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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 4 de maio de 2011

A evolução do bullying e da catapora

Durante várias semanas, meu filho chegou da escola triste e mau-humorado. Dizia que o dia tinha sido ruim, não queria falar sobre o que tinha aprendido – como a gente sempre fez desde que ele começou a falar. Era péssimo sair de um dia duro de trabalho, buscar o pequeno e não encontrar um sorriso, um abraço. Sempre a cara fechada, sempre irritado. Comecei a insistir nas perguntas e ele enfim disse que estava apanhando de uma menina. Apesar de ser da idade dele, ela é muito maior e mais robusta. Conversamos com ele, chegamos a fazer uma reunião em casa: eu, o pai e o padrasto. Ele dizia que a professora não via, que não podia bater de volta porque ela é menina. Então resolvi mandar um bilhete na agenda, pedindo ajuda para a professora. Eu sempre adotei a política do “te vira”. Nunca interferi em brigas da molecada, sempre deixei que ele resolvesse suas questões, batendo ou apanhando. O problema é que a mãe da menina era cuidadora da escola e ficava sozinha cuidando deles. Resumindo: a agenda dele sumiu, disseram que foi encontrada no lixo, que a mulher realmente não sabia “separar as coisas” e num instinto arranquei ele da escola e coloquei em outra em um dia. Meu filho sofreu bullying? A definição do termo inglês fala em “violência física e psicológica”. Então sim, né? A reação desta mãe em surto foi pedir licença no trabalho, visitar escolas e me endividar. Não queria esperar que algo ruim acontecesse. Escutei coisas do tipo: “ Calma, não estamos lidando com loucos, não seja radical”. Mas eu sempre me lembro de uma frase que ouvi quando cobria o caso Pimenta Neves: “Ninguém é assassino até matar a primeira pessoa”.

Pouco caso
Eu contei isso aqui não só porque foi o surto da vez, mas porque há algum tempo eu percebo um movimento sutil, quase inconsciente, para minimizar o bullying. Ouvi várias frases como “Todo mundo apanhou na escola, mas não tinha esse nome bonito”. Ou “Nos anos 80 a gente era zuado na escola mas ninguém virou assassino”. Opa! Nem vou entrar no episódio de Realengo. Ou falar dos vários nerds que entraram atirando em escolas nos Estados Unidos. Também não vou lembrar casos de psicopatas, depressivos, suicidas que relataram ter sofrido agressões na escola. Eu trabalhei na editoria de cidades e frequentemente via histórias de bullying que acabavam mal. Crianças que levaram armas para a escola porque não aguentavam mais serem alvo de chacota, meninas que foram machucadas, presas em suportes de televisão, muitas coisas cabeludas. O bullying hoje evoluiu. Mais ou menos assim: lembra de quando catapora era uma doença infantil? A gente pegava e passava. Hoje catapora mata. O saldo final no caso do meu pequeno, foi muito feliz. Ele ama a escola nova, chega em casa cheio de novidades todos os dias. Mas ainda está resolvendo algumas questões. Ontem mesmo ele disse: “Mãe, vou vomitar meu coração partido”. E eu entendi tudinho.

Andrea Dip, jornalista, colunista do NR e Mãe em Surto

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mãe em Surto na Revista do Brasil

