por Pedro Mox*
Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.
A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.
De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.
O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.
O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.
Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.
Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.
Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.
Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?
A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.
*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador papa francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador papa francisco. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
O camarote do papa
por Ricardo Sangiovanni*
Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.
Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.
Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida - para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)
Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?
Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.
Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.
Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).
E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.
Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?
A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.
Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.
Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.
Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.
Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.
Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida - para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)
Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?
Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.
Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.
Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).
E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.
Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?
A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.
Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.
Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.
Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Conto do vigário

por Ricardo Sangiovanni*
Alguém nesses tempos de troca de papa recordou Padre Pinto, até o pediu para Sumo Pontífice. Achei graça.
Padre José Pinto, para quem não é vezeiro em Bahia, é um sacerdote da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que ficou famoso em 2006 por celebrar missa de Reis vestido ora de Oxum, divindade do Candomblé, ora de entidades ancestrais de cultos indígenas. Trajou-se, pintou-se e dançou danças rituais sincréticas, com o apuro técnico que lhe permite a formação de bailarino pelo Balé do Teatro Municipal do Rio.
“Dom Geraldo [arcebispo hoje emérito de Salvador, que recentemente elegeu o novo papa] está sabendo. A CNBB também está sabendo. O povo é que se assusta”, disparou Pinto ao microfone da Rede Globo, em cadeia nacional. E clamou: “Eu não quero sair daqui! Quero morrer aqui, no altar!”
Pinto levou um puxão de orelha da Cúria, mas voltou a aprontar, ora pintando em boate gay, ora roubando em público um selinho a Caetano Veloso. Só então é que tomou um gancho de verdade: foi deslocado da Lapinha, no centro, à periférica paróquia de São (surpresa) Caetano, rebaixado a pacato vice-pároco.
Mas ia-lhes dizendo que me divirto, mas advirto que a faceirice do Padre Pinto é só um exemplar mais recente da longa história clerical de desvios dos preceitos da fé na Bahia – e, por tabela, no Brasil.
Arrisco inclusive dizer, na falta de quem bem me desminta, que o primeiro caso aqui registrado remonta à alma de padre Frutuoso Álvares, português, vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim desta Cidade da Bahia na segunda metade do século 16, primeiro da colonização lusa e cristã dessas terras do Brasil.
Corria o ano de 1591, e nem bem a Visitação do Santo Ofício abrira seus trabalhos na colônia, lá estava padre Frutuoso, sem nem ter sido chamado, primeiríssimo da fila, todo ardoroso para uma confissão voluntária.
Jurou com a mão direita sobre a bíblia e açodou-se a contar que havia quinze anos, desde que chegara à Bahia, vinha cometendo de maneira contumaz “a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando (…) moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”, conforme anotação do notário do Santo Ofício, Manuel Francisco.
“Em especial”, lê-se, “com um moço que chamam Gerônimo”.
Do tal moço ficamos sabendo, através de depoimento do próprio, tratar-se de Jerônimo Parada, “estudante, cristão-velho, natural desta Bahia, de idade dezessete anos”. Em sua confissão, o moçoilo ratifica que, há coisa de dois ou três anos, em dia de Páscoa, fora de fato à casa do clérigo. “E o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar, dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas…”
Deitaram-se coisa de uma dezena de vezes. Até um belo dia em que Jerônimo resolveu dar um basta naquilo. Louco de amor, o padre ofereceu um vintém ao moço por mais um amasso – mas este, tenaz na fé, recusou.
Aí o padre, irresistível, ofereceu dois. E deitaram-se de novo.
Pelo depoimento do padre Frutuoso ficamos sabendo ainda que seu histórico era antigo, longo e deveras conhecido da Igreja. O clérigo já praticara os tais “tocamentos desonestos” com um rapazote de Braga, Portugal – motivo pelo qual fora desterrado, primeiro para Cabo Verde, depois, sob nova acusação do mesmo crime, “sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil”.
Que ninguém pense que eu estou aqui insinuando que Padre Pinto seja por acaso homem dado a tocamentos com mancebos, como Frutuoso; tampouco que padre Frutuoso tenha-se desviado da doutrina, como Pinto. Então, afinal, que nos ensinam essas duas parábolas, queridos irmãos?
Sem dúvida, uma porção de lições mais ou menos edificantes sobre o passado e o futuro do Brasil e da religião católica, as quais porém falta-me agora o tempo e sobra-me uma enorme (uma existencial) preguiça de enunciar. A mais importante de todas, no entanto, é que essa Bahia velha não deixa a gente levar muito a sério esse papinho mole de Igreja. Pois então, conta outra, papa Chico.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
quinta-feira, 21 de março de 2013
A mídia e o Papa
por Celso Vicenzi*
Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.
Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.
Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.
Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!
Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.
A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?
Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.
Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?
E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.
Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.
Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.
Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.
Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.
Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.
É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.
A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.
A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.
As minhas contribuições, a seguir.
Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.
A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!
São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.
*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.
Assinar:
Postagens (Atom)
