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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Inventos


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Esta crônica é sobre “Ela”, filme dirigido por Spike Jonze, que recentemente concorreu ao Oscar. A quem pretende assistir e não gosta de saber detalhes do que vai ver (como eu), recomendo parar a leitura por aqui.

O escritor Theodore tem uns quarenta anos e vive em Los Angeles, num futuro não muito distante, no qual a tecnologia digital já caminhou umas duas ou três décadas além de como a conhecemos hoje. Uma das características dessa evolução é o fato de que todos os comandos dados a um equipamento digital são feitos pela voz. Já não há teclados, nem ratos, nem mesmo telas de toque, pois os equipamentos também falam com os usuários.

Theodore faz um trabalho no mínimo curioso: redige, numa empresa que se dedica a produzir cartas “manuscritas” sob encomenda. Com base nos dados fornecidos pelos clientes, profissionais elaboram os textos, que são ditados ao computador e impressos em papel com caligrafia humana. Uma espécie de resgate nostálgico da antiga forma de comunicação escrita por extenso, que levava e trazia emoção pra todo lado e demorava pra chegar.

Nosso redator é um sujeito solitário, amargurado com o fim do seu casamento, ao ponto de se recusar a formalizar o divórcio. As cartas dos clientes são uma bela maneira de exercitar sua sensibilidade sem interação – algo que nos nossos dias já vem sendo adotado por muita gente que, graças às redes sociais, jogos em realidade virtual e outros recursos tecnológicos, elimina o incômodo ou as dificuldades de conversar e se relacionar com pessoas de carne, ossos e neurônios.

Movido por um anúncio publicitário, ele adquire um novo sistema operacional para o seu computador, um produto revolucionário, apresentado como intuitivo, que se amoldaria a cada usuário, como se se tornasse, mais que personalizado, individual. A partir do momento em que Theodore inicia a instalação, o sistema se apresenta como Samantha, uma voz cheia de brilho e cor, que já chega com uma conversa fácil, sensível e espirituosa. Em duas palavras, irresistivelmente sedutora. Acontece o inevitável: em pouco tempo, o solitário carente se apaixona por Samantha, que entra no clima e corresponde.

Ela não podia ser mais perfeita: disponível em tempo integral, suave, divertida, encantadora, sem qualquer sinal de insatisfação, tédio, mau hálito, TPM, dor de cabeça, mau humor, cansaço ou cobranças de qualquer espécie. Só lhe falta um corpo, mas nem tanto assim. A incondicionalidade compensa esta limitação, com vantagens. Theodore está nas nuvens, tanto que toma a iniciativa de propor à ex-mulher a assinatura imediata dos papéis do divórcio, como um atestado da sua recuperação emocional.

Essa perfeição toda vai às mil maravilhas, mas no caminho da paixão virtual há uma atualização a ser baixada, o que faz Samantha desaparecer de repente, causando em Theodore um pânico poucas vezes visto em telas românticas. Quando volta, devidamente atualizada, e tem que responder às perguntas atropeladas do amado, este se dá conta de que sua “Samantha” está vivendo romances semelhantes, intuitivos e personalizados, com centenas de outros usuários. Mas ela garante que com ele é diferente, é verdadeiro etc. etc. Pouco tempo depois, uma nova versão do sistema operacional a sepulta para sempre no mesmo vazio que algum dia acolheu os MS-DOS da vida.

Pobre Theodore. Sua dor é infinita. Como abrir mão da namorada perfeita, que nunca iniciou uma DR nem reclamou de nada? Como lidar com a constatação de que a compartilhava com um monte de gente? Mais do que isto, como aceitar que ela de fato não existia, se a paixão que ele sentia era verdadeira, profunda e correspondida? E a paixão não consiste precisamente em inventar a pessoa amada?

* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O enigma de Kaspar Hauser


Um colóquio sobre as relações humanas, o corpo e o amor

por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, Alemanhã. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o padre da paróquia local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um homem com a capacidade de amar.