Nossa Andrea Dip, que mantém aqui a coluna Mãe em Surto, fez parte de uma matéria da Revista do Brasil sobre mulheres e blogueiras. O texto é de Letícia Cruz e Virgínia Toledo, "Ativistas na vida e na rede".
Trecho que fala de Dip. "Quando  Para Andrea Dip, a vida de blogueira-comunicadora tem de se encaixar em outra realidade não menos importante, a de ser mãe. Desde a época da faculdade, ela escrevia muito sobre direitos humanos, direito da mulher, da igualdade, da liberdade e principalmente sobre os costumes da sociedade. Foi quando a vida antecipou-lhe uma nova vocação: a gravidez ainda no último ano de Jornalismo, e o desafio de conciliar os ofícios de “recém-mãe” e recém-formada. “Quando a gente engravida, a sociedade vem com aquela história da mulher em estado de graça, de perfeição, mas eu vivi aquilo e sabia que não era bem assim. Não é fácil administrar carreira, filho e casa. Tudo isso é adaptação, e não uma condição”, afirma.
Com o filho crescendo e a rotina se intensificando, um amigo sugeriu que ela dividisse os sabores e dissabores de seu dia a dia com outras pessoas. Foi aí que surgiram as histórias inusitadas de Mães em Surto, uma coluna criada dentro do blog Nota de Rodapé.
As crônicas de Andrea seguem à risca as desventuras que as mães vivem e também passeiam por temas sugeridos por amigas que passam pela mesma empreitada. Com o trabalho fixo num grande portal, os “frilas” para completar o orçamento, o cuidar da casa e da “agenda” em torno do filhote, é difícil manter a regularidade dos posts. Mas pelo menos a página está lá, sempre pronta para o momento em que a inspiração, disposição e disponibilidade se encontrem no mesmo lapso de tempo." 

Leia a íntegra AQUI. E para ler as colunas do Mãe em Surto, AQUI.

sexta-feira, 4 de março de 2011

MP3, INPS, Justin Bieber e Içami Tiba

Juro que pensei em perguntar para a psicóloga da escola com quantos anos ouviria o primeiro “ai mãe, que saco”. Porque achei que demoraria pelo menos uns 12 anos, mas veio muito antes. Do alto de seus 6 anos de idade, meu filho fala essa frase pré-adolescente várias vezes ao dia.
"Ai, mãe, que saco"
Mas parece que todas as crianças pós anos 2000 são adolescentes mirins! São preocupadas com roupas, querem ter o cabelo do Justin Bieber, andam com fones de ouvido e games de mão… Aliás meu filho ganhou um MP3 player do pai, me fez baixar as músicas preferidas e eu nem pude opinar. “Podemos colocar um Chico Buarque aí? Um Velvet Undergound?” “Ah não, mãe, que saco”.
Mas um dia ele me pediu: “mãe, pega meu INPS”. “Que?” “Meu INPS, mãe, quero ouvir música”.
Enfim. Em minha defesa, devo dizer que não incentivo essa precocidade, mas ela está presente. Na escola, nos amigos, primos, irmãos… Em vez de culpar a internet, a Era, a publicidade, comecei a achar que a culpa é nossa mesmo. Da minha geração de mães em surto. Aliás, esta aqui faz 29 primaveras no próximo dia 15 - mais um colar de macarrão ou um porta lápis de palitos de sorvete para a coleção. Uma amiga (sem filhos, claro) ficou indignada no dia em que revelei que não, as mães não adoram os colares de macarrão. Elas guardam, agradecem, dão beijos e colocam em exposição, mas é para não frustrar o processo criativo dos filhos, ok? Convivam com isso. Desculpem a mudança de tema.
Justin: parte da mulecada quer
ter o mesmo cabelo que ele
Já reparei que as mães em surto de até 35 anos costumam tratar os filhos de igual para igual. A gente não fala “ai, ai, Joãozinho, que feio”. Diz: “Pô cara, que vacilo!” Ou “ Ah, meu não acredito…” e acaba tratando eles como iguais: às vezes eles como adultos, outras, nós como crianças. Não esqueço o dia em que uma amiga recém separada contou toda triste que o filho de 3 anos não queria tomar banho e após o estresse básico que estas situações causam disse: “Quero morar com o meu pai”. Em vez da mãe pensar como adulta, que aquilo era apenas uma defesa da criança, que sabia que isso iria feri-la, ficou triste, chorou, virou a cara para o menino por alguns instantes, chegou a dizer “poxa, mas sou eu que faço tudo sozinha por você, cuido, pago as contas, sabe?" Não, ele não sabe! Tem três anos!
O fato é que não temos como saber no que isso vai dar. Nem saber se é politicamente correto. Provavelmente o Içami Tiba diria que é errado… Mas cadê os educadores que escrevem livros quando a gente tem que dar banho na criança com uma mão, pagar uma conta com a outra, depois de um dia punk de trabalho e ainda lidar com a culpa de estar aqui com a cabeça lá e lá com a cabeça aqui?
No Facebook: 
Se você gostou do conteúdo do NR curta lá nossa página.
Mas posso dizer com orgulho que todas as mães em surto que acompanho de perto têm feito um bom trabalho. Amam e defendem suas crias como nunca e são sinceras sempre. Nada de mentiras sobre pai que foi viajar e já vem: o papai foi morar na casinha dele porque nosso casamento não deu certo. Mas ele te ama mais do que tudo e a mamãe também. E choram na frente das crianças quando não conseguem segurar, e explicam que às vezes as mamães também ficam tristes e choram e que tudo bem, vai passar.
Para todas as mães em surto, e as que ainda não são mães ou que ainda não surtaram, meu feliz dia internacional da mulher.

