.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador curtas banais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador curtas banais. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A casa da varanda

“Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar.”

Edgar Allan Poe, ‘O Gato Preto’


Há cerca de um ano, apareceu na casa amarela que avisto do meu quintal uma placa de “aluga-se”. Simpática, a casinha é bem iluminada pelo sol e tem uma grande varanda na frente. Por curiosidade, e uma certa mania que tenho de ver imóveis em geral (reflexo de quem mora e já morou em muitas casas alugadas?), peguei a chave no bar da esquina e fui ver a casa.

O terreno é íngreme: a casa é incrustada num morro. Uma escada comprida e estreita leva à entrada. Passados os degraus um tanto incômodos, à direita está o acesso à casa, feito pela porta da cozinha – uma marca registrada desse tipo de construção tão comum em São Paulo: casas geminadas, quase sem terreno, encarapitadas umas nas outras, construídas por um unico dono (e talvez em algum momento de sua origem sendo apenas uma única casa) e depois alugadas continuamente, passando por dezenas de locatários e suas histórias ao longo dos anos. À esquerda desse primeiro cômodo, o tradicional “banheiro na cozinha”; à direita uma sala mínuscula, um quarto pequeno e outro grande, dando para a gostosa varanda.

Se, ao invés de acessar a parte interior da casa ao término da incômoda escada inicial, o visitante seguir pelo corredor lateral, chegará a um pequenino quintal cimentado; acima dele, ainda nos limites do terreno da casa, uma parte de terra com uma única árvore: uma mangueira, não muito grande, não sei se nova ainda ou se pequena pela falta de espaço para crescer.

Depois o muro e atrás dele o resto de morro com o matagal maltratado que se estende até o muro da próxima casa, que já dá frente para a rua de cima. Uma casa simples, mas gostosa. Uma casa que eu moraria quando era mais nova, pensei.

Passado pouco tempo, a casa foi alugada. Do meu quintal tive as primeiras visões dos habitantes e visitantes da casa: meninos e meninas jovens, uma rede na varanda. Gostava de observá-los conversando, um deitado na rede com um laptop ou livro no colo, outro sentado no muro fumando com longas e despreocupadas baforadas.

Às vezes havia festas: acendiam velas pela varanda e daqui eu podia ouvir a música, de boa qualidade e em volume razoavelmente aceitável para os vizinhos. No outro dia, ao levantar cedo com minha bebê, via a varanda com cara de ressaca, os restos da festa iluminados pelo sol. Os ocupantes da casa dormiam lá dentro, talvez muitos em uma só cama, talvez com amigos sem rumo dormindo no sofá da sala – se é que existia um.

Aos poucos identifiquei pelo menos uma moradora fixa da casa da varanda: uma menina, cabelos escuros e longos. Se nos finais de semana a varanda servia para as festas, durante a semana eu a via estendendo roupa lavada com calma e esmero. Sentia uma certa identificação com ela – era como se visse a mim mesma há algum tempo atrás, ou a uma amiga próxima.

O tempo passou e a casa ao lado da casinha da varanda começou a ser aumentada no tradicional estilo puxadinho. O corredor lateral, antes aberto e iluminado, foi sufocado por um grande muro – a recém-erguida parede da casa ao lado. Pensei com tristeza que as janelas da casa da varanda, todas laterais, deviam ter sido praticamente tapadas pela parede vizinha, ainda sem acabamento. Era uma casa simples mas agradável; tornou-se uma casa simples e escura. Mas a varanda, simpática e iluminada, permaneceu.

Só que a alegria da varanda sumiu. Ainda via a rede pendurada, mas agora sempre vazia. Eventualmente via algumas roupas no varal, mas nunca mais pude observar sua jovem e esmerada lavadeira estendendo as peças. Nunca mais festas, velas ou música. A varanda silenciara. Pensei que talvez a menina dos cabelos escuros e longos tivesse se mudado.

Na minha casa não tem gato nem cachorro. E, apesar de bem acessível para os que andam pelos telhados da vizinhança, nunca tive visitantes de quatro patas e bigode. Faz no máximo um mês que comecei a receber a visita insistente de um gatinho branco e cinza.

Miador e nada arisco, ele passou a viver na minha lavanderia; entra aqui fugindo de um enorme e assustador gatão branco e – folgado – já apareceu até mesmo dentro da minha sala (e fugiu, assustado com o meu susto). Tomei uma certa simpatia pelo bichinho e certa vez lhe ofereci pedaços de presunto, que ele retribuiu se esfregando à maneira dos gatos. Esta semana ele apareceu demais por aqui, a ponto de eu ter considerado a possibilidade de efetivamente adotá-lo como morador da casa.

Quarta-feira à tarde juntou gente na rua. Um rapaz, bermuda e camiseta, chorava muito e falava incessantemente ao telefone. Polícia, bombeiros, a vizinhança em volta. A menina dos cabelos escuros e longos se matou.

Enforcou-se na mangueira, e não se sabe quando. Foi vista pela última vez na segunda-feira. Tinha vinte e cinco anos; deixou a rede pendurada e algumas roupas no varal. Os outros habitantes da casa haviam se mudado e ela vinha morando sozinha há algum tempo. Não tinha família na cidade. O amigo de bermuda e celular permaneceu ao redor da casa durante todo o dia, até o carro dos bombeiros sair, já de noite. Não o vi entrar na casa novamente.

O gatinho branco e cinza esteve aqui em casa desde cedo. Uma senhora veio ao meu portão e disse: esse é o gato da moça que se enforcou.

