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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Discoteca de músico: Cesinha Pivetta

por Marcos Grinspum Ferraz   Ilustração de Victor Zalma*

Um defensor engajado do samba tradicional e da cultura popular. É assim o Cesinha Pivetta (no retrato de Marcos Hermes), jovem cantor e compositor paulistano que lançou este ano seu primeiro disco solo, “Nossa Bandeira”, e que desde 2007 é um dos cabeças do Samba do Bule – grupo que se reúne para pesquisar e tocar sambas, e que promove mensalmente uma concorrida roda no Teatro Popular União e Olho Vivo, no Bom Retiro (São Paulo). Quem já assistiu de perto o Bule ou um show do Cesinha – e quem ainda não, deveria – percebe logo sua paixão pela música de raiz brasileira. E assim é feito seu samba, com intensidade.

Seguindo com a proposta de reunir nesta “Discoteca de Músico” artistas dos mais variados estilos, convidei o Pivetta, que conheço desde os tempos de colégio, para fazer aqui as escolhas de discos e clipes que marcaram sua vida. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram, Gabriel Basile e Flora Poppovic, ele é o sexto entrevistado da série, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões. A ideia é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

E por ser tão mais ligado às linguagens musicais tradicionais, Cesinha subverteu um pouco as regras do jogo aqui na coluna – na parte audiovisual – o que foi muito bem-vindo. Como bom bamba, se saiu bem do impasse de não saber dizer quais os videoclipes que o marcaram positivamente durante a vida. E, ao meu ver, o bom é saber que há de tudo na nova geração da música brasileira: quem faça rock, rap, pop, reggae, música eletrônica, funk, quem misture tudo e também quem se dedique a não deixar a chama do samba tradicional morrer. Vale a pena conhecer o som de Cesinha Pivetta, do Samba do Bule, de Lello di Sarno, do Nervos de Aço e tantos outros.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Partido em 5”. Esse é o registro puro de uma roda de samba. Marcou profundamente pra mim pois ouvi ali o que diversas vezes havia vivido perambulando por aí. Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e Joãozinho da Pecadora contaram com a participação de mestre Candeia e não utilizam recurso especial nenhum para a gravação, ao vivo, de uma sequência de sambas de partido-alto que fui reconhecendo e nunca soube de onde vinham. Neste disco figuram também Luna e Marçal, dois monstros na cozinha que são referência para qualquer amante de batucada como eu.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Bob Marley and the Wailers, Live” – ‘Nossa, isso é legal também!’. Essa foi minha primeira reação ao escutar esse disco. Sempre fui muito restrito ao samba e em certo momento também ao próprio pagodão, mas em alguns momentos me deixei levar pela música gringa por influência dos colegas, primos... Em casa jazz e blues já tinham o gosto de minha mãe, e sempre passou legal pelos meus ouvidos, fazendo também parte da minha formação. Mas foi quando ouvi Bob que descobri algo que me fizesse querer entender melhor a língua inglesa, que sempre rejeitei. Vi ali um sujeito parecido com bambas do nosso samba, falando e mostrando sua simplicidade e quem sabe, daí, a transformação, a busca de um mundo mais justo.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Lamento do Samba”, do Paulo César Pinheiro. Este disco me fez ver o samba de uma maneira diferente. Estes versos para mim se tornaram mantras: “O segredo da força do samba/ É a vivência do seu fundamento/ O que faz ser eterno um bom samba/ É a beleza que tem seu lamento.” O samba “Nomes de Favela”, que só conheci com o lançamento deste disco, em 2003, considero um verdadeiro hino.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Brincadeira de Criança”, do Molejo. Falar de clipe pra mim é muito difícil, pois nunca tive o costume de acompanhar MTV, etc. Mas lembro bem deste clipe, ele me marcou, talvez negativamente (tinha pesadelos) mas duvido que alguém não se lembre!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

Olha....impossível eu conseguir um clipe que tenha me marcado profundamente na última década... não lembro nem de um que tenha visto... Então resolvi inverter tudo aqui sem saber se vale ou não. Vai um curta metragem bem mais velho que a última década sobre partido alto.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Discoteca de músico: Flora Poppovic


