Ser apaixonado por futebol não é algo que acontece por osmose, talvez por convenção familiar ou social, ou em outros casos trata-se de uma coisa que se aprende desde criança como amarrar os cadarços dos sapatos ou cumprimentar as pessoas nas ruas. O difícil é explicar os porques. Mais do que idolatrar um time ou uma seleção, torcer para um clube faz parte do seleto grupo de sentimentos nos quais predominam o amor incondicional, desses irracionais que beiram a cegueira nos lances polêmicos.
Pertencer a uma torcida vai muito além de enotar seu coro, e há quem diga que mais parece um ritual barbáro, ou vestir a camisa do time no dia seguinte a uma vitória. Torcer implica em perder o humor, em chorar quando seu time sofre uma derrota ou é rebaixado. É emoção pura, e nisso não existe espaço para visões céticas nas quais o futebol é comparado a mais uma política pão e circo do sistema. Vibrar com cada gol é natural, é comportamento social esperado para aquela situação, agora, o que foge do comum é o sentimento capaz de extrapolar os limites da razão e manter, durante a derrota, um único canto independente do resultado.
Quando lembro das inúmeras vezes em que vi o Corinthians jogar no Pacaembu, a primeira imagem que me vem a cabeça é da Torcida e seu amor inexplicável de alcance inimaginável. Seu poder de empurrar o time seja da mesma forma independente do placar do jogo não é uma qualidade que encontramos em qualquer esquina. O ambiente da torcida é de festividade pura, não existe classe social entre amigos instantâneos que compartilham as emoções da partida.
Na contramão dessa poesia vivenciamos atualmente o assassinato da beleza em prol da Cartolagem com C maíusculo, manchada de corrupções e intereresses mascarados por uma névoa permanente de banditismo.
Em inúmeras vezes me perguntaram por que os corinthianos falam tanto de sua torcida. Sem saber transmitir essa emoção com palavras sempre convidei meus amigos a irem assistir uma partida do Corinthians no Pacaembu, quem sabe assim eles possam entender. A Gaviões da Fiel arrepia, contagia, enche o coração do povão de alegria. Viva o futebol bem jogado, com lances bonitos, dribles desconcertantes, bandeiras enormes estendidas sobre a torcida, tambores e batucadas entoando os gritos de guerra e todos os elementos desse esporte tão enraizado na cultural canarinha.
Viva o amor incondicional e o futebol arte.
Victor Moriyama, 26 anos, é repórter fotográfico do Jornal O Vale, em São José dos Campos, cidade que reside atualmente. Mantém a coluna Fotógrafo-escreve no NR.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 14 de julho de 2011
terça-feira, 13 de julho de 2010
Os desafios da Seleção Brasileira para a Copa de 2014
Muito bem gente, o ser humano é mesmo um bicho louco. Sempre reclamamos de alguma coisa. Se está frio é porque está frio; se está calor é porque está calor; se a Copa é na África, é porque as vuvuzelas enchem o saco, enfim, parece que nunca estamos satisfeitos. Antes mesmo do fim da Copa de 2010, as discussões sobre o mundial de 2014, aqui no Brasil, já eram enormes: onde será a abertura? São Paulo terá ou não um estádio na competição? Teremos capacidade de, em dois anos e meio, resolver os problemas de transporte e estrutura nas cidades-sede? (sim, em dois anos e meio, porque em 2013 já teremos a Copa das Confederações, uma prévia da Copa...) Todas essas dúvidas só serão respondidas na prática na época do mundial.
Mas depois de dois fiascos seguidos, o de Parreira em 2006 e o do time de Dunga agora, a grande dúvida na cabeça do torcedor é: quem será o novo técnico da Seleção Brasileira? Fala-se em Felipão, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, Ricardo Gomes, Leonardo e, até Zico, que enfrenta mais resistência na cúpula da CBF. Independentemente de quem for o escolhido, o novo treinador assumirá já sabendo da enorme responsabilidade que terá para reformular o time, dar chances aos jovens talentos como Paulo Henrique Ganso e Neymar, e conquistar o hexa em casa (um novo Maracanazo ou mesmo uma eliminação antes da final seriam catástrofes sem precedentes).
