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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sábado, 16 de março de 2013

Santana


por Kelvin Koubik "Kino"*

Terminando esta pintura, logo atrás de mim aparece uma senhora. Uma senhora muito vivida, com um tom bem baixo e doce de voz.

Chafiá, um nome difícil, segundo ela, de família árabe. Dona Chafiá, 86 anos, comentou que observou a pintura inteira pela sacada que levou 2 tardes para ser finalizada. Quando, então, finalmente tomou coragem para descer. Disse que eu tenho um dom, o dom da arte, arte que pode transformar o mundo, disse ainda que o mundo estava naquela parede. Chafiá gostaria que eu fosse o neto dela, comentou. Assim assenti afirmando que eu poderia ser.

Após o papo ela saiu e fiquei pensando que devia algo em troca de todos os comentários que senhora tão querida me ofereceu. Lembrei que tinha o rascunho do meu desenho, um pouco sujo e amassado, mas bacana. Peguei uma caneta e dediquei:

"Chafiá, obrigado pelo incentivo e pelas palavras bonitas que me arremessou. Com carinho, do teu neto - Kino 23".

*Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 13 de março de 2013

As galinhas do Água Branca

por Thiago Domenici*

A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.

Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.

Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.

Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.

O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.

Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.

Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.

Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.

*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O melhor pagamento do mundo: 140 abraços diários

Fiz uma visita ao amigo e escritor Ferréz, no Capão Redondo, em 2010. Trabalhamos juntos por alguns anos na revista Caros Amigos. Recentemente, nos reencontramos no lançamento de seu novo livro, o romance Deus foi almoçar.

Além de escritor, Ferréz é um empreendedor da periferia. Na ocasião da visita em 2010 tive a chance de conhecer por um dia o projeto da ONG Interferência, no Jardim Comercial, hoje tão fundamental para o local que chega a ser uma falha não divulgá-lo aos navegantes do NR.
 
O vídeo institucional no fim do texto mostra um pouco dos sonhos que já foram realizados ali: um espaço de leitura (e não só, também tem capoeira e atividades lúdicas) para crianças de um pedaço de SP em que o poder público virou as costas.

Conheço Ferréz e acredito na sua capacidade para fazer coisas relevantes. Não há intenções políticas ou qualquer interesse a não ser, como ele diz, "devolver ao bairro um pouco do que ele me deu e também não deu."
"Tem sido a coisa mais importante que já fiz, contando com verdadeiros amigos, que se importam de verdade com trabalho social, pois muitos gritam, falam em shows e palestras, mas na hora da ação... hum aí vira só discurso mesmo."
Interferência, acreditem, é mais uma dessas raridades de pessoas raras. Esse projeto precisa crescer, avançar e interferir positivamente naquela comunidade de jovens e adultos. O pedido de contribuições não sai escancarando a conta para depositar dinheiro. Ao contrário, pede doações não monetárias que possam ajudar, por exemplo, a criar um espaço de marcenaria.

O vídeo feito por Ricardo Sêco, "com muito carinho", como escreveu Ferréz,  é o convite para que se conheça o trabalho. O "pagamento", vejam só, são 140 abraços de pequeninas e pequeninos ávidos por cultura e conhecimento.

Thiago Domenici, jornalista

terça-feira, 29 de março de 2011

João Antônio não é pauta

Corte 1 / O café

Repetindo movimentos cotidianos, desço na estação da Sé, centrão de São Paulo. Avisto a catedral, a praça e a multidão. Porém, faço pequena alteração na rota diária. Decido tomar um café fora do ambiente de trabalho. O objetivo é me manter razoavelmente desperto. Olho o visor do celular. Sexta-feira, 25 de março de 2011. São 10h08 quando sinto um toque. Estou na porta da lanchonete para tomar minha dose cavalar de estimulante.

Corte 2 / Apresentação

Com a mão no meu braço, alguém diz: “o senhor poderia me pagar um salgado?”. Automaticamente, me viro e encontro o homem de pele morena, cabelos grisalhos, alto e muito magro. Automaticamente, minha resposta é sim. João Antônio de Melo, 52 anos. Nome de grande escritor, penso. Saiu da Paraíba aos 27, com o tio. Pedreiro, jardineiro, o sonho, idem ao de tantos que vêm do Nordeste, era “fazer a vida” em São Paulo. Chegou em 1984. O tio, Anacleto, morreu sete anos depois, em 1991. “Era meu pai de verdade, meu parceiro, dava incentivo sempre. Sem ele, fiquei perdido”.
Trabalhando na construção civil e limpando piscinas “nas horas vagas”, João se casou, em 1995, com Dolores, pernambucana, dez anos mais nova. Morando em Guarulhos, tiveram quatro filhos: Joana, Miriam, Francisco e Clara. A separação veio em 2001. Dolores se casou novamente, com um primo de segundo grau. “Não fui bom marido, nem mesmo fui tão bom como pai. Ganhava pouco, passei a beber muito. Ela me deixou e meus filhos mal falam comigo. Não tenho mais ninguém aqui”.

