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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Quando a palavra seca

por Cidinha da Silva

Tudo perde o sentido quando uma mulher negra, moradora de favela, baleada no pescoço, pende de um porta-malas e tem o corpo arrastado pelas ruas do centro do Rio. Transeuntes e motoristas buzinam, gritam, acenam, se desesperam, choram, lamentam, porém, os policiais que dirigem o carro não ouvem, não vêem, não param. Não param. Não param.

As palavras humanidade, respeito, dignidade, cidadania, vida, direitos, sonhos, justiça, perdem o sentido. A gente perde as forças, a palavra, e míngua, como o texto seca diante de mais um caso de horror racista que não comoverá o mundo e ainda terá a dimensão racial esvaziada.

Perde-se o sono e não se sabe a fórmula do conforto para reencontrá-lo. Tudo perde o sentido. A vida perde a poesia. A condição humana é rebaixada a cada ação policial.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 11 de março de 2014

Do poste à cruz, o objetivo é o mesmo



por Celso Vicenzi*

Com um agradecimento especial ao meu filho Vinicius

As pessoas que amarram seres humanos em postes ou os imobilizam com travas de bicicleta – cenas recentes a se repetir pelo Brasil – têm as mesmas motivações daqueles que pregaram Cristo na cruz. Não há diferenças, por mais cristãos que os contemporâneos imaginem ser. Salvo a distância no tempo, são dois atos com um mesmo propósito, o de exibir a punição para servir de exemplo.

São os mesmos que queimaram entre 100 mil e 500 mil mulheres nas fogueiras da Inquisição Católica, na Europa, acusadas de bruxaria (há quem fale em 9 milhões). Não diferem dos que enforcaram Tiradentes, o esquartejaram e penduraram sua cabeça em Vila Rica e pedaços de seu corpo nos lugares em que fizera seus discursos revolucionários.

Para que os exemplos não frutifiquem, é preciso sempre uma dura lição!

São os mesmos que enforcaram ou decapitaram com machados ou guilhotinas milhares de seres humanos em praças públicas. Ou os torturaram com os métodos mais cruéis já inventados pela mente humana, diante de grandes plateias. A crueldade precisa de espectadores. E não são poucos, ontem como hoje, aqueles que se regozijam com esses atos.

Na Revolução Francesa, na Europa da Idade Média, em vários lugares e épocas, o povo comparecia às execuções em praça pública com o mesmo entusiasmo de quem vai a uma festa popular. Era um espetáculo “familiar” em que até as crianças estavam presentes. Lá como cá, a aceitação da pena aplicada pelos algozes sempre foi enorme.

Por isso, não importa o grau de violência perpetrado, em todos esses casos, mais do que punir, o objetivo sempre foi o de exibir a punição à sociedade com o intuito de desencorajar, de amedrontar pelo terror, de inibir atos semelhantes.

Não bastou condenar Jesus à pena de morte, era preciso mostrá-lo pregado à cruz, para que o exemplo pudesse intimidar quem ousasse seguir o mesmo caminho. Como podem concluir, o método tem suas falhas... Os cristãos se espalharam pelo mundo. Junto a Cristo estavam, também pregados a cruzes, dois ladrões. Não muito diferentes desses que hoje são punidos de modo violento pela sociedade, seja pela tortura, pela mutilação ou pela prisão em cadeias superlotadas, piores que as masmorras medievais.

A moderna sociedade brasileira pouco se difere das de épocas tenebrosas ao permitir castigos cruéis aos apenados. A única diferença é que, atualmente, não há no aparato político-jurídico quem os justifiquem, mas é certo que pouco se faz para impedir que a tortura seja método usual e corriqueiro em delegacias do país, para obtenção de informações e como instrumento de poder. Para os “homens e mulheres de bem”, como boa parte se autoidentifica, não basta privar o sentenciado da liberdade, é preciso infligir castigos cruéis. E, se possível, a pena capital: “bandido bom é bandido morto”. (E depois vão à missa, ao culto, às orações, para pedir paz e um lugar reservado no céu...).

Cerca de 55 mil pessoas são assassinadas anualmente no Brasil. A maioria, 39 mil, são negros. Para os pesquisadores, o racismo e as condições econômicas e sociais são as principais causas.