Analisando as declarações de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, de que tudo terá de mudar, de novo, penso que além do dirigente fugir da responsabilidade por ter colocado Dunga, que nunca havia treinado sequer um time de pelada, para comandar a seleção, saímos atrás de muitas equipes na corrida pelo título em 2014. Depois da farra feita na Alemanha em 2006, uma reformulação foi feita: os jogadores mais talentosos ficaram de fora e os jogadores aplicados e obedientes foram para o pau, mas negaram fogo na hora mais importante. Não podemos dizer que nada prestou, mas deste grupo que esteve na África do Sul, eu acho que o zagueiro Thiago Silva, o lateral Daniel Alves e o volante Ramires são um dos poucos que terão chances de disputar a Copa no Brasil. Elano, Robinho, Nilmar e Luis Fabiano ainda podem sonhar, terão de reconquistar a confiança da torcida e, principalmente, do novo técnico. Kaká, para mim, encerrou a carreira na seleção com um balanço negativo: um gol marcado em três Copas disputadas e a marca de ser uma estrela que se esconde na hora da decisão. A defesa, que realmente era a melhor do mundo, já teve sua vez e não deve manter o mesmo nível técnico e físico por mais quatro anos. Nomes como Felipe Melo, Gilberto Silva, Josué, Júlio Batista, Kleberson e Grafite, com certeza estão fora. Se eu não citei de algum nome dos 23 que foram ao mundial, não foi por esquecimento, mas porque o cara nem mereceu ser citado.
Abandonar o militarismo
Resumindo e sendo bem otimista: teremos 4 jogadores com experiência de uma Copa no novo grupo. Isso é preocupante, já que até 2014 não teremos competições fortes que servirão de teste para a seleção. Um pré-olímpico, uma Olimpíada, duas Copas Américas, uma Copa das Confederações e um monte de amistosos inúteis. Se o projeto olímpico não atrapalhar o time principal, podemos usar o ciclo para entrosar o time. De resto, já ficou provado que ganhar Copas Américas e das Confederações não garantem títulos mundiais.
Outro motivo para sairmos atrás é que a Espanha, atual campeã europeia e mundial, a Holanda, a Alemanha, o Uruguai, Argentina e até Gana, já têm excelentes bases formadas com jogadores jovens e, agora, experientes em Copas do Mundo. Ou alguém acredita que nomes como David Villa, Fábregas, Özil, Müller, Suárez, Messi, Aguero, Gyan, entre outros que brilharam na África do Sul, vão estar fora da Copa de 2014?
Espero que quem assumir a Seleção Brasileira tenha uma visão de futebol moderno e ofensivo, como sempre foi a característica do Brasil. Espanha, Holanda e Alemanha chegaram onde chegaram em 2010 porque jogaram como o Brasil sempre jogou. Vamos resgatar nossa tradição e abandonar o militarismo imposto por Dunga.
O Mundo é da Fúria
Um pouco atrasado, parabenizo a Espanha pela inédita conquista. Uma seleção/time, que teve como base o Barcelona, campeão de tudo nos últimos anos, reforçado por talentos de Real Madri, Sevilla e outros times locais. Lembrando que do time campeão, apenas Fábregas e o goleiro reserva Pepe Reina jogam fora da Espanha. O futebol de toque de bola e movimentação intensa superou os favoritos e o trauma de sempre amarelar na hora H.
Agora, a grande homenagem eu faço ao goleiro Casillas. Criticado após a derrota na estreia para a Suíça e acusado de sofrer com a presença da bela namorada-jornalista atrás do gol espanhol, o camisa 1 do Real foi decisivo e fez defesas importantíssimas na campanha do título da Fúria. E ainda fez um golaço ao beijar a amada durante uma entrevista após a final. Quem não viu, veja:
É isso gente, vamos torcer pelo Brasil, sem ufanismo, mas confiantes na recuperação do futebol que encanta o mundo desde antes do nascimento de um tal Pelé.
Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.
Mas depois de dois fiascos seguidos, o de Parreira em 2006 e o do time de Dunga agora, a grande dúvida na cabeça do torcedor é: quem será o novo técnico da Seleção Brasileira? Fala-se em Felipão, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, Ricardo Gomes, Leonardo e, até Zico, que enfrenta mais resistência na cúpula da CBF. Independentemente de quem for o escolhido, o novo treinador assumirá já sabendo da enorme responsabilidade que terá para reformular o time, dar chances aos jovens talentos como Paulo Henrique Ganso e Neymar, e conquistar o hexa em casa (um novo Maracanazo ou mesmo uma eliminação antes da final seriam catástrofes sem precedentes).
Analisando as declarações de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, de que tudo terá de mudar, de novo, penso que além do dirigente fugir da responsabilidade por ter colocado Dunga, que nunca havia treinado sequer um time de pelada, para comandar a seleção, saímos atrás de muitas equipes na corrida pelo título em 2014. Depois da farra feita na Alemanha em 2006, uma reformulação foi feita: os jogadores mais talentosos ficaram de fora e os jogadores aplicados e obedientes foram para o pau, mas negaram fogo na hora mais importante. Não podemos dizer que nada prestou, mas deste grupo que esteve na África do Sul, eu acho que o zagueiro Thiago Silva, o lateral Daniel Alves e o volante Ramires são um dos poucos que terão chances de disputar a Copa no Brasil. Elano, Robinho, Nilmar e Luis Fabiano ainda podem sonhar, terão de reconquistar a confiança da torcida e, principalmente, do novo técnico. Kaká, para mim, encerrou a carreira na seleção com um balanço negativo: um gol marcado em três Copas disputadas e a marca de ser uma estrela que se esconde na hora da decisão. A defesa, que realmente era a melhor do mundo, já teve sua vez e não deve manter o mesmo nível técnico e físico por mais quatro anos. Nomes como Felipe Melo, Gilberto Silva, Josué, Júlio Batista, Kleberson e Grafite, com certeza estão fora. Se eu não citei de algum nome dos 23 que foram ao mundial, não foi por esquecimento, mas porque o cara nem mereceu ser citado.
Abandonar o militarismo
Resumindo e sendo bem otimista: teremos 4 jogadores com experiência de uma Copa no novo grupo. Isso é preocupante, já que até 2014 não teremos competições fortes que servirão de teste para a seleção. Um pré-olímpico, uma Olimpíada, duas Copas Américas, uma Copa das Confederações e um monte de amistosos inúteis. Se o projeto olímpico não atrapalhar o time principal, podemos usar o ciclo para entrosar o time. De resto, já ficou provado que ganhar Copas Américas e das Confederações não garantem títulos mundiais.
Outro motivo para sairmos atrás é que a Espanha, atual campeã europeia e mundial, a Holanda, a Alemanha, o Uruguai, Argentina e até Gana, já têm excelentes bases formadas com jogadores jovens e, agora, experientes em Copas do Mundo. Ou alguém acredita que nomes como David Villa, Fábregas, Özil, Müller, Suárez, Messi, Aguero, Gyan, entre outros que brilharam na África do Sul, vão estar fora da Copa de 2014?
Espero que quem assumir a Seleção Brasileira tenha uma visão de futebol moderno e ofensivo, como sempre foi a característica do Brasil. Espanha, Holanda e Alemanha chegaram onde chegaram em 2010 porque jogaram como o Brasil sempre jogou. Vamos resgatar nossa tradição e abandonar o militarismo imposto por Dunga.
O Mundo é da Fúria
Um pouco atrasado, parabenizo a Espanha pela inédita conquista. Uma seleção/time, que teve como base o Barcelona, campeão de tudo nos últimos anos, reforçado por talentos de Real Madri, Sevilla e outros times locais. Lembrando que do time campeão, apenas Fábregas e o goleiro reserva Pepe Reina jogam fora da Espanha. O futebol de toque de bola e movimentação intensa superou os favoritos e o trauma de sempre amarelar na hora H.
