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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Medo e culpa na prática de exercício


por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

É comum ouvirmos das pessoas que há uma relação de causalidade entre a prática de exercícios físicos e o conceito de saúde. É um posicionamento com raízes no consenso encabeçado, principalmente, pela comunidade médica e científica.

O certo e o errado, as relações de funcionalidade, os processos de intervenção em nosso próprio corpo, em nossas vidas, o que fazemos, o quanto fazemos, são mediados pelos manuais da ciência. Quando alguém quer fundamentar um argumento como “a verdade” diz que “os estudos científicos comprovam”.

Agora, se mudarmos essa perspectiva do sentido e do significado sobre o que entendemos como saúde a relação de causalidade é colocada em “xeque”. A maioria de nós assume que praticar exercícios é bom para a saúde e determinante para o pleno desenvolvimento em outros âmbitos de nossas vidas.

Pergunto: quais são as razões de tanta dificuldade em aderir a uma prática e uma rotina de exercícios? Ausência de tempo, muito trabalho, filhos, falta de locais adequados, inadequação em relação aos ambientes oferecidos, pouca oferta de modalidades interessantes, incompetência profissional na prestação de serviço, cansaço, desinteresse, enfim... a lista é grande.

Observo diariamente pessoas que tentam iniciar uma prática corporal e desistem nas primeiras semanas. Tenho consciência que as barreiras citadas acima podem se tornar intransponíveis. No entanto, pouco iluminada pelos holofotes da nossa razão é a injunção exercício físico e saúde, essa, sim, a maior de todas as barreiras.

Sugiro ao leitor um pequeno exercício para melhor compreensão. Pegue um pedaço de papel e, em poucas linhas, escreva o que significa para você a palavra saúde. Em linhas gerais, perceberá que são as condições negativas que fazem a saúde existir. Ou seja, a saúde só pode ter sentido quando relacionada à doença. Logo, o principal elemento utilizado, de forma deliberada, para motivá-lo a praticar exercícios é uma emoção chamada medo.

Caso optem ao sedentarismo, o convencimento à prática de exercícios virá da alimentação do medo de doenças e a contrapartida dessa engrenagem gera um outro sentimento que conhecemos como culpa. Eis uma dupla quase imbatível para te convencer a praticar exercícios. E se você não praticar e adoecer: "a culpa é sua!"

Quando o sujeito se propõe a uma prática corporal, o caminho mais curto é a ressignificação, ou seja, essa adesão se situa na possibilidade de criação de um novo sentido que surge a partir da qualidade do encontro consigo mesmo e com o outro.

O medo e o sentimento de culpa puxam nossa percepção para o nível onde os imperativos ideológicos sobre atividade física e saúde são operados e reduzem toda a possibilidade de resignificação de sentido. Preso a essa rede de sentido, o sujeito sucumbi à demanda de esforço para sustentação de qualquer prática corporal, já que todo sentido que o mobiliza é externo a ele mesmo.

Concorda comigo o Professor de Educação Física Flávio Soares Alves ao afirmar que: “Quando se dobra a atenção sobre uma prática corporal e se força a incuti-la como exercício regular de cuidado, tal movimento pode ser estimulado pela força imperativa dos ideais vigentes na esfera pública, ou por um movimento original de cuidado que não abre mão de si mesmo frente à presença insondável do ideológico.” Para ele, “enquanto no primeiro caso a prática não passa pelos crivos da adesão, no segundo o sujeito realmente se apropria da prática que realiza e faz deste movimento um exercício de cuidado consigo e com o outro.”

A educação para uma ciência positivista predomina na cultura moderna e a Educação Física parece ser afetada por isso, situação na qual predomina uma visão extremamente tecnicista e biológica do corpo humano, esvaziando de suas práticas um sentido maior para o movimento que não seja a prevenção de doenças, a estética e o desempenho motor em níveis máximos, excluindo do trabalho com o corpo uma percepção maior do mesmo – o que sentimos ao movimentá-lo, as relações desse corpo com a cultura, com o outro e com a natureza.

No próximo texto vou mostrar ao leitor como uma modalidade como o Pilates, se bem conduzida, pode coincidir com essa nova proposta.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Medida certa?



por Alexandre Luzzi   ilustração Ligia Morresi*

A “VALORIZAÇÃO” DO CORPO E O MAL-ESTAR NA ATUALIDADE

Na mitologia grega, Procusto, filho de Netuno, era um salteador sanguinário que obrigava os viajantes, depois de pilhá-los, a deitar sobre um sinistro leito de ferro nunca do tamanho do corpo dos infelizes: se eles fossem mais curtos que o leito, estirava-os com cordas e roldanas; se ultrapassassem as medidas, cortava-lhes a parte que sobrava. Todos, sem exceção, deveriam se ajustar à sua cama.

Procusto era alguém que ajustava o corpo das pessoas a certas medidas ideais, sempre a partir de um único padrão. Do ponto de vista simbólico, Procusto pode ser considerado um normalizador, o patrono de todo imperativo que impõe normas e um guia de conduta, reduzindo a experiência humana a relações de causa e efeito nunca livres de interesses (qualquer programa de televisão com o título desse texto é mera coincidência).

Ao tomar conhecimento da narrativa mítica, não pude deixar de associá-la com o papel do profissional de Educação Física (EF) dentro do dispositivo da saúde e sua relação com o corpo e a sociedade.

Segundo Flávio Soares Alves, da Faculdade de Educação Física e Esportes da USP, “o profissional de Educação Física passa a ser agente ativo de uma ideologia do ser saudável, passando por cima da diversidade dos corpos, em função da reprodução de uma lógica excludente, que dita padrões estéticos de beleza e saúde.”

Não podemos esquecer que o homem, por meio de seu corpo, assimila e se apropria dos valores e normas sociais, num processo de incorporação. É sobre o corpo, em sua qualidade sensível, que incidem as formas de controle e dominação que ressultam no processo de “anestesiamento” de seu campo intensivo (corpo afetivo e pulsional).

Esse fenômeno é muito fácil de ser observado na religião (controle da sexualidade), no capitalismo (transformação da força criativa em força produtiva) e agora de uma forma mais sutil, mas não menos agressiva, no dispositivo da saúde.

Com o corpo sendo submetido cada vez mais ao controle, à segmentação e a manipulação em função da norma e de um ideal a ser alcançado, a saúde sustenta-se sob um discurso que reduz o corpo à sua dimensão anatomofisiológica, ou seja, a saúde se opõe ao estado de doença. O educador físico, servindo-se deste discurso monta seu dispositivo de saúde para convencer seus clientes de que a saúde que ajuda a promover traz controle e segurança sobre a vida. Com isso, sugere garantir a juventude e a beleza daqueles que apostam na eficiência deste dispositivo forjado.

É por meio dessa produção simbólica de valores, associada ao poder da indústria midiática, que uma série de imagens-ícone são produzidas, deliberadamente, aprisionando a subjetividade pelo medo à exclusão e o desejo à hegemonia.

Afinal, se os famosos se submetem a todo tipo de sacrifício em nome da medida certa, respaldados por um discurso de “verdade científica”, para nós, meros mortais, restam poucas dúvidas de que esse é o caminho certo.

Alves destaca ainda que “os padrões impostos por certas imagens fazem com que nos voltemos contra nós mesmos, revoltados com nossa própria inadequação. Tal descompasso é desconfortante e nos força a uma retratação que, muitas vezes, corre na contramão de nossos próprios desejos”.

O corpo passa a ser vivido como um lugar permanentemente de risco, um lugar que pode a qualquer momento nos ameaçar. Diante desses problemas questiono sobre o papel do profissional de Educação Física e sua participação na condução desse sistema de representações na qual se articulam o corpo, a saúde e o movimento.

