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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que me comove?


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Este valente arbusto, que todo mês de maio reveste-se inteiro com um véu de delicadas flores brancas. O surto de grávidas ao meu redor, cada qual com uma expressão mais luminosa que a outra. Pernas e braços enroscados, nós dois ocupando metade do espaço da cama, e o silêncio. Os oitenta anos da minha mãe, feliz como uma debutante.

“Janela da alma”, do João Jardim, que chega a doer de tão bonito. Afeto gratuito e espontâneo. O senhor centenário ao meu lado na grande mesa de almoço, há poucos dias, me chamando de menina e me contando que toma duas doses diárias de uísque e vive pensando no futuro. Um diálogo inesperado e profundo, via computador, com gente querida que não vejo há muito tempo. Caminhar sem destino por lugares que me surpreendem. Pensar na minha própria velhice.

Cantar o Hino Nacional num grande auditório cheio. O documentário “Questão de gênero” sobre transexuais. “Amor e seu tempo”, do Drummond, e “Casamento”, da Adélia Prado. Lembrar da infância nos tórridos verões de Lins. Pensar que tudo já me foi tão mais doloroso. Ir à casa da minha filha. Ter visitado Praga com o meu filho. Uma certa história sobre Higienópolis contada pela Cidinha da Silva. O vídeo “Me gritaron negra”, com Victoria Santa Cruz, em preto e branco.

“Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello. Quase tudo, na voz de Maria Bethânia. Pessoas queridas que morrem. Ter assunto com gente muito mais jovem que eu. Fotos dos sobrinhos-netos branquelos. O sol iluminando as orquídeas no meio da exuberância verde do sítio das amigas em Pirenópolis. A luta da comadre contra a maldita depressão. Hospedar pessoas amadas. A curva do mar no Arpoador.

Pensar que você me lê, numa tela iluminada, em algum lugar por aí. O que te comove?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“Saramago me ensinou que não há tempo a perder”

Nesta sexta-feira, dia 16 de novembro, o escritor português José Saramago completaria 90 anos. Morto em 2010, o único Nobel da língua portuguesa será homenageado em vários cantos do mundo, entre eles o Brasil. Em São Paulo, no teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, haverá a exibição de cinco horas de imagens inéditas do documentário José e Pilar (2010). O realizador português Miguel Gonçalves Mendes, 34 anos, responsável pelo filme que conta a vida de Saramago e sua esposa, estará presente na homenagem ao escritor.

Atualmente residente no Brasil, onde desenvolve um projeto com Fernando Meirelles e trabalha na sequencia da série “Nada Tenho de Meu” (exibida pelo Canal Brasil), Miguel conversou com o NR sobre a experiência de ter convivido por quatro anos com o autor de Ensaio Sobre a Cegueira. Diz que ter passado esse período ao lado de Saramago e Pilar del Río mudou sua maneira de encarar a vida.

Nota de Rodapé – No documentário que você fez fica evidente que Saramago era quase um "pop-star". Era idolatrado por onde passava. Por que acha que ele atingiu esse status tão raro para um escritor, ainda mais de língua portuguesa?
Miguel Gonçalves Mendes – Acho que por várias razões. Primeiro, porque Saramago é um dos autores que mais pode ser reconhecido nos seus livros. Ou seja, o narrador e muitas vezes a trama mesmo são o próprio Saramago ou a sua visão do mundo. Por outro lado ele nunca se demitiu de agir. Como ele dizia, o trabalho de um escritor é obviamente escrever, mas também intervir na sociedade. Penso que Saramago várias vezes deu voz àqueles que não a tem. E por último, e talvez o principal, a qualidade incrível da sua obra que, exatamente por isso, é universal.

Nota de Rodapé – Portugal, e a Europa como um todo atravessam hoje uma crise profunda, e não parece haver saída. Saramago era um intelectual que não se furtava de opinar, alertar e convocar as pessoas a se rebelarem. Faltam intelectuais como ele em um momento como esse?
MGM – Penso que não faltam intelectuais, o que falta é que estes mesmos intelectuais não tenham medo. Assumam e lutem pelas suas condições. Nenhum ser humano se pode demitir das suas obrigações enquanto cidadão, algo que muitas vezes esquecemos. E a nossa obrigação base é contribuir para o bem comum. O que se passa na Europa é exatamente o oposto: o fim da solidariedade, o fim do respeito, o fim da crença no outro e o inicio de um discurso xenófobo e racista. Ora, ninguém no seu perfeito juízo lutara para defender esta Europa, e o que é lamentável é que se ponha em causa um dos projetos mais utópicos e bonitos da civilização ocidental. Países que reconheciam necessitar dos outros para melhorar o bem estar de todos...

NR – Vejo as pessoas muito desesperançadas e resignadas aqui na Europa. Há um fatalismo rondando a cabeça de todos, não há?
MGM – O que é triste é que não sabemos o que se seguirá e talvez o que segue sejam bem pior para todos. E quando digo todos, refiro-me ao mundo. Bem ou mal a Europa era um farol no que toca aos direitos pelos quais toda a humanidade lutou e o seu fim só poderá ser ruim para todos nós.

NR – Você conviveu quatro anos com Saramago, conheceu sua intimidade e acabou por tornar-se amigo dele. Além do documentário, o que guardou desse período?
MGM – Eu agradeço à vida por ter-me dado a possibilidade de conhecer uma mente brilhante como a de Saramago e poder construir uma relação de amizade com ele. O meu objetivo na vida é sentir que a vivo de uma forma plena, e tê-los conhecido (Saramago e Pilar) contribuiu em muito para atingir esse meu objetivo. Tê-los conhecido mudou efetivamente a minha vida, e fez-me perceber que não há tempo a perder. Esta é a única oportunidade que nós temos e como tal não podemos perder tempo a chorar ou a dizer que o mundo é horrível. Se é horrível é levantar as mangas e mudá-lo. Como Saramago dizia: não tenhas pressa e não percas tempo.

Miguel Gonçalves Mendes lançou recentemente, pela Companhia das Letras, um livro de entrevistas com Saramago e Pilar del Río.

Ricardo Viel, colunista do NR,  também publica hoje no Valor Econômico um especial sobre os 90 anos do escritor português.

domingo, 18 de março de 2012

Aborto na Argentina: dêem-me direitos, eles não murcham

Foto: Giuliano Maiolini, SP.
Ao assistir o documentário “Aborto Clandestino: Crucificação Democrática”, no Cine do Caco, em Bauru, São Paulo, lembrei de três rosas pisoteadas e esquecidas que vi ao caminhar sob o sol escaldante no último 8 de março, dia Internacional da Mulher.

A liberdade da mulher, como aquelas rosas, me derão a mesma impressão ao término do filme, uma produção argentina do Coletivo Elza Torres que retrata o aborto naquele país do ponto de vista social e contextualiza a luta pela sua descriminalização.

O Cine do Caco, um clube de cinema do Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes (Cacoff), da Unesp de Bauru, exibiu o documentário em parceria com o Centro Acadêmico XVII de Maio e com o apoio do Coletivo Movimenta Bauru.

Um por minuto

Na Argentina, a estimativa é de um aborto a cada minuto. Num ano, são 500 mil abortos frente a 700 mil nascimentos. E muitas mulheres também se tornam vítimas: 3 mil morrem em sua decorrência.