A pena de morte, na cruz, na fogueira, na cadeira elétrica, na forca, na guilhotina, por injeção ou pelas balas da PM – não importa o método – nunca funcionou para deter nenhum tipo de violência. E muito menos para calar ideias e ideais. Mas serve para o júbilo dos que assistem e para aqueles que assumem, por alguns momentos, o papel de carrasco.

Segundo Priscila Lessa (A tortura no Ocidente: atrocidade cultural ou exercício do poder), o carrasco tinha uma posição de status no Antigo Regime, na França, entre os séculos XVI e XVIII, e era uma profissão bem remunerada e hereditária. “A arte do ofício da tortura e da execução passava, por tradição, de pai para filho. O jovem carrasco tinha sua iniciação desde muito pequeno, aos cinco ou seis anos, quando já estava apto a ajudar o pai em pequenos castigos, como banhar o acusado em óleo quente ou queimar-lhe a sola dos pés.”

Os filhos desses jovens e adultos que atualmente se deliciam em fazer justiça com as próprias mãos também já estão aptos a aprender o ofício? Aprenderão, desde cedo, como tratar adolescentes e jovens envolvidos em furtos e assaltos? Afinal, quem aprende mais com quem? Quem pratica eventual ato ilegal ou violento aprende a não fazê-lo mais depois de espancamento, tortura e prisão num poste, ou o aprendizado é maior para aqueles dispostos a ingressar nessa cruzada por justiçamento, que, sem demora, corre o risco de “sentenciar” pequenos “marginais” à morte, amarrados em postes?

Indivíduos são estimulados desde cedo pela ideologia autoritária, pelos telejornais e programas de TV especializados em exibir violências de todos os tipos, menos aquelas cometidas pelos donos do poder. Afinal, também não é violência o modelo de sociedade onde 0,7% de seus habitantes detêm 41% de toda a riqueza mundial? E que leva milhões à morte? E empurra milhares ao crime? No caso brasileiro, não é uma violência a mesma sociedade ostentar o sexto maior PIB e a quarta maior desigualdade social do planeta? Por que não ocorre aos “justiceiros” amarrar aos postes os responsáveis por tamanha crueldade contra toda a população – ela, classe média, incluída? Tão próxima de um dia se juntar aos que estão mais abaixo?

O aparato de controle da escola, dos meios de comunicação, das igrejas, das tradições familiares, do Estado, ou seja, toda uma ideologia que se aprende desde o nascimento, tem justamente essa função de manter a maioria da população na ignorância sobre quem, de fato, são os seus principais verdugos. Quem são os maiores responsáveis pela inexistência de políticas públicas que poderiam evitar a maior parte das brutalidades cotidianas? Boa parte dos cidadãos, sem acesso à informação de qualidade, a uma boa formação humanística, só consegue enxergar como inimigo direto, o “marginal” que pratica vários delitos.

E contra ele descarrega toda a sua torta ideia de justiça, deixa-se assombrar por vontades arcaicas que o colocam a um passo da barbárie. Séculos, milênios de civilização permitiram ao ser humano construir obras monumentais e desenvolver tecnologias próximas da ficção, mas não o afastaram muito das emoções mais primitivas, de raiva, ódio, vingança, egoísmo, medo e crueldade.

Da cruz ao poste, Estado e cidadãos, numa relação dialética que se retroalimenta, mantêm o modelo ineficaz para conter a violência: vigiar, punir e exibir.

 * * * * * * 

Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Morte matada


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Assuntos sobram: o beijo de amor de Félix e Niko, o trágico e violento desaparecimento do cineasta Eduardo Coutinho (que dói em mim), o cinegrafista atingido mortalmente por um rojão durante uma manifestação no Rio, a filha de Woody Allen insistindo em acusá-lo de abuso sexual e pedofilia (ela espera ser ouvida, ele desmente tudo, mas acho muito importante prestar atenção quando alguém, qualquer pessoa, faz esse tipo de denúncia), médicos cubanos desertores, a patética e incansável torcida do contra, o prefeito de um município amazonense acusado de aliciar meninas para orgias sexuais, o crescimento exponencial da violência e da insegurança em Brasília e até mesmo a suposta crise conjugal de Obama e Michelle. E muitos mais.

