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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A recepção


por Celso Vicenzi*

 - Pode entrar, Marina, sinta-se como se a casa fosse sua... até uma rede mandei instalar!

- Eduardo, não me fale em rede, por favor. O tombo foi grande.

- Entre, não repare a bagunça. Não deu tempo de organizar uma festa, foi tudo tão de repente. Como a senhora disse que nenhum desses partidos a representava, já tínhamos perdido as esperanças.

- Pior pra mim, que perdi a rede. Tudo culpa dos cartórios.

- Mas, cá entre nós, a senhora não acha que também teve alguma culpa no cartório?

- Eu não, Eduardo. Sempre fui uma moça tímida, evangélica, casada na igreja. Apenas não tinha ainda conseguido arrumar um bom partido, mas aí, com jeitinho, você tocou no meu ponto fraco.

- E qual é?

- É derrotar a velha política deste país. Posso não ter conseguido fundar um partido – afinal, não é tarefa fácil; temos só 32! –, mas sinto-me preparada para governar o Brasil.

- Calma, Marina, vamos com calma. Sobre isso a gente conversa depois... deixe-me apresentar nossos companheiros. Este é Jorge Bornhausen, que trouxe também o filho (o neto ainda não tem idade hehehe!).

- Bornhau... Bornhausen? Que surpresa! Não sabia que você tinha se tornado socialista.

- É a política, Marina, sempre mudando. Mas sempre me interessei pelo Capital.

- O Capital, de Marx?

- Não, o meu capital. Como é enorme, eu costumo citá-lo em maiúscula, entende?

- Não muito, ainda... mas estou recém-chegando, não é, Eduardo?

- Exato, Marina, você verá que estamos levando a mensagem do socialismo a todas as pessoas. A começar pelos mais renitentes, que são justamente os capitalistas. Ah, este é Heráclito Fortes, que você conhece do Congresso.

- Heráclito? Você também aqui?

- Pois é, Marina, uma hora tô aqui, outra ali. É a minha trajetória, que começou na Arena, depois PMDB, depois PFL, depois o DEM e agora aqui no Partido Socialista Brasileiro, onde finalmente encontrei velhos companheiros.

- Mas e aquelas conversas reveladas pelo WikiLeaks, em que você sugeria ao governo norte-americano estimular a produção de armas no Brasil para conter supostas ameaças de Venezuela, Irã e Rússia?

- Justamente, precisamos conter o comunismo e estimular o socialismo ao estilo brasileiro, moreno, alto, bonito e elegante como Eduardo Campos. Você fez uma ótima opção, seja bem-vinda!

- Eduardo, e quem mais vai estar conosco nessa disputa eleitoral. Eu preciso saber. Tem colega que não posso ver nem pintado.

- Pintado, não, nunca. No máximo caiado. Estamos tentando trazer o Ronaldo Caiado, outro jovem com muito futuro no socialismo.

- Mas Eduardo, ele sempre votou contra o meio ambiente. Como é que fica o meu discurso?

- Ô Marina, é só fazer umas pequenas adaptações. Muda uma vírgula aqui, umas 30 páginas ali e pronto. Relaxa, Marina, o Caiado é aliado do PSB em Goiás e defende adesão integral do DEM ao projeto socialista.

- E você garante que esse projeto tem sustentabilidade? Sinto falta do apoio de uma rede...

Não se preocupe, a Rede Globo estará conosco! Somos o novo. E o que é novo é verde. Verde... meio ambiente..., viu, temos muito em comum. Se você me der licença, tenho uma reuniãozinha rápida com a bancada ruralista sobre o Código Florestal. Se quiser deitar na rede, fique à vontade!

* * * * *

*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema

por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada.

* * * * * * *

Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O partido de Marina Silva em oito (curtos) parágrafos


por Moriti Neto*

Não é fácil compreender a essência das propostas do recém-anunciado Rede de Sustentabilidade. O “partido que não é partido”, da ex-senadora Marina Silva, dona de quase 20 milhões de votos nas últimas eleições para a presidência da República, é atravessado por flacidez argumentativa.