A luz da varanda está acesa desde então. Ninguém parece ter tocado na rede ou nas roupas do varal. Ontem à noite o gatinho miou forte aqui no quintal. Não o vi, mas sei que é ele.

Acendi uma vela para a moça dos cabelos escuros e longos e levei minha filha para dormir comigo.

Sofia Amaral, produtora e roteirista, especial para o Nota de Rodapé. Com ilustração de Caco Bressane

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Big Mother, melhor que BBB

Quando estava grávida, entrei em contato com um grupo de mulheres muito bacana, militantes do parto humanizado

Para quem não sabe, o parto natural humanizado é aquele em que se respeita ao máximo a naturalidade do processo de parir; são evitadas ao máximo todas as intervenções na mãe e no bebê; o parto é feito na companhia das pessoas escolhidas pela parturiente; a mulher tem liberdade de movimentos durante o trabalho de parto e escolhe a forma como quer parir: de cócoras, na água, deitada, ajoelhada, apoiada nos braços do marido – ou o que lhe der na telha na hora. O uso de anestesia também não é incentivado, por atrapalhar muitas vezes na evolução do trabalho de parto, já que, anestesiada, a mulher perde a consciência real do processo.
Parto natural também é feito na água
Numa sociedade que chega a espantosa taxa de 70 a 90% de cesáreas no serviço privado de saúde, e uma média nacional de 47% de partos cirurgícos contra uma taxa máxima recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de apenas 15% do total de partos, essas mulheres nadam contra a corrente. Escolhem parir respeitando o processo de seu bebê e de seu corpo; e para isso lutam contra maridos, parentes, conhecidos, desconhecidos e, especialmente, contra o sistema de saúde (tanto público como privado) que, cada vez mais, empurra as mulheres para uma cesariana utilizando-se de desculpas, alegações frágeis e até mesmo mentiras.
Para quem quiser saber mais sobre o assunto, que é longo, recomendo os sites do GAMA, Parto do Princípio e Amigas do Parto apenas como ponto de partida para a pesquisa. Existem muitos sites, blogs e redes mantidas pelas militantes, que disseminam ao máximo as informações na internet na tentativa de lutar contra a desinformação geral que leva tantas mulheres a cesáreas absolutamente desnecessáreas e – pior – arriscadas para mãe e para o bebê.
Uma dessas mulheres é Rosana Oshiro, mãe de quatro filhos e grávida do quinto, brasileira que mora no Japão. Rosana teve seus dois primeiros filhos por cesáreas desnecessárias, lutou por um parto natural na gravidez de seu terceiro filho (e acabou optando por um parto domiciliar – em casa) e em seu quarto filho acabou por ter um parto desassistido (sem auxílio médico nem de parteira), embora essa não fosse sua ideia inicial. Enfim: uma parideira de tirar o fôlego!
Rosana é militante ativa do parto humanizado, mantém três blogs e agora parte para o mais audacioso de seus atos de militância. Rosana está no início do trabalho de parto, no Japão, e vai transmitir seu parto ao vivo pela internet, no intuito de demonstrar que um parto natural, e em casa, pode ser seguro, tranquilo e, principalmente, muito mais prazeroso para a mãe e acolhedor para o bebê do que uma cirurgia, ou mesmo o ambiente de um hospital.

AO VIVO!
Ela acaba de informar por email que a bolsa já rompeu mas as contrações ainda não começaram. Como é madrugada no Japão, ela está descansando um pouco, mas vai iniciar a transmissão assim que as contrações começarem. Epa, peraí! A bolsa estourou e ela vai descansar? É isso mesmo, caro leitor. Quem se interessar, tem um tempinho para entender isso e outras coisas melhor dando uma olhada nos sites que coloquei acima. Ah, e tem os blogs da Rosana também: (www.relatosdeparto.blogspot.com e http://opartoeseu.blogspot.com). Boa leitura! Quando o “show” começar avisaremos pelo twitter e facebook.




Streaming live video by Ustream

Sofia Amaral,
mãe da Manu que nasceu de uma cesárea, mas necessária e consciente. Também é colunista do Nota de Rodapé.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

