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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três vivas para a conversinha sobre o tempo


por Tomás Chiaverini     ilustração Victor Zalma*

 Ele mal dá seta e já para na sua frente. Você para em seguida e leva um buzinaço que não lhe cabe. Mas que filho da puta! E ainda vai entrar na garagem do seu prédio. Agora fica aí, enrolando pra abrir o portão eletrônico. É só apertar o botão do controle, filho, não tem mistério não. Custa comprar uma bateria nova? Pronto, finalmente, um ano depois... Agora mais meia hora pra conseguir engatar a primeira. Mas foi. Aleluia, irmão!

Cacete! Não é que a vaga dele é mais fácil que a sua? Que filho da puta, com esse carrão enorme, todo automático, com sensor que apita em tudo que é canto. Tá na cara que é um desses novos ricos da Dilma. Deve pagar um por fora pro síndico. Agora você fica aí, fazendo manobra e o sujeitinho já parou, já se escapuliu do carrão, saiu todo apressado e vai tomar o elevador sem nem te esperar. Ok, esperou. Mas te fez correr. Fica embaçando no carro e agora dá de apressadinho aí, segurando a porta. Tem pressa de que? Piriri?

E esse terno? Lã fria risca de giz, camisa sob medida... Capaz que ganhe o dobro que você. Por isso corre tanto. Tem de subir logo pra abrir o Ipad e ver se não tem nenhum email do patrãozinho. Bem feito.

Rá, seu andar é mais alto. Mas o apartamento dele deve ser de dois quartos, cheio de televisores de led, home theaters e sofás reclináveis de veludo. Fica do outro lado do prédio, então a vista deve ser melhor também. Mas o que importa? Se tem de correr tanto pra responder o email nem deve conseguir parar em casa, muito menos olhar a vista.

Você pensa, tentando não olhar pro sujeitinho enquanto são içados juntos rumo ao céu, no caixote de metal espremido em meio a toneladas de concreto. E lá vem aquele silêncio constrangedor maldito. Ou:

- Esquentou, né?

- Pois é...

- Previsão disse que ia mudar o tempo, mas firmou.

- Parece que vai virar no fim de semana.

- Putz, é sempre assim. Sempre no fim de semana né? Quando o pessoal vai viajar, chove.

- Pois é.

- Boa noite.

- Boa.

E não é que o cara parece ser gente fina?

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Instagram


por Izaías Almada*

Como nossa saudável imprensa está sempre mais preocupada em desmoralizar o governo Dilma e o Partido dos Trabalhadores, ignorando criminosamente alguns feitos sociais e econômicos que engrandecem o país, é natural que – sem esse seu tema recorrente e predileto – se debruce sobre o que de mais efêmero e boçal se passa pelos neurônios de algumas celebridades. Coisas como o “tanquinho” do ator tal, o “corpaço” da modelo tal, o salário do CEO de alguma multinacional, quem é a nova namorada do Neymar e por aí afora...

A mais nova dessas idiotices ficou por conta dos jornais de terça feira dia 17 de setembro de 2013, sobre o enterro – após o velório de praxe – em que o playboy milionário (coisa mais antiga e ultrapassada) Chiquinho Scarpa anuncia o enterro de seu carro, um Bentley Continental, avaliado em um milhão de reais, nos jardins da sua mansão.

Os médicos brasileiros que boicotam o programa “Mais Médicos” do governo federal devem estar morrendo de inveja do Chiquinho e, com certeza, gostariam muito de tê-lo como paciente. Os torquemadas de plantão, que querem ver alguns dos réus da AP 470 queimando como bruxas medievais em praças públicas, babam – quem sabe – por não privarem da intimidade de tão augusta celebridade, que é capaz de queimar um milhão de reais.

Todos já ouvimos dizer que quem queima dinheiro é insano. Ouso acrescentar que insana é a sociedade que se alimenta de tanta idiotice. Por falar nisso, recomendo aos que ainda não viram o mais novo filme de Sofia Coppola (“Bling Ring”), que põe a nu o paraíso chamado Estados Unidos da América. Esse mesmo paraíso idolatrado por certa classe média brasileira, agora proprietária, como o ministro Barbosão, de imóveis em Miami, gente que acaba de criar um novo slogan do viralatismo: “me espiona que eu gosto”...