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero aprender o que é o amor.”

Soube-se mais tarde (quando ele aprendeu a falar) que uma pessoa, que Kaspar não conheceu, era seu mantenedor enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia.

Acolhido na paróquia, logo o padre se ocupou de iniciar sua socialização. Com o tempo, aprendeu a falar. Mesmo a linguagem não lhe permitia capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Sua dificuldade de comunicação era imensa, já que não tinha referencial emocional e afetivo. Logo vieram as primeiras lições sobre o amor, vindas do padre que o tutelava:

 Kaspar, o amor é algo ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Esse foi o exemplo do nosso mestre, Jesus. Bem-aventurado é aquele que ama seu amigo “em” Deus, assim como seu inimigo por amor a ele também. E não se esqueça, quem semear da carne, da carne colherá corrupção, quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

Kaspar Hauser se sentia confuso. Como representar figuras tão abstratas como Deus, espírito, eternidade, amor? Como desprezar seu próprio corpo se tudo o que podia conhecer até então eram resquícios mentais e afetivos de necessidades extremamente corporais como a fome, a dor, os impulsos sexuais e agressivos.

A incapacidade de comunicação e o nível de abstração exigido foram barreiras intransponíveis. Ao sucumbir da tarefa e na esperança de mais sucesso o padre enviou Kaspar, com uma nova carta de recomendação, para um cientista amigo chamado Rene, que recebeu o jovem com o seguinte discurso:

 Não se preocupe, nada escapa ao olhar da ciência, tudo que temos a fazer é encontrar uma metodologia adequada para investigarmos as causas desse fenômeno em questão. Antes me responda: após ter passado certo tempo na paróquia, como se sente? E o que pôde aprender?

Kaspar ficou em silêncio, mas não somente por sua dificuldade de falar e se expressar. Com esforço, ousou dizer:

 Sr Rene, o padre da paróquia foi muito gentil em me acolher e me explicou muitas coisas sobre quem criou o mundo e todas as criaturas, além disso, explicou coisas importantes sobre o amor e sobre quem sou, porém ainda não pude experimentar tal sentimento. Mas a experiência na paróquia não foi de todo mal, aprendi o que é o medo e hoje sou temente a Deus, além disso, sei que meu corpo pode ser um grande inimigo na busca do amor verdadeiro.

 Hora Kaspar, não leve isso tudo tão a sério, afinal, o que não pode ser demonstrado nada mais é do que um exercício de fé. Veja, talvez nosso corpo não seja esse grande vilão, tudo que temos a fazer é submetê-lo aos comandos da razão. Nosso corpo é uma máquina perfeita Kaspar, e pode estar aí a causa de todos os seus problemas, pois um sentimento como o amor também depende de uma produção orgânica e cerebral.

 Sr Rene, mas por quais razões Deus teria me criado com defeito?

 Talvez Deus não tenha nada a ver com isso Kaspar, você foi muito mal cuidado ao nascer. Lembre de quando comentei que para todo efeito há uma ou mais causas, então, talvez a formação de seu cérebro tenha sido prejudicada pelos maus cuidados.

Ao ouvir essas palavras Kaspar sentiu algo que, até então, não havia experimentado. Seu corpo se encheu de energia, seus caninos saltaram aos olhos do cientista, suas mãos se colocaram em posição agressiva e tudo que o Sr. Rene pode fazer foi nomear tal experiência para o conhecimento de Kaspar:

 Isso o que você está sentindo agora chamamos de raiva.

Logo em seguida, a imagem do padre da paróquia se apoderou da mente de Kaspar, seu corpo teve outra reação, dessa fez freando seus movimentos e produzindo nele uma espécie de apatia. Surgia nele a culpa, um novo sentimento a ser nomeado.

