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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Beleza pura


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

A notícia mais linda deste fatídico 2014, quiçá da década, veio da Argentina: Estela de Carlotto, líder das Avós da Praça de Maio, pode finalmente conhecer e abraçar seu neto, nascido na prisão, trinta e seis anos atrás. Se alguém ainda duvida da maldade humana, as histórias dos bebês e crianças roubados às suas mães, pais e famílias não deixa fio solto.

Passados vários dias, ainda sinto no coração, na garganta e nos poros a onda eletrizante gerada pelo acontecimento, celebrado em imagens, memórias, entrevistas, lágrimas e cantorias desaforadas dessas incríveis mulheres. Pouco mais de trinta anos atrás, elas minaram e arruinaram o regime dos vampiros fardados, com a força da sua tenacidade e dos seus gritos de indignação. E não vão ter nem dar sossego, até localizarem tantos filhos e netos quantos lhes forem possíveis. Situação que se repete em várias partes desse nosso mundo farto de famílias destroçadas em nome do inominável.

Por mais que a notícia me emocione, não tenho ideia do que há por trás dela. Até o momento, minha história de ter e criar filhos, com tudo o que possa conter de sustos, medo, insegurança, alegrias, descobertas e sentimentos entranhados, passa bem longe de qualquer tragédia. Aliás, a oportunidade de exercer o papel de mãe é para mim um adicional, um presente da vida, que se tornou essencial, mas poderia não ter acontecido. Muitas mulheres não vivem esta experiência, por escolha ou circunstâncias, enquanto muitas outras o fazem por imposições várias, ou por falta de opção.

Fico tentando imaginar o que Estela sentiu quando sua filha decidiu viver como clandestina, durante a rapinagem de vidas promovida pela mais recente ditadura argentina, e desapareceu do contato com a família. Ou quando, ao buscar saber da filha, descobriu que esta havia sido presa e torturada, grávida. Depois, que o neto menino nasceu na prisão, esteve nos braços da mãe por cinco miseráveis horas e sumiu no mundo fabricado para apagar seu rastro. Ou quando recebeu a notícia do assassinato de sua filha. Não passei por nada disto, mas sei como é amar os filhos e sofrer suas dores do corpo e da alma. Tampouco posso avaliar a dimensão do que se passava dentro dela quando lhe registraram, em fotos e vídeos que correram o mundo, a expressão radiante e os dois fachos de luz que eram aqueles olhos, ao celebrar o neto recuperado.

Posso, isto sim, celebrar com ela, e o faço, com todas as minhas forças.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A outra pátria em chuteiras


por Mariana Camaroti, de Buenos Aires

Engana-se piamente o cidadão que crê que o Brasil é a única nação em que o futebol é a comida de um povo e onde a Copa do Mundo é vivida de maneira transcendental, como os dias de momo. Piamente. O futebol está para a Argentina como a praia está para o carioca; mas existe ali algo mais. E eu diria que é o tango – este lamento típico dos hermanos – que faz com que eles saibam sofrer remoendo amores – neste caso, ídolos – do passado. E aceitar o sofrimento como parte do amor. Para mim, isso explica por que futebol e argentino nasceram um para o outro. O país que pariu Ernesto Che Guevara, San Martín e Evita Perón e que tem como maior ídolo – ou melhor, deus – Diego Armando Maradona não pode ser subestimado quando de chuteiras se fala.

Era o meu terceiro Mundial no país vizinho desde que para lá me mudei, casei, comprei casa, descobri livros e tive filhos; mas este ano, quando pendurei as bandeiras alvo e celeste e a verde e amarela na minha janela, foi diferente. Sem que eu me desse conta, havia crescido dentro de mim um sentimento de pertencimento que jamais sentira. E isso não tem só a ver com meu marido argentino, mas também com a minha história com o portenho, com o saber e poder viver – bem – ali mantendo as minhas raízes.

Já no primeiro jogo, aceitei com naturalidade torcer com quase a mesma intensidade do que torcia para a canarinha. E olhe que eu odeio Maradona e não sou fã de tango. Mas a admiração deles pelo Brasil e como almejam ser como os brasileiros me toca sempre.

Mas bem, a bola começou a rolar e, em dia de partidas da Argentina, eu vestia celeste e branco, afirmava a torto e a direito que torcia por eles, como um invasor que tenta ganhar confiança do colono. Mas não, eu havia me tornado uma verdadeira torcedora de Messi, Mascherano, Higuaín e Lavezzi. E, mais tarde, de Romero. Aprendi os nomes como no campeonato de 1994, sabia quase de cór. Nem ideia de esquema tático e muito menos quem estava no grupo da Argentina. Mas a paixão me movia. E eu sei por quê. A Copa era no Brasil, o meu país, e torcer pelas duas seleções era confirmar a minha paixão pelas minhas duas casas. Como se isso reduzisse a distância.

Era lindo ver as crianças vestindo acessórios para ir ao colégio do início ao final da Copa, bandeirinhas nos carros, bandeiras desbotadas nos balcões e uma infinidade de propagandas que reafirmavam o amor pela pátria e sua independência em momentos de alta inflação e possibilidade de novo calote da dívida. Quando vi David Luiz soluçar dizendo que o povo sofrido brasileiro merecia o título, meu compadecimento se estendeu aos argentinos. Também mereciam. Vê-los cantar aquele hino sem graça como um grito de guerra, sem letra, só com urros, me tocava.

Além de mexer com a fantasia que o argentino cultiva do que vem a ser o paraíso, ter o Brasil como sede do Mundial despertou pelo menos dois sentimentos: 1. É logo ali, vamos ocupar o território tupiniquim; 2. Inveja de não sermos nós os anfitriões. Para os hermanos, o Brasil é a nação em que tudo deu certo e que, quando não dá, se sabe levar com a alegria. Invejam essa – para eles – qualidade nobre do povo brasileiro.

A torcida argentina foi invadindo o país sede à medida que sua seleção avançava. E veio o terceiro e mais forte sentimento, aquele de humilhar o Brasil na sua própria casa. A rivalidade, que se restringe apenas ao futebol, claro está, incomodava cada vez que os argentinos cantarolavam sem vergonha perguntando ao Brasil o que se sente; e cada vez que os brasileiros torciam pelo rival da seleção alvo e celeste, até mesmo quando este foi o Irã. E tudo foi potencializado pela imprensa e pelas redes sociais.

As duas seleções progrediram. Perdemos de 7x1 e ficamos em quarto com um país se sentindo humilhado; eles chegaram a segundo e, ainda que feridos, tiveram sua paixão pelo futebol enaltecida, renovada. E eu nunca entendi de onde vem essa rivalidade. Será a minha compaixão, sentimento de pertencimento ou será o meu marido. Mas desconfio que é o meu espírito de atleta que ainda me faz admirar quem joga com raça e paixão.

* * * * * * *

Mariana Camaroti, jornalista, mudou-se pra Buenos Aires depois de se apaixonar por um argentino; mãe de dois argentinos, torcedores do Boca Juniors como o pai, e amante das livrarias portenhas. Texto escrito especialmente para o Nota de Rodapé

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Avós das ruas


por Izaías Almada*

Há alguns anos era comum se ouvir de alguns especialistas sobre coisa nenhuma aqui no Brasil que política e futebol não se misturavam. Que nos digam as ditaduras brasileiras e argentinas dos anos 60 e 70, para ficar em dois exemplos próximos e emblemáticos…

Transformado num mercado de negócios dos mais gananciosos e estranhos, onde mafiosos russos, milionários árabes, bancos lavadores de dinheiros, sonegadores de impostos, empresários inescrupulosos, alguns já vivendo em paraísos fiscais, jornalistas corruptos, celebridades de pés de barro, emissoras de televisão, empreiteiros, advogados de porta de cadeia, lobistas e políticos profissionais de duvidosa formação moral deitam e rolam, o futebol tem cada vez mais a ver com política e poder.

