo e produto de consumo.

Nesse sentido a alimentação se torna um processo pragmático e mecanizado, em que seguimos as orientações dos especialistas e pronto. Admito: minhas experiências pessoais sempre contradizem os especialistas! Explico: cresci ao redor de uma cozinha ouvindo barulhos de panelas, pratos e o som do chiado da panela de pressão. Recordo-me do cheiro dos alimentos e da movimentação de minha mãe, sempre apressada, como se todo tempo do mundo nunca fosse o suficiente para as atividades da manhã.

Em casa, para cada dia da semana havia um cheiro específico. Às segundas tinham cheiro de legumes refogado, às terças cheiravam a arroz refogadinho. E cheiro de feijão no fogo e molho de macarrão eram às quintas e domingos. Quando o pra lá e pra cá de minha mãe ficava mais apressado e aflito era sinal de que eu tinha de ir para a escola.

Penso que toda boa cozinheira é uma grande mestra do tempo. Aprendi isso ao fazer alguns pratos em que a receita determina que se deixe um tempo para se processar isso ou aquilo. Nunca deu certo. Aprendi que o tempo de se processar um alimento é o tempo da intuição e não o da receita. Meu prato favorito é uma boa macarronada. A massa italiana me remete a um tempo mais devagar, mais contemplativo, ao tempo do domingo, um dia paradoxal, que começa lento e acelera ao final da tarde.

Dizem que o tempo existe e é algo em si mesmo. No entanto, todas essas experiências me revelam que o tempo é algo dentro da gente e que anda depressa ou não e de acordo com a qualidade das experiências do nosso dia a dia.

É cultural: em uma família italiana domingo é dia de reunião à mesa. Avós, tios, primos, pais, irmãos. Fala-se alto e se conversa sobre tudo: de futebol e política a trabalho e família. Tudo muito bem temperado pelo cheiro do tradicional molho de macarrão. O tempo do processamento do molho e o tempo do corpo é o casamento perfeito. É incrível. Existe uma sincronia entre a prontidão do molho e o pico da nossa fome.

“Uma boa macarronada espera-se sentado à mesa”, dizia minha bisavó, Maria Miranda Carillo (1890 – 1975). A conheci pelas fotos e, principalmente, por meio de um mosaico de representações transmitido pelas pessoas que conviveram com ela e com quem tive o privilégio de conhecer e conversar. Entre elas, duas muito especiais, minha avó Yolanda Carillo (1930 -2013) e meu tio-avô João Carillo.

Nessas reuniões é que incorporei alimentos para o corpo e para a alma. O alimento para a alma veio dos valores, do diálogo, dos gestos, dos olhares, das trocas afetivas e de todas as histórias que ouvi ao crescer. Tudo isso vem marcado em um ritmo emocional em meu corpo. Trago todas essas memórias impregnadas em mim. É esse ritmo emocional que hoje forma meu caráter e minha personalidade, além disso, é esse ritmo que me faz habitar um passado que insiste em se fazer presente e também a projetar um futuro que jamais excluirá tudo o que vivi e aprendi com as pessoas que amo.

Com esse pequeno relato me dou conta de que a comida nos vincula ao outro e nos dá uma história; toda alimentação é um grande processo afetivo antes de tudo. Mudar um cardápio não pode ser tratado como um processo mecânico desvinculado da maneira emocional de ser o que se é. Não significa que não devemos mudar hábitos, mas todo o processo de mudança deve considerar a subjetividade de quem se propõe ao desafio.

Essa crônica dedico a todos os considerados “mais velhos” com quem convivi: meus tios, avós e pais, principalmente. Eles me deram a oportunidade de ouvi-los e tê-los como exemplo. Acima de tudo, me ofereceram os elementos pelos quais me identifiquei e moldei minha identidade e isso, sem dúvida, é o mais genuíno ato de amor. Ah, que saudade daqueles domingos!


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

É o poder, Maria!


por Fernanda Pompeu  Ilustração de Carvall*
 

Estou numa idade curiosa. Uma espécie de adolescência da velhice. Muito longe da juventude e muito perto da difusa Terceira Idade. Se for verdade que o inverno é a velhice, digamos que me encontro no outono. Época em que caem as folhas, os seios, a pele.