Durante o último Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira, dia 18, em que este colunista do NR esteve presente na bancada de tuiteiros, a nova querida da mídia tradicional mostrou que, além da busca por uma agremiação, tenta encaixar um discurso de pura espuma.

Discurso, aliás, que ficou ainda mais na superfície com a ausência do debate sobre a visão de Marina a respeito dos direitos civis e a hipócrita ideia de plebiscitar – caso seja eleita presidente – questões como descriminalização do aborto, da maconha, e reconhecimento do casamento gay, sabendo antecipadamente que elas sairiam derrotadas pelo conservadorismo da maioria. Isso, sem mencionar a postura a favor do ensino religioso na escola pública.

Alguns conceitos encerrados em frases como “nossa Rede vem para trazer protagonismo aos diversos setores da sociedade, algo que as siglas atuais não atendem” e “não somos nem de esquerda nem de direita, estamos a frente, somos pela sustentabilidade”, soam rasos vindo de alguém com a bagagem intelectual e política de Marina.

Sobre protagonismo e sustentabilidade, são muito mais slogans de campanha do que propriamente propostas. Como falar em formação de protagonismo político sem clareza de quem é a base social do tal Rede? Aliás, a líder do projeto chega, de forma generalizante, a afirmar que o formato da sigla permitiria que empresários e trabalhadores, entre outras categorias de atores pouco claras, lutem por uma causa. Daí entra em cena a ideia simplista de sustentabilidade. Seria ela a linha condutora, a causa comum entre classes distintas. De novo, o palavrório aponta para um conceito de rede capaz de envolver diversos grupos em torno da defesa do desenvolvimento sustentável. Porém, o que é sustentabilidade para o pobre? E para o rico? Como encara a ideia um megaempresário do agronegócio? E um índio?

Nesse raciocínio, se apresenta a parte que julgo mais preocupante por trás de seu discurso e dos “sonháticos da nova política”: é que jogar na vala comum as definições de esquerda e direita, como se a responsabilidade sobre alianças que buscam a governabilidade fossem apenas opções partidárias, enfraquece o debate necessário quanto a validade do nosso sistema de democracia representativa, construído pela e para a elite, gerador de grandes desequilíbrios na representatividade proporcional da sociedade.

O argumento de nem esquerda nem direita esvazia o debate, desideologiza, e deveria causar arrepios em quem se diz progressista. Nos anos 1990, a estratégia de radicalização da receita neoliberal passava justamente por colocar a ideologia a escanteio e reduzir as disputas políticas a critérios de avaliação dos “melhores gerentes”. Foi um momento de pobreza intelectual que paralisou movimentos sociais e diminuiu espaços para conquistas populares.

Com um emaranhado de frases de efeito, como “quero democratizar a democracia” (???), Marina Silva, até agora, diz mais do mesmo conteúdo em nova embalagem. E o pior: o tom de que nenhum partido existente serve à construção de seus projetos e que o Rede de Sustentabilidade é o paraíso dos puros de coração, a arremessa ao salvacionismo, que serve, historicamente, aos interesses de grupos reacionários.

*Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar. Foto: Pedro Ladeira/AFP