O ano que vem está aí para desmentir os “especialistas” de antanho. Copa do Mundo e eleições majoritárias no país, agora com “nova oposição” (rs, rs, rs…) vão dar o que falar e embaralhar cada vez mais a cabeça dos sociólogos, filósofos, historiadores, políticos profissionais com alguma decência, esportistas, eleitores, torcedores, jornalistas, manifestantes de rua, humoristas, blogueiros e comentaristas de blogues, Datenas e Ratinhos, CQCs, partidos de esquerda, de centro e de direita, deputados e senadores, associações médicas, ativistas e black blocs, motoristas de taxi, atrizes globais, garis e petroleiros, encanadores e banqueiros, filósofos, príncipes e poetas, classe média paulista, carnavalescos, corretores de imóveis, baristas, passeadores e protetores de cães, nessa imensa salada russa, onde todos falam e ninguém ouve ninguém…

Por falar em especialistas e nos lembrarmos acima da relação futebol e política durante as ditaduras brasileira e argentina, tenho tentado ler algumas das análises feitas sobre o nosso último mês de junho, chamado o mês do “clamor das ruas”, onde muita gente quis e quer acreditar que o país, necessitado de mudanças, foi para as ruas protestar “contra tudo que está aí”… Embora não se saiba exatamente que “tudo” é esse que se tem que ser contra e nem quem organizou as “manifestações espontâneas” de junho, se foi a esquerda radical e mal (in)formada ou a direita encurralada e que pretende botar as manguinhas de fora em 2014, o certo é que o resultado dos “grandes protestos de junho”, para além do recuo no preço das passagens de ônibus urbanos, foi mesmo o vandalismo das depredações, dos ônibus queimados, da interrupção do trânsito até à invasão de laboratórios para salvar cachorrinhos do “choque elétrico”. Tudo salpicado pela eterna repressão de uma polícia que não aprende a combater distúrbios no Brasil, além da pancadaria generalizada…

Fico me perguntando, ingênuo que sou em política, por qual razão passou a se cobrar do atual governo (entenda-se o período Lula/Dilma) que ele resolva em “24 horas” graves mazelas que se formaram, adensaram e proliferaram nos últimos 500 anos? Mazelas sociais e gravíssimos problemas praticados em todos os níveis pelos governos anteriores a esse, em maior ou menor escala, consoante obediência às instruções e determinações do FMI, do Banco Mundial e da Casa Branca com seu manual de “democracia do cassetete”?

A voz das ruas… A voz das ruas… De tanto ouvir a expressão “para lá e para cá”, como dizia uma tia minha – esta especialista em massas de pães de queijo e bolos de fubá – a sonoridade lembrou-me das avós das ruas e das praças de Buenos Aires. Um movimento feito com o coração sangrando de centenas e centenas de mães e avós que perderam seus parentes queridos num dos mais impiedosos e selvagens genocídios do mundo contemporâneo. Mães e depois avós, avós da Plaza de Mayo, protesto inesquecível do coração ferido da América Latina. E que já levou generais e ex-presidentes argentinos, torturadores confessos, aos bancos dos réus e até à prisão perpétua. Essas, sim, poderão ser chamadas de “A voz das ruas”. E por aqui? O que têm a dizer as nossas inúmeras Comissões da Verdade?

Contudo, já estamos no limiar de 2014, ano em que o país mostrará ao mundo a verdadeira relação entre política e futebol, com o mês de junho – quem sabe? – se destacando novamente com os grandes protestos que não levam a lugar nenhum, mas que, com toda certeza, tentarão conturbar a paz dos estádios em plena Copa do Mundo…

* * * * * * * 

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Mantém no NR a coluna mensal Pensando Alto

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Adeus, Cecilia!


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Cecilia Lipszyc partiu, deixando atrás de si, muito mais que um rastro de luz, um cometa inteiro de alegria, liberdade, bom humor, generosidade e amor pela vida e pelos seres humanos. Amor traduzido numa vida inteira de dedicação à causa dos direitos das pessoas, tanto no ativismo incansável, como na academia e na política. Desde que nos tornamos amigas, entendi que o melhor remédio para a caretice e o atraso era uma boa dose de Cecilia na veia.

Vimo-nos pela última vez, há menos de um ano, no café Bidou, uma daquelas casas tradicionais de Buenos Aires, onde os garçons parecem eternos e a decoração reflete tempos melhores em décadas passadas. Quando chegamos, ela já estava acomodada à mesa, tendo junto de si o cilindro de oxigênio portátil e o fino tubo preso às narinas, de maneira que pudesse inalar enquanto tocava a vida, como se nada estivesse acontecendo, como se seus pulmões não estivessem comprometidos por uma enfermidade devastadora. Fazia muito frio, e ela vinha trabalhada na habitual elegância, com sua inconfundível cabeleira rosa-choque, mas que também podia ser laranja vivo. Durante a hora e meia seguinte, jogamos dentro uma conversa saborosa, pontuada de observações ferinas e muitas gargalhadas.

Dona morte a levou num dia e, por uma estranha ironia, pouco depois buscou também seu oposto, o tirano assassino, condenado a prisão perpétua pelos inomináveis crimes cometidos contra seu país e sua gente. Aquele, cujo corpo foi entregue intacto à família e será sepultado em lugar próprio, apesar dos milhares que fez desaparecer.

Ironia à parte, estas duas pessoas representam muito bem o que a humanidade pode produzir de mais sublime e mais execrável. Gente que honra a vida e faz por merecê-la, e gente que a usa para produzir medo, horror, sofrimento e morte.

Há uma linda canção argentina, “Honrar la vida”, composta por Eladia Blázquez, que fala exatamente desses dois opostos, e que transcrevo aqui:
¡No! Permanecer y transcurrir
no es perdurar, no es existir
Ni honrar la vida
Hay tantas maneras de no ser,
tanta conciencia sin saber
adormecida...
Merecer la vida no es callar y consentir,
tantas injusticias repetidas...
Es una virtud, es dignidad
Y es la actitud de identidad más definida
Eso de durar y transcurrir
no nos da derecho a presumir.
Porque no es lo mismo que vivir...
Honrar la vida
¡No! Permanecer y transcurrir
no siempre quiere sugerir
Honrar la vida
Hay tanta pequeña vanidad,
en nuestra tonta humanidad
enceguecida.
Merecer la vida es erguirse vertical,
más allá del mal, de las caídas...
Es igual que darle a la verdad,
y a nuestra propia libertad
La bienvenida
Eso de durar y transcurrir
no nos da derecho a presumir.
Porque no es lo mismo que vivir...
¡Honrar la vida!
E pode ser ouvida, na voz da inesquecível Mercedes Sosa, aqui:

 

Um beijo, Cecilia! Adeus.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

domingo, 18 de março de 2012

Aborto na Argentina: dêem-me direitos, eles não murcham

Foto: Giuliano Maiolini, SP.
Ao assistir o documentário “Aborto Clandestino: Crucificação Democrática”, no Cine do Caco, em Bauru, São Paulo, lembrei de três rosas pisoteadas e esquecidas que vi ao caminhar sob o sol escaldante no último 8 de março, dia Internacional da Mulher.

A liberdade da mulher, como aquelas rosas, me derão a mesma impressão ao término do filme, uma produção argentina do Coletivo Elza Torres que retrata o aborto naquele país do ponto de vista social e contextualiza a luta pela sua descriminalização.

O Cine do Caco, um clube de cinema do Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes (Cacoff), da Unesp de Bauru, exibiu o documentário em parceria com o Centro Acadêmico XVII de Maio e com o apoio do Coletivo Movimenta Bauru.

Um por minuto

Na Argentina, a estimativa é de um aborto a cada minuto. Num ano, são 500 mil abortos frente a 700 mil nascimentos. E muitas mulheres também se tornam vítimas: 3 mil morrem em sua decorrência.

Com números tão expressivos, diversos grupos no país se organizam para garantir o direito a liberdade da mulher de escolher ter ou não o filho. Extremamente crítico, o documentário mostra a influência da Igreja na criminalização de mulheres que optam pelo aborto.

O documentário aponta que o aborto não é uma prática somente das classes mais baixas. Em geral, a maioria das mortes por complicações do aborto clandestino ocorrem nas periferias, mas a situação está presente em todas as camadas sociais.

As classes mais altas, por consequencia, tem mais condições de fazer um abordo em clínicas com mais “segurança”, diferentemente dos mais pobres.

“Se o Papa fosse mulher, aborto seria lei”, gritavam feministas num protesto exibido no filme. Essa frase dá o tom do embate religioso presente no país vizinho – avançados no debate e com muitos grupos mobilizados.

Enquanto lá o problema é a supremacia da Igreja Católica, no Brasil é a Bancada dos Evangélicos, por exemplo, que cada vez mais toma forma no Congresso, fazendo força junto a Igreja Católica.

Apesar do Brasil ser um país laico, as instituições religiosas ainda exercem grande influência nos poderes do país. Camila Sousa, integrante do Centro Acadêmico XVII de Maio, comenta que há muito para avançar no Brasil. “Essa não é uma luta só das mulheres, quando todo mundo entender que é uma causa de todos, as mulheres terão seus direitos garantidos”, argumenta.

A pesquisa Magnitude do Aborto no Brasil revela alguns aspectos epidemológicos e socioculturais do problema. Realizada pelo Ipas Brasil, em parceria com o Instituto de Medicina Social da UERJ, a pesquisa estima que sejam realizados anualmente mais de 1 milhão de abortamentos com cerca de 250 mil internações por ano para tratamento de complicações ao custo de 35 milhões de reais para o Estado.

Camila e todas as meninas presentes não ganharam flores nesse dia, mas preferiram plantar algumas sementes para que no futuro possam colher rosas suficientes para montar um buquê de direitos garantidos.



PANO RÁPIDO: Segundo a Folha de S. Paulo de quarta-feira, 14 de março, "a Corte Suprema Argentina determinou que abortos feitos por mulheres que tenham sido estupradas não são crime. A lei já liberava abortos no caso de violações e se havia perigo à vida da mulher. Mas, em geral, a Justiça apenas autorizada pessoas com deficiência".

Aline Ramos, estudante de jornalismo,entusiasta da Cobertura Colaborativa, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Notas sobre desaparecidos

Fernando dobrou a esquina e avistou o amigo com sua inseparável bicicleta.

Vinha em sua direção, mas desviou o caminho, pedalou com força rumo à calçada oposta, e passou veloz, sem parar, sem nem sequer cumprimentá-lo.

Metros depois, atou a bicicleta em uma árvore e seguiu caminho sem olhar para trás.

Fernando demorou para entender que naquele dia o amigo não falou com ele para salvar sua vida. Estava sendo vigiado, seguido, e não queria entregar nenhum companheiro. Foi a última vez que Fernando o viu. A bicicleta passou dias estacionada no mesmo lugar. O amigo desapareceu.

Na Argentina daquela época pessoas eram desaparecidas.

Facundo e Martín eram Montoneros e lutavam contra a ditadura. Naquele domingo jogavam Boca e River. A equipe da casa acabava de marcar um gol na Bombonera. Facundo, torcedor fanático xeneize, decidiu telefonar para o amigo para tirar sarro.

O telefone tocou, tocou e ninguém atendeu. Facundo achou estranho, mas não deu muita importância. No dia seguinte, como combinado, foi ao bar encontrar o amigo para praticar mais uma ação. Martín nunca chegou. Desapareceu.

Calcula-se que 30 mil pessoas “desapareceram” durante a ditadura argentina.

Jorge Rafael Videla, chefe da Junta Militar e presidente da Argentina entre 1976 e 1981, preferia chamar os desaparecidos de incógnita. “Se reaparecesse, teria um tratamento X. E se a desaparição se convertesse em certeza da morte, teria um tratamento Z.

Mas enquanto esteja desaparecido não pode ter nenhum tratamento especial, é uma incógnita, é um desaparecido, não tem identidade, não está… nem vivo, nem morto. Está desaparecido”.

Manolo é espanhol, mas morou na Argentina. Trabalhava no restaurante de um tio e todas as manhãs ia até ao açougue da esquina comprar carne. A conversa com o jovem açougueiro sempre começava igual: ¿Cómo andás, gallego? ¿Qué pasó, pibe?

Entre o corte da carne, a pesagem e o pagamento, conversavam sobre futebol, mulheres e amenidades. Nunca sobre política. Um dia Manolo foi ao açougue e só encontrou a faca usada pelo pibe. Estava pendurada, do outro lado do balcão não havia ninguém. Nunca mais se soube do açougueiro.

Em 1978 a Argentina sediou o Mundial de futebol. Enquanto todas as redes de televisão do mundo transmitiam a abertura da Copa, uma cadeia holandesa acompanhava a marcha de umas mulheres que buscam seus filhos. Diante da câmera, uma delas clama.

“Já não sabemos a quem recorrer. Consulados, embaixadas, ministérios, igrejas. Todos nos fecharam as portas. Por isso rogamos a vocês: por favor, ajudem-nos. São nossa última esperança”.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório, escreve às segundas

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Estadão, boo!

Estadão, que reescreve diariamente a história do Brasil, assusta-se com revisão da história argentina

Não deveria causar espanto a notícia de que a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, criou um instituto para revisar a história do país. Primeiro porque não é novidade. Segundo porque é necessário para dar a genocidas o lugar que lhes reserva a história: o de genocidas, e nada mais.

A notícia incomodou o jornal aristocrata O Estado de S. Paulo, a ponto de ao Instituto de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano dedicar uma reportagem e um editorial acusando a presidenta de querer “reescrever a história argentina”.

Os comandantes do diário paulista podem sofrer de inúmeros defeitos, mas sabem bastante bem a diferença entre “reescrever” e “revisar”. Reescrever ganha o contorno de manipular, mentir, distorcer, escrever sem rigor científico. Revisar, o verbo que figura oficialmente como motivo da nova entidade, é passar a limpo.

É digno de estranhamento que um jornal que se dedica diariamente a reescrever a história do Brasil se espante com a iniciativa argentina. Notório o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem o Estadão tenta constantemente acirrar com Dilma Rousseff, ignorando as seguidas declarações desta em favor daquele.

Exercício
constante

Passar a limpo deveria ser um exercício constante de uma sociedade, como a brasileira, que ora tenta passar a limpo o ocorrido durante a ditadura (1964-85).

Diz o decreto assinado esta semana por Cristina que a instituição terá o papel de “estudiar, investigar y difundir la vida y la obra de personalidades y circunstancias destacadas de nuestra historia que no han recibido el reconocimiento adecuado en un ámbito institucional de carácter académico, acorde con las rigurosas exigencias del saber científico”.

Evidente que não se coloca a mão no fogo por ninguém na política, menos ainda na política argentina. Não seria sensato atribuir à presidenta uma atitude desprovida de interesses, guiada unicamente pelo conhecimento da verdade e pelo resgate da memória.

O Instituto de Revisionismo Histórico não tem, claramente, a intenção de ser o reduto da neutralidade, simplesmente porque não se dá à ingenuidade de supor que possa haver tal elemento na historiografia ou em qualquer atividade humana, sempre guiada por um conjunto de valores intrínsecos que, por si, eliminam a possibilidade de uma visão neutra da realidade.

O decreto, novamente, não deixa dúvidas de que a finalidade da instituição “será el estudio, la ponderación y la enseñanza de la vida y obra de las personalidades de nuestra historia y de la Historia Iberoamericana, que obligan a revisar el lugar y el sentido que les fuera adjudicado por la historia oficial, escrita por los vencedores de las guerras civiles del siglo XIX”.