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

A convidada deste mês do Discoteca de Músico, Flora Poppovic, é a voz feminina do Pitanga em Pé de Amora, grupo paulistano que reúne cinco jovens músicos muito talentosos e que deve lançar este ano seu segundo disco. Como a banda não tem bateria, é a Flora também quem dá o pulso em boa parte das canções, tocando os instrumentos de percussão que aprendeu a “batucar” desde cedo.

crédito: Camila Passos
Foi justamente essa faceta percussionista da Flora que conheci primeiro, antes de saber que ela tinha também uma bela voz. Pois desde a adolescência até poucos anos atrás, por cerca de uma década, ela foi integrante do Batuntã, outro grupo destacado da cena paulistana e que é bastante focado nos instrumentos de percussão. Hoje ela é também professora de percussão no Instituto Brincante e no Brincantinho (braço infantil do espaço criado por Antonio Nóbrega), atividade que concilia com os ensaios e shows do Pitanga.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid, Bruna Caram e Gabriel Basile, a Flora é a quinta entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Antônio Brasileiro”, do Tom Jobim. Bom, minha mãe é daquelas que quando gosta de um disco dá play de novo assim que ele acaba. E esse foi um dos que a gente escutou milhares de vezes no repeat! Eu decorei todas as músicas e queria muito ser a Maria Luiza, filha do Tom que canta com ele em duas faixas. Mais tarde, quando comecei a tocar percussão e conhecer um pouco sobre o universo da cultura popular brasileira, me encantei mais ainda com esse disco que trazia samba, bossa nova, jazz, baião, maracatu, peças instrumentais maravilhosas e até poema musicado do Manuel Bandeira. Hoje eu ainda ouço muito ele, e me sinto numa viagem passando por paisagens diferentes... Esse disco me traz paz.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

“Kind of Blue”, do Miles Davis. Eu demorei muito para ouvir discos gringos. Fui conhecer melhor só aos 18 anos, quando fui apresentada ao “Kind of Blue”. E mudou minha vida! Eu estava numa fase de muita música instrumental, ouvindo choro pra caramba, e esse disco caiu como uma bomba! Era sublime! Era calmo e revolto, melancólico e me deixava feliz... Anos depois, quando entrei na Groove Escola de Música para estudar, esse disco era muito usado nas aulas, seja para cantar a linha de baixo, fazer exercícios com baqueta, e a impossível tarefa de cantar os solos em “All Blues”. Me apaixonei ainda mais! Era como se eu estivesse conhecendo de novo o cd, e até hoje ainda sinto que tem muita coisa "escondida" nele pra descobrir! Esse disco é música pura!

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

“Vem Ver”, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, lançado em 2013. Em primeiro lugar, esse disco me marcou por ser extremamente corajoso: é o primeiro disco solo da carreira de dois jovens muito talentosos e é um duo de baixo e voz. Baixo e voz? Sim. E é impressionante como os dois se viram muito bem nessa corda bamba. A Vanessa com suas lindas interpretações nos leva a lugares de extrema ternura e a outros de malandragem pura. Faz coro com muitas vozes... Enfim, faz o que ela quiser! É uma danada! E o Fi é um baixista de fino trato, toca todos os baixos possíveis, batuca pra caramba e ainda enfeita com vozes de fundo em algumas faixas. O CD conta também com percussão, percussão corporal e vocal, e participações de Chico Pinheiro, Rafael Altério, Sergio Santos entre outros. Os arranjos são bonitos, criativos e a maioria das músicas desconhecidas. É um disco inspirador!

Um videoclipe que marcou sua formação

Stomp Out Loud- Kitchen, Stomp. O Stomp sempre foi uma referência pra mim!! A música está completamente integrada ao movimento, e sempre em instrumentos que não são instrumentos. Ele une música, pesquisa de timbres e humor, ou seja: diversão garantida. Por muito tempo o Stomp foi norteador de pesquisa para o Batuntã, grupo que eu fiz parte dos 14 aos 24 anos. Esse DVD inteiro me fascina, mas o vídeo que eu mais gosto é esse da cozinha, filmado todo num plano só, sem cortes, onde as coisas e a música vão acontecendo. Legumes cortados, panelas sujas, chefe mal-humorado, tudo vira som!!!



