.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador crimes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crimes. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Morte matada


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Assuntos sobram: o beijo de amor de Félix e Niko, o trágico e violento desaparecimento do cineasta Eduardo Coutinho (que dói em mim), o cinegrafista atingido mortalmente por um rojão durante uma manifestação no Rio, a filha de Woody Allen insistindo em acusá-lo de abuso sexual e pedofilia (ela espera ser ouvida, ele desmente tudo, mas acho muito importante prestar atenção quando alguém, qualquer pessoa, faz esse tipo de denúncia), médicos cubanos desertores, a patética e incansável torcida do contra, o prefeito de um município amazonense acusado de aliciar meninas para orgias sexuais, o crescimento exponencial da violência e da insegurança em Brasília e até mesmo a suposta crise conjugal de Obama e Michelle. E muitos mais.

Mas há um que se acavalou no meu cangote e fica ali cafungando seus acres vapores: os assassinatos de homossexuais, transexuais e travestis. Morrem atacados na rua, em suas casas e escolas porque são diferentes. Não uma diferença qualquer, mas uma diferençona bem grandona, que agride, ofende, incomoda mais que qualquer outra, ao que parece.

Enquanto milhões de espectadores se deleitavam com a tal cena do beijo gay na TV Globo, há alguns dias, outros milhões bufavam de raiva pela ousadia da cena. São os que acreditam poder parar o tempo. Ou que creem que a honra, a virtude e o caráter dependem da aparência condizente com o sexo biológico ou do uso certo ou errado que se faça da genitália. Gente que não entende nada, absolutamente nada, de amor, acolhimento, compaixão, compreensão, respeito. Alguns até acham que entendem, mas, para colocar suas virtudes em ação, exigem que os “diferentes” desistam de si mesmos e se tornem iguais a eles.

Se de fato amassem os “diferentes”, defenderiam sua vida e seu direito de vivê-la, independentemente de qualquer outra coisa. Não se calariam diante das centenas, talvez milhares de assassinatos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros que acontecem no nosso país todos os anos. Pessoas agredidas, humilhadas, expulsas das escolas, igrejas, famílias e comunidades. Pessoas que poderiam estar compartilhando conosco sua inteligência, capacidades, potencial intelectual e sensibilidade, mas são impedidas. Em muitos casos, sadicamente confinadas no mercado sexual, e discriminadas também por isto. São atacadas com ódio, desfiguradas, submetidas a “tratamentos” toscos. Assassinadas. Assassinados.

No último fim de semana, fui a um restaurante muito tradicional de Pirenópolis, aqui em Goiás, onde já estive inúmeras vezes. Havia lá um garçom antigo, sabidamente gay, que sempre atendia a todos com eficiência e cortesia, equilibrando bandejas enormes pelo salão. Notando sua ausência, perguntei por ele:

— O Fulano não está mais aqui?
— Ih, a senhora não sabia? O Fulano morreu.
— É mesmo? Puxa, que pena! Morreu de que?
— De morte matada.

* * * * * * 

 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Bastidores de um crime

Caros leitores,
O texto desta terça-feira, escrito pelo talentoso jornalista catarinense Fernando Martins, é real, aconteceu e acontece com mais frequência do que se possa imaginar, infelizmente.
Os nomes dos envolvidos foram modificados.
Semana que vem, eu volto com as crônicas.
Boa leitura,

Fernando Evangelista




por Fernando Martins*

Os dois policiais dão o mesmo testemunho: “O delinquente estava caminhando, viu a viatura e saiu correndo. Fomos atrás e, ao revistá-lo, encontramos 10 papelotes de cocaína no bolso da calça”. O delegado se dá por satisfeito e manda trazer o jovem, detido numa das celas da delegacia.

O rapaz nega ser dono da droga. “Os policiais estão mentindo”, ele diz. O chefe da delegacia mantém o flagrante e ordena que ele fique preso. Um advogado presencia a cena, chama o delegado num canto e cochicha:

– O garoto está de bermuda e ela não tem bolso. Como ele poderia carregar drogas no bolso? Isso só pode ser brincadeira.

 Eu já estou com o flagrante fechado, ele vai continuar preso e se o doutor quiser que converse com o juiz – rebate o delegado.

Juliano da Silva, 23 anos, não tem passagem pela polícia, não tem apelido, e mora no morro do Mocotó, área central de Florianópolis. É negro, pobre e está desempregado. Ou seja, na visão da polícia e de grande parte da sociedade, é um elemento altamente suspeito.

Juliano é filho de dona Clotilde, faxineira de 54 anos, que cuida sozinha de seis rebentos. O marido deu no pé e nunca mais apareceu. O sonho de Juliano é, um dia, ganhar bastante dinheiro e ajudar a mãe e os irmãos a sair da vida de miséria.

O “flagrante” ocorreu às 22h de uma sexta-feira. Os fatos:

Juliano desce o morro para fazer um lanche com os amigos, que o aguardam num barzinho do centro. Durante o trajeto, na Avenida Gustavo Richard, bem próximo ao Fórum, uma viatura policial para ao seu lado. Dois militares descem, um deles aponta a arma para o jovem, o manda colocar as mãos na cabeça e virar de costas.

Os militares exigem informações sobre um traficante. Seguindo as regras de quem mora em locais comandados pelo tráfico, Juliano diz não saber de nada. Os policiais insistem. Ele não fala. Então, irritados, a PM o joga na viatura e diz que ele terá que se explicar sobre os papelotes de cocaína.

 Cocaína. Qual cocaína? – ele quer saber.

