Lá no miolo de São Paulo, entre cidades ricas, canaviais e laranjais sem fim, fala-se uma língua específica.
Como, aliás, em todo lugar, sendo este um dos fascínios da condição humana: as línguas têm uma inesgotável capacidade plástica. São incessantemente moldadas, dobradas, desdobradas e adaptadas, para mal e para bem.
As cores são um terreno controverso. Alguns consensos parecem indiscutíveis, como o de que o céu ensolarado é azul e a grama é verde, mas quem ainda não se surpreendeu com o amigo teimando que aquele pedaço de mar é verde, quando o vemos azul? Quando se trata de roupa, então, a confusão é certa, e se agravou muito de uns anos para cá, desde que a indústria da moda redefiniu o vermelho vivo como “pitanga”, a cor-de-abóbora virou “jerimum” e o verde-limão virou “neon”, dependendo do estilista, é claro, porque cada um estabelece sua paleta de cores e as rebatiza, sem nenhuma cerimônia. E ai de quem disser que a blusa é roxa. A criatura desmaia na hora.
Cabeças privilegiadas, que fazem o casamento perfeito das palavras com os sentimentos e ideias, tentam esclarecer. Como o mestre Fernando Pessoa em seu irmão interno Alberto Caeiro, ao entender que “as borboletas não têm cor nem movimento,
assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta”. Então, se a blusa é roxa ou lilás, se a vegetação seca é cinza ou marrom, são nossos olhos que decidem e informam à nossa língua.
Mas e quando a gente precisa definir uma cor e não consegue? Aí eu me lembro da classe da Dona Lídia no jardim de infância e do dia que eu queria que os lápis de cera produzissem uma determinada tonalidade, que me encanta até hoje. Fica entre o vinho, o lilás, o roxo e o vermelho, mas não é nenhum deles. Ao me ver em dificuldades, a menina maior da mesa me explicou com toda naturalidade: o que você quer é cor de maravilha, mas não tem.
Algum artista plástico vai tentar me convencer de que essa cor tem o nome xis ou ípsilon, dependendo da paleta, da escola, da textura e de não sei que mais. Nenhum vai passar nem perto desta autêntica invenção caipira, encantadora e imbatível: cor de maravilha, que orna com tudo que é bonito. Não tem igual.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto
