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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Os "indignados" sob o olhar desconfiado de Franco

Os "Indignados" espanhóis querem melhores condições de vida. E desde maio tomam as cidades do país em protesto. Nosso colunista, Ricardo Viel, esteve com eles em Salamanca e conta o que viu na praça principal da cidade.

Dezenas de objetos dos mais diversos tipos, entre eles uma TV, estão expostos no chão, sobre uma lona, mas é por um par de chuteiras um tanto quanto batidas que brilham os olhos já cansados de um senhor.

Ele pergunta ao garoto que cuida dos “produtos” o preço e não entende muito bem quando escuta que eles não estão à venda: “É um mercado de troca, se lhe interessa alguma coisa, traga algo que considere justo e troque pelo calçado”.

15-M: apartidários, desejam despertar a consciência do povo
O senhor retira da cabeça a boina e pergunta se estaria bem a troca. Deixa a Plaza Mayor feliz da vida com as chuteiras debaixo do braço. “Imagino que vai dar de presente ao neto, porque já não deve mais jogar, deve ter mais de 70 anos”, se diverte David Ramos, de 24 anos, um dos acampados na praça central de Salamanca, noroeste da Espanha.

O estudante faz parte do movimento que tomou as ruas de Madri e depois do país todo no mês de maio. Os indignados, como ficaram conhecidos, se levantaram no dia 15 de maio de forma espontânea e pacífica. Depois da capital espanhola, o movimento se espalhou por todo o país e, por fim, ultrapassou as fronteiras.

O 15-M se diz apartidário e tem por objetivo despertar a consciência da população para os desmandos que a corrupção e o mau uso do dinheiro público vêm acarretando – a crise, para ser mais claro.

Os cartazes espalhados pela praça dão ideia do futuro que os indignados esperam. “Todos somos Islândia”, “O presente é de luta, o futuro nós o faremos”, “Nossos sonhos não cabem nas urnas”.

O mercado de troca faz parte das atividades que o 15-M vai desenvolver em Salamanca até domingo, quando levantam acampamento. Na quarta-feira, dia 21, o debate noturno foi sobre a reforma constitucional que colocará o pagamento da dívida como prioridade para a Espanha e impedirá “todas as administrações” de gastar mais do que arrecada.

Trata-se de uma imposição, que veio em forma de conselho, que França e Alemanha (os primos ricos da União Europeia) fizeram a todos os países do bloco. Os congressistas espanhóis foram os primeiros a aprovar a lei. Oposição e governo chegaram a um consenso de que a aprovação da reforma era o único modo de acalmar o mercado (parece que não funcionou muito).

Agora o 15-M tenta mobilizar a sociedade a forçar os políticos a aprovarem um referendo que colocaria nas mãos da população aprovar ou recusar a mudança, que deve representar um corte grande nos gastos sociais.

Os debates na praça seguem uma lógica simples, basta pedir a palavra e falar. As intervenções duram poucos minutos e há de tudo, inclusive quem agarra o microfone e se esquece do que pretendia dizer. A falta de trabalho (o desemprego chega a 20% da população e passa de 40% para os que tentam encontrar um primeiro trabalho), a corrupção e o temor de que o “milagre espanhol” se transforme em um pesadelo são os principais assuntos debatidos.

Mercado: um senhor entrega sua boina em troca de chuteiras
Oito cadeiras vagas, no meio da praça, representam os quatro deputados e quatro senadores da comunidade de Castilla y León que foram convidados a debater (por e-mail e carta, frisa o movimento), mas não compareceram.

Todas as intervenções terminam em aplauso, que varia de intensidade não só pelas palavras ditas, mas também, e principalmente, pela forma como é terminado o discurso.

Gonzalo Martin Pes, de 76 anos, precisa de poucos segundos para ser ovacionado. Sua fala é breve e teatral. “Um dia, um comediante conhecido da maioria de vocês, o genial Cantinflas, me disse: ´Gonzalo, venha, se não tiver comida para você, passaremos fome juntos´. Eu não sou tão fatalista, espero que ninguém passe fome, mas que tenha comida para todos”.

Em privado, Gonzalo me confessa que nunca conheceu Cantinflas e que a frase atribuída ao mexicano foi inventada. De qualquer maneira, o espetáculo na Plaza Mayor é bonito. Atraía muita gente, é respeitoso e democrático. A maioria dos que tomam o microfone são jovens que fazem parte do movimento, mas há de tudo, até os que se colocam contrários (e também são aplaudidos).

O debate termina sem uma conclusão, sem que se tirem propostas concretas. Esse é uma das críticas que se faz ao movimento. É fato, ninguém sabe ao certo até onde (e para onde) o 15-M irá.