A presidenta enumera quais personalidades acredita estarem incluídas neste grupo, como Evita Perón e Juan Domingo Perón, José de San Martín e Hipólito Yrigoyen.

Mais que enaltecer o trabalho desta ou daquela figura, o instituto terá utilidade se contribuir para que se revisem os livros de história apresentados em colégios argentinos, ainda capazes de atribuir a Julio Argentino Roca, general e presidente da virada dos séculos XIX e XX, um papel positivo na chamada “conquista da Patagônia”. Q

ue a nota mais valiosa de um país – no caso, a de cem pesos – seja estampada por um genocida que matou 1.300 indígenas e fez 12 mil prisioneiros é algo que diz muito, que fala por si, e que precisa dar lugar a uma nova história.

É bem verdade que é preciso se preocupar com as falsificações da versão oficial. Foi a ladainha repetida ao longo de décadas que permitiu que o litígio com a Inglaterra no caso das Malvinas ocupasse uma reserva de luxo na política externa argentina.

Ao menor sinal de dificuldade, o governo de turno poderia apelar ao conflito com os ingleses ciente de que uma população adestrada durante meio século sobre o assunto lhes apoiaria, e foi isso que levou os militares, em 1982, a empreenderem um combate ensandecido que resultou na morte de argentinos e que lhes deu o tempo necessário para a pilhagem final do Estado.

Bem antes disso, representações cartográficas tendenciosas colocadas em livros escolares foram o mote para um acirramento das posições argentinas e chilenas em torno dos territórios ao Sul, que só não resultaram em guerras de grande gravidade para o continente por conta de negociações pontuais.

Estanislao Zeballos, por três vezes chanceler argentino entre os séculos XIX e XX, valeu-se de mapas fajutos na tentativa de levar ao conflito bélico – o ministro xenófobo e racista também tinha intenção de ocupar militarmente o Brasil, é bom que se lembre.

É destes vencedores que Cristina fala em seu decreto. O Estadão, barão do café, ruralista e aristocrata, vencedor desde o século XIX, tem muito a se arrepiar com a revisão da história. Caso o fizéssemos no Brasil, seria reservado ao jornal o lugar que lhe é de direito.

João Peres, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter da Rede Brasil Atual

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Argentina dá um passo exemplar

Já publicamos aqui no NR sobre o documentário Do Horror à Memória, sobre a Escola de Mecânica Armada (Esma), da Marinha, o maior centro clandestino de detenção da ditadura argentina, pelo qual, estima-se, tenham passado cerca de 5 mil presos políticos.

Na quarta-feira, a justiça de lá condenou à prisão perpétua o ex-capitão Alfredo Astiz e outros 11 militares, considerados culpados em casos de sequestros, torturas e outros crimes, cometidos na Esma, durante a ditadura militar no país entre 1976 e 1983.

O meu amigo Diogo Ruic (que já colaborou algum tempo aqui no NR) é um dos co-autores do premiado documentário. Vale ser visto para entender melhor o que se passou no período. Na decisão da justiça argentina, muito comemorada pelos familiares dos desaparecidos políticos, Astiz, conhecido como “o anjo loiro da morte”, era quem comandava a Esma.

Entre os demais 11 militares condenados destaca-se o ex-capitão de corveta Jorge “Tigre” Acosta, que teria sido um dos criadores dos “voos da morte”, como ficaram conhecidos os lançamentos de prisioneiros, ainda vivos, a partir de aeronaves que sobrevoavam o Rio da Prata e o Oceano Atlântico.

Os acusados foram julgados por crimes contra 86 pessoas, entre as quais, Azucena Villaflor, fundadora do grupo Mães da Praça de Maio, o jornalista, escritor, dramaturgo e militante político Rodolfo Walsh, e as freiras francesas Leonie Duquet e Alice Domon, ligadas às Ligas Agrárias.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CBF e AFA mantêm homenagem ao exterminador de indígenas

As seleções nacionais de futebol de Brasil e de Argentina disputam nos dias 14 e 28 de setembro a Copa Roca, torneio amistoso que, após mais de trinta anos de intervalo, volta a ser disputado. Para os saudosistas do futebol, um momento para relembrar grandes partidas. Para as sociedades das duas nações, um fato a ser lamentado.

Ainda que se intitule oficialmente o encontro como Superclássico das Américas, cartolas e jornalistas têm adotado o nome de Copa Roca.Nada contra o torneio. Que seja prazeroso o futebol jogado. Tudo contra seu nome.

É de se assustar que em tempos democráticos, e superadas parcialmente duas sanguinárias ditaduras, Brasil e Argentina se coloquem a render homenagem a Julio Argentino Roca, o General Roca, como gostava de ser chamado, ministro da Guerra responsável pela “colonização” do interior argentino, particularmente da Patagônia, em uma campanha que deixou 1.300 mortos e mais de doze mil prisioneiros.

Foi ao longo de dois meses, em 1879, que Roca realizou a campanha-relâmpago destinada a povoar com argentinos – indígenas eram outra sorte de gente, na cabeça dele – as secas e frias regiões.

Estavam em jogo duas questões. A primeira, de uma nação europeizada, de acabar com a incômoda presença de nativos. A segunda, central, era a disputa territorial com o Chile pelo direito às terras patagônicas. Baseavam-se as duas nações no antigo princípio do uti possi detis – uso, logo possuo –, o que fazia premente ter habitantes pátrios nestas regiões (do lado chileno, as vítimas foram os mapuche).

Grandona da AFA e Teixeira da CBF
“A meu ver, o melhor sistema de concluir (sic) com os índios, seja extinguindo-os ou jogando-os ao outro lado do Rio Negro, é o da guerra ofensiva (…) É necessário ir buscar o índio diretamente em sua morada, para submetê-lo ou expulsá-lo”, anotava Roca em correspondência reproduzida pelo jornalista Jorge Lanata no livro “Argentinos – quinientos años entre el cielo y el infierno”. Como prêmio, anos depois Roca ascendeu à presidência.

Obviamente, para o torcedor a Taça Roca nada tem a ver com o exterminador de indígenas, ligando-se à saudosa ideia de um futebol bem jogado e de uma rivalidade antiga. Tampouco seria de se esperar que os presidentes da CBF, Ricardo Teixeira, e da Associação de Futebol Argentino, Julio Humberto Grondona, tivessem qualquer cuidado histórico. Ainda que quisessem reconhecer a verdade sobre Roca, não é improvável que vissem com bons olhos uma atuação autoritária, haja visto as próprias gestões à frente das entidades que ocupam.

Mas as sociedades dos dois países deveriam estar preocupadas em garantir ao general o lugar que lhe cabe na história: o de genocida.

João Peres, jornalista, repórter da Rede Brasil Atual e colaborador do NR

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Encontro com Abaporu

Talvez o que defina melhor o comentário deste post é o sentimento que o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, causou em mim - o meu primeiro e verdadeiro encontro com essa forma de arte - quando estive recentemente no Malba (Museu de Arte Latino Americano de Buenos Aires).

Fui por indicação de alguns amigos que falaram do lugar com entusiasmo. Não entendia bem o motivo. E a explicação é fácil, nunca entendi de arte, estudei ou mesmo me interessei. Exposições de arte sempre me dão a impressão de erudição em excesso e assim fiquei um completo ignorante.  

O MASP (Museu de Arte de São Paulo), por exemplo, pertinho de mim - como também a Pinacoteca, o MAM, o MIS e tantos e tantos outros em São Paulo - fui apenas uma vez ou outra, pela escola, há muitos anos.

Tem a ver, entre tantas outras questões, com hábitos da cultura. Não é comum no Brasil, por exemplo, uma criança ser educada desde cedo a apreciar a arte de grandes pintores.Ou mesmo se dispor a conhecer os novos.

O fato de estar fora do país, no entanto, proprociona um não comodismo que tenho quando estou aqui; um apetite saudável por conhecer e vivenciar experiências que me interessam. Louco, não? Pelo que converso com amigos, parece-me que muita gente é da mesma laia que eu.