de parceiros

um domingo desses, cinzento, vi uma cena que me fez lembrar outro domingo cinzento, há uns anos atrás. a cena que eu vi foram dois cachorros vira-latas, muito parecidos (irmãos?), caminhando lado a lado, decididos e juntos. não sei onde iam; mas iam parceiros.
a cena que eu lembrei, de um outro domingo cinza paulistano, foi na frente do teatro municipal. estava fazendo um programa em que filmávamos muito no centro da cidade: anhangabaú, patriarca, viaduto do chá etc. dessa vez era na escadaria do teatro, e lá cheguei por volta das seis da manhã. um dia cinza, feio, e o centro da cidade no domingo é bem triste. com as ruas vazias, a sujeira fica mais visível, e as portas baixadas do comércio atraem a atenção para a decadência dos prédios. e o dia deixava tudo mais cinza.
mas voltemos: cheguei por volta das seis da manhã com a primeira parte da equipe, basicamente a produção e os seguranças. os seguranças logo começaram sua primeira tarefa do dia: expulsar das escadas os mendigos e meninos de rua que ali dormiam, para que pudéssemos começar a montar o set. (antes que o leitor arregale os olhos de indignação: não, eles não foram truculentos, não bateram em ninguém, nem mesmo foram grossos ou mal-educados. até porque essa população, em geral, está acostumada a ser expulsa: não reclama, se resigna e sai. e a vida continua em outra esquina).
nesse dia, no entanto, duas pessoas não se resignaram. uma delas proporcionou um espetáculo cômico: era um senhor aparentando ter, sei lá, uns 50 anos. ele encasquetou com um dos seguranças; não lhe dava paz. o segurança pediu pra ele sair, ele resistiu, acabou saindo. começamos a montar o set e toda hora lá vinha de novo o homem perturbar o segurança. entrava correndo no meio do set, corria em círculos em volta do cara, gritava, ria, sumia, voltava. quando já estávamos com quase tudo montado, umas trinta ou quarenta pessoas trabalhando, o homem apareceu de novo e invadiu o set, sempre chamando a atenção do mesmo segurança, que perdeu a paciência e o pegou pelo braço para tirá-lo dali. e aí sim ele deu o show: arrancou toda a roupa, apesar das tentativas do nosso segurança de impedi-lo, e passou a correr, pelado, em volta do set, com o segurança correndo atrás e o resto da equipe gargalhando.
bom: me perdi porque não pude deixar de lembrar dessa história, mas o que eu ia contar mesmo não era isso. era a história da outra pessoa que não se resignou a sair sem reclamar: um garotinho de rua, acompanhado de uma matilha de cães filhotes. não filhotinhos, pequenininhos, mas – como direi? cãezinhos jovens. uns seis ou sete vira-latinhas que dormiam com ele. ele parecia, na verdade, parte da matilha. eram oito cachorrinhos, só que um andava em duas patas. e esse era o mais bravo de todos.
os seguranças custaram a conseguir que a “matilha” saísse. o garoto reclamava, xingava, só faltava rosnar, e os cachorros, embora menos corajosos, não o largavam um só momento. acabaram por ir embora, todos juntos, e sumiram.
lá pelo meio da manhã, ao escutar cachorros latindo, automaticamente me virei pra procurar de onde vinha o barulho que poderia atrapalhar nosso áudio. então vi a cena que nunca me saiu da cabeça, e acho que nunca vai sair: numa kombi do SOS Criança, ou coisa que o valha, ia o garotinho, colado à janela, as duas mãos espalmadas no vidro, querendo sair. e atrás, na rua, a matilha de vira-latas corria e latia desesperada, seguindo a kombi. tinham levado seu parceiro.

Sofia Amaral é roteirista, mãe da Manu e mantém a coluna Curtas Banais

terça-feira, 8 de junho de 2010

Curtas Banais # 11


da barriga


a gravidez traz muitas surpresas e mudanças pra vida da gente, boas e ruins. são muitas as coisinhas incômodas que acontecem ao longo desses longos nove meses. é, minha filha, prepare-se para ser surpreendida por problemas que você nunca soube que as grávidas tinham, ou por ser obrigada a ver com seus próprios olhos (ou sentir com suas próprias costas) dores e sintomas que você achava que eram pura frescura ou mito. e isso porque minha gravidez está sendo bem calma e eu não tive um pingo de enjôo, hein? mas, como tudo na vida tem seu lado bom (e a gravidez obviamente tem o melhor dos lados), todas essas coisas são pequenas perto da emoção de sentir seu bebê chutando – perdoem o clichê, mas é verdade. portanto não vale a pena falar muito do lado ruim, até porque não quero aterrorizar ninguém (haha!).

mas uma das melhores coisas (e mais engraçadas também) que passamos na gravidez é uma espécie de libertação feminina em relação à forma física. todas nós sabemos o quanto lutamos (ou não) para atingir ou manter-se num determinado peso, para se livrar da barriguinha, etc. todas, ou muitas de nós, não gostamos de falar nosso peso, e nunca passa pela nossa cabeça discutir com semi-estranhos o quanto engordamos nos últimos tempos – afinal se engordamos isso é um problema nosso, e já bastante desagradável sendo íntimo, que dirá público. pois bem: é você ficar grávida pra isso tudo mudar completamente.

a manicure, a professora de ginástica, a faxineira, a sua avó, a sua cunhada, o seu pai e se bobear até o seu chefe, todos vão, em algum ou vários momentos, te fazer uma das perguntas que as grávidas mais ouvem: “quanto você engordou até agora?”. e você vai responder com cifras cada vez mais altas sem se abalar.

sem pestanejar, as pessoas passarão a te “elogiar” de formas nunca antes ouvidas como: “olha que linda, está toda redondinha…”, “nossa, mas você está bem maior do que a última vez que nos vimos!”, ou “oi, gorduchinha!”. as minhas duas avós passaram a me chamar de “gordinha”. meu marido me chama de “bolinha”. e olha que eu ainda estou com sete meses e engordei menos do que o permitido pelos médicos…

pras pessoas, que te vêem de fora, isso deve ser óbvio e natural, afinal estão mesmo vendo uma bolotinha com uma bolotona no abdômen. mas pra gente, que não anda com um espelho grudado na frente do corpo, é bem estranho, pelo menos no começo, ser chamada carinhosamente de “gorduchinha”. mas depois que você se acostuma, passa a achar bem legal. afinal, em que outro momento da vida uma mulher poderá se vangloriar de ter um redondo e gigantesco barrigão? ou de ter engordado “apenas” sete quilos?

minha colega e mãe surtada andrea dip há pouco tempo fez um alerta sobre o novo ataque da patrulha da boa forma, agora às grávidas, e olha, o caminho deve ser esse mesmo, infelizmente. mas, gente: ainda não chega nem perto da sua vida normal. vocês não sabem a delícia que é comer mais um brigadeiro enquanto alguém te chama de gorda e achar isso lindo.