A superposição deliberada e maliciosa entre corpo e organismo, ou seja, a redução do corpo a aspectos meramente biológicos, carrega toda uma problemática que vem acompanhando a Educação Física desde o seu surgimento: sua despolitização. Uma disciplina orientada por um ideário neoliberal (o movimento ressignificado a partir de conceitos como produtividade e funcionalidade), com pouca consciência das relações de poder na produção de valores que norteiam sua prática, afastada da subjetividade de quem ensina e de quem pratica, produzindo dessa forma o mau encontro.

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*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pergunte ao gás (lacrimogêneo)


por Milena Buarque*

Os olhos começam a lacrimejar, a pele se irrita com a sensação de um ardor de queimadura e torna-se muito difícil respirar. Na forma de spray, o jato pode ser direcionado ao rosto; como verdadeiras granadas, são lançadas para dispersar a turba. Na desocupação do Parque Gezi, na Turquia, ou nas jornadas de junho em todo o Brasil, o gás lacrimogêneo foi – e ainda é – usado indiscriminadamente na dispersão e repressão aos manifestantes.

Com efeitos que duram de 5 a 10 minutos, o eufemismo do gás “não letal” esconde a realidade da “arma química”. Para se fazer guerra, há regras. “O objetivo é você eliminar meios e métodos que causem sofrimentos desnecessários ao objetivo da guerra”, afirma Tarciso Dal Maso Jardim, assessor e consultor legislativo do Senado Federal para defesa nacional e relações exteriores.

A arte da guerra é tão complexa e contraditória quanto o fato de existir uma convenção que limite o guerrear. Tanto o Comitê Internacional da Cruz Vermelha quanto as Convenções de Genebra, para citar dois exemplos, se mantêm por meio do ininterrupto surgimento de disputas. “O desenvolvimento na área humanitária é uma construção histórica”, explica Dal Maso.

A Convenção de Armas Químicas (em inglês Chemical Weapons Convention – CWC), criada em 1925 em consequência do Protocolo de Genebra, proíbe o uso militar de gases tóxicos, asfixiantes, e métodos biológicos. Adotada apenas a partir de 1997, a CWC levou à criação da Organização para a Proibição de Armas Químicas (em inglês Organisation for the Prohibition of Chemical Weapons – OPCW), que se tornou encarregada de supervisionar a destruição de arsenais químicos, também assegurando a sua não proliferação. A OPCW ganhou neste início de mês o prêmio Nobel da Paz. “Se dedica a combater, não só o uso, mas a fabricação, a estocagem, também a colaboração técnica para a produção desse tipo de arma. Ela tem um sistema de visitas surpresas no país, tem um grande poder de inspeção”, ressalta Dal Maso.

Em entrevista ao Repórter do Futuro/Nota de Rodapé, o consultor legislativo foi categórico com relação ao Brasil e o não cumprimento de alguns tratados e convenções já ratificadas, como as Convenções de Genebra na década de 1950. A não implementação, além do paradoxo do posicionamento humanitário internacional e as crises internas, significa algo muito mais perigoso do que parece. “Boa parte dos crimes de guerra que estão definidos nas Convenções não são considerados crimes aqui no Brasil.”

Os discursos são dúbios. No mês de setembro, a ONU confirmou a adesão da Síria ao tratado global contra armas químicas. O país era um dos sete que não aderiram à Convenção nos anos 1990. Os EUA, por outro lado, iniciaram o fornecimento de armas a rebeldes com o argumento de terem sido atacados por armas químicas. O mercado do gás lacrimogêneo, considerado arma química pela mesma ONU, é dominado justamente por empresas norte-americanas.

"Dá falta de ar e aí
começa a arder tudo"


“Eu já tomei bala de borracha, spray de pimenta e esse [lacrimogêneo]. Só não tive a experiência com estilhaço de bomba. Mas, de todos, o pior é o gás.” Letícia Carvalho, estudante de jornalismo, aos 23 anos já teve de lidar diversas vezes com a “queimação” causada pelo gás de efeito moral. Das lembranças das manifestações do Movimento Passe Livre (MPL) de junho, em São Paulo, Letícia considera seus piores dias os dos segundo (7) e quinto (17) atos. “No segundo, eu tava na linha de frente”, conta a estudante, que chegou a enfrentar uma situação em que quatro bombas estouraram tão próximas a ponto de secar a máscara que usava para se proteger.

As bombas de gás são estruturas que, após a explosão, liberam uma substância conhecida como CS (clorobenzilideno malononitrilo). Ao se misturar a solventes, pode causar lacrimejamento intenso nos olhos, irritação na garganta, sensação de sufocamento, náuseas, entre outros efeitos físicos. “É horrível, dá um desespero porque parece que aquilo não é respirável. Dá falta de ar e aí começa a arder tudo”, diz Letícia.

A exposição prolongada, no entanto, pode levar a danos mais graves. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, em ambientes fechados a inalação do tear gas pode encadear uma parada respiratória. Neste ponto, o grupo “Facing Tear Gas” organizou uma campanha contra o papel dos EUA nos negócios de gás lacrimogêneo no mundo e em solidariedade às pessoas que sofrem com a repressão em diversos países atualmente. Entre as justificativas: “porque é uma ferramenta de repressão”, “porque as nossas cidades estão desmoronando” e “porque mata”, há uma petição online que pode ser assinada no site do movimento, que também critica a empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies pelo fornecimento de gás para a dispersão de manifestantes na Turquia, em junho.

A naturalização do uso do gás lacrimogêneo, após os anos 1960, esconde em seu discurso de defesa a preocupação excessiva com a propriedade e a resposta repressiva do Estado ao direito de expressão. “Tem coisas que [se] proíbe na guerra e não [se] proíbe na sociedade, na manutenção da ordem pública”, diz Dal Maso.


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*Milena Buarque,
estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do 12º Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito Armado e Outras Situações de Violência, do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo NR

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vírus


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Pareceu-me uma grande ideia. Ao me dar conta de que tinha acesso a um personagem importante vinculado ao acordo entre Brasil e Cuba para a vinda de médicos da ilha para trabalhar no Brasil, ocorreu-me entrevistá-lo, buscando uma oportunidade de trazer informações úteis, talvez inusitadas, para os meus leitores, bombardeados por todo tipo de comentário e análise do tema, desde os mais lúcidos e consistentes até os vergonhosos ou alucinados.

O personagem generosamente concordou em conversar comigo, mas a entrevista acabou não acontecendo, devido às exigências de agenda de quem está no olho de um dos furacões da vez. Perguntei aos meus botões como contornar a situação. Eis a resposta desabotoada.

Quase tudo o que se compra e vende no mundo, hoje, é fabricado na China, ou tem alguma peça ou componente fornecido por fontes chinesas. Como bem sabido, trata-se de um país controlado com mão de ferro por um regime que persegue, condena e mata pessoas por razões de consciência e, nos dias de hoje, ainda controla uma boa parte dos meios de produção. Direitos humanos são assumidamente ignorados por lá. Pagam-se salários irrisórios a operários que trabalham em condições nada edificantes, segundo inúmeros relatos e constatações. A recente pujança econômica da China tem custado um alto preço aos seus habitantes. No entanto, não me consta que algum brasileiro, de qualquer profissão ou nível de vida, tenha se recusado a comprar produtos fabricados na China, como protesto pelas atrocidades do regime ou em solidariedade aos trabalhadores explorados e maltratados.

Então, ficamos assim: comprar bugigangas chinesas pode, receber médicos cubanos, supostamente escravizados, que vão atender pessoas que provavelmente nunca foram examinadas por um médico, isso não pode, sob argumentos cada vez mais absurdos. E no meio da lambança que se armou, não consigo captar uma só entidade médica expressando um minuto de preocupação com os milhões de brasileiros excluídos de qualquer possibilidade de atendimento. A elas, um pedido: poupem-me do seu cinismo, por favor. Mas acho que é pedir muito.