Agora, a grande homenagem eu faço ao goleiro Casillas. Criticado após a derrota na estreia para a Suíça e acusado de sofrer com a presença da bela namorada-jornalista atrás do gol espanhol, o camisa 1 do Real foi decisivo e fez defesas importantíssimas na campanha do título da Fúria. E ainda fez um golaço ao beijar a amada durante uma entrevista após a final. Quem não viu, veja:
É isso gente, vamos torcer pelo Brasil, sem ufanismo, mas confiantes na recuperação do futebol que encanta o mundo desde antes do nascimento de um tal Pelé.
Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Quero mais é ver a seleça pegar os tubarões
Os mais copeiros podem me dizer com precisão se em épocas passadas a seleção brasileira jogava pensando na tabela e nos confrontos com um certo “medinho”. Não concordo com manchetes e análises como fez hoje o jornal O Globo (ao lado, na imagem): “Brasil vai precisar fugir da chave da morte”. Tudo por que se o Brasil ganhar ou empatar com Portugal só enfrentaria seleções como Argentina, Alemanha e Inglaterra numa eventual final.
Eu quero mais é ver a seleça pegar os tubarões. Que ganhe de Portugal, ok, mas que não jogue com esse receio em mente. Pensar assim é antiesportivo. É estratégia de burocrata que vê o esporte como um negócio, uma meta, sem pensar na glória do futebol jogado, que vence por ser o melhor. Ganhar jogando como o time de Parreira, em 1994, não me apetece. Prefiro, e me perdoem os contrários, perder a copa jogando como em 1982 (ou enfrentando grandes seleções) do que ganhar jogando com o regulamento por temer times que, como Argentina e Holanda, merecem mais o caneco pelo bom futebol.
O Tostão, numa coluna de pouco tempo, escreveu: “Com a globalização, o futebol brasileiro incorporou a forma de jogar dos europeus. Querem transformar o futebol em um jogo essencialmente pragmático e programado. Diminuíram muito os dribles e as trocas de passes. Diminuiu a fantasia, mas o futebol arte não morreu. Quem tem talento joga bonito. É lindo ver um drible desconcertante de Robinho. O contra-ataque, como tem feito o Brasil, iniciando com as arrancadas de Kaká, também é bonito.”
Concordo. Sem frescura e receio, imagine um Brasil campeão do mundo derrotando grandes seleções desde as oitavas de final? O Paulo Cesar Caju, ex-jogador, deu uma declaração ótima: "Minha torcida é para que os times robotizados sejam eliminados logo. Copa é lugar para mostrar talento." Taí, ser o melhor sem ser o melhor não combina nem na frase.
Thiago Domenici é jornalista e queria ver Neymar e Ganso na Copa com Hernanes de volante.
Eu quero mais é ver a seleça pegar os tubarões. Que ganhe de Portugal, ok, mas que não jogue com esse receio em mente. Pensar assim é antiesportivo. É estratégia de burocrata que vê o esporte como um negócio, uma meta, sem pensar na glória do futebol jogado, que vence por ser o melhor. Ganhar jogando como o time de Parreira, em 1994, não me apetece. Prefiro, e me perdoem os contrários, perder a copa jogando como em 1982 (ou enfrentando grandes seleções) do que ganhar jogando com o regulamento por temer times que, como Argentina e Holanda, merecem mais o caneco pelo bom futebol.
O Tostão, numa coluna de pouco tempo, escreveu: “Com a globalização, o futebol brasileiro incorporou a forma de jogar dos europeus. Querem transformar o futebol em um jogo essencialmente pragmático e programado. Diminuíram muito os dribles e as trocas de passes. Diminuiu a fantasia, mas o futebol arte não morreu. Quem tem talento joga bonito. É lindo ver um drible desconcertante de Robinho. O contra-ataque, como tem feito o Brasil, iniciando com as arrancadas de Kaká, também é bonito.”
