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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O lugar que não existe


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

 Onde a civilização indígena se encontra intensamente com a latinidade, ao som dos trompetes onipresentes e das vozes onduladas de dezenas de grupos de mariachis. Um mar de barquinhos de madeira em cores berrantes, todos com nome de mulher. Lupitas, Carmelitas e Brendas em profusão, causando um engarrafamento dos mais divertidos, onde passam cozinhas flutuantes vendendo moles, tacos, quesadillas e salsas picantes à escolha do freguês. Mais brega impossível. Teimando em desafiar o inverno mexicano, o sol aquece ainda mais os nossos corações nesse incrível Xochimilco (pronuncia-se "Sotchimilco"), um lugar que não existe. Domingão que festejamos sem pudor, fascinados com as festas de aniversário, famílias com crianças e velhos, e até mesmo um grupo de judeus sisudos de cabeça coberta e senhoras comportadas, todos falando ao celular no meio daquele furdunço.

‏Outro ponto obrigatório é o mercado de San Angel, não só pela riqueza e sofisticação do artesanato, mas também pelo lindo bairro onde funciona, todos os sábados do ano. Quem sabe mais quemos mexicanos sobre as cores e seus poderes? Onde mais poderíamos encontrar máscaras de super heróis para adultos, com variedade e qualidade únicas? Sem falar nas caveiras, de todos os materiais, tamanhos e cores - e muito mais.

‏Mas uma megalópole de verdade tem seus infernos. Um que nos salta aos olhos e aos ouvidos aqui é o tráfego. Numa só palavra, insuportável. Mesmo assim, chama-nos a atenção a quantidade de mexicanos circulando nos locais de turismo, como quem diz "podem vir, amigos, entrem, visitem, aproveitem, a casa é nossa e nos orgulhamos muito dela".

‏Este detalhe surge na conversa que rola à mesa do jantar, sortudos que somos de estar, mais do que hospedados, acolhidos numa casa mexicana. Nossa adorável hospedeira nos situa, então, brevemente, na história do seu país, principalmente naqueles aspectos que mais orgulho lhe dão: o da identidade nacional tão apreciada por eles mesmos e o da calidez, da abertura para receber gente de todos os lugares, principalmente os perseguidos, os indesejáveis, os banidos.

‏Alguém ainda duvida de que depois da segunda garrafa de vinho as pessoas ficam mais inteligentes, espirituosas e conversadeiras? Corações e mentes amolecidos, somos conduzidos numa fascinante visita aos tantos episódios em que os mexicanos abriram espaço para acolher Alexandra Kollontai (feminista russa de cem anos atrás), Leon Trotsky, Gabriel García Marquez, Chavela Vargas, Juan Gelman e muitos outros. Como não se orgulhar? Um terceiro brinde, por favor. Viva o México!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

domingo, 18 de agosto de 2013

10 anos de autonomia Zapatista

por Aleksander Aguilar*

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

[Foto: Moysés Zúñiga Santiago]
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.

São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.

ESCOLA PARA A LIBERDADE

No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.

Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

quinta-feira, 7 de abril de 2011

México: um morto que vale por 40 mil

Desde que o presidente do México, Felipe Calderón, deu início a uma cruzada contra o narcotráfico no país, em 2006, mais de 35 mil pessoas morreram nessa guerra – há, pelo menos, mais 5 mil desaparecidos. Na semana passada, sete jovens foram torturados e mortos na cidade turística de Cuernavaca (cerca de 90 km da Cidade do México). Poderia ser “apenas” mais uma chacina não fosse o fato de que um dos mortos era Juan Francisco Sicilia Ortega, de 24 anos, filho do poeta e jornalista Javier Sicília.
Há anos o governo distorce e maquia números para tentar convencer a população de que, nessa guerra, só quem está envolvido com os “narcos” perde a vida. A tese, que há muito tempo vem sendo contestada, acaba de receber o golpe final. Desta vez será impossível transformar a vítima em culpado.
Após a morte do filho, Sicilia convocou os mexicanos a protestarem. Pediu para que as ruas fossem ocupadas por um basta à violência. Na quarta-feira (6), o escritor encabeçou uma marcha em Cuernavaca que reuniu mais de 20 mil pessoas. A manifestação se repetiu em outras 22 cidades e já há novos atos programados. Calderón pode ser colocado em xeque por uma morte que vale por 40 mil.
Em uma carta aberta aos políticos e criminosos do país, Sicilia fala em nome de 110 milhões de mexicanos: “Estamos hasta la madre”. A expressão, muito corriqueira no país, significa estar farto. O México já não aguenta mais tanta corrupção, tanta violência, tanta impunidade, diz o escritor. Após atacar os governantes, ele pede aos narcotraficantes um mínimo de dignidade: “Antigamente, vocês tinham código de honra. Não eram tão cruéis em seus ajustes de conta e não encostavam nos cidadãos e nem em suas famílias. Agora, já não distinguem. Perderam, até, a dignidade para matar.”
Quando recebeu a notícia do assassinato, o escritor estava nas Filipinas. No avião de regresso, escreveu um poema, que leu publicamente na praça da cidade onde mataram o filho. Depois, anunciou que aquele havia sido seu último poema. “Não posso escrever mais poesia. A poesia já não existe mais em mim”.