Com números tão expressivos, diversos grupos no país se organizam para garantir o direito a liberdade da mulher de escolher ter ou não o filho. Extremamente crítico, o documentário mostra a influência da Igreja na criminalização de mulheres que optam pelo aborto.

O documentário aponta que o aborto não é uma prática somente das classes mais baixas. Em geral, a maioria das mortes por complicações do aborto clandestino ocorrem nas periferias, mas a situação está presente em todas as camadas sociais.

As classes mais altas, por consequencia, tem mais condições de fazer um abordo em clínicas com mais “segurança”, diferentemente dos mais pobres.

“Se o Papa fosse mulher, aborto seria lei”, gritavam feministas num protesto exibido no filme. Essa frase dá o tom do embate religioso presente no país vizinho – avançados no debate e com muitos grupos mobilizados.

Enquanto lá o problema é a supremacia da Igreja Católica, no Brasil é a Bancada dos Evangélicos, por exemplo, que cada vez mais toma forma no Congresso, fazendo força junto a Igreja Católica.

Apesar do Brasil ser um país laico, as instituições religiosas ainda exercem grande influência nos poderes do país. Camila Sousa, integrante do Centro Acadêmico XVII de Maio, comenta que há muito para avançar no Brasil. “Essa não é uma luta só das mulheres, quando todo mundo entender que é uma causa de todos, as mulheres terão seus direitos garantidos”, argumenta.

A pesquisa Magnitude do Aborto no Brasil revela alguns aspectos epidemológicos e socioculturais do problema. Realizada pelo Ipas Brasil, em parceria com o Instituto de Medicina Social da UERJ, a pesquisa estima que sejam realizados anualmente mais de 1 milhão de abortamentos com cerca de 250 mil internações por ano para tratamento de complicações ao custo de 35 milhões de reais para o Estado.

Camila e todas as meninas presentes não ganharam flores nesse dia, mas preferiram plantar algumas sementes para que no futuro possam colher rosas suficientes para montar um buquê de direitos garantidos.



PANO RÁPIDO: Segundo a Folha de S. Paulo de quarta-feira, 14 de março, "a Corte Suprema Argentina determinou que abortos feitos por mulheres que tenham sido estupradas não são crime. A lei já liberava abortos no caso de violações e se havia perigo à vida da mulher. Mas, em geral, a Justiça apenas autorizada pessoas com deficiência".

Aline Ramos, estudante de jornalismo,entusiasta da Cobertura Colaborativa, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O sujeito (extra)ordinário

Ao chegar no topo da escada no piso superior do prédio é o Luiz, vestindo a camisa de São Jorge, que me recebe com o primeiro sorriso da noite. Na lenta caminhada até a mesa onde costumo sentar vou cumprimentando a todos: músicos afinando os instrumentos de um lado, amigos de copo do outro.

Ali, na minha mesa cativa, já me sinto em casa e em poucos minutos um brinde dá início a ininterrupta conversa dos ébrios. “Bebe que a vida é outra!”, diz uma amiga com seu timbre negro. A noite está só começando.

O Clube do Choro de Porto Alegre se transformou em tema de um documentário há quase cinco anos, quando eu e uma amiga procurávamos um bar para nosso deleite estético e etílico. Ela é desenhista e na época estudante de História, eu, fotógrafa, estudava Ciências Sociais.

Tínhamos este projeto em comum, dedicar noites e noites a um bar, registrar acontecimentos, conversar, beber com os frequentadores e aos poucos ir recolhendo histórias de bar. Aquelas que são contadas na euforia da noite, entre goles de cerveja, por um amigo completamente desconhecido, que tornou-se instantaneamente íntimo.

A idade dos frequentadores do Clube do Choro varia entre 60 e 90 anos. Este grupo que se convencionou a chamar de terceira idade nos instigava. Uma rápida descrição das pessoas que frequentam o lugar levaria a crer que se trata de um baile onde senhores e senhoras vão, às vezes, para se distrair um pouco. Eu, aos meus vinte e poucos anos, me deparava com eles e admirava a intensidade com que desfrutavam a música, a dança, a bebida e a paquera.

Distribuídos neste espaço estão músicos, boêmios e admiradores; frequentadores assíduos, amigos ou velhos conhecidos que se reencontram por meio da música e das histórias que compartilham. É possível reconhecer no local um universo de relações que se arranjam ao ritmo do choro, da valsa, do samba, da marchinha.

No Clube do Choro de Porto Alegre reverberam os ecos de uma juventude vivida entre as boates do bairro Cidade Baixa tais como Pandeiro de Prata e Chão de Estrelas. A origem do Clube se sobrepõe a história de músicos e bares famosos da década de 60 e 70. Túlio Piva, contemporâneo de Lupicínio Rodrigues, um dos fundadores do Clube, foi dono de uma das boates mais famosas de Porto Alegre dos anos 60: Gente da Noite.

Entre os homens, o traje mais comum é o terno. Os mais despojados, usam camisa ou camiseta gola polo e jeans. Hélio é reconhecido pelos belos trajes e consagrou sua fama depois que foi vencedor de um concurso de beleza promovido pelo Clube. Desde então tornou-se rima, transmutou-se em poesia. “Este é Hélio Cardoso, o coroa mais charmoso”, apresentam-lhe.

As mulheres, vaidosas, usam maquiagem, anéis, brincos, colares, unhas pintadas e bocas vermelhas. Há um equilíbrio entre o sóbrio das roupas e o brilho dos acessórios, havendo um cuidado extremo para não errar nas combinações. Se as roupas são discretas, as personalidades não.

Dione afirma veementemente que pendurou as chuteiras, “homem, nem pensar!”, Elza, sua amiga diz provocativa “eu tenho mais sorte...”. As duas estão sempre conjecturando sobre o assunto. Se chegam ovos de codorna pelas mãos do garçom à mesa de alguém elas riem e falam entre os dentes: “é afrodisíaco!”.

Faz cinco anos que revisitamos, todas as quintas-feiras, nossos velhos amigos e interlocutores para lhes ouvir contar sobre amor, saudade, alegria, boemia, solidão, paixão. É na exaltação destes sentimentos que damos asas aos nossos narradores.

O filme está em fase de montagem, com previsão para ser lançado em maio deste ano. O que vai prevalecer é a vida ordinária e corriqueira como a minha e a sua. Porque contar histórias é, talvez, a melhor maneira de enriquecer a vida.


[Direção: Ana Mendes e Natália Chaves Bandeira]

O título do texto é inspirado no livro Cinema do Real, organizado por Maria Dora Mourão e Amir Labaki. São Paulo: Cosacnaif, 2005. Já o filme do Clube do Choro está sendo produzido pela Panda Filmes com financiamento da Prefeitura de Porto Alegre/FUMPROARTE 2010.