Sofia Amaral é roteirista e produtora e mantém a coluna Curtas Banais neste Nota de Rodapé

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Curtas Banais # 10


de mosquitos


já faz anos que, infelizmente, sou obrigada a passar quase todos os meses de janeiro em são paulo, trabalhando. mas o costume parece não fazer efeito nenhum: todos os janeiros são, para mim, igualmente tediosos e revoltantes.

sim, revoltantes. porque podemos ser esses animais obedientemente trabalhadores, mas a natureza grita que é verão. e no verão a gente tem que ser feliz, que me desculpem os que gostam de inverno – ou de trabalho.

eu ainda tenho o azar de estar trabalhando em casa nesses tempos. sim, azar, afinal eu não aproveito a única coisa boa de janeiro em são paulo: a melhora do trânsito. por outro lado, a cidade vazia dá uma sensação ainda mais irritante: “só eu estou aqui enquanto todos estão tomando água de côco à beira mar”. é. de fato não sei se é pior ou melhor ficar em casa.

mas sei que da minha janela, pra onde meu olhar teima em desviar a todo momento, vejo um céu maluco de verão, que alterna entre claro, cinza, chuvoso ou com um sol escaldante; e escuto as crianças em férias brincando na rua (sim, isso existe em são paulo, e na frente da minha casa existe até demais!). sinto o calor que entra e a brisa quente que sopra de vez em quando. e – ó vida! – também é por essa janela que entram os mosquitos.

mosquitos que picam de dia e de noite. que não respeitam meu horário de trabalho e nem meus momentos de descanso em frente à tv no fim do dia. aliás, nem mesmo as refeições: hoje mesmo enquanto eu almoçava os mosquitos também me almoçavam debaixo da mesa!

e são eles, meu deus, que mais insistem, que mais chateiam, que mais provocam: é verão! vá pra rua! corra na areia! ande de bicicleta! coce as picadas até sangrar, tenha perebas que serão curadas na água do mar!

mas… eu não: eu comprei um repelente. e continuo trabalhando sob o sol de verão.

Sofia Amaral é roteirista e produtora e gasta uma grana com repelente.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Curtas Banais # 9


da vontade


vida de frila não é fácil. pra começar, enquanto todo mundo reclama de trabalhar muito, ou eventualmente de estar desempregado, você reclama de ambas as coisas. porque quando o trabalho vem, vem mesmo. às vezes, dois ou mais ao mesmo tempo – e você se desdobrando em trinta. e a seca, quando vem (toc, toc toc), também é dura: dias olhando pro vento, cozinhando, fazendo academia e tentando não pirar. isso sem falar na negociação de grana, sempre estressante: sempre algum cachê pra tentar melhorar, uma argumentação meio constrangedora (imagine ter que negociar seu salário com seu chefe todo mês – pro frila é toda semana, com vários “chefes” diferentes). e aí é uma nota pra enviar, um imposto pra pagar, um cachê atrasado e a sua conta no vermelho.

como se não bastasse, tem o lado “social” da coisa: sempre tendo que fazer uma média, meio com medo se queimar ou de mandar alguém ir praquele lugar (pra quem é bocuda que nem eu isso é foda), ou aguentando gente chata e incompetente… pelo menos no mercado de vídeo-cinema-tevê é bastante assim. mas acho que em qualquer área rola isso.

bom, eu tava meio que nessa aí. dois trabalhos ao mesmo tempo, produção e roteiro. cada coisa numa produtora, claro. correndo pra caramba – tipo de manhã reunião com cliente na zona sul, de tarde visitando locação na zona norte, de salto e blusinha de manga-morcego. aí beleza, gravei minhas duas diárias, terminei o job (o de produção – falta fechar, mas a gente se vira…) e no domingo acordo em casa, aquele solzinho, dez da manhã, o corpo todo dolorido depois da primeira noite de sono completa em quatro dias. tomo meu café e sento no quintal, mentalizando que teria que me concentrar e - sem nem o sagrado domingo de descanso – sentar pra escrever.

de repente, vem a inspiração:

-baby, sabe o que eu queria ser?
-o quê?
-um ovo frito.
-?
-pensa bem: ele tá sempre deitadinho, com aquela geminha mole, balançando… em paz…

um ovo frito. taí.

Sofia Amaral é roteirista e produtora, e tá cansada até pra escrever mais nesse crédito. Ufa!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Curtas Banais # 8


da inocência


ali pelos meus dezessete anos, eu era uma forrozeira de marca maior. não é piada não: a gente levava o forró a sério, muito a sério. treinava em casa com as amigas e dançava a noite toda pelo menos três vezes por semana, mesmo tendo aula às 7 da manhã do dia seguinte (como eu dormi no banco do colégio, meu deus…). a gente respirava dominguinhos, luiz gonzaga, elba ramalho e vários trios clássicos com repertório excelente, e desprezava as bandinhas de “forró universitário”. as meninas dançavam na ponta do pé, com os ombros retos e o quadril mole, uma mistura de forró com gafieira que sabe deus onde foi inventada – mas que era mesmo bonita de ver. desprezávamos os “pregos” e interrompíamos a dança no meio sem dó se o cara fosse muito ruim ou se estivesse dançando “armado” – eca!

era um bando de molecada entre 15 e 25 anos (as meninas um pouco mais novas, os caras um pouco mais velhos) que vivia aquele ambiente enfumaçado, de luzes coloridas e música regional, e fazia disso a coisa mais importante da vida. as letras das músicas, românticas e algumas vezes sacanas, sempre com muitas traições e dores de amor, somadas ao fato de todos estarem sempre em contato, e sempre vendo e sendo vistos na pista, fazia com que as histórias “de amor” fossem sempre umas novelas, uma diversão que você acompanhava – ou vivia – capítulo a capítulo, ou forró a forró.

