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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 26 de março de 2014

É o que se pode chamar de "experimento homofóbico"

Assistir a esse vídeo é uma experiência das mais interessantes. De um lado, quinze homofóbicos assumidos. De outro, quinze homossexuais. Os encontros são reservados. A intenção em cena: um simples abraço. E, vejam vocês, a dificuldade em se conseguir o mais básico de uma troca humana.

O "experimento" é do canal The Gay Women Channel no YouTube. Selecione a legenda em Português para assistir.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Morte matada


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Assuntos sobram: o beijo de amor de Félix e Niko, o trágico e violento desaparecimento do cineasta Eduardo Coutinho (que dói em mim), o cinegrafista atingido mortalmente por um rojão durante uma manifestação no Rio, a filha de Woody Allen insistindo em acusá-lo de abuso sexual e pedofilia (ela espera ser ouvida, ele desmente tudo, mas acho muito importante prestar atenção quando alguém, qualquer pessoa, faz esse tipo de denúncia), médicos cubanos desertores, a patética e incansável torcida do contra, o prefeito de um município amazonense acusado de aliciar meninas para orgias sexuais, o crescimento exponencial da violência e da insegurança em Brasília e até mesmo a suposta crise conjugal de Obama e Michelle. E muitos mais.

Mas há um que se acavalou no meu cangote e fica ali cafungando seus acres vapores: os assassinatos de homossexuais, transexuais e travestis. Morrem atacados na rua, em suas casas e escolas porque são diferentes. Não uma diferença qualquer, mas uma diferençona bem grandona, que agride, ofende, incomoda mais que qualquer outra, ao que parece.

Enquanto milhões de espectadores se deleitavam com a tal cena do beijo gay na TV Globo, há alguns dias, outros milhões bufavam de raiva pela ousadia da cena. São os que acreditam poder parar o tempo. Ou que creem que a honra, a virtude e o caráter dependem da aparência condizente com o sexo biológico ou do uso certo ou errado que se faça da genitália. Gente que não entende nada, absolutamente nada, de amor, acolhimento, compaixão, compreensão, respeito. Alguns até acham que entendem, mas, para colocar suas virtudes em ação, exigem que os “diferentes” desistam de si mesmos e se tornem iguais a eles.

Se de fato amassem os “diferentes”, defenderiam sua vida e seu direito de vivê-la, independentemente de qualquer outra coisa. Não se calariam diante das centenas, talvez milhares de assassinatos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros que acontecem no nosso país todos os anos. Pessoas agredidas, humilhadas, expulsas das escolas, igrejas, famílias e comunidades. Pessoas que poderiam estar compartilhando conosco sua inteligência, capacidades, potencial intelectual e sensibilidade, mas são impedidas. Em muitos casos, sadicamente confinadas no mercado sexual, e discriminadas também por isto. São atacadas com ódio, desfiguradas, submetidas a “tratamentos” toscos. Assassinadas. Assassinados.

No último fim de semana, fui a um restaurante muito tradicional de Pirenópolis, aqui em Goiás, onde já estive inúmeras vezes. Havia lá um garçom antigo, sabidamente gay, que sempre atendia a todos com eficiência e cortesia, equilibrando bandejas enormes pelo salão. Notando sua ausência, perguntei por ele:

— O Fulano não está mais aqui?
— Ih, a senhora não sabia? O Fulano morreu.
— É mesmo? Puxa, que pena! Morreu de que?
— De morte matada.

* * * * * * 

 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ínfimo glossário contemporâneo 2


por Júnia Puglia Ilustração Fernando Vianna

Aborto – interrupção voluntária da gestação involuntária; é proibido, mas não adianta proibir, é feito assim mesmo, colocando em risco a vida de uma quantidade absurda de mulheres pobres; entendeu?