Ana Mendes, 26 anos, gaúcha de nascimento, errante de coração e profissão. Fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Trabalha como fotojornalista freelancer entre Brasília e Porto Alegre. Mantém a coluna mensal Faço Foto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A arte dos fotógrafos


Antropólogo, fotógrafo, professor, fotojornalista, gremista e ator. Foram três horas de conversa e assunto que não acabava mais. O irriquieto “Luiz, com z , Robinson Achutti” só pausava entre um trago de cigarro e outro: “o problema é que falo demais...”. 
Entre seus alunos, do curso de Artes Visuais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), é recorrente ouvir a expressão “ando meio achuttiano” em referência ao seu estilo clássico – e dos melhores – de fotografar. 
“Sou sempre cobaia de mim mesmo”, brinca quando digo que ele será o primeiro entrevistado da coluna Faço Foto. Achutti tem uma trajetória bastante heterogênea. Começou como repórter fotográfico no Coojornal em Porto Alegre em 1978, mesmo ano em que fincou raízes na faculdade de Ciências Sociais onde fez mestrado e doutorado em antropologia. Em 1996 ficou conhecido como o “pai da fotoetnografia” quando propôs uma nova utilização das imagens no terreno das Ciências Humanas. 
 Aos 35 anos ingressou como professor do Instituto de Artes da UFRGS onde segue até hoje. Para ele não servem categorias como fotojornalista, antropólogo ou artista. É uma honra abrir a maratona de entrevistas em texto e vídeo da coluna com Achutti que aos 53 anos de idade comemora 35 de carreira.
Por Ana Mendes


Em 1978, Achutti
se torna repórter fotográfico
NR: Me diz teu nome, idade, cidade onde nasceu?
Achutti: Me chamo Luiz, com z , Robinson Achutti, tenho 53 anos, nasci em Porto Alegre e sou gremista. É isso? Petista no momento, quer dizer, sempre fui. Signo capricórnio, não que eu acredite nessas coisas... e cor predileta: azul.

NR: Quero que tu me fale um pouco sobre o início da tua história com a fotografia.
Isso remonta ao meu avô que era fotógrafo não profissional em Santa Maria [RS]. Ele nasceu no final do século 19. E ali com 20 anos ele já tinha câmera e fotografava tudo que acontecia em Santa Maria. Quando eu era pré-adolescente passava as férias de julho com ele e, às vezes, ia pro laboratório que ele mantinha nos fundos de casa.
Ele se escondia lá, um laboratóriozinho todo enjambrado. E não sei, mas pelos 15 anos decidi que queria fazer um curso de fotografia. Meu pai não ficou muito contente e minha mãe ficou mais ou menos contente. Daí fui no Foto Cine Clube fazer um curso. Em paralelo, em 1975 comecei a fazer teatro e a primeira peça que fiz foi o Matadouro. Fiz as fotos do cartaz da peça para mandar pra divulgação e fiquei nessa, teatro e fotografia.

NR: E o curso de Ciências Sociais?
Em 1978 eu passei no vestibular e entrei nas Ciências Sociais. No primeiro ano da faculdade recebi um convite para ir no Coojornal substituir um cara e ser freelancer. Daí passei o dia com medo, "vou não vou..." e a Ondina [Fachel Leal, antropóloga], minha colega, disse “Vai, deixa de ser bobo!”. Daí eu fui e ali começou minha escola de fotojornalismo.

NR: Antropologia e jornalismo começaram juntos?
Sim. Estou na faculdade de Ciências Sociais e não tinha descoberto a antropologia ainda. Eu questionava os professores: “sou fotógrafo e faço Ciências Socias. Como junto as duas coisas?” Te confesso que, em 1978, nem tinha ouvido falar em antropologia visual. Já tinha gente falando sobre, óbvio, mas eu não. Estava focado na sociologia, só depois é que me bandeei para a antropologia. Então, tudo nasceu junto, né?

De Homem pra Homem - Vila Dique, Porto Alegre/RS, 1995

NR: Como é a utilização de imagens pela antropologia?
Na antropologia tem um campo chamado antropologia visual que é mais forte, digamos assim, no cinema etnográfico. Na fotografia, tirando algumas utilizações, era um campo muito tímido e pouco aceito. E a Ondina foi a primeira a usar um capítulo só de fotos numa tese de mestrado.
Quando entrei no mestrado ela ia ser minha orientadora e me incentivou desde o início. Foi clareza dela: “tu tem que tratar a questão da narrativa porque usar foto em trabalho de antropologia todo mundo usa”. O Malinowski [considerado um dos fundadores da antropologia social e fundador da escola funcionalista] e o Levi-Strauss, em 1934, usaram nos Tristes Trópicos. E nesse meio tempo eu tive aquela coisa meio ovo de Colombo (até provem o contrário eu que inventei) e criei a fotoetnografia.
Chamo de fotoetnografia quando o “foco” da documentação fotográfica é mais no que pega o espectro da antropologia e com o jeito de olhar da antropologia. E o que é? É sempre tentar ir mais profundamente. Buscar razões que estão lá embaixo. Eu sempre cito Geertz: “a cultura é a teia de significado que sustenta uma sociedade” então, tu tem que se oferecer para essa teia, investiga-la e trazer dali a riqueza e a particularidade de determinado grupo social-humano.
Em 1996 fiz o mestrado narrando a realidade das separadoras de lixo da Vila Dique no Rio Grande do Sul, não só por palavras, mas também imagens. E fiz de forma autônoma, porque não queria que a imagem fosse uma ilustração do texto como sempre. Queria um momento para o texto e outro para a imagem.
São dois vieses. Hoje pode parecer meio óbvio, mas havia muita resistência nessa época em que defendi o mestrado. Ainda tem gente que não engole, mas não tem como pensar o mundo de hoje e atuar no mundo de hoje só com a palavra escrita. É um absurdo.

"Chamo de fotoetnografia quando o ´foco´ da documentação fotográfica é mais no que pega o espectro da antropologia e com o jeito de olhar da antropologia"

NR: Existe um discurso por traz de qualquer imagem. E parece que a fotoetnografia exacerba isso por colocar diversas fotografias em sequência, não é?
A frase que me irrita quando ouço é “ todo mundo vê o que quiser numa fotografia”. Dá até para discutir se ela é muito aberta, mas pega o parágrafo de um livro: tu escreve uma coisa e o cara lê outra? Qual é a garantia de que a palavra é entendida completa e precisamente e a imagem não? Um grupo de fotos associadas é diferente de uma foto sozinha. E outra é um grupo de fotos fotografadas e pensadas para serem usadas em grupo. Cada uma tem que se valer sozinha, mas a soma delas faz um todo que também tem que ser importante. Não é aleatório, é uma construção.
Como o texto é uma construção, o cinema é uma construção. Tu vai fazer teu trabalho de campo e anota num cantinho, "entrevista não sei quem". Tu chega em casa e constrói uma narrativa tentando convencer o cara que vai te ler que tu foi lá e viu tal coisa e que analisa assim o fenômeno cultural daquele meio.

NR: Acho bem interessante essa (des)construção de olhar vinda de um fotojornalista. Porque o jornalismo ultimamente trabalha com a utilização de uma foto e nada mais.
Acho que o fotojornalismo em função das grandes agências está ficando cada vez mais ilustrativo e menos descritivo. O tsunami que ocorreu no Japão, por exemplo, em vez de fazer a foto do tsunami, não, o cara faz uma foto piegas de uma boneca que sobrou lá. Só está ilustrando uma avalanche absurda que recuou, matou gente e tudo a sua volta, incluindo a boneca. O tsunami, em si, o texto conta.
De toda maneira, os jornais e revistas nunca tiveram muito espaço, então é da escola do fotojornalismo tentar resumir o assunto em uma ou duas fotos. Para começar, a capa é uma foto só e todo mundo pensa só em capa.
E é por isso que o jornalismo, às vezes, morre só nas aparências, por falta de tempo e de espaço. Pega só um clichê do que está rolando. E não estou falando em desonestidade e reacionarismo do jornal, que é mais grave ainda e tem muito, a gente sabe, falo em condições normais.
E aí vem toda a tradição da fotografia documental que é o sujeito que pode se dar ao luxo, ou porque cansou do jornalismo, ou porque é rico, ou porque vive franciscanamente, ou porque foi patrocinado e diz: “o sonho da minha vida é fazer uma super série, um ensaio enorme sobre a amazônia”.
Então o cara vai morar na amazônia ou vai cinco vezes para amazônia e só termina de fotografar quando acha que já fez tudo que tinha para fazer sobre o tema amazônia. Muitas vezes o fotógrafo documental não quer descobrir ou analisar uma coisa, ele quer esgotar um assunto interessante esteticamente, com o qual vai se mostrar um fotógrafo interessante para os outros. Ele traz um tesouro visual sobre um tema que elegeu.