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente

The Writting's On the Wall, Ok Go. Esse clipe é demais! Muito criativo, muito bem feito. Ele é todo filmado sem cortes, e numa sala gigante cheia de coisas que te enganam e vão mudando conforme a câmera muda. É um jogo de perspectiva. A gente é surpreendido o tempo todo!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Discoteca de músico: Gabriel Sader Basile


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Os três primeiros entrevistados desta Discoteca de Músico foram artistas acostumados a estar à frente nos palcos. Mais expostos, vocalistas naturalmente costumam chamar a atenção. O convidado desta vez, de outro modo, é um instrumentista que está quase sempre no fundo da cena, mas que de modo algum é menos importante. Aliás, se dizem que o baterista é a alma de uma banda, o Gabriel Sader Basile – ou Biel – é a alma logo de três: Memórias de Um Caramujo, Grand Bazaar e Noite Torta. Isso, além de ser percussionista do Charlie e Os Marretas e de acompanhar atualmente o compositor Maurício Pereira.

crédito: Amanda Amaral de Oliveira
Com apenas 25 anos, o Biel já tem um bom tempo de estrada, e apesar de eu já ter tido alguns contatos anteriores, só conheci melhor seus trabalhos de uns dois anos para cá. Impressiona (para além do carisma, diga-se de passagem) a capacidade com que ele transita de modo tão natural pelos mais variados gêneros musicais – do samba ao rock, do funk à música cigana –, sempre dando seus toques pessoais. E está claro, vendo o alto nível dos discos lançados pelas bandas das quais participa, que essa trajetória está apenas começando.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid e Bruna Caram, o Biel é o quarto entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical  

O “Clube da Esquina”, de 1972, com certeza é um deles. É um clássico! As músicas, os músicos, arranjos, timbres, histórias… tudo é lindo. E eu descobri esse disco de um jeito meio coletivo. Foi uma época em que entrei na onda da "mineirice" junto com um grupo de amigos músicos muito queridos. Sempre alguém vinha e mostrava alguma coisa nova que tinha descoberto no disco ou alguma música que tinha tirado. Ouvimos muita música juntos, que é uma coisa que acho preciosa e que cada vez fazemos menos.

Um disco gringo que marcou sua formação
O “With a Little Help From My Friends”, do Joe Cocker. Gosto demais desse disco! É uma mistura de rock com soul que me pega no coração. Acho que são minhas duas maiores influências gringas. É um desses discos que se começa a tocar não dá pra prestar a atenção em outra coisa. Eu entro na onda na hora. A voz do cara é absurda e a banda é fantástica! Tem o Jimmy Page e o Steve Winwood, que é um cara que também curto a beça. Além disso tudo, a gravação tem uma cara de “ao vivo” que gosto muito. Parece que a galera entrou no estúdio, fez um take de cada música, e no fim do dia o disco tava pronto. Dá a sensação que estava tudo entalado na garganta dele há uma eternidade, ele chegou e vomitou tudo no microfone. Fora que nesse disco tem a melhor versão de uma música dos Beatles. Não é pouca coisa…

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Pô, tenho ouvido muita coisa boa ser produzida hoje em dia, tanto no Brasil quanto na gringa. Acho que estamos em um momento bem fértil musicalmente. Já faz uns anos, mas em 2010 foi lançada a “Caixa Preta” com a obra completa do Itamar Assumpção. Nessa caixa vieram dois discos com composições inéditas que foram produzidas e arranjadas para a ocasião. Um deles, o Pretobrás II, foi muito importante pra mim nesses últimos anos. Não preciso falar sobre as composições nem sobre o compositor, porque isso todo mundo já sabe que são fora de série e não são dessa década… Mas esse álbum me abriu a porta para começar a entender o que é a produção de um disco. Me chamou muito a atenção como praticamente só com timbres e ostinatos colocados nos lugares certos, os arranjos – feitos em cima de algumas gravações de voz deixadas pelo Itamar – se sustentam cheios de interesse. Também tem muita coisa de produção de música eletrônica feita com MPC, que é um caminho que tenho gostado cada vez mais e tem se tornado mais frequente em sons que tenho ouvido. Gol do Beto Villares, que produziu o disco.