Concordo. Sem frescura e receio, imagine um Brasil campeão do mundo derrotando grandes seleções desde as oitavas de final? O Paulo Cesar Caju, ex-jogador, deu uma declaração ótima: "Minha torcida é para que os times robotizados sejam eliminados logo. Copa é lugar para mostrar talento." Taí, ser o melhor sem ser o melhor não combina nem na frase.
Thiago Domenici é jornalista e queria ver Neymar e Ganso na Copa com Hernanes de volante.
sábado, 8 de maio de 2010
A vida pessoal de Ronaldo e o noticiário esportivo
Quando Thiago Domenici me convidou para ocupar um espaço neste blogue combinamos que eu não escreveria sobre futebol, assunto que há anos, por motivos de trabalho, trato diariamente. Mas mudei de ideia para compartilhar uma análise sobre Ronaldo e os últimos episódios envolvendo o craque do Corinthians. Prometo que não se tornará rotina.Dias antes do Corinthians anunciar a contratação de Ronaldo, em dezembro de 2008, o finado jornal da Placar (projeto que naufragou, em boa parte, por essa bola fora) publicou uma foto do craque com o seguinte título: ataque de riso. Zombava da possibilidade do time paulista ter em seu quadro o Fenômeno – rumor que agitava o jornalismo esportivo naqueles dias.
A verdade é que ninguém com um pouco de razão acreditava que o maior artilheiro das Copas do Mundo jogaria em um time que teve que disputar a segunda divisão do campeonato nacional naquele ano. A questão era, mais que nada, financeira, mas passava também por afinidade.
Se Ronaldo voltasse para o Brasil, seria no Flamengo, clube de coração do atacante e onde ele treinou após a terceira cirurgia de joelho que fez – e que o deixou de molho por mais de um ano. Foi, sem dúvida, a maior contratação de um jogador feita por um clube brasileiro.
Vida pessoal ou notícia esportiva?
Lembro que na Folha de S.Paulo, jornal onde eu trabalhava à época, o editor de Esporte fez uma reunião cujo tom foi: não sabemos como vamos tratar Ronaldo, mas não será como até agora tratamos os jogadores de futebol. Sua vida, suas ações fora de campo seriam tão comentadas tanto quanto sua atuação nos gramados. Caberia ao jornal decidir o que era assunto esportivo e o que era coluna social.
Dias depois, Ronaldo foi fotografado em uma boate em São Paulo. A foto foi oferecida a vários jornais (por um preço bem salgado). O fotógrafo que fez o comentado retrato ficou durante horas na frente da casa noturna, disfarçado de mendigo, esperando pela saída do jogador - me relatou isso. Havia sido avisado (e pagou por isso) por funcionários do local da presença do craque. Fez a foto e ganhou uma bela grana.
Dias depois, Ronaldo foi fotografado em uma boate em São Paulo. A foto foi oferecida a vários jornais (por um preço bem salgado). O fotógrafo que fez o comentado retrato ficou durante horas na frente da casa noturna, disfarçado de mendigo, esperando pela saída do jogador - me relatou isso. Havia sido avisado (e pagou por isso) por funcionários do local da presença do craque. Fez a foto e ganhou uma bela grana.
O Fenômeno havia transcendido a barreira do Esporte. Sua vida pessoal vendia tanto quanto a de Roberto Carlos ou Xuxa. Vida pessoal ou notícia esportiva? Ronaldo fez um exame físico às 8h da manhã daquele dia e foi fotografado às 6h.
Logo veio o episódio em um prostíbulo no interior de São Paulo onde o Corinthians fazia a pré-temporada. Ele, na companhia de outros atletas do clube, haviam fugido da concentração e regressado de manhã, bêbados. Vida pessoal? O episódio não prejudicava a preparação de um jogador que tentava voltar a ser atleta?
Meses antes ele havia se envolvido em um escândalo com travestis e parado na delegacia. Vida pessoal? Desta vez, sim. À época Ronaldo não tinha contrato com nenhum clube e sequer havia a certeza de que ainda era um jogador de futebol.
