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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 4 de junho de 2013
Notícias
por Cidinha da Silva*
Depois daquela mulher, nunca mais assisti a Globonews do mesmo jeito. Ela virou uma espécie de fantasma que aparecia todas as vezes em que eu passava pelo canal.
A figura aterrissou numa roda de conversa por obra do lançamento do meu Kuami em Vila Isabel. Atrasada, mostrou-se encantada com a atmosfera leve. Até aí tudo bem, esse era mesmo o propósito. O caso é que ela iniciou uma catarse de reclamações sobre a Globonews, sobre as pessoas não conversarem, não interagirem e aquele momento ali, para ela, era um exemplo de como a vida deveria ser.
Ela dizia: “Estou cansada de saber as notícias do mundo e só desligar o televisor quando saio para o trabalho. Quando chego em casa, ligo a TV para ter a companhia da informação. Sei de tudo, a notícia se repete nos sucessivos jornais, às vezes até decoro os textos”. O problema é que ela repetia esse mantra torto como disco arranhado. Passou a tratar nosso espaço como algo terapêutico. Ameaçou pedir que as pessoas compartilhassem apertos de mão, abraços.
Alguns participantes estavam visivelmente incomodados, eu também, e precisei tangenciar a conversa para cenas do livro. Nada adiantou.
Comecei a ter medo dela. Parecia uma morta-viva e pior, era médica. Estava na cara que ela precisava de fogo, de vitalidade. Oferecíamos a chama literária, mas ela precisava de mais. Carecia de terapia profunda, daquelas complexas, com escuta, exercícios respiratórios, florais de Bach, do cerrado, do deserto, da Amazônia, de Minas, de Marte...
O que mais me espantava era a reafirmação de que ela cuidava da saúde das pessoas em um posto de saúde e era assim, corpo, mente e espírito tão adoecidos. Até hoje, quando passo pela Globonews lembro-me daquela mulher, e apavorada, observo as notícias se repetirem.
*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Ilustração retirada do blog do Breno Zannetti.
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