Foi a primeira vez que pude compreender a força de um quadro sem me preocupar com teorias e histórias (também importante, mas não naquele contexto). Simplesmente me emocionei com o belo que o Brasil e seus artistas são capazes de produzir.

Uma pena que o Brasil não o tenha em seu território. Esta obra de Tarsila faz parte da coleção particular de Eduardo F. Costantini, que dá nome a fundação que mantém o Malba. Uma coleção sensacional que conta com Diego Rivera, Frida Kahlo, Candido Portinari, Fernando Botero etc. (Thiago Domenici)

terça-feira, 29 de março de 2011

É melhor contar a verdade, Clarín

O diário argentino resolve reescrever a verdade ao narrar o bloqueio feito por sindicalistas a sua gráfica, e os jornais brasileiros embarcam na onda, cometendo uma falsificação indesculpável

O jornal argentino Clarín queixa-se que o governo da presidenta Cristina Kirchner incentiva ataques à imprensa ao não debelar o bloqueio feito na gráfica do diário. O piquete foi realizado entre sábado e domingo últimos pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e teve a intenção, segundo a empresa, de impedir a circulação de matéria desfavorável ao presidente da CGT, Hugo Moyano.
O maior diário do país vizinho reclama que o governo não cumpriu a tempo ordem judicial que determinava que se garantisse a distribuição da edição dominical. A ministra de Segurança, Nilda Garré, afirma que deu conta do que foi solicitado pelo Judiciário e que a liberdade de expressão não foi afetada.
Capa do Clarín mencionada no texto
Até aí, difícil dar fé à versão de qualquer uma das partes, dado que a política da Argentina é das mais complexas de que se tem notícia. Independentemente do que tenha ocorrido, infeliz a declaração do editor de Clarín, Ricardo Roa, de que o jornal nunca passou por esse problema, “nem mesmo nos tempos de ditadura” - a versão de Roa é apoiada por editorial do jornal O Estado de S. Paulo desta terça-feira, 29.
Oras, Clarín, oras, Estadão, vamos falar a verdade: o jornal nunca deixou de circular nos tempos de ditaduras porque sempre as apoiou. Qualquer argentino se recorda ou viu na escola a fantástica capa de 4 de maio de 1982, que estampava “Já estamos ganhando”, numa alusão a um suposto triunfo na Guerra das Malvinas. “Porque lutamos por uma ideia grande, porque nossos soldados a estão defendendo, porque agora todos sabemos apertar os dentes”, estampava a edição daquele dia, um clássico do “jornalismo”, rapidamente desmentido pelas mortes de soldados que sequer tinham o que comer no gélido sul do país.
Antes disso, no dia do último golpe, em 24 de março de 1976, o Clarín contava em letras garrafais: “Novo governo”. Na sequência, informava que “a prolongada crise política que aflige o país começou a ter seu desenlace nesta madrugada com o afastamento de Maria Martínez de Perón como presidente da nação.” O país ficou menos aflito nos próximos sete anos: 30 mil mortes e centenas de milhares de torturados, centenas de crianças raptadas e adotadas ilegalmente. Entre essas crianças, investigam os argentinos, figuram os filhos da dona do Grupo Clarín, a Rede Globo vizinha. Então, Clarín, convém não falsear a realidade dos fatos.

Indignação seletiva
A indignação seletiva é um fenômeno interessante. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), que deveria representar as publicações impressas brasileiras, está em polvorosa com os ataques a seu fraterno Clarín. Afirmou que a atitude dos sindicalistas é “intolerante e antidemocrática” e acusa cumplicidade de Cristina Kirchner.Em outubro passado, quando a Revista do Brasil foi impedida de circular por decisão do Judiciário a favor do PSDB, a ANJ não deu um pio a respeito de intolerância ou ataque à democracia. Não entendi.

João Peres é jornalista e colunista do NR

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Quando brigam os ricos, morrem os pobres

As eleições no Brasil e os preconceitos que saíram do armário; a pré-eleição argentina e a xenofobia que coloca pobres contra pobres

“Cuando los ricos se pelean mueren los pobres”. Em tempos de Twitter, de comunicação grunhideira, uma jovem de Buenos Aires precisou em apenas oito palavras o momento vivido pela cidade – e, mesmo sem saber, definiu parte do que se passa no Brasil. Lá, como cá, declarações infelizes da seara política transferiram-se ao campo social, literalmente transformado em campo de batalhas verbais e, algumas vezes, físicas.
A atual onda de violência em Villa Soldati, bairro pobre de Buenos Aires, tem como nascedouro as falas de Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires e candidato à presidência pelo PRO no ano que se aproxima. Macri é um tipo político que dá às pencas no Brasil: sob o invólucro da liberalidade, tenta apresentar como normais as ideias mais fascistas que se possa imaginar. Ao anunciar recentemente que faria uma distribuição de títulos de propriedade aos moradores de favelas, provocou um efeito colateral que mostra como o prefeito não sabe do que trata – a proposta, que pode ser vista como eleitoreira, ou pode ser vista como responsável socialmente, é na verdade uma reafirmação da crença de que o deus-mercado resolve todos os problemas: Macri acredita que, distribuindo os títulos, imobiliárias e construtoras poderão comprar as propriedades e, ali, estabelecerem seus predinhos bonitos que, revendidos, resolverão o enorme déficit habitacional.
Até aí, o candidato havia simplesmente cometido um erro de avaliação baseado em seu equivocado ideário neoliberal. Ocorre que centenas de famílias carentes correram para ocupar terrenos nas áreas que seriam supostamente beneficiadas, algumas delas dentro do Parque Indoamericano. Os pobres destes bairros, irritados com essa chegada repentina de...pobres, deflagraram uma onda de intolerância difícil de se classificar, já que não se trata de intolerância de classes. Macri, ainda não saciado de erros, apressou-se em falar que tudo isso é culpa “do avanço da imigração ilegal, onde se oculta o narcotráfico e a delinquência” - não por acaso, lembra alguém que conhecemos bastante. O resultado foi que os vizinhos, aos gritos de “bolivianos, vão embora”, uniram-se numa batalha física que já fez quatro mortos – dois bolivianos, um paraguaio e um argentino.
Macri continuará tranquilamente sua carreira política, recheada de erros colossais e visões racistas de mundo. À noite, jantará em algum restaurante classe A+ de Buenos Aires, dormirá em um apartamento gigantesco de um bairro a salvo de incômodos – leia-se, pobres – e poderá contar todas as mentiras que quiser durante a campanha do próximo ano.
No Brasil, poderíamos citar alguns casos bastante parecidos de políticos que, a esta altura, dormem tranquilamente em seus apartamentos, digamos, por exemplo, na zona oeste de São Paulo, viajam vez em quando para a Europa, e só passarão pelo incômodo de verem pobres pela frente daqui a dois ou quatro anos.
Enquanto isso, crescem as manifestações de intolerância social e, como diz a jovem argentina, quando brigam os ricos, morrem os pobres. As manifestações preconceituosas das últimas semanas, que resultaram em diversas agressões físicas, não são outra coisa se não o fruto de ideias que deixaram fascistas à vontade para sair do armário. As eleições deste ano, pobres no debate, foram ricas em falsificações da realidade que levaram a crer que o Brasil deve ser um Fla-Flu eterno, dividido entre Sul-Maravilha e Nordeste-Barriga-de-fome, apenas para citar um dos recortes, simplificações absurdas que persistem devido a décadas de desinformação por parte, fundamentalmente, de setores da imprensa.
Evidentemente, as intolerâncias estavam aí, não haviam deixado de existir. Mas a difusão irresponsável dos pensamentos segregacionistas, fundamentalistas e, obviamente, intolerantes, levou a uma fratura social de difícil remédio. Aqueles que poderiam apaziguar os ânimos, ao que parece, estão mais preocupados em debater seus egorrumos e não terão a coragem de assumir os erros. Ao contrário, preferirão, como faz Macri, jogar na conta dos outros.