Época também em que há muita matéria de vida a ser lembrada e narrada. O fato é que me pego lembrando de cada coisa! Exemplos, do sabor do Grapette, da ditadura militar, do Sidney Miller: "Segue em frente, violeiro, que lhe dou a garantia de que alguém passou primeiro na procura da alegria."

E lembro do meu grupo escolar. Lá tive lições permanentes. A mais importante delas foi a de que mulheres não tinham importância. Só dava homem: Pedro Álvares Cabral, Mem de Sá, Araribóia, Zumbi dos Palmares. Eu matutava: cadê nós?

no ginásio (era assim que se chamava), tomei coragem e perguntei para o professor de história: "Onde diabo estavam as mulheres na história do país?". Um colega espertinho respondeu: "Nas cozinhas."

Hoje tenho certeza que nós – descendentes das cozinheiras – até que ousamos bastante. Sem nenhum passado reconhecido ou glorioso fomos muito longe. Mas não é suficiente. Porque ninguém é feito só do presente. E o futuro é igual a comer ar.

Vamos precisar de escavadeiras para trazer à superfície nomes e histórias de mulheres que fizeram muitas arruaças e mudanças sociais. Negras e brancas que realizaram e não levaram crédito nenhum.

Aqui conto uma passagem. Em 2004, escrevi uma série de perfis de escritores hispano-americanos para o suplemento Fim de Semana da Gazeta Mercantil – jornal que fechou e não me pagou as duas últimas colaborações.

Eu tinha carta branca para escolher o escritor que me desse na telha. Escrevi sobre Juan Rulfo, Augusto Monterroso, Pablo Neruda, Julio Cortázar, entre outros. Não encarei nenhuma escritora.

Deixei de fora Alfonsina Storni, Rosario Castelanos, Gabriela Mistral, entre muitas outras. Sabe por quê? Porque, há nove anos, era trabalhoso encontrar boas informações sobre elas no Google. Eu dispunha de um dia para pôr no papel oito mil caracteres com espaço.

Ao menos essa é a desculpa racional que dou para mim mesma. Não quero crer que a falta de modelos femininos na minha infância tenha alguma relação com a minha omissão no caderno Fim de Semana.

Mas foram ocasião e oportunidade perdidas. Para não afundar no mantra minha culpa, minha máxima culpa, vou comprar uma pá. Oxalá, ainda terei tempo de escavar muitas histórias de mulheres.


* webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, fernanda pompeu escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Cor de maravilha

Lá no miolo de São Paulo, entre cidades ricas, canaviais e laranjais sem fim, fala-se uma língua específica.

Como, aliás, em todo lugar, sendo este um dos fascínios da condição humana: as línguas têm uma inesgotável capacidade plástica. São incessantemente moldadas, dobradas, desdobradas e adaptadas, para mal e para bem.

As cores são um terreno controverso. Alguns consensos parecem indiscutíveis, como o de que o céu ensolarado é azul e a grama é verde, mas quem ainda não se surpreendeu com o amigo teimando que aquele pedaço de mar é verde, quando o vemos azul? Quando se trata de roupa, então, a confusão é certa, e se agravou muito de uns anos para cá, desde que a indústria da moda redefiniu o vermelho vivo como “pitanga”, a cor-de-abóbora virou “jerimum” e o verde-limão virou “neon”, dependendo do estilista, é claro, porque cada um estabelece sua paleta de cores e as rebatiza, sem nenhuma cerimônia. E ai de quem disser que a blusa é roxa. A criatura desmaia na hora.

Cabeças privilegiadas, que fazem o casamento perfeito das palavras com os sentimentos e ideias, tentam esclarecer. Como o mestre Fernando Pessoa em seu irmão interno Alberto Caeiro, ao entender que “as borboletas não têm cor nem movimento,
 assim como as flores não têm perfume nem cor.
 A cor é que tem cor nas asas da borboleta”. Então, se a blusa é roxa ou lilás, se a vegetação seca é cinza ou marrom, são nossos olhos que decidem e informam à nossa língua.

Mas e quando a gente precisa definir uma cor e não consegue? Aí eu me lembro da classe da Dona Lídia no jardim de infância e do dia que eu queria que os lápis de cera produzissem uma determinada tonalidade, que me encanta até hoje. Fica entre o vinho, o lilás, o roxo e o vermelho, mas não é nenhum deles. Ao me ver em dificuldades, a menina maior da mesa me explicou com toda naturalidade: o que você quer é cor de maravilha, mas não tem.

