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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 25 de outubro de 2014

Dilemas do transe eleitoral

por Daniel Guimarães*

Não sei vocês, mas estou contando as horas pra domingo chegar e acabar logo essa eleição. Não porque conversar sobre política seja ruim, acho o contrário, gostaria é de poder falar de política sempre, mas com menos contaminação da agenda de marketing eleitoral, com mais liberdade e tempo para debater as questões estruturais e conjunturais. Com mais paciência para trocar uma ideia, desde os fantasmas conservadores até a camarada mais radical à esquerda. Mas já que o Thiago foi irresponsável/generoso o suficiente para me convidar a escrever aqui neste espaço, acho que o mais honesto é manter a irresponsabilidade e expor, pelo menos na reta final, a formação do meu pensamento sobre o que a eleição representa. Dilemas sobre formas de atuação política, coletiva ou individualmente, sobre o tipo de sociedade desejável e possível, por exemplo. Aviso desde já que um dos meus objetivos nessas eleições é não perder nenhum amigo ou amiga, nenhum camarada e nenhuma camarada. Independente do que venha a acontecer, será necessário um grande esforço de unidade entre a esquerda para lidar com um Congresso mais conservador e com este verdadeiro transe da direita que parece ter saído das caixas de comentários dos portais, dos murais do Facebook e que chegou às ruas.

Aviso também que esse texto não foi feito pensando nas questões que os conservadores estão atravessando, nem para pensar sobre como a direita se relaciona com as instituições. Estas instituições foram desenhadas à imagem e semelhança dos vencedores desta etapa histórica mala que é o capitalismo. Neste pequeno texto penso a partir do lado esquerdo, em especial o lado esquerdo não institucional. No limite é um texto sobre como eu lido com este dilema, ok. Não irei dissecar a experiência petista no governo federal, nem defender uma proposta que se pretenda hegemônica para lidar com a questão. Estou dando um passo atrás e pensando na posição subjetiva diante do dilema, não em como resolvê-lo.

Acho prudente desde já deixar claro que minha perspectiva utópica de sociedade é uma sociedade sem classes, na qual os trabalhadores e as trabalhadoras tenham a posse dos meios de produção; em que as pessoas possam manifestar seus desejos, que as relações entre diferentes gerações não precisem reproduzir o modelo familiar nuclear ainda hegemônico, que haja equilíbrio nas relações entre gêneros, raças; e que a organização social e política produza formas substitutivas para o Estado, dando conta das tarefas de infraestrutura, segurança, justiça, distribuição da produção, mas sem a centralização e o autoritarismo deste, que acentuam a alienação política dos sujeitos. Com sorte isso nos conduziria a um tipo de cidade, de espaço, de subjetividade menos enclausurada. Talvez nos leve a uma circunstância em que a responsabilidade e a liberdade de decidir quais inibições são importantes para nossa vida em sociedade façam sentido a todos e todas.

O problema é que esta minha utopia talvez nunca venha a existir. Meus pensamentos não são tão poderosos a ponto de transformar e moldar a realidade e realizar a mágica de deslocar as relações estruturais da minha própria psique para o mundo exterior (Freud). Como parêntese, recomendo a leitura do terceiro capítulo de Totem e Tabu (Animismo, magia e onipotência do pensamento), o mito fundador freudiano da civilização – ponto de apoio para o cara pensar uma origem da nossa organização social, comparando-a a “estrutura” neurótica. Cito um trecho como aperitivo:

“A possibilidade de uma magia contagiosa baseada na associação por contiguidade nos mostra, então, que o valor psíquico atribuído ao desejo e à vontade estendeu-se a todos os atos psíquicos que se acham à disposição da vontade. Há uma superestimação geral dos processos anímicos, ou seja, uma atitude para com o mundo que, em vista do que sabemos sobre a relação entre realidade e pensamento, só pode nos parecer uma superestimação deste último. As coisas recuam para segundo plano ante as ideias das coisas; o que se faz a essas tem de suceder àquelas. As relações existentes entre as ideias são pressupostas igualmente entre as coisas. (...) Na época animista, a imagem reflexa do mundo interior torna invisível aquela outra imagem do mundo que acreditamos perceber. (...) O princípio diretor da magia, a técnica do modo de pensar animista, é o da ‘onipotência dos pensamentos’”.

Não bastasse o limite da minha própria capacidade de transformar utopia em realidade, ainda existem muitas outras utopias para ela se relacionar. Ainda bem, diga-se, porque nesta relação as minhas tiranias inconscientes teriam maior chance de serem inibidas. À minha utopia se somam/divergem as utopias dos meus camaradas mais próximos, da organização que pertenço, que por sua vez não é única organização no mundo. Ela também se relaciona com projetos de outros atores, aliados ou inimigos.

Por fim, todas essas utopias passarão necessariamente por um teste de realidade, terão de lidar com as forças que disputam o espaço, os recursos, as demandas objetivas e subjetivas. Nunca teremos certeza sobre o que serão os resultados das nossas ações, portanto desconfio sempre de quem apresenta planos que preveem o que será da sociedade se tomarmos certo tipo de decisão, se nos mantivermos fieis a determinada cartilha; desconfio dos projetos que não incluam no cálculo político as tramas da vida cotidiana – coisas que parecem insuficientes diante do projeto utópico de sociedade, mas que dão cor e sentido a este curto período da vida de uma pessoa: ter mais ou menos conforto, morar em condições melhores ou piores (ou pior, ter ou não um lugar para morar), ter ou não um pedaço de chão para plantar, poder se deslocar no espaço ou ficar restrito ao que a especulação imobiliária determina, poder ou não ter satisfações sexuais próximas dos seus desejos mais profundos, poder ou não fantasiar uma ocupação profissional interessante, poder ou não criar filhos e filhas em condições saudáveis e criativas; ter ou não ter acesso a cuidados de saúde física e psíquica, se alimentar bem ou mal (ou pior, ter ou não ter como se alimentar), ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas machistas, ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas racistas. A lista é extensa e considero pilar da esquerda esta solidariedade essencial à classe trabalhadora, aos dominados, excluídos. Fazer um exercício de não enxergar o povo como um objeto de experiências políticas, mas um objeto investido do nosso amor e, no limite, sujeito de sua própria existência, a quem não se deve negar o direito de fazer uso das conquistas que a beneficiem, mesmo que não sejam equivalentes ao “fim da história” revolucionário.