Corte 3 / É pauta?

Por que o homem não volta para a terra natal? “Até tentei, fui uma vez, tenho parente vivo lá, mas é tudo diferente de antes, ninguém se dá mais comigo e eu não me dou com ninguém”. Mora no bairro do Belenzinho, na zona leste, num quarto alugado. Trabalha por conta. “Tá difícil pegar serviço fixo. Vim aqui pro centro, num desses postos da prefeitura, tentar trabalho certo”. E? “Disseram que não tem ocupação pra mim porque sou analfabeto. A moça que atende perguntou como eu faria pra escrever um bilhete, usar o computador ou celular pra mandar mensagem pro patrão. Nem sei direito o que é computador e não tenho celular”. Sabia o nome da atendente? “Ela falou, não lembro, mas reconheço”.
Ele procurou o Centro de Apoio ao Trabalho – CAT – e lá teve o tratamento nada cordial. João Antônio estava prestes a virar pauta, podia mesmo se tornar notícia. Era pedir que me levasse até o posto em que foi atendido e reconhecesse a funcionária. Dali seria possível desdobrar algo maior sobre como são recebidos pelo poder público tantos trabalhadores em busca de vagas. “Só quero serviço, moço. É só o que me resta na vida. Mudo pra qualquer lugar da cidade, pra outro quartinho, se conseguir emprego”.

Corte 4 / Não é pauta

Encostado no balcão, peço dois cafés fortes e me dou conta de que nem me importei com a preferência do homem. Ele confirma o café forte. “É bom pra acordar, né?”. Para comer, pede um salgado. “Não quer um lanche?”, indago. “Não senhor, tá bom assim”. Falo para ficar à vontade, pedir o que quiser. Timidamente, ele sorri. Ainda no automático, tomo meu primeiro gole de café amargo. Noto a enorme mochila em suas costas e tento, pretensiosa e preguiçosamente, adivinhar de onde vem. Esforço-me para travar o diálogo que, sabia, seria doloroso. Não poderia a cafeína dissolver minha letargia mental? Não. Só o interesse e a alteridade poderiam. “É de onde, João?”. “Sou de Alagoa Grande”. A pauta se desfazia. Vi apenas um homem que lutava para sobreviver e que não se identificava em lugar nenhum. Em São Paulo ou na Paraíba, entre estranhos ou com os filhos, João Antônio parecia invisível, separado do todo. Aquele café foi minha desburocratização e meu despertar. Pedi um contato a João, que deu o telefone de um vizinho. O homem não é pauta. Somente quer trabalhar.

Moriti Neto é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

“Você suja minha cidade, eu sujo sua cara”

Gosta da lei que proíbe a publicidade desregulada na cidade? Não gosta que os políticos tenham recebido aval para fazer sua publicidade nas ruas durante o período pré-eleitoral? Tem visto cavaletes caídos nas ruas, folhetos entupindo bueiros e faixas, muitas faixas, sujando as calçadas? O site http://sujosuacara.tumblr.com/ tem o lema “Você suja minha cidade, eu sujo sua cara”. Vale uma visita para ver as fotos. Vou passar a andar com um pincel atomico na mochila...

Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do NR

quarta-feira, 21 de abril de 2010

EXCLUSIVO: dos contêineres ao amianto

Moradores da Vila São José, em Atibaia, após perderem tudo nas enchentes de janeiro foram transferidos para contêineres. Ao visitar o local, nosso repórter se deparou com outro problema: o destino deles serão casas de madeirite com telhados de amianto tóxico