Algum artista plástico vai tentar me convencer de que essa cor tem o nome xis ou ípsilon, dependendo da paleta, da escola, da textura e de não sei que mais. Nenhum vai passar nem perto desta autêntica invenção caipira, encantadora e imbatível: cor de maravilha, que orna com tudo que é bonito. Não tem igual.


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Bebedouros de frescor

Deve ser inevitável que toda aventura, empreitada, trilha, empresa, época, anoiteça. Afinal, irremediavelmente e por todos os dias do mundo, o sol se põe. Sem falar que haverá a hora da nossa morte, amém!

Meus olhos, que completaram cinquenta e sete anos de janela, observaram alguns padrões de entusiasmo, consolidação e, não querendo aguar a festa, de declínio. Também notaram que a institucionalização ergue muros onde antes havia terrenos baldios.

Faz mais de trinta anos participei de um grupo feminista deveras especial. Se chamava SOS Mulher e tinha como missão combater a violência doméstica sofrida pelas mulheres. Éramos um bando de gente jovem, destemida, esfomeada de vida.

A formalidade do SOS era próxima de zero. Não era ONG, não era governo, não era uma política pública. Era tão somente um grupo de pessoas com o sonho de eliminar olhos roxos, dentes quebrados, almas partidas das vítimas de maridos e namorados violentos.

Depois vieram as delegacias especializadas de mulheres, as secretarias, os conselhos. Num certo sentido, o Estado encampou a luta contra a violência de gênero. Vide a lei Maria da Penha. É claro que tudo isso é muito bom e absolutamente necessário.

Mas - defeito colateral - a institucionalização dos assuntos das mulheres fechou as portas para grupos feministas mais libertários e inovadores. Hoje, todo e qualquer projeto de ação passa necessariamente por sistemas de controle e escaninhos burocráticos.

Outra experiência similar vivi no Senac São Paulo. Na década de 1990, participei das primeiras turmas de cursos de vídeo. Eles eram chamados de "cursos livres", e nós docentes tínhamos carta branca para propor metodologias.

Lembro que um curso não era igual ao outro. Inventávamos sem parar. Usávamos e abusávamos da intuição. Ensinávamos de "ouvido". Pois no fundo erámos também aprendizes. Funcionou! Havia entusiasmo! Um parâmetro difícil de constar em relatórios.

Poucos anos depois, baixou o braço forte. Os cursos foram formatados e formalizados. Perderam a liberdade. Entrou a política de "diplomar". E óbvio chegou o MEC com suas regras e seu controle. De novo, nada disso é ruim. Mas aqueles corredores e salas explodindo em ideias desapareceram.

Será que é sempre assim? Boas iniciativas levam à institucionalização? Esta leva a um engessamento? Ou será que tudo isso é bobagem de meus olhos pré-sessentões? Alguém aí me empresta um colírio?

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vlado em 4 atos

1.
Há 13.505 dias o mundo era outro. Por exemplo, as Bienais de São Paulo ainda eram importantes. No 25 de outubro de 1975, um sábado, eu fui até o Ibirapuera. Na época, quando São Google nem sonhava em nascer, eu tinha uma reverência ao evento Bienal. De fato, na de 1975, foi possível ver alguma coisa da novidadeira instalação de vídeo-arte e entrar numa maloca indígena reproduzida em tamanho natural.

Tenho a impressão que chovia. Digo impressão, pois 37 anos são 37 anos. A tinta da memória, igual a das canetas sem uso, também seca. Mas eu guardei esse dia não por causa da Bienal, mas por conta do que soube ao cair da tarde. Cheguei em casa e meu pai, entre solene e preocupado, disse: "Olha, mataram um jornalista da TV Cultura. Vai ter mobilização."

2.
Domingo. Acho que continuava chovendo. Lembro que meu pai e eu fomos para o velório do jornalista no Hospital Albert Einstein. Hospital tão afamado quanto hoje é o Sírio-Libanês. O clima, a indignação das pessoas nem preciso descrever. Havia também o danado medo. Entre os presentes circulavam homens de terno e gravata fotografando. "Agentes do Dops" sussurrávamos.

