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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O enigma de Kaspar Hauser


Um colóquio sobre as relações humanas, o corpo e o amor

por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, Alemanhã. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o padre da paróquia local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um homem com a capacidade de amar.

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero aprender o que é o amor.”

Soube-se mais tarde (quando ele aprendeu a falar) que uma pessoa, que Kaspar não conheceu, era seu mantenedor enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia.

Acolhido na paróquia, logo o padre se ocupou de iniciar sua socialização. Com o tempo, aprendeu a falar. Mesmo a linguagem não lhe permitia capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Sua dificuldade de comunicação era imensa, já que não tinha referencial emocional e afetivo. Logo vieram as primeiras lições sobre o amor, vindas do padre que o tutelava:

– Kaspar, o amor é algo ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Esse foi o exemplo do nosso mestre, Jesus. Bem-aventurado é aquele que ama seu amigo “em” Deus, assim como seu inimigo por amor a ele também. E não se esqueça, quem semear da carne, da carne colherá corrupção, quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

Kaspar Hauser se sentia confuso. Como representar figuras tão abstratas como Deus, espírito, eternidade, amor? Como desprezar seu próprio corpo se tudo o que podia conhecer até então eram resquícios mentais e afetivos de necessidades extremamente corporais como a fome, a dor, os impulsos sexuais e agressivos.

A incapacidade de comunicação e o nível de abstração exigido foram barreiras intransponíveis. Ao sucumbir da tarefa e na esperança de mais sucesso o padre enviou Kaspar, com uma nova carta de recomendação, para um cientista amigo chamado Rene, que recebeu o jovem com o seguinte discurso:

– Não se preocupe, nada escapa ao olhar da ciência, tudo que temos a fazer é encontrar uma metodologia adequada para investigarmos as causas desse fenômeno em questão. Antes me responda: após ter passado certo tempo na paróquia, como se sente? E o que pôde aprender?

Kaspar ficou em silêncio, mas não somente por sua dificuldade de falar e se expressar. Com esforço, ousou dizer:

– Sr Rene, o padre da paróquia foi muito gentil em me acolher e me explicou muitas coisas sobre quem criou o mundo e todas as criaturas, além disso, explicou coisas importantes sobre o amor e sobre quem sou, porém ainda não pude experimentar tal sentimento. Mas a experiência na paróquia não foi de todo mal, aprendi o que é o medo e hoje sou temente a Deus, além disso, sei que meu corpo pode ser um grande inimigo na busca do amor verdadeiro.

– Hora Kaspar, não leve isso tudo tão a sério, afinal, o que não pode ser demonstrado nada mais é do que um exercício de fé. Veja, talvez nosso corpo não seja esse grande vilão, tudo que temos a fazer é submetê-lo aos comandos da razão. Nosso corpo é uma máquina perfeita Kaspar, e pode estar aí a causa de todos os seus problemas, pois um sentimento como o amor também depende de uma produção orgânica e cerebral.

– Sr Rene, mas por quais razões Deus teria me criado com defeito?

– Talvez Deus não tenha nada a ver com isso Kaspar, você foi muito mal cuidado ao nascer. Lembre de quando comentei que para todo efeito há uma ou mais causas, então, talvez a formação de seu cérebro tenha sido prejudicada pelos maus cuidados.

Ao ouvir essas palavras Kaspar sentiu algo que, até então, não havia experimentado. Seu corpo se encheu de energia, seus caninos saltaram aos olhos do cientista, suas mãos se colocaram em posição agressiva e tudo que o Sr. Rene pode fazer foi nomear tal experiência para o conhecimento de Kaspar:

– Isso o que você está sentindo agora chamamos de raiva.

Logo em seguida, a imagem do padre da paróquia se apoderou da mente de Kaspar, seu corpo teve outra reação, dessa fez freando seus movimentos e produzindo nele uma espécie de apatia. Surgia nele a culpa, um novo sentimento a ser nomeado.