Ao mesmo tempo, desconfio de propostas de transformação que não passem pela organização política coletiva, que também vejam o povo como objeto de benefícios pelos quais deveriam ser gratos e transferir seu protagonismo para a vanguarda, para a liderança, para o partido, para um outro que saberá melhor como conduzir as coisas que dizem respeito a todas e todos. Discordo tanto por questões políticas como duvido de sua eficiência. A consistência das conquistas e das transformações passa pela consciência, mais do que pela aceitação. Diante de um ataque conservador contra estas mesmas conquistas, que resposta seria mais forte: a de quem as tem como suas, ou a de quem apenas as recebeu, com uma certa dose de alienação?

Por isso sempre optei pelo caminho da organização independente em coletivos e depois movimentos. Nunca fui filiado a partido e nunca serei. Não por ojeriza, mas por discordância da forma de organização hierárquica. Se pudesse escolher, gostaria que a maior parte da esquerda dedicasse seus esforços e tempo disponível para a construção dessas organizações independentes, porque são elas que terão liberdade de tocar sua luta sem estar subordinada à agenda eleitoral. Aliás, a gênese do Movimento Passe Livre (MPL) é essa. Foi necessário o rompimento de boa parte dos militantes que tocavam a Campanha pelo Passe Livre de Florianópolis (fundada em 2000 e fortemente vinculada a uma corrente de esquerda dentro do PT) para que se transformasse em um instrumento de luta para a juventude. Livre para organizar a si própria de acordo, exclusivamente, com os interesses de seus integrantes e, principalmente, da pauta que justificava sua existência. Obteve grandes vitórias e transformou-se no MPL, que se expandiu Brasil afora.

As eleições nos fazem retomar debates antigos: reforma ou revolução? Estar dentro ou estar fora? Não o repetirei. Para mim não são necessariamente excludentes. Assim com individualmente o Eu do sujeito necessita de certa elaboração até produzir desfechos diferentes para antigas inibições, também o corpo social não parece ser capaz de tolerar mudanças bruscas sem antes uma boa dose de pequenas modificações. Nesse sentido concordo com Freud quando argumenta, em A dissecção da personalidade psíquica, que traços inconscientes das gerações anteriores, a tradição, se reproduzem nas gerações vindouras. “Provavelmente as concepções históricas chamadas de materialistas pecam por subestimar esse fator. Elas o põem de lado com a observação de que as ‘ideologias’ dos homens nada mais são do que produto e superestrutura de suas relações econômicas atuais. Isso é verdade, mas muito provavelmente não é toda a verdade. A humanidade não vive inteiramente no presente; o passado, a tradição da raça e do povo prossegue vivendo nas ideologias do Super-eu, apenas muito lentamente cede às influências do presente, às novas mudanças, e, na medida em que atua através do Super-eu, desempenha um grande papel na vida humana, independentemente das condições econômicas”.

Uma interpretação certeira de um analista pode não fazer efeito algum para um paciente cujo Eu não esteja “pronto”, não tenha trabalhado o suficiente as condições para chegar por si só ao lugar onde o analista imagina estar um dos eixos do sofrimento. Faço aqui um paralelo entre política e psicanálise. A análise esclarecida das organizações mais críticas não será suficiente para superar marcas milenares, ou de pelo menos 500 anos, do psiquismo do povo brasileiro. Há um trabalho de elaboração até o sentido interno alcançar uma nova posição. Busco Noam Chomsky para expressar melhor o que estou tentando dizer, mais especificamente na sua “Teoria da Jaula”. Tomo emprestado de Felipe Corrêa uma boa definição sobre: “A sociedade contemporânea estaria trancafiada dentro de uma jaula. O objetivo daqueles compromissados com a luta pela liberdade, pela igualdade e contra a opressão deveria ser, portanto, aumentar o chão dessa jaula até que as barras se quebrem e que o povo pudesse se ver livre da opressão – da jaula, cerceadora de suas liberdades.” Nas palavras de Chomsky: “Minhas metas de curto prazo são defender e até mesmo reforçar elementos da autoridade do Estado que embora sejam ilegítimos de maneira fundamental, são decisivamente necessários neste momento para impedir os esforços dedicados a atacar os progressos que foram conseguidos na extensão da democracia e dos direitos humanos.”

Na entrevista Reforma e Revolução (que pode ser lida na íntegra aqui), publicada no Brasil no livro Notas Sobre o Anarquismo, Chomsky nos explica melhor o que pensa (a citação é longa, mas valiosa):

 “Os trabalhadores brasileiros tinham algumas escolhas. Uma delas era simplesmente se subordinar a um poder absolutamente brutal. A outra era tentar expandir, em alguma proporção, a estrutura na qual poderiam atuar, e, então, mudar e conseguir algo mais – reconhecendo que estavam numa jaula, o que significa um sistema de opressão. Ora, algum anarquista sério veria um problema sobre qual escolha fazer? Digo, você deveria permanecer sob um sistema de opressão muito mais duro, ao invés de conquistar alguns direitos, utilizando essas vitórias como base para algo além, descobrindo como são possíveis as vitórias, e continuar a partir disso? Eu acho que não. E nem acho que isso seja uma questão. Agora, uma lei sobre o salário mínimo digno é uma lei. Ela passa por alguma organização governamental. Por isso, é errado lutar pelo salário mínimo digno? Eu acho que não. De fato, lutar por esse salário é também um modo de fazer as pessoas entenderem: ‘Olhe, nós podemos vencer. Nós não temos que aceitar o que acontece conosco. Existem formas de agir. Podemos agir juntos e conquistar coisas.’ Isso nos leva à questão das alternativas. Podemos construir alternativas? Sim, se soubermos que é possível fazer alguma coisa. Se as únicas opções disponíveis forem simplesmente seguir as ordens sendo você mesmo, ou tentar distinguir da melhor forma possível num ambiente opressor, você também não estará criando alternativas.” 

Com a boa companhia de Chomsky, defendo que a luta independente pelo fortalecimento da esfera pública, de melhores condições de vida para os debaixo com protagonismo destes, não impede que tenhamos a clareza de que governos como os de um Aécio Neves (representante puro sangue da elite brasileira) não signifiquem o mesmo que o governo petista. Quanto mais próximos da utopia capitalista, pior estaremos. Um caminho bom, para mim, é a completa independência dos movimentos, com a habilidade de se relacionar (pela pressão e negociação por ampliação de direitos) com as instituições. Não é porque somos contra que elas deixarão de existir. Mas já estou saindo do tema. O que estou propondo é deslocar o significado das eleições. Não se trata de um plebiscito pela organização social ideal. Não se trata de uma afirmação de identidade de cada indivíduo. Não é um cheque em branco para ninguém. Para mim é puramente uma escolha entre formas de gerir o capital mais ou menos agressivas para os debaixo, os que realmente ficarão com o ônus desse resultado. Essa menor agressividade petista não significa que seja igualmente dividida entre todas as partes, é verdade, mas não deveríamos temer lidar com a contradição, ela é que nos move, coletiva e individualmente.

