O jornal Página12 desfaz, em suas páginas deste domingo (7), uma das teses criadas pela imprensa comercial argentina – e rapidamente reproduzida pela mídia nativa brasileira – sobre a morte de Néstor Kirchner.
Enquanto aves de agouro deste lado da fronteira apressavam-se em dizer que a presidente Cristina não aguentaria, nos moldes do que alguns querem machisticamente fazer com a presidente eleita do Brasil, do outro lado o povo acorria à mítica Praça de Maio para prestar seu apoio ao governo constitucional. Enquanto muita gente corria ao mercado de ações para comprar papéis do Clarín, apostando que Cristina não teria força para continuar enfrentando o braço-forte da imprensa argentina, milhões de pessoas reavaliavam o legado das gestões Kirchner.
O resultado está registrado pelo Página12: a morte de Néstor, por pior e lamentável que seja, acelerou o processo de recuperação da imagem da presidente. O imenso apoio popular agora se consolida em diferentes pesquisas, revertendo definitivamente a deterioração registrada entre 2008 e o começo de 2009, quando os governos Kirchner peitaram os interesses da elite rural. De acordo com o levantamento feito por Ricardo Rouvier & Asociados, 65% dos argentinos têm imagem positiva do governo, contra 35% que o avaliam como negativo.
Saiba mais:
- Aquele homem, Néstor Kirchner (Rodrigo Menitto)
- Kirchner deixa país órfão e muitas incógnitas (Mariana Camaroti, de Buenos Aires)
Mais que isso, aumentou bastante a vantagem de Cristina sobre os demais concorrentes nas eleições presidenciais do próximo ano. Se antes o cenário estava indefinido, e poderia ser Néstor o candidato, agora a chefe de Estado figura com chances de liquidar a fatura no primeiro turno. Nos dois cenários analisados, tem 45% dos votos totais, bem à frente de Maurício Macri (PRO), atual administrador de Buenos Aires, e de qualquer dos candidatos da União Cívica Radical. A situação pode mudar bastante até 2011, mas já se configura extremamente positiva levando-se em conta que, há pouco mais de um ano, este governo parecia agonizante.
Na outra mão, aqueles que esperavam abreviar este governo, agora, continuam podendo fazê-lo, mas já não contarão com o apoio das massas: 74% apoiam que a presidente possa governar. Ou seja, deixa a mulher trabalhar.
Dignas de nota:
− Júlio Cobos, vice-dissidente, foi indicado por um dos secadores brasileiros como rival de Cristina no próximo ano. O rapaz desconhece que o nome que vem vencendo as préviasda União Cívica Radical é Ricardo Alfonsín, filho de Raul, ex-presidente morto no ano passado. É possível que a rara figura de Cobos saia candidato, mas não se pode descartar a influência da herança alfonsinista sobre a UCR.
− Fernando “Pino” Solanas tem em torno de 6% das intenções de votos. Percentual bastante expressivo para um cineasta de ascendência socialista e que apenas recentemente obteve cargo político, sendo agora deputado.
João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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domingo, 7 de novembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Kirchner deixa país órfão e muitas incógnitas
A morte inesperada do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner caiu como uma bomba para a população e abriu as portas para a incerteza na política do país. Morreu o principal líder político argentino atual, presidente do partido Justicialista/Peronista e também o criador da corrente Kirchnerismo, que reunia peronistas e membros do partido opositor União Cívica Radical. Um homem que personificava o poder – há quem diga que era viciado nisso –, governava junto com a esposa presidente Cristina Kirchner e que pretendia se revezar com ela na Casa Rosada durante vários mandatos. Ele era o principal candidato para as eleições presidenciais de 2011.
As incógnitas e o vazio político surgidos com a morte de Kirchner colocam um grande desafio para a agora viúva presidente. Como será o governo de Cristina sem Néstor? Ela continuará com o projeto que os dois tinham e será candidata à reeleição em 2011? Apressado, o ministro das Relações Exteriores, Hector Timerman, já anunciou que sim. Reduzirá a estratégia de conflitos desenvolvida pelo casal presidencial desde 2003 – quando ele foi eleito presidente – e começará a pregar a harmonia na sociedade? Ou radicalizará ainda mais sua política, continuando a dividir a população entre os que estão e os que não estão do lado do governo?
