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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 16 de março de 2015

A lição de seu Valter


Protesto gigantesco na Paulista pede fim da corrupção e impeachment de Dilma, que continua apostando numa conciliação nacional difícil de vislumbrar


por João Peres e Tadeu Breda, Nota de Rodapé

Seu Valter não quer ser Fla nem Flu. E hoje, domingo, é dia de Fla-Flu – ou melhor, de Fla, porque o Flu teve a chance na sexta-feira. Seu Valter não quer abrir mão de princípios apenas para agradar a um dos lados e ganhar mais dinheiro. “A concorrência tá brava”, queixa-se, num fim de tarde em que os negócios andaram muito mal. Os demais vendedores cobram o dobro, mas entregam o produto mais desejado e seguem a máxima de que o cliente sempre tem razão: “Fora, Dilma”.

Seu Valter é um comerciante mais moderado, menos capitalismo selvagem. “Optei por um produto mais neutro.” Optou e se deu mal. Pelo menos, financeiramente: volta para casa carregado das faixinhas “Brasil, pátria amada” que oferecia a R$ 2,50 cada – as outras, antipetistas, não custavam menos de R$ 5. Não volta pra casa feliz, mas em sintonia com a consciência. “Teria de mudar todos os políticos. Não tem prova contra a Dilma.” Não deixa de ser curioso que uma mensagem tão verde-amarela encalhe num dia marcado por camisas canarinho, caras pintadas, bandeiras e hino nacionais a rodo.

Claramente, não era momento para ficar em cima do muro ou tecer algumas ponderações políticas. É um dia para mensagens explícitas, com grito bem claro e alvo definido. É também dia para algumas poucas certezas, muitas dúvidas, dezenas de questões. Uma perplexidade tão grande que desespera. O que está acontecendo? A data – 15 de março de 2015 – ainda será debatida e disputada durante um bom tempo, até que se desdobre e ganhe significados para os torcedores do Fla e do Flu. E também para o resto que não veste nenhuma camisa. Nem a verde-amarela que se imagina ser de todos os brasileiros.

Uma coisa é certa entre a multidão que compareceu à avenida Paulista: a saída imediata de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, melhor ainda se acompanhada pela extinção do PT e tudo que possa recordá-lo na face da Terra. Também parece ser clarividente que a maioria dos presentes é favorável ao impeachment como método para defenestrar a presidenta, apesar de parcela significativa ser entusiasta da “intervenção militar”, ora desavergonhadamente reconhecida como golpe, ora defendida como direito constitucional. O resto, uma enxurrada de cartazes, gritos e chiliques, é mote para debate.

Ainda não eram 15 horas e a avenida Paulista já estava cheia. É possível que certa “ansiedade revolucionária” tenha forçado paulistanos a sacrificarem o sacrossanto almoço de domingo por uma missão para eles ainda mais nobre que a família reunida em torno à mesa: “salvar o país”. Também é possível que a cobertura ao vivo de protestos que ocorriam logo pela manhã, em outras capitais, tenha empurrado para as ruas, antes do horário combinado, parte expressiva da população da maior cidade do país. Copacabana repleta de manifestantes às 11h deve ter ajudado. Imagens de cidadãos felizes envoltos nas cores nacionais, com crianças e policiais sorridentes, idem.

Nunca se viu a avenida Paulista tão cheia. Talvez nas paradas gays. Talvez no reveillón. Talvez em junho de 2013. Mas não dá para negar que havia um oceano de gente. Entrar na discussão sobre se eram 210 mil, como garante o DataFolha, recém alçado a oráculo da verdade pelos simpatizantes do governo, ou 1 milhão, como estima a Polícia Militar, é uma picuinha sem tamanho. Para efeitos comparativos com a marcha petista da sexta-feira, 13 de março, não é necessário recorrer às contagens do instituto ou da corporação. Se a ideia de alguém era medir forças, os que pediram “Fora, Dilma” foram incomparavelmente mais numerosos do que os que cobraram a permanência dela. Não estavam apenas na Paulista, mas também nas ruas adjacentes. Quem saísse alguns minutinhos da muvuca veria muitos verde-amarelos pela alameda Santos. E sabe-se lá onde mais.