Mas ninguém arredou pé. Sabíamos que tínhamos que ficar onde estávamos. Entre os ilustres, o arcebispo Dom Paulo Arns e o senador Franco Montoro. Até aquele dia eu não fazia ideia de quem era Vladimir Herzog. Mas sabia que a ditadura torturava e matava muito gente. E aquele cara, estendido no caixão, não havia se suicidado.

3.
O enterro foi no Cemitério Israelita do Butantã. Mais longe do que é hoje. Lembro de uma estradinha de terra (será?). E, é claro, da grande comoção. Eu assisti a tudo de um lugar alto. Choros. Rápidos e compungidos discursos da Ruth Escobar (ninguém fala mais dela) e de Audálio Dantas –  então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A sensação era que desta vez haveria uma resposta. Acho que isso estava escrito na cara de todo mundo: "Não vamos deixar barato."

4.
No 31 de outubro, ocorreu a grande concentração na Praça da Sé. Desafiando o aparato repressivo, e graças ao trabalho dos estudantes da USP, PUC, GV e do Sindicato dos Jornalistas, mais de cinco mil pessoas estavam em frente à Catedral da Sé. Lá dentro se desenrolava uma missa-ato ecumênico (ou quase isso, pois não convidaram uma mãe de santo). Representando os católicos, os corajosos dons Paulo Evaristo Arns e Helder Câmera. Os judeus contaram com o rabino Henry Sobel. Em nome dos protestantes, o pastor James Wrigth.

Mas tudo isso foi muito mais. Hoje sabemos que o protesto contra o assassinato do cidadão Vlado, 38 anos, foi um punhal certeiro no coração da ditadura militar. Toda tirania, minhas amigas e amigos, um dia tem seu fim.


fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lembrança de uma lembrança

Passou tanto tempo que

já não me lembro de como eram tuas mãos,

embora me recorde, perfeitamente, que eram lindas;

E agora tenho medo de que ao voltar a vê-las

elas já não me pareçam tão encantadoras.

Se isso acontecer, saberei que

não foram elas que mudaram, mas eu
H.M.S, em “Cartas Inéditas”

“Se olho para trás e tento recordar os acontecimentos que vivi, os passos que me trouxeram até aqui, nunca estou completamente seguro de se estou rememorando ou inventando (…) O que já aconteceu e o que está por vir, na minha cabeça, são apenas conjecturas”, escreveu o colombiano Héctor Abad Faciolince em seu livro “Traiciones de la Memoria”.

Faciolince tem total razão: a memória é ficção, talvez a maior e mais bem construída de todas. E está viva. E é mutável. (As lembranças que tenho hoje da minha infância são diferentes das de dez anos atrás, e em dez anos seguramente serão outras.)

No filme “O segredo dos seus olhos”, o jovem viúvo que teve a mulher assassinada lamenta que, passado um ano da morte, começa a se esquecer de como era sua esposa. “Tenho que fazer esforço para recordar dela todo dia, dia e noite”. E comenta que já não se lembra se o último chá que ela lhe preparou era com limão ou com mel. “Então começo a duvidar, e já não sei se isso que vai ficando é uma recordação ou a recordação de uma recordação”, sentencia.

Se a vida é o original, a memória é a cópia, diz Faciolince. E agora divago eu: só que a cópia vai perdendo a cor, sofre a ação do tempo, amarela, fica menos nítida, e não raro perde mesmo algumas folhas. É preciso então fazer nova cópia, que não é feita a partir do original (porque esse já não se sabe onde está), mas da cópia. Até que chega um tempo em que a sucessão das cópias faz com que reste bem pouco do conteúdo daquela matriz. A recordação da recordação vira uma cópia bem pouco precisa do original.

Ainda assim e mesmo sabendo que seremos um dia vencidos, lutamos contra o esquecimento. Tratamos de preencher os vazios da memória com a ficção. Romantizamos, distorcemos, criamos, mentimos a nós mesmos, e assim construímos o que somos. “Ya somos el olvido que seremos”, dizia o poema de Borges achado no bolso da jaqueta do pai de Faciolince no dia em que foi assassinado. Vinte anos depois, o escritor contou a história do seu pai e a desse poema, e diz que o fez para que ela não caísse no esquecimento.

