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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 30 de abril de 2013
O preço da vaga
por Ricardo Sangiovanni*
Outro dia – isso foi ano passado – parei o carro numa vaga com placa de zona azul para resolver um pepino no cartório aqui perto. Nem bem abri a porta, encostou o rapaz guardador dos carros, com colete da prefeitura e talão de cartelas de estacionamento na mão. “Vai demorar muito aí?”
Respondi que não, que era só registrar uma firma mesmo, e o rapaz: “Então bote R$ 2 aí, bora, bora.” Da abordagem prefiro dizer que foi um tanto rude para o que se espera de um funcionário a serviço da coisa pública, mas não tiraria a razão de quem dissesse ter sido intimidatória, agressiva até, mais parecida com a atuação violenta de certos flanelinhas.
Retruquei que não, que queria pagar o valor do cartão de estacionamento. “Com cartão é R$ 3, sem cartão é R$ 2”, argumentou o rapaz, certo de estar-me propondo um negócio da China: o cliente (no caso, eu) pagaria menos; o guardador (no caso, ele) lucraria mais; e a prefeitura (no caso nem eu, nem ele, logo, como impõe a boa lógica, ninguém) mui justamente não levaria um centavo.
Mas não topei, e o homem pasmou. Azar: melhor fazer o justo, mais ainda por R$ 1. Paguei os R$ 3, pedi o cartão, no qual ele rabiscou qualquer coisa e me deu, meio puto – afinal, deixara de ganhar R$ 2 em troca da provável miséria que ganha da prefeitura por cada vaga vendida. Joguei o papel no parabrisa e fui lá quitar minhas obrigações cartorárias.
***
Lembrei dessa história porque há uns dias noticiaram uma lei recém-aprovada pelos vereadores de Salvador que estipula o combate à atividade dos flanelinhas (os guardadores irregulares, que trabalham sem colete da prefeitura) com multa e prisão.
Prisão. Bestamente noticiou-se a palavra prisão, sem uma linha sequer ponderando a violência com que o Estado se propõe a agir sempre que o alvo da lei é algum retalho de população marginalizada. Os vereadores de Salvador aprovaram – em celeríssimos três meses e meio de legislatura, senhoras e senhores – uma lei que referenda a mais abjeta ferramenta para combater a ilegalidade, a violência urbana, a confusão entre o público e o privado: prender gente pobre. E isso foi noticiado assim, assim.
Noticiado assim e ratificado com depoimentos de uma porção de motoristas batendo palmas para a lei, contra um único guardador de carros ouvido, reclamando. Entre o bando de argumentos do arco-da-velha dos motoristas, destaco o de um senhor, entrevistado dentro de seu automóvel: “Eles [os flanelinhas] exploram a gente. Eu acho que precisa mesmo tomar uma providência e a autoridade agir para que – não [quero dizer que] acabe, porque muitos deles sobrevivem disso, mas que pelo menos tenham bom senso, respeito aos donos dos carros.” Eis o tal do “respeito” senhorial, de que aliás já tratei aqui há um par de semanas, essa infeliz condição definidora da cidadania na cabeça do brasileiro (grosso modo) de classe alta e média.
Noticiado assim e ratificado, ao fim e ao cabo, por uma “pesquisa” – feita aliás não se sabe como – dando conta de que 98% da população da cidade são a favor de cuja lei, e 2% contra. (Toda unanimidade é burra, diria Nelson Rodrigues. E toda quase unanimidade também, digo humildissimamente eu.) Dito assim, ao velho modo positivista, como o argumento que justifica a porretada.
Por cima da tristeza comum de se viver num país cheio de preconceitos de classe, de cor, de gênero, de opção sexual como o nosso, sinto secretamente uma atroz desesperança em relação ao jornalismo que se anda fazendo a partir dessa realidade. Noticia-se bestamente de um tudo, com perigosas “factualização” e “imparcialização” da realidade, sem profunda leitura crítica do que se noticia, como se essa fosse tarefa a posteriori, e tarefa ademais de comunicólogos, antropólogos, sociólogos, ou sabe-se lá de quem, exceto de jornalistas. E assim vamos, tagarelando verdes feito papagaios.
A única polêmica que as notícias sobre o assunto conseguiu levantar foi administrativa: são cerca de 2 mil flanelinhas na cidade, contra 1.300 guardadores credenciados pela prefeitura. Ou seja: ou a prefeitura contrata mais que o dobro de agentes, ou ela credencia os atuais flanelinhas, transformando-os em agentes sindicalizados e autorizados, com direito a colete amarelo e talãozinho de zona azul. O que não seria novidade, afinal muitos dos guardadores atuais começaram na profissão como flanelinhas.
***
Aí fui contar, entre moralista e folgazão, meu causo do guardador de carros a um amigo. Terminava de expor-lhe a moral do acontecido, qual seja, que a noção de coisa pública é o que falta em nosso Brasil brasileiro, e que não teremos mais do que ratos dentro da máquina estatal enquanto nosso projeto de nação não for o da educação para a cidadania, para a igualdade, para o republicanismo.
Meu amigo assentiu. Acrescentou apenas que, se não lhe falhasse a memória, a taxa para estacionar na rua pelo tempo mínimo (duas horas, bem mais que os quinze minutos que levei para resolver minha pendência no cartório) eram R$ 1,50, e não R$ 3. Então eu não havia escapado do golpe… Mas, pelo menos, a moral da história seguia sendo a mesma.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
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