E as contradições deste governo não são poucas, para usar de eufemismo. Repressão aos movimentos sociais (ainda há petista que insista na patética tese de que junho de 2013 foi um movimento de direita, tucano, de perseguição ao governo!), aos povos indígenas e aos moradores das favelas, as demissões dos grevistas do IBGE; alianças com representantes do atraso, favorecimento ao agronegócio, à indústria do automóvel, forte inclinação do viés predatório-ambiental de desenvolvimento etc. Ao mesmo tempo foi o projeto de governo que barrou a Alca (imagino o desastre que viveríamos em especial após a crise de 2008), inverteu as relações diplomáticas e econômicas com ênfase na América Latina e África, permitiu a criação da Comissão da Verdade (cujos resultados serão fundamentais para a transformação da violência estrutural de interesse de classe do estado brasileiro), e produziu o pacto social “lulista” para tirar o Brasil do mapa da fome e incluir a parcela mais pobre da sociedade no mercado de consumo, para colocar parte da juventude pobre e negra na universidade, e sem entrar em conflito com o capital (sugestão: Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica de Tales AbSaber, pela editora Hedra). Recomendo a leitura do texto de Luciana Oliveira, advogada que participou desde o início dos trabalhos de criação do Bolsa Família, do qual destaco um trecho aparentemente pouco significativo, mas forte demais: “O objetivo era claro, alcançar as famílias pobres, as excluídas por mais de 500 anos, as que nunca haviam sido, de fato, vistas por ninguém, as que nem “existiam” no mundo jurídico porque estavam alijadas até mesmo do processo de identificação de pessoas – muitas delas não tinham sequer certidão de nascimento.” (o texto na íntegra aqui).

Naturalmente não imagino nenhum dos conservadorismos da “era PT” sendo redesenhados de forma progressista em um retorno tucano. Pelo contrário, e não preciso mencionar a linha dura neoliberal do partido da burguesia puro sangue para convencê-los de que até mesmo as “poucas” melhorias de vida estariam sob risco. Retrocesso não é só uma palavra, o significado é real e pesará nas costas dos debaixo.

Diante deste cenário, que se encerra amanhã, alguns setores da esquerda não-petista decidiram por não apoiar a continuidade deste governo, outros decidiram apoiar com mais adesão, outros decidiram apoiar com menor adesão. Estou entre os dois últimos. Confesso que não consigo entrar no Transe Coração Valente, nem ceder parte do meu narcisismo e me identificar com o governo. Considero esta adesão acrítica nociva e permissiva para um projeto que, sem pressão pesada à esquerda, se venderá cada vez mais como algo que não é. Não estamos na utopia, não são esses os nossos sonhos de igualdade política, social e econômica. Adoraria que os militantes do voto se lançassem na militância também no período entre eleições. O perrengue que o PT passou nesta eleição tem relação direta com este abandono. Mas não quero dar ideia errada: se vierem pra luta, que não a burocratizem ou subordinem à agenda eleitoral. O movimento funciona melhor se estiver a serviço da vida.

Compreendo os setores que optam pelo voto nulo (e são diferentes os votos nulos, dos tradicionais anarquistas aos “marineiros”) tanto por não conseguirem aceitar a própria existência deste sistema ou pelos conservadorismos deste governo. Mas adoraria que pensassem em como isso pode parecer insensível diante daqueles que testemunharam melhores condições de vida. Será que isto ajuda a dialogar com a classe e criar relação de confiança? O “excesso” de solidariedade não pode parecer pouco caso? Essa impossibilidade de lidar com pragmatismo não revelaria também um traço sutil, inconsciente, de esperança por um governo não-degenerado, combativo e imune às correlações de força da “política grande”? O pessimismo completo com relação às transformações profundas via instituições é que impulsiona meu pragmatismo.

Não acredito que os não-petistas que torçam, como eu, pela vitória de Dilma, sejam favoráveis às contradições acima exemplificadas, assim como não acredito que “marineiros” de esquerda defenderiam pra valer a política econômica neoliberal do que seria o governo dela caso eleita. Prefiro acreditar que estes dois grupos venham a trabalhar juntos nas lutas pelas pautas populares, as reformas urbana e agrária popular, a democratização dos meios de comunicação, a revisão da Anistia para os torturadores e responsáveis pelos anos de chumbo, as demarcações de terras indígenas, ampliação dos direitos trabalhistas etc. Ficar demasiado preso a posições obsessivamente coerentes pode engessar o indivíduo, tornar o sujeito ativo num ambiente político radical, mas endógeno, hermético, pouco saudável além de tudo.

Aos petistas puro sangue recomendo uma “reciclagem” política. A denegação do fenômeno de junho de 2013 é absolutamente sintomática. Para começar, essa verdadeira miopia faz com que o partido não consiga compreender como aquele processo é fruto das transformações reais que empreendeu (pequenas, do ponto de vista do longo prazo e enormes, do ponto de vista do cotidiano, do tempo presente). Mexeu com a estrutura de classes no país, expôs muitas contradições. Ainda não deu tempo para que surjam novas sínteses, novas referências sobre como viver num Brasil diferente do que estávamos habituados. Meu receio é que diante de um cenário de incertezas, as forças políticas de esquerda radicais ou institucionais não estejam conseguindo oferecer respostas, apontar caminhos. Não desejo o fim do PT, gostaria que os espaços de poder político fossem ocupados por pessoas mais à esquerda. Acho que o PT tem uma responsabilidade imensa de, ao tirar boa parte do país da miséria e da fome, oferecer não apenas a saída das soluções individuais, de consumo, do estilo de vida pequeno burguês pouco generoso. É preciso disputar também os corações da “nova classe média”, com um ideal mais coletivo, menos competitivo, menos aberto para o transe de direita, essa loucura que não é apenas antipetista, mas antiesquerdista, antipopular, violenta e protofascista, extremamente regredida.

Além disso, é fundamental que desta reciclagem saia uma auto-crítica sobre como o partido perdeu (e isso é bom) a hegemonia sobre a esquerda. Aí estão o MPL, os garis do Rio de Janeiro, a luta indígena, os motoristas e cobradores de São Paulo. Junho de 2013 teve como legado a redução das passagens de ônibus em quase 200 cidades brasileiras, num montante de economia para a classe trabalhadora perto do valor de um ano de Bolsa Família, mas também o incentivo a trabalhadores e trabalhadoras a se organizar independente das direções de seus sindicatos, por exemplo. Uma cultura de luta dos debaixo se abriu no país, depois de sei lá quantos anos. Irão ignorar isso e arriscar perder ainda mais terreno aqui no chão?