João Peres
é jornalista, repórter da Rede Brasil Atual e colunista do Rodapé

domingo, 7 de novembro de 2010

Ao contrário do agourado, morte de Néstor não enfraqueceu Cristina

O jornal Página12 desfaz, em suas páginas deste domingo (7), uma das teses criadas pela imprensa comercial argentina – e rapidamente reproduzida pela mídia nativa brasileira – sobre a morte de Néstor Kirchner.
Enquanto aves de agouro deste lado da fronteira apressavam-se em dizer que a presidente Cristina não aguentaria, nos moldes do que alguns querem machisticamente fazer com a presidente eleita do Brasil, do outro lado o povo acorria à mítica Praça de Maio para prestar seu apoio ao governo constitucional. Enquanto muita gente corria ao mercado de ações para comprar papéis do Clarín, apostando que Cristina não teria força para continuar enfrentando o braço-forte da imprensa argentina, milhões de pessoas reavaliavam o legado das gestões Kirchner.
O resultado está registrado pelo Página12: a morte de Néstor, por pior e lamentável que seja, acelerou o processo de recuperação da imagem da presidente. O imenso apoio popular agora se consolida em diferentes pesquisas, revertendo definitivamente a deterioração registrada entre 2008 e o começo de 2009, quando os governos Kirchner peitaram os interesses da elite rural. De acordo com o levantamento feito por Ricardo Rouvier & Asociados, 65% dos argentinos têm imagem positiva do governo, contra 35% que o avaliam como negativo.

Saiba mais:
- Aquele homem, Néstor Kirchner (Rodrigo Menitto)
- Kirchner deixa país órfão e muitas incógnitas (Mariana Camaroti, de Buenos Aires)

Mais que isso, aumentou bastante a vantagem de Cristina sobre os demais concorrentes nas eleições presidenciais do próximo ano. Se antes o cenário estava indefinido, e poderia ser Néstor o candidato, agora a chefe de Estado figura com chances de liquidar a fatura no primeiro turno. Nos dois cenários analisados, tem 45% dos votos totais, bem à frente de Maurício Macri (PRO), atual administrador de Buenos Aires, e de qualquer dos candidatos da União Cívica Radical. A situação pode mudar bastante até 2011, mas já se configura extremamente positiva levando-se em conta que, há pouco mais de um ano, este governo parecia agonizante.
Na outra mão, aqueles que esperavam abreviar este governo, agora, continuam podendo fazê-lo, mas já não contarão com o apoio das massas: 74% apoiam que a presidente possa governar. Ou seja, deixa a mulher trabalhar.

Dignas de nota:

− Júlio Cobos, vice-dissidente, foi indicado por um dos secadores brasileiros como rival de Cristina no próximo ano. O rapaz desconhece que o nome que vem vencendo as préviasda União Cívica Radical é Ricardo Alfonsín, filho de Raul, ex-presidente morto no ano passado. É possível que a rara figura de Cobos saia candidato, mas não se pode descartar a influência da herança alfonsinista sobre a UCR.
− Fernando “Pino” Solanas tem em torno de 6% das intenções de votos. Percentual bastante expressivo para um cineasta de ascendência socialista e que apenas recentemente obteve cargo político, sendo agora deputado.

João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé

sábado, 30 de outubro de 2010

Kirchner deixa país órfão e muitas incógnitas

A morte inesperada do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner caiu como uma bomba para a população e abriu as portas para a incerteza na política do país. Morreu o principal líder político argentino atual, presidente do partido Justicialista/Peronista e também o criador da corrente Kirchnerismo, que reunia peronistas e membros do partido opositor União Cívica Radical. Um homem que personificava o poder – há quem diga que era viciado nisso –, governava junto com a esposa presidente Cristina Kirchner e que pretendia se revezar com ela na Casa Rosada durante vários mandatos. Ele era o principal candidato para as eleições presidenciais de 2011.
As incógnitas e o vazio político surgidos com a morte de Kirchner colocam um grande desafio para a agora viúva presidente. Como será o governo de Cristina sem Néstor? Ela continuará com o projeto que os dois tinham e será candidata à reeleição em 2011? Apressado, o ministro das Relações Exteriores, Hector Timerman, já anunciou que sim. Reduzirá a estratégia de conflitos desenvolvida pelo casal presidencial desde 2003 – quando ele foi eleito presidente – e começará a pregar a harmonia na sociedade? Ou radicalizará ainda mais sua política, continuando a dividir a população entre os que estão e os que não estão do lado do governo?
Não se sabe. É difícil sair do campo das especulações neste momento. O que sim é latente é a singularidade da política nacional. Não é normal que a morte de um ex-presidente – que já nem tinha tanto apoio assim – devaste o cenário político e deixe um partido órfão em um ano-chave para as eleições. Solidários à dor da presidente, os argentinos se enfileirarem durante horas, em quilômetros, para dar o último adeus ao homem que pilotou a recuperação do país após a crise econômica de 2001, recuperou a auto-estima nacional e colocou militares atrás das grades. Muitos diziam “Força, Cristina” e pediam que ela continuasse firme. Há comoção, mas também a lembrança recente do caos na Casa Rosada em 2001, quando vários presidentes assumiram e renunciaram em meio à crise.Argentina: um país de uma política peculiar e com um passado às vezes trágico. Juan Perón perdeu a mulher e líder dos descamisados, Evita, quando era presidente. Na sua segunda presidência, morreu e deixou a vice e segunda mulher, Izabelita, em seu lugar. Sem apoio, foi deposta pelos militares. Tomara que Cristina, que não tem nada da fragilidade de Isabelita, saiba – agora sozinha – conduzir a Argentina e a difícil máquina de poder deixada pelo marido. E que não caia na tentação de isolar ainda mais o seu governo.

Mariana Camarotti é jornalista e mora na Argentina, especial para o NR

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Aquele homem, Néstor Kirchner

No final da década de 70 os dois eram recém formados em direito, ele, Néstor, vinha do sul do país, ela, Cristina, de La Plata, Província de Buenos Aires. Ambos decidem ir para Santa Cruz, terra natal dele. E seria por lá que começariam seu pequeno império político-econômico dentro do Partido Justicialista. Sempre juntos, ombro a ombro, com ele aparecendo mais, foram conquistando a prefeitura de Río Gallegos, capital de Santa Cruz, logo governador da província varias vezes; e ela senadora por vários mandatos. Somaram-se uma fortuna considerável junto a práticas políticas conservadoras, autoritárias e personalistas. Foram
consequentes a cada período histórico, na ditadura se fez o dinheiro, na democracia o poder.
Na época neoliberal de Carlos Menem, foram neoliberais, apoiando leis que desmantelaram o estado argentino. Que homem chega a governador e não quer ser presidente?
Em 2001, a Argentina desaba em pedaços. Tanto o sistema político como o econômico se desfazem frente a uma população cansada de tudo e de todos. Entre tropeços e uma luta feroz dentro do peronismo chegam as eleição de 2003. Néstor Kirchner chega como um candidato desconhecido e consegue com poucos votos (apenas
23 por cento) ganhar as eleições.
Começa então a aparecer um líder político que ninguém esperava. Trocou os juízes da Suprema Corte de Justiça dando a esta um novo perfil necessário para uma nova etapa de país. Revogou o indulto dado aos militares mais sanguinários da America latina e deu um novo impulso para os direitos humanos no país. Tanto as Mães como as Avós da Praça de Maio receberam pela primeira vez um tratamento merecido por parte do estado. O fortalecimento do MERCOSUL, alianças estratégicas com os países do continente Latino-americano e uma política independente dos Estados Unidos. Elevou os impostos ao setor agroexportador, o que lhe custou o ódio das classes poderosas.
Criou a política de renda universal por filho, parecido ao bolsa família, e a estatizou o sistema de aposentadorias causando uma distribuição dos ingressos. A lei de mídia audiovisual, com a qual ganhou o ódio do maior grupo de
comunicações, Clarín, foi o último embate antes de partir.
Muitos viram nestas atitudes um oportunismo político já que Néstor nunca teve em 30 anos de vida pública ações semelhantes. Mas, o que importa? O importante não era no que ele realmente acreditava, e sim no que fez e o que fez ao povo para acreditar novamente que outro país era possível. Formou junto a sua mulher um governo de centro esquerda disposto a melhorar a vida das classes menos favorecidas. Deu esperança para uma nova geração que já não acreditava em mais nada. Colocou a Argentina novamente como protagonista na política sul-americana.
Um estrategista político como poucos. Algo indispensável numa Argentina cada vez mais polarizada. Estava tudo pronto; alianças políticas acertadas e pesquisas que o colocavam como vencedor das próximas eleições presidenciais. Sua morte repentina não só deixará um vazio, senão que também exigirá de sua viúva uma enorme força de comando.
O projeto político por ele forjado não é só indispensável para a Argentina, mas também é peça chave no continente. Apesar das diferenças e críticas, tenho o maior respeito a uma grande figura que mudou o rumo das coisas do país no qual vive muitos anos.