Surfando neste meu momento clichê, quero dizer que eu tenho um sonho: que médicos cubanos, baianos, ucranianos, marcianos, de qualquer parte, espalhem entre nós um vírus mortal, que corroa o mercantilismo, o elitismo, o corporativismo, a ganância, a mesquinharia e outras doenças crônicas instaladas de forma profunda e duradoura no coração daquilo que chamamos de medicina e saúde. E que atinja também, com igual intensidade, a inépcia, a irresponsabilidade e a desfaçatez do Estado. É sonho pra mais de metro.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre médicos e monstros

por Izaías Almada*

Um dos momentos mais tocantes no filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, que narra a viagem do jovem Ernesto “Che” Guevara pela América do Sul na companhia do amigo Alberto Granado, é quando “Che” visita um leprosário da Amazônia peruana. Ainda estudante de medicina, Guevara, na noite em que comemora seu aniversário, atravessa um pequeno rio que separava os leprosos da convivência com outras pessoas e vai visitá-los. Um gesto de grandeza humana de quem estava prestes a se tornar um médico.

Essa aventura dos dois amigos argentinos se dá no ano de 1952, tempos antes de Guevara integrar-se à luta guerrilheira de Sierra Maestra em Cuba, sob o comando de Fidel Castro, revolução socialista vitoriosa e que mudou corações e mentes no mundo inteiro.

Alguns fatos e acontecimentos históricos menos ou mais relevantes são assim: trazem, com maior ou menor intensidade, os indícios de alguma transformação social significante. Configuram uma inflexão nos caminhos do homem e prenunciam novas alternativas para a humanidade. Os exemplos nesse quesito serão inúmeros e desnecessários, mas a lembrança dessa possibilidade nos remete a atual fase do desenvolvimento capitalista, bem como seus reflexos para o mundo atual, onde a exploração do homem pelo homem adquiriu novos e sofisticados contornos.

No Brasil de hoje, alguns desses fatos e acontecimentos mais recentes têm sido debitados, a meu ver, a dois fatores políticos e sociais de relevância: os quase doze anos de governo do Partido dos Trabalhadores por um lado e a tentativa oposicionista de interromper a caminhada vitoriosa desse governo, sob inúmeros aspectos, em particular os sociais.

Já é sobejamente conhecida a fúria com que alguns dos setores mais conservadores da sociedade brasileira atacam os doze anos de governos petistas em âmbito federal. Esses setores e não só estão representados majoritariamente em partidos como do PSDB, DEM, parte do PMDB e o penduricalho PPS. Contudo, não bastasse a verborragia, normalmente vazia de significados e argumentos sólidos de deputados e senadores de tais partidos, há uma vez mais que chover no molhado: o verdadeiro e mais articulado dos partidos de oposição, no entanto, é conhecido já há algum tempo entre nós pela sigla PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

É na redação de telejornais, revistas e jornalões da mídia brasileira que a matilha de cães hidrófobos é solta por seus patrões atrás dos ossos da discórdia, onde é possível identificar até alguns imortais da pior cultura brasileira, aquela que é preconceituosa, racista e de traços marcadamente fascistas.

Junte-se a isso os radicais de esquerda das novas gerações, muitos deles portadores de uma espécie de ejaculação precoce quanto a necessidade de transformação do país e que, na ânsia de um orgasmo revolucionário, mais atrapalham do que ajudam, por vezes oferecendo argumentos à tal matilha para a sua empreitada contra o novo Brasil, cujo parto tem sido dos mais difíceis.

O atual episódio envolvendo o programa ‘Mais médicos’ é emblemático: trouxe à tona a síndrome do grande romance de Robert L. Stevenson “O Médico e o Monstro”, liberando em boa parte da classe média e médica, insuflada e acobertada pela matilha, o seu lado mais egoísta e irracional, transformando uma questão humanitária num palavrório do mais baixo grau político e ideológico.

É triste perceber, em pleno século XXI, que o Brasil ainda acoberta em suas entranhas gente tão desclassificada e hipócrita, incapaz de olhar o país com olhos mais justos e minimamente solidários para com os mais necessitados. Não são os mesmos que criticam a questão da saúde no país? Que debochada e incivilizadamente sugerem que a presidente Dilma vá tratar o seu linfoma em Cuba? Não são os que repetem como papagaios o que reproduz o esgoto midiático, cujo nível de conhecimento da realidade em que vivem não ultrapassa as páginas de um Almanaque Capivarol?

Sinto calafrios quando penso que os representantes políticos dessa corja possam algum dia voltar ao poder político no Brasil. Já basta ver o que fazem no governo do Estado de São Paulo, onde se praticou e se pratica a maior corrupção e bandalheira de assalto ao erário público em proveito próprio, com o butin repartido há anos por integrantes da máquina administrativa do estado, sempre acobertados pela mesma mídia hipócrita e moralista que sistematicamente ataca os governos Lula e Dilma.

Espero, sinceramente, que o Brasil não se torne o único país do mundo que vergonhosamente repudie a missão solidária de milhares de médicos que para cá vieram de outros países, em particular os cubanos, numa atitude ímpar de egoísmo e sensibilidade para com ainda os milhares e milhares de compatriotas espalhados pelas regiões mais pobres, secularmente ignoradas pelos inúmeros monstros de jaleco branco que, ao se formarem, fizeram um juramento da boca para fora... Juramento de Hipócrates ou de hipócritas?

O episódio de Fortaleza é um tapa na cara do país, um escárnio que nos ridiculariza perante o mundo, pois apenas confirma aquilo que todos nós já sabemos: médico no Brasil, só para quem pode pagar. É doloroso ver alguns médicos de formação guevariana serem vaiados por um conjunto de Abdelmasshis. QUE SEJAM BENVINDOS OS MÉDICOS CUBANOS!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Por que os médicos cubanos assustam

Em discussão desde o ano passado, a vinda dos médicos cubanos ganhou força a partir de maio. Agora, com a chegada oficial desses profissionais, muito informação tem sido publicada; preconceituosa, inclusive. O corporativismo da classe médica se faz presente. Por isso, NR republica e recomenda esse texto de Pedro Porfírio, uma importante contribuição para deixar o debate em melhor nível.   

por Pedro Porfírio, em seu blog, via Cebes*

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

No Brasil, o apego às grandes cidades

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.

Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia

Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde. Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

Formando médicos de 69 países

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue. Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

Presença de médicos cubanos no exterior

Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O espelho de Tereza

 por Alexandre Luzzi  ilustração Marcelo Martins Ferreira* 

A grande insatisfação que muitas pessoas possuem em relação ao próprio corpo ao se olharem no espelho é fruto de uma imagem que perambula no território do nosso inconsciente?

Milan Kundera e seu clássico “A insustentável leveza do Ser” nos ajuda a pensar sobre isso. Na obra a personagem Tereza tem o hábito de ficar se olhando horas no espelho, numa atitude com nuances de proibição. Dentro da convivência familiar de Tereza toda forma de privacidade é reprimida e satirizada. “Como um campo de concentração”, sugere ela sobre a convivência com a mãe e o padrasto. Mas a atitude tem uma peculiaridade: não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de se descobrir nele.

A contrariava encontrar em seu rosto traços da mãe, nem tanto pela similaridade física e mais pelo fato de sua vida ser um prolongamento da vida da progenitora. Tereza se incomodava com regiões do corpo, como os seios, os quais desaprovava o tamanho e as aréolas grandes e escuras demais.

Pensava sobre como ficaria se o nariz crescesse um milímetro por dia. Nessas contemplações angustiantes imaginava: “E se cada parte de meu corpo começasse a crescer ou a diminuir a ponto de me fazer perder toda semelhança comigo mesma? Eu existiria ainda, mesmo assim? Qual a relação entre 'eu', Tereza, e meu corpo?”