O dia 26 de outubro de 2014 me faz pensar numa curiosa ironia. Foi num dia 26 de outubro, há dez anos, que o Movimento Passe Livre ocupou a Câmara dos Vereadores de Florianópolis para arrancar a aprovação da Lei do Passe Livre Estudantil (pauta principal do MPL antes de adotarmos a tarifa zero). Diante da ameaça dos vereadores em não votar o projeto, preparamos camisetas com a sugestiva pergunta: “Votação ou Revolução?” O projeto foi aprovado. Meses depois, com uma nova prefeitura conservadora, a Lei do Passe Livre foi derrubada pelos seus aliados no judiciário. Saudades de 26 de outubro de 2004. Que passe logo o 26 de outubro de 2014.

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Daniel Guimarães: Florianopolitano exilado em São Paulo, ex-jornalista em atividade. Anti-editor do site TarifaZero.org e integrante do Movimento Passe Livre. Acompanhante Terapêutico, estudando para ser psicanalista e, principalmente, acima de tudo Rubro Negro. Esse texto é a estreia de sua coluna mensal intitulada EM TRANSE

domingo, 19 de outubro de 2014

Clippagem amiga do NR para o debate eleitoral

por Thiago Domenici

Faço aqui uma seleção de textos que considero interessantes para o debate em torno das eleições. São avaliações de pessoas de vários espectros ideológicos e políticos, sobretudo, mais à esquerda, por força das características desse blog e desse editor. O que está aí considero poder ajudar a clarear as ideias sobre o cenário conjuntural do primeiro e segundo turno das eleições. Sobretudo agora, nesse clima de polarização PT-PSDB onde vemos uma avalanche de informações.
ARTIGOS
MATÉRIAS | NOTÍCIAS | ENTREVISTAS
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Carta Aberta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Prezado ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,

Como catarinense e, portanto, natural de um estado no qual a vitória de seu candidato foi tão marcante, me senti no direito de responder à sua entrevista pós-primeiro turno.

Como sociólogo o senhor deveria saber que um argumento, para ser considerado válido, não pode simplesmente atacar quem o defende. Quando o senhor ataca, portanto, de "ignorantes" ou "mal-informados" os que defendem o projeto petista de país, o que o senhor produz é uma falácia. O senhor certamente não faltou a essas aulas de filosofia, mais precisamente de lógica, não é?

Como político, todavia, sua entrevista reforça preconceitos, uma "excêntrica" xenofobia interna, já que o "xenos" não é estrangeiro, mas bem brasileiro, pobre, em especial nordestino. Não sei de qual teoria sociológica ou antropológica o senhor se serve para tais afirmações, mas ousaria dizer que não possuem reconhecimento científico.

Mas, como "social-democrata", me espanta ainda mais. Primeiro, porque o senhor, além de esquecer qualquer iniciativa de um estado de bem-estar social em seus oito anos neoliberais de governo, parece ter esquecido, também, o princípio básico da democracia, aquela que os Gregos nos ensinaram. Cada cidadão um voto, lembra? Não importa seu ofício, sua idade, sua origem e, diríamos hoje, gênero, raça, orientação sexual etc. Por que, então, o voto de um pobre é menos voto do que de um rico? Qual foi o tratado sobre democracia que o senhor leu e que não li, que garante essa distinção, porque eu desconheço. A democracia, "nobre" ex-presidente, é o regime do "qualquer um", lembra? Dos escolhidos à sorte pelos Gregos, já que não havia diferença entre "qualquer" Grego. Isonomia, lembra? Nome "chique", né? Certamente os Constantinos, Mervais e Azevedos que o veneram conhecem esse termo.

É, infelizmente o senhor esqueceu, ou finge esquecer para dar conta de municiar com falácias esse sentimento de rancor e de ódio que se dissemina, infelizmente, em mentes não tão brilhantes por esse país. Esses "ignorantes", que não moram nos grotões, mas bem perto de vossa senhoria, e que, infelizmente, não tiveram as mesmas oportunidades de estudo que o senhor, não sabem discernir bem um argumento de uma falácia, mas o senhor sabe, o que lhe torna mais responsável, como ensinou o nosso velho amigo Sócrates.

Da próxima vez, ex-presidente, cuide melhor de seu conceito de "democracia". Nós que votamos em Dilma sabemos bem o que ele significa. Afinal, foi um "qualquer um" que iniciou esse processo de diminuição da desigualdade social, de extinção da fome e da miséria extrema, de pleno emprego. Um "qualquer um" que fez mais universidades e escolas técnicas que "qualquer outro" presidente. Nós sabemos bem o nome desse "qualquer um" e de sua sucessora. O senhor quer que eu lhe lembre? Foi um igual à maioria dos brasileiros, não um doutor, que nos aproximou mais do verdadeiro sentido de democracia, do sentido de "povo" aí presente. Não essa que vocês tentam oligarquizar, separando os "sábios" dos "ignorantes". Sabe, ex-presidente, essa expropriação da democracia é uma estratégia política já manjada, desde os Gregos. Talvez a "intelligentsia" que o acompanha não saiba. Seria mesmo esperar muito de quem pensa a democracia a partir de Veja, Folha, Globo e seus similares, não é?

Mas pode deixar. Nós, os "burros" e "mal-informados" eleitores de Dilma podemos relembrá-los, sempre. Nós continuaremos por aqui. A "raça" do PT continuará, mesmo que o instinto totalitário de muitos nos queiram ver eliminados. Nós lutamos pela democracia e a respeitamos. Por isso a vitória de seu candidato, se vier a acontecer, não será objeto de ódio e preconceito. Aceitaremos. Afinal, cada voto, vindo de onde vier e proferido por quem for, assim o quis. E a vontade do povo é soberana. "Ignorante" ou "sábia", pouco importa à democracia.

Cordialmente,

Vinicius B. Vicenzi (Especial para o Nota de Rodapé)
Doutorando em Filosofia na Universidade do Porto (Portugal).

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hitler descobre o "Tucanoduto"

por Izaías Almada*

O grande jornalista Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, costumava dizer que quando a situação não estava boa, o urubu de baixo cagava no de cima.

Parece que o Brasil descobriu o protesto de rua no ano de 2013 da Graça de Nosso Senhor. E o espanto foi tanto, que muita gente resolveu interpretar o fenômeno alegando perplexidade diante dos fatos.