Bafômetro – engenhoca que mede, pelo bafo, a quantidade de álcool que habita o corpo da pessoa, mesmo que a própria não tenha bebido nada alcoólico, tadinha

Casamento civil – sociedade matrimonial cuja reputação andava em baixa, mas foi salva pelo movimento LGBT

CPI do Cachoeira – exuberante e copiosa cascata

Coreia do Norte – país asiático dirigido por uns sujeitos com cara de Playmobil que estão chamando os americanos para uma guerrinha nuclear; não tem a menor graça

Crossdressing – algo como “vestimenta contrária”, adotada por algumas pessoas que decidem concretizar a imagem de si mesmas que veem no espelho (ver “Laerte” abaixo); sacode neurônios até de quem os tem em mínima quantidade

Daniella Mercury – popstar baiana que dá show de coragem e integridade e ainda puxa o tapete de quem se ocupa da vida alheia

Dilma Bolada – minha Presidenta linda, chique, inteligente e competente

Elen Oléria – um sol brasiliense

Email – modalidade de comunicação digital em vias de extinção, por incrível que pareça a quem datilografava cartas com quatro cópias carbonadas há escassos 25 anos

Empregada doméstica – figura remanescente da escravidão, que foi extinta em 1888, pero no mucho (ver “madame” abaixo); definidora da sociedade brasileira como ela é; finalmente adquire o status de trabalhadora plena (!!!); o país tem com ela uma dívida incalculável

Família – papai-mamãe-filhinhos, papai-papai-filhinhos, mamãe-mamãe-filhinhos etc. etc. que se amem e se cuidem

Feliciano – furacão de estupidez, ignorância e grosseria que se situou no balcão de negócios da Câmara dos Deputados e não para de produzir catástrofes

Imunidade tributária – absurdo e abjeto privilégio de igrejas e instituições religiosas; por que elas e não você ou eu?

Lado a lado – um surto na teledramaturgia nacional; novela situada na década de 1900, mostrou as relações entre brancos e negros como elas são, com honestidade, clareza e sensibilidade; não podia ser mais atual; tudo que é bom dura pouco

Laerte – apenas o máximo

Madame – espécie em desespero com a possibilidade de ter que lavar as próprias calcinhas e assim detonar as unhas, entre outras terríveis ameaças que pairam no ar dos ambientes livres de escravas domésticas

Margaret Thatcher – amigona de Reagan e Pinochet; agora formam o Trio Parada Dura do sétimo inferno

Mimimi – mimimi mimimi mimimi

Nelson Mandela – meu grande e único herói

Relação homoafetiva – politicamente correto e muito pedante

Tomate – falsa leguminosa originária do México, essencial na culinária de muitos países; recentemente promovida a caviar no Brasil

TopBlog 2012 – prêmio brasileiro para blogs supermega duca

Yoani Sanchez – quem?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

 Leia também: Ínfimo glossário contemporâneo 1

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Evasão de privacidade!



por Cidinha da Silva*

Gostou do título? Chamou sua atenção, não foi? Achou criativo. Uma sacada inteligente, não é? Também achei, mas não é meu, não! É de José Wilker. Foi ele quem definiu de maneira ferina e feliz a prática das celebridades de fazerem de sua intimidade um reality show.

Aquele negócio de chamar os paparazzi para fotografar um encontro secreto com o novo affair, mas pautá-los antes, explicando que o casamento antigo ainda não acabou, mas há uma crise e, a expectativa da fotografada é que a publicização de uma nova possibilidade afetiva via veículos especializados em devassar a vida alheia, sensibilize o parceiro antigo para devotar a ela mais atenção e presentes. Aviso importante: é só para insinuar, criar um clima, pois a celebridade é mulher de família e quer manter o casamento.

Tem também o esquecido garotão musculoso, que sai da água do mar quase abandonado pela sunga e faz poses de halterofilista displicente, tudo previamente acordado com um paparazzi. O objetivo da performance é se mostrar para o autor da novela. Se der certo o fotógrafo ainda leva um troco e mais do que isso, ganha prioridade para clicar os novos centímetros de bíceps e adutores acrescidos ao corpitcho depois de dedicada malhação.

O problema agora é forçarem a barra para que as mulheres que amam mulheres e têm declarado isso publicamente também o façam. Será um tal de perguntar com microfone aberto o que duas lésbicas fazem na cama... mas quanto a isso é fácil adiantar a resposta, sugerida como padrão. Elas lêem, suspendem as pernas para tonificar a panturrilha e ajudar o retorno venoso, vêem TV, uma opera o smartphone enquanto a outra faz tricô. Brigam com as crianças que pulam na cama delas com os pés sujos, conversam, trocam carinho, namoram também, como fazem por toda a casa.

Invasão de privacidade nem sempre é evitável, mas a evasão o é, e evitá-la, doravante, fará parte das guerras a vencer para conquistar um pouco de paz.