Última Foto, R.F.F.S.A, Porto Alegre/RS, 1993

NR: Está criticando a fotografia documental?
Não, eu não estava querendo fazer crítica porque adoro e me acho um fotógrafo documental. Estou comparando ela com o fotojornalismo. Muitos jornalistas quando estão em férias vão fazer uma série de fotos de um tema que os interessa: carnaval, candomblé, futebol.
Aí sim, numa lógica de se dar tempo e não se limitar na quantidade de imagens. E é a fotografia documental que mais se aproxima da fotoetnografia  Eu mesmo fiz trabalhos de cunho documental, como, por exemplo, segui a vida do Iberê Camargo durante um ano. Agora vou começar outro.

NR:
Qual é o próximo trabalho?
Vou começar um projeto que faz 15 anos está na minha cabeça. É uma ação em nome da memória, mas dessa vez não é um personagem, é arquitetura. São as estações ferroviárias do Rio Grande do Sul que com a privatização estão todas maltratadas, quebradas. É um retrato do descaso, entendeu? É que como o Brasil é muito chique, muito moderno, ele não precisa de trem, acaba com o trem e fica só com gasolina e carro, pneu, estrada, asfalto e o que simbolizava o trem deixa saquearem, roubarem, em ruínas.
Tudo bem Porto Alegre e Santa Maria [ficarem sem], mas na época pré-internet o trem trazia o jornal, trazia parente, comida, né? Imagina a malha viária ruim numa cidadezinha pequena? Tudo que acontecia era via trem. E quando o trem cessa? Acabou o trem, ele não para mais lá, a cidade definha, o comércio acaba.
Então, deve ter restado nessas cidadezinhas, que não sei quais são ainda, uma memória, algum velho que ainda lembra como era no tempo do trem, a estação deve estar lá porque eles não deixam derrubar, mas eles vão deixando ficar de um jeito...

“Não tem como pensar o mundo de hoje e atuar nele só com a palavra escrita. É um absurdo”

NR: Outro dia olhando o teu facebook, vi que postou “vou sair depois da chuva, levar minha analógica para passear”. Sinto uma certa nostalgia em ti.
Fui para a França e voltei quatro anos depois com as minhas analógicas e me disseram: “olha meu, tu trata de comprar uma máquina digital, senão tu não consegue mais trabalho em lugar nenhum.” Eu vivia de freelancer, né? Teve fotógrafo que chegou a ameaçar largar a fotografia, eu não.
Mais tarde é que descobri os caras da minha geração que pegaram o digital e continuaram fotografando como [se fosse] analógica, ou seja, tentando resolver tudo na hora, não deixando para depois.
É menos tempo no photoshop e na analógica também, já que não vai reenquadrar depois no ampliador, né? Isso é uma escola, tu resolve a foto na hora de bater. Photoshop só dá uma arredondada.
Estive em Campinas dando uma oficina e conheci um gurizão, o Pedro David (tem um trabalho fantástico documental-arte, vale a pena ver) e para o meu espanto o cara me disse que “um monte de coisa que eu faço é analógico, faço 4x5"l. Ele gosta do mundo analógico e resolveu não se contentar com o digital. Fiquei pensando... Será que a gente não tá matando o analógico antes do analógico morrer? O Pedro David não. Eu me animei. O cara de 25 anos está mil vezes mais analógico do que eu.
Iberê Camargo, Porto Alegre/RS 1994

NR: Vou ler um trecho de um texto teu: “O mundo é álbum de facebook. Assim é e não o contrário. A lomografia trata-se de atirar sem apontar, anotem aí! A esmo...”. Tem muitos fotógrafos profissionais furiosos com este momento da fotografia onde todos se intitulam fotógrafos. Tu acha que se vulgarizou a fotografia?
Não é coisa de velho não. Só tenho achado que existe uma banalização. É tudo meio parecido ou tudo se vende como novidade e depois que encontra uma norminha acabou, tem que vir outra. Sociedade de consumo exacerbada é isso! Então tudo é uma fórmula.
O mundo da imagem está assim, tudo é em massa e é pra hoje. Amanhã já não vale mais. É só um durante que existe, não existe passado e o futuro ninguém está ligando. Até aí tudo bem, afinal ficar vivendo em função do futuro é meio trouxa. Só existe o durante e o que eu tô falando aqui amanhã ninguém sabe, ninguém viu. É um pouco na velocidade da atualização do facebook.
E nesse oba oba que é sociedade capitalista, tudo vai assim, tudo vale um monte agora e não vale nada daqui cinco minutos ou então vale o que tem embalagem e o que tem dentro ninguém tem tempo de ver.
A lomo começou como uma brincadeira e agora é um movimento mundial. É mais uma forma de sociabilidade e as pessoas se encontram e fotografam sem olhar, de qualquer jeito, quanto mais distorcido melhor.
Mas à luz disso, pense um fotógrafo que tem 35 anos de fotografia e que não consegue se fazer fake numa estética contemporânea porque não sabe (e porque não gosta) e que, às vezes, é preterido em nome de outros caras, mais novos, com menos tradição?
Já teve circunstâncias em que senti as pessoas me aposentando: “ah, vamos fazer a turminha dos contemporâneos, o Achutti e aquelas fotos dele meio caretas, meio documental...”
Tu lê toda hora curadores geniais de São Paulo e Rio fazendo artigos detonando a fotografia documental. Ela vai ser resgatada, talvez agora porque o campo da arte vai lá e vai assaltar a fotografia documental e redefiní-la com pitadas artísticas e vão dizer que foram eles que inventaram, assim como eles fizeram com a fotografia como um todo.
Os fotógrafos faziam fotografia, aí com a crise da pintura (estou fazendo uma generalização, né?) vários artistas foram para a fotografia, adotaram como meio e técnica e reconceituaram a fotografia, e vieram com a tal foto arte, né? É como diz o francês André Rouillé “uma coisa é fotografia dos artistas, outra coisa é a arte dos fotógrafos”.


Achutti - A arte dos fotógrafos from Naíla Andrade Sarkar on Vimeo.

