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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Relato do repórter fotográfico Victor Moriyama, detido pela PM no Ato contra a Copa do Mundo

Detido pela Polícia Militar durante três horas na tarde do último sábado, 22 de Fevereiro de 2014, durante o segundo grande Ato contra a Copa do Mundo no centro de São Paulo, o repórter fotográfico Victor Moriyama, colaborador do Nota de Rodapé, conta que foi agredido e impedido de exercer sua profissão durante a cobertura para a agência Getty Images. Além do seu relato, NR publica o vídeo de sua detenção, no qual o policial diz que o "crachá anda no peito ou ninguém vai saber quem é você". A imprensa, como mostram os relatos e os vídeos que circulam na internet, teve o trabalho cerceado, assim como os manifestantes tiveram o direito a manifestação violado.


“Relato da violência a imprensa e a sociedade no segundo grande Ato contra a Copa do Mundo”

São Paulo, Brasil, 22 de Fevereiro de 2014

por Victor Moriyama

Na tarde do último sábado, 22 de fevereiro de 2014, manifestantes organizaram o segundo Grande Ato contra a Copa do Mundo no Brasil, na cidade de São Paulo, que acabou sendo um dos mais violentos desde o início dos protestos iniciados em junho de 2013. No último ato, ocorrido no dia 25 de janeiro, o fotógrafo da Agência EFE Sebastião Moreira fora agredido por um policial. Outros companheiros de profissão sofreram agressões muito piores ao longo do último ano enquanto cobriam os protestos pelo país, os quais tiveram seu ápice no triste falecimento do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado por um manifestante.

Quando cheguei ao protesto, por volta das 17hs, senti uma energia pesada no ar e essa era a mesma sensação dos colegas de imprensa que conversei. Acho que prevíamos a violência que estava por vir.

No protesto do dia 22, que reuniu cerca de 1.000 manifestantes, as agressões físicas e morais à imprensa e aos manifestantes de forma generalizada pela Polícia Militar continuaram.

O tumulto, que acabou virando pancadaria promovida pelos dois lados, Policiais e Manifestantes, começou não sei ao certo como e por qual motivo, muito menos de qual lado se iniciou. O que presenciei foi uma rápida ação policial, que em maior número, cercou rapidamente centenas de pessoas, dentre os quais jornalistas como eu e outros colegas da imprensa. Eu, exercendo minha profissão, também fui agredido por cassetetes, mesmo mostrando meu crachá de imprensa e tentando dialogar e acalmar os ânimos.

Neste momento, diversos jornalistas foram detidos e/ou agredidos, dentre os quais: Bárbara Ferreira, O Estado de São Paulo; Paulo Toledo do portal G1; Reynaldo Turollo do jornal Folha de São Paulo; Sérgio Roxo, O Globo; a Fotógrafa Alice Martins, Vice Brasil; e, o fotógrafo Bruno Santos, do portal Terra. Em poucos minutos, fomos cercados por um número muito superior de policiais que com seus cassetetes agrediam as pessoas que pediam calma e tentavam dialogar. Os oficiais os ignoravam enquanto os manifestantes entoavam em coro a frase: “SEM VIOLÊNCIA!”.

Tive lesões nos braços e nas mãos que resultaram na quebra da minha ferramenta de trabalho, fato que me impediu de registrar as ações de abuso, coerção e violência cometidas pelos policiais.

O cerco realizado pelo Pelotão Ninja da Polícia Militar durou cerca de uma hora e muitos manifestantes, jornalistas e advogados foram retirados do local com truculência. O Governo do Estado de São Paulo adotara ontem uma nova medida para conter os manifestantes: técnicas de jiu jitsu, arte marcial que prevê imobilizações. Comigo não foi diferente, fui retirado do cerco com uma chave de pescoço, e encaminhado para a calçada com outros 200 manifestantes. Durante todo este período argumentei com os policiais que eu trabalhava para a imprensa e gostaria de comunicar isso a um oficial superior. Sem sucesso. Advogados do grupo “advogados ativistas” que prestam serviço gratuito aos manifestantes presos durante os processos foram impedidos de exercer seu trabalho e retirados do bloqueio com golpes e imobilizações da técnica jiu jitsu.

Esse cenário propicia a seguinte indagação: o que é ordem para o Estado? os policiais seguem uma filosofia imposta que impõe a violência e a brutalidade em vez do diálogo. Pela primeira vez na vida tive a sensação clara de estarmos no mesmo clima da ditadura que completa 50 anos em 2014. Tive meu trabalho impedido moral e fisicamente, além da quebra parcial do meu equipamento fotográfico e a forte sensação de que a polícia e governo do Estado ainda se orientam pela violência presente na ditadura. A triste experiência do 22 de fevereiro me remete ao sofrimento incomparável que os manifestantes e presos políticos passaram durante o período do Golpe Militar no Brasil.

A polícia que quer passar à sociedade uma postura de ordem e organização se mostrou bastante desorientada sobre como encaminhar os detidos. Após o cerco fomos levados para diversas delegacias da região central, sem a posse dos nossos pertences e, portanto, sem comunicação para denunciar e buscar ajuda ao grupo. Outros colegas da imprensa e os advogados que também foram detidos alegam que tiveram seus trabalhos impedidos, pois policiais agiram com violência contra os instrumentos de trabalho além de ameaçados verbal e fisicamente pela força do Estado. Ameaças de morte, assédio moral e físico são práticas recorrentes nos protestos e demonstram a presença totalitária do Estado. É inquietante o fato de a Polícia Militar determinar o que a imprensa deve ou não fazer e divulgar. É uma atitude que impede nosso trabalho.