PS: Aliás, esta coluna está chique este mês! Vai aparecer em uma matéria especial sobre mulheres guerreiras na Revista do Brasil. Se passar por uma banca, espia lá!

Andrea Dip é jornalista, mãe do David e mantém a coluna Mãe em Surto.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mãe, o que é capitalismo?

Estes dias recebi reclamações porque o pequeno estava cantando a música da banda Garotos Podres na escola. Mais especificamente aquela que diz: 
“Papai Noel / velho batuta (não é isso, mas eu disse a ele que sim) / rejeita os miseráveis / (...) aquele porco capitalista / presenteia os ricos / cospe nos pobres (...)”. 
"Ele cospe nos pobres?"
Ipod no carro é isso. As músicas vão rolando e às vezes a gente não consegue tirar antes que as crianças percebam e gritem “deixa aí”.
Meu filho tem uma aguçadíssima memória musical. Ouve uma vez qualquer coisa e já grava em seu pequeno cérebro. De Garotos Podres ao desgraçado Rebolation da propaganda de CD. Ele já tem algum filtro interno (obrigada Senhor), mas, para garantir, eu deixo nos canais educativos enquanto ele está acordado. Mas isto é assunto para outro post.
O fato é que a caminho de casa, em nossa andança diária ele me perguntou: “O que é capitalismo?” Seguido de “Por que o Papai Noel cospe nos pobres?” E lá vamos nós. Lembrei de quando ele me perguntou o que era “justiça” e o que era “paz”. Pensei por um minuto que não poderia ser cruel e responder “Porque o Papai Noel é invenção do capitalismo para nos fazer gastar dinheiro com brinquedos do Ben 10 feitos por crianças escravizadas na China”. Então respondi apenas algo como “capitalismo é a forma com que vivemos hoje, em que temos que trabalhar muito para ganhar algum dinheiro, mas algumas pessoas por falta de oportunidade não ganham dinheiro e são pobres. Também existem pessoas que trabalham pouco e ganham muito dinheiro. Isso é o ruim do capitalismo: uns tem muito dinheiro e outros não tem dinheiro nenhum”. Algo assim, não me lembro as palavras exatas. A resposta, bem mais rápida do que a minha foi “poxa mãe, mas as pessoas já são pobres, precisa o Papai Noel cuspir nelas? Ele é mau?”. Pronto. Piorei a situação.
Aí respondi: “Isso é modo de dizer filho, porque como os pobres não têm dinheiro para comprar presente de natal, é como se o Papai Noel nem ligasse para elas. Mas ele não cospe, é que o moço que fez a música é punk”. A resposta foi tosca, leitor, eu sei, mas queria ver se fosse você na cena! Deve ter adiantado, porque ele respondeu: “Então eu vou dar alguns presentes que ganhar de natal para os pobres. Assim eles ficam felizes e o Papai Noel não cospe neles”. Depois dessa, eu só poderia dizer aliviada: “Lindo, filho. Isto se chama ‘comunismo”.

Andrea Dip é jornalista e mantém a coluna Mãe em Surto neste NR

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Mas você tem babá?