Trabalhos mais importantes:
1986 – Cuba
1988 – Nicarágua, as cores de uma luta
1988 – Fotos a cores de um país dito cinzento [sobre Alemanha Socialista]
1991 – Morte da Alemanha Socialista
1994 – Iberê Camargo, homenagem
2004 – Berlim Oriental
2005 – Um olhar sobre a Biblioteca Nacional da França
2008 – Palácio Piratini

Livros:
1997 – Fotoetnografia, um estudo sobre cotidiano, lixo e trabalho
1997 – Luiz Eduardo Robinson Achutti, fotografias
2004 – Iberê Camargo por Achutti
2004 – Fotoetnografia da Biblioteca Jardim
2008 – A matéria encantada, Xico Stockinger por Achutti

Ana Mendes, 26 anos, gaúcha de nascimento, errante de coração e profissão. Fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Trabalha como fotojornalista freelancer entre Brasília e Porto Alegre. A coluna Faço Foto, aqui no NR, debate o ofício de fotógrafos que trabalham com a temática social em fotos de caráter documental, jornalístico e artístico.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O primeiro ataque às Torres Gêmeas

Tinha as Torres Gêmeas, em Nova Iorque, como alvo.

Atacá-las, colocá-las a seus pés, era um sonho que virou obsessão e que consumiu seis anos de sua vida.

Com a ajuda de alguns fanáticos que o ajudavam, Phillippe Petit alcançou seu objetivo no dia 7 de agosto de 1974. O equilibrista francês cruzou os 60 metros que separavam a Torre Norte da Torre Sul em um cabo de aço, a 450 metros do chão e sem qualquer equipamento de proteção.

Esteve 45 minutos suspenso no ar, desafiando a lógica, sorridente, bailando no topo do mundo.

Deitou-se no cabo, saudou o público (que da rua não via mais do que um ponto negro), fez pouco caso da polícia e por fim voltou a pisar terreno firme.

Seu ataque ao WTC não causou nenhum estrago, não feriu ninguém e deixou a todos boquiabertos.

Essa história está contada no documentário Man on Wire, de 2008, que relata de maneira magistral a façanha deste artista francês.

Décadas depois outros estrangeiros, também obcecados pelas gigantes torres, voltaram a atacá-las.

Dessa vez não houve poesia nem final feliz.



Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório. Escreve às segundas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Doc. Sangue Latino chega à segunda temporada

Depois de percorrer o continente em busca de desvendar o DNA latino, o escritor e jornalista Eric Nepomuceno se volta para o Brasil na segunda temporada do Sangue Latino.

Nesta terça-feira (9), às 21h, no Canal Brasil, tem início a nova série de entrevistas. O primeiro convidado é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Músicos, cineastas e poetas também estarão sentados diante de Nepomuceno nesta segunda fase do programa.

Além do quilate dos entrevistados e da importância do tema debatido, o que me chamou atenção na primeira temporada foi o cuidado com a edição das entrevistas e com a fotografia. É louvável também a preocupação de Nepomuceno em deixar o personagem falar, respirar, pensar no que falou e concluir seu pensamento (algo cada vez mais raro nas conversas televisionadas).

A TV Cultura exibiu a primeira temporada no programa. Agora é torcer para que a segunda também seja exibida pela tv aberta, tão carentes de programas que nos fazem pensar.

Veja entrevista de Nepomuceno sobre a série de documentários:

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sala de Cinema entrevista Silvio Tendler

Amanhã, 8/07, às 22h, Miguel de Almeida entrevista Silvio Tendler, cineasta documentarista autor de registros dos principais acontecimentos da história política do Brasil em filmes como "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980); "Jango" (1984) e "Utopia e Barbárie" (2005), entre outros. A exibição faz parte da série Sala de Cinema, do SESCTV e esse que vos escreve participou como entrevistador. A entrevista foi no ano passado - novembro, se não me engano - quando Tendler tinha lançado seu último filme, Utopia e Barbárie. Eu ainda estava na Revista do Brasil quando fui convidado a participar da entrevista. O vídeo abaixo explica a dinâmica do programa. Fica a dica!

ATENÇÃO PARA AS REPRISES:
09/07/2010 : 02h00 : sexta-feira
10/07/2010 : 20h00 : sábado
11/07/2010 : 04h00 : domingo
11/07/2010 : 17h00 : domingo
12/07/2010 : 00h00 : segunda-feira

PARA SINTONIZAR O SESCTV
Canal 3, da Sky.
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br




Thiago Domenici, jornalista

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Terceira Mostra Luta, inscricões abertas

"A Mostra Luta! é uma mostra nacional de vídeos, fotografias, poemas e quadrinhos que exibe e debate as lutas travadas contra a exploração e a opressão capitalista. Organizada pelo Coletivo de Comunicadores Populares de Campinas." Inscrições abertas até 15 de julho pelo site www.mostraluta.org

domingo, 30 de maio de 2010

Conhece a história da água engarrafada?

Dos mesmos criadores do Story of Stuff (A história das coisas). EUA, 2010, 8 min. Direção de Annie Leonard.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Democracia Militar ou: o papel da Polícia Militar catarinense na violação dos Direitos Humanos

Vínicius Possebon, amigo deste Nota de Rodapé, fez o documentário abaixo de grande importância que trata de três momentos históricos das lutas pela democratização em Santa Catarina. Deixo no texto dele as explicações e em seguida o vídeo que vale a pena ser visto: "Em 2006, a então relatora do tema “Defensores de Direitos Humanos” na Organização das Nações Unidas (ONU), Hina Jilani, realizou uma série de audiências no Brasil para ouvir as denuncias dos Movimentos Sociais sobre casos de violações dos direitos humanos no Brasil. Este vídeo foi produzido para a ocasião de sua passagem por Santa Catarina. O filme aborda três episódios recentes da história de Santa Catarina, são eles: a manifestação de repúdio ao “Relógio dos 500 anos” instalado pela Rede Globo nas capitais do país em 2000; a luta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no ano de 2005 e as manifestações de resistência ao aumento das tar­ifas do transporte público em Florianópolis, episódio que ficou conhecido como “Revolta da Catraca”. Nestes três casos, a violência da repressão e criminalização dos movimentos sociais, marcou o papel da Policia Militar catarinense na violação dos Direitos Humanos e dos Direitos civis básicos da livre manifestação e expressão, nos quais se sustenta o “Estado democrático de Direito”. A partir da denuncia, “Democracia Militar” busca fomentar o debate sobre a qualidade e, no limite, sobre a possibilidade de um regime democrático no qual a ação dos aparelhos repressivos pauta-se pelo total desrespeito aos direitos básicos dos cidadãos."


Democracia Militar from Vinicius Possebon (Moscão) on Vimeo.

sábado, 3 de abril de 2010

O filme sobre o Capitalismo de Michael Moore toca a ferida dos tubarões de Wall Street