Mas há um que se acavalou no meu cangote e fica ali cafungando seus acres vapores: os assassinatos de homossexuais, transexuais e travestis. Morrem atacados na rua, em suas casas e escolas porque são diferentes. Não uma diferença qualquer, mas uma diferençona bem grandona, que agride, ofende, incomoda mais que qualquer outra, ao que parece.

Enquanto milhões de espectadores se deleitavam com a tal cena do beijo gay na TV Globo, há alguns dias, outros milhões bufavam de raiva pela ousadia da cena. São os que acreditam poder parar o tempo. Ou que creem que a honra, a virtude e o caráter dependem da aparência condizente com o sexo biológico ou do uso certo ou errado que se faça da genitália. Gente que não entende nada, absolutamente nada, de amor, acolhimento, compaixão, compreensão, respeito. Alguns até acham que entendem, mas, para colocar suas virtudes em ação, exigem que os “diferentes” desistam de si mesmos e se tornem iguais a eles.

Se de fato amassem os “diferentes”, defenderiam sua vida e seu direito de vivê-la, independentemente de qualquer outra coisa. Não se calariam diante das centenas, talvez milhares de assassinatos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros que acontecem no nosso país todos os anos. Pessoas agredidas, humilhadas, expulsas das escolas, igrejas, famílias e comunidades. Pessoas que poderiam estar compartilhando conosco sua inteligência, capacidades, potencial intelectual e sensibilidade, mas são impedidas. Em muitos casos, sadicamente confinadas no mercado sexual, e discriminadas também por isto. São atacadas com ódio, desfiguradas, submetidas a “tratamentos” toscos. Assassinadas. Assassinados.

No último fim de semana, fui a um restaurante muito tradicional de Pirenópolis, aqui em Goiás, onde já estive inúmeras vezes. Havia lá um garçom antigo, sabidamente gay, que sempre atendia a todos com eficiência e cortesia, equilibrando bandejas enormes pelo salão. Notando sua ausência, perguntei por ele:

— O Fulano não está mais aqui?
— Ih, a senhora não sabia? O Fulano morreu.
— É mesmo? Puxa, que pena! Morreu de que?
— De morte matada.

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Nazis Soltos, Rolezinhos no Corredor Polonês


por Cidinha da Silva*

Fazia sol bonito depois da chuva que havia espantado muita gente da Benedito Calixto. A mulher albina, de dreads grossos no cabelo crespo, meio amarelo, meio branco, circulava protegida por óculos escuros que lhe guardavam parte da face. Vez ou outra renovava a proteção dos lábios e da pele com cremes importados.

Ela vasculhava os produtos das barracas em busca das últimas lembrancinhas encomendadas pelos amigos estadunidenses, sandálias de dedo, de todos os tipos, cores e estampas, eram o must daquele verão.

Depois de finalizar as compras, a estrangeira decide comer algo. Em meio a tantos pratos saborosos escolhe um bacalhau gratinado com batatas. Pede na barraca ao lado um caldo de cana, bem gelado. Um cheiro de dendê fumegante move seus olhos para os boxes seguintes e ela paralisa o garfo a caminho da boca quando vê um homem a espera de um acarajé, tatuado com a suástica no peito.

Era branco, tinha quase dois metros, corpanzil trabalhado no anabolizante. Usava botas de alpinista, calça do exército do país dela, cortada como bermuda. A cabeça era raspada, o peito nu e a tatuagem cravada ali, deixando-a em estado de alerta.

Em situações de perigo (e em política, circunstância não menos perigosa), reza a norma que você imagine cenários. Ela já conhecia as assimetrias brasileiras o suficiente para saber quem pode se sentir protegido e quem é o suspeito preferencial na escala cromática do biopoder.

Ninguém molestava o indivíduo, cuja presença parecia não incomodar a ninguém. Aquela tatuagem não era Mandela, Gandhi, Benazir Butho, não, era a suástica! Embora ela tivesse consciência plena de que quem vê tatuagem de pacifista inscrita em um corpo, não vê coração. Há muita gente do fã clube do Mandela morto incapaz de agradecer ao ascensorista ou à faxineira que segura a porta do elevador para que a beldade entre. Mas a suástica é diferente, é explícita, direta. Ela emite uma mensagem instantânea de ódio racial dirigido às pessoas que não são arianas e isso deveria ser reprimido por quem zela pelas liberdades civis.