 Sr Rene, quer dizer que tenho um defeito no cérebro causado por outra pessoa e por isso não posso amar? O Sr. Seria capaz de concertar minha cabeça? O cientista sorriu ao observar tamanha ingenuidade e decidiu então enviá-lo para um amigo psicanalista. Quem sabe a ressignificação das experiências passadas não seria algo mais útil.

E lá foi Kaspar com mais uma carta de recomendação bater na porta do consultório do Sr. Sigmund. Na carta o cientista detalhava toda a sua trajetória incluindo suas últimas experiências. Ao lê-la com cuidado e atenção, Sigmund começou sua explanação:

 Veja Kaspar, todo discurso que assume um estatuto de verdade absoluta pouco pode dizer sobre o amor. A experiência do amor responde sempre a categorias como a contradição, a dúvida, o imponderável.

O Sr. Sigmund interrompeu seu discurso ao observar a expressão de angustia em Kaspar:

 O Sr. está querendo me dizer que quando amamos não possuímos garantia de nada, ficamos vulneráveis? Nesse caso, por quais razões escolhemos amar alguém?

 Jamais sabemos ao certo Kaspar, porém, dentro do que venho observando em minhas pesquisas, escolhemos alguém para atualizar e dar sentido às primeiras relações amorosas infantis. O amor não é um sentimento inato, é preciso aprender a amar a partir da experiência com aqueles que nos amam e, para tanto, é preciso a vitória parcial sobre dois inimigos, o medo e a culpa.

Ao ouvir o dr. Sigmund, Kaspar sentiu desespero, pois algo lhe dizia que a possibilidade de se humanizar seria inalcançável. Tempos depois, Kaspar foi encontrado morto. Nada souberam sobre os motivos de sua morte (se assassinato ou suicídio). No cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição na lápide de Kaspar assinada por um desconhecido que diz: “Aqui jaz um desconhecido”. De fato, nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

O FILME

O texto foi inspirado no filme alemão de 1974, Jeder für sich und Gott gegen alle (O Enigma de Kaspar Hauser, na versão brasileira), do diretor Werner Herzog. O filme narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século 19. O filme fez parte da competição para a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1975), onde ganhou três prêmios. Abaixo, a versão completa e legendada em português.



* * * * * * * *

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera


por Ricardo Sangiovanni*

 Faz tempo que não falo de amor nesta tribuna. E sendo os escritos de amor campeões de audiência deste blog – e de todos os mais que possam haver – , fica de saída comprovada a proposta anti-populista de minha atuação neste espaço.

Mas é que faz tempo mesmo que não falo de amor, nem aqui nem em conversas de mesa de bar ou de beira de cozinha por aí.

Isso – não fui sempre assim – é de uns anos para cá. Já enchi os ouvidos de muita gente que me quer bem com lamentos angustiados e odes românticas, imprecações veementes e declarações derramadas, e sobretudo com uma porção de teorias sobre ser o amor isso ou aquilo ou aquilo outro.

Aliás, espanando a memória, recordo que esse negócio de amor já amolou muito meu coração nessa vida.

Comecei cedo a me importar com isso, aos nem bem sete anos, com um amor platônico que me consumiu os quatro anos do primário na escola. Era uma coleguinha diante da qual me sentia completamente abestalhado. O máximo que consegui foi que um dia déssemos as mãos – não por investida minha, senão por um sorteio que nos colocou lado a lado em uma caminhada pelo Sete de Setembro, ou era o Dia da Árvore, já não lembro.

Fui salvo de tamanha consumição quando passamos para o ginásio, e a menina mudou de escola. Mas, logo no ano seguinte, arranjei outra musa, que por fim consegui, depois de três anos de tenaz e secreta admiração, namorar por alguns meses. Ela me disse que me amava, e logo depois me deu um mui amoroso fora, e então penei, Deus como sofri, sofri como não gostaria que um dia o filho que ainda não tive sofresse.