bom, eu arrumei uma espécie de namoradinho, que era namoradinho só pra mim. feio, feio, feio, o cão chupando manga. mas dançava que era uma beleza e era – como todos os forrozeiros – um grande sedutor. o cara tinha uma mina por dia da semana, mas sempre as mesmas. acho que ele saía de casa pensando em quem preferiria naquele dia. eu – ai! – era uma delas. e por mais que sofresse quando o via agarrado com outra, não conseguia resistir quando chegava a minha vez. odiava as rivais e perdoava o cafa. bem como nas letras de forró.

uma vez fui na casa do fulano. debaixo de um fundo falso (!) no sofá, ele me tira uma balança de precisão, daquelas de “pesar ouro”, segundo ele. meio querendo se mostrar, é claro, afinal ele era bem moleque também. mas disse que “um amigo tinha esquecido lá”. eu nunca mais pensei no assunto.

aos poucos fui conhecendo o cara um pouco melhor. ele me dizia que trabalhava num cartório, e contava algumas coisas do trabalho. falava sempre sobre o “chefe”, e uma vez me contou, feliz, que o “chefe” estava muito satisfeito com o trabalho dele e ele tinha sido promovido. vocês já imaginam que quando eu passava na frente de um cartório na rua eu olhava pra dentro – quem sabe é nesse que o fulano trabalha?

o fim da história, eu quase não preciso contar: passado algum tempo, logo depois dessa história de “ser promovido”: jornal nacional. “preso hoje membro de uma das maiores quadrilhas de traficantes etc, etc”. era o fulano. e sabem que eu ainda me surpreendi?

Sofia Amaral é roteirista, produtora e, passados quase dez anos dessa época, perdeu um pouco da inocência. Mas ainda dança sozinha em casa ouvindo dominguinhos, com saudade das noites em que acompanhar o ritmo da sanfona era a única preocupação da vida.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Nove perguntas sobre a puta da Uniban


hoje é curta, mas não é banal. tem textinhos engraçadinhos e simpáticos meus pra entrar, mas pedi um espaço urgente pro thiago. e não é porque eu ache que tenho alguma coisa importante pra dizer ou uma reflexão maravilhosa pra fazer. é simplesmente porque hoje é sexta-feira, são 10h da manhã e eu me sinto enjoada há pelo menos uma hora, desde que li na folha de s. paulo o caso da “puta da uniban”.

parênteses pra quem não sabe do que eu tô falando: http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u644777.shtml
e pra quem sabe mais ou menos, mas não tem a dimensão da coisa, esse vídeo foi feito de dentro da multidão. atenção ao coro: http://www.youtube.com/watch?v=f2dPmntMDSk

eu me pergunto:

1. até que ponto podem chegar essas pessoas? esses meninos são os meninos que andam de ônibus com a gente, que não levantam pros velhos no metrô, que entram na mesma fila na padaria, que sentam ao nosso lado no cinema. até ponto eles podem ir quando em grupo? matar, linchar, esquartejar?

2. e as mulheres? em um dos vídeos dá pra ouvir claramente um diálogo entre duas amigas. uma delas diz “ela tá chorando!”. a outra responde: “dane-se!”. na reportagem da folha também diz que, antes do tumulto, a moça foi ao banheiro, já acompanhada de uma amiga que receava que acontecesse algo. o banheiro foi invadido por cerca de 20 meninas que tentaram obrigá-la a mudar de roupa. que pensam essas mulheres? concordam quando os homens dizem que uma mulher foi estuprada “porque tava pedindo” ou apanhou do marido “porque mereceu”?

3. claro que ter namorado não é garantia de bom caráter nem de discrição, mas a menina tinha ido arrumada para a faculdade porque o namorado iria buscá-la no fim da aula para ir a uma festa. quantas meninas não fazem isso? por que o fato de ela ser gostosa incomoda tanto pessoas que mal a conhecem, sendo que não incomoda nem mesmo o namorado da moça, já que ela disse já ter usado o vestido outras vezes?

4. será que as mulheres se sentem tão pressionadas pela ditadura da beleza, da magreza, dos peitões, do cabelo loiro e liso, que numa catarse descontaram todas as suas frustrações na moça?

5. será que os homens se sentem tão pressionados a só conquistar e gostar de mulheres que façam parte desse estereótipo que numa catarse também descontaram suas frustrações na moça?

6. ou será que a autoestima de todos é tão baixa que apenas procuram alguém que seja “pior” do que eles, alguém em que possam jogar pedras para poder dizer “eu sou uma merda, mas tem gente ainda pior”?

7. a atitude dos professores e da polícia: será que eles de fato acharam relativamente normal o que aconteceu, o que pelo menos fizeram parecer a partir das declarações que deram a imprensa e das frases que falaram pra moça? o que é, então, a realidade das faculdades e das escolas? algo muito pior do que imaginamos?

8. num país como o brasil, onde todos andam com o corpo a mostra pelo menos quatro meses por ano, num calor infernal, e num mundo como o nosso, onde o que mais se vende é o que está relacionado de alguma forma a sexo (apresentadoras peitudas, realitys com gostosas na piscina, aulas de sexo anal em programas vespertinos na tv, revistas que ensinam como conseguir um orgasmo rápido e fantástico), por que esse inesperado surto moralista?

9. e afinal de contas: por que tanto ódio?

joga pedra na geni, joga bosta na geni. você pode nos salvar, você vai nos redimir. você dá pra qualquer um… bendita geni!