A moça passa os olhos ao redor em busca de um policial. Quem sabe se avisasse sobre o homem da tatuagem odiosa, talvez tratassem pelo menos de observar os movimentos do suspeito. Não há polícia e mesmo que houvesse, costumam ser treinados para garantir a segurança dos civis de classe média e para reprimir a circulação de meninos pretos e pobres em shopping centers, em nome da garantia da liberdade de consumo dos que têm dinheiro para consumir.

Está sozinha. Apavora-se. Vê então outro homem tatuado, desta vez perto de si, na barraca de churrasco. A tatuagem é verde e fica esmaecida na pele preta do homem. Ele a observa com cara amigável. Ela pede socorro com os olhos. Ele entende e sorri. Levanta um espeto bem acima da cabeça, olhando-o contra o Sol para conferir se está mesmo limpo. Faz isso com vários outros instrumentos perfurantes. A moça resolve mudar de lugar e senta-se próxima ao homem. Nunca se sabe quando um espeto de churrasco será útil.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A esfinge, a mídia, e o rio


texto e ilustração por Ana Beatriz Rosa*

É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.

De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”. 
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.

Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.

Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.

Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...

Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.

O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.

Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.

É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.

* * * * * * * * 

*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

terça-feira, 21 de maio de 2013

Reais-ficções de carnaval



por Aleksander Aguilar*

Na finaleira mesmo, na madrugada de quarta pra quinta, quando só estão de pé os mais aguerridos e/ou desesperados foliões, um bloco de massa muito conhecido do carnaval de Olinda faz sua passada arrastando, literalmente, multidões pelas ruazinhas de paralelepípedo da Cidade Alta. E segundo o que dizem os que por ali já suaram o ambiente é tenso, “só dá os mala”.

A empolgação que se extravasa às vezes vai pro nível da provocação. Desta vez sobrou foi é pro carro da polícia meio que pelo meio do caminho do bloco e da massa animada: cocos e latas de cerveja direto no veículo das autoridades, que se arretaram e foram atrás dos mala, descendo o cacete mesmo em quem quer que parecesse suspeito, incluindo Fernando, que nem tinha feito nada, mas que tava por ali parado (parado justamente por não ter feito nada) estando, assim, no lugar errado na hora em que o apetite da resposta policial era o mais voraz.

Preto e de longos dreadlocks, Fernando já foi arrastado direto pro camburão, enquanto o amigo Jair protestava, até esbravejando bem por perto a música Porcos Fardados do Planet Hemp, mas bem branquinho, galego, que era, não lhe aconteceu nada, nem tocaram, nele, já o neguinho...

E apanhou que só, visse! Bateram, bateram, e foi passar a noite na delegacia de Olinda, ali na Praça do Carmo, numa cela “nojenta”, segundo ele, e num estado todo esgualepado, diríamos no Sul, tendo que lidar com sua perda.

Sim, Fernando perdeu, e a faca, os seus longos dreads. Cortaram só de maldade – como parte da punição que a autoridade sentenciou e executou sem julgamento – as maçarocas de cabelo cuidadosamente cultivadas, pro divertimento dos guardinhas no plantão, provavelmente aborrecidos e recalcados de terem trabalhado durante todo o carnaval. Pela manhã Fernando foi jogado no meio da rua, ali por perto da Faculdade, e lhe atiraram por cima a carteirinha plástica onde guardava a identidade, os passes para o ônibus e o dinheirinho dobrado que entocara para uma emergência, mas agora sem o dinheiro, nem os passes.

E sem nem poder pegar um ônibus, Fernando tão desorientando quanto descabelado, e todo dolorido, teve que conseguir que uma das vans que fazia a linha Olinda-Recife na época, lhe desse uma carona.

Teve sorte e conseguiu ir até a Praça do Derby, e de lá sem outro remédio senão seguir a pé pela avenida Caxangá a fora, pensando no caminho até a zona do Cordeiro o que fazer com a sua história. Tomado de indignação, encheu-se de coragem, e denunciou tudo aos órgãos judiciais competentes, que abriram investigação e cordialmente lhe recomendaram: “É melhor você sair daqui por algum tempo”.