A dinâmica da manifestação teve semelhanças com os dias finais das jornadas de junho, há dois anos, quando os movimentos de esquerda se viram rodeados de pessoas que jamais haviam sido vistas protestando. Gente andando pra lá e pra cá, alguns blocos coesos, gritarias localizadas, pluralidade de cartazes, desfile de reivindicações. Uma profusão de individualidades que, se se colocasse a dialogar entre si, não chegariam a um consenso sobre tantas “urgências” políticas, com exceção da mais urgente de todas: fim da corrupção e destituição de Dilma, que para eles parecem ser ingênuos sinônimos.

“Não se pode acabar com a corrupção sem acabar com o PT. O PT é a corrupção”, definiu um jovem rapaz que discursava no trio elétrico do Movimento Brasil Livre. “Vocês acham que a Dilma sabia? Sabia, né? E se ela sabe, é mais um crime que vai configurar o impeachment.”

Havia bastante sintonia entre quem falava do alto dos caminhões e as pessoas que estavam no asfalto, especialmente nas primeiras horas, em que a energia estava a mil e pequenas divergências podiam ser ignoradas em favor de um ideal unificador: “Fora PT” foi um dos gritos mais ecoados ao longo de todo o dia. A execução do hino nacional a torto e a direito, com todas as estrofes, até o fim, funcionou como outro elemento agregador aos manifestantes. “Esta é a música que nos unifica”, disse um dos oradores da tarde.

Muitas das ideias defendidas no domingo pareciam impensáveis três ou quatro anos atrás. A visão de que o PT é uma força a serviço do comunismo global, prestes a transformar o Brasil em uma extensão do eixo Cuba-Venezuela, já não é palavra de ordem de meia dúzia: arrasta milhares. “We won't be another Venezuela”, dizia um entre centenas de cartazes alusivos ao suposto perigo representado pela conexão entre Lula, Fidel Castro e Hugo Chávez. O Foro de São Paulo, articulação de partidos de esquerda latino-americanos, voltou a ser lembrado como tentáculo da ameaça soviética nestas bandas do mundo.

A ojeriza ao vermelho do PT, por outro lado, não representa exatamente uma novidade. “É uma cor tão bonita, pena que foi sequestrada pelos petralhas”, lamentava um rapaz do alto do carro de som. O sentimento ruim pelos tons escarlates e a interpretação sobre o que ela representa parecem seguir intactos desde a Guerra Fria para parte dos manifestantes do domingo. Novo é o fato de que multidões gritem ao mesmo tempo: “A nossa bandeira jamais será vermelha”. Eram muitos e, por muitas vezes, a demonstrar qual é a cor mais quente do momento político nacional.

VPR é, para a história brasileira, sigla que designa a Vanguarda Popular Revolucionária, grupo de resistência à ditadura que teve Dilma Rousseff como integrante. Para quem esteve na Paulista, porém, VPR é Vem pra Rua, um dos movimentos que coordenaram o ato com seu trio-elétrico-ostentação estacionado na transversal sobre quase toda a largura da avenida. A enorme carreta exibia uma faixa igualmente grande: “O Brasil não é do PT. É dos brasileiros. Fora Cuba. Fora Venezuela.” Enquanto isso, um rapaz vestido de Tio Sam, com cartola e bandeira dos Estados Unidos, desfilava debaixo de inofensivos gracejos.

Outros caminhões agitaram a tarde de protesto verde-amarela. Cada movimento tinha seu próprio aparelho de som e os manifestantes circulavam entre os veículos, paravam, ouviam e interagiam quando lhes agradava. Frequentemente se cantava o hino nacional. Com menos assiduidade, mas com fervor parecido, rezou-se o pai-nosso. Também houve músicas do Legião Urbana (“Que país é esse”), O Rappa (“Vem pra rua”), Raul Seixas (“Aluga-se”) e Gabriel Pensador (“Até quando”). Um jingle gravado especialmente para o momento, “Impeachment”, de uma dupla chamada Os Reaças, embalou a rebeldia dominical ao lado de uma versão antipetista de “Caminhando”, de Geraldo Vandré: “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você. Aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT.”

Entre preces e canções, apareciam palavras de ordem. Clássicos da esquerda latino-americana, como “O povo unido jamais será vencido”, foram ressignificados. Os manifestantes riram e saltaram ao bradar “Quem não pula é comunista”. Xingamentos machistas contra Dilma não deram o tom, ainda que tenham sido ouvidos aqui e acolá. “Eu vim de graça”, em referência à ajuda de custo paga pela Central Única dos Trabalhadores a parte dos manifestantes no protesto governista de sexta-feira, teve força. Alguns complementavam o grito com “E ainda paguei metrô”, em referência aos ônibus fretados pelos sindicalistas. “Lula, cachaceiro, devolve meu dinheiro” foi bastante entoado, inclusive por animados jovens que secavam no bico uma garrafa de catuaba, respingando as camisetas brancas com a inscrição “A culpa não é minha, votei no Aécio”.