Texto de Moriti Neto
Fotos de Paula Sacchetta

4 de abril. Domingo de Páscoa. O dia amanhece nublado e frio em Atibaia. Chegando ao campo do Santa Clara, no bairro Caetetuba, uma imagem salta aos olhos. Ali estão contêineres de metal improvisados pela prefeitura para servir de “moradia” à parte dos desabrigados das enchentes de janeiro. Em 12 dessas “casas de lata” estão famílias que moravam na Vila São José, o bairro mais pobre do município. Esse cenário já seria suficientemente chocante até a descoberta de que as pessoas seguirão para casas à base de madeirite e cobertas por telhados de amianto, substância tóxica e proibida.
O parente de uma das famílias desabrigadas, em visita na páscoa, é quem levanta dúvidas sobre os materiais usados na obra. N.S., 28, também foi afetado pela inundação, mas não mora no local. Ele é pedreiro, trabalha desde os 14 anos na construção de casas e aponta problemas no projeto. “Primeiro, estava previsto que era pra ter blocos de cimento na altura de 1,60 m como base da estrutura. Fizeram 40 cm e já começaram a colocar tábuas. A própria prefeitura fala que as famílias vão ficar ali dois anos. Nesse tempo, vai chover muito e a água alcança fácil o emadeiramento e apodrece tudo”, critica.
Realmente, as tábuas a que N.S se refere são frágeis, finas, estruturalmente se assemelham à madeira compensada utilizada em guarda-roupas. “É chapa de madeirite. Coisa fraca. Com pouco tempo, a exposição à chuva e ao sol vai estragar e danificar as casas”, afirma.

“Você já viu as telhas?”
A madeira usada para erguer as paredes das casas não é a maior preocupação do pedreiro N.S. “Você já viu as telhas? Elas têm amianto. Nos últimos dias, veio um vento forte e o telhado levantou, bateu nos sarrafos, nos caibros e quebrou. Parecia uma casca de ovo e fez subir muita poeira”, conta.
Essas casas estão a poucos metros dos contêineres. Ao redor delas, há estilhaços de um material acinzentado, espalhado pelo chão de terra batida, a vista de quem passa no campo do Santa Clara, único local de lazer da região. Dentro e fora das habitações de madeira existem pedaços de telhas com os dizeres: “contém amianto, ao cortar ou furar não respire a poeira gerada, pois pode prejudicar gravemente a saúde”.