Rodrigo Menitto, jornalista hermano-brasileño, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Morre Fogwill, o que escreveu seu melhor livro em seis dias e doze gramas

Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010)

O dia 22 de agosto começou com um ritmo estranho. Recebi do amigo Juan Morris, de Buenos Aires, uma informação inesperada: “Hoy se murió Fogwill. Un día negro para la literatura argentina.” Assim, como uma linha perdida no meio de um email, a morte de Rodolfo Enrique Fogwill (1941-2010) tornou-se ainda mais estranha. Não esperava, ainda que o ritmo de vida de Fogwill sempre o deixasse na lista dos que podiam passar dessa pra melhor de hora pra outra – informam os jornais argentinos que a morte foi provocada pelo cigarro.
Fogwill, bem titulou o Clarín, era o “último maldito” da literatura do país vizinho. Sem pudores, sem papas na língua, sem freios em sua literatura. Há alguns meses, andei apressadamente por livrarias de Buenos Aires em busca de Los pichiciegos, livro que, dizem, é sua obra-prima: não encontrei. Trata-se de uma narrativa sobre a Guerra das Malvinas escrita em seis dias e doze gramas de cocaína. Foi na loucura da droga que Fogwill, que durante muito tempo ganhou a vida como publicitário, fez-se escritor – nem por isso, diga-se de passagem, sentiu-se na condição de recomendar o uso de cocaína.
Li recentemente um perfil que agora, para minha tristeza, não consigo recordar qual foi o veículo que publicou – caso o encontrasse, teria prazer em dividi-lo com os amigos deste blogue. Na entrevista, Fogwill mostra como seguia seu ritmo intenso, como estava ranzinza com a literatura que anda se fazendo, como passava confusamente de um tema a outro, até se cansar do repórter e trocá-lo por outro que estava à espera.
Descobri o incrível talento de Fogwill em Vivir afuera, obra sobre a vida dos moradores da periferia de Buenos Aires em meio à decadência do país. No livro, a cocaína passa do autor aos personagens, entorpecidos pelo cotidiano. Três histórias de duas duplas (ou seriam casais?) se desenvolvem separadamente, mas o leitor sabe que haverão de se cruzar. Um retrato excelente de um momento da história latino-americana.
Procurando na página do jornal Perfil, do qual Fogwill era colunista, encontro uma coluna de março, uma das últimas, que trata de um poema irlandês. Parece adequado para o momento. “Sé que la muerte me encontrará en algún lugar entre las nubes. No odio a quienes combato, y a quienes defiendo no los amo. Mi patria es Kiltartan, mi comarca de Irlanda. Mis compatriotas son los pobres de Kiltartan. Ningún desenlace podrá derrotarlos. Tampoco los hará más felices que antes. No hay deber, ley, líder, ni multitudes que me muevan a pelear: sólo un impulso por placer me trajo a este tumulto entre las nubes. Calculé todo, fui consciente de todo. El futuro no valía la pena, mi pasado tampoco. En armonía con esta vida, esta muerte.” Somente um impulso por prazer deve ter levado Fogiwll a este tumulto entre as nuvens.

João Peres é jornalista e colunista do NR

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Filmes inteiros no Youtube e boa iniciativa do La Nacion

Entrevista em quadrinhos
O YouTube agora exibe filmes na íntegra. Mas só para os filmes de estúdios que fecharam acordos como, por exemplo, a Sony Pictures. Ao The Guardian, Donagh O'Malley, o executivo que responde pelas parcerias afirmou. "Esperamos que os amantes do cinema apreciem a variedade da nossa biblioteca gratuita”. Biblioteca essa que pretende ofertar cerca de 400 títulos (entre “clássicos”, “drama”, “humor”, “mistério”e “suspense”). Eu, particularmente, vi que apenas alguns filmes são interessantes para o meu gosto, mas dê uma olhada, afinal, a iniciativa é boa porque traz de graça ao público filmes inteiros e não mais apenas os vídeos de 10 minutos – limite permitido pelo YouTube para veiculação de material. Acesse os filmes disponíveis AQUI.
Falando em iniciativas, o La Nacion da Argentina mandou bem ao inaugurar novo espaço: a entrevista em quadrinhos, a primeira é com o ator Ricardo Darín (“Filho da Noiva” e “Segredo dos seus olhos”).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fuerza, Cerati

Uma das coisas bonitas que a música (e a arte em geral) nos proporciona é essa proximidade que sentimos de uma pessoa que não conhecemos, muitas vezes nem sequer estivemos perto, por aquilo que ela toca, canta e escreve.
Nesse ponto, o argentino Gustavo Cerati, ex-integrante do histórico grupo de rock Soda Stereo (de quem já falamos neste espaço), tem, espalhado pelo mundo, milhares de amigos que sequer conhece. Demonstração disso foi que a palavra #fuerzacerati apareceu entre as mais frequentes do Twitter nesta terça-feira (dia 18).
O motivo é o delicado estado de saúde do músico de 50 anos.
Cerati sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) após um concerto em Caracas, no último sábado à noite. Segundo os médicos, ele precisou ser operado nesta terça e agora encontra-se em coma induzido. “As próximas 72 horas são vitais”, disse um dos responsáveis pela saúde do cantor argentino. Se sobreviver, o cantor terá sequelas, já adiantaram os médicos.
Esses amigos que Cerati conquistou pelo mundo com suas canções hoje não podem fazer muito por ele. Quem acredita em algo, reza. Outros, como eu, estarão escutando as músicas do argentino com ainda mais carinho – e uma certa nostalgia, oxalá, prematura.
Aos que gostam de Cerati, deixo um par de canções desse monstro argentino. Ao próprio, repito esse verso tão bonito que está em Tu Locura: 

Nunca foi fácil, mas creio nos teus olhos 
(Nunca fue fácil, pero creo en tus ojos)
É tão frágil depender de tudo 
(es tan frágil depender de todo).
E como te explicar desde o encerramento 
(y cómo explicarte, desde el encierro)
Quanto medo dá sair a esse mar de dúvidas 
(cuánto miedo da salir a ese mar de dudas).
Já não há mais o que fazer 
(ya no hay más qué hacer)
Você é sua própria ajuda 
(sos tu própria ayuda)
Agora anda e vive 
(ahora andá y viví)



Fica mais uma, Caravana, que tem riffs de guitarra dignos de nota.