Há mais de um ano Ronaldo luta para entrar em forma. Está, visivelmente, acima do peso. Recentemente a Folha de S. Paulo publicou que o craque passa por um problema pessoal e que, por isso, aumentou a quantidade de cigarros que fuma – estaria na casa dos dois maços diários. A repercussão da notícia enfureceu o atacante, que na quinta-feira, dia 6, desabafou em uma entrevista coletiva realizada no Parque São Jorge – um dia depois da eliminação do Corinthians na Libertadores. Vale dizer, foi o primeiro atleta do time a falar após o projeto de vencer a principal competição continental.
Logo veio o episódio em um prostíbulo no interior de São Paulo onde o Corinthians fazia a pré-temporada. Ele, na companhia de outros atletas do clube, haviam fugido da concentração e regressado de manhã, bêbados. Vida pessoal? O episódio não prejudicava a preparação de um jogador que tentava voltar a ser atleta?
Meses antes ele havia se envolvido em um escândalo com travestis e parado na delegacia. Vida pessoal? Desta vez, sim. À época Ronaldo não tinha contrato com nenhum clube e sequer havia a certeza de que ainda era um jogador de futebol.
Há mais de um ano Ronaldo luta para entrar em forma. Está, visivelmente, acima do peso. Recentemente a Folha de S. Paulo publicou que o craque passa por um problema pessoal e que, por isso, aumentou a quantidade de cigarros que fuma – estaria na casa dos dois maços diários. A repercussão da notícia enfureceu o atacante, que na quinta-feira, dia 6, desabafou em uma entrevista coletiva realizada no Parque São Jorge – um dia depois da eliminação do Corinthians na Libertadores. Vale dizer, foi o primeiro atleta do time a falar após o projeto de vencer a principal competição continental.
"Jogo com muitas dores"
O que se viu foi um Ronaldo abatido e cansado, que se emocionou e quase chegou às lagrimas quando foi questionado por que não conseguia entrar em forma. A palavra usada pelo repórter foi “falta de comprometimento” e a resposta do Fenômeno: “Tenho 33 anos, oito operações no corpo, jogo com muitas dores, e ainda tenho que ouvir uma pergunta sobre comprometimento”.
O lamento prosseguiu. Ronaldo reclamou de que as críticas a ele não são “técnicas” e, sim, pessoais. Disse que no Brasil um ídolo não é tratado como se deve e citou os Estados Unidos, país que disse admirar por tratar seus esportistas “quase como deuses”.
Importante lembrar que Ronaldo é aquele mesmo cara que anunciou ao vivo, em um programa da Rede Globo, que iria se casar. É também aquele mesmo jogador que levou a namorada Daniela Cicarelli em um treino da seleção e a exibiu como troféu. É o mesmo que vendeu as fotos do matrimônio para uma revista de fofoca da Espanha.
É fato que se Ronaldo estivesse jogando como antes os comentários sobre sua vida pessoal seriam minimizados. Mas como funcionário de um clube é natural que se busque explicação para seu fraco desempenho dentro de campo. E então vem a vida pessoal, que Ronaldo um dia já expôs e hoje pede privacidade.
Na entrevista o atacante disse que está perto de pendurar as chuteiras e que não deixará que “o aposentem”. Reclamou das concentrações e de piadas que tem sido feitas sobre seu peso. Disse que ainda tem prazer em jogar futebol, mas demonstrou que já não suporta o sacrifício que ser um atleta de ponta exige – que não é pequeno, diga-se. Ou seja, quer jogar, mas não está mais disposto a abraçar o pacote completo (treinos puxados, cobrança e concentração). Talvez o melhor seja jogar bola de sábado e fazer um churrasco com os amigos depois, como a grande maioria dos brasileiros faz.
O que se viu foi um Ronaldo abatido e cansado, que se emocionou e quase chegou às lagrimas quando foi questionado por que não conseguia entrar em forma. A palavra usada pelo repórter foi “falta de comprometimento” e a resposta do Fenômeno: “Tenho 33 anos, oito operações no corpo, jogo com muitas dores, e ainda tenho que ouvir uma pergunta sobre comprometimento”.