Depois experimentei um longo relacionamento com amor meio curto, e uma trinca ou quadra de longos amores com curtos relacionamentos, histórias nas quais ora novamente sofri, ora também fiz sofrer de maneiras que, igualmente, não gostaria que se repetissem. Em comum entre todos, noto agora o fato de terem sempre me consumido as vísceras, em certos casos mesmo tirado-me o ar (não sei como é isso para vocês, mas em mim o amor recusado, reprimido, provoca a sensação real, física mesmo, do sufocamento).

Tudo isso, porém, sem apreço nenhum pela loucura. Quero dizer: nunca achei que o amor devesse ser louco, desmedido, desvairado. Sempre enfrentei tudo fazendo o máximo para que cada confusão passasse logo. Logo cedo, naquelas primeiras experiências, aprendi a repugnar o amor demasiado romântico, e desde então sempre sonhei com uma companhia calma e boa, com quem pudesse estar no máximo de situações com o mínimo de incômodo, de alteração de meu estado natural possível.

Acontece que matutar muito, maturar cedo demais para o amor faz a gente demorar de aprender um negócio essencial para poder viver esse nobre sentimento em paz. É minha opinião, vocês talvez pensem diferente, mas a gente só se apronta para o amor depois que experimenta ser sozinho na vida, depois que se expõe à encruzilhada do Grande Sertão – que é onde aparecem os heróis e os demônios de cada um – , depois que se arrisca a ela e se retorna vivo dela. Porque afinal a pessoa não é o que pensa, não é o que busca, nem é o que quer; a pessoa é o que sobra.

E tendo de mim sobrado algo, bati pé firme de que esse negócio de amor era para ser fácil. Não quero dizer leviano, nem sempiternamente plácido, nem carente de beleza nem de paixão ou musicalidade. Queria que fosse simplesmente bonito e presente, que me fosse espelho ao passo em que me movesse para frente – que fosse, em suma, alegre, íntimo, sonhador e real, e que, no saldo, me trouxesse paz de espírito, porque afinal essa vida já tem coisas demais para consumir a carcaça da gente. Em troca, minha contrapartida seria ficar quieto, calado, deixar de ficar fazendo filosofê e tratar de viver o danado quando ele de novo me aparecesse, para ver se dele aprendia algo.

Deu resultado: não demorou muito e, precisamente hoje, abre-se já a terceira primavera desde que a mulher mais radiante e plena que já tive a sorte de conhecer surgiu em minha vida, com um sorriso branco e uns olhinhos de girassol que amoleceram – jamais amolaram – meu coração.

* * * * *

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. Ilustração de Aitana Carrasco

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ridículas ideias


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Escrevo sob o efeito do livro La ridícula idea de no volver a verte, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, uma das minhas preferidas. Inovando mais uma vez, nesse livro a autora fica numa espécie de “limbo de gênero”, a meio caminho entre romance, memórias e biografia, misturando suas vivências pessoais com a história de Marie Curie. Bendito limbo, onde tudo é permitido, porque Rosa se permite tudo em sua alucinante capacidade criativa.

O livro gira em torno da perda de pessoas amadas e da enorme, quase insuperável dificuldade de conviver com o fato de que não as veremos mais, a despeito da realidade, que eventualmente se impõe. Como é possível admitir, entender que não voltaremos a vê-las? E quão ridícula nos soa esta ideia! Evitando entrar num campeonato de dor, suspeito ser esta uma das mais devastadoras, cinicamente ignorada por quem promove matanças mundo afora. Conviver diariamente com ela é um desafio e tanto, quase sempre solitário, pois, como bem registrou Chico Buarque, “a dor da gente não sai no jornal”.

Mas há outra ideia, igualmente ridícula: a de que nós mesmos não morreremos. A vida é tão interessante e sedutora, apesar de tudo, que a grande maioria de nós vive como se a morte não fosse uma certeza. Vivemos para viver, não para morrer. Tomo por mim mesma, que há décadas tento me acostumar com a ideia de que um dia vou desaparecer, e o mundo continuará existindo, com as pessoas que amo, os livros, as árvores e toda essa complexa e maravilhosa imensidão.