Ricardo Viel, jornalista, escreve de Lisboa, Portugal

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A vez dos soldados

Nas guerras, a história é velha, os soldados vão para a linha de frente matar ou morrer. Enquanto isso os generais traçam estratégias protegidos por outros soldados. Bem longe do front, governantes das partes beligerantes tentam tirar o dinheiro do povo para os gastos com o conflito.

Terminada a guerra, a história também é velha, os generais ganham nomes de ruas, praças, pontes, elevados. Entram nos compêndios escolares. Já a soldadesca cai no profundo anonimato. Ao menos, social. Porque, evidente, os soldados seguem nos corações dos seus.

Em tempos de paz, os civis também fazem coisas parecidas. Mesmo a esquerda, tradicionalmente comprometida com a justiça e a igualdade, comete seus pecadilhos. Por exemplo, quando ela dá força ao culto de seus líderes, ignorando seus soldados.

Nesse caso "soldado" corresponde a centenas, às vezes milhares, de militantes do cotidiano dos movimentos sociais. O pessoal que dedica a vida à construção de um mundo melhor. Que pavimenta a estrada onde os líderes passarão com notoriedade.

Todos sabemos muito do Che Guevara. Como ele era, do que gostava, do que não gostava. Seu rosto é tão conhecido quanto o da Mona Lisa. Você já parou para pensar quantas camisetas existem no mundo com a estampa do Che? Deve ser da ordem de milhões.

Mas pouco ou nada sabemos dos rostos e nomes dos camponeses que lutaram ao seu lado. Nas cidades, os fatos são semelhantes. Líderes que construíram suas histórias apoiados pela base, de repente se entopem de doril quando desembarcam no Poder.

Penso que talvez a plataforma internet seja, no longo prazo, capaz de reparar essa injustiça com os soldados anônimos – mulheres e homens – de todas as lutas. Pois pela primeira vez, na longa evolução da informação e da comunicação, é possível conhecer não a história de um, mas a história de muitos.

Mais ousado ainda: é possível que cada um registre a sua versão dos fatos. Defenda seu ponto de vista. Só assim, uma história repetitiva e personalista terá chance se tornar criativa e coletiva. Oxalá!

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Fernando Carvall, ilustração especial para o texto

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DKW

Apesar de concordar que a internet é uma revolução cognitiva irreversível, sou do tipo - até por vício de geração - que adora frequentar bancas de jornal. Não passo por uma sem me deter. Meus olhos sempre rastreiam um título novo, ou se comovem com as publicações sobreviventes.

Na semana passada parando na banca do Fernando, na rua Macunis, Vila Madalena, dei de cara com um livreto cuja capa fez meu coração congelar. Nela estavam as três letras D K W e uma foto do carro. Pirin, pirin, soou o telefone da memória.

Comprei na hora. Dezenove reais e noventa centavos. Nem pensem que sou fixada em chassis, suspensões, motores. Nada disso me ganha. O que me arrebatou foi subitamente voltar quase cinco décadas, e aterrissar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Mais precisamente no bairro da Tijuca. Mais particularmente na rua Professor Pinheiro Guimarães, número 12. Mais exatamente dentro do carro do meu avô Júlio. Adivinhem? Um DKW da cor azul de um céu de anil.

Às vezes, o carro e ele me levavam ao Grupo Escolar. Eu amava me exibir para os colegas. Pois, acreditem, nessa época havia poucos carros. Eles eram complicados e, principalmente, caros. Mas o meu avô postiço, judeu, checo, comerciante, comunista, leitor, tocador de violino, de palavras duras tinha um automóvel.

Pelas janelas do DKW, conheci o Alto da Boa Vista - inigualável em magia e beleza. Conheci a Barra da Tijuca, quando ela não tinha prédios. Quando era uma praia cheia de dunas. Aliás foi na Barra que a minha memória entrou no mar pela primeira vez. E me apaixonei por essa imensidão de água e sal.

Todas essas emoções ponho no crédito do DKW. Carro que chegou no país pelo porto de Santos em 1950, e morreu em 1966. Nesses dezesseis anos, ele testemunhou o suicídio de um presidente da República, a criação de Brasília, o golpe da ditadura.