Houve, e continua havendo, protestos para todos os gostos e uma avalanche de análises que, para meu espanto, demonstram o quão alienado o país ficou com o golpe civil/militar de 1964 e, sobretudo, com os anos dourados do neoliberalismo caboclo comandado por governos de viés conservador, para não dizer reacionário, como os anos de Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A democracia foi transformada em simples referência histórica e as cabeças são manipuladas por gente muito esperta e cheia do vil metal.

Abaixo mais uma das inúmeras versões que se espalham pelo youtube com o aproveitamento de imagens de um filme alemão sobre Hitler, quanto a mim a melhor delas.



*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cada vez mais patético

A cada dia do governo Dilma Rouselff, fica mais patético o patético vídeo pit bull da patética campanha do PSDB

Transcorridos 150 dias do governo Dilma Rousseff, a esquerda aguarda sentada por sinais de que os rumos mudarão. Enquanto isso, assiste de camarote ao avanço conservador no Palácio do Planalto. Comissão da Verdade e regulação da comunicação, consensos ocos de primeira hora, são tratados a banho maria.

A esta altura, o apocalíptico vídeo lançado “na miúda” pelo PSDB durante a campanha eleitoral de 2010 soa cada vez mais digno de gargalhadas. Se há ainda algum motivo para rir em relação ao governo Dilma, eis-lo. As imagens que mostravam que o presidente Lula não conseguiria segurar os pit bulls do PT, uma alusão aos “radicais” do partido, soam a cada dia mais patéticas.

Se àquela altura não havia motivo para acreditar na estapafúrdia hipótese, hoje a peça publicitária poderia ser refeita para mostrar que o difícil é segurar os exaltados do PMDB, do PR, do PTB, do PSC, do PDT e de tudo quanto é P, mais ou menos conservador, que integra a base aliada.

Colocado em posição incômoda pelos próprios erros, pelos erros do PT e pelo erro de acreditar na aliança com partidos que representam o que há de pior no país, Dilma vai desenhando um primeiro ano de gestão absolutamente conservador. Não faz falta falar sobre a decisão de privatizar aeroportos.

A essa altura, um vídeo igualmente patético que quisesse parecer verossímil poderia mostrar a presidenta rompendo com Lula, mas não para instalar o “autoritarismo de esquerda” no país, como queriam fazer crer os tucanos, e sim para reforçar a agenda ultraconservadora do PSDB, apenas parcialmente alijada do centro das propostas para o país durante o governo anterior.

No campo econômico, prevalece a ortodoxia, aceitando quase tudo quanto é imposto pelo mercado e pela imprensa comercial, em sua criminosa campanha a favor da inflação. No campo social, reafirma-se a crença na mitigação dos deletérios efeitos do capitalismo, como demonstrado no lançamento do Brasil Sem Miséria, em detrimento da construção de modelos alternativos baseados na economia solidária e na superação das contradições inerentes ao atual sistema.

Foi de assustar não apenas a decisão de vetar o kit para combater a homofobia nas escolas, mas a justificativa apresentada publicamente pela presidenta, por não achar correto “nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”, discurso é idêntico ao da bancada religiosa no Congresso, responsável direta pela suspensão do material elaborado pelo MEC.

O erro de utilizar “opções sexuais” no lugar de “orientações” apenas reforça aquilo que já se sabe, de que Dilma não tem histórico de debate junto a movimentos que batalham por conquistas sociais. Lula devia satisfações a estas organizações e aos sindicatos, inscritos em seu DNA. Dilma não deve explicações nem mesmo ao PT, do qual jamais foi um quadro forte, histórico ou simbólico.

Ainda na seara social, o governo atual diz não ao massacre de camponeses na Amazônia Legal, mas trabalha loucamente para iniciar as obras de hidrelétricas e rodovias que resultarão em mais desmatamento, levando a novos conflitos agrários e a novos assassinatos de populações marginalizadas.

Reafirma-se o poder de coronéis locais com os quais, aliás, esta e a anterior gestão não fizeram questão de romper, como demonstra o caso de José Sarney – apenas para ficar no exemplo mais óbvio.
Ainda a este respeito, soou desmedida e descuidada a reação às críticas feitas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre o processo de concessão das licenças para construção de Belo Monte.

A destacar-se a fala de Nelson Jobim, o ministro fardado, que pediu que a Organização dos Estados Americanos (OEA) vá cuidar de outros assuntos. Mais felizes as palavras de Frei Betto em entrevista a este repórter: “Se o Brasil está insatisfeito com o que seria uma ingerência da OEA em assuntos internos, siga o exemplo de Cuba: rompa. Agora, se o Brasil continua como signatário e membro da OEA, precisa respeitar as decisões da OEA.”

Preocupa também a postura do chanceler Antonio Patriota, que dá seguidas demonstrações de inclinação aos Estados Unidos e aos países ricos em geral, podendo deixar em segundo plano a tão bem sucedida política de Celso Amorim, que acertou em cheio ao priorizar a construção de relações mais sólidas dentro do Hemisfério Sul.

É curioso notar que Patriota, José Eduardo Cardozo, Gilberto Carvalho, Guido Mantega e Miriam Belchior, apenas para citar parte do núcleo central de ministros, falam todos a mesma língua. Afinar o discurso que será feito da porta para fora do Planalto pode ser acertado para evitar a lavagem de roupa suja por meio da imprensa, mas é irritante notar que Maria do Rosário e Jobim, no governo Dilma, às vezes parecem a mesma pessoa, o que – definitivamente – não são. Irrita ainda mais notar que o discurso uníssono se dá também em mão única: em direção aos conservadores. A esquerda, Dilma, aqui estamos, por vós esperamos.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O jornalismo-FHC está à cata de domésticas fugidias