A turma saudosa da ditadura se identificou rapidamente com os caminhões parados em frente ao parque Trianon. Eram dois e ostentavam faixas como “Intervenção militar já. O Brasil exige ordem e progresso” ou “Impeachment é coisa de otário, patriota mesmo exige intervenção militar”. Como nos anos 1960, bradaram contra os comunas. Um rapaz lembrou que na Coreia do Norte existe canibalismo. Outro xingou um tal “Che Pega na Vara”, em referência ao revolucionário argentino, a quem criticou por ser homofóbico.

Entediados com a falação, os partidários do golpe logo concordaram em deixar a companhia dos frouxos que pediam reforma política na Paulista e que, por vezes, vaiavam a estética milica, para caminhar até o quartel mais próximo, onde pediriam à caserna que resolvesse a questão. “Viva o Brasil. Militares, nós amamos vocês. Militares, nós precisamos de vocês. A nação está em perigo. Os militares são nossos anjos da guarda.”

Uma senhora, provavelmente com mais de 60 anos, brindava sorrisos angelicais para câmeras que a filmavam exibindo uma cartolina com os dizeres “SOS Militares”. Depois, dizia: “Quero que a Dilma vá para o inferno”. A frase, provavelmente, não coube no cartaz e precisou ser trazida verbalmente ao protesto. Minutos depois, ela subiria ao caminhão para confessar as saudades da ditadura. “O Brasil virou uma bagunça. Todo mundo só canta e dança funk. Brasília tem uma corja de vermelhinhos. Estou cansada disso. As crianças estão perdendo a referência de tudo, de pátria, de família, de Deus.”

Cuidado com as palavras, argumentos embasados e discursos elaborados, por sinal, não foram o forte da manifestação de domingo. Do chão da rua e especialmente do alto dos caminhões jorravam conclusões estapafúrdias e informações de fácil contestação. Uma avalanche de besteiras e mentiras que não são exclusividade dos antipetistas, mas que por eles foram carinhosamente cultivadas nas redes sociais até desabrocharem na avenida como flores rasteiras verde e amarelas.

Marcello Reis, fundador do grupo Revoltados Online, trajou terno para comandar os liderados. A elegância, disse, era porque minutos antes estava conversando com os Estados Unidos. “Acabei de receber a informação de que Washington vai provar que as urnas foram fraudadas”, bradou, para delírio geral, sem dar maiores detalhes sobre com que Estados Unidos falara e qual Washington provaria a fraude eleitoral. Logo depois, chorou de emoção, ladeado por faixas louvando o heroismo da Polícia Federal e do juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, responsável pelas investigações na Petrobras.

Tirando todas as faixas contra Lula, Dilma e o PT, o ministro José Antonio Dias Toffoli foi o homem mais citado da tarde – o que não significa que tenha sido um campeão de audiência, longe disso. Alguns manifestantes estavam indignados pelo fato de um ex-advogado-geral da União e ex-advogado de José Dirceu ser agora o relator do inquérito relativo à Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal. Se o protesto ocorresse quatro anos atrás, provavelmente haveria uma grita contra Joaquim Barbosa, relator do mensalão, hoje convertido em herói nacional e paladino da justiça.

Depois de Toffoli, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi lembrado em alguns cartazes e discursos. Uma cartolina dizia “Je Suis Janot”, em curiosa referência aos atentados terroristas que vitimaram cartunistas do jornal Charlie Hebdo na França. Parte dos manifestantes apoiam o chefe do Ministério Publico por ter oferecido denúncia contra vários políticos acusados de corrupção. Outros o odeiam por não ter incluído o nome de Dilma Rousseff na lista de suspeitos encaminhada ao Supremo. “A presidenta foi citada onze vezes nas delações”, indignaram-se. Menções aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, réus em potencial da Lava Jato, foram ínfimas.