O sábio jornalista Sérgio de Souza, meu mestre, editor de texto da magnífica Revista Realidade e fundador da Revista Caros Amigos, falecido há dois anos, dizia diante da minha perturbação com as injustiças e contradições do país, que o problema de fundo era o capitalismo. Ele sabia, com toda sua experiência e sensibilidade, que o jornalismo que fazíamos não poderia mudar a sociedade completamente, mas poderia tocar as consciências, despertar a atenção para as questões cruciais. E daí, o povo, munido da informação, faria sua parte em reivindicar e lutar por mudanças de maior impacto.
Conto essa historinha porque tive a chance de assistir na internet ao documentário Capitalismo: uma história de amor (Capitalism: A Love history) do cineasta Michael Moore. O gancho da produção é a crise econômica mundial de 2008, desencadeada nos EUA. Para Moore, de "Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 11/9", "o capitalismo é ruim e não pode ser reformado" e o “livre mercado na realidade é um sistema para roubar os trabalhadores e garantir que 1% da população dos EUA mantenha sua riqueza, enquanto os restantes 99% se empobreçam dia a dia.” Você pensa, então: “está bem, mas qual a novidade desses números?”.
É que ao assistir as duas horas de filme recheado de boas sacadas de imagens e pesquisa histórica, as entrevistas com gente graúda, a ótima edição, a irreverência e ousadia de Moore e um bocado de outras coisa, criamos um mapa visual e concatenado do que o Sérgio me dizia sobre o tal “problema de fundo”. Por mais peculiar que seja o estilo das suas produções, arrisco a dizer que Moore fez mais um belo trabalho de investigação jornalística.
Ele conversa com ex-membros de grandes empresas que falam abertamente sobre as sacanagens que faziam a pedido do patrão, entrevista senadores indignados, americanos comuns que perderam suas casas, os desempregados, trata dos pilotos de avião mal remunerados que precisam fazer “bicos” para sobreviver e revela uma excrescência jurídica mórbida que permite que as empresas faturem quantias milionárias com os seguros de vida que estipulam secretamente no caso de morte de seus funcionários mais jovens, sem dar cobertura aos familiares. Tudo ou parte dele é fruto do capitalismo demonstra os exemplos de Moore no longa.
Em linhas gerais, o documentário explica como a banda de Wall Street - ele isola a sede de Wall Street com fita amarela que diz "cena de crime, não passe" - usufrui as benesses do capital fazendo do sistema econômico um cassino que legalizou a fraude e permitiu às empresas lucrarem milhões gerando injustiças sócio-econômicas aos 99% menos ricos.
Até a Igreja Católica americana condena o sistema. Ao consultar um Bispo, a resposta: “O capitalismo não parece estar contribuindo para o bem-estar de todas as pessoas. E isso o torna, quase em sua própria natureza, algo contrario a Jesus, que disse: ‘Benditos sejam os pobres. Ai dos ricos’”. Um dia antes da exibição nos EUA, o bonachão Moore apontou: "Nos EUA a cada sete segundos e meio uma família é desalojada de sua casa e 14.000 perdem o emprego por dia.”
O filme é bom, seduz e bate na tecla da consciência de forma didática ao mapear e denunciar os poderosos bancos e seguradoras de Wall Street (Goldman Sachs, Citybank, Morgan Stanley, AIG etc) e figuras públicas como George W. Bush, Ronald Reagan, Alan Greenspan e outros de terem organizado um verdadeiro "golpe de Estado financeiro" antes das eleições presidenciais vencidas pelo “socialista” Obama.
Esses banqueiros, lobistas, administradores públicos, muitos ligados a administração de Bush, criaram as condições políticas para ficar com os 700 milhões de dólares que o Estado aprovou para salvar as empresas da crise econômica, enquanto a classe média ficava à míngua. E pior, com a conivência de parte significativa do Congresso. Em um trecho, a pergunta a uma alta e bem intensionada funcionária do Tesouro americano: - Onde está nosso dinheiro? - Eu não sei!, diz atônita.
No Festival de Veneza, em 2009, o filme foi bem recebido pela critica. Por aqui deve ser lançado diretamente em DVD, em junho. Nas telonas, poderá ser visto na competição internacional da 15ª edição do É Tudo Verdade, que começa dia 9 de Abril no Rio de Janeiro. Mas eu vi na internet, então você também consegue. Abaixo, o trailher oficial legendado.



Thiago Domenici
, jornalista

domingo, 28 de março de 2010

ESMA: sobre um passado que espera seu futuro na Argentina

A ditadura argentina causou a morte de 30 mil pessoas, uma das mais sangrentas da América Latina. A Escola da Marinha (ESMA), um dos principais centros de detenção clandestina do país daquele período, aprisionou, torturou e assassinou 5 mil pessoas. Não é pouco.

Por tudo isso, em 2004, o então presidente Nestor Kirchner, tomou uma das decisões mais simbólicas em relação a este assunto: transformar a ESMA em um museu para a memória.

Pode parecer pequeno, mas a decisão trouxe, ainda mais forte, a lembrança na sociedade argentina de que aqueles prédios – em uma movimentada avenida de Buenos Aires - não são simples construções de jardim bem cuidado.

O ato respondeu a uma reivindicação de associações de direitos humanos, movimento com invejável influência na opinião pública hermana. Mesmo ainda não tendo saído do papel de fato, a instalação de um museu por lá agora é um caminho sem volta – é mesmo uma questão de tempo.

E tão simbólica é a ESMA que, mesmo sem museu, serviu de palco para Cristina Kirchner reclamar, no último dia 25 de março, por velocidade da justiça no julgamento dos opressores da época – ato que se por um lado é espetáculo, por outro se faz também necessário.

Documentário
Em 2004 essa história toda me levou a produzir, em parceria, o documentário Do Horror à Memória, que divido no link abaixo, com diferentes depoimentos de pessoas que fazem parte dessa cena por lá. Para uns retrata a cronologia deste lugar. Para mim, enreda um recorte do passado que está sendo mudado – mesmo que lentamente - pela força dos que não esquecem o que aconteceu. Assim como deveria acontecer por aqui.

A ditadura



A ESMA


O museu


As condenações


Prêmios
Melhor Vídeo-Documentário acadêmico do Brasil pela 12ª Expocom (2005); Melhor documentário acadêmico da América do Sul pela Expocom – SUR (2006); Melhor Documentário pelo XIV Festival Cine Vídeo de Gramado (2006); Melhor Vídeo Eleito pelo Júri - XIV Festival Cine Vídeo de Gramado (2006); Selecionado para a Mostra Paulista do Audiovisual (2006)

Diogo Ruic é jornalista pós-graduado em Teoria da Comunicação, com passagem pela revista Caros Amigos e matérias publicadas na Superinteressante, Ocas e Retrato do Brasil. Co-autor do documentário Do Horror à Memória, eleito melhor produção acadêmica da América do Sul pela Expocom – SUR (2006). Atualmente trabalha com comunicação corporativa.

sábado, 27 de março de 2010

Clássicos e variados, site permite baixar documentários de graça





Um grupo de norte-americanos fundou um portal que oferece gratuitamente o acesso a vários documentários. São produções realizadas por cineastas independentes do mundo inteiro. Você pode assistir diretamente no site freedocumentaries.org ou baixar para o seu computador. O acervo conta com clássicos como “A Revolução Não Será Televisionada”, de Kim Bartley e Donnacha O’Briain, o ganhador do Oscar de Melhor Documentário “Nascidos em Bordéis”, de Zana Briski, “Sicko”, de Michael Moore; “Jesus Camp”, de Heidi Ewing and Rachel Grady, “Os Estados Unidos Versus John Lennon”, de David Leaf e John Scheinfeld; “Sob Névoa da Guerra” (The Fog War), de Errol Morris, “Super Size Me”, de Morgan Spurlock, “The Corporation”, de Mark Achbar e Jennifer Abbott são alguns dos filmes presentes na lista do portal. Os filmes apresentam legendas em inglês apenas para as produções realizadas em outras línguas.

quinta-feira, 25 de março de 2010

"O Ser e a Náusea" trata o problema do lixo eletrônico com criatividade

"Os Cinestésicos é um coletivo de ação, discussão e experimentação audiovisual, procurando espaço na produção de vídeo independente, nas áreas de educação com projetos de oficinas e exibições e captação de recursos para tais, e também presentes cada vez mais no plano virtual, buscando mais conteúdos e compartilhamento de informação, além de participação nos fóruns. Hoje em dia, não é tão simples fazer cinema, e as novas mídias digitais abrem espaço para quem está em baixo poder expressar sua opinião e ideia. Ideias que se aderidas podem ser propagadas pela rede. Com o lixo eletrônico do MetaProjeto fizemos um boneco de lixo e na sequência, surgiu isso aí, uma experiência, tudo improvisado e rápido, mas foi isso, e espero que curtam. O microcurta foi inscrito no Claro Curtas, e dos quase 2000 que entraram na disputa com o tema "Ser Digital", já estamos entre os 100 classificados, o que para nossa experiência e ideia já é uma conquista." Conheça o blogue do Coletivo Cinestésicos.