Existem motivos para tamanha insatisfação e recusa? Será que temos uma percepção direta e real de nosso próprio corpo? Ou será que entre a imagem projetada e o que sentimos existiria um filtro de fantasias e sentimentos infantis?

Talvez a imagem  refletida no espelho toda vez que nos colocamos diante dele não seja a mesma inscrita na superfície virtual do nosso inconsciente. O psicanalista Juan David Nasio sugere essa hipótese.
“sempre que sentimos o nosso corpo, o vemos ou julgamos, estejamos certos, forjamos dele uma imagem deformada, inteiramente afetiva e resolutamente falsa. Para resumir, nunca percebemos nosso corpo tal como é, mas tal como o imaginamos; o percebemos como fantasia, isto é, mergulhado nas brumas de nossos sentimentos, reavivado na memória, submetido ao julgamento do Outro interiorizado..."
O conflito de Tereza parece confirmar o dizer de Nasio. Do fundo de sua alma surgia a representação inconsciente de um corpo marcado por uma relação familiar em que tonalidade afetiva era o ódio e a culpa. Tal situação se traduz pela cena protagonizada por sua mãe ao ver a filha trancar a porta do banheiro ao reparar que seu marido sempre entrava quando ela estava nua no banho. “Por que você se trancou? Quem você pensa que é? Ele não vai arrancar pedaços de sua beleza!”, esbraveja a mãe.

Um certo ódio da mãe pela filha era mais forte que o ciúme que o marido lhe inspirava. Em contrapartida, a culpa de Tereza era infinita se martirizando até pelas infidelidades do padrasto.

Kundera e seu romance nos coloca diante da experiência enigmática do efeitos da imagem que se reflete do espelho. Seja em maior ou menor grau, jamais encontrei na minha vida profissional alguém totalmente satisfeito com o próprio corpo. A transformação estética do corpo, dentro dos padrões valorizados pela cultura e o olhar do outro parece não resolver um sentimento de maior valorização de si mesmo. Para o estímulo à reflexão, deixo o leitor com uma pergunta final, de autoria do grupo musical Capela – "Será que o espelho irá me mostrar alguém que não eu?"


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a CorpoMarcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Afinal, que corpo queremos?



por Alexandre Luzzi*

Dizem que o corpo humano é a máquina mais perfeita que existe, e que se todas as suas engrenagens funcionarem em equilíbrio e harmonia, a saúde está garantida. Além disso, nossa cultura nos fez crer que essa máquina perfeita é comandada pela mente. Seria mais ou menos como se nosso corpo fosse um navio a vapor, e o comandante do navio a mente. Se conduzido de forma correta, o comandante do navio fará a viagem até seu destino final de forma segura e sem surpresas.

Na metáfora, viagem segura é sinônimo de saúde e o destino da viagem quem organiza é a cultura. Toda concepção de saúde sempre se apoiou na relação entre corpo e mente. A tradição ocidental é que produziu as dicotomias que afetam de forma concreta o sentido que atribuímos ao conceito de saúde, por exemplo: corpo/mente, natureza/cultura, materialidade/essência, saúde/doença.

Todo sistema procura produzir sujeitos que sustente essa engrenagem. Ainda mais numa sociedade de mercado em que manter ativas essas dicotomias só reforça o controle da mente sobre o corpo e sinaliza, por consequência, uma proposta de saúde consumista.

O sujeito de hoje tenta de tudo para manter-se saudável e em forma. Por isso, consome todo tipo de produtos: seguros, produtos alimentícios de baixa caloria, remédios, atividades da moda, produtos de beleza e estética. Se pensarmos, a vida saudável é como uma grife, um estilo. Porém, na mesma proporção em que tentamos controlar o corpo e o risco, parece existir um mal-estar nos sintomas contemporâneos representados pelos distúrbios da percepção da imagem corporal. Exemplos não faltam: ansiedades de exposição, anorexia, vigorexia, bulimia, toxicomanias, etc.

Uma outra proposta de saúde

O que nos introduz no mundo é a linguagem: palavras, gestos, olhares, toques e imagens dão o sentido às nossas experiências. A linguagem, em linhas gerais, é um sistema de sinais, signos e símbolos que foram organizados de acordo com a cultura. Ela, portanto, determina a experiência da nossa realidade e o nível de generalização e abstração do pensamento.

Deixando a filosofia de lado, pense comigo: quando falamos em experiências assumimos um corpo que não é mais o corpo natural e biológico, mas um corpo “biocultural”, em que foi atravessado pela linguagem e pelos signos culturais. “Ao contrário da concepção do corpo como propriedade privada de cada um, afirmo que nosso corpo nos pertence muito menos do que costumamos imaginar. Ele pertence ao universo simbólico que habitamos, pertence ao Outro; o corpo é formatado pela linguagem e depende do lugar social que lhe é atribuído para se constituir. Se os corpos não existem fora da linguagem, as práticas da linguagem determinam a aparência, a expressividade e até mesmo a saúde dos corpos”, disse a psicanalista Maria Rita Kehl.

Quando admitimos a saúde do ponto de vista do corpo-máquina, temos a tendência de não considerar a expressão emocional e subjetiva dos encontros que realizamos, ou seja, mantemos os valores e medicalizamos a doença, almejando uma ideia de corpo e de saúde que não contempla o risco, o mal-estar e a experiência trágica do viver.

Uma outra proposta de saúde parte do pressuposto que corpo e mente são expressões distintas de um mesmo ser. A sabedoria do corpo, ao contrário da mente que pode ser expressa com palavras e conceitos, só pode ser expressa por metáforas cuja linguagem são as emoções.

As emoções e os sentimentos são revelações do estado de vida de nosso organismo, para realizarmos a escuta desses saberes é preciso coragem para nos lançarmos no encontro com o outro sem a necessidade do enquadramento nos padrões culturais.

Quanto maior o raio de ação do radar de nossa consciência de como nosso corpo/mente afetam e são afetados pela complexidade das relações na qual estamos inseridos, maior será a probabilidade de adotarmos uma postura ativa e criativa frente às diversidades. Talvez esse seja um caminho para um ser saudável.

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Notícias



por Cidinha da Silva*

Depois daquela mulher, nunca mais assisti a Globonews do mesmo jeito. Ela virou uma espécie de fantasma que aparecia todas as vezes em que eu passava pelo canal.

A figura aterrissou numa roda de conversa por obra do lançamento do meu Kuami em Vila Isabel. Atrasada, mostrou-se encantada com a atmosfera leve. Até aí tudo bem, esse era mesmo o propósito. O caso é que ela iniciou uma catarse de reclamações sobre a Globonews, sobre as pessoas não conversarem, não interagirem e aquele momento ali, para ela, era um exemplo de como a vida deveria ser.

Ela dizia: “Estou cansada de saber as notícias do mundo e só desligar o televisor quando saio para o trabalho. Quando chego em casa, ligo a TV para ter a companhia da informação. Sei de tudo, a notícia se repete nos sucessivos jornais, às vezes até decoro os textos”. O problema é que ela repetia esse mantra torto como disco arranhado. Passou a tratar nosso espaço como algo terapêutico. Ameaçou pedir que as pessoas compartilhassem apertos de mão, abraços.

Alguns participantes estavam visivelmente incomodados, eu também, e precisei tangenciar a conversa para cenas do livro. Nada adiantou.

Comecei a ter medo dela. Parecia uma morta-viva e pior, era médica. Estava na cara que ela precisava de fogo, de vitalidade. Oferecíamos a chama literária, mas ela precisava de mais. Carecia de terapia profunda, daquelas complexas, com escuta, exercícios respiratórios, florais de Bach, do cerrado, do deserto, da Amazônia, de Minas, de Marte...

O que mais me espantava era a reafirmação de que ela cuidava da saúde das pessoas em um posto de saúde e era assim, corpo, mente e espírito tão adoecidos. Até hoje, quando passo pela Globonews lembro-me daquela mulher, e apavorada, observo as notícias se repetirem.