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carona solitária


por Ricardo Sangiovanni*

Sou um tipo ranzinza, pouco novidadeiro, é verdade; e é justamente por isso que cuido de redobrar no espírito a dose de uma antiga precaução: a de não desgostar de novidade nenhuma, a priori, apenas por tratar-se de coisa ou fato novo.

Porém que não me venha abusar da boa vontade esse pessoal que “inventa”, como se novidade fosse, alheias invenções do arco da velha, inventadas alhures, antanho, distante daqui. Descabelo-me mais ainda quando a invenção copiada, a original, já deu provas de sua redonda ineficiência – e, mesmo assim, é replicada.

O caso concreto em questão: a fabulosa “Faixa Solidária”, criada em Salvador, Bahia, Brasil, na quarta-feira passada. Foi o seguinte: a intelligentsia transporteira da prefeitura municipal netocarlista resolveu separar, em reduzidíssima porção da orla da cidade, meia pista de quem vai para ser usada por quem vem, desde que quem vem esteja dirigindo junto, no carro, com mais alguém.

A aposta, dizem, é que, a partir dessa iniciativa genial, desencadeie-se uma doce onda de solidariedade – tema, aliás, da Campanha da Fraternidade de mil novecentos e não-sei-quantos, não se esqueçam, irmãos em Cristo. Nobre sentimento que, espera-se, será decisivo para reduzir a quantidade de carros nas ruas de nossa urbe rude; sentimento que nos conduzirá, com fé, à vitória final prometida sobre esse terrível, esse dito adventício mal do século que é o engarrafamento.

Perfeito. Só que esqueceram de avisar aos baianos (ao menos aos que, como eu, passam de vez em quando o olho pelos jornais para saber o que está para acontecer na cidade) que a faixa solidária é uma artimanha já tentada em uma outra cidadezinha brasileira, uma cidadezinha acanhada e desconhecida, da qual quase nunca se ouve falar – talvez por isso ninguém tenha se lembrado dela – chamada São Paulo.

Foi no final dos anos 90 – acertou quem disse 1997 – e foi implantada não em uma, mas em oito vias movimentadas da cidade, coisa de 12 quilômetros, na soma. Começou reservada para carros com pelo menos três pessoas. Mas aí, vista a baixa adesão, liberaram para carros com duas pessoas. Passaram-se cinco anos, os engarrafamentos seguiram aumentando, e a quantidade de carros saindo pelo ladrão. Cadê solidariedade? Ora, amigo leitor, aí não teve solidariedade certa: nem bem 2002 tinha chegado à metade, a intelligentsia transporteira local (petista, nesse caso; intelligentsia não tem partido) não aguentou e resolveu liberar as tais faixas solidárias também para os motoristas dirigindo sozinhos, tamanha era a solidariedade que eles demonstravam consigo próprios em comoventes caronas solitárias.

E então as tais faixas solidárias paulistanas cumpriram seu verdadeiro destino, que seria cômico se não fosse trágico: tornaram-se mais e mais pistas engarrafadas, capazes, quando nada, de dar um aumentozinho no calibre das já entupidas artérias do trânsito de São Paulo. Pistas engarrafadas das quais, evidentemente, a São Paulo hoje já não pode mais prescindir. E os motoristas, pergunte se ficaram mais solidários…

Mas parece que nada disso aconteceu, que nada disso importa, que nada disso tem a ensinar a esse nosso intransponível bairrismo de Primeira Capital da Colônia.

Pois se o caminho é esse, começamos bem: em três dias, poucos usaram a faixa solidária, e o principal êxito foi ter-se criado um congestionamento onde não havia (a saber, no sentido de quem vai, que afinal ficou mais estreito). E assim segue a Bahia, sãopaulizando-se a cada dia. Aliás, sendo sãopaulizada, sãopaulizada no que a cidade de São Paulo – onde tive a sorte de poder aprender coisas da vida e fazer grandes amigos – tem de pior.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Higienópolis


por Cidinha da Silva*

A Veridiana parece uma avenida, é larga que só, até cansa atravessar. Esperávamos o sinal verde para pedestres no cruzamento com a General Jardim.

