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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Érika Mesquita, a primeira brasileira a estudar a antropologia do clima


foto de Nayanna Marques
A antropóloga Érika Mesquita, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) é a primeira brasileira a pesquisar antropologia do clima. Ela realizou durante quase cinco anos uma pesquisa pioneira que trata sobre a percepção das mudanças climáticas por grupos indígenas e comunidades extrativistas na região do Alto Juruá no estado do Acre. Ela se debruçou sob dois grupos étnicos, os Ashaninka e os Kaxinawá, e sob três comunidades extrativistas, situadas na Reserva Extrativista Alto Juruá. A linha de pesquisa denominada também de etnoclimatologia, trás informações importantes para entender a cosmovisão indígena sobre o tema e notar, com exemplos concretos, qual é a contribuição dessas populações para a manutenção da floresta e da vida. Este ano Mesquita irá lançar um livro com o resultado de sua tese de doutorado pela editora Mercado das Letras, em Campinas. Confira a entrevista que o Nota de Rodapé fez com a antropóloga.

entrevista por Ana Mendes*

NR – O que te motivou a fazer este trabalho?

Eu me motivei a pensar sobre o clima aqui na região porque hoje em dia os paradigmas sobre esse assunto estão completamente mudados. E eu queria entender até que ponto os indígenas tem conhecimento disso e o que eles tem a acrescentar nessa temática. A verdade é que as Ciências Sociais não está trabalhando as questão das mudanças climáticas. E ela tem que se voltar pra isso, principalmente a antropologia. Os geógrafos e os engenheiros ambientais falam muito sobre o clima. Mas nós, antropólogos, sabemos que nessas análises falta o olhar do cotidiano. Daí a ideia de trabalhar essa produção de conhecimento com os indígenas e com as populações tradicionais. Onde eu trabalhei a maioria das pessoas não tem acesso a informação da mídia. Então eu pude compartilhar como eles enxergam isso realmente.

NR – O que é antropologia do clima?

A antropologia do clima está nascendo agora. Ela é um olhar dentro da antropologia que está buscando analisar as mudanças climáticas. Existem poucas pessoas trabalhando com isso, uma delas é uma colega do México, Esther Katz, que pesquisa populações originárias lá, e eu, aqui. O meu desejo é que muito mais gente faça isso, pra que possamos montar um mapa dos conhecimentos tradicionais indígenas em todo o Brasil. Mas, claro, há que se tomar muito cuidado porque trata-se de uma etnografia somada a uma nova forma de olhar que a antropologia está pegando emprestado das ciências naturais, da geografia física. Em resumo, estamos buscando saber como isso [mudanças climáticas] está sendo sentido no dia-dia, não só nas situações de catástrofe, mas no cotidiano.

NR – Li no teu trabalho que os índios Ashaninka precisam fazer o reflorestamento de certas espécies que antes era feito naturalmente, quando a época dos ventos coincidia a floração. Há outras iniciativas nesse sentido?

Justamente, eles já fazem estas coisas a sua maneira. Há também a agrofloresta que os índios já praticam, mas isto não é fomentado por nenhuma política. Então, a questão é mostrar pro poder público que se pode fazer mais. O conhecimento que eles produzem pode gerar políticas públicas. Não basta só olharem o painel do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]. E eu não estou criticando, mas estes dados devem ser somado à outros olhares. Os governos tem que saber que essas populações podem contribuir, contribuir na prática. Lá nas Filipinas, perto de onde aconteceu essa grande catástrofe recentemente, um xamã percebeu que vinha o tsunami. Aquele último, de 2004. Ele avisou pra todos da aldeia. E as pessoas foram se refugiar nas montanhas mais altas. Mas na cidade, o poder local não acreditou nele quando tentou alertá-los sobre a onda gigante. É justamente pra fazer com que esse tipo de coisa não passe batido que deve-se trazer à tona o conhecimento tradicional. Os poderes locais e globais tem que acreditar que este conhecimento não é mito. São uma categoria que tem prática sim. Ainda há um precipício entre o conhecimento tradicional e o conhecimento institucionalizado. E essa história está aos poucos sendo fecundada. Porque em relação às políticas públicas para povos indígenas o tratamento ainda é de cima pra baixo, infelizmente. Este ano a UNESCO vai lançar um coletânea de artigos sobre o viés das Ciências Sociais a respeito das mudanças climáticas, incluindo o meu trabalho.

