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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lembrança de uma lembrança

Passou tanto tempo que

já não me lembro de como eram tuas mãos,

embora me recorde, perfeitamente, que eram lindas;

E agora tenho medo de que ao voltar a vê-las

elas já não me pareçam tão encantadoras.

Se isso acontecer, saberei que

não foram elas que mudaram, mas eu
H.M.S, em “Cartas Inéditas”

“Se olho para trás e tento recordar os acontecimentos que vivi, os passos que me trouxeram até aqui, nunca estou completamente seguro de se estou rememorando ou inventando (…) O que já aconteceu e o que está por vir, na minha cabeça, são apenas conjecturas”, escreveu o colombiano Héctor Abad Faciolince em seu livro “Traiciones de la Memoria”.

Faciolince tem total razão: a memória é ficção, talvez a maior e mais bem construída de todas. E está viva. E é mutável. (As lembranças que tenho hoje da minha infância são diferentes das de dez anos atrás, e em dez anos seguramente serão outras.)

No filme “O segredo dos seus olhos”, o jovem viúvo que teve a mulher assassinada lamenta que, passado um ano da morte, começa a se esquecer de como era sua esposa. “Tenho que fazer esforço para recordar dela todo dia, dia e noite”. E comenta que já não se lembra se o último chá que ela lhe preparou era com limão ou com mel. “Então começo a duvidar, e já não sei se isso que vai ficando é uma recordação ou a recordação de uma recordação”, sentencia.

Se a vida é o original, a memória é a cópia, diz Faciolince. E agora divago eu: só que a cópia vai perdendo a cor, sofre a ação do tempo, amarela, fica menos nítida, e não raro perde mesmo algumas folhas. É preciso então fazer nova cópia, que não é feita a partir do original (porque esse já não se sabe onde está), mas da cópia. Até que chega um tempo em que a sucessão das cópias faz com que reste bem pouco do conteúdo daquela matriz. A recordação da recordação vira uma cópia bem pouco precisa do original.

Ainda assim e mesmo sabendo que seremos um dia vencidos, lutamos contra o esquecimento. Tratamos de preencher os vazios da memória com a ficção. Romantizamos, distorcemos, criamos, mentimos a nós mesmos, e assim construímos o que somos. “Ya somos el olvido que seremos”, dizia o poema de Borges achado no bolso da jaqueta do pai de Faciolince no dia em que foi assassinado. Vinte anos depois, o escritor contou a história do seu pai e a desse poema, e diz que o fez para que ela não caísse no esquecimento.

Ricardo Viel, jornalista, escreve de Lisboa, Portugal

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Retrato em branco e preto

Sim, claro que era impressionante sua educação
- sentada ali junto aos adultos,
falando quase aos cochichos com a madrinha,
pedindo por favor e com licença a todo tempo-,
mas não foi isso o que me chamou a atenção;

E de fato, eram curiosas as histórias contadas pela tia:
de como a sobrinha, desde os seis anos,
ia sozinha ao colégio, inclusive sob neve;
de que parava nos cruzamentos
e mesmo que não viesse nenhum carro
não se movia até que o sinal de pedestres ficasse verde
(na Espanha, nas férias, repreendia os adultos que descumpriam a lei);

Nem mesmo o fato daquela garota não ser suíça,
mesmo tendo nascido e vivido todos os seus dez anos no país
[coisas da legislação de lá, explicava a tia],
foi o que me marcou daquele encontro;

Para mim, da tarde de café, museu e passeio
a imagem que ficou,
gravada na retina,
indelével
é o enorme vazio,
de compadecer brutos e calejados,
que havia no olhar daquela criatura

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Salamanca, Espanha

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

109 anos de Drummond

“São mitos do calendário tanto o ontem como o agora, e o teu aniversário é um nascer toda a hora…”.

Hoje se comemora os 109 anos do nascimento do poeta de Itabira. O Instituto Moreira Salles criou o Dia D:


"Espalhe-se a ideia, tão simples quanto ambiciosa: transformar o dia 31 de outubro, data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, num dia de grande comemoração (...)"

No vídeo abaixo, produzido pelo IMS, Dráuzio Varella, Laerte, Chico Buarque, Caetano Veloso e muitos outros declamam Drummond. Bem bacana.




E você leitor, qual o seu verso favorito?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poeminha pós moderno

por Izaías Almada

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Lá tenho as dicas que eu quero
Dos golpes que aplicarei
Vou-me embora pra Miami
Aqui não sou nada feliz

Lá é que é tudo loucura
Tem gente de tudo que é lado
De Caracas são muitos esquálidos
De Cuba vão muitos gusanos.
De Buenos Aires, São Paulo, La Paz
Tem malandro contumaz

Todos se julgam de elite
Com inveja da gringolandia
Se amarram num badulaque
Que aqui é o ‘must’ IMPORTADO
Lá não sou branco, nem negro
No passaporte sou ‘outros’
Me olham meio de lado...
Não faz mal, tudo é pecado.

E quando estiver estressado
Dou um pulinho em Orlando
Chamo o Pateta e a Minnie.
Pra que me contem histórias
Do tempo em que eu era menino
E não sabia da vida

Vou-me embora pra Miami
Lá eu encontro de tudo
É outra civilização
Tem celular e iPad
De última geração
Tem arma, rifle automático
Tem cocaína à vontade
De preço bom e barato
Protegida pela CIA
E por um grande aparato...

Tem garota de programa
Para gente namoricar
E quando estiver com saudade
Triste de dar dor no peito
E no barzinho eu quiser
Falar mal do meu país
Falo e me sinto feliz...

Pois lá sou amigo do Bush
Do Aznar e do Berlusconi
Essa gente à La Corleoni
Com quem no passado aprendi...