Se algum policial militar um dia sonhou em ser herói, esse sonho pôde ser realizado no domingo. Membros da tropa de choque nunca tiveram de concordar com tantos abraços e apertos de mão, nunca receberam tantos sorrisos e tapinhas nas costas durante um protesto. Nunca foram tão requisitados para fotos. A satisfação dos homens fardados era flagrante. Alguns se esforçavam para sustentar a cara fechada do ofício, mas, por mais que tentassem manter-se carrancudos, uma risadinha escapava pelo canto da boca. Carregaram crianças no colo. Posaram para selfies. Uma mulher fez questão de demonstrar excitação após sentir o toque da mão de um soldado sobre seu ombro nu. E ruidosos aplausos recebiam pequenas patrulhas que caminhavam pela multidão.

Frente a uma manifestação inédita, o governo ofereceu, mais uma vez, respostas convencionais. Os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, foram os escolhidos para dar as caras após o protesto, ainda no começo da noite de domingo. Garantiram que o Palácio do Planalto tinha plena consciência de quais vontades foram expressadas nas ruas e por quem. Voltaram a dizer que a contestação e as crises foram superadas várias vezes ao longo de doze anos. E prometeram, novamente, que Dilma apresentará nos próximos dias um extenso pacote anticorrupção, a exemplo do que foi dito na esteira das manifestações de junho de 2013 e durante todo o desenrolar do processo eleitoral.

Enquanto os ministros falavam na televisão, panelas voltavam a bater pelo país. E Aécio se deixava ser fotografado na sacada de seu apartamento, em Ipanema, no Rio de Janeiro, com uma camisa verde-amarelo. Mais tarde postou um vídeo no Facebook basicamente repisando as louvações utilizadas durante a campanha, interpretando que os brasileiros agora se reencontram com valores e virtudes. “Depois de refletir muito, eu optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações. E ele é o povo brasileiro, o povo cansado de tantos desmandos, cansado de tanta corrupção.”

Marina Silva, que antes dos protestos havia cobrado respeito à vitória eleitoral de Dilma Rousseff e adotado tom mais cauteloso, comparou o protesto ao espírito presente nas jornadas de junho, classificando-o como “livre e autoral”, mas desta vez com um objetivo claro de se colocar contra o governo e a corrupção. “O povo brasileiro exige uma posição da presidente da República em resposta aos seus justos e legítimos reclames. Esta, sim, é a hora de falar e dizer a verdade. Reconhecer os erros, assumir a responsabilidade por seus atos, propor soluções para os problemas, nada mais e nada menos que isso. Uma fala da presidente, não do marketing.”

Mas, quando veio, na tarde do dia seguinte, a fala da presidenta fez oferecer certezas de que a visão transmitida na véspera por seus ministros não era um caso à parte. Dilma repisou a necessidade de respeitar as urnas, a importância da democracia, a necessidade do combate à corrupção e da reforma política, a disposição de seu governo para o diálogo com quem queira dialogar. Não apresentou nenhuma diferença no tom usado nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos, inclusive na acusação de que há na classe política partidários do “quanto pior, melhor”.

Reiterou o otimismo com uma suposta solidez democrática do país e um também suposto apego da população à construção do Estado democrático. Disse que governa para todos os brasileiros, independente de preferência partidária ou participação em manifestações contra o governo. E buscou a todo instante dizer que saberá reconhecer seus erros, sempre que indicados. “Ouvir é a palavra. Dialogar é a ação. O sentimento tem de ser de humildade e firmeza.” Desta vez, seu discurso não foi recebido com panelaços.

Depois de escutar a voz das ruas e dos palácios, é possível perceber que Dilma e seu Valter, o vendedor de fitinhas, têm pelo menos um ponto em comum: não querem ser Fla, nem Flu. Mas com uma diferença crucial. Enquanto a presidenta esconde as bandeiras vermelhas de quem a elegeu no ano passado e acena para seus detratores com as faixinhas verde-amarelas da conciliação nacional, o comerciante tem plena consciência de que a neutralidade não é boa em se tratando de ganhar a vida com política.

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João Peres, jornalista e editor do Nota de Rodapé. Tadeu Breda, jornalista, especial para o NR. Imagem: Paulo Pinto | Fotos Públicas

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Democratizar a mídia não é tolice

por Pedro Mox*

Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.

A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.

De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.

O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.

O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.

Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.

Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.

Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.

Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?

A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Será a volta do monstro?



por Cidinha da Silva*

Parece que o vento virou, à direita, e os de sempre têm o leme nas mãos.

Mãos sujas de sangue por tantos séculos, tantas gerações.

