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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Carta a João (que amava Teresa)



por Ricardo Viel*

Itabira, novembro de 1929

João:

meu amigo, gostaria tanto que esta carta levasse boas notícias, mas não, não será assim. Carrega um pedido de desculpas e uma triste nota de falecimento. Começo pelo segundo, que é mais urgente. Ontem, dia 20 de novembro deste ano de 1929, o nosso Joaquim deu cabo da vida. Antes de se enforcar em uma mangueira, deixou a típica carta de suicida na qual nos exime a todos de qualquer culpa, e que nos faz sentir ainda mais culpados.

Todo suicídio é evitável, e o caso do nosso amigo é só mais uma prova disso. Desde a tua partida para os Estados Unidos (já deve fazer uns oito anos anos ou mais), nosso grupo foi se desfazendo. Você foi tentar a vida do outro lado do continente (por certo, diga-me como vão as coisas, as notícias que chegam cá é que vive-se uma grande crise, espero que estejas bem), Raimundo mudou-se para a Bahia, o Carlos instalou-se na capital, e eu cada vez via menos o Joaquim. Sinto-me culpado, eu era quem estava por perto, e não percebi – ou não me importei – que ele estava passando por um período complicado. Havia rompido com a Maria, mas esse não era o principal problema, eu creio; ele nunca a amou. O grande baque foi com a Lili, que o desprezou e jogou muito baixo. Um dia, no Bar da Lúcia, o Joaquim me contou que a Lili certa vez lhe disse que enquanto ele estivesse com a Maria nunca nada aconteceria entre eles. Ou seja, deixou nas entrelinhas que se ficasse solteiro as coisas poderiam funcionar. Você não acompanhou isso, mas foi um escândalo na cidade quando o Joaquim resolveu romper o noivado com a coitada da Maria. Cidade pequena, todo mundo ficou sabendo, e muita gente desconfiou de que havia uma culpada. E então o Joaquim esperou passar umas semanas, deixou a poeira assentar, e foi todo perfumado e com ramo de flor na mão para conquistar Liliane Dutra Buaventura. Recebeu foi um tremendo não no meio do peito. Aquilo lhe doeu mais do que fosse uma navalhada nas carnes. Lembro-me de encontra-lo na praça umas quantas vezes perdido, só, e sem dizer coisa com coisa. Por conta da bebida, perdeu o emprego na companhia. Cheguei a vê-lo dormindo na rua num domingo antes da missa. E eu, como estava bem, feliz, casado e cheio de planos, evitava cada vez mais o contato.

Uma das últimas vezes que o vi foi no velório do Raimundo. Espero que tenham lhe contado... Foi terrível, pobre homem. Pobre e azarado, porque no trem ia muita gente, mas só morreu ele. Demoraram quase um mês para trazer o corpo dos confins da Bahia. A família endividou-se, precisou pedir dinheiro a todos, e o caixão veio lacrado. Sabe-se lá se o corpo que havia ali era o do Raimundo. Nem sei se ali havia um corpo.

O Joaquim apareceu bem vestido, mesmo terno que hoje o enterraram, cabelo penteado, barba feita, mas era impossível disfarçar a miséria de vida que levava. Contou-me que tinha planos de abrir um negócio, que precisava de um capital. Antecipei-me, e disse que se ele soubesse como conseguir que por favor me dissesse porque eu também necessitava dinheiro para trocar minhas máquinas. Dali fomos tomar umas cachaças, e falarmos de ti. E da Maria, que parece ser que não sai de casa e disse que não quer saber de homem mais na vida. E logo surgiu o tema Lili. Joaquim disse que o que mais lhe doía era que cada vez que a via ela estava mais bonita e encantadora, enquanto ele era aquele farrapo sem trabalho e sem sonhos.

João, depois da terceira dose ele começou a chorar, e falou que não valia a pena viver, que o bom mesmo era dar um fim. Disse assim, João, “dar um fim nas coisas”, e eu me fiz de desentendido, olhei o relógio, disse que era tarde, paguei a conta (faço questão de pagar, eu disse com o peito cheio), dei um tapa nas costas dele, e fui embora achando-me um homem bom, um sujeito que havia vencido na vida, não como o Joaquim.

Isso faz uns seis meses. Foi a última vez que nos falamos. E ontem ele cumpriu com o que tinha dito. Deve ter sofrido um bocado o nosso amigo. Lembro-me tanto dele menino, de todos nós, das nossas farras, das nossas conversas e dos nossos projetos. Nada saiu como planejávamos, verdade?