#Fuerzacerati 

Ricardo Viel é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina

terça-feira, 18 de maio de 2010

A esposa de Borges e a pequena Buenos Aires

Buenos Aires é algo como São Paulo com alguns milhões de habitantes a menos. OK, uma constatação um tanto quanto óbvia e extremamente reducionista em relação às inúmeras diferenças. Mas o que importa é dizer que esses muitos milhões a menos criam um “esvaziamento demográfico” que, além de melhorias à qualidade de vida, gera situações que, para quem passou os últimos anos na capital paulista, parecem passadas em pequenos povoados deste mundo.
Você está almoçando e, de repente, passa pela porta o cineasta Pablo Trapero (Família Rodante e Leonera). Está tomando o chá da tarde e se depara com Bielsa, não El Loco Bielsa, mas seu irmão, Rafael, ex-ministro de Relações Exteriores.
Quando resolve ir ao Museu Jorge Luis Borges, vê na porta Gabriela Michetti, espécie de ministra-chefe do governo da cidade de Buenos Aires. Como não fosse suficiente, na sequência sai Maurício Macri, o chefe em si, com sua “cara de nada”.
O mais interessante nessas últimas andanças, no entanto, ocorreu dois minutos depois. Quando entro no museu, após superar o borbulho da saída macrista, uma senhora de irretocável elegância, cabelos meio brancos e meio pretos – não são grisalhos, não nos confundamos, passa a explicar-me a visitação com uma incrível quantidade de detalhes.
Alguém a chama pelo nome – Maria – e, por um segundo, passa pela cabeça que pode ser a esposa de Borges. Mas não, não poderia ser. Eu, leigo em Borges, tudo o que sabia sobre sua esposa é que era uma pessoa muito mais jovem que ele. Mas seria, achava eu, impossível que fosse tão mais jovem a ponto de seguir ativa vinte anos depois da morte do escritor, com cara de senhora recém-ingressada nas artes da 3ª idade. E mesmo que se mantivesse desta maneira, não ficaria à porta do museu recebendo as pessoas.
Eis que alguém lhe chama e entrega um envelope: Maria Kodama. Sim, é ela. Nisso já se haviam passado muitos minutos de conversa com a esposa de Borges sem sabê-lo. Me senti um dos maiores idiotas da face da Terra. Estava ali, na minha frente, e não sabia. Nos minutos que se seguiram, duas pessoas se somaram à conversa e Maria passou a nos apresentar o museu – que, caso alguém se interesse, fica na Calle Anchorena, Barrio Norte, paralela à Avenida Puerreydon.
Contou que abriu tudo na raça, com dinheiro que Borges ganhou em um prêmio. A casa abriga alguns escritos, muitas lembranças, milhares de livros. Em cada um deles, o escritor fazia observações na contracapa. Em um deles, em letra miúda, Borges anotou contradições que encontrou ao longo do enredo. “Depois disso, nunca mais deixei anotações em livros. Você vê o quanto elas revelam da personalidade das pessoas”, afirma, quase tietante, admirada com a inteligência e a concentração de Borges.
Ainda há um apartamento abarrotado de coisas do autor, mas falta apoio para expandir o museu. No entanto, a melhor guia turística sobre Borges está segura que, no próximo ano, tudo vai sair do papel. Ela conta que a casa ao lado é aonde o escritor viveu quando era criança. Maria tentou comprar o imóvel mas, quando contou ao dono que ali havia vivido Borges, a transação se tornou impossível.

− Você venderia? - pergunta
− De jeito nenhum – respondo
− Pois bem. Eu entendo – afirma Maria.

E dá por encerrada a visita.

João Peres é jornalista e colunista deste Nota de Rodapé

terça-feira, 27 de abril de 2010

Na casa de veraneio do Tango, Paris, nasceu o Gotan Project

Se a Argentina também é o país do tango, é na França onde ele passa as férias, descansa e volta à terra natal renovado. Assim foi desde o começo, quando o ritmo precisou chegar de barco a Paris para então ser aceito em Buenos Aires. “Se os europeus dançam, então não é coisa da plebe”, pensou a fresca burguesia portenha.
Restrito aos “sem classe”, foi na cidade luz que Astor Piazzolla - um incompreendido na Argentina por seu estilo de tocar - pôde desenvolver seu talento. Na capital francesa conheceu o jazz sob influência de Gerry Mulligan – e teve tempo e espaço para se descobrir. Quando voltou a Buenos Aires, e após lutar contra um batalhão de críticos, revolucionou o ritmo com seus arranjos e timbres próprios.

Ira dos puristas
Mesmo reconhecido, Piazzolla conviveu a vida toda com a ira dos puristas. Conta a lenda que em um concerto, já quase no final, um senhor de chapéu, depois dos aplausos do público, bradou: “Muito bem, agora o senhor poderia tocar um tango?”.
Portanto, não é pura casualidade que no final do século passado um suíço (Chirstoph Muller), um argentino (Eduardo Makaroff) e um francês (Philippe Cohen) tenham se encontrado em Paris para criar um conjunto que deu início à segunda renovação do tango. O primeiro disco do Gotan Project se chama La Revancha del Tango (a Revanche do Tango). Pode soar presunçoso, mas foi profético. Aberto o caminho, diversas bandas ingressaram na onda de misturar o velho tango com samplers e música eletrônica.
O primeiro álbum do grupo, de 2001, é inovador não só no som, mas no conceito. Além disso, há em Gotan Project uma questão estética muito forte. Preocupação com cenário e vestuário que realmente impressiona quando visto ao vivo.
Por fim, e seguramente por influência de Makaroff, o argentino do trio, as músicas do grupo estão carregadas de mensagens que fazem referência à Argentina.
Em Queremos Paz, música que abre o álbum, a voz de Che Guevara no famoso discurso que fez na ONU em 1964: “Queremos paz, queremos construir uma vida melhor para nosso povo”.



A música Época fala do fenômeno das “desaparições”, horror praticado pela ditadura argentina:


Desapareceu, e em mim reaparecerá
Acreditam que morreu, mas renascerá
Não eram boas essas épocas,
Eram maus esses ares,

Foi há 25 anos,
E você existia sem existir ainda
O primeiro álbum foi um sucesso e o grupo rodou o mundo para se apresentar. Demorou cinco anos para que viesse o segundo disco (Lunático), que tem como característica uma mistura ainda mais acentuada com outros ritmos, como o candombe (ritmo trazido para a região do Rio da Prata pelos escravos negros e carregada por batuques).

Vide Arrabal, do segundo disco:


O negro bebeu, bailando Candombe
Lágrimas de seu tambo/Genial

Esses coros levam sonhos

Ao outro lado do mar

E um vento de arrabalde

Assobiou à noite

E no meu país se escutou/Cantar
Mas Gotan Project foi mais longe e flertou com o rap, nesta maravilhosa canção Mi Confesión:



O que esperar então do terceiro álbum que acaba de sair do forno? Ainda não escutei com a devida atenção, mas vejo um Gotan Project ainda mais cuidadoso com os arranjos e os detalhes - que fazem a diferença. As inserções de temas argentinos seguem vivas e funcionando. Como em La Glória, em que o narrador esportivo Victor Hugo Morales (figura conhecidíssima e lendária na Argentina), descreve uma linha de passe em que todos os músicos da banda participam – e que termina em “Goooootan”.
Em Rayuela (jogo da amarelinha), Cortázar (escritor argentino que viveu anos em Paris) surge lendo o capítulo 7 de seu livro que tem o mesmo título da música. Em seguida, um coro de crianças canta:


Um, dois, três: Terra, Céu
Cinco, seis: Paraíso, Inferno

Sete, oito, nove, dez:
É preciso saber mover os pés
Na amarelinha ou na vida

Você pode escolher um dia

Por qual costado?
De que lado saltará?
Não posso participar da promoção que o Nota de Rodapé lançou. Deixo aqui um conselho aos três sortudos que ganharem o novo disco de Gotan Project. Procure encontrar nas músicas o que não é visível (ou audível) a primeira impressão. É um trabalho de artesão e o resultado é de quitar o sombrero, quase uma viagem a Buenos Aires (com escala em Paris).
Deixo de bônus a música Diferente, do segundo disco, e que tem um clip tão lindo quando a canção.



Ricardo Viel é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina neste Nota de Rodapé.
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