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Abrindo a carta de Marina

Acabou o suspense: Marina Silva escolheu a neutralidade. Uns apostavam que, neste segundo turno, as lideranças paulistas e cariocas do PV a empurrariam na direção de José Serra. Outros acreditavam que seus antigos laços políticos com o PT a fariam apoiar Dilma Rousseff. No fim, porém, a candidata não ficou nem lá nem cá: preferiu subir no muro e, assim, não manchar a áurea que construiu ao redor de si durante a campanha.
A decisão foi tomada durante a convenção nacional que o PV realizou em São Paulo, no dia 17 de outubro, dentro do prazo de duas semanas que o partido havia estabelecido para tomar uma posição. O eleitor se lembrará que, após conhecer seu surpreendente desempenho nas urnas, Marina declarou-se temporariamente neutra e pediu um tempo para consolidar as ideias. Sua independência, agora, é o resultado deste período de reflexão.
Praticamente todos os convencionais do PV a seguiram: apenas quatro das 92 lideranças presentes manifestaram o desejo de apoiar o nome de Serra ou Rousseff. Os demais preferiram pensar a longo prazo e preservar o potencial eleitoral do símbolo criado pela candidata verde: foram 20 milhões de votos, pouco para levar Marina Silva ao segundo turno, mas suficientes para elegê-la como representante de uma espécie de “terceira via” no Brasil e alçá-la nacionalmente como defensora de uma “nova forma de fazer política”.
São conceitos ainda vagos e fartamente explorados pelo marketing do PV, mas que aos poucos vão se esclarecendo. Agora, por exemplo, temos mais elementos para analisá-los. Junto com o anúncio de que manteria sua neutralidade em relação ao duelo presidencial, Marina Silva lançou uma Carta Aberta aos candidatos que continuam na disputa.
O documento, quase um manifesto, deixa transparecer pelo menos cinco pontos que definem (e possivelmente continuarão definindo) o discurso “marinopevista” de cara à sucessão presidencial de 2014.

1. A utopia verde
Antes de mais nada, Marina Silva se enxerga – e é enxergada pelo PV – como “mantenedora de utopias”. Não na acepção ingênua e imatura da palavra, que confunde utopia com sonhos impossíveis ou delírios juvenis, mas no sentido mais profundo e filosófico do termo, que interpreta o pensamento utópico como catapulta das mudanças que podem ser aplicadas à realidade futura. Os utópicos veem o mundo não apenas como ele é, mas principalmente como ele deveria ser.
Utopia, portanto, é analisar o tempo presente, identificar mazelas, projetar transformações e lutar para que, um dia, possam se concretizar. O objetivo óbvio de todo utopista é modificar o estado atual das coisas. Portanto, ser utópico é caminhar na contramão do fatalismo, do “não tem mais jeito”. A utopia reconhece que o homem é dono de sua história e que, ao contrário do que dizia Francis Fukuyama, ainda não chegamos nem vamos chegar nunca ao fim dela. A organização das sociedades é dinâmica e tudo que nelas acontece é resultado direto da ação humana.
O comportamento utópico, contudo, não remete necessariamente às crenças marxistas. Na década de 1930, o sociólogo alemão Karl Mannheim identificou quatro tipos de utopia vigentes no mundo pré-nazista de então: comunista, conservadora, liberal e anarquista. As diferenças entre cada um dos modelos utópicos dependem da ideologia que professam. E é a natureza da ideologia que localiza o ser humano em posições distintas na linha da história e define a maneira como irá interpretar a realidade (ou seja, de analisar o mundo como ele é) e traçar caminhos para construir o futuro (isto é, projetar como o mundo deve ser). Se há uma característica comum a todas utopias, porém, é a de que o presente necessita ser transformado e que esta transformação resultará numa vida melhor.
Com 19,3% dos votos válidos debaixo do braço, Marina Silva está tentando ocupar no imaginário dos brasileiros o espaço da utopia, da mudança e do outro mundo possível que era terreno ideológico exclusivo do PT. Pelo menos até 2002, quando o partido foi confrontado com o ápice do sucesso eleitoral. A vitória de Lula, o operário que virou presidente, inaugurou o período mais importante da história petista (em termos de projeção política e influência nos rumos do Brasil) mas também encerrou seu reinado como porta-voz da revolução social de esquerda no país.
Aliás, há quem diga que o PT perdeu o primado sobre os anseios da classe trabalhadora antes mesmo do êxito nas urnas, quando publicou a Carta aos Brasileiros para acalmar o mercado e as elites às vésperas do pleito. Até então, e a despeito do discurso conciliador, ainda se temiam as barbas de Lula nas altas rodas da grã-finagem.
Foi o início da desconstrução da imagem combativa do partido, que teve prosseguimento com as denúncias de corrupção, mensalão e afins, a profissionalização de quadros e hierarquização da cadeia de mando interna, a adoção de uma agenda menos pautada pelos movimentos sociais e sua adaptação às “regras do jogo” eleitoral – inclusive às mais sujas. O próximo passo foi a expulsão (e, depois, a saída voluntária) de militantes que, fiéis às antigas propostas do petismo, não assimilaram bem as mudanças. Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá, Ivan Valente… A lista dos que negaram a nova fase do PT é extensa. E uma das últimas a deixar o barco, ainda que por motivações e em momentos distintos, foi precisamente Marina Silva.