Um videoclipe que marcou sua formação
O clipe “Drop”, do The Pharcyde. Nem faz tanto tempo que vi esse clipe pela primeira vez, mas me marcou bastante. Acho genial como o Spike Jonze, que dirigiu o clipe, conseguiu pegar a ideia musical da base em reverse que o J Dilla fez e usar no vídeo. Rola uma sintonia forte entre música e clipe, um fortalece o outro.



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Curti muito o “Happy”, do Pharrell. É um clipe que conseguiu usar a internet de um jeito muito criativo. É totalmente pensado para estar nela. São 24 horas ininterruptas de pessoas dançando a música da forma que bem entendem. A música começa, a música termina, aparece uma nova pessoa, a música começa outra vez e o dia vai passando… Dá pra ficar meia hora vendo o clipe, fácil! E se quiser ver de novo no outro dia dificilmente vai ver as mesmas cenas. O clipe se auto recicla, é muito bem bolado.
http://24hoursofhappy.com/

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Discoteca de músico: Bruna Caram


por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Foi ouvindo ela cantar em pequenas rodas de violão com amigos que tive os primeiros contatos com a musicalidade da Bruninha. Ou melhor, da Bruna Caram, como é mais conhecida. E eu ficava ali olhando impressionado, com a potência e, ao mesmo tempo, doçura daquela voz – quando ela cantava canções como “Maré Baixa” (Diego Casas/ Daniel Altman) e “Catavento e Girassol” (Guinga/ Aldir Blanc), entre outras, acompanhada pelo Diego no violão.

Isso faz quase dez anos, mas a gente já sabia, naquela altura, que a coisa ia longe. Hoje, com apenas 27 anos, a Bruna já tem três discos lançados – “Essa Menina” (2006), “Feriado Pessoal” (2009) e “Será Bem Vindo Qualquer Sorriso” (2012) – e uma carreira consolidada. E se faz tempo que não a vejo cantar em pequenas rodas de violão, sigo acompanhando sua voz pelas rádios ou em shows por aí.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes (leia aqui) e Rashid (leia aqui), Bruna Caram é a terceira entrevistada da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical
“Elis e Tom”. Conhecer o trabalho da Elis, quando eu ainda era adolescente, não mudou, mas confirmou meu destino. Já cantava desde menina mas não tinha consciência de que isso poderia ser um trabalho, um sacerdócio sério, uma profissão, já que aprendi a cantar em casa, e na minha família todo mundo faz música para se divertir e estar junto. Algo dentro de mim procurava o lado seríssimo de cantar. Esse lado eu reconheci no trabalho da Elis. E Tom, meu amor da minha vida, eu aprendi a ouvir com minha mãe. Minha tia Ana Caram gravou com Tom num dos discos dela e eu desde menina pensei nele como um grandioso maravilhoso parente distante. A união desses dois marcos da minha vida num só álbum é imbatível, é meu disco número 1.

Um disco gringo que marcou sua formação musical
Vocês me perdoem por citar uma coletânea. Pode soar mal educado! Rs! Mas acho que os álbuns originais da Piaf nem existem a não ser em vinil, total raridade, e a realidade é que eu sou dessa era internética do download. O disco gringo que me vem mais forte à memória e ao coração é “Non Je Ne Regrette Rien”, uma compilação de canções na voz da Edith Piaf, uma das minhas maiores referências na carreira. Pela maneira de cantar extremamente sincera e intensa. Com Piaf aprendi que o grande cantor precisa emocionar não só através da letra, mas para além dela. Nunca falei muito bem francês, mas sempre chorei e ri ouvindo Piaf. Isso sempre me inspirou. Esse é o tipo de cantora que eu gosto de ouvir e que eu vou passar a vida tentando ser.