Sofia Amaral é roteirista e produtora

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Curtas Banais # 7


do casamento


e aí que paramos de rodar só mais de meia-noite, sendo que eu havia marcado a equipe às 7h da manhã. filme com orçamento de institucional e exigência de publicidade. eu com apenas três carros: o de câmera, o de figurino e o caminhão de luz. e a locação – que beleza! – era o shopping D, lá no meio da marginal tietê, perto da rodoviária.

essa é uma das coisas mais chatas de uma diária de filmagem, principalmente quando se está num lugar fora de mão e já é tarde o suficiente pra não poder mandar a galera se virar de condução. chega o fim da parada, você, produtor, completamente cansado – de ficar tanto tempo em pé, resolvendo problemas, correndo de um lado pro outro, etc, etc – ainda tem que resolver como cada um dos trinta (ou mais) cidadãos da sua equipe vai pra casa. “você tá de carro? não? mora aonde? ô, fulano, você não mora na zona leste? será que você não deixa o assistente do maquinista em casa? e você, fulana? ah, vai com a maquiadora? ah beleza. e você? hmm… então melhor você ir no carro de câmera que depois que ele descarregar na locadora ele te deixa. não, mas vai descarregar primeiro. é, eu sei que seria mais fácil passar primeiro na sua casa mas o coitado do assistente de câmera tem um job amanhã às 4h da manhã. é, e de lá ele ainda vai pra zona norte. tá?”. acho que deu pra entender. como diria um amigo, você tem que “se imiscuir nas subjetividades alheias”. e depois resolver o problema de cada um.

estava eu nesse processo fascinante, ainda no set, e descubro que meu fotógrafo está sem carro. além disso, uma parte da luz era dele, então teria que descarregar na casa dele também. passo um rádio pro motorista do caminhão:

- fulano, mudei o esquema então: o diretor de fotografia está sem carro, então ele vai junto no caminhão, tá? aí você descarrega a luz na casa dele primeiro, e já descarrega ele também, rs…
- aaaah é…?
- é. vai você e ele, e o fulano vai junto pra descarregar a luz lá, na cine e na produtora, ok? eles já tão carregando aí né?
- aaah… hmmm… vão duas pessoas no caminhão, então?
- é, ué. não cabe você e mais dois? cabe, já mandei duas pessoas!
- não, é… cabe… mas é que eu tô com uma pessoa aqui…
- hã? como assim, uma pessoa? não copiei, repete.
- não, é, então… a minha mulher… é… ela trabalha aqui perto né? então ela saiu umas seis horas e veio me encontrar aqui pra dar carona pra ela…
- seis horas? mas são meia-noite e meia! gato, como assim, não tô entendendo. você trouxe sua mulher pra trabalhar com você??
- é, então… é que ela não fica sozinha, sabe? ela não fica sozinha em casa. tem medo. é casamento novo, seis meses só… e ela não gosta, sabe? de ficar sozinha. precisa ver quando eu tenho que viajar. eu saio e não aviso nada, só aviso quando já tô chegando em outro estado. senão, já viu, né?

Sofia Amaral é roteirista, produtora e é casada. Mas acha que levar o marido/esposa no trabalho é ainda pior do que levar marmita em restaurante.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Curtas Banais # 6


da peruagem

2 da tarde, saio pra ir à padaria. é um belo dia de sol, frio e céu azul na bela e ensolarada vila madalena, e parece que esse clima de primeiro mundo deixou as peruas em polvorosa. abaixo três exemplos fantásticos que consegui em apenas dez minutos na rua (em ordem cronológica!):

perua #1 – EXT/ DIA – rua rodésia esquina com jericó – caminho de ida

a vila madalena é o local com maior número de confusões engraçadas de trânsito por quilômetro quadrado. são ônibus gigantescos em ruazinhas apertadas, quase sempre duas mãos. a isso some-se a geografia acidentada do meu querido bairro natal e os carros estacionados dos dois lados, mais os manobristas e… enfim: as peruas. era exatamente uma situação dessas: um ônibus entalado em uma curva fechada, um carro tentando dar ré na curva e mudar de mão pra ver se o ônibus encontrava espaço pra desentalar, uns outros dez carros esperando… uma confusão dos diabos. a nossa perua #1 vem na única mão livre da rua (justamente pra onde o bondoso senhor do carro tentava se locomover pra liberar o ônibus) a toda velocidade e buzinando. tira uma fina do carro que manobra e ainda sai xingando por trás de seus vidros com insulfilm. acho que ela deve ter colocado insulfilm também nos olhos, pra só enxergar o lado de dentro, né?

perua #2 – INT/ DIA – padaria rodésia

padaria lotada – caixa idem. a nossa querida perua #2, que está na minha frente na fila, é uma perua fashion: pequena e magrelinha, seus óculos tipo abelha parecem ainda mais bizarros no rostinho minúsculo emoldurado por cabelos assimétricos. ela deve realmente gostar muito de moda pra se obrigar a usar óculos tão desproporcionais ao tamanho de seu rosto. ao lado dela, uma amiga. atrás de mim, mais umas quatro pessoas esperando pra pagar.

- você tem algum doce que não seja chocolate?

- tenho esses aqui.

infelizmente ela estava continuando a conversa com a parceira. alguns segundos depois:

- tem ou não tem?

- tenho esses aqui.

- ah, esse eu não quero.

vira novamente para a amiga e conversa mais um pouco. o caixa, irritado. nós, resignados.

- e tic tac, do normal, você tem?

- tenho.

- ah…

pensa durante um século. pergunta o que a amiga acha do tic tac. pensa de novo.

- não, e mentos?

- tá aqui.

- ah… não. daquele mastigável, você tem?

- tenho.