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.
(Imagem: La dolce vita do cineasta Federico Fellini)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nota sobre Feliciano como presidente da CDHC


por Cidinha da Silva*

O tempo e a movimentação da notícia na Internet são vorazes e dilacerantes. E ninguém quer ser engolido. Todos os que navegam pelo cyberespaço tentam emitir uma opinião original, autoral, sobre o tema da página de rosto naquele minuto, naquele segundo. Na pressão de dizer qualquer coisa, muita gente se perde e transforma coisas de fundo em questões pontuais e vice-versa.

Face à avalanche de notícias sobre Marco Feliciano, deputado sabidamente racista, homofóbico e misógino, eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDHC), apareceram pessoas dizendo que o movimento Fora Feliciano transformou um quase nada em pop star. Típica compreensão de quem troca uma questão de fundo por algo superficial, de quem tem necessidade de oferecer uma opinião divergente com o objetivo de conquistar algum espaço ou seguidores.

Uma coisa é a percepção de que o mar da Web tem ondas e tem um pessoal que só se movimenta na crista. Se quem está no topo das demonstrações homofóbicas é Cláudia Leite, com o filho que não será gay porque será bem educado, vamos a ela. Se é Joelma afirmando que os gays podem ser recuperados tal qual os dependentes químicos, a ela. Se é Feliciano com seu vasto leque de imbecilidades perigosíssimas, a ele. Faz-se muita espuma e pronto. Com as denúncias de racismo, de violência contra a mulher e outras, também ocorre o mesmo. Mas mesmo esse movimento sazonal tem valor, é bom considerar, pois é sinal de que alguma movimentação acontece na terra, para além do burburinho do mundo da fofoca e das celebridades.

Outra coisa é compreender os movimentos internos do mar provocadores das ondas, aquilo que acontece antes da produção da espuma. Os níveis profundos da água que mantêm-se intactos à ação de um tsunami.

O movimento pela queda de Feliciano abriga questões de fundo, a saber:

1 – Escancara os acordos espúrios dos partidos políticos em busca de poder no Congresso e as estratégias condenáveis para sustentá-lo a qualquer custo (partidos de esquerda preferiram comissões mais importantes e relegaram a de direitos humanos ao PSC, que, por sua vez, indicou Feliciano para presidi-la).

2 – Traz a público para muita gente boa que vive no país de Alice, a crueza, a tacanhice e o perigo do processo de lobotomia e especulação financeira, dentre outros males, que gente como Feliciano realiza com pessoas que a gente boa considera desprezíveis e descartáveis na sociedade de consumidores, celebridades e gente “pensante”.

3 – Coloca nas primeiras páginas dos jornais o projeto político em curso de teocratização do Estado e exploração da fragilidade humana por meio da construção de uma fé que alicia pessoas pouco críticas e muito desesperadas, desesperançadas.

4 – Possibilita o debate agregado de temas como homofobia, racismo, misoginia, laicidade do Estado, mostrando sua operacionalidade conjunta em detrimento de direitos humanos e de cidadania, e em benefício da perpetuação do escárnio virulento à diversidade humana.

5 – Abre espaço para que os setores progressistas e pró-diversidade do segmento evangélico manifestem-se com um não rotundo ao atraso e à canalhice representados por Feliciano.

6 – Abre o debate público sobre a atuação da bancada evangélica, a mais ausente, inexpressiva e processada. Todos (a transparência Brasil disse TODOS) os deputados que a compõem respondem a processos judiciais. 95% deles figuram na lista dos mais faltosos às sessões de trabalho. Registre-se que na última década não houve um só projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um parlamentar evangélico.

7 – Um deputado que pede a um fiel de sua igreja a senha do cartão eletrônico para debitar diretamente o dízimo, para quem não existe necessidade de uma lei punitiva para as práticas homofóbicas, pois, nesse diapasão, precisaríamos também de leis para punir a discriminação ao “caolho” e ao “banguelo” (expressões usadas por ele), não pode presidir uma pasta de direitos humanos, porque sua prática e discurso contradizem a essência mesma do que sejam direitos humanos. É um acinte aos direitos humanos admitir que o presidente da comissão parlamentar dedicada ao tema ignore um assassinato de pessoa LGBT a cada 26 horas no Brasil.

É em nome disso e muito mais que a sociedade civil se levantou contra esse sujeito. Contra tudo de autoritário, retrógado e desumano encarnado por sua figura rastaquera. Portanto, não se trata de promover um Zé ninguém a pop star, como os marinheiros de primária viagem têm dito por aí.

O movimento Fora Feliciano (composto por diversas motivações e personalidades, como todo movimento social) é uma reação libertadora, autoral e saudável ao risco nefasto de sucumbirmos como seres humanos ao aceitar, calados e impassíveis, a presença dessa besta do atraso na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, como simples sub-produto de um jogo político sujo.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Os amigos do Apolinario

O projeto do vereador Carlos Apolinario (DEM) foi aprovado por outros vereadores na lista abaixo. Será que vão dizer que assinaram sem ler? Ou todos eles querem o dia do Orgulho Hétero (no terceiro domingo de dezembro), como propõe o parlamentar?


Essa barbaridade - tem nome melhor? - ainda vai para o prefeito Kassab que, se pesar o mínimo de inteligência, vai barrar a proposta. Apolinario, só para constar, também foi favorável a outra barbaridade recente: os incentivos fiscais ao Fielzão, estádio que pode abrir a Copa de 2014. E se você quiser entender as posições do vereador, leia texto do próprio, publicado em seu site cujo título é "Não sou homofóbico".

Para quem está por fora do assunto do tal dia Hétero indico dois textos que vão ajudar a compreender melhor os fatos.  O primeiro é de Natalia Mendes no seu blog TodasNós, intitulado "Orgulho nenhum de ser hétero". E o outro é do sempre lúcido Leonardo Sakamoto, intitulado, "Que vergonha de ser hétero".
Os amigos do Apolinario 
Adilson Amadeu (PTB)
Agnaldo Timóteo (PR)
Aníbal de Freitas (PSDB)
Antonio Carlos Rodrigues (PR)
Atílio Francisco (PRB)
Aurélio Nomura (PV)
Carlos Apolinario (DEM)
Celso Jatene (PTB)
Claudinho de Souza (PSDB)
Dalton Silvano (sem partido)
David Soares (PSC)
Domingos Dissei (DEM)
Edir Sales (DEM)
Floriano Pesaro (PSDB)
Gilson Barreto (PSDB)
José Police Neto (sem partido)
José Rolim (PSDB)
Marta Costa (DEM)
Milton Ferreira (PPS)
Milton Leite (DEM)
Noemi Nonato (PSB)
Paulo Frange (PTB)
Quito Formiga (PR)
Ricardo Teixeira (sem partido)
Russomano (PP)
Sandra Tadeu (DEM)
Souza Santos (sem partido)
Tião Farias (PSDB)
Toninho Paiva (PR)
Ushitaro Kamia (DEM)
Wadih Mutran (PP)
Ao lado deste post, temos uma enquete em andamento sobre o tema. Hum, ia esquecendo. No site do Apolinario está rolando outra enquete, sobre ser a favor ou contra o casamento gay. "A favor" vai ganhando de lavada: 71.12%.

Thiago Domenici, jornalista

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Primeiro casamento entre mulheres da história da América do Sul

O Superior Tribunal de Justiça deu uma tremenda bola dentro ao decidir, de forma inédita e unânime, a legalidade da adoção de duas crianças por um casal homossexual da cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul. Agora, os menores adotados por mulheres terão no documento o nome das duas mães. "Não se pode supor que o fato de os adotantes serem duas mulheres possa causar algum dano (à formação das crianças). Dano ao menor seria a não adoção", disse o ministro João Otávio de Noronha, presidente da 4.ª Turma, ao jornal Estado de S. Paulo.
A decisão deve influenciar outras que pipocarem pelo país, o que eleva o debate a outro patamar, digamos, menos homofóbico. Por falar no tema, nosso colega de Nota de Rodapé, João Peres, foi a Argentina recentemente e fez uma série de matérias sobre o primeiro casamento entre mulheres da história da América do Sul. Intitulada "A várias vistas", os textos abordam a história de Norma Castillo e Romana Arévalo, ambas com 67 anos, que casaram-se em abril deste ano, em Buenos Aires, depois de 30 anos de vida conjunta. Mas como o próprio João escreveu, "nem tudo são flores nessa história, e ainda deve haver mais resistência à oficialização do casamento." Leia mais na Rede Brasil Atual.

Documentário da HBO
Um outro lado daqueles que discriminam os homossexuais.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

AudioPé #2 de Jeremias Morcegão

Jeremias Morcegão e Thiago Domenici falam sobre a homossexualidade no Exército brasileiro no segundo AudioPé, o podcast do Nota de Rodapé.





Jeremias Morcegão
é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
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