Lucas Duarte de Souza, especial para o Nota de Rodapé

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Vila Maria Zélia: uma das vilas operárias mais bem sucedidas no Brasil

O documentário audiovisual média-metragem “Vila Maria Zélia: histórias de uma São Paulo de ontem, hoje e sempre” que tem a participação do amigo Daniel Reis pretende resgatar a história de uma das vilas operárias mais bem sucedidas no Brasil no início do século 20 em termos de relação empregador-empregado. Criado pelo empresário Jorge Street, um dos fundadores da Fiesp, o local é um símbolo do processo de industrialização e da urbanização da cidade de São Paulo do período. No entanto, trabalhos independentes sofrem com a falta de grana e precisam se virar para angariar recursos.
Em fase de captação, após ter sido pré-qualificado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, nos termos do Edital 2009, referente à Lei 10.923 de 30 de dezembro de 1990, conhecida popularmente como “Lei Mendonça” tanto pessoas jurídicas como físicas podem apoiar o projeto, basta direcionar 20% do Imposto Sobre Serviço (ISS) ou do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU – SP). “O objetivo central deste documentário é resgatar um momento importante da expansão urbana e industrial paulistana, por meio de um patrimônio histórico raro. Afinal, trata-se de uma das últimas vilas operárias que ainda hoje conserva alguns de seus prédios e fachadas originais. A partir das entrevistas dos filhos e netos dos primeiros moradores, a produção construirá um mosaico de lembranças sentimentais e históricas, além de trazer as impressões atuais de habitantes que chegaram posteriormente.”, explicou Daniel ao Nota de Rodapé. O projeto possui um blog que publica as novidades e cada passo da execução desse documentário. Também tem twitter e o flickr com fotos sobre a Vila Maria Zélia.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Em documentário Espírito de Porco volta do além para narrar sua dura trajetória

“Minha primeira motivação pra fazer Espírito de Porco foi o impulso de sair da zona de conforto”, explica Dauro Veras, jornalista, blogueiro e tuiteiro, um dos autores do documentário Espírito de Porco, entrevistado da vez neste Nota de Rodapé. “A ideia que o Chico Faganello me apresentou em 2005 era instigante: narrar a jornada de um porco na suinocultura industrial pelo ponto de vista do animal. Eu já tinha feito outros bons trabalhos com ele. Assim, o convite pra roteirizar e dirigir o filme em parceria me pareceu uma sequência natural e um bom aprendizado. Topei. Montamos o projeto, ganhamos o prêmio e passei os três anos seguintes lidando com merda”, relata Dauro. Explique-se, pois, a história. Para defender sua espécie das difamações lançadas contra ela ao longo de séculos, um porco recém abatido volta à terra, na condição de espírito. O Espírito de Porco defende os suínos narrando a sua trajetória, desde o nascimento num estado do Sul do Brasil que tem uma das maiores concentrações de porcos do mundo, até quando a sua carne vai para a mesa. O documentário discute a alimentação e a poluição; apresenta os humanos com quem convive e os problemas do seu cotidiano; defende o seu valor e busca semelhanças com as pessoas. E, na sua curta vida, revela algo que quase nunca é levado em conta: o ponto de vista do porco sobre a sua realidade. Esse ponto de vista nega, com veemência, que a sua espécie seja responsável pela poluição e pelas crises da suinocultura industrial, e deixa claro que os humanos têm uma responsabilidade maior pelas desgraças atribuídas ao porco. A seguir, o pernambucano, filho de cearenses, catarinense por adoção, pai de dois meninos, viciado em leitura, curioso e inquieto, Dauro Veras, fala mais sobre o documentário de 2009 vencedor de alguns prêmios e selecionado para participar da 11a. edição do Festival Internacional de Documentários "Santiago Álvarez in Memoriam", de 8 a 13 de março em Santiago de Cuba.

NR - Conte um pouco do que se trata o documentário Espírito de Porco para o leitor do Nota de Rodapé.
Espírito de Porco é um média-metragem sobre os impactos da suinocultura industrial no Oeste de Santa Catarina, uma das regiões que mais produzem porcos no mundo. O narrador é o espírito de um velho porco que volta ao mundo dos vivos para contar a saga de seus irmãos. O cineasta Chico Faganello e eu co-dirigimos esse documentário com R$ 60 mil do prêmio Cinemateca Catarinense / Fundação Catarinense de Cultura. Do início das pesquisas à edição final, dedicamos três anos ao projeto, que envolveu uma equipe de vinte pessoas.

NR - Em uma passagem um sujeito diz: "Eu não gostaria de viver como um porco, mas como um suíno seria interessantíssimo." O que ele quis dizer com isso?
Aquele suinocultor quis dizer, imagino, que a vida dos porcos na indústria da alimentação é melhor que a de muitos humanos. A gente não precisa concordar com ele, mas achei a declaração interessantíssima.

NR - Que mais te marcou no trabalho; sofrimento do bicho, ignorância dos homens ou ganância da indústria?
Lidar com a vida e a morte é marcante, seja de gente ou de animal comestível. Mas evitamos uma abordagem reducionista ou demonizadora. A questão da suinocultura industrial é complexa: envolve tradições culturais, relações econômicas e sociais, hábitos alimentares, demandas do mercado consumidor... A tentação de buscar respostas fáceis é grande, mas levaria ao engano. Muitas vezes me peguei pensando sobre a cadeia de responsabilidades que cria condições para a existência dessa indústria. Quando você risca um fósforo, por exemplo, está queimando, sem saber, uma fração do porco no aglutinante da cabeça do palito.

NR - Como foram as entrevistas, o plano de trabalho do documentário e qual o objetivo de colocar um "porco" narrando sua saga?
Começamos com uma ampla pesquisa sobre a convivência de milhares de anos entre humanos e porcos, passando por aspectos econômicos, ambientais, filosóficos, científicos... Então fizemos um roteiro aberto, em paralelo com as pesquisas de campo e com as filmagens. Por que uma abordagem "suinocêntrica"? A coisificação do porco é fio condutor do documentário. A ideia então foi favorecer o "diálogo com o outro", contribuir para que o espectador reflita sobre o que a humanidade tem em comum com a porcandade. Inevitável pensar sobre o preço que se paga para ter carne à mesa.