No velório, já entrada a noite, apareceu a Lili. Ia acompanhada de um tal de João Pinto, parece ser que é filho do Fernandes da Carniçaria, você conhece? Abraçou a dona Dolores, cumprimentou-me com um cordial e falso inclinar de cabeça, e foi-se embora com cara de triunfo tomada da mão daquele homem que eu nunca tinha visto na vida. E fiquei a pensar que se ela tivesse escolhido o Joaquim, eu estaria agora era escrevendo uma carta para contar da festa de casamento, ou do batizado da criança que acabara de nascer. Mas não, não é assim, e a Lili não conseguia disfarçar a alegria mórbida de estar ali, de estar acompanhada, de ter optado pelo filho do Fernandes e não pelo Joaquim, que não era filho de ninguém e tampouco será o pai de alguém.

Só não foi pior porque por lá apareceu o Carlos, que há anos se foi para a capital e pouco aparece por aqui. Contou-me que a faculdade de farmácia não lhe serviu para grandes coisas, que o seu negócio é mesmo escrever, e que está metido em um projeto de um livro de poesia. Disse que prepara surpresas. É o mesmo de sempre: elegante, discreto, e genial. Tenho certo que se falará muito dele no futuro.

Pois era isso, meu caro amigo. O pedido de desculpas é pelo sumiço. É inadmissível que nos percamos dessa maneira. Mande notícias, de preferência boas, eu tratarei de fazer o mesmo. Um abraço forte,

Edu Coutinho

Pós-escrito: e de Teresa, sabe algo?

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal. Ilustração: ROBERT BEATTY SURREAL-SCAPES

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Juro que vivi

"Manga, carambola, pitanga, goiaba, sapoti, abiu." Minha mãe de tanto descrever as frutas que havia no quintal da casa de sua infância, na rua Barão de Mesquita, na carioca Tijuca, fez com que abiu, sapoti, goiabada, pitanga, carambola, manga fossem frutas da minha infância transcorrida em quintais sem árvores.

Meu pai de tanto descrever o impacto que a notícia do fim da Segunda Guerra teve em seu coração de quinze anos, fez com que eu sentisse o louco entusiasmo que arrepiou as cabeleiras dos vivos naquele maio de 1945. De tanto ler e escrever sobre o 8 de Março, quase me convenço que estive presente no Congresso de Mulheres, Copenhague / 1910, onde a comunista Clara Zetkin propôs a criação da data.

A memória dos outros é poderosa quando contada e recontada. Ela penetra, sem cerimônia e impetuosa, no hipocampo cerebral de quem ouve ou lê. Por isso sou capaz de sentir o gosto do abiu, a euforia do final da guerra e a então subversão de um bando de mulheres. Faz menos de um mês, visitando a Fortaleza de Santa Cruz em Niterói, voltei a essa experiência de transferência de memória.

O recruta Patresi, nosso guia na Fortaleza, descreveu com tamanho brilho a fuga do preso político Juarez Távora, que vi o tenentista descer o íngreme paredão em direção ao mar, amarrado em uma corda de cânhamo de 25 metros de comprimento. De uma forma mágica, a fuga daquele fim de tarde de 1930 voltou a acontecer na manhã de um domingo deste 2011.

Memórias mortas são as não contadas. Aquelas envoltas em segredos de Estado, entocadas em pastas top secret, ou as memórias trancafiadas em diários que seus donos e donas atiram ao fogo. Porque os que têm a boca grande ou aqueles, como a minha mãe, que reprisam e reprisam suas lembranças são mensageiros e guardiões da grande memória. Memórias que a gente já não sabe a quem pertence. São de quem viveu os fatos e de quem ouviu contar.

Sempre que subo as escadarias do Teatro Municipal de Sampa, revisito a Semana de Arte Moderna de 1922. Semana – de três dias – que poria o modernismo dos paulistas no mapa cultural do país. Batata: vejo Oswald de Andrade descendo de um Ford Bigode. Mario de Andrade saltando do bonde. Villa-Lobos esvoaçado sua partitura e a ousada e tímida Anita Malfatti na companhia de um homem amarelo.

Para os leitores que não me conhecem, esclareço que não sou tão antiga quanto o modernismo. Nasci em 1955, ano em que os brasileiros elegeram Juscelino Kubitschek. O cara dos 50 anos em 5. O presidente da República que peitou a construção de Brasília. Minha tia Marlene andou por lá, quando a cidade era um enorme campo de obras e sonhos.

Pois de tanto ela contar suas lembranças, toda vez que aterrisso no Distrito Federal vejo novamente os barracões, a terra vermelha, os candangos – homens e mulheres – que meteram os pés no barro e as mãos no concreto armado. Vejo os operários suspendendo os anjinhos no teto da Catedral. Os jardineiros plantando as primeiras sementes nos canteiros do Plano Piloto.

Mas voltando ao Modernismo e ao Municipal, o que mais me recordo é da abertura da Semana com o poema do recifense Manuel Bandeira falando de sapos – sapo tanoeiro, sapo-boi, sapo-pipa – para uma plateia entre incrédula e ruidosa. Essa plateia saíra dali contando e implantando, na cabeça dos que viriam a nascer, suas memórias.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.
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