Lê-se num jornal desta semana uma espécie de guia sobre como “encontrar” uma empregada doméstica, essa “mercadoria” em extinção em tempos de crescimento econômico e ganhos salariais. Há momentos em que essa profissão, a de jornalistas, regala-me um misto de vergonha própria e alheia.
Própria porque, no fim das contas, também estou incluído nesta genericamente denominada imprensa, uma expressão totalizante que abarca tudo o que de ruim pode haver no Brasil. Alheia porque... bem, desnecessário dizer como funcionam as mentes de alguns de nossos colegas. Viva o jornalismo-FHC: esqueçamos o povão, miremos a classe média.
Por que colaborar para as mudanças sociais se podemos ser importantes para assegurar mais uma tranquila noite de sono aos detentores do status quo? Por que ajudar a enterrar essa nossa instituição pós-escravagista, a doméstica, se podemos nos beneficiar de baixos salários e exploração de mão de obra? E ninguém ouse dizer que nossa renda está mais próxima da classe D que das classes A e B – um dia chegaremos lá no alto.
A questão é que os jornalistas somos, hoje em dia e via de regra, integrantes da mais autêntica classe média. Temos nascença, criança e vivência de classe média – branca e de olhos azuis, e não esta nova que o lulismo quer nos impor. Nas horas de folga, circulamos por bairros de classe média, comemos com gente de classe média e, eventualmente, ficamos contentes com a oportunidade de lamber as botas de algum representante dos estratos mais altos – de quem, aliás, fingimos ser íntimos, pois gozamos todos de informações preciosas e anseios comuns.
Ficamos até com um sorrisinho no canto da boca quando xingados por um ilustre político que more em Pinheiros, na Pampulha ou em Copacabana, afinal são pessoas ilustradas que estão a corrigir-nos essa mania de indolência. Mas usamos palavras agressivas ao entrevistar o presidente metalúrgico, um desses que não sabem ocupar o lugar a ele reservado na sociedade – somos esclarecidos e devemos ensiná-lo o funcionamento do sistema de castas brasileiro.
Nossa experiência também é de classe média. Trocamos o Complexo de Super Homem pelo Complexo de Marcelo Madureira, incapazes de nos darmos conta da realidade do país. Não fazemos isso porque somos burros, mas porque não conhecemos a realidade do país. Achamos que o Brasil é aquilo que nos chega pelo Facebook, pelo Twitter, pelo iPad, pelo iPod, pelo iPhone e pelo iQue-cara-a-fatura-do-cartão.
Conhecer as ruas, conhecer a periferia são tema proibido pelo falta de perspectiva própria ou, quando não, pela falta de perspectiva de algum superior hierárquico atolado em um mundo virtual que julga ser ultra-interessante, mas que não corresponde ao mundo real, nem em assuntos, nem em velocidade – tema para outra conversa.
Não por acaso, reproduzimos os sensos comuns de que os políticos são todos iguais, de que a classe média é diariamente torturada por ricos e pobres, de que o Estado não pode intervir no mercado (instituição mais sagrada que o Clero), de que o Bolsa Família é coisa para vagabundo – não faltam especialistas em nossas agendas telefônicas para comprovar qualquer uma dessas teses.
Nos indignamos mais com o aumento do preço da gasolina que usamos em nossos carros do que com o aumento do preço do ônibus, um transporte para pobres, não para nós, os esclarecidos. Sofremos mais com o reajuste da mensalidade escolar que com a necessidade de garantir o básico direito à educação gratuita. Gastamos 15 dias de trabalho ao ano para criticar o aumento dos planos de saúde, mas vamos uma vez por década a um hospital público ver como andam as longas filas e os maus tratos.
Em suma, não perdemos a capacidade de indignação, motor básico do jornalismo, mas nos indignamos com as coisas erradas: somos tão chiliquentos e histéricos quanto Madureira. Se pecamos pelo conteúdo, tampouco primamos pela forma. Tal como os representantes típicos da classe média, achamos que sentados no sofá, reclamando, mudaremos as situações ruins, desconhecendo que é mais fácil, mais inteligente e mais honesto com os leitores que apreendamos a realidade das ruas.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Senador, não tenho obrigação de me curvar ao poder

O senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou nesta quinta-feira (28) ao jornal Folha de S. Paulo que minha versão sobre o xingamento proferido por ele na última segunda-feira (25) é “mentira de petista”. Após me chamar de “pelego filho da puta”, diz o senador que sou “insolente.”
Vamos por partes. Quanto ao que me toca, o senhor sabe que não é mentira. O que eu lucraria inventando essa história? Como já lhe disse antes, sou jornalista, apenas relato aquilo que vi. Invenções, deixo-as para aqueles que se interessam por elas. Sobre o “petista”, senador, há coisas que a gente precisa provar quando fala. Essa é uma delas. O senhor pode revirar todos os registros do PT que não vai encontrar qualquer ligação entre mim e o partido. Se encontrar, pode escolher o local em que devo lhe pedir desculpas publicamente.
Se não encontrar, faz aquilo que deveria ter feito desde o lamentável episódio: retrata-se, mostrando que, como homem público, sabe reconhecer erros. Um colega seu, o prefeito Gilberto Kassab, já o fez uma vez e, ao que parece, segue vivo. A questão, senador, é que o mundo não está dividido entre tucanos e petistas. Recorrer a simplificações demonizantes, como se tudo que lhe ocorre de ruim na vida fosse culpa do PT, não vai resolver o problema.
Quanto à terceira acusação, a de ser “insolente”, contento-me em analisar o uso histórico desta palavra. Insolente era a característica que se atribuía aos escravos “rebeldes” ou “fugidios”. Depois, como nosso país não apagou certas heranças, passou a ser maneira como as elites chamavam aquele funcionário que tinha a ousadia de ter pensamentos próprios. É aquela empregada que irrita os patrões porque tem a insolência de atender o celular durante o trabalho. É aquele funcionário que enerva o chefe porque tem a insolência de propor que seu salário de miséria seja aumentado.
Então, sob os olhos da elite, sou mesmo insolente. Afinal de contas, não me agacho frente a uma pessoa pelo simples fato de ela ter mais posses ou mais poder do que eu. Muito pelo contrário, olho nos olhos de quem quer seja. Minha espinha, senador, nasceu com essa terrível mania de não se curvar. Sei que há colegas de profissão que não têm problemas em serem subservientes, em terem coleguismos com o poder. O senhor me perdoe, senador, mas não é meu caso, e isso não me faz insolente nem petista.

- A resposta de Aloysio Nunes Ferreira

Diferentemente do que o senhor insinua, sou jornalista sem aspas, jornalista de verdade. Como lhe disse, sou formado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e em algumas das redações para as quais gente de seu partido certamente dispensa grande apreço. Agora, se o senhor ainda não tirou o pé da Casa Grande, lamento. O meu já deixou a Senzala há algum tempo.