Risco de revanche policial dizem que é foda! Fernando falou com a sua mãe, e os dois realmente saíram, pra a capital de um Estado vizinho de Pernambuco, que é pra não ficar muito longe. Além do cabelo, Fernando perdeu liberdade, e quem ganhou foi a impunidade e o medo. Agora Recife/Olinda é só de visita duas ou três vezes por ano, mas incluindo o carnaval!


*Aleksander Aguilar, jornalista, acadêmico, candidato a escritor e viajante à “Ítaca”, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma vergonha que nos une

Mona Lisa sem seu encatador sorriso e com o olho roxo no
cartaz de um concurso europeu sobre violência contra a
mulher. O autor é Luis Silva, de Portugal.
Há pouco mais de dois meses moro em Salamanca, uma cidade universitária espanhola de cerca de 150 mil habitantes onde a violência é coisa rara. “Mais tranquila que o pátio de um convento de freiras”, definiu um amigo colombiano.

Para quem vem de Bogotá (como ele) ou de São Paulo (como eu), viver aqui é um agradável exercício diário de desconstruir algumas paranoias. Entre elas, a do perigo das madrugadas. Em qualquer dia da semana é comum garotas caminharem sozinhas, saídas das discotecas rumo a suas casas.

A possibilidade de acontecer algum tipo de violência com elas é quase a mesma de que caia um meteoro em suas cabeças.

Mas na semana passada, nem bem o relógio marcava nove da noite, a calma da cidade foi interrompida por um homem de 66 anos, que “armado” de um machado, atacou sua companheira (dois anos mais velha que ele) a poucos metros da praça central.

Dizem as testemunhas que a senhora só não foi morta no ato porque um herói anônimo (que acabou ferido) conseguiu dominar o agressor que não tinha passagem pela polícia. Ela está na UTI.

A Espanha, em geral, é um país que não padece da violência que nós, os latino-americanos, sofremos diariamente. A maior causa de morte no país é o câncer e não traumas causados por balas ou acidentes de carro. Ver alguém armado, ler sobre ataques a bancos ou assaltos a casas não é algo corriqueiro nem mesmo nas cidades grandes – ainda que esse tipo de violência venha crescendo nos últimos tempos.

Recordo uma pequena discussão que aconteceu na Colômbia durante uma oficina de jornalismo que participei. Uma colombiana, um pouco brava com os comentários duros do professor, um espanhol, o acusou (e citou a Espanha toda) de ser grosso, mal-educado.

há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

A resposta dele, meio em tom de brincadeira e algo de sarcasmo, foi de que ela tinha razão, que os espanhóis se desentendiam por tudo, falavam alto, mas não eram como esse gente “amável” que se mata nas ruas depois do segundo copo de bebida. Fazia referência à banalização da solução pela bala que impera em muitos países do nosso continente.

No entanto, há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

Na sexta-feira foi celebrado o dia contra a violência de gênero. O jornal El País compilou todas os homicídios que noticiou neste 2011 relacionados ao assunto. São 54 relatos que têm muito pouco em comum além da covardia praticada por homens contra suas companheiras (ou ex).

O perfil das vítimas e dos assassinos é variado, democraticamente dividido entre classe social, idade – a mais jovem das mortas tinha 18 anos e a mais velha passava dos 70 – e nacionalidade.

Espanholas, brasileiras, chinesas, suecas, italianas, colombianas, bolivianas, peruanas que sucumbiram após serem atacadas a golpes de facas, canivetes ou qualquer objeto capaz de ferir (o uso de armas de fogo é raro).

Em muitos dos casos não “bastava” aos agressores matar, queriam desfigurar suas vítimas, botar fogo em seus corpos, destruí-las.

Diferentemente da maioria dos países da América Latina a Espanha tem um sistema jurídico e uma polícia que funcionam bastante bem. Tem leis que protegem a mulher (como a Maria da Penha, no Brasil), canais efetivos de denúncias e muitas campanhas contra a violência de gênero.

Ainda assim, as agressões e ameaças persistem.

Chama a atenção nos relatos do El País que a grande maioria dos agressores foram presos minutos depois do ato praticado. Muitos deles inclusive ligaram para a polícia avisando que haviam cometido um crime e/ou esperaram pacientemente a chegada das autoridades.