"Que o senhor não dê trigêmeos aos pobres"
O mês de julho sempre traz sentimentos contraditórios às mães em surto. Lembro-me de passar férias na casa da minha avó, viajar com os meus pais para a praia, para o sítio, ficar em casa vendo sessão da tarde comendo bolacha recheada e tomando leite com chocolate.
É claro que as coisas não são mais assim. Esta mãe em surto que vos escreve e todas as outras NUNCA conseguem tirar férias em julho ou dezembro, junto com a criança. Portanto, quando vai chegando o final do semestre é hora de rebolar: brigar com o pai que não quer dividir, arranjar entre uma avó e outra as quatro semanas, negociar a diária do curso de férias na escola caso dê tudo errado, enfim.
Os sentimentos são contraditórios porque ao mesmo tempo em que a mãe em surto pode tirar férias das obrigações maternas, sente-se culpada por estar longe, tirando férias das obrigações maternas. É claro que os planos de ver as amigas e pegar um cinema no meio da semana não passam de ilusão. Trabalho e mais trabalho tomam os 30 dias de ponta a ponta e você descobre que seria uma workaholic infeliz e não uma baladeira descolada.
Nas minhas férias escolares, ou melhor, do pequeno, rebolei um bocado. Fui dormir no sítio umas noites para matar as saudades, acordei cedo pra voltar ao trabalho e fechar a matéria nos dias seguintes, o trouxe para casa aos finais de semana, dei jeitos mirabolantes de mandá-lo de volta nas segundas-feiras, enfim...
Aí no cabeleireiro granfino, esperando para ser tosada de graça (porque mãe em surto, ainda mais jornalista, não tem dinheiro, mas tem amigos), escutei a moça sem olheiras da direita comentar com a loira bem tratada da esquerda, que Theodoro (porque deve ser escrito com H) “teve até febre porque eu passei 10 dias em Madrid, acredita?” e a dúvida era “Será que emendo uma viagem à New York? Minha amiga me convidou e fiquei bem tentada”. “Ai boba, vai sim, não perde a vida. Logo eles crescem e te esquecem” foi o conselho da loira sem pontas duplas da esquerda.
Querendo ser simpática, pergunto à sem olheiras se ela tem apenas um filho e qual a idade: “Não, tenho trigêmeos! Eles têm três anos”. Trigêmeos? Começava a ter dó da moça, quando parei para pensar que esta informação não condizia com sua pele. “Mas você tem babá?”, perguntei. “Quatro”, respondeu a da pele boa. Inclui na minha prece diária. “Que o senhor não dê trigêmeos aos pobres ou às mães solteiras, amém” e saí menos culpada do salão.

Andrea Dip é jornalista e Mãe em Surto

terça-feira, 27 de julho de 2010

Desabafo de uma repórter indignada

Telefones de apoio a mulher vítima de agressão não existem, mudaram ou são de lojas e até de uma peixaria

Peço licença para dividir minha indignação como jornalista e principalmente como mulher. Como os leitores do NR sabem, a violência contra a mulher, em todos os formatos possíveis e não imaginados só aumentam por aqui. A Lei Maria da Penha, que ajuda a intimidar parte dos agressores, é motivo de chacota para alguns juízes e juízas como a doutora Ana Paula Delduque Migueis Laviola de Freitas, do 3º Juizado de Violência Doméstica do RJ, que não puniu o goleiro Bruno na primeira denúncia de Eliza Samudio por entender que a moça não poderia se beneficiar das medidas de proteção, nem "tentar punir o agressor", sob pena de banalizar a Lei; ou ainda o doutor Edilson Rumbelsperger Rodrigues, que para não me estender muito, conto com a curiosidade do leitor e indico o site onde ele discorre sobre o assunto.
Pesquisando sobre o machismo que culpabiliza a vítima de violência para uma matéria que escrevo neste exato momento para o jornal Folha Universal, resolvi montar um guia de serviços com centros de referência e delegacias da mulher, locais onde a mulher vítima de agressão sexual poderia encontrar apoio e segurança para denunciar. Pois bem. Encontrei uma infinidade destas listas em sites de organizações feministas respeitáveis e até em páginas ligadas ao governo. Que maravilha! Mas uma pulguinha cismou pular atrás da minha orelha e decidi checar estes números - algo trabalhoso, porém necessário e básico. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que a maioria dos números fornecidos não existe, mudou e onde deveriam estar os tais locais de apoio na verdade funcionam lojas e até uma peixaria. Agora o leitor imagine: quanto tempo uma mulher demora e quantos monstros tem que vencer até resolver pegar o telefone para procurar ajuda? Quanto está em jogo? Então esta mulher disca o número fornecido e compra uma roupa nova? Encomenda um peixe?
Só faltou o telefone de uma pizzaria. Seria bem apropriado. Quando finalizar o guia, pretendo disponibilizar aqui no NR. Quem quiser e puder, compartilhe!