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
“Back to Black”, da Amy Winehouse. Vigoroso, doloroso, quente, dançante e verdadeiríssimo. Amy talvez seja a cantora que mais amei nos últimos 10 anos.

Um videoclipe que marcou sua formação
Sinceramente? “Remember the Time”, do Michael Jackson! Um dos meus maiores amores também! E embora minha música não esteja muito claramente relacionada à dele, a minha marca registrada, de unir todas as artes no palco – música, dança, teatro – tem muito, muito, muito da influência de Michael Jackson. Meu pai era muito fã e eu e meu irmão quando crianças víamos esse clipe duzentas mil vezes, chocados com a cena em que ele se dissolve, dourado-mágico. Música é mágica.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente
“It's Oh So Quiet”, da Bjork. Nasceu clássico! Tudo o que eu amo: dança, música, cor, humor, interpretação, intenção, dinâmica, tudo num clipe absolutamente fantástico. Aplaudo!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Discoteca de músico: Rashid


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Michel Dias Costa, o Rashid, não teve um caminho fácil para chegar aonde chegou. Com pouca grana e estrutura, mas muito vigor criativo, começou ainda na adolescência a participar das batalhas de MC e a escrever seus primeiros versos. Nascido na zona norte de São Paulo em 1988, conquistou espaço aos poucos e é considerado um dos principais nomes da nova geração do rap nacional na atualidade. Porque se a vida não deu facilidades, ela “deu caneta e papel”, como ele canta em verso de “Nada Pra Ninguém”.

Rashid na foto de Rafael Kent
Conheci o rap de Rashid no ano passado, por meio do disco “Confundindo Sábios”. Quanto mais ouvi, mais gostei do estilo e das letras, que para além da crítica social e das narrativas urbanas, explicitam também essa energia de Rashid para seguir fazendo música independente de qualidade, sem se deslumbrar com o sucesso. “Sabe por que eu vim?/ Porque eu quero entregar o melhor/ Nem que eu pague com meu suor/ Se esse é o preço pra sonhar”, diz outro verso do MC.

Em janeiro deste ano entrevistei Rashid para a revista Brasileiros (leia aqui) e o papo rendeu bastante. Agora, depois da estreia com Tim Bernardes da banda O Terno (leia aqui) é a vez do rapper ser o entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

“Cartola”, os dois, de 1974 e de 1976. Esses discos são de uma riqueza incrível. Alguns clássicos da música brasileira estão aí. Cartola me inspira muito pela sensibilidade e simplicidade da sua escrita, que é crua e extremamente rica ao mesmo tempo. O sofrimento (de amor principalmente) virava uma coisa muito bonita nas palavras dele.

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Reasonable Doubt”, do Jay-Z. Ele é um dos caras que mais curto lá de fora, e esse disco é um clássico. É o primeiro disco dele. Tem muita coisa boa aí, desde os times de produtores até o conteúdo das letras, que nessa época falavam muito da vida dele no tráfico.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Brasileiro, “Se Me Chamar, Ô Sorte”, do Wilson das Neves. Estrangeiro, “Good Kid, Mad City”, do Kendrick Lamar. O disco do Wilson das Neves foi umas das melhores coisas que escutei ano passado, tanto liricamente, quanto nos arranjos. Um samba muito elegante e de muito bom gosto. Já o do Kendrick foi praticamente uma unanimidade quando saiu (em 2012). Ele trouxe uma riqueza poética que há tempos o Rap “mainstream” norte-americano não apresentava. Esse cara é muito bom, virei fã!