O lamento prosseguiu. Ronaldo reclamou de que as críticas a ele não são “técnicas” e, sim, pessoais. Disse que no Brasil um ídolo não é tratado como se deve e citou os Estados Unidos, país que disse admirar por tratar seus esportistas “quase como deuses”.
Importante lembrar que Ronaldo é aquele mesmo cara que anunciou ao vivo, em um programa da Rede Globo, que iria se casar. É também aquele mesmo jogador que levou a namorada Daniela Cicarelli em um treino da seleção e a exibiu como troféu. É o mesmo que vendeu as fotos do matrimônio para uma revista de fofoca da Espanha.
É fato que se Ronaldo estivesse jogando como antes os comentários sobre sua vida pessoal seriam minimizados. Mas como funcionário de um clube é natural que se busque explicação para seu fraco desempenho dentro de campo. E então vem a vida pessoal, que Ronaldo um dia já expôs e hoje pede privacidade.
Na entrevista o atacante disse que está perto de pendurar as chuteiras e que não deixará que “o aposentem”. Reclamou das concentrações e de piadas que tem sido feitas sobre seu peso. Disse que ainda tem prazer em jogar futebol, mas demonstrou que já não suporta o sacrifício que ser um atleta de ponta exige – que não é pequeno, diga-se. Ou seja, quer jogar, mas não está mais disposto a abraçar o pacote completo (treinos puxados, cobrança e concentração). Talvez o melhor seja jogar bola de sábado e fazer um churrasco com os amigos depois, como a grande maioria dos brasileiros faz.
O fardo de ser Ronaldo
Ronaldo vive agora um dilema. Buscar, novamente, forças para dar outra volta por cima e terminar a carreira no final do ano ajudando o Corinthians a vencer o Brasileiro ou conquistar uma vaga à Libertadores; ou levar os meses que faltam para terminar seu contrato em banho-maria, como tem feito. Jogar às vezes, fazer alguns gols e esperar para anunciar a aposentadoria – quem sabe até mesmo antes do final do ano.
Embora reclame, Ronaldo é, sim, tratado como um ídolo. Inclusive pela imprensa. E o que mais me chamou atenção na entrevista coletiva do jogador foi justamente isso. Pela primeira vez vi um Ronaldo de carne e osso. Não era o craque eleito três vezes o melhor jogador do mundo; não era o camisa 9 que encantou a Espanha; não era aquele jogador com cabelo estranho que demoliu a Alemanha, em pleno estádio Olímpico, em Berlim, na Copa de 2002.
Era um homem comum, cansado após um dia de trabalho em que as coisas não deram certo. Um rapaz de 33 anos, aparentando bem mais, que se queixava da vida. Se as câmeras estivessem desligadas e um copo de uísque estivesse do lado, provavelmente Ronaldo diria estar de saco cheio e que pensa em chutar tudo para o alto. Mas há nessa história um nome a zelar e muito, muito dinheiro envolvido.
É mais provável que Ronaldo siga engolindo sapos e contando os dias para deixar de ser Ronaldo Fenômeno - e ser apenas Ronaldo Nazário. Quando isso acontecer, ele pode ficar tranquilo. A imagem que teremos não é de um Ronaldo agonizante em campo, matando bola de canela, mas sim daquele monstro capaz de fazer jogadas absolutamente sobrenaturais como estas:
Ronaldo vive agora um dilema. Buscar, novamente, forças para dar outra volta por cima e terminar a carreira no final do ano ajudando o Corinthians a vencer o Brasileiro ou conquistar uma vaga à Libertadores; ou levar os meses que faltam para terminar seu contrato em banho-maria, como tem feito. Jogar às vezes, fazer alguns gols e esperar para anunciar a aposentadoria – quem sabe até mesmo antes do final do ano.
Embora reclame, Ronaldo é, sim, tratado como um ídolo. Inclusive pela imprensa. E o que mais me chamou atenção na entrevista coletiva do jogador foi justamente isso. Pela primeira vez vi um Ronaldo de carne e osso. Não era o craque eleito três vezes o melhor jogador do mundo; não era o camisa 9 que encantou a Espanha; não era aquele jogador com cabelo estranho que demoliu a Alemanha, em pleno estádio Olímpico, em Berlim, na Copa de 2002.