João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual

Reportagem da Folha de S.Paulo de hoje:

Jornalista diz que foi xingado por tucano antes de debate

DE SÃO PAULO

O jornalista João Peres, da "Revista do Brasil", diz ter sido chamado de "pelego filho da puta" pelo senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP).
A agressão, diz, ocorreu na última segunda-feira, antes de debate dos presidenciáveis na TV Record.
O tucano admite tê-lo chamado de pelego, mas nega o palavrão.
À Folha Peres disse que o tucano teria perguntado para qual veículo ele trabalhava e, depois, teria se negado a dar declarações. "Eu disse: "educado, hein, senador?". Ele respondeu me xingando".
Aloysio Nunes confirma parte da história. "É pelego mesmo. É revista pelega, paga com dinheiro público para fazer campanha. E ele foi insolente. Perguntou se eu não falava com trabalhadores".
Questionado sobre o palavrão, Aloysio disse: "É mentira de petista. Estão querendo me colocar contra a mídia".
A "Revista do Brasil" é ligada ao movimento sindical e foi alvo de representação apresentada pela coligação de José Serra (PSDB), que pediu à Justiça a retirada da revista de circulação, alegando de que estaria atuando em favor de Dilma Rousseff (PT).
Houve decisão favorável à coligação tucana, baseada no argumento de que sindicatos não podem contribuir com candidatos ou partidos.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A democracia que só fala com os amigos

Foi com espanto e tristeza que ouvi os xingamentos a mim dirigidos pelo senador eleito Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Na noite de segunda-feira (25), o ex-chefe da Casa Civil do governo paulista classificou-me como “pelego e filho da puta.” A agressão verbal ocorreu antes do debate realizado pela Rede Record entre os candidatos à Presidência da República.
Ao senador, não havia, até aquele momento, dirigido nenhuma palavra. Tudo o que ele sabe de mim, naquele instante e agora, é que trabalho para a Rede Brasil Atual e para a Revista do Brasil. Parece ser suficiente para que se sinta no direito de proferir insultos: são veículos produzidos por uma empresa privada cuja receita vem da prestação de serviço (venda de anúncios e assinaturas) a pessoas físicas e jurídicas – incluindo sindicatos de trabalhadores.
Foi por conta desse aspecto que o PSDB obteve liminar, via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vetando a continuidade da distribuição e a divulgação da edição 52 da revista na internet sob a argumentação de que dinheiro do trabalhador não pode financiar material eleitoral - este assunto já foi discutido aqui e a editora apresentou recurso ao TSE, não cabendo de minha parte qualquer argumentação.
O que a mim, como jornalista, é importante debater é a maneira como o senador se sente no direito de tratar a imprensa. É deplorável que, como repórter, tenha de me posicionar contra a agressão que sofri, deixando de exercer o fundamento básico da minha profissão, que é escrever sobre os outros, e não sobre minha vida. O único bem de um jornalista, ao menos daquele que não se presta a coleguismos com o poder, é a palavra: é ela que ouço, é com ela que conto histórias.
Quando o senador classifica a mim como “pelego filho da puta” porque trabalho em um veículo que jamais escondeu sua posição favorável à continuidade do atual projeto de governo, recorre a uma simplificação lamentável. Seguida a linha de pensamento do futuro parlamentar, todos os que trabalham em Veja, Folha, Estado e O Globo são, necessariamente, tucanos – e aí o leitor escolha o adjetivo que deve acompanhar a classificação.
A fala do senador é reveladora da propensão a não lidar com o contraditório. Talvez por maus costumes: quem circula pelos eventos políticos brasileiros sabe a cordialidade com que são tratados alguns líderes políticos, plenamente oposta à ferocidade dispensada a outros. Ao recorrer a esta simplificação, realiza-se um desmerecimento prévio de meu trabalho, numa triste tentativa de intimidação de minha atuação. Simplificação que teve continuidade no Twitter, em que o senador utilizou aspas para dizer que sou jornalista: "O 'jornalista' faz o que eu esperava dele: mente quando afirma que o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o que é verdade e, a mim, muito pior."
O senador sabe as palavras que proferiu. Se quer admitir em público ou não, para mim é indiferente. O que não se pode colocar em dúvida é minha formação e minha integridade profissional. Sou jornalista – sem aspas – formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Minha passagem pelo Departamento de Jornalismo e Editoração, portanto, está lá registrada, caso alguém se interesse em averiguar.
Daqui por diante, como o senador espera que se proceda para entrevistar algum integrante do PSDB? Será que a democracia ideal contempla apenas a manifestação das vozes amigas (e queridas), sem espaço ao debate necessário para o amadurecimento da sociedade e, por consequência, da realização do bom jornalismo? O PSDB, que tem recorrido a simplificações para acusar adversários de quererem cercear a liberdade de pensamento, é quem mais nos fornece exemplos deste suposto cerceamento. Já não cabem nos dedos de uma mão: a restrição da circulação da Revista do Brasil, a censura ao jornal ABCD Maior, a tentativa de agressão do padre que se manifestou contra boatos, a ação no Paraná para impedir a publicação de pesquisas eleitorais, a "criminalização" de jornalistas que fazem perguntas efetivas a Serra e, agora, este xingamento.
Uma coisa é a opinião de um veículo. Outra, que não se confunde, é a opinião do jornalista. Esta, manifesto em blogues e nas redes sociais da internet, bem como outras centenas de profissionais da área, e deixo para trás quando estou na condição de repórter. Nas redações nas quais trabalhei, e há nesta lista algumas que o senador seguramente vê com bons olhos, sempre mantive minha posição de não deixar que interesses se misturem. Cumpro o compromisso de ouvir todos os lados. Como teria feito na última segunda-feira, se me tivesse sido conferida, pelo senador, tal oportunidade. Espero que, na próxima ocasião, Aloysio Nunes se mostre aberto ao diálogo. Sem ofensas, sem simplificações.

O que o senador disse no Twitter:
# O "jornalista" faz o q eu esperava dele: mente quando afirma q o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o q é verdade e, para mim, muito pior. 35 minutes ago via TweetDeck
# O "jornalista" perguntou se eu não falava com trabalhador. Respondi: falo com trabalhador, com pelego, não falo (segue) 36 minutes ago via TweetDeck
# Revista sindical que faz campanha da Dilma, bancada por dinheiro público, quis me entrevistar na Record e eu recusei (segue) 40 minutes ago via TweetDeck
# Caros, vejo que o assunto sobre o jornalista da Rede Brasil Atual voltou ao twitter. Respondi ontem. Acho perninente repetir. Vamos lá:

João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter Rede Brasil Atual

Repórter do NR e da RBA é ofendido por senador do PSDB

João Peres, nosso colaborador do NR e repórter da Rede Brasil Atual, profissional da mais alta competência teve ontem uma experiência desagradável e desrespeitosa.  Ele estava na cobertura do debate entre os presidenciáveis da Record, na noite de ontem, e na entrada da emissora, como todo repórter faz e é da profissão, foi conversar com os políticos que chegavam para acompanhar o evento.  O senador eleito por São Paulo, do PSDB, Aloysio Nunes, amigão do Serra, foi abordado pelo repórter que fazia a cobertura para a Rede Brasil Atual, que pertence ao mesmo grupo da Revista do Brasil, censurada recentemente pelo partido do senador em questão. Era perto da hora do debate, que começou às 23h, quando o senador eleito com mais de 11 milhões de votos indagou ao repórter:

- é ligada a quem essa revista?
- aos sindicatos
- que sindicatos? - falou a assessora do lado dele
- bancários, metalúrgicos, químicos...
- pelego, você é pelego - falou o senador
- não podemos conversar, senador?
- pelego. sua revista é financiada pelo PT...
- e a Veja, quem financia, senador?
- pelego
- que educação, senador
- pelego filha da puta. pelego filha da puta!