A fama de “macho latino-americano”, a violência epidêmica e a certeza da impunidade poderiam explicar, em parte, porque essa prática primata de se agredir a uma mulher ainda persiste em muitos países da América Latina.

Mas como justificar que em lugares onde nenhum desses fatores acima citados se aplicam ainda existam tantos casos de homens que, por não aceitar que o amor acaba, agridem e matam?

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e do Purgatório

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Tony Porter: um chamado (necessário) para os homens

“Nos ensinavam que homens precisam ser valentes, fortes, precisam ser corajosos, dominantes. Sem dor, sem emoções (...) e definitivamente sem medo. Que os homens estão no comando, e isso significa que as mulheres não.”
Tony Porter é cofundador da organização “A Call to Men - Commited to Ending Violence Against Women” (em português, algo como “Um chamado para os homens - compromisso com o fim da violência contra as mulheres”).

Ele deu uma palestra no Ted (no vídeo abaixo) muito interessante - e corajosa. Tony conta histórias fortes sobre sua infância e sobre a educação que deu aos filhos (um menino e uma menina) relatando a diferença com que tratava os dois.
 “Quando eles tinham cinco ou seis anos, (o menino é um ano mais velho que a menina), Jay vinha até mim chorando. Não importava o porquê ela chorava, ela podia sentar no meu colo, assoar o nariz na minha manga (...). Mas Kendall, por outro lado (...), ele vinha chorando, e no momento que eu o ouvia chorar o cronômetro ligava. Dava ao garoto cerca de 30 segundos, o que significava que quando ele chegava eu já estava dizendo ‘por que está chorando?’”
Tony ajuda a entender porque a educação que costuma ser dada aos homens - tantos ensinamentos machistas - pode causar (e provavelmente vai) o desrespeito e a violência contra a mulher.

Diz Tony, em outro trecho da palestra.
“Quando se diz que mulher tem menos valor, são propriedades dos homens, são objetos, particularmente objetos sexuais. Mais tarde descobri que essa era a socialização coletiva dos homens, mais conhecida como a ‘caixa do macho’. A caixa de macho tem todos os ingredientes do que significa ser um homem. Antes quero dizer, sem dúvida alguma, que há coisas maravilhosas, muito boas mesmo, em ser homem. Mas ao mesmo tempo existem algumas coisas que estão erradas.”
É muito importante que falas como a de Tony Porter sejam ouvidas e tenham repercussão. Nos faz pensar, nos faz compreender muita coisa e nos ensina. O vídeo tem 11 minutos, mas parece que tem 3. Não é chato, não é maçante e pode fazer muita diferença.

É por esse tipo de coisa que acho importante que a gente não queira ser “normal” como escreveu a jornalista Eliane Brum num artigo recente.




Natalia Mendes é jornalista, colunista do NR

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro menos lindo

A enxurrada de informações sobre a crise da Segurança Pública no Rio de Janeiro confunde a cabeça de qualquer um. Fiz aqui uma linkagem de alguns textos que julgo importantes para a leitura e melhor compreensão dos acontecimentos - são reflexivos, de entrevistas a artigos. Um compêndio que pode - ou não - ajudar a formar opinião. Se tiverem sugestões, me escrevam: contato@notaderodape.com.br

- O desespero de Marcinho VP é revelado em grampo telefônico

- Freixo: segurança pública reforça criminalização da pobreza

- Troca de elite, mas os inimigos ainda são os mesmos!

- O risco dos tanques

- A crise no Rio e o pastiche midiático

- UPPs bloqueiam cadeia do tráfico, afirma sociólogo

- Após ocupação da Vila Cruzeiro, Paulo Lins prevê chacina no Complexo do Alemão no RJ

- Desde domingo, ao menos 38 morreram e quase 200 foram presos no Rio

- A suposta carta de união entre os traficantes da ADA e Comando Vermelho

- Líder comunitária teme 'efeito colateral' da repressão no Rio

- Rio de Janeiro. Primeira onda de ataques do crime organizado já atingiu finalidade. Tendência é submergir para voltar a surpreender

- Tem um artigo interessante no Estadão (só para assinantes) da Edna Del Pomo intitulado: "A sociedade deu carta branca para a polícia?". E sobre as Milícias, matéria publicada na Retrato do Brasil, publicada aqui na íntegra.
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