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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Futurologia barata
por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
A gente vai avançando pela casa dos cinquenta (cujo trema foi limado pela última reforma ortográfica) e a pele vai crescendo, sobrando. As dobras vão virando caminhos escavados por todo lado. A cada dia encontro uma pelanca nova, que eu juro que não existia na semana passada. Uma dorzinha aqui, outra ali, e tome aulas de Pilates.
Enquanto isso, a roda vai girando, com destaque para a inédita renúncia do papa mais esperto de todos os tempos (sucedido por um argentino, por la mano de diós) e a morte do caudilho liberticida, endeusado e ainda insepulto. Tem a vergonhosa eleição de um sujeitinho à toa, um mequetrefe nefasto, para um lugar importante de promoção e defesa dos direitos humanos – aqueles que a maioria dos brasileiros ainda interpreta como “argumentos para a proteção de bandidos”, e que estão muito longe de ser prioritários nas preocupações dos políticos, dos governos e de amplos setores da sociedade. Tem, ainda, o goleiro assassino da mãe de seu filho recebendo uma punição que é quase um escárnio e, no meio do caminho, a Avenida Paulista, onde playboys cercados de doutores advogados brincam de mutilar ciclistas pobres.
Aí vem a senhora octogenária me propondo pensar em 2053. O futuro é uma ficção, penso eu, que gosto mesmo é do presente. Mas vamos lá.
Se eu ainda estiver viva, serei uma velhinha bem velhinha, como tantas outras mulheres e homens que terão tido a oportunidade de prolongar muito a vida, em comparação com as gerações anteriores. No embate permanente entre o bem e o mal, segundo a concepção de cada um, espero que aquelas coisas que eu considero “do bem” tenham ocupado mais espaço, e que meus netos, que ainda nem nasceram, e bisnetos, vivam num mundo mais bem preparado para acolher as novas gerações, tanto no terreno da qualidade de vida quanto no das ideias. Que viver lhes seja mais leve. Sonhar ainda não paga imposto.
Quero me sentar numa varanda ensolarada e ampla, acompanhada de algumas pessoas que já vêm vindo comigo há um bocado de tempo, e rir. Lembrar dos nossos medos, das nossas incertezas, fechar o quebra-cabeça das nossas vidas e finalmente entender tudo, ou não entender nada, e rir muito. Talvez chorar um pouco também, mas principalmente rir de tudo, com gosto.
Daqui até lá, espero comer muito arroz com feijão e ovo frito, viajar bastante, me indignar o suficiente com a falta de sentido das coisas, escrever e publicar as minhas lorotas, cultivar meus afetos todos os dias, receber as adversidades como puder e rir, sempre que possível.
* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto
domingo, 18 de abril de 2010
Ser um filho de desaparecido na Argentina
A voz dos vencedores calou a todo um povo e junto com ela a história de seus lutadores por longos anos. Boa parte dos fatos da ditadura militar e dos homens e mulheres que deram sua vida por um país melhor virou silêncio de cemitério, algo maldito, ou nos melhores dos casos, mal visto. A única resistência foram a mães da Praça de Maio, consideradas “loucas” na tímida democracia dos anos de 1983.
-Teus país estão viajando.
-E quando eles voltam vó?
-Pronto meu querido, pronto...
Muitos filhos ficaram sem pais e sem respostas. Muitas vezes parentes próximos inventavam mentiras piedosas por não saber o que dizer ou com vergonha por seus netos ou sobrinhos. Uma infância de brincadeiras e ausências.
Cada um deles achava que isso só acontecia com eles, mas não. O terrorismo de estado massacrou na Argentina e 30 mil pessoas. Eles cresceram e as perguntas começaram a quebrar os tijolos da enorme parede. A faculdade, a política, as pessoas, as discussões, os encontros.
Então os murmúrios se fizeram ideias. Criado numa bolha, respirava confundido os jornais, livros, músicas, e então a universidade me recebeu com uma bofetada de realidade. A liberdade, as novas experiências, tudo chegou de uma vez para mim.
Numa classe de filosofia contemporânea me disseram:
-Aquele tá procurando um cara pra rachar um apê.
-Beleza.
-O cara é maneiro.
O nome dele é Camilo Cagni, magro, cabelo comprido, preto, liso, fanático por rock argentino. Foi difícil fazê-lo escutar The Doors, mas curtiu muito depois.
Compartilhamos uma quitinete no centro da cidade de La Plata, capital do estado de Buenos Aires e principal centro universitário da região. Um armário no meio separava as camas de um lado e uma mesa redonda com quatro cadeiras velhas e som do outro. Numa noite, com apenas a luz do abajur acesa, me disse: as única coisa que tenho do meu pai é são fotos e essa borracha escrita por ele que diz FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Até os doze eu tinha esperança de que ele e minha mãe voltassem.