É curioso perceber que toda memória pessoal é uma memória social. Os anos da minha infância não são só meus. Eles estão aparafusados na prancha de uma época. No ano em que nasci, Juscelino Kubitschek se tornou presidente do Brasil.

Então imaginem que o slogan 50 anos em 5 se mistura à minha mamadeira, aos meus primeiros passos, à minha alfabetização. Eu sei, podemos escapar de muitas coisas. De um trauma de amor, de um mau negócio, de uma carreira equivocada. Mas da história, ninguém escapa.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, feita especialmente para o texto

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Notas sobre uma guerra que não me pertenceu

Borges dizia que se há algo que não existe esse algo é o esquecimento.

Na Espanha pós-Franco, os responsáveis pela transição democrática ignoraram a sentença do escritor argentino e fizeram de conta que a Guerra Civil Espanhola – que cobrou cerca de meio milhão de vidas – nunca havia existido.

A Morte do Soldado Legalista, de Robert Capa,  fotografia
das mais conhecidas sobre a Guerra Civil Espanhola
Espalhadas por praticamente todo o país, há cerca de duas mil valas comuns onde jazem por volta de cem mil vítimas da guerra. Pouco mais de 10% dessas valas foram abertas. O mais assustador é que muitos dos familiares sabem onde estão enterrados os seus. Apenas querem que eles sejam identificados e ganhem uma sepultura digna, para que deixem de ser “desaparecidos”.

Os que defendem que não se deve voltar a tocar nessa ferida dizem que isso é passado, aconteceu há muitas décadas, e que é preciso seguir adiante. Mas os fatos desmentem essa afirmativa.

1) “Na minha casa a Guerra Civil é presente, se fala dela, se vive ela. Minha mãe paralisou sua vida por quase 30 anos até encontrar meu avô”, me conta um conhecido. Seu avô, para salvar a vida, partiu para o México. Depois de décadas conseguiu reencontrar a família. Para eles é impossível esquecer algo que determinou suas vidas.

2) Henrique sofre de Alzheimer. Não se lembra de praticamente nada e não reconhece ninguém. Quem cuida dele são os vizinhos, já que não tem família. Não tem família porque na época da Guerra Civil seu pai foi assassinado, seu irmão teve que fugir para outro país e sua mãe foi enforcada, mas não morreu (viveu até os 93 anos).

Quando ainda era possível estabelecer uma conversa, Henrique contava sobre o episódio, mas nunca disse se assistiu à tentativa de execução da mãe. Hoje ele quase não fala e se comportava como uma criança – joga no chão a comida, rasga revistas. Quem cuida de Henrique gostaria de acreditar que ele também esqueceu o que aconteceu durante a guerra, mas seu olhar perdido diz o contrário.

3) Há alguns meses fui a uma exposição de fotos sobre a Guerra Civil. Eram instantâneas que retratavam lugares destruídos, famílias em fuga, hospitais e centros de acolhida de órfãos. As fotos me tocaram, mas aquela guerra não me pertencia; me pareciam algo distante no tempo e no espaço. Logo percebi que não era tanto assim.

Vi um casal de idosos, ela amparando ele pelo braço, olhando uma das imagens detidamente. Estavam muito próximos do retrato, talvez pela miopia. Eu passava ao lado deles quando ela sentenciou: “Sim, isso aqui é em Valência, eu me lembro desse lugar, nós passamos por lá”.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Salamanca, Espanha.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Coisas que eu sei

Não foi maciota ter sido adolescente sob o regime militar. Eu tinha 13 anos quando baixaram o AI-5, em dezembro de 1968. Lembrando para os mais jovens: o AI-5 enterrou o que restava das liberdades democráticas – já feridas de morte com o Golpe de 1964.

Ficava proibida qualquer manifestação política contrária à ditadura. A manifestação podia ser uma peça de teatro, uma canção, um livro, uma charge, um artigo de jornal. Podia ser um discurso proferido em uma esquina, ou numa mesa de bar.

A ordem era: cala a boca, se não te prendo, te torturo, te mato, te desapareço. Imaginem, então, descobrir o mundo público em meio ao estado de mordaça e terror. Imaginem o desconforto dos adolescentes tão ávidos de se expressar. Tão a fim de afirmar: Eu existo!