2. O joio no trigo
A Carta Aberta escrita pela presidenciável joga PT e PSDB na vala comum dos partidos brasileiros. Ao conceder a si mesma o título de “mantenedora de utopias”, Marina Silva automaticamente quer dizer que o PT passou a ser apenas mais um grupo político trabalhando para conquistar o poder – e apenas o poder. Nas entrelinhas, defende a tese de que já não se pode esperar, nem do PT nem do PSDB, as grandes e profundas transformações na estrutura política, econômica ou social que o Brasil precisa. Isso, Marina diz que precisa. Porque uma boa utopia, para ser convincente, deve projetar seu mundo ideal.
Não é a toa que ataca com tanta veemência o que chama de “signo da dualidade”, que, segundo a candidata, tem se expressado historicamente no país pela “redução da disputa política ao confronto de duas forças determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.”
A situação narrada por Marina é típica dos partidos esvaziados de utopia. Ou porque sua construção ideológica não cumpriu as promessas que fez, transformando-se numa grande mentira – caso típico do neoliberalismo tucano após os pífios indicadores do governo FHC e, mais recentemente, da derrocada dos mercados. Ou porque o partido deu um giro contundente em suas posições políticas a tal ponto de não ser mais reconhecido como portador da mudança. Ou ainda porque tanto a realidade presente como as necessidades futuras estão em rápida e constante transformação, deixando as lideranças partidárias a reboque dos acontecimentos sociais. Na falta de projetos inovadores para o país, as disputas políticas passam a ser apenas disputas de poder.
Em sua Carta Aberta, Marina Silva lembra que a situação não é nova e que as rixas partidárias existem desde a época de Dom Pedro II. Começou contrapondo republicanos e monarquistas. Depois, já no século 20, jogou UDN contra PSD. No regime militar a briga era MDB vs. Arena. Agora, diz o marinismo, a história estaria se repetindo com PT e PSDB.
Não sem certa dose de ironia, observa, já que ambos os partidos nasceram das entranhas do MDB justamente para denunciar a ineficácia do “bipartidarismo” em representar a diversidade social brasileira.
Resgatando os conceitos do “eterno retorno” e aplicando-os ao jogo partidário nacional, Marina Silva se apega à ideia de que PT e PSDB são hoje os fiadores do “conservadorismo renitente” que desde sempre tem colonizado a política tupiniquim e sacrificado qualquer utopia em nome do pragmatismo sem limites.
“O mergulho desses partidos na antiga lógica empobrece o horizonte da inadiável mudança que o país reclama”, alfineta. Em outras palavras, Marina está gritando bem alto que a política que se faz atualmente no Brasil está ultrapassada, vazia de conteúdo e pobre de projetos. Ou seja, nossas eleições estão envenenadas pela sede de poder. E, contra esse veneno, eis que surge Marina Silva: o antídoto capaz de fazer com que a utopia volte a correr nas veias da democracia partidária.