Do lado oposto ocorria uma cena bastante comum na região, uma dondoca acompanhava um daqueles cachorros artificiais, de pelo desenhado, unhas pintadas, maria chiquinha, óculos escuros, cachecol e outras firulas. Inusitada era a presença de uma garotinha dourada de uns três anos ou pouco mais. Filha da mulher, soubemos depois.

O sinal abriu para nós, finalmente. A mãe do cachorro rearranjou as sacolas de shopping no antebraço, de forma a deixar a mão livre para ajudá-la a colocar o animal no colo. Ainda teve tempo de dar um beijinho nele, antes de dizer para a menina, “vem filha, vem. Segue a mamãe.”

Desceu da calçada para o asfalto, deu três ou quatro passos e olhou para trás para certificar-se de que a filha a acompanhava. A menina não se movia. Ela, carinhosa: “vem filhinha, vem com a mamãe, vem, vem.” A menina olhava para a mãe, para o cachorro que devia ser dela também, para os carros, para a imensidão à frente e ficava do mesmo jeito, empacada.

A mãe andou mais uns cinco passos e disse: “Olha, filhinha a mamãe ta indo. Vem também, fofa!” A menina então abriu o berreiro e começou a sapatear. A mãe compreensiva, explicou à filha e aos passantes que estava com as duas mãos ocupadas, não poderia carregá-la. Ela precisava colaborar, ser boazinha e andar.

Os passantes pareciam estar em choque. Nós estávamos. Ninguém foi despachado o suficiente para oferecer ajuda à senhora. O guarda de trânsito da outra esquina, atento, veio andando e ofereceu a mão para a menina. Ela não aceitou, queria colo. Ele ofereceu o colo. Ela rejeitou. O guarda, paciente, explicou à mãe que a menina parecia querer o colo dela e que talvez fosse bom colocar o cachorro no chão e puxá-lo pela corda.

A mulher, meio brava, argumentou que o cachorro tinha trauma de buzina e havia gente sem coração que parecia ler a mente do bicho e buzinava só para assustá-lo. De mais a mais, ele tinha tomado uma vacina e estava sonolento. Disse ainda que a filha estava ficando muito cheia de vontades. Será que o guarda não poderia ajudá-la carregando as sacolas, ela morava no quarteirão abaixo. O guarda assentiu. A mãe fez um carinho na cabeça da menina e deu-lhe a mão.

O guarda aconselhou à mulher que acelerassem o passo, pois estava juntando gente e multidão, sabe como é...

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

terça-feira, 30 de abril de 2013

O preço da vaga


por Ricardo Sangiovanni*

Outro dia – isso foi ano passado – parei o carro numa vaga com placa de zona azul para resolver um pepino no cartório aqui perto. Nem bem abri a porta, encostou o rapaz guardador dos carros, com colete da prefeitura e talão de cartelas de estacionamento na mão. “Vai demorar muito aí?”

Respondi que não, que era só registrar uma firma mesmo, e o rapaz: “Então bote R$ 2 aí, bora, bora.” Da abordagem prefiro dizer que foi um tanto rude para o que se espera de um funcionário a serviço da coisa pública, mas não tiraria a razão de quem dissesse ter sido intimidatória, agressiva até, mais parecida com a atuação violenta de certos flanelinhas.

Retruquei que não, que queria pagar o valor do cartão de estacionamento. “Com cartão é R$ 3, sem cartão é R$ 2”, argumentou o rapaz, certo de estar-me propondo um negócio da China: o cliente (no caso, eu) pagaria menos; o guardador (no caso, ele) lucraria mais; e a prefeitura (no caso nem eu, nem ele, logo, como impõe a boa lógica, ninguém) mui justamente não levaria um centavo.