Gerações de sesmeiros, exploradores de minas e escravizadores de gente, cafeicultores, donos do cartel do transporte público.

Transporte público que foi e é luta de vanguarda, pelo direito a viver na cidade, a desfrutar da cidade.

Cidade que nos expulsa, que não nos cabe, não nos dá amor.

Amor que se vê na Brasilândia, no Campo Limpo, no Morro do Alemão que desce para o asfalto e exige o fim do extermínio da juventude negra, favelada, periférica. Amor que se respira na Revolta dos Turbantes.

Turbantes que protegem e molduram cabeças e cabeleiras de potentes mulheres negras.

Negras mulheres que mais uma vez tingem as ruas e a noite com cores de alegria e força da transformação, com espadas banhadas em mel.

Mel que nos dá Oxum com chá de canela bem quente para que despertas, acompanhemos o desenrolar dos fatos novos, tão velhos e conhecidos.

Conhecidos como o são todos os expedientes da direita que não podem nos surpreender, tampouco nos apequenar.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. 

Eu não sou da paz

por Ana Mendes*

No olho roxo da imprensa, eu chorei. Porque o povo Pinheirinho que lutou lutou lutou morreu na praia e isso me dói demais. A mulher branca da televisão não tem sotaque nenhum e ela não nos representa. Agora favorável? A liberdade do Jabor me violentou: uma retumbante palavra malfeita. A desculpa lhe esfarrapou a própria cara. Passarálho! Acabou-se o monólogo. Dramaturgo ultrapassado!

No morro carioca o bilhete na porta do barraco diz “Por favor, seu policial, não invada a minha casa. A chave está na vizinha, a dona Chiquinha. Entre, sem bater.”.Ué, a favela pacificada não é graça e bunda preta!? Não, a humilhação está na UPP mais próxima de você. Salve, Jorge!

Não foi na desmemória da ditadura que pegou fogo a vila Liberdade em Porto Alegre. Desapropriação geral em nome da paixão nacional! Meu país, minha vida! Dilma, me dá um vale a pena!! Se o Brasil acordou hoje eu morri ontem, que nem o índio Terena do Mato Grosso do Sul com o grito seco na garganta: matança!

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Agentes do caos: forjados na exclusão



Texto e fotos Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá  
ilustração Victor Zalma*

Se quinta-feira a polícia era a turba sedenta de sangue espalhando violência na região da Paulista e segunda a paz reinou sem as “forças da ordem” nos Jardins, Marginal e Brooklin, ontem agentes do caos tocaram o terror no Centro de São Paulo. Diversas lojas saqueadas, lixeiras e câmeras de segurança destruídas, uma agência bancária, um posto policial e um carro de reportagem incendiados estão nas listas dos noticiários, para não falar em tentativa de invasão de prédios públicos e pichações, muitas pichações.

É fato que as manifestações pacíficas atraem pouca atenção da mídia e, por consequência, de boa parte da população. Um exemplo claro é a ridícula estimativa pelo DataFalha (e naturalmente repercutida nos principais veículos), dando conta de apenas 65 mil pessoas nas ruas de São Paulo há dois dias.

Outra parte significativa quase nunca é representada honestamente por nossas lentes e microfones. Esse é um dos motivos de indivíduos que recusam qualquer organização partirem para a destruição de propriedade, incentivados ou não por infiltrados. Em geral, são rapazes com muita testosterona e quase nenhuma perspectiva.

Se é verdade, como diz John Zerzan, que uma vidraça não pode ser violentada e que o prejuízo a uma instituição bancária com a depredação de uma agência é irrisório, quando essa ação do tipo Black Bloc mete fogo no térreo de um edifício ocupado por movimentos sem-teto, coloca em risco a vida de uma parcela da população tão excluída pela mídia e das benesses do capitalismo quanto os incendiários. Idosos, crianças, adultos e animais de estimação que talvez há poucas semanas lutassem por espaços sob as marquises da cidade para se abrigar do frio.

Teve morador surtando e quase linchando um adolescente com cartaz contra o vandalismo, além de ameaçar os únicos repórteres a permanecer para a cobertura no local.