3. Voto revolucionário

Marina Silva expressa o bem-vindo desejo de que a política nacional seja mais do que a escolha compulsória entre tucanos azuis e estrelas vermelhas. Ainda que a polarização entre PT e PSDB não seja de todo verdadeira em nosso presidencialismo de coalizão. O nó górdio do fisiologismo parece descansar muito mais na imensa influência institucional do PMDB. Trata-se do maior partido do Brasil, uma sigla gigante, difusa e incoerente, repleta de caciques e interesses regionais, mas cujo apoio garante no Congresso a governabilidade de quem quer que venha a ocupar o Palácio da Alvorada. E a cor da camisa nunca foi problema: o PMDB quer estar sempre no poder e tem força suficiente para barganhá-lo com o vencedor das eleições.
A Carta Aberta deixa claro que Marina Silva anseia por um país onde a democracia seja mais do que ceder aos totens do tradicionalismo. Mas não só. A candidata quer uma política multicolorida, diversa e que admita o verde como alternativa eleitoral. Só nos resta saber se o verde que se reclama é o do ambientalismo, que propõe novos paradigmas de desenvolvimento para o mundo e para o país, ou o que veste 43 e pede nosso voto na tevê de dois em dois anos.
Essa dúvida sobre as intenções do PV é a mesma que paira sobre o perfil dos eleitores de Marina Silva. Quem são eles? Será a comunidade evangélica, identificada pela fé da candidata? Será gente que, fazendo eco à Carta Aberta, está cansada da mesmice eleitoral dos últimos 16 anos? Serão pessoas que votavam no PT e se desiludiram com a guinada pragmática do partido? Ou cidadãos que mal acompanham o noticiário, não se interessam por política e gostaram da estética clean da campanha pevista? Fiéis adoradores dos produtos Natura, talvez? Quem sabe gente antenada com as principais consequências da crise ambiental, que acompanhou com amargura os fracassos de Copenhague e realmente acredita num mundo onde é possível viver bem e dignamente sem consumir tanto? Quem são os eleitores de Marina: intelectuais, trabalhadores, empresários, ateus, cristãos, ricos, pobres?
Talvez haja de tudo um pouco. A candidata do PV, porém, não acredita que seus votos tenham emanado de uma “soma indistinta de pendores setoriais”. Marina responde a uma das perguntas. Na Carta Aberta, escreve que seus eleitores são pessoas que repelem o fatalismo partidário que os empurra a votar ou PT ou PSDB para os altos cargos. Mas prefere pensar que, mais que o descontentamento com esta dualidade, os brasileiros que apertaram 43 para presidente estão unidos no desejo por “outros valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional”.