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Ilustração retirada do blog do Breno Zannetti

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Solilóquio sobre a monotonia



por Alexandre Luzzi*

A oportunidade da escrita tem transformado a forma como vivencio o mundo. Tenho prestado mais atenção nas coisas que me cercam, incluindo meu mundo interior. Aliás, sempre tive dúvidas quanto a essa separação entre exterior e interior, afinal, emoções e sentimentos também são feitos de carne, ossos e mundo.

As motivações para o texto de hoje são duas: a primeira diz respeito a um sonho que tive  certa noite. Eu era observador em uma partida de futebol vibrante e disputada, em que dois times se digladiavam sem definição. Enquanto isso, os torcedores cantavam de forma penetrante das arquibancadas: “jogamos o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

Identifiquei a música, das minhas preferidas, que é do álbum In the flesh (na carne) de Roger Waters. O que teria motivado tal material onírico? Qual o significado dessa canção dentro desse sonho? Alguém conhece algum psicanalista por aí?

Confesso que fiquei inquieto com o assunto e fiz uma investigação partindo dos pensamentos conscientes que mais me importunaram nos últimos dias. Fiz a seguinte associação: sentado em meu sofá, dias atrás, em uma manhã de domingo meio nublada, enquanto via um desses programas esportivos espetaculares pensei:

– Como anda monótona e ordinária essa minha vida perto das aventuras que vivem esses esportistas e jornalistas que arriscam tudo por uma sensação “extra-ordinária”.

Maratonas exaustivas em lugares exóticos, escaladas em montanhas com alto grau de risco, ondas gigantes surfadas no fio da navalha, mega-rampas de skate que desafiam a gravidade, lutas agressivas que fazem qualquer filme de gladiadores virar desenho animado.

Mais perguntas tomaram de assalto meus pensamentos. Que tipo de experiência estão buscando essas pessoas? Que corpo é esse que hoje suporta todo tipo de provação esportiva? Onde estão ancorados nossos ideais de felicidade e bem-estar? Em que medida a cultura modula tudo isso? Além de todas essas perguntas, o que mais me intrigava era entender a relação desses pensamentos com o sonho. Será que nossa mente inconsciente é capaz de apresentar respostas simbólicas para anseios e angustias reais?

O fato era que realmente me senti insatisfeito com minha própria vida diante de tanta exuberância sensorial espetacular mostrada naquele programa. No mesmo instante outro pensamento colocou-me um contraponto:

– Rechear a vida com êxtase sensorial significa ser mais feliz?

Sem respostas fui atrás de alguma literatura que desse uma luz sobre o assunto. Encontrei algumas coisas muito interessantes que gostaria de dividir (a segunda razão do texto de hoje).

Diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, que a atualidade é marcada pelo peso dado ao desempenho sensorial do corpo na construção dos ideais de felicidade. Nossa cultura associa, cada vez mais, êxtase sensorial com felicidade, é a cultura da “adrenalina”, diz ele.

Valorizamos atualmente objetos e imagens que excitam os sentidos despertando o corpo para uma nova prontidão prazerosa. O problema é que essa estrutura é similar ao arranjo bioquímico do vício, ou seja, depois de um certo limiar a pessoa não consegue parar de aumentar a dose.

Segundo o mesmo autor, êxtase é um ponto de intensidade que, uma vez atingido, decai rapidamente, e ao se tornar familiar, perde o atrativo. E além de cessar com o fim da excitação, raramente o indivíduo reproduz o gozo na forma original. Desse ponto de vista a felicidade erguida sobre o êxtase sensorial é precária, vacilante e passiva.

E temos o extremo oposto dessa engrenagem: dor, sofrimento, angústia e perdas, que são sensações a serem exterminadas pelo primeiro pastor, médico, curandeiro ou, até mesmo, educador físico que aparecer. Quanto mais falamos em minimizar o sofrimento e otimizar o prazer, mais nos privamos de prazer e mais nos atormentamos com os sofrimentos que não podemos evitar.

A busca da felicidade é um horizonte perseguido pela maioria das pessoas, no entanto, poucos se dão conta da dependência desse conceito com pressupostos culturais.

Dependendo do sentido e dos ideais que nos mobilizam nessa busca, corremos o risco de como na torcida do meu sonho, “jogar o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

O que quero dizer é que damos muito valor a realidade e pouco valor a imaginação – sorte dos poetas e escritores que se refugiam da monotonia da existência criando um mundo novo a cada escrita. Talvez, mais importante do que ser feliz é ser criativo. A compulsão pela felicidade sensorial é a ação criativa em seu mais baixo grau de expressão. Já o seu mais alto grau, é coisa que só Fernando Pessoa sabe expressar:
“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.”
*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Memórias impregnadas


por Alexandre Luzzi*

Pode não parecer, mas nutrição e economia são dois assuntos muito comuns entre os profissionais da saúde e o público em geral. É que o ato de comer passou a ser tratado como um índice econômico, com taxa adequada para tudo, seja com medida certa ou percentual a ser alcançado. Não é à toa que, recentemente, um dos programas de maior audiência da televisão aos domingos exibiu um jogador famoso aumentando sua conta bancária na mesma proporção em que perdia calorias.

Sendo o corpo, obviamente, um dos seus alvos, essa produção de imagens ideais e a oferta excessiva de produtos vinculados ao prazer e a felicidade são mecanismos que se contrapõem dando as nuances perversas de nossa sociedade mercadológica que insiste em transformar tudo em espetáculo e produto de consumo.

Nesse sentido a alimentação se torna um processo pragmático e mecanizado, em que seguimos as orientações dos especialistas e pronto. Admito: minhas experiências pessoais sempre contradizem os especialistas! Explico: cresci ao redor de uma cozinha ouvindo barulhos de panelas, pratos e o som do chiado da panela de pressão. Recordo-me do cheiro dos alimentos e da movimentação de minha mãe, sempre apressada, como se todo tempo do mundo nunca fosse o suficiente para as atividades da manhã.

Em casa, para cada dia da semana havia um cheiro específico. Às segundas tinham cheiro de legumes refogado, às terças cheiravam a arroz refogadinho. E cheiro de feijão no fogo e molho de macarrão eram às quintas e domingos. Quando o pra lá e pra cá de minha mãe ficava mais apressado e aflito era sinal de que eu tinha de ir para a escola.

Penso que toda boa cozinheira é uma grande mestra do tempo. Aprendi isso ao fazer alguns pratos em que a receita determina que se deixe um tempo para se processar isso ou aquilo. Nunca deu certo. Aprendi que o tempo de se processar um alimento é o tempo da intuição e não o da receita. Meu prato favorito é uma boa macarronada. A massa italiana me remete a um tempo mais devagar, mais contemplativo, ao tempo do domingo, um dia paradoxal, que começa lento e acelera ao final da tarde.

Dizem que o tempo existe e é algo em si mesmo. No entanto, todas essas experiências me revelam que o tempo é algo dentro da gente e que anda depressa ou não e de acordo com a qualidade das experiências do nosso dia a dia.

É cultural: em uma família italiana domingo é dia de reunião à mesa. Avós, tios, primos, pais, irmãos. Fala-se alto e se conversa sobre tudo: de futebol e política a trabalho e família. Tudo muito bem temperado pelo cheiro do tradicional molho de macarrão. O tempo do processamento do molho e o tempo do corpo é o casamento perfeito. É incrível. Existe uma sincronia entre a prontidão do molho e o pico da nossa fome.

“Uma boa macarronada espera-se sentado à mesa”, dizia minha bisavó, Maria Miranda Carillo (1890 – 1975). A conheci pelas fotos e, principalmente, por meio de um mosaico de representações transmitido pelas pessoas que conviveram com ela e com quem tive o privilégio de conhecer e conversar. Entre elas, duas muito especiais, minha avó Yolanda Carillo (1930 -2013) e meu tio-avô João Carillo.