Mas não topei, e o homem pasmou. Azar: melhor fazer o justo, mais ainda por R$ 1. Paguei os R$ 3, pedi o cartão, no qual ele rabiscou qualquer coisa e me deu, meio puto – afinal, deixara de ganhar R$ 2 em troca da provável miséria que ganha da prefeitura por cada vaga vendida. Joguei o papel no parabrisa e fui lá quitar minhas obrigações cartorárias.

***

Lembrei dessa história porque há uns dias noticiaram uma lei recém-aprovada pelos vereadores de Salvador que estipula o combate à atividade dos flanelinhas (os guardadores irregulares, que trabalham sem colete da prefeitura) com multa e prisão.

Prisão. Bestamente noticiou-se a palavra prisão, sem uma linha sequer ponderando a violência com que o Estado se propõe a agir sempre que o alvo da lei é algum retalho de população marginalizada. Os vereadores de Salvador aprovaram – em celeríssimos três meses e meio de legislatura, senhoras e senhores – uma lei que referenda a mais abjeta ferramenta para combater a ilegalidade, a violência urbana, a confusão entre o público e o privado: prender gente pobre. E isso foi noticiado assim, assim.

Noticiado assim e ratificado com depoimentos de uma porção de motoristas batendo palmas para a lei, contra um único guardador de carros ouvido, reclamando. Entre o bando de argumentos do arco-da-velha dos motoristas, destaco o de um senhor, entrevistado dentro de seu automóvel: “Eles [os flanelinhas] exploram a gente. Eu acho que precisa mesmo tomar uma providência e a autoridade agir para que – não [quero dizer que] acabe, porque muitos deles sobrevivem disso, mas que pelo menos tenham bom senso, respeito aos donos dos carros.” Eis o tal do “respeito” senhorial, de que aliás já tratei aqui há um par de semanas, essa infeliz condição definidora da cidadania na cabeça do brasileiro (grosso modo) de classe alta e média.

Noticiado assim e ratificado, ao fim e ao cabo, por uma “pesquisa” – feita aliás não se sabe como – dando conta de que 98% da população da cidade são a favor de cuja lei, e 2% contra. (Toda unanimidade é burra, diria Nelson Rodrigues. E toda quase unanimidade também, digo humildissimamente eu.) Dito assim, ao velho modo positivista, como o argumento que justifica a porretada.

Por cima da tristeza comum de se viver num país cheio de preconceitos de classe, de cor, de gênero, de opção sexual como o nosso, sinto secretamente uma atroz desesperança em relação ao jornalismo que se anda fazendo a partir dessa realidade. Noticia-se bestamente de um tudo, com perigosas “factualização” e “imparcialização” da realidade, sem profunda leitura crítica do que se noticia, como se essa fosse tarefa a posteriori, e tarefa ademais de comunicólogos, antropólogos, sociólogos, ou sabe-se lá de quem, exceto de jornalistas. E assim vamos, tagarelando verdes feito papagaios.

A única polêmica que as notícias sobre o assunto conseguiu levantar foi administrativa: são cerca de 2 mil flanelinhas na cidade, contra 1.300 guardadores credenciados pela prefeitura. Ou seja: ou a prefeitura contrata mais que o dobro de agentes, ou ela credencia os atuais flanelinhas, transformando-os em agentes sindicalizados e autorizados, com direito a colete amarelo e talãozinho de zona azul. O que não seria novidade, afinal muitos dos guardadores atuais começaram na profissão como flanelinhas.

***

Aí fui contar, entre moralista e folgazão, meu causo do guardador de carros a um amigo. Terminava de expor-lhe a moral do acontecido, qual seja, que a noção de coisa pública é o que falta em nosso Brasil brasileiro, e que não teremos mais do que ratos dentro da máquina estatal enquanto nosso projeto de nação não for o da educação para a cidadania, para a igualdade, para o republicanismo.