Andrea Dip é jornalista e mantém a coluna Mãe em Surto

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mãe em surto na dinâmica escolar...

Gente faz tempo, né? Mãe em surto é assim, sempre surtada com o trabalho, os frilas, as pontas e os bicos para fechar o orçamento. Como se não bastassem os outros infortúnios da vida... Mas enfim, não vou ficar aqui chorando as mágoas. É só uma justificativa para o sumiço e um pedido de perdão aos nobres leitores do NR!
Há duas semanas fui a ultima reunião escolar do pequeno antes das férias. Aquela de fechamento de semestre em que a professora nos enche de pastas, trabalhos, lições, pinturas diversas, tudo em cartolinas enormes, para facilitar a nossa vida na hora de guardar. Essa, aliás, foi uma enquete que fiz com outras mães em surto: "Onde vocês guardam tantos trabalhos e lições, semestre após semestre, ano após ano?" A resposta unânime foi "atrás do armário". Lá onde a moça da limpeza não mexe nunca.
Sempre sonhei com as reuniões escolares. Eu chegaria linda e poderosa, atrasada e maquilada, direto do meu emprego incrível para confraternizar com outros pais e ouvir como meu filho é inteligente e especial. Bom. Chego atrasada porque vou de busão, descabelada, desmaquilada, de tênis, jeans e camiseta e não necessariamente de uma jornada de trabalho incrível. Graças ao bom Deus pelo menos a parte do filho é verdade.
Para melhorar minha moral, as tatuagens não ajudam na confraternização com os outros pais. E as cadeirinhas que as tias colocam para a gente sentar em roda? Minha bunda não cabe! Sempre passo vergonha, mas faço a hippie: “prefiro sentar no chão”. Nas outras cadeirinhas, mais ou menos constrangidos, estão os outros pais ou mães solteiros. A professora nos passa relatórios individuais e coletivos e os outros pais sempre têm mais perguntas e considerações do que eu. Fico pensando em uma pergunta inteligente e preocupada para fazer, mas sempre desisto e invisto nos sinais afirmativos com a cabeça.
A última reunião foi muito triste. A professora pediu uma dinâmica. Já queria me jogar da janela. Mas tinha grades. Ela distribuiu pedaços de papel e giz de cera e pediu que desenhássemos um aquário. Eu desenhei o vidro, as pedrinhas coloridas, uma plantinha e estava empenhada pintando o primeiro peixinho quando ela pediu de volta. Aí colou na lousa os nossos papéis e disse “Olhem como os peixinhos são diferentes. Um desenhou uma família de peixes. Outra desenhou apenas um peixe colorido” e me olhou com aquele ar de “você é um peixe sozinho no aquário”. Fiquei arrasada e desmoralizada na dinâmica escolar. E eu ia desenhar mais peixes, poxa, mas ela nem deu tempo! Peguei as cartolinas e voltei pra casa sozinha no meu aqua...taxi.

Andrea Dip é jornalista, colunista do NR e mãe em surto

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Mãe em Surto X Rata de academia

Cheguei à academia atrasada para a aula de boxe. Aí resolvi correr um pouco na esteira, para não perder a viagem. Porque para as mães em surto, principalmente as solteiras, é um sacrifício conseguir ir à academia. Você precisa negociar prazos e riscos, implorar para o pai da criança ficar “só uma horinha, duas vezes por semana” e “agradecer mil vezes” quando ele diz que vai tentar. Foi então que do alto da esteira eu vi uma garota de uns 20 anos passar a catraca e adentrar o recinto. E a imagem foi quase como uma epifania em minha mente suada. Como não sou a Maitena, vou enumerar algumas diferenças básicas entre as espécies.