Quando até os bombeiros que fizeram o rescaldo do incêndio haviam partido, chega a Tropa de Choque da PM. Já não há manifestantes a serem dispersados e anarquistas, punks e saqueadores estão espalhados pelos calçadões em grupos de, no máximo, quatro ou cinco. Ágeis, não esperam e também não provocam mais os escudos e cassetetes reluzentes. Ainda assim, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo são atiradas em profusão. Depois desse junho de manifestações, os moradores de rua não correm mais. Apenas se encolhem debaixo de cobertores surrados, meio que acostumados a serem violentados cotidianamente na Paulicéia. Todos somos, mas não tanto quanto eles.


*Texto e fotos Vinícius Souza, jornalista e Maria Eugenia Sá, fotógrafa, ambos do MediaQuatro, especial para o NR. Ilustração de Victor Zalma


terça-feira, 18 de junho de 2013

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

domingo, 16 de junho de 2013

Do vintém ao vinagre


por Ricardo Sangiovanni*

Sobre esse rebuceteio todo dos protestos contra a alta do preço da passagem em São Paulo, apenas queria registrar – menos por conhecimento profundo do tema, mais por não tê-lo visto registrado em outra parte com a devida atenção – que já se quebrou o pau antes no Brasil por razão semelhante a essa de agora.

Bem antes dos vinte centavos de hoje, vinte réis a mais no preço do bonde levaram a população do Rio capital imperial a uma grita generalizada, que perturbou a ordem naturalizada das coisas. Isso foi entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, e o movimento ficou conhecido como Revolta do Vintém – que era como a moeda de 20 réis, a de menor valor à época, era chamada.

Bem antes dos trabalhadores e estudantes justissimamente indignados de hoje, o pessoal indignado daquela época – sobretudo quem morava longe para pagar aluguel mais barato, e que por isso dependia do transporte público para ir ao Centro ganhar a vida – não engoliu o aumento do preço da passagem, arbitrado da noite para o dia, desatrelado a qualquer melhoria na qualidade do serviço. E resolveu ir protestar no meio da praça, no meio da rua.

Isso porque bem antes do aumento injustificado de hoje – afinal, se por um lado R$ 0,20 significam menos que a inflação do último ano, por outro, se considerarmos a inflação acumulada em 20 anos, a passagem de ônibus em SP deveria custar R$ 2,16 em vez de R$ 3,20 – , o povo não aceitou o aumento injustificado daquela época. Porque o acréscimo fora idéia da intelligentsia imperial, um subterfúgio safado para fechar o rombo das contas de D. Pedro II.

Dom Pedro II, bem antes que o Alckmin de hoje, mandou a polícia reprimir a revolta do povo. E bem antes que o Haddad de hoje, resolveu recuar e dizer que aceitava sim conversar com os revoltosos – mas só quando o pau já estava comendo e já era tarde demais.

Bem antes da polícia violenta de hoje, a polícia violenta daquela época desceu o sarrafo nos manifestantes – estimados em cerca de 5 mil, o que resulta em expressivos 2,5% da população urbana do Rio de então. E como inexistisse munição menos-letal, a polícia disparou balas de verdade mesmo contra o povo – morreram ao menos três – e atiçou ainda mais a raiva justa que o povo já sentia dela.

Sim, porque, bem antes do povo de hoje, o povo daquela época já torcia a cara para a polícia. Porque polícia afinal nasceu no Brasil menos para combater a criminalidade, mais para reprimir e vilanizar os costumes da gente comum. Polícia naquele tempo, bem antes de hoje, já servia no mais das vezes para enquadrar nos rigores da lei, conter, dispersar todo tipo de manifestação (política, social, cultural) que viesse do povo. E os policiais de então, bem antes que os de hoje, eram quase sempre gente comum convertida, a troco de ridícula paga e nenhum preparo, em máquinas de bater, prender e matar semelhantes seus.

De maneira que, bem antes das barricadas, das vidraças quebradas e das civilizadíssimas bombas de vinagre de hoje, o bicho pegou – e feio – naquela época. O povo tacou fogo nos bondes, arrancou os trilhos, e esfaqueou os pobres dos burros (sempre sobra para eles!) que os puxavam gentilmente todos os dias. Atacou a polícia, é verdade – mas pior que essa violência era a violência original, que o Estado cometia contra eles todos os dias.

Bem antes do eventual proveito político que pessoa ou partido possa retirar das manifestações de hoje, houve quem retirasse proveito político da manifestação pelo vintém de então. Os republicanos utilizaram-se dos protestos para ganhar força – é óbvio. Muito embora, bem antes de hoje, quem participou de fato daqueles protestos não o tenha feito por motivação político-partidária anterior aos vinte réis, porque eles faziam – como fazem os vinte centavos de hoje – diferença mesmo.