No geral uma casa de estudantes não amanhecia até o meio-dia, no entanto a nossa era geograficamente e por desgraça bem localizada. Às nove da manhã um carteiro amigo sempre tocava a campanhia para nos acordar pra fazer tempo. De altura média, olhos verdes, cabelo longo encaracolado, voz grave e energética. Assim é Carlos Rios, mais conhecido como Charly. Foi o primeiro a dizer a Hebe de Bonafini, presidente das Mães da Praça de Maio, que os filhos de desaparecidos tinham que ter sua própria organização de direitos humanos. Como todo jovem teve que ouvir a típica resposta: vocês são muitos jovens, os partidos vão manipular vocês. No entanto, para os anos de 1995 as organizações de filhos de desaparecidos já tinham pipocado pelo país inteiro. E assim como outras organizações de direitos humanos os partidos caíram em cima.
Por este motivo, na minha quitinete se faziam reuniões paralelas com a vanguarda do que se deveria ter feito. Naquele momento, La Plata era a referência a nível nacional da organização. E grandes propostas saíram dali.
-Os assassinos dos nossos pais estão livres e contentes.
-É. Eu vi um deles hoje.
-Onde?
-Aqui mesmo.
-Filho da puta!!!!
-Porra!!! Não pode ficar assim.
-E se a gente juntar todo mundo e marcar o lugar onde ele mora?
Foram poucos na primeira, mas o barulho foi enorme. Não dava mais para ser indiferente. "Senhoras, senhores: o teu vizinho é um assassino e torturador." E cantávamos a viva voz: “Assim como aos nazistas lhes aconteceu, onde vais, nós iremos atrás”. H.I.J.O.S (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silencio), acordou a muitos e a mim, inclusive.
Rodrigo Menitto é jornalista, filho de terras argentinas e brasileiras, estreia sua coluna Crônicas do Sul.
-Teus país estão viajando.
-E quando eles voltam vó?
-Pronto meu querido, pronto...
Muitos filhos ficaram sem pais e sem respostas. Muitas vezes parentes próximos inventavam mentiras piedosas por não saber o que dizer ou com vergonha por seus netos ou sobrinhos. Uma infância de brincadeiras e ausências.
Cada um deles achava que isso só acontecia com eles, mas não. O terrorismo de estado massacrou na Argentina e 30 mil pessoas. Eles cresceram e as perguntas começaram a quebrar os tijolos da enorme parede. A faculdade, a política, as pessoas, as discussões, os encontros.
Então os murmúrios se fizeram ideias. Criado numa bolha, respirava confundido os jornais, livros, músicas, e então a universidade me recebeu com uma bofetada de realidade. A liberdade, as novas experiências, tudo chegou de uma vez para mim.
Numa classe de filosofia contemporânea me disseram:
-Aquele tá procurando um cara pra rachar um apê.
-Beleza.
-O cara é maneiro.
"eu tinha esperança
de que ele e minha mãe
voltassem"
Compartilhamos uma quitinete no centro da cidade de La Plata, capital do estado de Buenos Aires e principal centro universitário da região. Um armário no meio separava as camas de um lado e uma mesa redonda com quatro cadeiras velhas e som do outro. Numa noite, com apenas a luz do abajur acesa, me disse: as única coisa que tenho do meu pai é são fotos e essa borracha escrita por ele que diz FAR (Forças Armadas Revolucionárias). Até os doze eu tinha esperança de que ele e minha mãe voltassem.
No geral uma casa de estudantes não amanhecia até o meio-dia, no entanto a nossa era geograficamente e por desgraça bem localizada. Às nove da manhã um carteiro amigo sempre tocava a campanhia para nos acordar pra fazer tempo. De altura média, olhos verdes, cabelo longo encaracolado, voz grave e energética. Assim é Carlos Rios, mais conhecido como Charly. Foi o primeiro a dizer a Hebe de Bonafini, presidente das Mães da Praça de Maio, que os filhos de desaparecidos tinham que ter sua própria organização de direitos humanos. Como todo jovem teve que ouvir a típica resposta: vocês são muitos jovens, os partidos vão manipular vocês. No entanto, para os anos de 1995 as organizações de filhos de desaparecidos já tinham pipocado pelo país inteiro. E assim como outras organizações de direitos humanos os partidos caíram em cima.
Por este motivo, na minha quitinete se faziam reuniões paralelas com a vanguarda do que se deveria ter feito. Naquele momento, La Plata era a referência a nível nacional da organização. E grandes propostas saíram dali.
-Os assassinos dos nossos pais estão livres e contentes.
-É. Eu vi um deles hoje.
-Onde?
-Aqui mesmo.
-Filho da puta!!!!
-Porra!!! Não pode ficar assim.
-E se a gente juntar todo mundo e marcar o lugar onde ele mora?
Foram poucos na primeira, mas o barulho foi enorme. Não dava mais para ser indiferente. "Senhoras, senhores: o teu vizinho é um assassino e torturador." E cantávamos a viva voz: “Assim como aos nazistas lhes aconteceu, onde vais, nós iremos atrás”. H.I.J.O.S (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silencio), acordou a muitos e a mim, inclusive.
Rodrigo Menitto é jornalista, filho de terras argentinas e brasileiras, estreia sua coluna Crônicas do Sul.
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