Nessas reuniões é que incorporei alimentos para o corpo e para a alma. O alimento para a alma veio dos valores, do diálogo, dos gestos, dos olhares, das trocas afetivas e de todas as histórias que ouvi ao crescer. Tudo isso vem marcado em um ritmo emocional em meu corpo. Trago todas essas memórias impregnadas em mim. É esse ritmo emocional que hoje forma meu caráter e minha personalidade, além disso, é esse ritmo que me faz habitar um passado que insiste em se fazer presente e também a projetar um futuro que jamais excluirá tudo o que vivi e aprendi com as pessoas que amo.

Com esse pequeno relato me dou conta de que a comida nos vincula ao outro e nos dá uma história; toda alimentação é um grande processo afetivo antes de tudo. Mudar um cardápio não pode ser tratado como um processo mecânico desvinculado da maneira emocional de ser o que se é. Não significa que não devemos mudar hábitos, mas todo o processo de mudança deve considerar a subjetividade de quem se propõe ao desafio.

Essa crônica dedico a todos os considerados “mais velhos” com quem convivi: meus tios, avós e pais, principalmente. Eles me deram a oportunidade de ouvi-los e tê-los como exemplo. Acima de tudo, me ofereceram os elementos pelos quais me identifiquei e moldei minha identidade e isso, sem dúvida, é o mais genuíno ato de amor. Ah, que saudade daqueles domingos!


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

“Nós intersomos”

É preciso pensar além do dualismo saúde e doença
Como professor de Educação Física tenho o compromisso ético de colocar em debate todos os assuntos que norteiam minha prática, pois acredito que aceitar um determinado conceito ou ideia de saúde nos leva a escolher certos tipos de intervenção sobre o nosso corpo e nossa vida.

Dito isso, espero que você leitor do Nota de Rodapé possa me ajudar a refletir, participando dos assuntos que vou passar a propor aqui, principalmente os relacionados a saúde, corpo, mente e cultura.

No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a partir de uma palestra da Monja Coen, representante de uma tradição milenar, o Budismo japonês, discutimos os rumos que as nossas atitudes e o conceito de saúde estão tomando na atualidade. É que o senso comum tende a pensar a saúde a partir de algumas premissas:
1 – Saúde é um conceito que se contrapõe ao estado de doença, ou seja, ter saúde é não estar doente; 
2 – O corpo físico é uma máquina que necessita funcionar de forma perfeita, ou dentro de certos padrões de “normalidade” (assunto que abordarei em outro texto); 
3 – Usualmente pensamos a saúde a partir de uma perspectiva individualista, é sempre o sujeito o responsável e nunca uma questão coletiva.
De uma forma bastante clara e simples, as palavras da Monja durante a palestra colocaram pontos de interrogação nessas ideias. Te pergunto, caro leitor, será que realmente precisamos pensar a saúde em oposição à doença?

A resposta não é automática. Segundo os princípios do Budismo, esclareceu a Monja, além da transitoriedade de tudo o que existe, temos a existência do sofrimento como condição inerente à vida. Ou seja, a vida de todos nós inclui a experiência da doença.

Vivenciar uma enfermidade não significa não ter saúde, essa é uma perspectiva menor e perigosa. Assumir essa ideia, veja só, significa abrir caminho para a medicalização excessiva, o abuso nas práticas esportivas e até mesmo o excesso em investigações e exames.

Nosso corpo é habitado pela impressão de tudo que nos “toca” e estar aberto a outras formas de pensar, como proponho, significa assumir um conceito de saúde capaz de contemplar a qualidade dos encontros que realizamos, seja com a natureza, objetos, ideias, pensamentos, imagens, fantasias, emoções, sentimentos e outros seres.

Qual o impacto desses encontros na sua subjetividade? Que tal pensarmos a saúde no território da intersubjetividade? Segundo a própria Monja disse, “nós intersomos”.

Portanto, treinar corpo e mente significa também perceber as nossas expressões emocionais e a forma como estamos nos comunicando com o outro. Saúde não é só uma questão de forma corporal, de padrões de normalidade, de índices disso ou daquilo, saúde não é algo que se tem, saúde é algo que se conquista a partir da nossa capacidade de compor forças com o outro, rumo a um mundo melhor para todos.

A medida ética dos cuidados com o corpo e a saúde não está na quantidade de exercícios que destinamos para esse fim, mas no sentido e no significado que essa prática assume.

Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé

domingo, 18 de março de 2012

Aborto na Argentina: dêem-me direitos, eles não murcham

Foto: Giuliano Maiolini, SP.
Ao assistir o documentário “Aborto Clandestino: Crucificação Democrática”, no Cine do Caco, em Bauru, São Paulo, lembrei de três rosas pisoteadas e esquecidas que vi ao caminhar sob o sol escaldante no último 8 de março, dia Internacional da Mulher.

A liberdade da mulher, como aquelas rosas, me derão a mesma impressão ao término do filme, uma produção argentina do Coletivo Elza Torres que retrata o aborto naquele país do ponto de vista social e contextualiza a luta pela sua descriminalização.

O Cine do Caco, um clube de cinema do Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes (Cacoff), da Unesp de Bauru, exibiu o documentário em parceria com o Centro Acadêmico XVII de Maio e com o apoio do Coletivo Movimenta Bauru.

Um por minuto

Na Argentina, a estimativa é de um aborto a cada minuto. Num ano, são 500 mil abortos frente a 700 mil nascimentos. E muitas mulheres também se tornam vítimas: 3 mil morrem em sua decorrência.

Com números tão expressivos, diversos grupos no país se organizam para garantir o direito a liberdade da mulher de escolher ter ou não o filho. Extremamente crítico, o documentário mostra a influência da Igreja na criminalização de mulheres que optam pelo aborto.

O documentário aponta que o aborto não é uma prática somente das classes mais baixas. Em geral, a maioria das mortes por complicações do aborto clandestino ocorrem nas periferias, mas a situação está presente em todas as camadas sociais.

As classes mais altas, por consequencia, tem mais condições de fazer um abordo em clínicas com mais “segurança”, diferentemente dos mais pobres.

“Se o Papa fosse mulher, aborto seria lei”, gritavam feministas num protesto exibido no filme. Essa frase dá o tom do embate religioso presente no país vizinho – avançados no debate e com muitos grupos mobilizados.

Enquanto lá o problema é a supremacia da Igreja Católica, no Brasil é a Bancada dos Evangélicos, por exemplo, que cada vez mais toma forma no Congresso, fazendo força junto a Igreja Católica.

Apesar do Brasil ser um país laico, as instituições religiosas ainda exercem grande influência nos poderes do país. Camila Sousa, integrante do Centro Acadêmico XVII de Maio, comenta que há muito para avançar no Brasil. “Essa não é uma luta só das mulheres, quando todo mundo entender que é uma causa de todos, as mulheres terão seus direitos garantidos”, argumenta.

A pesquisa Magnitude do Aborto no Brasil revela alguns aspectos epidemológicos e socioculturais do problema. Realizada pelo Ipas Brasil, em parceria com o Instituto de Medicina Social da UERJ, a pesquisa estima que sejam realizados anualmente mais de 1 milhão de abortamentos com cerca de 250 mil internações por ano para tratamento de complicações ao custo de 35 milhões de reais para o Estado.

Camila e todas as meninas presentes não ganharam flores nesse dia, mas preferiram plantar algumas sementes para que no futuro possam colher rosas suficientes para montar um buquê de direitos garantidos.



PANO RÁPIDO: Segundo a Folha de S. Paulo de quarta-feira, 14 de março, "a Corte Suprema Argentina determinou que abortos feitos por mulheres que tenham sido estupradas não são crime. A lei já liberava abortos no caso de violações e se havia perigo à vida da mulher. Mas, em geral, a Justiça apenas autorizada pessoas com deficiência".