Era um homem comum, cansado após um dia de trabalho em que as coisas não deram certo. Um rapaz de 33 anos, aparentando bem mais, que se queixava da vida. Se as câmeras estivessem desligadas e um copo de uísque estivesse do lado, provavelmente Ronaldo diria estar de saco cheio e que pensa em chutar tudo para o alto. Mas há nessa história um nome a zelar e muito, muito dinheiro envolvido.
É mais provável que Ronaldo siga engolindo sapos e contando os dias para deixar de ser Ronaldo Fenômeno - e ser apenas Ronaldo Nazário. Quando isso acontecer, ele pode ficar tranquilo. A imagem que teremos não é de um Ronaldo agonizante em campo, matando bola de canela, mas sim daquele monstro capaz de fazer jogadas absolutamente sobrenaturais como estas:
Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé
terça-feira, 16 de março de 2010
A molecagem que faltava nos campos de futebol
Há muito se discute sobre o fim do futebol arte. E sempre que uma equipe pragmática é campeã o futebol competitivo e de resultado é valorizado. Nós mesmos, aqui no Nota de Rodapé, já abordamos esse assunto e criamos teses diferentes sobre isso. A verdade é que todos os amantes do esporte (praticantes ou não) gostam de espetáculo, seja no futebol, no basquete, no vôlei, mas, sobretudo, gostam de vencer.Quando o espetáculo é coroado com títulos, a felicidade é completa. Mas uma equipe que joga bonito é inversamente criticada quando sai de uma decisão derrotada. A imprevisibilidade do esporte é emocionante e surpreendente. Quantos times e seleções encantaram os olhos dos torcedores, mas ficaram marcadas pela falta de conquistas? E quantos campeões entraram para história por causa da garra e do espírito de luta que os levaram a superar o favoritismo do adversário?
Enfim, retomo o tema após mais uma exibição de gala do jovem time do Santos. Muitos podem desdenhar a goleada de 10 a 0 sobre o modestíssimo Naviraiense, do Mato Grosso do Sul, mas ninguém pode negar a qualidade técnica da equipe capitaneada por Robinho. Jogando com objetividade, SIM, os novos “Meninos da Vila” quebram tabus e provam, mais uma vez, que a arte e a molecagem fazem parte da nossa cultura. Os garotos do Dorival Jr. empolgam e o técnico faz bem em não deixar que eles se empolguem, como aconteceu em alguns momentos do clássico contra o Corinthians, na Vila, quando Neynar chapelou o zagueiro Chicão quando a bola estava parada, ou quando Madson ficou “penteando” a bola só para irritar o marcador.
O treinador, por sinal um dos melhores da nova geração, ao lado de Adilson Batista, do Cruzeiro, e Mano Menezes, do Corinthians, admitiu que houve excesso de preciosismo naquela partida e repreendeu seus atletas. “Se quiser chapelar, chapela, mas faz isso com bola rolando”, disse o treinador após a goleada contra o Naviraiense.
Dorival Júnior foi além e disse que não vai abrir mão do esquema ofensivo, mesmo correndo alguns riscos defensivos. Neymar e Paulo Henrique Ganso têm muita habilidade e visão de jogo, além da fome de gols, o que faltava a Robinho, quando este surgiu para o futebol, em 2002, pedalando contra os zagueiros. Os dois novos notáveis do Peixe já apresentam hoje características que o companheiro demorou a adquirir. Se eles forem bem orientados e não se iludirem com a fama repentina, poderão, em breve, brilhar também com a camisa amarela da seleção. Pena que o Dunga não dá sinais de mudar o grupo que não tem encantado a ninguém, mas conseguiu bons resultados sob seu comando. De qualquer maneira, os nomes de Neymar e Ganso estarão presentes no ciclo da Copa de 2014, aqui no Brasil. Viva a molecagem no futebol, mas se o Santos não for campeão...
Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.
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