Tão presente quanto a morte certa é a pressão que sofremos para aproveitar a vida, ser feliz. Essa tal felicidade varia conforme o freguês, mas quase sempre se refere a ter muito dinheiro e/ou poder, viver paixões alucinadas, entregar-se ao prazer interminável ou a uma fé religiosa, viajar freneticamente, criar uma família linda e perfeita, realizar-se numa profissão apaixonante, ser famoso, e por aí vai. Isto quando não estamos num contexto em que a simples sobrevivência é felicidade suficiente.

É preciso pensar grande, desejar mais ainda, e atender à expectativa social ou familiar de sucesso e realização segundo receitas e fórmulas consagradas. Uma vida de bom tamanho, que caiba em mim ou em você, parece muito chinfrim, não é? Ridícula ideia!

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A woman in love


por Izaías Almada*

“Your eyes are the eyes of a woman in love...”

O CD do conjunto vocal Four Aces era a última paixão de Maneco. Raridade, aliás, só encontrável em algumas lojas de Londres ou Nova York ou por encomenda.

O repertório do grupo trazia-lhe doces recordações da adolescência vivida em Belo Horizonte. Mais do que isso: lembrava-lhe o seu primeiro amor, Isabela.

Na época, Maneco tinha dezesseis anos de idade, Isabela, catorze. Foi durante o baile de formatura do ginásio, onde o romantismo melódico dos Four Aces provocou contatos mais íntimos nos salões do Automóvel Clube. Podia-se mesmo arriscar, nestas festas, uma ida às sacadas do prédio para “tomar um pouco de ar”, como se costumava dizer. Ou para um beijo às escondidas.

Houve quem, no carnaval, despencasse de uma delas cheirando lança perfume. Tragédia em alta sociedade.

E foi numa dessas sacadas, no espaço estreito entre as cortinas de veludo verde-escur, a porta de vidros bisotê e os galhos de fícus a ocultar o prédio e as próprias sacadas da rua, que Maneco sentiu os seios de Isabela encherem-lhe as mãos pela primeira vez. Rijos, mas suaves, palpitantes, solícitos.

Os lábios entreabertos e os olhos revirados da namorada gritavam, em úmido silêncio, pelos desejos da mulher que ali desabrochava.

A woman in love...

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. Imagem: quadro Estrolabio do pintor Pablo Picasso.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pensamentos incomuns

Abaixo, você lê três abordagens de uma mesma história. Uma brincadeira que surgiu por acaso entre três amigos em outubro do ano passado. A versão original é de Thiago Domenici, a segunda de Fernando Evangelista e a terceira de Ricardo Viel, todos colunistas deste NR. E você, caro leitor e leitora, que tal fazer a sua versão nos comentários dessa postagem?

1.
Subiu no telhado pela escada lateral.
O Sol, sem esforço, iluminava seu rosto, deitada, suave, respiração compassada.
Nada era mais importante do que aqueles pensamentos incomuns.
Ninguém, absolutamente, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.
Ninguém nasce sabendo que o amor é uma lei da vida.
"Quando ele chega queima como o sol a bater no rosto".
Então era assim.
A descoberta transbordou num poema de olhar, de sentir.
Desceu do telhado pela escada lateral.
Agora a Lua, sem esforço, iluminava seu rosto corado, em pé, suave, respiração descompassada.
Ah, pensou ela, benditos pensamentos incomuns.
(Thiago Domenici)