Meu amigo assentiu. Acrescentou apenas que, se não lhe falhasse a memória, a taxa para estacionar na rua pelo tempo mínimo (duas horas, bem mais que os quinze minutos que levei para resolver minha pendência no cartório) eram R$ 1,50, e não R$ 3. Então eu não havia escapado do golpe… Mas, pelo menos, a moral da história seguia sendo a mesma.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

quarta-feira, 13 de março de 2013

As galinhas do Água Branca

por Thiago Domenici*

A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.

Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.

Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.

Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.

O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.

Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.

Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.

Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.

*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A isca de Felipe

– Eita sensação de merda, puta que o pariu!, resmunga Jurandir no seu carro, um modelo SUV, parado no farol da avenida Brasil com a Henrique Schaumann, em São Paulo.

Ele vê o mesmo que todo paulistano motorizado: jovens em busca de um trocado fazendo malabares com bolinhas e bastões enquanto a cidade corre insana.

– Toma aqui rapaz! Você é esforçado.

O mesmo gesto é repetido ao longo do dia por centenas de motoristas diante do desajeitado Felipe, um negro baixo de 16 anos, rosto bolachudo, e muito magro de cabelo rastafári e tranças coloridas em vermelho e amarelo.

Lipe, como foi apelidado pelos camaradas do entorno, trabalha de segunda a sábado, das 8h às 20h. Levanta cinco da matina, veste tênis, bermuda, camiseta, pega mochila e o material de trabalho – cinco velhas bolas de tênis – e sai vazado. Não há tempo a perder.

Come no caminho do trabalho, nas barracas que ficam próximas a estação. O menu: café com leite no copo de plástico e um saquinho de pão de queijo com dez unidades, total: 3 reais, preço da passagem do ônibus que ele economiza pegando o trem sem pagar ao entrar por uma fresta no muro que margeia a linha da CPTM.

Tem dois irmãos homens, e a mãe, Luzia, é diarista. Todos moram na Zona Leste, em Itaquera. O pai, seu José Pinto, morreu numa briga de boteco, “culpa do álcool”, diz ela.

O lance de Felipe nos malabares é fruto dessa tragédia familiar. A mãe, desesperada com o déficit no orçamento, mandou os filhos buscarem sustento.

– Ah, meus filhos, tem que dar jeito nessa vida, tem que dar!

Ela mesma dobrou sua atividade laboral o que lhe rendeu artrite e fortes dores nas costas, aliviadas com remédios que retira mensalmente no SUS.

Eram garotos ainda quando tiveram de abandonar os estudos e paixões, no caso de Lipe, a escolinha de futebol, onde despontava como volante driblador e habilidoso que sonhava vestir a camisa do Corinthians.

Do ídolo Vampeta tem o autógrafo, guardado dentro da única gaveta que possui, no quarto único que divide com os irmãos.

– A minha história é foda, mas e daí, quem tem a ver com isso?, pensa entre um e outro solavanco do busão.

Lipe sabe que sua vida é marginal. Já escutou na tevê e sempre lembra que ser pobre tem a ver com um tal de “capitalismo” que não distribui a renda, que a educação é boa para uns e nenhuma para outros e outras coisas que ele não sabe explicar bem.

Lipe sabe que não ter estudo o condena ao ostracismo cultural e profissional, por isso, decidiu que o farol, por mais contraditório que possa ser, vai salvar sua vida. E que vai ganhar o máximo que puder para ajudar a mãe e se ajudar. Lipe quer fazer educação física e ser preparador físico do timão. Felipe sonha, ora, como qualquer garoto de sua idade.

Observador, sabe que ninguém gosta de gente pedindo esmola na janela do carro.

– É um saco quando, em todo e qualquer farol, aparece alguém jogando bolinhas ou bastões para o alto na tentativa de te convencer de aquele é um talento que mereça ser remunerado – ouviu Lipe, certa vez.

Felipe sabe disso. Mas não há tempo a perder.

– E a concorrência, meu irmão, é grande – repete para si mesmo.

Muito esperto, ele sabe que assalto, violência e a indiferença são o maior entrave ao seu "negócio" no farol. Mas ele não tem pena de si mesmo. Deixa para os outros.