Mãe em Surto X Rata de academia:

M.S: chega à academia sempre correndo, um pouco descabelada. A catraca trava porque ela se esqueceu de pagar o último boleto. As roupas são basicamente uma leggin que usou durante a gravidez ou comprou para malhar no começo dos anos 90 e um camisetão remanescente do ex-marido. Dá um “oizinho” geral e começa as atividades porque cada minuto vale ouro.

R.A: Não anda, desfila. Passa a catraca dando um oi escandaloso à recepcionista, sua amiga no Orkut. Usa um top minúsculo combinando com os shorts de tecido tecnológico. Os cabelos são perfeitamente penteados em um rabo de cavalo geralmente com luzes. Dá beijinho em todos os musculosos, dos monitores aos que tomam proteína e fazem parte do cenário.

M.S: Se você tem tatuagens maiores do que estrelinhas atrás da orelha ou borboletinhas na canela, esqueça a ajuda. O monitor só virá te socorrer se o supino cair na sua cabeça. Acho que supino nem é nome de aparelho.

R.A: Pede ajuda a cada movimento. Como se com aquela barriga tanquinho ela já não soubesse os exercícios de cor! Sua garrafinha é da Náique.

M.S: Se tiver a sorte de lembrar da bendita garrafinha, a Mãe em Surto pode escolher entre a do Ben 10 ou aquela que ganhou na festa de 3 anos da Maria Clara. Quando termina os exercícios, exatamente dez minutos antes da hora combinada para pegar a criança, sai correndo com aquela leggin 90 mesmo.

R.A: Não faço idéia. Porque elas sempre ficam mais tempo do que eu.

M.S: Pega o filho feliz da vida, vai para casa tomar um banho e se sente uma heroína por ter conseguido cumprir a missão. Curte o filho e uma linda noite de sono.

R.A: Não tem história para publicar quando chega o fim do dia. Há!

Andrea Dip é jornalista e mantém a coluna Mãe em Surto neste Nota de Rodapé

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Vou amarrar as trompas e já volto

Na chamada para o programa, lá estava ela: linda, sem olheiras, com os cabelos perfeitos, a pele impecável e...MAGRA! O off dizia: “Gisele Bundchen conta como é sua rotina com o filho, nascido há apenas um mês” ou algo do tipo. Dei um grito no sofá: “Um mês e ela está com essa barriga chapada? Deve ter amarrado o músculo na cesárea, igual a Angélica”. Meu namorado concordou com a cabeça, um pouco assustado. Parece que ouvindo minha indignação, o locutor continuou, só para me espinafrar: “E fala sobre a emoção de ter tido um parto natural, na banheira de casa sem anestesia”.
Eu queria que o sofá se abrisse bem debaixo de mim. Como assim? Qualquer mulher mortal usa cinta e calça de grávida por até sei lá quantos meses e boa parte delas (como eu) nunca volta ao corpo normal. Eu carrego o trunfo do parto natural, mas na banheira sem anestesia? O leitor, se ainda não for pai ou mãe pode estar achando esse papo um tanto fútil. Mas a questão é que nós mulheres já somos obrigadas pelas revistas femininas e propagandas de jeans a trabalhar, cuidar bem dos filhos, namorar, ter um corpão, ler vários livros, e tudo o que eu disse no post anterior. Mas peraí, a gravidez e o pós-parto eram zona neutra, vai?
Agora querem nos empurrar goela abaixo uma Gisele barriga tanquinho antes de acabar a quarentena? Já pensou se os pais resolvem cobrar? Se começam a te olhar feio no metrô? “Olha, com um bebê de um mês e ainda toda descabelada”. É o fim dos tempos. Peraí que vou amarrar as trompas e já volto.

