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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dois pesos, duas medidas


por Celso Vicenzi*

Não me queixo dos interlocutores nas redes sociais. Tenho compartilhado artigos e análises pessoais e, principalmente, de autores que julgo importantes, para uma boa reflexão sobre o país, seu passado, seu presente e seu futuro. Igualmente em relação ao planeta. De um modo geral, meus interlocutores – homens e mulheres – são educados e vários deles discordam de meus pontos de vista, como, por exemplo, no caso do chamado “mensalão”. No entanto, há uma parcela de pessoas que mostra-se particularmente incomodada, às vezes até irritada em estender o debate. São pessoas que gostam de pôr um ponto final à História. Como se fosse possível e, mais que isso, desejável.

O vigor de uma democracia se faz justamente pelo intenso debate e compreensão dos fatos, o que deveria ir muito além dos clichês e respostas prontas, fruto de muitos anos de uma educação pouco questionadora e uma mídia que reforça certezas habilmente construídas. A obrigação de respeitar decisões legítimas no âmbito de todos os poderes não significa silenciar sobre os motivos dessas decisões. Pode ser legítima a promulgação de uma lei, mas seus benefícios ou prejuízos são passíveis de análise e comentário. Ou até de repúdio, quando injustos.

Somos doutrinados para obedecer, mais do que questionar. Somos ensinados a executar tarefas e a não perguntar. Somos instruídos para ocupar cargos na estrutura social e fazer o mínimo de indagações. Mais ou menos assim: "Pegue o seu salário, divirta-se e não queira contestar o que está errado." Não olhe para trás, nem para o lado. As injustiças sociais, que se multiplicam, devem ter outras razões que não aquelas que fizeram de você, de nós, privilegiados.

Num país que, apesar de estar entre as dez maiores economias do mundo, possui uma das sociedades mais desiguais, como não discutir as decisões de suas mais altas cortes, sejam elas do Judiciário, do Executivo ou do Parlamento? Nenhuma injustiça social é obra do acaso. Depende de decisões que envolvem pessoas que ocupam postos em vários escalões das organizações empresariais, políticas, religiosas, jurídicas, sindicais, educacionais – o leque é amplo e de peso variado no grau de influência que exerce nos destinos de uma nação.

O Brasil das capitanias hereditárias ainda tem marcas muito presentes nas esferas de poder do país. Leonardo Boff, em recente artigo, identifica intenções veladas e nunca declaradas no tão espetacular julgamento do “mensalão”. Os erros do PT não são pequenos, mas todo esse furor midiático não tem como alvo apenas os defeitos do partido, mas justamente os avanços que, apesar das alianças conservadoras, o governo conseguiu levar adiante, beneficiando milhões de brasileiros. Boff menciona uma elite conservadora, “sempre mais interessada em defender privilégios do que em garantir direitos para todos”.

Aconteceram casos semelhantes ao “mensalão” antes e durante o processo que ocupou a mídia como “nunca antes na história desse país” – para usar de uma ironia. Elegê-lo como “o maior caso de corrupção da história do país" é desconhecer a história, o país e brincar com a inteligência do povo, ou usar de má-fé, o que a mídia tem feito, aliás, sem nenhum pudor. Para não multiplicar exemplos, há o caso noticiado por um jornal de circulação nacional que cita parlamentares que teriam recebido dinheiro para aprovar a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. E, em pleno julgamento do “mensalão”, estoura o escândalo dos trens em São Paulo, que envolve a gestão de prefeitos e governadores do PSDB.

Mencionar esses e muitos outros casos é tentar desviar o foco do “mensalão”? Não! É simplesmente analisar e tentar compreender o que faz com que a mídia e o STF, particularmente neste caso, operem de maneira tão diversa do que costumam reservar para outros casos semelhantes ou ainda piores. O que se discute não é apenas uma sentença e, sim, o funcionamento das instituições e o modelo de país: conservador, elitizado, racista, preconceituoso, desigual, injusto e excludente. Entre outras razões, exatamente porque suas principais instâncias de poder também funcionam assim. Onde quase tudo costuma ter dois pesos e duas medidas, como muito bem sabem os mais pobres.

A versão oficial da história é sempre a dos vencedores, sim. Mas impérios, algum dia, também caem. Não há como pôr um ponto final à História. Ela será permanentemente reescrita.


* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A esfinge, a mídia, e o rio


texto e ilustração por Ana Beatriz Rosa*

É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.

De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”. 
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.

Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.

Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.

Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...

Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.

O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.

Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.

É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.

* * * * * * * * 

*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Democratizar a mídia não é tolice

por Pedro Mox*

Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.

A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.

De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.

O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.

O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.

Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.

Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.

Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.

Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?

A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dim! Dim!

por Fernando Carvall*

O logo da rede Globo é uma síntese perfeita do que deveria ser a função de uma tv aberta. O tempo mostrou, contudo, que os papéis de sujeito (o mundo) e espelho (a tv) se inverteram.

 Hoje o mundo é um espelho da tv!



*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011
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