- ah…

pensa mais um século. continua um pouco mais a conversa. de repente, um estalo:

- não. não vou querer, não. ó, cobra aqui. só que eu só tenho cinquenta, tá?

perua #3 – EXT/DIA – rua rodésia esquina com jericó – caminho de volta

no mesmo malfadado cruzamento da perua #1, a nossa perua #3 pára pacientemente para dar passagem pra outro carro (é um cruzamento sem semáforo). pena que pacientemente demais: ao pisar no freio, nossa querida abre o porta-luvas do carro, tira uma bisnaga de creme e, calmamente, começa a hidratar a delicada pele de suas mãos e antebraços. dois, três, quatro carros se acumulando atrás dela. mas a perua #3 termina calmamente de se hidratar e só então move seu veículo. detalhe: ela só olhou pra frente depois de andar uns bons metros. ainda bem que sou uma pedestre atenta, ufa!

Sofia Amaral é roteirista, produtora e na pré-adolescência usou polo ralph lauren e tênis de salto, mas acha que peruagem não tem nada a ver com roupas.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Curtas Banais #5


do condicionamento físico


aí que eu, que nunca gostei de exercícios, resolvi fazer academia. sabe como é que é, depois dos 25 tudo começa a cair, e principalmente porque estava (estou?) a fim de parar de fumar e achei que talvez os exercícios pudessem ajudar. nem é preciso dizer que eu ainda não comecei a tentar largar o cigarro, mas… tô adorando a tal da academia. me sinto ótima depois que saio, cheia de energia, os exercícios são baseados em metas pessoais e eu mesma tento me superar, enfim: aquilo tudo que todo mundo fala e eu nunca acreditei muito. e no momento meu grande objetivo é apenas um: correr na esteira.

eu comecei só andando, há três semanas. beleza, tranquilo, ando rápido, suo, ouço música eletrônica no meu ipod, fico feliz. mas comecei a reparar que absolutamente todos os meus vizinhos de esteira correm. e esse negócio de superar a si próprio é meio viciante: em poucos dias eu já fiquei super a fim de correr também. de conseguir. de me superar. de provar pra mim mesma que posso ser mais do que uma gordinha sedentária. coisas imbecis que só quem faz academia entende. mas eu tinha um grande problema.

não, meu problema não era (ainda) o fôlego. o cigarro. o sedentarismo acumulado em anos a fio. meu problema era o MEDO DE CAIR.

sim. medo de cair. eu sou descoordenada. muito descoordenada. tipo aquela que era sempre a última a ser escolhida na educação física, fosse pra futebol, vôlei ou queimada. e, por mais que eu desejasse, parecia que meus pés se grudavam no chão. eu não tinha coragem  de aumentar a velocidade. já me imaginava estatelada no chão, boca sangrando, as pessoas se segurando pra não rir, eu nunca mais tendo cara pra voltar nessa academia – e nem em nenhuma outra, nunca mais.

maaaas, como tudo nesse mundo fitness é superação pessoal, acabei conseguindo. senhoras e senhores, eu consegui. quase pude ouvir a música do carruagens de fogo tocando ao fundo. emocionante. corri apenas um minuto, já no final dos meus quarenta regulares, mas foi o suficiente para que eu saísse de lá e fosse imediatamente comprar um tênis decente, pra poder correr sem destruir meus joelhos.

dia seguinte, tênis novo. feliz, me sentindo uma verdadeira atleta, alterno minutos de corrida com minutos de caminhada. vou descobrindo os macetes de fôlego e equilíbrio. estou ali, na minha super viagem atlética – talvez uma das primeiras da minha vida –
vermelha, suada, sorridente, quando uma das instrutoras da academia se aproxima com uma cara preocupada.

-    então… deixa eu te perguntar uma coisa… por acaso você fuma?

puta que pariu. devo estar com cara de quem vai ter um enfarte prematuro. puta que pariu que merda, agora que tô curtindo tanto ela vai falar que não posso correr. ou que tô correndo errado. ai, droga droga droga!

-    fumo…
-    ah é?? – sorridente – pô, você tem um isqueiro pra emprestar?

a vida é bela, meus caros. a vida é bela.

Sofia Amaral é roteirista, produtora e um monte de outras coisas, inclusive uma quase atleta.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Curtas Banais #4

do sono (e da culpa)

aí que passei metade da noite acordada, depois de algumas cervejas em plena segunda-feira. dormi cedo, coloquei despertador pra um horário decente, mas eis que às 4h da manhã os zóião se abriram e nada de fecharem até às 6h.  e aí vem a culpa: quem mandou beber em plena segunda-feira? o álcool está me fazendo mal. preciso ter uma vida saudável. preciso me matricular na academia. e quanto mais culpa, mais insônia, é claro.

e aí que às 10h da manhã acordo desnorteada com a campainha tocando loucamente. perdi a hora, é lógico. ai meu deus, o que será que eu esqueci? quem está tocando? grito um  rouco “já vai” e enfio as calças do pijama já no corredor.

o quintal da minha casa fica acima do nível da rua – pra chegar ao portão é preciso descer uma escadinha. corro até o muro do quintal pra ver quem é antes de chegar à porta. uma van de equipe de filmagem está descarregando na porta de casa. a jovem produtora olha pra cima e me aponta um enorme boom. bem pra minha cara. e sorri.

desespero total. conheço essa mina? esqueci de algum trabalho? a equipe veio me buscar? combinei de ceder a minha casa pra alguma locação? que dia é hoje? que horas são? onde estou? quem sou? fecho o zíper do casaco numa tentativa de parecer um pouco mais apresentável, apesar de amassada, despenteada e com desenhos de cãezinhos dorminhocos nas minhas calças. desço a escada num esforço imenso de lembrar o que aquela equipe faz ali.