El mundo ya no es digno de la palabra
Nos la ahogaron adentro
Como te asfixiaron
Como te desgarraron a ti los pulmones
Y el dolor no se me aparta
Sólo queda un mundo
Por el silencio de los justos
Sólo por tu silencio y por mi silencio, Juanelo.

Eu estive no México por um mês no começo do ano. Vi um país militarizado, assustado e uma população que se sente refém de uma violência que parece não ter fim nem razão. A sensação que tive ao tentar me informar sobre os acontecimentos é que já é impossível distinguir quem está matando quem e por quê. Por sorte, ainda há o sentimento de indignação.

Ricardo Viel é jornalista, colunista do Nota de Rodapé

segunda-feira, 15 de março de 2010

Tacvba, a trilha sonora dos mexicanos, transformando o mundo num enorme salão

Diretamente do México, uma grande figura chamada Luis Miguel ‘Ouicho’ López nos embriagada de Café Tacvba. Só faltou a tequila, aproveitem...
Senti pela primeira vez a estranha sensação de só poder se movimentar para onde a multidão, inspirada e instigada pela música, decide se sacudir.
Foi em junho de 2005, no Zócalo [praça no centro da cidade], no D.F., México, e a vertigem que senti foi causada pelo Café Tacvba. As linhas do metrô próxima ao centro histórico haviam sido fechadas. Ainda que seja batida a analogia, eram rios de gente caminhando, convocados por quatro músicos que pareciam tocar sempre pelo simples prazer de aproveitar. Eu, ela e mais 175 mil pessoas tomamos aquela praça de assalto, e aproveitamos.
Nascem 21 anos atrás, na Cidade Satélite, um bairro mauricinho ao norte do D.F., e seu nome vem de um restaurante do centro da Cidade do México que era frequentado por alguns dos integrantes da banda – um deles, o vocalista, tem o estranho habito de mudar de nome a cada disco: já foi Juan, Pinche Juan, Cosme, Gallo, Gasss, Buendía, Sizu Yantra, entre outros – atualmente é Cone Cahuitl.
A banda não têm postura política, mas sai em defesa dos povos indígenas, dos movimentos para a preservação do ambiente; se apropriam da cidade, resgatam o mais antigo e descobrem o mais moderno dos nossos sons. Cafeta é escutado pelos mauricinhos e os manos. E melhor de tudo: cantam, dançam, choram e desfrutam igual.
Rubén Albarrán (voz), Enrique Rangel (baixo), Emmanuel Del Real (teclado) e Joselo Rangel (guitarra) geraram, nessas mais de duas décadas de vida em conjunto, além da música mais versátil e original das últimas décadas no México, as lembranças mais intensas para toda uma geração que necessitava, urgentemente, musicalizar suas vidas com uma trilha sonora em ‘mexicano’.
Já foram até chamados dos ‘Beatles latinos’. São capazes de fazer uma música das que a milionária indústria fonográfica exige, como ‘Eres’;



Estourar de sucesso com uma popular canção de um dominicano ‘Ojalá que llueva’;



Fazer com que em um show a imbecil máscara de uma galinha se prolifere, e popularizar uma dança estranha (com a canção Los Tres);



Por aqui, são poucos os que, na casa dos 30 anos para baixo, não têm pelo menos uma lembrança de algumas das rolas (canções na gíria do México) do Cafeta. Conto para vocês algumas minhas:
Dancei com Mariana ‘Las Batalhas’ uma incontável quantidade de vezes. Foi o tema musical da mais bonita novela mexicana, escrita pelo único menino-velho do país, José Emilio Pacheco. Resgataram e homenagearam o ‘ch’ [som presente em muitas palavras que se fala no México, muitas delas proveniente de idiomas falados antes da chegada dos espanhóis] de Jaime López - um roqueiro sessentão – e mostraram ao mundo o colorido que há no México até para falar.



Penso em um antigo amor chilango [proveniente da Cidade do México] cada vez que escuto ‘Avientame’ que me traz à memória as imagens de Amores Brutos, de Guillermo Arriaga (roteirista) e Alejando Iñarritu (diretor), revelação narrativa do cinema deste país.
Café Tacvba mostra o agridoce da cultura mexicana – ‘Ingrata, não me diga que você me quer. Ao cantarolar ‘Paparupapa euuuu eoooo fizeram da minha vida e da de milhões de mexicanos, como a própria canção pede, ‘um grande baile’ e transformaram o mundo em um ‘enorme salão’.



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Gritavam: ‘tem gente machucada’, e a maré de gente abria um espaço. Depois, como açúcar que enche um recipiente, voltavam a ficar totalmente completa de corpos. Eram 175 mil humanos em um espaço de 46 mil metros quadrados. Ela queria chegar até a bandeira. Era impossível. Desistimos e, de repente, no meio de um mar apimentado de pessoas nós nos dedicamos ao proibido prazer de aproveitar, com Café Tacvba ao fundo. Para fechar, uma parceria com Incubus, banda muito boa da Califórnia. Até semana que vem!



Luis Miguel López é jornalista no México e escreve especialmente para a Coluna Conexsom Latina do jornalista Ricardo Viel.
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