Após um longo processo de averiguação e encaminhamento à delegacia, fomos liberados um a um e assinamos boletins de ocorrência não criminal, relatando nossas versões dos fatos. Mais do que isso, acredito que o papel dos colegas de imprensa seja denunciar judicialmente os abusos cometidos por policias e cabe a nós, enquanto membros organizados da imprensa, batalhar por uma sociedade mais igualitária e menos opressora.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Água: cidades querem o reconhecimento do Sistema Cantareira

Nas próximas semanas, o NR publica três matérias produzidas para o jornal laboratório do curso de jornalismo da FAAT, faculdade instalada em Atibaia, no interior de São Paulo. Semana passada, os trabalhos receberam o Prêmio Yara de Comunicação, lançado com o intuito de comemorar os 20 anos dos Comitês das Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Comitê PCJ) e que tem o objetivo de incentivar profissionais e estudantes a abordarem as questões relacionadas à qualidade e quantidade dos recursos hídricos das bacias que abastecem milhões de pessoas no Estado de São Paulo. 

As matérias que serão publicadas foram as três primeiras colocadas na categoria Trabalho Universitário. Sem exceção, todas partem de uma perspectiva local para tratar de questões globais, situações que atingem populações expressivas. 

O primeiro trabalho publicado é de Lucas Rangel, aluno do 3º ano de jornalismo, e reporta a falta de contrapartidas a pequenos municípios que produzem água de qualidade e abastecem localidades onde residem milhões de pessoas, caso da Região Metropolitana de São Paulo. 

Na semana que vem, publicaremos a reportagem de Fernanda Domingues, sobre o assoreamento do rio Atibaia que, entre outros problemas, causou fortes enchentes na cidade, com desastrosas consequências para a população, assunto tratado pelo NR em várias matérias. A última matéria a ser publicada é de Maria Ribeiro, que trata da polêmica a respeito da canalização de rios. 


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Água de qualidade não garante contrapartidas a municípios 

Responsável pelo abastecimento de 55% da Região Metropolitana de São Paulo, cidades do Sistema Cantareira se unem para buscar recursos estaduais 

por Lucas Rangel*

Rio Jaguari: o maior e mais limpo do
sistema Cantareira
(
Foto: Gustavo Douglas
A falta de contrapartidas do Governo do Estado de São Paulo e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para com as cidades que abrigam as bacias hidrográficas do Sistema Cantareira – responsável pelo abastecimento de 55% da Região Metropolitana de São Paulo – é um desafio a ser superado. De acordo com a Agência Unicidades, que busca, por meio de estratégias sustentáveis, melhorias para os municípios, não há nem sequer uma ação que reconheça a importância do Cantareira. 

Com liberação de 31 mil litros de água por segundo para quase 10 milhões de habitantes das zonas norte, central, parte da zona leste e oeste da capital, além de dez municípios da Região Metropolitana, entre eles Osasco e São Caetano do Sul, as quatro bacias que formam o Sistema Cantareira (Jacareí-Jaquari, Cachoeira, Atibainha e Juqueri) produzem umas das melhores águas do Brasil, segundo estudos da Sabesp. 

Apesar disso, a região segue atrás de contrapartidas para valorização dos municípios. Criada para organizar estratégias e unir as 15 cidades em favor da causa, a Agência Unicidades trabalha em busca de novos projetos sustentáveis. “Estamos buscando o desenvolvimento da região de uma forma limpa, até mesmo para poder manter a qualidade desses mananciais todos. Queremos que o Governo do Estado e a Sabesp nos deem o devido reconhecimento”, afirma Sidney Monteiro Fontes, diretor técnico da Unicidades. 

Segundo ele, são três os eixos de trabalho definidos pela agência em conjunto com as prefeituras: "Queremos fazer com que a região vire um grande pólo de desenvolvimento tecnológico, atraindo indústrias e instituições de ensino; transformá-la em um pólo de produção orgânica e fomentar o turismo”, concluiu. 

O foco da Unicidades é definir as estratégias e apresentá-las ao Governo do Estado e, consequentemente, à Sabesp, antes da definição da nova outorga, que ocorre no ano que vem. O último documento emitido pela Agência Nacional de Águas (ANA) em 2004, com vencimento em 2014, determina que 31 mil litros de água por segundo sejam retirados pela Sabesp e encaminhados à Região Metropolitana, e 5 mil litros por segundo para as bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Bacias PCJ). “Para a próxima outorga, vamos lutar para que a quantidade de água encaminhada ao PCJ chegue a pelo menos 8 mil litros por segundo”, avalia Sidney. 

Qualidade da água 

Para comprovar que a água produzida pelas bacias hidrográficas do Sistema Cantareira é uma das melhores do Brasil, a Unicidades trabalha com dados da própria Sabesp, que mostram que o custo de tratamento da água produzida na região é 50% menor do que o das represas Billins e Guarapiranga. 

O Departamento de Águas do Comitê PCJ, que trabalha com a Sabesp nesse assunto, diz que a bacia que possui a melhor água é a Jacareí-Jaguari, pois tem menor influência de produtos químicos e de esgoto. “A bacia do Jacareí-Jaguari, além de ser a maior e mais importante, devido às proporções (50 km² de inundação e produz 22 mil litros de água por segundo), é a que apresenta os melhores índices de qualidade”, afirma Regina Aparecida Ribeiro, representante do PCJ. 

Na sequência, aparecem os reservatórios Cachoeira e Atibainha, com qualidade de água considerada boa. A bacia do Juqueri é a que recebe mais resíduos químicos e esgoto, porém o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado (DAEE) acredita que, nos últimos anos, a qualidade da água aumentou graças a trabalhos específicos. 

A Sabesp foi procurada pela reportagem, mas não se pronunciou sobre os casos da falta de contrapartidas e dos últimos estudos sobre a qualidade da água. 


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Lucas Rangel é estudante de jornalismo
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