4. O novo modelo

Infelizmente, é difícil acreditar que 20 milhões de pessoas estejam repensando padrões de vida e bem-estar num momento em que o país festeja o aquecimento da economia, o crescimento do PIB, a geração de empregos e a redução da pobreza. Pela simples razão de que o “bom momento” que se vive no Brasil é consequência direta de um nível de consumo maior (e cada vez maior) dos brasileiros, inclusive de gente que antes não consumia quase nada e que, depois do Bolsa Família e dos programas de microcrédito, pôde consumir o necessário para viver com o mínimo de dignidade. No sistema capitalista, as compras geram demanda, as demandas geram empregos, que geram mais compras e assim por diante.
Para o bem ou para o mal, ainda estamos presos neste esquema. E, agora que as coisas vão ou parecem ir melhor do que antes, aparentamos certa dose de satisfação em poder assistir o futebol e a novela numa televisão grande, viajar de avião nas férias, fazer churrasco aos finais-de-semana ou ir de carro para o trabalho. Talvez sem atentar, ou sem dar tanta importância, para os limites do planeta em aguentar nosso conceito de satisfação pessoal. Marina, porém, acredita que os 19,3% da população que votaram nela está ligada nesta problemática.
O caso do Brasil e demais países emergentes é extremamente complicado. A maioria de nós jamais teve acesso aos confortos da vida moderna. Mas agora está tendo: desde o pequeno prazer de poder escolher entre milhares de produtos em exposição nos supermercados até concretizar o sonho da casa própria.
Não dá para dizer aos que passaram toda a vida excluídos das delícias do consumo que, agora que lhes é permitido usufruir do bem-estar que nunca tiveram, deverão permanecer a uma distância segura da fartura. Do tipo: Nunca comeu filé mignon? Pois continue comendo ovo, mesmo que seu ordenado dê para um bom bife. Afinal, amigo, o planeta já não aguenta mais. Seria a maior das hipocrisias pedir que os recém-saídos das classes E, F, G e H, que não têm culpa nenhuma pela crise ambiental, se contentem com uma vida de austeridade porque os mais ricos fizeram o favor de usufruir da Terra para além da conta.
O carro-chefe da campanha de Marina Silva, portanto, é dos assuntos mais complexos que a humanidade já está enfrentando. Mas há dúvidas de que o PV possa conduzir a pauta verde com a devida legitimidade e competência. Primeiro porque a maioria de seus quadros estão historicamente alinhados com os setores mais conservadores da sociedade. Fernando Gabeira e Fábio Feldmann, que certamente ocupariam ministérios num eventual governo de Marina Silva, apoiam PSDB e DEM no Rio de Janeiro e São Paulo. E, apesar da neutralidade do partido neste segundo turno, estão trabalhando para a campanha de José Serra. Depois, porque o programa econômico apresentado por Marina Silva para estas eleições não questiona o ponto nevrálgico do modelo de desenvolvimento: o capitalismo.
Vivemos num planeta com recursos limitados, mas professamos uma economia que se pauta pelo crescimento infinito da produção, do consumo e da acumulação. Temos uma minoria que através dos séculos usufruiu à vontade das riquezas e só agora chegou à conclusão de que, se todos quiserem viver como as elites, o mundo não aguentaria.
Entretanto, José Eli da Veiga, um dos gurus econômicos da campanha do PV, diz que as nações subdesenvolvidas não podem sequer cogitar a possibilidade de não crescer. “A lei é consumo ou morte”, diz. “Os únicos que já podem colocar em questão o crescimento econômico são os países escandinavos. Lá existe uma situação em que a melhoria da qualidade de vida não necessariamente exige mais produção e consumismo.” Para Eli da Veiga, o Brasil e seus parceiros emergentes não se encontram em nenhum destes dois extremos: nem podem se dar ao luxo de deixar de crescer, nem devem crescer a qualquer custo. “A questão para nós é a qualidade do crescimento.”