– Sr Rene, quer dizer que tenho um defeito no cérebro causado por outra pessoa e por isso não posso amar? O Sr. Seria capaz de concertar minha cabeça? O cientista sorriu ao observar tamanha ingenuidade e decidiu então enviá-lo para um amigo psicanalista. Quem sabe a ressignificação das experiências passadas não seria algo mais útil.

E lá foi Kaspar com mais uma carta de recomendação bater na porta do consultório do Sr. Sigmund. Na carta o cientista detalhava toda a sua trajetória incluindo suas últimas experiências. Ao lê-la com cuidado e atenção, Sigmund começou sua explanação:

– Veja Kaspar, todo discurso que assume um estatuto de verdade absoluta pouco pode dizer sobre o amor. A experiência do amor responde sempre a categorias como a contradição, a dúvida, o imponderável.

O Sr. Sigmund interrompeu seu discurso ao observar a expressão de angustia em Kaspar:

– O Sr. está querendo me dizer que quando amamos não possuímos garantia de nada, ficamos vulneráveis? Nesse caso, por quais razões escolhemos amar alguém?

– Jamais sabemos ao certo Kaspar, porém, dentro do que venho observando em minhas pesquisas, escolhemos alguém para atualizar e dar sentido às primeiras relações amorosas infantis. O amor não é um sentimento inato, é preciso aprender a amar a partir da experiência com aqueles que nos amam e, para tanto, é preciso a vitória parcial sobre dois inimigos, o medo e a culpa.

Ao ouvir o dr. Sigmund, Kaspar sentiu desespero, pois algo lhe dizia que a possibilidade de se humanizar seria inalcançável. Tempos depois, Kaspar foi encontrado morto. Nada souberam sobre os motivos de sua morte (se assassinato ou suicídio). No cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição na lápide de Kaspar assinada por um desconhecido que diz: “Aqui jaz um desconhecido”. De fato, nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

O FILME

O texto foi inspirado no filme alemão de 1974, Jeder für sich und Gott gegen alle (O Enigma de Kaspar Hauser, na versão brasileira), do diretor Werner Herzog. O filme narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século 19. O filme fez parte da competição para a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1975), onde ganhou três prêmios. Abaixo, a versão completa e legendada em português.



* * * * * * * *

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma vergonha que nos une

Mona Lisa sem seu encatador sorriso e com o olho roxo no
cartaz de um concurso europeu sobre violência contra a
mulher. O autor é Luis Silva, de Portugal.
Há pouco mais de dois meses moro em Salamanca, uma cidade universitária espanhola de cerca de 150 mil habitantes onde a violência é coisa rara. “Mais tranquila que o pátio de um convento de freiras”, definiu um amigo colombiano.

Para quem vem de Bogotá (como ele) ou de São Paulo (como eu), viver aqui é um agradável exercício diário de desconstruir algumas paranoias. Entre elas, a do perigo das madrugadas. Em qualquer dia da semana é comum garotas caminharem sozinhas, saídas das discotecas rumo a suas casas.

A possibilidade de acontecer algum tipo de violência com elas é quase a mesma de que caia um meteoro em suas cabeças.

Mas na semana passada, nem bem o relógio marcava nove da noite, a calma da cidade foi interrompida por um homem de 66 anos, que “armado” de um machado, atacou sua companheira (dois anos mais velha que ele) a poucos metros da praça central.

Dizem as testemunhas que a senhora só não foi morta no ato porque um herói anônimo (que acabou ferido) conseguiu dominar o agressor que não tinha passagem pela polícia. Ela está na UTI.

A Espanha, em geral, é um país que não padece da violência que nós, os latino-americanos, sofremos diariamente. A maior causa de morte no país é o câncer e não traumas causados por balas ou acidentes de carro. Ver alguém armado, ler sobre ataques a bancos ou assaltos a casas não é algo corriqueiro nem mesmo nas cidades grandes – ainda que esse tipo de violência venha crescendo nos últimos tempos.

Recordo uma pequena discussão que aconteceu na Colômbia durante uma oficina de jornalismo que participei. Uma colombiana, um pouco brava com os comentários duros do professor, um espanhol, o acusou (e citou a Espanha toda) de ser grosso, mal-educado.

há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

A resposta dele, meio em tom de brincadeira e algo de sarcasmo, foi de que ela tinha razão, que os espanhóis se desentendiam por tudo, falavam alto, mas não eram como esse gente “amável” que se mata nas ruas depois do segundo copo de bebida. Fazia referência à banalização da solução pela bala que impera em muitos países do nosso continente.

No entanto, há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

Na sexta-feira foi celebrado o dia contra a violência de gênero. O jornal El País compilou todas os homicídios que noticiou neste 2011 relacionados ao assunto. São 54 relatos que têm muito pouco em comum além da covardia praticada por homens contra suas companheiras (ou ex).

O perfil das vítimas e dos assassinos é variado, democraticamente dividido entre classe social, idade – a mais jovem das mortas tinha 18 anos e a mais velha passava dos 70 – e nacionalidade.

Espanholas, brasileiras, chinesas, suecas, italianas, colombianas, bolivianas, peruanas que sucumbiram após serem atacadas a golpes de facas, canivetes ou qualquer objeto capaz de ferir (o uso de armas de fogo é raro).

Em muitos dos casos não “bastava” aos agressores matar, queriam desfigurar suas vítimas, botar fogo em seus corpos, destruí-las.

Diferentemente da maioria dos países da América Latina a Espanha tem um sistema jurídico e uma polícia que funcionam bastante bem. Tem leis que protegem a mulher (como a Maria da Penha, no Brasil), canais efetivos de denúncias e muitas campanhas contra a violência de gênero.

Ainda assim, as agressões e ameaças persistem.

Chama a atenção nos relatos do El País que a grande maioria dos agressores foram presos minutos depois do ato praticado. Muitos deles inclusive ligaram para a polícia avisando que haviam cometido um crime e/ou esperaram pacientemente a chegada das autoridades.

A fama de “macho latino-americano”, a violência epidêmica e a certeza da impunidade poderiam explicar, em parte, porque essa prática primata de se agredir a uma mulher ainda persiste em muitos países da América Latina.

Mas como justificar que em lugares onde nenhum desses fatores acima citados se aplicam ainda existam tantos casos de homens que, por não aceitar que o amor acaba, agridem e matam?

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e do Purgatório

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Concurso pra acabar com a sacanagem coletiva?

Você conecta sua webcam e é direcionado a conversar com outro internauta, em qualquer parte do mundo, de maneira aleatória. Não gostou da cara do sujeito: “next” nele e você será direcionado para outra pessoa. Sem rastros, é muito provável que você nunca mais veja aquele ser humano. Esse é o site de bate-papo aleatório por vídeo Chatroulette, que virou febre nos EUA e em parte da Europa. Poucos meses depois do lançamento, mais de 50 mil acessos por dia ultrapassando, algumas vezes, 1 milhão - uma audiência considerável.
Fora a questão de como a sociedade se reflete em suas técnicas e ferramentas, levando à popularização um site que prioriza a relação descartável e de aparências, sua graça para adeptos é justamente se conectar com anônimos sem expor sua real identidade – e, convenhamos, isso tem lá sua graça.
Até aí nada de novo. Pesquisas indicam que o site é dividido em 3 públicos: homens (imensa maioria), mulheres e pervertidos. E é o último grupo que está dando problema. Mais de 10% dos usuários do site são homens “pervertidos”, numa verdadeira exposição de membros, masturbação e obscenidades. Mas apesar de grande (sem trocadilhos) este movimento não representa a maioria dos usuários e tem incomodado os outros usuários, tanto que a publicação Business Insider lançou um concurso em março, o Solve Chatroulette's Penis Problem And Help It Make Billions And Billions Contest (numa tradução livre Resolva o Problema de Pênis do ChatRoulette e Ajude a Fazer Bilhões e Bilhões de Debates). A proposta era eleger a melhor ideia para acabar com o “problema do pênis” no site. Dá pra ver a sugestão vencedora aqui. (em inglês).

Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do Nota de Rodapé
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