Indios Katukina, proxima etnia a ser pesquisada
[Foto Ana Mendes] 
NR – Você acha que a Academia está conseguindo absorver esse conhecimento?

Nos grandes polos de conhecimento do Brasil sim. Ainda não atingiu a grande mídia, mas a gente já vê que o movimento é pra que isso aconteça. Muitos antropólogos brasileiros estão trabalhando nessa mesma linha. Eu bebi muito nessas fontes: Manuela Carneiro da Cunha, Gilles Deleuze, Marcel Mauss, Eduardo Viveiros de Castro. A começar por Marcel Mauss, que na década de vinte fez uma classificação do pensamento nativo. Ele foi visto como um grande etnógrafo, mas nunca foi colocado em prática. Então, muita coisa escrita por grandes antropólogos estavam engavetadas e parece que agora está vindo à tona. Hoje em dia vivemos um novo paradigma da ciência tradicional. Muitos cientistas estão com os olhos mais abertos para a ciência nativa. Já temos graduações indígenas, médicos indígenas e daqui a pouco os primeiros doutores indígenas.

NR – Me fala um pouco sobre as tabelas que tu elaborou com os tipos de chuva, de sol e de lua. Porque tu sentiu a necessidade de fazer essa organização?

É inacreditável pensar que as populações tradicionais enxergam seis tipos de sóis. Vou te dar um exemplo prático, quando fui morar em uma aldeia na cidade de Marechal Taumaturgo, achava que qualquer água que caia do céu era chuva. Mas tem chuva feminina, masculina tem chuva que é 'feita acontecer'. Os Ashanika mascam batata e sopram, aí a chuva vem. Foi surpreendente quando eu comecei a perceber que essa noção pra eles não é tão genérica como pra nós. Quando eu falei 'tá chovendo' a primeira vez me corrigiram 'Isso não é chuva, é puagem. Chuva é quando molha a terra.' Quem não vive na floresta tem um olhar mecânico, os índios são cheio de pormenores. Eles tem um conhecimento muito grande que até então, há mais ou menos cinco anos não era valorizado, mas agora a coisa tá mudando. Como dizem nas manifestações, Brasil a fora, 'o gigante acordou!' e acordou pra muita coisa mesmo. Não só tardiamente em manifestações, mas também na ciência com relação ao conhecimento indígena. Só tá faltando virar política pública.

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Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Povo das águas

por Ana Mendes*

Frio de renguear cusco. Ninguém tá tomando um chimarrão quentinho, pensei, pra aliviar a dor que sentia nas pontas dos dedos às 7h da manhã. Mas o balanço do barco não deixaria, afinal, servir o mate sem derramar tudo. Os dois pescadores que conduzem a embarcação nos olham e riem. O barulho do motor é grande e ninguém fala. A gente tem um certo pavor no rosto, com certeza é disso que eles gozam. A lagoa tá braba, deu mar. É culpa do vento. As duas mãos ocupadas em segurar firme a cada solavanco deixam passar possíveis fotografias do nascer do sol. O Ripper acendeu um cigarro e a Marcella colocou uma capa de chuva na câmera dela. Estamos nos molhando. No frio de julho nos disseram que “se tu cair na água, tu morre. De choque térmico”.

Nesta época do ano, o vento na Lagoa Mirim, no sul do Rio Grande do Sul, pode chegar a 100km/h. Em dias de ventania é prudente esperar em casa e acessar a internet volta e meia pra saber sobre as condições dos próximos dias. A rede com peixe no meio da lagoa pode esperar até 72 horas para ser recolhida, os bichos não apodrecem porque ficam conservados no gelo. No verão não. Há que ir todos os dias conferi-las. Na vila, enquanto esperam passar o vento forte, os pescadores consertam redes e barcos, limpam peixes e fazem outros biscates pra completar a renda. “Agora a gente fica em casa, no verão é comendo sol e vento pra recuperar o tempo perdido”, nos conta um pescador de pele amarelo queimado.