-       bom dia, o sr. fulano?

era o carteiro. um simples, belo, impávido carteiro com um sedex na mão. quase dei um beijo no homem. encaro, ainda incrédula, a menina que descarrega a van. ela sorri condescendente, como quem diz: “é, somos da televisão”.

ufa. ainda bem que, por hoje, eu não.

Sofia Amaral é roteirista e produtora

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Curtas Banais #3

das mãos atadas

chuva em são paulo. a chuva em são paulo é o caos, vocês sabem. acho que seria bom cenário pra qualquer tipo de filme futurista caótico: chuva, cinza, frio, carros se degladiando no asfalto, pedestres disputando os pedacinhos cobertos nos pontos de ônibus. ônibus, esses, que vão lotados, com os vidros embaçados e o vírus da suína se divertindo entre os passageiros úmidos.

estou eu no meio desse caos, capa de chuva, botas, malha de lã, cachecol, kit completo pra enfrentar esse átipico inverno paulistano desse ano, cheio de chuva. sim, nós estamos acostumados com a chuva – não somos como os cariocas, que se perdem como baratas tontas quando chove, batendo as sombrinhas e pisando nas poças. mas ninguém esperava tanta chuva no em julho, mês que costuma dar à cidade um ar europeu, com céu azul brilhante, sol amarelinho e morno, muito frio na sombra, pessoas de cashemeres vermelhos e sobretudos pretos caminhando sorridentes nas ruas.

encontro meu espaço coberto no ponto de ônibus e fico aguardando o coletivo. carrego a mochila, o guarda-chuva e, no bolso da capa que dificulta meus movimentos, o mp3 player cujos fones se enrolam no resto da roupa e se prendem precariamente aos meus ouvidos.

- ei!

aguardo o coletivo, a música toca.

- ei! ei!
- ?

olho pra trás e lá está ela. guarda-chuva numa mão, bebê na outra. um monte de sacolas penduradas nos dois braços. e o gorrinho da criança caído no chão.

- me ajuda aqui, moça!

a mãe, paralisada. não pode largar a criança, não pode largar o guarda-chuva. as sacolas, então, nem se fala.

- coloca na cabecinha dela?

ela sorri mas não agradece: vira as costas e vai embora. tudo bem, penso, não fiz mais que a obrigação mesmo.

o mp3 toca racionais: hey são paulo, terra de arranha-céu/ a garoa rasga a carne, é a torre de babel.

Sofia Amaral é roteirista, produtora, colunista do blog Rodapé e até jornalista se faltar trampo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Curtas Banais #2


do trabalho


seis horas da manhã, travessa da heitor penteado. dirijo sonada em direção à produtora. como profissional responsável que sou, chegarei meia hora antes da equipe pra garantir que está tudo certo. como maconheira véia que sou, lembro que esqueci de pedir três-tabelas e de checar se o kit de luz vem completinho, com uns acessórios de nomes estranhos pra vocês mas que não passam de coisas que os seres humanos normais chamam de tomadas e extensões (ou algo muito parecido com isso). tudo bem, a diária caiu no meu colo ontem às dez horas da noite – diria que não tive muito tempo pra pensar em tudo – mas que sei que o eletricista (ou, pior, o fotógrafo) irá me xingar se não estiver tudo lá. afinal as pessoas me pagam para, entre outras coisas, conseguir fechar eficientemente diárias às dez horas da noite da véspera.

me desespero momentaneamente e disco o número da locadora de equipamentos. tudo ok. respiro aliviada. minha reputação profissional está a salvo por meia dúzia de cabos e uns caixotes de madeira.

estou distraída ainda pensando em acessórios de luz, olhando pra fora da janela com o carro parado num farol vermelho e vazio. sem perceber, estava observando um gari que trabalha varrendo a calçada. ele me desperta do transe:

- essa aqui não dá não!

- oi?

- a vassoura. olha só! - ele mostra a vassoura careca, rindo - não dá pra trabalhar assim não!

- nossa, é verdade.

- o fiscal disse que vai trazer outra ainda hoje. mas vai saber né? ruim é ter que depender dos outros pra poder trabalhar.

ruim mesmo é depender de objetos que os outros nos provém, eu penso.

- pois é. também acho.

- dá não, fia! ó, o farol abriu! tchau!

- tchau.

Sofia Amaral é roteirista, produtora, colunista do blog Rodapé e até jornalista se faltar trampo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Curtas Banais #1


do amor


nove horas da manhã, meu despertador toca. aproveitei o dia calmo pra acordar mais tarde, mas ainda com tempo de dar uma enrolada básica na cama com meu namorado. mas ele está de costas pra mim. sei que acordou com o despertador também e tento fazê-lo virar. nada. ele me ignora. insisto um pouco.

- hmm gata, me deixa dormir mais um pouco. - e continua de costas.

fico decepcionada e irritada. depois triste. ele não gosta mais de mim. estou gorda. ele não me quer mais. por que fui comer antes de dormir? é por essas que ele não tem mais tesão. sofia, a baleia assassina.

- hmm, hmm - ele resmunga - tive uns sonhos estranhos...

- que foi?

- ... - e continua de costas.

- conta.

ele vira e me abraça:

- sonhei que eu estava gravando um carro de fórmula 1 e quando eu voltei você estava de biquininho, toda gostosa, se esfregando nos mecânicos. e eu ficava louco de ciúme e você não parava. e no final do sonho eu te matei.

Sofia Amaral é roteirista, produtora e até jornalista se faltar trampo. Hoje estreia sua coluna Curtas Banais, mais um reforço dos bons para o blog Rodapé.
Web Analytics