“Se acontece em Atibaia, é absurdo”
Em 2007, um projeto de lei, PL 12.684/07, foi aprovado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e sancionado pelo poder executivo, banindo a produção e comercialização de amianto no território paulista. A decisão, publicada no Diário Oficial do Estado, em 27 de julho de 2007, “proíbe o uso de produtos, materiais ou artefatos que contenham quaisquer tipos de amianto ou asbesto a partir de 1/1/2008”. Em junho de 2008, o Supremo Tribunal Federal (STF), por sete votos a três, ratificou o texto.
A lei, de autoria do deputado estadual Marcos Martins (PT), classifica como amianto ou asbesto as formas fibrosas dos anfibólios como a crisotila (asbesto branco), que é usada predominantemente em telhas e caixas d’água.
Elemento causador de várias doenças, dentre elas, câncer, o amianto é uma substância tóxica que, segundo estudos da Organização Mundial do Trabalho (OIT), mata mais de cem mil pessoas por ano no planeta. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), as variantes do mineral, sem exceção, afetam tecidos pulmonares, gerando inflamações que levam à formação de tumores como de pulmão e pleura e, ainda, traz riscos de câncer de estômago, esôfago, intestino, rins, pâncreas, laringe e pele. Além disso, ele representa perigo ocupacional, ambiental e aos consumidores em geral, que dispõem de poucas informações de como manipulá-lo.
O autor do projeto destaca que os brasileiros têm direito de conhecer os reais malefícios provocados pelo produto, que contaminou ao menos 2.500 pessoas no país, de acordo com dados fornecidos pelos próprios fabricantes ao Ministério Público do Estado de São Paulo: “o amianto é um problema de saúde pública, usado em nosso país desde meados da década de 1930 e deve ser tratado como questão sanitária séria. Quando as multinacionais que o produziam se instalaram aqui, já reconheciam restrições médicas existentes nos países de origem. Nossas pesquisas e ações para banir a substância devem ser rigorosas”, argumenta o deputado.
Martins classifica como “algo absurdo” o fato de agentes públicos permitirem o amianto em moradias populares. O projeto, inclusive, torna obrigatórias placas indicativas nas obras públicas do estado e nas particulares de uso público, com a seguinte mensagem: "nesta obra não há utilização de amianto ou produtos dele derivados, por serem prejudiciais à saúde". “Se isso acontece em Atibaia, é algo absurdo. As administrações públicas foram as primeiras proibidas de comprar. Hoje, o amianto não pode nem circular para fins comerciais, nem mesmo vir de outros estados. Se a fiscalização, a vigilância sanitária, por exemplo, flagrar um carregamento, pode apreender. É inadmissível que uma prefeitura permita isso. É contra a lei”, observa o parlamentar.
Fora a exposição dos moradores, outros pontos que não parecem considerados pela prefeitura de Atibaia, administrada há nove anos pelo Partido Verde (PV), são os danos à saúde dos trabalhadores envolvidos na construção das casas e a constituição de um problema ambiental devido ao desprendimento das fibras em função do envelhecimento dos materiais, mudanças de temperatura, intempéries e processos de limpeza. Os resíduos não podem ser destruídos e devem ser levados a aterros sanitários apropriados. “Só existem três aterros sanitários em São Paulo que podem receber os resíduos. Estão em Caieiras, São José dos Campos e Tremembé, todos particulares. Além de tudo, até o descarte dos resíduos é péssimo para a sociedade, pois consome muito dinheiro público. Com tantas opções já estudadas e comprovadamente viáveis, usar amianto não é justificável”, critica Martins.
O amianto pode ser substituído por fibra de vidro, polipropileno, polietileno, cerâmicos e até casca de coco. Das cerca de 260 empresas que trabalhavam com o mineral no estado, apenas duas insistem em sua utilização, por meio de liminares, quase dois anos após o STF ter assegurado a validade da lei paulista – a Confibra, de Hortolândia e a Infibra, de Leme. E é justamente a segunda a fornecedora das telhas que cobrirão as casas de madeira do Santa Clara.
Embora a lei proíba a utilização de amianto em todo o território paulista, essas duas empresas se apegaram à interpretação do significado da palavra “uso” no texto. Diante disso, o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo solicitou um parecer à Consultoria Jurídica da Secretaria de Estado da Saúde, que não deixa dúvidas: “seria ilógico imaginar que a lei paulista tivesse proibido o uso do amianto no estado de São Paulo e, ao mesmo tempo, permitido a produção e a comercialização do produto”, considera. E completa: “a lei objetiva, claramente, a proteção da saúde das pessoas expostas ao produto, e tal exposição (...) não ocorre apenas com o “uso” propriamente dito do amianto, pois aqueles que participam das diversas etapas da produção do produto, assim como aqueles que o comercializam também ficam sujeitos a essa exposição”.
A reportagem do Nota de Rodapé enviou uma série de questões à prefeitura de Atibaia, que até o momento da publicação deste texto não foram respondidas. O espaço, no entanto, está à disposição para as explicações do município.

Banido em 57 países

O produto já foi banido de 57 países, incluindo toda a União Europeia, Japão, Austrália, Chile, Argentina e Uruguai. No início deste mês, o senado dos Estados Unidos aprovou, por unanimidade, medidas contrárias ao uso. A resolução 427 torna o período de 1 a 7 de abril “Semana Nacional da Consciência Antiamianto” e ressalta o papel da classe médica no alerta e na educação dos norte-americanos sobre os riscos de contaminação.
Para o senado dos EUA “todo tipo de amianto é cancerígeno ao ser humano”. A resolução indica que, de acordo com a OMS, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), e a Associação Médica Americana, “não há nível seguro para exposição ao mineral (critério 203, publicado pelo International Programme on Chemical Safety, da OMS), e que as fibras do amianto podem provocar mesotelioma, tumor maligno incurável, cem por cento fatal; asbestose, “ou pulmão de pedra”, que também leva à morte; e outros problemas de saúde, como cânceres variados.
O Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França (Inserm), também publicou, em 1996, relatório que conclui pela toxicidade do elemento, independentemente da espécie. “Todas as fibras de amianto são cancerígenas, qualquer que seja seu tipo ou origem geológica”, atesta o órgão.
No Brasil, mais de duas dezenas de cidades paulistas e quatro estados, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco, adotam posição semelhante para proteger a saúde coletiva. Entretanto, uma decisão de âmbito nacional espera por definição no Congresso.