Um videoclipe que marcou sua formação

O Rappa, “O Que Sobrou do Céu”. A música é forte, e quando você junta a essas imagens, vira uma bomba. O roteiro desse clipe é muito bom, e a locação, os atores, todo mundo foi muito bem na minha opinião! Todas as vezes que assisto, ele causa um impacto. Sou fã dos caras também, sempre curti muito, posso dizer que são parte das minhas referências musicais.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Inquérito, “Meu Super Herói”. Inquérito é um grupo de Rap de Campinas, e os caras são bons demais. O Renan é um ótimo letrista e esse clipe é lindo, cara. Fala sobre a falta que o pai dele faz, sobre as lembranças e tal… As imagens são de um bom gosto incrível, e o moleque que é o personagem principal, mandou muito bem. Foi gravado na Favela do Flamengo, na zona norte de São Paulo, perto da minha casa. A direção é do Levi Vatavuk. Foi o primeiro trampo que vi dele, e pirei!




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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Discoteca de músico: Tim Bernardes da banda O Terno

por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Antes mesmo de conhecer o Tim, eu já tinha ouvido falar – por meio de alguns amigos – de um tal “moleque” que, com menos de 20 anos, era um baita músico talentoso, tocava muita guitarra e compunha belas músicas. De fato, Martim Bernardes, agora aos 22, tem todas essas qualidades, e isso ficou evidente para mim quando o vi pela primeira vez, em 2012, num show da banda O Terno – da qual ele é membro ao lado de Victor Chaves e Guilherme d’Almeida.

Tim Bernardes na foto de Sérgio Galvão
Foi justamente naquele ano que o power trio de rock’n’roll brasileiro lançou seu primeiro disco, “66”, e começou a fazer shows pelo País. Depois de gravar com Tom Zé em 2013, eles preparam para este ano o segundo álbum da banda, que deve ser lançado em agosto. Ainda bastante jovens, mas mais maduros, certamente vão colocar coisa boa no mundo...

Pois bem. É com Tim Bernardes como entrevistado que estreio aqui no Nota de Rodapé a série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, vale ressaltar, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir. Sejam benvindos!

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

Difícil ser só um, hein... Por mais que que eu possa escolher qualquer um da discografia dos Mutantes, vou na verdade escolher o segundo disco do Cassiano. "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973. Desde que eu era muito pequeno esse disco morou no rádio do carro lá em casa e foi dos poucos que eu nunca cansei de ouvir. Pelo contrário, só fui achando ele mais foda a cada uma das milhões de vezes que eu ouvi. Os sons de bateria são insuperáveis, as orquestras, os hammonds, as guitarrinhas toscas (na verdade nada toscas), soa tudo muito bem. As músicas são incríveis, esquisitas, ele canta esganiçado e é lindo ao mesmo tempo... Demais!

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Pet Sounds”, do Beach Boys, de 1966, é outro que eu conheci quando era criança e fui redescobrindo em várias fases da minha vida. Teve épocas que eu ficava de cara com os vocais, outras que eu pirava na sonoridade, os reverbs, os arranjos, a massaroca fina que é a instrumentação desse disco... Já pirei nas harmonias, em como são mega simples e mega sofisticadas ao mesmo tempo, cheio daquelas inversões lindas que vão se encadeando com uma puta classe. Isso sem falar nas composições. Pra mim, o Brian Wilson não tinha nem que ter grilado no “Sgt. Peppers” dos Beatles porque o “Pet Sounds” ganha de todo mundo.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Teve vários também, especificamente o “Helplessness Blues” dos Fleet Foxes pra mim é uma obra prima. Impressionante o capricho em cada aspecto do disco. Desde cada canção em si como nos jeitos que elas se agrupam no disco. Os arranjos e o som do disco são chocantes, muito fino, muito lindo. Vai além da canção folk, parece um filme foda.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Your Life Is A Lie”, do MGMT. Esse clipe é muito doido, uma metralhadora de cenas incríveis meio nonsense, meio engraçado, com uma estética impecável à la Wes Anderson.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Acho que os clipes que mais me marcaram são a maioria de 2010 pra cá. A produção independente de clipes chegou a uma qualidade incrível, então as ideias doidas estão virando clipes fodas sem precisar de gravadora, muita grana, ou um equipamento hollywoodiano. Um cara que eu sou fã dos clipes recentemente é o Tyler, The Creator. O clipe da música "IFHY" é sinistro.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série
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