O jovem mantém a calma, acha que tudo vai se resolver. Na delegacia, é levado direto para uma das celas, onde estão outros presos.

Um dos policiais liga para um repórter, velho conhecido. Em pouco tempo, a equipe de reportagem está na delegacia. São recebidos com sorrisos e abraços calorosos. Tomam um café e pedem para fazer imagens dos papelotes de cocaína. São dez papelotes, já cuidadosamente organizados na mesa do delegado.

Os militares dão as informações e destacam a importância da polícia no combate ao tráfico. O celular do repórter toca, é uma fonte comunicando a apreensão de uma grande quantidade de entorpecentes em outro ponto da cidade. Antes de ir embora, o jornalista pede para conversar com Juliano. Afinal, são as regras da profissão: é preciso ouvir o outro lado. É preciso ser imparcial.

O cinegrafista liga a câmera, o PM abre a cela e o repórter, com pressa, inicia a gravação:

 Em mais um excelente trabalho, a PM catarinense fecha o cerco ao tráfico de drogas e tira de circulação Juliano da Silva, mais conhecido como Morcego. Ele estava com 10 papelotes de cocaína. Vamos conversar com ele. Onde você ia levar essa droga?

– Não sei de nada, não senhor – responde o rapaz, cabeça baixa, voz quase inaudível.

O repórter fala algumas coisas e encerra a matéria. Com a câmera desligada, diz: “É sempre assim, nunca sabem de nada. Vai ficar em cana para refletir e aprender a lição”.

Já na manhã de sábado, o auto de prisão em flagrante chega às mãos do Juiz que, crendo como corretas as informações declaradas pelo delegado, mantém o flagrante e denuncia Juliano por tráfico de drogas.

O suposto traficante terá que aguardar o julgamento preso. O advogado, ao ver que Juliano não teria como pagar os serviços, decide não defendê-lo. Preso na delegacia há mais de cinco meses, Juliano recebe um advogado da defensoria dativa. Ainda não havia sido instalada a Defensoria Pública em Santa Catarina, último Estado da Federação a implementá-la.

Sem olhar direito para o rosto do jovem, o advogado, analisando o inquérito, orienta:

 Os caras te pegaram, o melhor é confessar. Confessa que a droga é sua, e como você não tem passagem pela polícia, como você já ficou preso cinco meses, eu consigo que tu saias em, no máximo, três meses. Você concorda?

– Mas a droga não é minha.

 Você é que sabe. A vida é sua. Eu tenho experiência e sei que, neste caso, é melhor confessar. Ele concorda com o advogado.

Exatamente um ano depois daquela sexta-feira, Juliano continua preso, à espera do julgamento.

Fernando Martins é jornalista, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Abdelmassih continua foragido. Estará no Líbano?

Condenado há um ano: o médico está foragido da justiça
Há 1 ano, completado hoje, o médico especializado em reprodução in vitro, Roger Abdelmassih, acusado de abusar sexualmente de 37 mulheres, era condenado a 278 anos de prisão.

Desde janeiro, no entanto, ele está foragido. Os crimes ocorreram entre 1995 e 2008 e todas as vítimas eram pacientes ou funcionárias de sua clínica de reprodução. O médico teve o registro profissional (CRM) cassado.

A história pitoresca do médico assusta. Além dos abusos sexuais, segundo a revista Época, "parte dos cerca de 8.000 bebês gerados na clínica de Abdelmassih não são filhos biológicos de seus país".

Em matéria da Folha de S. Paulo a Polícia disse que suspeita que "o foragido embarcou para o Líbano usando um passaporte falso conseguido no Uruguai."

Mesmo se lá estiver, o País não possui um tratado de extradição firmado o que dificultaria bastante traze-lo de volta.

Segundo o site Consultor Jurídico, a prisão do médico havia sido decretada em 17 de agosto de 2009 pelo juiz Bruno Paes Stranforini, da 16ª Vara Criminal paulista.

"No mesmo ano, em 24 de dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, concedeu Habeas Corpus para revogar a prisão preventiva. Em fevereiro deste ano, a 2ª Turma do STF suspendeu a liminar dada por Gilmar Mendes, por 3 votos a 2.

A prisão do médico já tinha sido decretada novamente no final de 2010, pela juíza Kenarik Boujikian Felippe, da 16ª Vara Criminal paulista."

Nesse meio tempo, entre o Habeas Corpus de Gilmar e sua condenação, o médico casou com  a procuradora Larissa Maria Sacco, 32, que o acompanha na fuga e está grávida de gêmeos, também segundo informações da Folha de S. Paulo.

Thiago Domenici

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma capa do Página 12

Uma capa do suplemento Radar do Página 12 argentino, ao lado, o qual não sei precisar a data, é de uma criatividade tremenda ao tratar da polêmica dos Skinheads. Jornalismo visual dos bons.
Diante de tantas manifestações racistas que inundam o Brasil há tempos - e agora na internet com uma voracidade cada vez maior - esse debate tão necessário sobre a homofobia, racismo e todos os tipos de preconceitos precisa aparecer mais na imprensa brasileira. Seja com reportagens, análises e campanhas. E não só quando existe algum "gancho" como agressões filmadas ou no recente episódio pró-Bolsonaro na Av. Paulista que colocou o tema na ordem do dia por algum tempo. Lá no Congresso, é sabido, está parado há anos uma lei que torna homofobia crime. O mesmo Congresso que "desfruta" da presença do deputado Bolsonaro. Espero que a lei seja aprovada um dia, mas até lá, quantos ainda morrerão em vão?

Thiago Domenici, jornalista
Web Analytics