Diagnóstico difícil, morte certa
Os expostos ao amianto sofrem consequências devastadoras. O período para que as doenças se manifestem é o maior problema no diagnóstico, pois os primeiros sintomas são notados até 50 anos depois da exposição. Em alguns casos, os males causam a morte em, no máximo, dois anos.
A asbestose, fibrose pulmonar ou “pulmão de pedra” ocorre dez anos depois da exposição. Já o câncer de pulmão após 25 e o mesotelioma de pleura (fatal em até dois anos), pode levar até cinco décadas para surgir desde o primeiro contato com a fibra.
O presidente da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), Eliezer João de Souza, trabalhou na extinta fábrica da Eternit, em Osasco, de 1968 a 1981. 14 anos depois, em 1995, descobriu que tinha nódulos na pleura, espaço ao redor do pulmão. “Não tinha a menor ideia. A fábrica havia fechado quando descobri o problema. Tive que passar por cirurgia e tirar vários nódulos. Atualmente, tenho que fazer acompanhamento rígido porque a fibra é muito fina, difícil de detectar e quem foi contaminado por amianto não tem cura, fica pra sempre e pode aparecer outra doença”, explica. Ele descreve que muitos colegas de trabalho morreram ou carregam sequelas, vítimas do contato com amianto. Há registros de câncer na laringe, pulmão, intestino e de pele. “Vários que fundaram ou se associaram a Abrea faleceram. Descobriram as doenças bem depois de terem saído da indústria. Um deles, que foi nosso advogado, morreu 44 anos após ter parado de trabalhar com amianto”, lembra.
Contudo, Eliezer reforça que não somente os trabalhadores relacionados diretamente à substância podem se intoxicar e adquirir doenças mortais: “pra quem pensa que só aqueles que atuam na indústria podem ser contaminados, há uma pesquisa recente da Fundacentro (entidade governamental ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego), feita em Osasco, com 300 esposas de funcionários, que apontou que dez delas têm algum problema derivado do amianto. Basta lavarem as roupas dos maridos para ocorrer o contágio. E, tendo em conta o tempo de incubação, podem estar doentes bem mais do que dez. Essa é mais uma prova de que o amianto age não só no trabalhador, mas no ambiente todo”, finaliza.

(Durante a visita ao local a repórter fotográfica Paula Sacchetta fez uma série de imagens exclusivas para o Nota de Rodapé que podem ser acessadas em sua página AQUI.)

domingo, 18 de abril de 2010

Pixo “arte”

O “arte” é com as aspas, por enquanto. Chega ser arriscado palpitar sobre isso. Mas vamos lá. Em 2008 a Bienal chamou a atenção pelo seu vazio em um dos andares, mas também pela invasão de pixadores que “vandalizaram” o lugar.
Na verdade, dentro ou fora da Bienal, o alvo desse movimento é sempre o vazio, a parede branca, a ausência. Essa é a busca. Não sou um especialista desse universo, mas é visível em qualquer rua de São Paulo – talvez o lugar do mundo onde esse grupo se faz mais presente - que se trata de uma forma de expressão e manifestação social para um grupo que se considera sem voz – se é legitima, de qualidade ou não, é outro papo.
Pois é, dois anos depois, quem diria, a nova curadoria anunciou que convidou alguns deles para participar do evento, desta vez com crachá de artista e entrada livre pela porta da frente. E eles vão participar. Logo de cara, é um reconhecimento de que de fato é um movimento. E não é só lá no Ibirapuera, alguns já foram mostrar seus rabiscos na França.
Estariam seguindo o mesmo caminho de reconhecimento do grafite? Não tenho a resposta. Mas o que se pode afirmar é que, enquanto o grafite precisa da rua para existir e se valer em sua proposta, o pixo não só tem esses preceitos como também rejeita o reconhecimento da sociedade – e isso deveria anular qualquer forma “oficial” de pixação. Você não entende o que eles escrevem nos muros? Não é mesmo pra entender, é só pra eles se entenderem.
Mesmo assim, sua entrada em uma Bienal o valida como movimento, torna-se um momento de diálogo com a sociedade. Tudo isso mostra que, se por uma lado é uma demonstração de abertura para outras formas de pensar da Bienal – o que reflete na forma como vemos e fazemos arte no país -, por outro sua legitimação e aceitação como movimento pode ser o início do seu fim enquanto contestação. A partir do momento em que for aceito, deixa de ser “anarquia”, uma provocação à sociedade e às leis e costumes que a regem.
Por isso, não é pra gostar que a pixação vai ter espaço na Bienal, é só pra compreender os motivos pelos quais ela estará lá e pensar a respeito.
Não acha?

O documentário Pixo traz uma visão interessante sobre o tema:


Diogo Ruic é jornalista e editor assistente do Nota de Rodapé
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