NR - Sofreu algum tipo de resistência ou boicote para fazer esse trabalho de reportagem?
O apoio dos moradores do Oeste catarinense durante as filmagens foi fundamental. As pessoas se identificam com a história, em geral têm suinocultores na família e sabem do grave problema da poluição. Houve algumas opiniões contrárias. Um espectador se mostrou preocupado com o possível efeito sobre os adolescentes, que poderiam deixar de comer carne. Acho que isso é superestimar a capacidade do filme de influenciar os hábitos das pessoas. Espírito de Porco não é um panfleto vegetariano, tampouco carnívoro. Apontamos alternativas, mas também deixamos muitas questões para cada um responder por si mesmo. Quanto à grande indústria da carne, não pedimos nem recebemos patrocínio deles. [Na foto: Renato Turnes (esq), ator que fez a voz do porco e os dois diretores, Dauro (centro) e o Chico Faganello]

NR - Depois desse documentário, o que dizer da suinocultura e da indústria que a mantêm?
Não sou especialista, mas pelo que pude observar, o modelo de suinocultura industrial de produção em escala, adotado a partir da década de 1970 no Oeste catarinense, me parece insustentável. É porco demais concentrado num território muito restrito. O dano às águas, ao solo e ao ar nunca foi contabilizado pelas empresas no preço final do produto. É urgente a necessidade de repensar a atividade - de pôr fim ao desastre ambiental e de melhorar as condições de vida dos animais. O filme retrata um momento de uma atividade que está em rápida transformação. Vai ser interessante revê-lo daqui a dez anos e, espero, constatar como as coisas evoluíram.

NR - Lançado em 2009, qual tem sido a percepção das pessoas que têm assistido?
Muito boa. Alguns acharam que devíamos ter sido mais contundentes. Mas esse seria o filmes deles, não o nosso. Optamos por uma narrativa que pudesse interessar diferentes perfis de público. Não é, evidentemente, um filme de entretenimento, mas se você se preocupa com o que põe na boca e com sua relação com outros seres vivos, Espírito de Porco tem algo a lhe dizer.

NR - O documentário foi selecionado para uma premiação em Cuba? Ganhou outros prêmios? A critica elogiou ou fingiu que não viu?
O Porco foi selecionado para participar da 11a. edição do Festival Internacional de Documentários "Santiago Álvarez in Memoriam", de 8 a 13 de março em Santiago de Cuba. Este ano o Brasil é o país convidado. Em agosto de 2009, nosso doc. foi eleito Melhor Filme pelo júri popular da 1ª Mostra Internacional de Cinema pelos Direitos dos Animais, em Curitiba. E em outubro, ganhou um prêmio especial do Júri Internacional no Cine'Eco - Festival Internacional de Cinema Ambiental de Seia, Portugal - uma mostra competitiva com participantes de 30 países. Também exibimos em festivais em Goiás, Fernando de Noronha, Chapecó, Porto Velho e Buenos Aires. Quanto às críticas, até agora foram poucas e boas. Aguardamos a sua.

NR - O que mais dá pra dizer que não está no documentário?
Quem quiser contar mais histórias sobre a indústria dos porcos tem um campo vasto para fuçar. O bem-estar animal e o confinamento em pequenos espaços, por exemplo. Há informações científicas muito interessantes sobre o comportamento do porco em diferentes ambientes. A questão da saúde pública é outro assunto importantíssimo e pouco estudado. Eu adoraria que esse documentário inspirasse outros.

NR - Como a gente assiste? Onde a gente encontra?
Estamos distribuindo o DVD pelo site http://www.faganello.com/loja.php (R$ 15). E, na medida do possível, fazendo exibições em escolas e universidades.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Nelson Sargento, documentário


Retrato biográfico do sambista Nelson Sargento no Morro da Mangueira, Rio de Janeiro. Assista.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Corpo de Bollywood, o povo quer cinema

"Corpo de Bollywood mostra como Cinema na Índia é a principal forma de entretenimento, Bollywood é o centro dessa cultura cinematográfica e desse empreendimento, é também um dos canais mais importantes de comunicação, mas sobretudo o elo comum de um povo bastante diversificado. Cinema, casa dos prazeres máxima da cultura indiana, mostra seu corpo, sua estrutura quando objeto do documentário. Entrevistas com: distribuidor Balkrishna Shroff, exibidor Umesh Mehra, produtor Mahesh Bhatt, diretor Indranil Chakravarty, empresário Devendra Joshi e jornalista Kunal Mishra, dentre vários espectadores." Documentário | De Raquel Valadares | 2008 | 28 min | RJ

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Meneghetti: no Dops, salva pelo U do nome?

Zilda Meneguetti, nome de solteira, é minha mãe. Na década de 60 e perto dos 20 anos a então empregada doméstica com sotaque do norte do Paraná, Sertanópolis, vivia suas histórias. Cresci cercado por elas, sempre marcadas por uma narração precisa, com detalhes e ambiente. Um desses causos da minha infância é sobre Gino Meneghetti (1878-1976), o ladrão italiano que marcou época em São Paulo por seu estilo particular de assaltar, ganhando fama por seus roubos e fugas espetaculares.
Apelidado de “o bom ladrão” e tendo o mesmo sobrenome de minha mãe, nunca tivemos certeza se era ou não nosso parente. Dona Zilda soube de sua existência no lugar mais inóspito possível, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Ao chegar com uma amiga para tirar a identidade o enquadro: “A senhorita conhece ou é parente do Gino Meneguetti?”, perguntou o Feijoada, nome do fulano responsável pela emissão do documento. “Quem?”, respondeu.
Detida por 6 horas para averiguação, o tal do Feijoada, um “negro miúdo”, achou que ela podia estar acobertando o bandido histórico, que havia fugido mais uma vez da cadeia. Após interrogatório no qual só não perguntaram para qual time de futebol torcia a liberaram com o argumento. “É, você não tem cara de malandra e sua certidão é MenegUetti e não MenegHetti. Essa H salvou você”.
De fato, o U e o H são letras distintas no sobrenome de ambos. A argumentação do Feijoada é que me intrigou. Bem sabemos que erros são comuns em registros de nomes. A dúvida do parentesco permanece. Sorte da minha mãe que se livrou do infeliz e nada sofreu, uma raridade naqueles tempos. Afinal, ser ainda uma menina numa época de repressão braba pode tê-la ajudado. “Lembro que o Feijoada queria colocar, depois de tudo, azul como cor dos meus olhos. São verdes. Quer dizer, fico detida e ele ainda quer mudar a cor dos meu olhos no documento?”, lembrou minha mãe. A identidade ela tem guardada até hoje. Precisou, depois de mais de 40 anos, tirar uma nova para poder receber sua aposentadoria.

“Meneghetti, honestamente ladrão”
Essa história trago para refrescar as memórias da infância e indicar que Mouzar Benedito lança, nesta quinta-feira, 28 de janeiro, na livraria da Vila, a partir das 19h, o livro de sua autoria com pesquisa de Antonio Biondi e Marcel Gomes, intitulado “Meneghetti, honestamente ladrão”. Lançado pela Boitempo Editorial, o livro traz ainda uma história em quadrinhos de Luiz Gê - que inspirou o curta-metragem de Beto Brant - publicada no jornal Versus em 1976. O livro (136 páginas) faz parte da coleção Pauliceia, coordenada por Emir Sader. A Livraria da Vila fica na rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo, SP. O telefone é: (11) 3814-5811.

Documentário: Dov´è Meneghetti?
Beto Brant (1989/12 minutos)
"Minha primeira visão do mundo foi a cidade de Pisa, com sua torre inclinada. Tal como a torre, também o meu destino estaria sempre inclinado, cai-não-cai

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