Mas não pensem que o autoritarismo vinha apenas dos militares, dos policiais e dos políticos cúmplices. Ele se tornou viral. Encorajou porteiros, síndicos, seguranças. Qualquer um desses estava no direito de exigir documentos e barrar passagens.

O autoritarismo – revólver dos medíocres – passou para as mãos de alguns professores, inspetores, diretores escolares. Talvez seja impossível para o adolescente de 2012 compreender o que era frequentar uma escola pública sob o regime militar.

Desastre! Perguntar, provocar, pensar fora do quadrado estava definitivamente fora de questão. Éramos encarados como seres sem vontade ou luz próprias. Silêncio! Silêncio! era o grito que mais ouvíamos.

Fora dos muros da escola, convivíamos com o ufanismo oficial. Milagre econômico, operário padrão, prá frente brasil, melhor futebol do mundo, tv globo, miss brasil, integração nacional, transamazônica, ponte Rio-Niterói. Enfim, ame-o ou deixe-o.

Nós, adolescentes de então, novos velhos de hoje, herdamos traços importantes da cultura do cala a boca, quem manda aqui sou eu. Porque pensem: se racismo, sexismo, homofobia, intolerância se aprendem, o autoritarismo também.

O que pergunto para os mais jovens, para os meus amigos, para os meus adversários e, fundamentalmente, para mim mesma é: como se desaprende?

fernanda pompeu, webcronista, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago partiu sereno e tranquilo

O mundo hoje está mais triste, a humanidade mais desinteressante, o mundo das ideias e dos ideais, mais pobre. Morreu nesta sexta-feira, 18 de junho, o escritor José Saramago, aos 87 anos, “em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu acompanhado da família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”, informou em nota a Fundação que leva seu nome.
Saramago tinha a saúde debilitada há algum tempo. Em 2007, uma doença respiratória conseguiu o impossível: fazer o ateu convicto quase acreditar num milagre, o da sua recuperação. Pelo menos foi o que ouviu dos médicos. E também impediu o escritor de escrever. À época, Saramago se viu obrigado a interromper a produção da obra “A Viagem do Elefante” por seis meses. Apenas dois dias após a alta médica, retomou o que considerava o livro mais jovial e mais divertido que já escreveu. Saramago contou essa história com o bom humor típico de suas sempre brilhantes palavras durante o lançamento do livro no Brasil, em novembro de 2008.
“Foi escrito em estado de pura felicidade por ter escapado. E mais: saí dessa doença com uma serenidade interior que nunca tinha experimentado. Pilar diz que é um livro cheio de sabedoria... e talvez seja”, disse, emocionado, a uma plateia privilegiada, de pouco mais de 700 pessoas, que ouviu naquele dia, durante quase duas horas, o escritor pensador falar de sua vida, suas histórias, do amor pela mulher, Pilar del Rio.
Eu estava lá e tive certeza de que aquele era um momento da minha vida do qual me orgulharia sempre, sentiria saudades e sobre o qual lembraria com muita dor quando Saramago se fosse. E foi exatamente como me senti hoje.
Saramago é um gênio, um escritor criativo, um contador de histórias como poucos. Mais que tudo isso, José Saramago era um homem muito especial. Escrevia sobre as injustiças do mundo e, sem alarde, trabalhava para ajudar a corrigi-las. O mais recente lance foi a reedição de seu livro “Jangada de Pedra”, cuja venda foi totalmente revertida para o fundo da Cruz Vermelha no Haiti. O que segundo ele só foi possível graças “à pronta generosidade das entidades envolvidas na edição do livro”.
Saramago era assim. E faz cada vez mais falta ao mundo seres da espécie humana que sejam assim: verdadeiros, poéticos, generosos, simples.
Seus dias de sobrevivente, como se autodefinia, acabaram. Faz lembrar daquela noite em que falava para o auditório lotado sobre o fim da viagem do elefante “que fez longa viagem num rigoroso inverno, para ter um triste fim. Uma metáfora que trata da inutilidade da vida, de não conseguirmos fazer da vida mais do que ela é”.
Mas Saramago conseguiu. Fez da vida mais do que ela é.

Claudia Motta é jornalista e escreveu especialmente ao Nota de Rodapé
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