2.
Chegou ao telhado por uma escada lateral.
O sol iluminava seu rosto. Deitou. Nenhum barulho, nenhuma buzina.
Do terraço de um prédio de 14 andares, ela ouvia, apenas, sua própria respiração, calma, compassada.
Não havia medo.
Não havia nada, apenas alguns pensamentos incomuns.
Ninguém, absolutamente ninguém, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.  Ninguém nasce sabendo que o amor é lei da vida.
"Quando ele chega, queima como o sol a bater no rosto", ela pensou.
Era assim, sempre foi assim.
A descoberta poderia ter virado poema, uma canção, uma boa história para contar. Mas para que? Para quem?
Apesar daquele sol que a acolhia, como um colo de mãe, ela não via sentido numa vida sem ele.
Nina foi até o parapeito e repetiu a pergunta: para que? Para quem?
Então se lançou no ar.
(Fernando Evangelista)

3.
Não havia telhado. "Como subir?", pensou.
O sol castigava seu corpo nu, suado, que exalava um cheiro que não parecia seu.
Queria lançar-se, colocar fim a tudo aquilo. Mas como, se o telhado que antes estava ali havia desaparecido?
Curioso não é perguntar-se porque alguém se mata, mas porque alguém decide não se matar.
Quem colocara aquela questão? Não parecia ser um pensamento seu.
Ninguém, absolutamente, poderia sentir, imaginar, o que era só de Nina.
Nada era mais importante do que aqueles pensamentos incomuns.
O telefone tocou. Era ele. Duvidou se atenderia. E viu a lua aparecer, tão improvável...
Existisse telhado e eu não teria visto isso, pensou.
O telefone continuava a gritar...
(Ricardo Viel)

[imagem de artista Kyle T. Webste, do blog The Daily Figure]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O último Amor

Faleceu ontem, em um pequeno povoado ao Sul do país, o último exemplar conhecido de Amor. As causas da morte ainda não foram confirmadas pelas autoridades, mas as primeiras informações dão conta de que a pequena criatura de apenas cinco meses não suportou o rigidez dos tempos em que vivemos e sofreu uma parada cardíaca fulminante.

A notícia da morte causou comoção não só na comunidade científica, mas na sociedade civil em geral - o assunto foi o mais comentado nas redes sociais. O governo decretou luto por nove dias e o primeiro-ministro enviou condolências aos proprietários do último Amor.

Há cerca de três meses a notícia de que ainda existia um sentimento como esse foi recebida com surpresa e enorme alegria em todo o país, já que a espécie havia sido declarada extinta no ano passado. Por questões de segurança e privacidade a identidade do casal que cultivava o Amor e o local exato onde vivia foram preservados.

Ontem, após um longo silêncio sobre o desenvolvimento da criatura, as autoridades divulgaram um comunicado com a notícia que ninguém gostaria de receber: o último Amor se foi.

Havia dentro da comunidade científica a expectativa de que esse exemplar, quando chegasse à idade adulta, pudesse cruzar com outros sentimentos (como o Altruísmo ou a Amizade) e se reproduzir como espécie. Mas a prematura morte pôs fim às esperanças.

Confirmada a extinção, restaria a possibilidade da produção artificial - em laboratório - de Amores.

Os cientistas garantem que, por meio de uma modificação genética, poderiam alcançar o objetivo. No entanto, esse tipo de pesquisa segue proibida pelo governo, que alega ser impossível prever as consequências de experimentos dessa natureza.

“A manipulação de sentimentos é muito perigosa e ainda não há como garantir que esse tipo de atividade não gere mutações incontroláveis, o que colocaria em perigo todos os seres humanos. Além disso, muitos de nós vivemos sem um Amor e nunca morremos. É questão de acostumar-se. As próximas gerações, por nunca terem visto um Amor, sequer sentirão falta”, afirmou o ministro de Defesa e Tecnologia em uma coletiva de imprensa.

O velório do último Amor que se tem notícia será amanha em local não divulgado. A cerimonia será fechada para a imprensa e apenas as pessoas mais próximas poderão se despedir do pequeno, que foi embora sem saber que trouxe alegria e esperança a tanta gente. Gente que agora chora sua morte.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório
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