Não se sabe. É difícil sair do campo das especulações neste momento. O que sim é latente é a singularidade da política nacional. Não é normal que a morte de um ex-presidente – que já nem tinha tanto apoio assim – devaste o cenário político e deixe um partido órfão em um ano-chave para as eleições. Solidários à dor da presidente, os argentinos se enfileirarem durante horas, em quilômetros, para dar o último adeus ao homem que pilotou a recuperação do país após a crise econômica de 2001, recuperou a auto-estima nacional e colocou militares atrás das grades. Muitos diziam “Força, Cristina” e pediam que ela continuasse firme. Há comoção, mas também a lembrança recente do caos na Casa Rosada em 2001, quando vários presidentes assumiram e renunciaram em meio à crise.Argentina: um país de uma política peculiar e com um passado às vezes trágico. Juan Perón perdeu a mulher e líder dos descamisados, Evita, quando era presidente. Na sua segunda presidência, morreu e deixou a vice e segunda mulher, Izabelita, em seu lugar. Sem apoio, foi deposta pelos militares. Tomara que Cristina, que não tem nada da fragilidade de Isabelita, saiba – agora sozinha – conduzir a Argentina e a difícil máquina de poder deixada pelo marido. E que não caia na tentação de isolar ainda mais o seu governo.
Mariana Camarotti é jornalista e mora na Argentina, especial para o NR
As incógnitas e o vazio político surgidos com a morte de Kirchner colocam um grande desafio para a agora viúva presidente. Como será o governo de Cristina sem Néstor? Ela continuará com o projeto que os dois tinham e será candidata à reeleição em 2011? Apressado, o ministro das Relações Exteriores, Hector Timerman, já anunciou que sim. Reduzirá a estratégia de conflitos desenvolvida pelo casal presidencial desde 2003 – quando ele foi eleito presidente – e começará a pregar a harmonia na sociedade? Ou radicalizará ainda mais sua política, continuando a dividir a população entre os que estão e os que não estão do lado do governo?
Não se sabe. É difícil sair do campo das especulações neste momento. O que sim é latente é a singularidade da política nacional. Não é normal que a morte de um ex-presidente – que já nem tinha tanto apoio assim – devaste o cenário político e deixe um partido órfão em um ano-chave para as eleições. Solidários à dor da presidente, os argentinos se enfileirarem durante horas, em quilômetros, para dar o último adeus ao homem que pilotou a recuperação do país após a crise econômica de 2001, recuperou a auto-estima nacional e colocou militares atrás das grades. Muitos diziam “Força, Cristina” e pediam que ela continuasse firme. Há comoção, mas também a lembrança recente do caos na Casa Rosada em 2001, quando vários presidentes assumiram e renunciaram em meio à crise.Argentina: um país de uma política peculiar e com um passado às vezes trágico. Juan Perón perdeu a mulher e líder dos descamisados, Evita, quando era presidente. Na sua segunda presidência, morreu e deixou a vice e segunda mulher, Izabelita, em seu lugar. Sem apoio, foi deposta pelos militares. Tomara que Cristina, que não tem nada da fragilidade de Isabelita, saiba – agora sozinha – conduzir a Argentina e a difícil máquina de poder deixada pelo marido. E que não caia na tentação de isolar ainda mais o seu governo.
Mariana Camarotti é jornalista e mora na Argentina, especial para o NR
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Aquele homem, Néstor Kirchner
No final da década de 70 os dois eram recém formados em direito, ele, Néstor, vinha do sul do país, ela, Cristina, de La Plata, Província de Buenos Aires. Ambos decidem ir para Santa Cruz, terra natal dele. E seria por lá que começariam seu pequeno império político-econômico dentro do Partido Justicialista. Sempre juntos, ombro a ombro, com ele aparecendo mais, foram conquistando a prefeitura de Río Gallegos, capital de Santa Cruz, logo governador da província varias vezes; e ela senadora por vários mandatos. Somaram-se uma fortuna considerável junto a práticas políticas conservadoras, autoritárias e personalistas. Foram
consequentes a cada período histórico, na ditadura se fez o dinheiro, na democracia o poder.
Na época neoliberal de Carlos Menem, foram neoliberais, apoiando leis que desmantelaram o estado argentino. Que homem chega a governador e não quer ser presidente?
Em 2001, a Argentina desaba em pedaços. Tanto o sistema político como o econômico se desfazem frente a uma população cansada de tudo e de todos. Entre tropeços e uma luta feroz dentro do peronismo chegam as eleição de 2003. Néstor Kirchner chega como um candidato desconhecido e consegue com poucos votos (apenas
23 por cento) ganhar as eleições.