E a cena se repete, diariamente: sobe a primeira bola velha de tênis, a segunda, a terceira e na quarta... todas vão ao chão. As recolhe, vai de novo: primeira, segunda, terceira, chão. Repete o gesto, calculadamente, e há 30 segundos do verde, sai desanimado para a calçada.

Felipe se faz de derrotado. Motoristas que, normalmente, estão mais preocupados com o tempo que perdem ali, se comovem. E os comovidos o chamam com notas e moedas. Uns continuam não ligando e até dão risada.

Pena e culpa é a “sensação de merda” que sente o motorista Jurandir, aquele do SUV, e que Lipe usa a seu favor. Enquanto a concorrência acerta os malabares Lipe sempre erra, de propósito, e ganha seu dinheiro com isso, bem mais do que os outros, porque, nesse caso, percebeu que o erro comove mais do que o acerto.

Errar é a isca de Felipe. E isso vai sustentar sua casa. Quem sabe, realizar seu sonho e vencer o sistema que o condenou. Educado, ele agradece.

– que deus te dê em dobro.

Thiago Domenici, jornalista

domingo, 16 de outubro de 2011

Por uma sociedade com menos carros

Agradeço imensamente todas as pessoas que leram, curtiram e comentaram, no site ou diretamente pra mim, meu texto anterior, “Uma Reflexão e uma proposta (espero) polêmica”. Fiquei muito honrado com a “audiência” de vocês, e portanto, resolvi escrever uma continuação-resposta daquele texto.

Uma das coisas que me foram ditas é que não é tão simples assim, que o transporte público é ruim etc. Concordo. Acho que o fundamental é tentarmos nos educar e desconstruir o que temos hoje, no ritmo que nos for possível, para nos prepararmos para uma sociedade com cada vez menos carros.

Por exemplo, neste final de semana, precisava estar em um local a umas nove quadras da minha casa, às 9h da manhã. Me preparei para acordar em tempo de ir a pé para esse compromisso, mas quando acordo, bum, uma baita chuva. Despreparado como sempre, eu estava sem guarda-chuva e nove quadras na chuva é muito pé-no-saco.

Resignado, percebi que teria que ir de carro. Isso serviu para eu me preparar melhor, perceber que preciso comprar um guarda-chuva e estar psiquicamente preparado para, mesmo debaixo de chuva, andar as nove quadrinhas que, inclusive, ajudariam bastante a reduzir minha saliente pancinha.

Não gostei de ir de carro, pagar trinta mangos no estacionamento, mas aposto que, da próxima, irei a pé – já que, no caminho que eu precisaria fazer, não haveria possibilidade de ir de ônibus.

Acho que o importante é isso, que a gente vá, aos poucos, se preparando para depender menos e menos do carro. E se isso for se intensificando, é um processo que alimenta, também, a melhoria do transporte público – novamente, espero.
 
Outra coisa que me disseram é que as restrições que eu propus no outro texto eram pouco ainda, ou seja, que eu tinha sido meio “recuado”. Concordo também. Mas eu quis justamente fazer algo que, na minha cabeça, teria condição de dialogar com mais gente que as pessoas que já debatem sobre o assunto.

Às vezes, tenho a sensação de que a gente fica falando pra igrejinha, pra quem já sabe do que a gente está falando – e é natural, é mais fácil, essas pessoas entendem melhor a gente. É fácil falar que a gente precisa usar menos carro pra um monte de gente que já acha isso, que já concorda.

Então, pode até ser que a minha “estratégia” esteja errada – acho bem possível mesmo! - mas eu queria que os termos desse debate alcançassem além de quem já curte bicicletas na cidade, de quem já abriu mão de seu carro etc.

Nem sempre a gente “rebaixar” o discurso é a melhor forma de atingir mais gente. Eu também acho que o ideal seria não ter mais carro na cidade, parar a fabricação, que o governo devia parar de dar tanta facilidade pras montadoras, mas tive a sensação de que esse tipo de proposta pode criar um muro e, por mais que pegue bem com algumas pessoas, poderia ter menos capacidade de convencer mais gente.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista, colunista do Nota de Rodapé
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