5. Ecocapitalismo

O capitalismo está na encruzilhada de um mundo verde – mas não do mundo verde do PV. Enquanto o sistema econômico não for radicalmente modificado (e assim também seus padrões de bem-estar, conforto e riqueza) não haverá prosperidade suficiente para todos. O mundo acabaria antes. E não é uma questão de capitalismo ou socialismo ou o retorno da Guerra Fria. Trata-se de pós-capitalismo. Contudo, como bem apontava o presidenciável do PSOL Plínio de Arruda Sampaio durante os debates eleitorais, Marina Silva diagnostica com perfeição o grande problema do nosso tempo, mas não o encara de frente. Daí a pecha de ecocapitalista.
Sua Carta Aberta diz que “o mega-fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência, mas por um salto civilizatório, de valores. Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento, parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do que apenas o acesso crescente a bens materiais.”
É simplesmente maravilhoso ouvir uma candidata à presidência com este discurso, mas é difícil acreditar que uma mudança de tal magnitude virá de um partido tão comprometido com as elites tradicionais, como o PV, ou da associação da figura ambientalista de Marina Silva com o empresário Guilherme Leal, um dos mais ricos do país. Graças a ele, o jatinho da campanha do PV era o mais luxuoso entre os presidenciáveis.
Que salto civilizatório pode-se esperar de tais alianças? Se a Carta Aberta diz que “o novo milênio exige mais justiça dentro de cada sociedade”, devemos esperar que os milionários nos deem a solução para a crise que se agrava? Estariam os mais ricos dispostos a abrir mão de seu alto padrão de vida e nível de consumo para começar a construir na realidade a utopia marinista?
A mudança civilizatória rumo ao ecologismo dificilmente virá da minoria mais abastada. A elite tem muito a perder com uma transformação tão radical. Talvez as classes de baixo poder aquisitivo, que jamais se lambuzaram na festa do consumo desenfreado, é que possam, agora que as portas dos shoppings se abrem para seus salários, escolher um novo caminho. Mas isso dificilmente ocorrerá dentro de um sistema que só prospera na gastança e que neste momento está possibilitando aos brasileiros contar com mais dinheiro no bolso. Marina Silva acredita que os 20 milhões de votos que recebeu refletem o “sentimento de superação de um modelo”. Pode até ser que seja o modelo neoliberal (em prol do desenvolvimentismo de estado, quiçá) mas definitivamente não é o capitalismo.
Muitas comunidades indígenas na cordilheira dos Andes e na Amazônia têm um discurso bastante semelhante ao de Marina Silva. A imensa diferença é que elas não se aliam a milionários para lutar por seus valores ambientais, que são profundos e definem o âmago de suas sociedades. Os povos tradicionais andinos, atropelados pela máquina colonialista, há tempos exigem uma mudança civilizacional. E, com todos os problemas e contradições, a praticam diariamente. Seja por meio da organização comunal da propriedade e na tomada coletiva de decisões, seja pela agricultura familiar e preservação da natureza, os indígenas latinoamericanos dedicam suas vidas para superar a concepção ocidental de mundo.
É assim que começa uma utopia verde. Falar em mudança de paradigmas e caminhar ao lado de baluartes do capitalismo e do pragmatismo nacional está longe de ser uma postura utópica. É muito mais uma atitude meramente ideológica, no pior sentido do termo, que manipula o discurso e os dados da realidade como plano de ação para enganar a opinião pública e alcançar o poder. Nesta trilha, Marina caminha para a mesmice que tão oportunamente critica em seus adversários.

Tadeu Breda, jornalista, é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Marinanomuro

Carvall, Ilustrador e caricaturista, colaborador do NR, também habita na ONG PI. Mais uma garatuja das eleições. O Marinômetro pifou.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Marinômetro

Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista, publica na Folha de S. Paulo desde 1990. É um dos grandes nomes da ilustração brasileira. Carvall também é professor do Senac há quase 20 anos e mantém o Estúdio Saci. Aqui no NR, a partir de agora, como o próprio definiu, vai desfilar umas “garatujas”. Conheça também seu blog: ONG PI.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A travessura de Plínio

Plínio conseguiu romper o anonimato
O twitter imita a vida — ou melhor, tenta contrariá-la. É assim, pelo menos, quando o assunto é a cobertura midiática da campanha presidencial de 2010 no Brasil.
Plínio, Marina, Serra e Dilma aparecem com mais ou menos frequência na televisão, no rádio, nos jornais e nas revistas de grande circulação e impacto na opinião pública. Claro, a candidatura de cada um também é abordada com diferentes enfoques, dependendo da posição política e dos interesses de quem publica. Não é novidade para ninguém que os candidatos do PT e do PSDB são os favoritos da imprensa — estes mais do que aqueles.
Serra e Dilma estão na dianteira em todas as pesquisas de opinião e diariamente ganham manchetes país afora. Marina aparece em terceiro lugar nas intenções de voto e também na preferência dos jornalistas. O raciocínio segue com o representante do PSOL, em quarto, chamando muito pouca atenção dos holofotes. Há outros concorrentes, claro, mas a liberdade de imprensa vigente no Brasil não tem espaço para sua insignificância eleitoral.
Talvez pela distribuição desigual de atenções, Plínio de Arruda Sampaio é, de longe e de perto, o postulante ao Planalto que mais recorre ao Twitter. Depois vem Marina Silva, seguida por José Serra e Dilma Rousseff. O ranking dos presidenciáveis tuiteiros é exatamente oposto ao espaço que cada um deles — seja pela letra da Lei Eleitoral, seja pela vontade da imprensa — possui junto aos meios de comunicação.
Plínio está vidrado nesta (já não tão) nova ferramenta da internet. Antes da campanha deslanchar, já anunciava no YouTube sua adesão ao serviço gratuito que permite disseminar mensagens de até 140 caracteres diretamente a quem quiser ou puder lê-las. E lá se vão mais de duas mil, escritas de próprio punho ou pelos dedos da assessoria do PSOL. Os assuntos são variados. Plínio comenta os debates, reforça suas propostas de campanha, critica seus adversários e responde os internautas que lhe perguntam sobre tudo. Como só tem tempo de tuitar tarde da noite, batizou sua atividade internética noturna de Comando da Madrugada.