A lagoa é impositiva. Mas a intempéries do tempo são pequenas perto da ação predatória do homem. A cada quinze minutos de viagem de barco é possível ver um novo canal aberto para as lavouras de arroz, ávidas consumidoras de água. São 12 milhões de litros que escoam anualmente para as granjas dos arredores. Por isso, é comum ouvir os pescadores dizendo que atravessam um período de seca, “a lagoa tá baixa, as águas estão paradas, não tem oxigênio pros peixes”. E a traíra, o peixe mais desejado, que antes se reproduzia nos banhados de encosta perdeu o seu lugar de desova.

Na luta diária pela sobrevivência, o pescador artesanal é uma enciclopédia das coisas da terra, dos céus e da água. “Já pensou, o dia em que as mulheres deixarem de ter filhos? Pois vai ter um dia que essa lagoa vai deixar de ter peixe”, nos diz Eder de 35 anos. Ele, assim como a maioria dos pescadores aprendeu a profissão com seu pai. São os hábitos, transmitidos de uma geração para a outra, o embrião da consciência ambiental. A relação com a natureza é fundamental para a manutenção da identidade do pescador, pois na imensidão da maior lagoa de água doce do Brasil eles são a dimensão humana de um complexo sistema ecológico.

www.fronteiramirim.blogspot.com
www.facebook.com/fronteiramirim

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tem coisas que eu olho, tem coisas que eu vejo


por Ana Mendes ilustração Victor Zalma*

No último dia em Recife, não pude deixar de conhecer o famoso Mercado São José, um casarão verde-água no centro da cidade. Me ocorreu comprar alguns colares, mas o Ton apareceu a tempo para me dizer que era melhor não. “Guias de proteção são usadas quando há um fim específico, Ana”.

Insatisfeita com a censura, escorreguei os dedos por colares vermelhos de Iansã, amarelos de Oxum, azuis de Ogum e brancos de Oxalá. Desejei todos. São vendidos a três reais nas casas de candomblé. Entrei numa: duas mulheres, sentadas em um canto, afundavam a mão em cestos cheios de missangas e dali montavam anéis infinitos em fios de naylon. Com uma habilidade impressionante, respingavam contas coloridas da ponta dos dedos. “Saí daí, guria!”, minha mãe sussurrou no meu ouvido. Fulminei ela também, com meu olhar estrangeiro.

No corredor, um homem com um cajado e uma cartola preta nos observava sossegadamente. Ele estava encostado em uma das portas de saída do mercado, onde era possível ver pingar grossas gotas d'água. Fui atraída pela porta que chovia: feirantes encharcados vendiam quiabos e outras cores para fregueses que tão pouco se preocupavam com a exacerbação dos céus. Ao contrário, estavam todos ocupados em negociar o preço dos legumes. Sob um vento forte e quente a cena se repetia como uma cascata, a feira, a chuva e os fregueses tomavam a rua inteira.

Amontoados de gente aqui e ali, entoavam em coro, que nem fossem cigarras acasalando nomes de frutas, ervas, conservas e legumes. Às pressas, um menino riscou uma poça com a bicicleta e o feirante escoou a água que se acumulava em cima da lona amarela, “shuuuuaaaaa”. Finalmente o sol chegou rasgando nuvens e mudando o f. da minha íris. Porque não fotografei? Fotografei sim.

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Título inspirado em Poemicro de Climério Ferreira, poeta brasiliense do Piauí. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ton


por Ana Mendes*

Entra no bar, pede um cigarro avulso. A criança atônita, deixa a coca-cola de lado. Estava vendo um faraó egípcio de perto. Num impulso, pergunta: tu é homem ou mulher? Os pais rangem as cadeiras. É mais uma daquelas típicas situações em que as crianças colocam os velhos num beco sem saída. Constrangidos sorriem com as gengivas e deixam o olhar escapar em direção a porta da rua, não queriam estar ali.

– Sou os dois, diz.

– Pará piá, deixa o moço em paz!

– Mas por que eu pareço uma mulher? Insiste, a fim de conversa.

– Porque tu usa colar e short, isso é coisa de mulher.

– E homem?

– Tu tem barba. Meu pai tem barba.

– Sou homem e mulher no mesmo corpo. Faz tempo... Gostou da minha maquiagem?

– É bem legal.

– Qual é o teu nome?

– Ariel.

– E o teu?

– Akhenaton.

Este é Ton. Uma grande amiga que mudou a maneira como uso artigos e substantivos.


*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto e é curadora da coluna Coisa Íntima, autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores publicada aos domingos neste espaço.  
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