Andrea Dip é jornalista, mãe do David e mantém a coluna Mãe em Surto neste Nota de Rodapé.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Mãe em Surto # 3

Chego para buscar meu filho de 5 anos na escola, e ele tem uma argola toda torta encaixada no lábio.

- O que é isso menino? Tira já isso da boca!

- É um piercing, mãe. Peguei do chão, lavei e coloquei aí. Eu e o Leo.

- Pegou do chão? Tira já, agora, nem mais um minuto!

- Se eu tirar, você me empresta um dos seus?

- Empresto. Mas só para brincar em casa. Onde já se viu criança de cinco anos querendo botar brinco na boca?

- Está na moda, mãe.

- Moleque, se você furar ou pintar alguma parte do seu corpo antes do 18, eu arranco na faca!

Ele olhou meu piercing no nariz, minhas tatuagens por alguns segundos e foi brincar.

E lá no fundo, ouvi a Elis cantando...

Andrea Dip é jornalista, mãe do David e colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

“Se estava na rua era bandido”. Era gari

Os documentos estavam no bolso, inclusive um holerite marcado com sangue. “Se estava na rua era bandido”, disseram os policiais que assassinaram o gari Edson Rogério, 29 anos, filho de Débora Maria da Silva que coordena o grupo Mães de Maio, que reúne mulheres que perderam os filhos na chacina de maio de 2006, chamado de “ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital)” e que ganhou as telas recentemente com o filme "Salve Geral", indicação brasileira para tentar concorrer ao Oscar 2010. Foram quatro tiros em Edson, nove policiais envolvidos e o processo arquivado. A história do Gari é uma entre centenas que acontecerem entre 12 e 20 de maio de 2006, quando 564 pessoas foram assassinadas, quase 90% civis. Desse total, apenas 6% com antecedentes criminais. A maioria deles, jovens de baixa escolaridade. Essas mulheres e mães alegam que tiveram seus filhos assassinados por esquadrões da morte e pela polícia paulista. Considerando os números, mais gente morreu no período do que em toda a ditadura militar: 564 contra 424 nos anos de chumbo. Atualmente, 60% dos processos estão arquivados e as “Mães de Maio” exigem o desarquivamento dos crimes praticados. A repórter e colunista deste Nota de Rodapé, Andrea Dip, foi ouvir a história do maior trauma que uma mãe pode sofrer, a perda brutal de um filho. Edson não era bandido, era Gari e foi assassinado na mesma calçada que havia varrido pela manhã.

Como começou tudo?
O pai do meu menino morreu da mesma forma. Nós nunca descobrimos quem matou. O Rogério, meu filho, já trabalhava há sete anos em uma firma de limpeza urbana. Para tudo me pedia opinião. Era meu bebê. Nós compramos uma casinha no morro para ele morar e ele pegou um empréstimo no banco para comprar o piso e reformar. Um dia ele estava deitado no sofá e perguntei: “Você está feliz, filho?” E ele respondeu “Muito, mãe. Muito feliz”. Depois da casa ele comprou uma moto. Aí uns dias antes do que aconteceu ele teve de fazer uma cirurgia na boca, veio aqui e pediu “mãe faz um cozido pra mim, eu vou bater no liquidificador” por causa do dente. Ele operou no dia 10 de maio de 2006. Aí passou o dia das mães aqui comigo, fizeram um bolinho para mim porque tinha sido meu aniversario. Ele comeu um pedaço de carne, bateu no dente e começou a sangrar, acabou o dia para ele. Aí se deitou, tomou um remédio. Às seis da tarde as meninas o chamaram para cantar os parabéns para a mãe. E já estava na televisão aquela matança, a gente chorou também. Ele pegou um pouquinho de comida que a gente tinha dividido do churrasco. Tinha que trabalhar no dia seguinte porque não entregou o atestado com medo de ser mandado embora. Me pediu um beijo e foi embora. Foi o último dia que passei com o meu filho.