Aline Ramos, estudante de jornalismo,entusiasta da Cobertura Colaborativa, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os perigos mortais dos celulares

O alarido na imprensa sobre a reclassificação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) do risco dos telefones celulares causarem câncer no cérebro foi mal explicado. Um artigo na Scientific American on line explica que houve apenas uma reclassificação burocrática do risco. Ele agora é considerado "possivel", na medida em que não é mais considerado "impossivel".

Não chegou ainda à categoria do "provavel", pois não existem dados epidemiológicos a respeito. Isso quer dizer que as suposições de que o celular podem causar câncer são ainda "inadequadas". Nem mesmo a possibilidade desse risco foi provada para fornos de microondas, televisão, radares e rádio foi considerada satisfatória.

Levantamentos dos dez últimos anos na Europa de usuários de celulares não apontou nenhuma evidência de aumento de câncer cerebral. E, finalmente, enquanto a radiação UV para quem toma muito banho de sol com certeza é cancerígena, a radiação eletromagnética do celular não tem energia suficiente para romper ligações moleculares de substâncias orgânicas nem do DNA.

Com relação aos celulares, na verdade, o alerta deveria ser para os comprovados efeitos fatais. Por exemplo, falar ao celular no trânsito tem uma letalidade provável semelhante a dirigir com mais de três doses de uísque. Ai não é especulação: as estatísticas do trânsito são claras.

E finalmente, outra notícia que não ganhou destaque: uma pesquisa na Turquia mostrou que 3/4 dos celulares carregam bactérias perigosas. E eles estão sempre nas mãos de usuários que nem sempre se preocupam muito com a higiene. A pesquisa foi feita num hospital turco, examinando celulares de internados, médicos, enfermeiras e visitantes. Muitas das bactérias encontradas nesses celulares são resistentes a antibióticos.

Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Big Mother, melhor que BBB

Quando estava grávida, entrei em contato com um grupo de mulheres muito bacana, militantes do parto humanizado

Para quem não sabe, o parto natural humanizado é aquele em que se respeita ao máximo a naturalidade do processo de parir; são evitadas ao máximo todas as intervenções na mãe e no bebê; o parto é feito na companhia das pessoas escolhidas pela parturiente; a mulher tem liberdade de movimentos durante o trabalho de parto e escolhe a forma como quer parir: de cócoras, na água, deitada, ajoelhada, apoiada nos braços do marido – ou o que lhe der na telha na hora. O uso de anestesia também não é incentivado, por atrapalhar muitas vezes na evolução do trabalho de parto, já que, anestesiada, a mulher perde a consciência real do processo.
Parto natural também é feito na água
Numa sociedade que chega a espantosa taxa de 70 a 90% de cesáreas no serviço privado de saúde, e uma média nacional de 47% de partos cirurgícos contra uma taxa máxima recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de apenas 15% do total de partos, essas mulheres nadam contra a corrente. Escolhem parir respeitando o processo de seu bebê e de seu corpo; e para isso lutam contra maridos, parentes, conhecidos, desconhecidos e, especialmente, contra o sistema de saúde (tanto público como privado) que, cada vez mais, empurra as mulheres para uma cesariana utilizando-se de desculpas, alegações frágeis e até mesmo mentiras.
Para quem quiser saber mais sobre o assunto, que é longo, recomendo os sites do GAMA, Parto do Princípio e Amigas do Parto apenas como ponto de partida para a pesquisa. Existem muitos sites, blogs e redes mantidas pelas militantes, que disseminam ao máximo as informações na internet na tentativa de lutar contra a desinformação geral que leva tantas mulheres a cesáreas absolutamente desnecessáreas e – pior – arriscadas para mãe e para o bebê.
Uma dessas mulheres é Rosana Oshiro, mãe de quatro filhos e grávida do quinto, brasileira que mora no Japão. Rosana teve seus dois primeiros filhos por cesáreas desnecessárias, lutou por um parto natural na gravidez de seu terceiro filho (e acabou optando por um parto domiciliar – em casa) e em seu quarto filho acabou por ter um parto desassistido (sem auxílio médico nem de parteira), embora essa não fosse sua ideia inicial. Enfim: uma parideira de tirar o fôlego!
Rosana é militante ativa do parto humanizado, mantém três blogs e agora parte para o mais audacioso de seus atos de militância. Rosana está no início do trabalho de parto, no Japão, e vai transmitir seu parto ao vivo pela internet, no intuito de demonstrar que um parto natural, e em casa, pode ser seguro, tranquilo e, principalmente, muito mais prazeroso para a mãe e acolhedor para o bebê do que uma cirurgia, ou mesmo o ambiente de um hospital.

AO VIVO!
Ela acaba de informar por email que a bolsa já rompeu mas as contrações ainda não começaram. Como é madrugada no Japão, ela está descansando um pouco, mas vai iniciar a transmissão assim que as contrações começarem. Epa, peraí! A bolsa estourou e ela vai descansar? É isso mesmo, caro leitor. Quem se interessar, tem um tempinho para entender isso e outras coisas melhor dando uma olhada nos sites que coloquei acima. Ah, e tem os blogs da Rosana também: (www.relatosdeparto.blogspot.com e http://opartoeseu.blogspot.com). Boa leitura! Quando o “show” começar avisaremos pelo twitter e facebook.




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Sofia Amaral,
mãe da Manu que nasceu de uma cesárea, mas necessária e consciente. Também é colunista do Nota de Rodapé.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A quem interessa garfar 25% dos leitos do SUS?

Dezembro é mês de pé no freio. É também período em que notícias de interesse público caem no limbo. É o caso da aprovação do Projeto de Lei Complementar 45/2010, por 55 votos a favor e 18 contra, que reserva 25% dos leitos do Sistema Único de Saúde para Planos de Saúde privados. A aprovação se deu na noite do dia 21, uma terça-feira, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Apresentada em regime de urgência pelo Governador Goldman, a mesma proposta foi vetada por José Serra no final de 2009. Estranho? Segundo o texto do PLC aprovado, a definição das unidades que poderão ofertar serviços a pacientes particulares ou usuários de planos de saúde privados e outras questões operacionais será realizada pela Secretaria Estadual da Saúde. Na mensagem que encaminhou o projeto, o Executivo argumentou que hospitais como o do Câncer, Dante Pazzanezze, e Instituto do Coração, que realizam atendimentos de ponta, poderão receber pacientes da rede privada, sendo ressarcidos por seus gastos. Pergunto: mas já não existe a Lei 9058/1994 trata sobre o reembolso de valores correspondentes a seguro-saúde de beneficiários atendidos gratuitamente na rede pública. Não seria o caso de cumprir a lei que já existe?