Aí, quando viu que a coisa tinha azedado de vez, bem antes que a grande imprensa conservadora de hoje, a grande imprensa conservadora daquela época não gostou. Mas sobre isso, à guisa de preservar o amigo leitor de algum sentimento menor que porventura persista em meu espírito, abstenho-me de falar – dou voz ao historiador Ronaldo Pereira de Jesus: “A imprensa mais conservadora falava na convocação de mobilizações de protesto, apelava para a manutenção da lei e da ordem, lembrava que o governo havia tolerado sempre a manifestação de “representações respeitosas” e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao invés de protestar, direcionassem sua energia para a eleição de bons políticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da população.”

Qualquer semelhança não será mera coincidência, senão prova inconteste de que vivemos no Brasil, no mesmo Brasil de há mais de cem anos atrás.

Aliás, minto – há sim uma diferença: ao contrário do professor de história e da estudante de direito de hoje, quem liderou a Revolta do Vintém desde o início foi um jornalista – que tinha aliás um sugestivo sobrenome: Trovão. Reputo como coisa triste o fato de já não ser primazia de nossa profissão liderar semelhantes protestos, colegas. Mas, para já, não polemizemos: embora para alguns tenha sido preciso esperar até que as balas da polícia pegassem nos olhos de colegas da imprensa, é sempre tempo de posicionar-se do lado certo.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nesta quinta, ato contra aumento da tarifa de ônibus em SP

Recebi de Lucas Duarte Souza, do Coletivo Cinestésicos, a seguinte informação:

"A passagem de ônibus em São Paulo atingiu neste começo de janeiro o absurdo patamar de R$ 3,00. Não há como ficar calado frente a este aumento que ocorre apenas um ano depois do último e em benefício exclusivo dos empresários do setor.
Para aqueles que não se lembram, no início da gestão Kassab o ônibus estava a R$ 2,00! E como se não bastassem todos os aumentos, o dinheiro (o nosso dinheiro) que a prefeitura entrega às empresas de ônibus paralelamente à tarifa, os subsídios, estão previstos para aumentar em 2011!!
O próximo ato é no dia 13/01 (quinta-feira), com concentração às 17h na frente do Teatro Municipal (próximo ao metrô Anhangabaú). Pelo direito à cidade e contra a exlusão que só se faz mais forte com a tarifa mais cara, precisamos barrar esse aumento! Vamos às ruas! Divulguem o mais que puderem. Vamos expandir a luta!

Quando: 13/01 (quinta) às 17h
Onde: concentração no Teatro Municipal (metrô Anhangabaú)"

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Democracia Militar ou: o papel da Polícia Militar catarinense na violação dos Direitos Humanos

Vínicius Possebon, amigo deste Nota de Rodapé, fez o documentário abaixo de grande importância que trata de três momentos históricos das lutas pela democratização em Santa Catarina. Deixo no texto dele as explicações e em seguida o vídeo que vale a pena ser visto: "Em 2006, a então relatora do tema “Defensores de Direitos Humanos” na Organização das Nações Unidas (ONU), Hina Jilani, realizou uma série de audiências no Brasil para ouvir as denuncias dos Movimentos Sociais sobre casos de violações dos direitos humanos no Brasil. Este vídeo foi produzido para a ocasião de sua passagem por Santa Catarina. O filme aborda três episódios recentes da história de Santa Catarina, são eles: a manifestação de repúdio ao “Relógio dos 500 anos” instalado pela Rede Globo nas capitais do país em 2000; a luta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no ano de 2005 e as manifestações de resistência ao aumento das tar­ifas do transporte público em Florianópolis, episódio que ficou conhecido como “Revolta da Catraca”. Nestes três casos, a violência da repressão e criminalização dos movimentos sociais, marcou o papel da Policia Militar catarinense na violação dos Direitos Humanos e dos Direitos civis básicos da livre manifestação e expressão, nos quais se sustenta o “Estado democrático de Direito”. A partir da denuncia, “Democracia Militar” busca fomentar o debate sobre a qualidade e, no limite, sobre a possibilidade de um regime democrático no qual a ação dos aparelhos repressivos pauta-se pelo total desrespeito aos direitos básicos dos cidadãos."


Democracia Militar from Vinicius Possebon (Moscão) on Vimeo.
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