João me escreveu: "foi assim, gratuito. fiquei passado, triste mesmo. não que não devesse esperar isso, mas agora vai ser isso, vou ser rotulado logo de cara pelo veículo em que eu trabalho? ninguém associa a tucano-demo logo de cara um sujeito que trabalha na folha? uma noite horrível." Digo o seguinte: é preciso que os políticos respeitem o trabalho dos jornalistas. Esse clima de guerra entre PT e PSDB está doentio. João Peres é um trabalhador, um empregado de um veículo que, sim, tem ligações com os sindicatos. E daí? Isto é público e notório. Nada está escondido. Pergunto ao distinto senador: todos os metalúrgicos, químicos e afins são "filhos da puta", então? Eu sou "filho da puta" também, pois apesar de não ser petista, trabalhei na revista durante um ano. Eis mais um absurdo que se tornou estas eleições. Lastimável.
"A Editora Atitude, que publica os dois veículos (Rede Brasil Atual e Revista do Brasil), condena a postura do senador eleito e entende que liberdade de expressão não é agredir verbalmente quem está em seu direito constitucional de exercer a liberdade de imprensa, muito menos a função de um representante de um Estado no Senado Federal", diz o diretor da editora, Paulo Salvador.

Thiago Domenici, jornalista

segunda-feira, 21 de junho de 2010

No limite da irresponsabilidade

Há qualquer coisa de sinistro na figura do candidato José Serra. Não digo isso com qualquer intenção de atacar gratuitamente um candidato à presidência da República, nem para fazer coro com os que, com ou sem razão, tentam desprestigiá-lo. Devo confessar que nunca prestei muita atenção ao homem público José Serra, mas desde que ficou evidente a sua obstinação em ser um dia presidente do Brasil, obstinação cada vez mais acentuada nos últimos anos, tornou-se impossível não acompanhar algumas das suas falas, das suas atitudes ou mesmo de seus atos como administrador. É o mínimo que um eleitor pode e deve fazer.
O fato de um dia ter sido considerado um homem de esquerda e hoje construir o seu discurso mais ao gosto do conservadorismo de vários matizes não é o que mais impressiona. A História está cheia de exemplos de pessoas que passaram de um extremo ao outro no arco da ideologia e de sua representação em termos de política partidária. Temos no Brasil dois exemplos emblemáticos dessa migração de ideias ou de ideais, para ser mais preciso: Carlos Lacerda e Dom Helder Câmara.
Não. O que verdadeiramente impressiona e chama a atenção no atual candidato do PSDB à presidência, nesses últimos oito anos, pelo menos, é a dissintonia existente entre o que fala, como age e o que faz com os cargos políticos que ocupa ou aspira. Inventa dados (algumas entrevistas sobre economia), distorce fatos (entrevistas sobre enchentes em São Paulo), acusa sem provas (diz que o governo da Bolívia facilita o envio de cocaína para o Brasil), mente (sobre completar o mandato na prefeitura de São Paulo), age às escondidas (os blogs de baixaria contra a candidatura de ministra Dilma Roussef) e – o que me parece bem grave – quando confrontado com um dado concreto da realidade, como a epidemia da gripe suína, por exemplo, faz categóricas afirmações destituídas de um mínimo de conhecimento sobre o qual foi questionado, beirando ao ridículo. (Serra afirmou em entrevista que para se evitar a gripe suína bastaria a pessoa não ter contato muito próximo com os porquinhos)
A tal ponto José Serra vai se enveredando por um caminho político tortuoso, que já é possível identificar aqui e ali alguns sintomas do seu destempero. Um jornalista equilibrado como Luiz Nassif assim se expressou recentemente em seu blog: “Serra tem um monte de defeitos, mas o que anda dizendo não bate com seu histórico. Sempre foi um sujeito cartesiano, dono da boa opinião. Por tal, entenda-se a capacidade de assimilar conceitos inovadores divulgados pela mídia. Nunca foi de se aprofundar em nenhum tema, de assimilar nenhum conceito mais complexo – não por falta de capacidade, mas de gosto. Fora os temas das contas públicas – para os quais tem dois excelentes professores, o José Roberto Afonso e o Mauro Ricardo e de comércio exterior – não se conhece uma área em que tenha aprofundado os estudos. Mas o que anda dizendo, o linguajar chulo, as bobagens diplomáticas não batem com seu histórico de sujeito racional.”

Mais prudência
Nassif é um homem educado, vê-se logo. Deve saber muito bem o que está falando nas linhas e nas entrelinhas. O assessor presidencial Marco Aurélio Garcia afirmou ainda que Serra "deveria ser mais prudente" em suas declarações, que não são compatíveis com as suas "aspirações" ao cargo de presidente.
Colocado no palco da disputa eleitoral mais importante da sua vida, o que não é segredo para ninguém, a impressão que fica é a de que José Serra tem mais ambição do que competência. Tem mais vontade do que discernimento. Não é um homem preparado para a função que almeja, ao contrário do que prega. E aqui volto à abertura do artigo, o lado sinistro de Serra. Por quê toda essa obsessão em fazer uma coisa para a qual não está preparado. O que Serra pensa? Qual sua visão do mundo atual? Qual seu programa de governo? Perguntas simples, mas que cada vez mais se tornam difíceis de serem respondidas pelo candidato da oposição.
José Serra parou no tempo. Vive, para dizer o menos, nos anos 80 e não percebeu que o mundo mudou de século. Que o Brasil mudou de norte. Que a vida se faz com alegria e entrega, com solidariedade, e não com acusações e cara amarrada. Com respeito e não com inveja. Serra representa um retrocesso perigoso para um país que, a duras penas, vai tentando organizar sua economia e aplicar melhor seus recursos em programas sociais. Quem insiste em não enxergar esse quadro, como Serra, está no limite do suicídio político, pois não distingue a realidade dos seus desejos interiores.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé
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