Saiba mais:

Esse montande de leitos será reservado aos hospitais públicos de alta complexidade gerenciados por Organizações Sociais de Saúde (OSs). "Tendo em vista que cerca de 40% da população do Estado possui planos e convênios privados de saúde e que essa parcela se utiliza rotineiramente do atendimento destas unidades estaduais especializadas e de alta complexidade, não é adequado que as unidades respectivas não possam realizar a devida cobrança do plano ou do seguro privado que esses pacientes detêm", justificou o governador. Os deputados que votaram a favor da proposta (veja aqui a LISTA dos nomes) poderiam responder, então, o desabafo enviado ao NR por um médico que vive o dia a dia do SUS e dos Planos de Saúde que prefere não se identificar. “Na prática isso não dará certo. Leitos são unidades altamente dinâmicas, mudam a cada hora, a cada dia, e não dá prá dizer que a quantidade de doentes necessitados de leitos se enquadrarão exatamente nos 25% previstos na PLC. Mais uma vez interesses econômicos sobrepostos aos interesses pela saúde. E o trabalho médico fica extremamente limitado por medidas como essa. A partir do momento que isso começa a valer, o médico é cobrado pela instituição em que trabalha a não contrariar essa regra. Ou seja, se eu tenho 15 leitos para SUS e 05 para convênios, mas tenho 17 pacientes precisando de leitos de SUS, a lógica é simples: - Dr, vc vai ter que escolher, ou dá alta prá 02 do SUS que já estão "mais ou menos" ou se vira com esses 02 doentes! Aí, o médico põe o dele na reta e, caso um desses pacientes necessitados de leitos morra ou tenha complicações pela falta do leito, ou por uma alta precoce e "forçada" de alguém que deveria ter mais alguns dias de internação, a culpa não é da lei, do governo, da prefeitura ou do diretor do hospital, mas do médico que carimbou essa alta ou negou esse leito. Aí vem o Datena e fode com tudo de vez... É isso o que vejo, na prática, acontecendo.” 
O texto, promulgado no dia 27 de dezembro, diz. "O contrato de gestão deverá assegurar tratamento igualitário entre os usuários do Sistema SUS e do IAMSPE e os pacientes particulares ou usuários de planos de saúde privados." Mas quem regulará? Quem vai garantir que não teremos duas filas? Neste tema, caros deputados favoráveis e governador, muitas perguntas estão sem a devida resposta.

Thiago Domenici, jornalista

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A dor moral é maior que a dor física

Estou com um sentimento ruim que não passa. Antes de quarta-feira, 3, era uma dor no peito, que começou a me preocupar por ser crescente e com reflexos físicos aparentes. Odeio ir ao médico e consultórios me dão arrepios. Por insistência da família e amigos resolvi acionar o meu plano de saúde com o qual gasto, mensalmente, há quase um ano, 155 reais; Dix20 da Amil, utilizado duas vezes (sendo essa da história a seguir a segunda).
É por estar indignado que compartilho com vocês essa infeliz experiência, a maior humilhação da minha vida. Temos que refletir e agir, afinal, sou um caso entre centenas, talvez milhares...
No meu primeiro contato com a atendente do plano de saúde fui informado que apenas para dali a duas semanas haveria agenda disponível. Sem alternativa, aceitei. Marquei a consulta na Zona Leste, na Avenida Pires do Rio (perto da minha casa). Para esse dia desmarquei meus compromissos profissionais, queria apenas resolver essa dor. Quando se trabalha com jornalismo você se depara com pessoas e histórias de saúde fatídicas e, mesmo não sendo um hipocondríaco, a sua mente começa a criar ideias nada agradáveis sobre a provável origem do problema.
No esperado dia da consulta, às 14h, estava no meu carro ao lado da minha namorada, hoje meu braço direito nos processos de captação de recursos para projetos culturais. O trânsito estava infernal. Ao sairmos do bairro do Belém, o combinado era ficar no consultório, nesse interim, minha namorada iria para uma reunião na Av. Paulista.
Apenas para confirmar a consulta e o endereço liguei para o médico que me atenderia: José T.C.  Uma atendente de nome Isaura afirmou que o consultório (para o qual eu havia ligado há duas semanas) atendia somente na Avenida Paulista e não na Pires do Rio. Fora esse erro de informação, Isaura zombou do fato de eu precisar de um médico numa região afastada. São Miguel Paulista, segundo ela "é quase no fim de tudo."
São Paulo é uma cidade enorme e pela minha profissão circulo por todas as regiões e conheço de mansões a favelas. Além disso, independentemente dos quilômetros de distância que São Miguel fique do centro, não significa que a população daqui não mereça um atendimento médico de qualidade, seja lá em qual setor.
Tenho orgulho da minha história nesse bairro. Viajei por todo o Brasil, mas amo esse lugar, além do fato de meus amigos e família estarem aqui. Em São Miguel desenvolvi meus primeiros projetos e meus primeiros textos; conheci pessoas incríveis de projeção profissional e intelectual admiráveis, desde artistas e professores de universidades públicas e particulares até escritores, documentaristas, poetas, arquitetos, pesquisadores.
Senti raiva, mas não revidei o preconceito, apenas disse "tchau" e desliguei. Confuso, liguei para o número alternativo e a mesma Izaura atendeu. Debochada, riu, e disse que eu já havia ligado. Resolvi aceitar a realidade e marquei a consulta na Av. Paulista enquanto ela me tratava como se estivesse fazendo um grande favor.
Reservado o espaço na agenda para às 15h 45, desliguei o telefone para não levar uma multa. Liguei em seguida, agora para confirmar o número da minha carteira do plano de saúde. Como não uso o plano com frequencia tinha dúvidas de onde estava o registro que precisava informar.

A dor era outra
A todo momento me chamando de “bem”, Izaura disse que não tinha tempo a perder. Foi quando perguntei se ela estava nervosa. Retrucou dizendo que não tinha obrigação de marcar a minha consulta (que havia sido marcada, repito, há duas semanas) e desligou na minha cara.
Achei que eu fosse explodir. Na minha quarta ligação apenas desabafei. Ressaltei a forma como estava insatisfeito com o atendimento. Foi quando Izaura gritou comigo. Então disse que ela era uma grossa e mal-educada e mais uma vez o telefone foi desligado. A minha dor naquele momento já era outra, estava indignado e me sentindo um lixo. Decidi com minha namorada ir ao consultório. A ideia era falar com o médico sobre o episódio.
O endereço era pomposo: Av. Paulista, 2006, conjunto 1015. Uma bela recepção no hall de entrada, com um atendimento muito melhor do que o que receberíamos a seguir.
Enquanto esperávamos vi indícios de grosseria com mais dois pacientes. O consultório era uma saleta, com espaço claustrofóbico para espera e com algumas pessoas do lado de fora.
Quando Izaura leu o meu nome nos documentos, os olhos saltaram e sua voz alterou de tal forma que parecia que a estávamos ameaçando. O que eu queria era reclamar para o médico, mas fomos insultados por Izaura que, descontrolada, ameaçou chamar a polícia e bater na minha namorada. Não éramos bem-vindos pelo simples fato de estarmos insatisfeitos.
A decepção maior foi quando o médico José T.C. saiu da sala dele, e ao nos dirigir a palavra disse: "Aqui não é um hospital público" e zombou do nosso plano de saúde na frente de todas as outras pessoas.
Fui argumentar e o “doutor” virou as costas e bateu a porta. Izaura sorriu e, num momento de fúria, minha namorada jogou todos os papéis da mesa dela para o alto. Um ato impensado, num impulso que surgiu por uma pressão social, por uma ridicularização na qual fomos, gratuitamente, expostos.

Denunciar sempre
Denunciei o médico para o Plano de Saúde e irei redigir uma carta para a ouvidoria do Conselho Regional de Medicina. Jamais passei por isso, nem durante a produção de documentários ou matérias políticas, que acarretam dificuldades de abordagem. Quando o médico riu do meu plano de saúde o que ele queria dizer? “Cara, faça um plano mais caro e te atenderei melhor. Pois sou muito importante para receber tão pouco”.
A desequilibrada Izaura é fruto de uma liderança pífia e preconceituosa, é o resultado de uma total falta de qualificação profissional. Essa trupe de mal-educados, vide o recente exemplo das baixarias sobre os nordestinos no twitter, representa o que de pior há no sucateamento ético, moral e de atendimento do setor de Saúde Brasileiro. É a falta de respeito com o direito humano a saúde, que é constitucional. No meio de todo esse barraco a minha dor física ficou pequena e problema agora é moral. E pensar que tudo isso poderia ser evitado pela bela e boa educação, coisa que vem de berço e não se aprende na universidade.

Para reclamar:
- Saiba como denunciar (Conselho Federal de Medicina)
- Lista dos Conselhos Estaduais de Medicina por Estado
- Procon - Reclamações sobre Saúde - Planos de Saúde

Daniel Reis é jornalista
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