Começa então a aparecer um líder político que ninguém esperava. Trocou os juízes da Suprema Corte de Justiça dando a esta um novo perfil necessário para uma nova etapa de país. Revogou o indulto dado aos militares mais sanguinários da America latina e deu um novo impulso para os direitos humanos no país. Tanto as Mães como as Avós da Praça de Maio receberam pela primeira vez um tratamento merecido por parte do estado. O fortalecimento do MERCOSUL, alianças estratégicas com os países do continente Latino-americano e uma política independente dos Estados Unidos. Elevou os impostos ao setor agroexportador, o que lhe custou o ódio das classes poderosas.
Criou a política de renda universal por filho, parecido ao bolsa família, e a estatizou o sistema de aposentadorias causando uma distribuição dos ingressos. A lei de mídia audiovisual, com a qual ganhou o ódio do maior grupo de
comunicações, Clarín, foi o último embate antes de partir.
Muitos viram nestas atitudes um oportunismo político já que Néstor nunca teve em 30 anos de vida pública ações semelhantes. Mas, o que importa? O importante não era no que ele realmente acreditava, e sim no que fez e o que fez ao povo para acreditar novamente que outro país era possível. Formou junto a sua mulher um governo de centro esquerda disposto a melhorar a vida das classes menos favorecidas. Deu esperança para uma nova geração que já não acreditava em mais nada. Colocou a Argentina novamente como protagonista na política sul-americana.
Um estrategista político como poucos. Algo indispensável numa Argentina cada vez mais polarizada. Estava tudo pronto; alianças políticas acertadas e pesquisas que o colocavam como vencedor das próximas eleições presidenciais. Sua morte repentina não só deixará um vazio, senão que também exigirá de sua viúva uma enorme força de comando.
O projeto político por ele forjado não é só indispensável para a Argentina, mas também é peça chave no continente. Apesar das diferenças e críticas, tenho o maior respeito a uma grande figura que mudou o rumo das coisas do país no qual vive muitos anos.
Rodrigo Menitto, jornalista hermano-brasileño, especial para o Nota de Rodapé
consequentes a cada período histórico, na ditadura se fez o dinheiro, na democracia o poder.
Na época neoliberal de Carlos Menem, foram neoliberais, apoiando leis que desmantelaram o estado argentino. Que homem chega a governador e não quer ser presidente?
Em 2001, a Argentina desaba em pedaços. Tanto o sistema político como o econômico se desfazem frente a uma população cansada de tudo e de todos. Entre tropeços e uma luta feroz dentro do peronismo chegam as eleição de 2003. Néstor Kirchner chega como um candidato desconhecido e consegue com poucos votos (apenas
23 por cento) ganhar as eleições.
Começa então a aparecer um líder político que ninguém esperava. Trocou os juízes da Suprema Corte de Justiça dando a esta um novo perfil necessário para uma nova etapa de país. Revogou o indulto dado aos militares mais sanguinários da America latina e deu um novo impulso para os direitos humanos no país. Tanto as Mães como as Avós da Praça de Maio receberam pela primeira vez um tratamento merecido por parte do estado. O fortalecimento do MERCOSUL, alianças estratégicas com os países do continente Latino-americano e uma política independente dos Estados Unidos. Elevou os impostos ao setor agroexportador, o que lhe custou o ódio das classes poderosas.
Criou a política de renda universal por filho, parecido ao bolsa família, e a estatizou o sistema de aposentadorias causando uma distribuição dos ingressos. A lei de mídia audiovisual, com a qual ganhou o ódio do maior grupo de
comunicações, Clarín, foi o último embate antes de partir.
Muitos viram nestas atitudes um oportunismo político já que Néstor nunca teve em 30 anos de vida pública ações semelhantes. Mas, o que importa? O importante não era no que ele realmente acreditava, e sim no que fez e o que fez ao povo para acreditar novamente que outro país era possível. Formou junto a sua mulher um governo de centro esquerda disposto a melhorar a vida das classes menos favorecidas. Deu esperança para uma nova geração que já não acreditava em mais nada. Colocou a Argentina novamente como protagonista na política sul-americana.
Um estrategista político como poucos. Algo indispensável numa Argentina cada vez mais polarizada. Estava tudo pronto; alianças políticas acertadas e pesquisas que o colocavam como vencedor das próximas eleições presidenciais. Sua morte repentina não só deixará um vazio, senão que também exigirá de sua viúva uma enorme força de comando.
O projeto político por ele forjado não é só indispensável para a Argentina, mas também é peça chave no continente. Apesar das diferenças e críticas, tenho o maior respeito a uma grande figura que mudou o rumo das coisas do país no qual vive muitos anos.
Rodrigo Menitto, jornalista hermano-brasileño, especial para o Nota de Rodapé
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