Vou-me embora pra Miami
Lá sou amigo da grei
Tenho e dou assessoria.
Pra quem? Jamais contarei.

domingo, 3 de julho de 2011

A virada

Tomarei a última garrafa de whisky às cinco em ponto.

Seis horas depois estarei na contramão da rodovia norte-sul.

Lá alcançarei a máxima velocidade possível do porsche roubado uma hora antes.

Rodarei com uma dose cavalar de adrenalina por 5 km na faixa exclusiva dos caminhões.

Você pode imaginar a sensação da adrenalina misturada ao álcool? e a velocidade?

O vento entrará pela janela e seu barulho me libertará. Falta pouco.

As luzes crescem e com elas as buzinas e freios fazem coro a minha orquestra particular.

A 150 metros do fim o coração se iguala ao velocímetro.

Marca 200. E bate.

Assim, sem adjetivos e explicações formais, morrerei a meia noite do dia 31 de dezembro de 2018.

Será o dia da virada.

Fredo Sidarta, poeta, para a seção Cronetas do NR.

sábado, 19 de março de 2011

Ode a poesia

Thiago Domenici, o comandante deste blog, levantou uma questão que julgo extremamente oportuna: a importância da poesia.
Recentemente li um livro que reúne os discursos mais importantes ditos por Gabriel García Márquez durante sua vida - logo ele, que dizia odiar falar em público. Em “No vengo a decir un discurso” (inédito ainda em português), talvez o tema mais recorrente das falas de Gabo é seu amor pela poesia.
Capa do novo livro de Gabo
“Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos inequívocos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e por sua permanente vitória contra os surdos poderes da morte”, disse o escritor colombiano em 1982, durante o banquete de recebimento do Nobel, na Suécia. Gabo termina sua fala citando o poeta Luis Cardoza y Aragon, que definiu a poesia como a “única prova concreta da existência do homem”.
Estou totalmente de acordo com Domenici. Não me sinto capaz (e não tenho a menor vergonha de dizer isso) de avaliar o projeto da Bethânia em termos de custos, mas não tenho a menor dúvida de quão importante é que a poesia volte a ser lida, dita, escutada. Enfim, que faça parte das nossas vidas.
Ainda no livro dos discursos, Gabo nos presenteia com uma frase que merece ser escrita nas portas de banheiros de bares e colégios, pichada nos muros das capitais pelo mundo afora e pronunciada em alta voz durante os engarrafamentos que enfrentamos diariamente: “Creio que as vidas de todos nós seriam melhores se cada um de vocês levasse, em suas mochilas, um livro”.
O pedido era dirigido a militares colombianos, mas poderia, muito bem, se estender a qualquer um de nós – ou a todos nós. Se o livro for de poesia, então, dá para sonhar com um mundo bem menos amargo.

Ricardo Viel, jornalista e colunista do NR

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rima Pobre, Fernando Carvall

Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista para o Nota de Rodapé. Conheça também seu blog: ONG PI.

sábado, 3 de abril de 2010

Sábios calcanhares

As respostas estão,
São os meus calcanhares.
Aquilo que Aquiles sofreu não dói.
O telhado de palha seca é enriquecido de esperança.
A mesma doce e pontual esperança de Aquiles.
Ele existiu?
Todo o tempo calculo o que deve ser.
Seremos o tempo dentro da caixinha de papel.
Imaginaremos o universo em doses.
Dosado de igual para igual com a pouca compreensão que nos cabe na cachola cerebral.
Desigual.
As respostas estão,
São os meus calcanhares.
O primeiro é início e não diz o porvir.
Existo?
Engatinho – sou bebe no colo do mundo.
Ando com apoio – sou, simplesmente, homem verossímil.
As palmas ecoam a sonoridade do vitorioso sem méritos.
Você existe?
Novamente o primeiro,
Primeiro parágrafo de construção confusa.
Resposta?
Calcanhares.
Aquiles não existiu.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária no Nota de Rodapé

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ferve a madrugada

A madrugada esquenta meu sangue,
Minha cabeça roda parada e a despeito do que pensem, a birita não se faz presente.
Daqui, perto, vejo o cheiro entrar pela varanda;
Dizem que é o fenômeno climato-emocional da tranquilidade acachapante que acomete os forasteiros do norte.
A leitura corre as horas e massageia a vista cansada de ver injustiças.
Sem querer, num repentino impulso incolor encho meu travesseiro de sonhos meus.
Durmo, então, a madrugada abençoada.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária e concorda com Vinicius de Moraes que diz que "a poesia é fruto da vida de cada um". (Nota de Rodapé)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dias iguais

Na música relaxante,
Um anestésico cotidiano.
Sobe o som do aparelho,
O veículo roda os cavalos,
Entra um, dois, três; em pé (não tem onde sentar).
Cavalheiro-obrigatório cede o lugar ao idoso,
A jovem gargalha da amiga,
A janela embaçada de suor antigo revela o mendigo que canta a tristeza –
A sede de cachaça aumenta a todo instante.
Muda de faixa, o motoqueiro a mil (pilhado e adrenalizado) quase encontra Deus.
Na música relaxante,
Um anestésico cotidiano.
A injustiça é nua,
Palpável e palatável.
Os gestos são iguais,
Um com a bíblia em punho,
O outro com o revólver.
Cobrador imóvel e o fone esquerdo cai.
O sangue escorreu até a cintura.
Na estatística vale o número,
A vida, em si, não vale – a alma é prisioneira do medo (todos os dias).
A trajetória chega ao fim.
O aparelho é desligado – de volta a realidade.
O sinal é dado,
A porta se abre,
O cotidiano segue.

Fredo Sidarta é poeta em construção diária (Nota de Rodapé)
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