Ele foi assassinado no dia das mães?
No dia seguinte recebi um aviso de um policial amigo da família dizendo que era para as pessoas “de bem” não saírem na rua porque quem tivesse na rua era inimigo da polícia. Eu ligava para o celular do meu filho e não conseguia falar. E aquela dor no meu coração. Quando deu uma hora da tarde deu pane nos telefones, até hoje a gente não sabe o que aconteceu. A Telefônica nunca disse. Fui para o meio da rua, achava que estava ficando louca. Sentia um cheiro de carne com sangue no meu nariz me sufocando. Queria saber notícias do Rogério e não conseguia sair do lugar. Aquela agonia. Ele apareceu aqui atrás de um remédio, com muita dor de dente. “Filho, o que você está fazendo na rua, fica aqui, não sai”. Ele me pediu 10 reais para colocar gasolina na moto, pegou o remédio e foi embora.

Ele foi pego nesse momento...
No meio do caminho, segundo os frentistas do posto. Ele ia subir o morro e acabou a gasolina, ele até caiu da moto. Foi empurrando a moto até o posto. Os frentistas não quiseram vender a gasolina porque o posto estava fechado e estava cheio de câmera, aí ele pediu ajuda pra um amigo do morro e quando o amigo chegou no posto, chegaram três viaturas e uma Blazer. Não consegui dormir a noite toda. De manhã liguei o rádio e ouvi: “houve uma matança aqui na nossa região e 16 corpos estão no IML. Eu vou dar primeiro os nomes da nossa região”. Deu o primeiro, o segundo, o terceiro era o nome do meu filho. Comecei a gritar “mataram meu filho, mataram meu filho”. Liguei para o mercado perto da casa dele para saber se ele tinha ido comprar pão, ninguém sabia, ninguém falava nada. Minha filha tinha acabado de ganhar gêmeos, o peito dela até secou. Minha outra filha foi lá reconhecer, mas não deixaram ela entrar no IML porque eram muitos corpos, inclusive de uma moça grávida de nove meses que tinham matado também. As testemunhas contaram que o Rogério dizia para os policiais “mas eu sou trabalhador” e eles respondiam “Se morreu era bandido”.

Andrea Dip é jornalista e colunista do Nota de Rodapé.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Estreia: Mãe em Surto # 1

O nome poderia ser “mãe moderna” como nomearam uma coluna minha uma vez. Mas aí é muito bonito, né? Mãe moderna é aquela fodona (desculpe, mas o primeiro mito a ser quebrado é o de que mãe não fala palavrão) que segura a bronca sozinha, educa seu filho de forma liberal, porém sabe colocar limites, leu todos os livros do Içami Tiba, é mãe solteira mas tem um ótimo relacionamento com o pai da criança (mentira), trabalha, faz pós, sustenta a casa e ainda é gostosa e tem 5 orgasmos por dia, manja? Não dá, definitivamente.
O que eu tenho visto nessa modernagem é um monte de mulheres surtadas, tentando equilibrar a bolinha no nariz, trabalhando, frilando, furando a academia quando dá, saindo por aí descabelada e quem sabe fazendo um sexo bem sucedido de vez em quando. Mas uma coisa tenho que admitir: a gente se diverte. E cria gerações cada vez mais incríveis.
Chuta daqui, defende dali e no final dá tudo certo. Por isso acho mais razoável e honesto chamar essa coluna de "mãe em surto." Por exemplo: neste exato momento, eu faço uma matéria sobre erotismo para mulheres para uma revista feminina, terminei outras quatro sobre alergia para um site de medicamentos, entrevisto um ninja por msn para o jornal para o qual trabalho e escrevo essa coluna. Ah, tenho que ligar na escola para renegociar o desconto do ano que vem e pegar a homeopatia no caminho de casa... Bem lembrado.

Andrea Dip é jornalista, mãe do Davi, pugilista e colecionadora de quadrinhos eróticos. Os prêmios que ganhou (como jornalista, não como mãe e muito menos como erótica) não serviram para nada, a não ser para receber elogios meia-boca de pessoas chatas com copos na mão. Ou seja: como todo brasileiro, ganha pouco, mas se diverte como pode.
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