Tuitaço
Mas o grande feito do Plínio tuiteiro aconteceu no debate organizado em conjunto pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo portal UOL. Foi o primeiro evento do tipo transmitido ao vivo pela rede. Ao contrário do que aconteceu na Bandeirantes e, mais recentemente, na TV católica Canção Nova, o candidato do PSOL simplesmente não foi convidado. Porém, marcou presença. Como? Pelo Twitter, oras. Plínio lançou mão da twitcam, uma ferramenta que permite ao tuiteiro tuitar, em tempo real, com voz e imagem, através de uma câmera instalada no computador. Como o debate da Folha/UOL se deu integralmente na internet, o candidato excluído se fez notar como um internauta qualquer que estivesse participando e interagindo com os debatedores oficiais.
Mas, claro, não se tratava de um internauta qualquer, e sim de um presidenciável. A travessura de Plínio, portanto, foi além.
“Para surpresa geral, o número de pessoas interagindo com o candidato do PSOL pela twitcam chegou a superar a quantidade de participantes das salas de bate-papo do debate Folha/UOL. O fato foi registrado pelos serviços de informação disponibilizados pela internet”, comenta o próprio candidato num artigo publicado na edição online da revista CartaCapital.
Empolgado, Plínio até criou um neologismo para resumir seu êxito cibernético contra o bloqueio dos grandes meios de comunicação: tuitaço.
Num país como o Brasil, em que a internet chega a apenas 50 e tantos por cento dos domicílios, o tuitaço de Plínio pode parecer empolgação barata de um candidato de um partido sem base social, que não tem a menor chance de vencer as eleições e que, exatamente por isso, se contenta em celebrar como grandes conquistas pequenos episódios isolados e sem maiores impactos no pleito de outubro.
Mas é importante levar em consideração o fato de que “nunca antes na história deste país” um candidato rotulado como nanico e com uma porcentagem sofrível de intenções de voto conseguiu impor sua participação, ainda que de forma paralela e extra-oficial, num debate presidencial. Até porque, antes do aparecimento das novas ferramentas da internet, Twitter entre elas, entrar de bicão no circo midiático eleitoral era tarefa impossível. O feito de Plínio foi ter reconduzido, ainda que timidamente, as ideias e posições políticas ao centro do debate, passando ao largo dos desígnios dos grandes meios de comunicação. Se o tuitaço teve mais audiência que o programa em si, é porque o candidato do PSOL tinha algo a dizer. E havia gente interessada em ouvi-lo.
A Folha e o UOL quiseram limar Plínio do debate que promoveram na internet e, além de não terem conseguido, não tiveram como detê-lo. Por isso, o presidenciável pode ter razão ao escrever que “as forças democráticas da nação precisam se debruçar sobre o fenômeno, porque ele pode representar um instrumento poderosíssimo para ajudar a reverter o sombrio panorama da política mundial neste inicio de século.”
É esperar (e agir) pra ver, levando em conta que o Plano Nacional de Banda Larga está prestes a arrancar e difundir um pouco mais a internet no Brasil.



Tadeu Breda é jornalista, colunista do NR e vive em Latitude Sul.
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