“Eu não sou adivinho, não sei onde isso vai parar, mas digo que já fizeram muito”, me diz Gonzalo. Miguel Espigado, de 30 anos, membro do 15-M e um dos mais participativos no debate, está de acordo: “Não sabemos onde vai parar, mas dia 15 de outubro há uma marcha mundial até Bruxelas, para pressionar os governantes da União Europeia. Conseguimos levar mais de 100 mil pessoas a Madri, estaremos em Bruxelas, isso era impensável há poucos meses”.

Os descrentes criticam e dizem que o movimento não chegará a nenhum lugar. Os românticos confiam que a indignação dessa gente pode, sim, fazer uma grande mudança. Mas só o jornal La Gaceta, porta-voz da prefeitura, conseguiu ver o acampamento como um espetáculo que enfeia a cidade.

Minto, há mais alguém na praça que está contrariado com tudo aquilo. É Francisco Franco, que ao lado de figuras como Cervantes e os reis da Espanha, tem sua cara em uma das medalhas colocadas nos arcos da Plaza Mayor. Salamanca foi uma das primeiras cidades a cair na Guerra Civil e foi uma espécie de centro do franquismo durante o conflito.

Diferentemente das demais figuras, a do “general” encontra-se apagada de tanta limpeza. É que vez ou outra alguém resolve por jogar tinta na cara do ditador. Com a presença dos acampados, o risco de receber uma pintura só aumenta. Franco está contrariado com os indignados.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé, atualmente em Salamanca, Espanha.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nossa água nas mãos das grandes corporações

De Rondônia ao Rio Grande do Sul, passando pelo interior de São Paulo, setor privado mostra voracidade para obter monopólio de recursos estratégicos

Agosto de 2011. Somente um mês após a privatização do abastecimento de água e esgoto, os moradores de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, se surpreenderam. A maioria das contas sofreu aumento, contrariando as promessas de redução da tarifa, feitas pela prefeitura e a empresa Foz do Brasil, concessionária que assumiu os serviços. As reclamações dos usuários foram parar na imprensa local. Houve caso de morador que gastou apenas um metro cúbico de água e teve que pagar R$ 33.

Antes, no mês de fevereiro, Santa Gertrudes, cidade do interior de São Paulo, passou por situação semelhante. O reajuste aplicado nas contas de água após a privatização do serviço causou protestos entre os moradores. Há casos em que o aumento chegou a 700%. Além dos aumentos abusivos nos preços, outra coincidência: a empresa concessionária também é a Foz do Brasil, braço do Grupo Odebrecht.

Mercadoria 

Com a crescente busca pela privatização no setor de água, o consumidor pode ter mesmo pela frente contas mais altas. A avaliação é de organizações sociais nacionais e internacionais que participaram, em julho, de seminário que debateu como a população pode se organizar para impedir a venda das empresas.
De acordo com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) 90% da rede de distribuição de água no país são controlados por empresas públicas, com uma cobertura de quase 100% das grandes e médias cidades.

Para o MAB, um negócio que não requer grandes investimentos (já que conta com estruturas prontas, criadas com dinheiro público) e movimenta anualmente cerca de R$ 120 bilhões – mais que todo o setor elétrico – desperta o interesse da iniciativa privada.

A elevação dos custos ocorreria pela própria lógica do sistema privado, que adota um modelo de reajuste estabelecido em preços internacionais. Representantes das organizações preveem um aumento imediato nos preços, além de uma diminuição dos investimentos no setor.

Os participantes do seminário denunciaram práticas ilícitas em alguns estados do país. Em Rondônia, na região norte, representantes do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Água e Energia afirmam que empresários assediam vereadores.

A entidade também denuncia que, em alguns municípios, as prefeituras têm desconsiderado processos legais, como a licitação para a concessão do sistema de abastecimento, exemplo ocorrido na cidade de Ariquemes. Contra a privatização, os sindicalistas avaliam que as empresas privadas investirão menos na ampliação da rede e, principalmente, em saneamento.

Guaratinguetá:
inspiração para Atibaia


Em maio deste ano informações dão conta de que o Saneamento Ambiental de Atibaia (SAAE) começou a debater internamente uma proposta de mudança no modelo de gestão do saneamento básico.

Tomando como exemplo o padrão adotado na cidade de Guaratinguetá (SP) o poder público atibaiense busca a iniciativa privada para angariar recursos financeiros ao setor. A justificativa é que, sozinho, não conseguirá alcançar metas de saneamento básico previstas em lei federal (lei 1.445 de 2007) que diz, por exemplo, que os serviços devem ser universalizados.

Na proposta, a Prefeitura tenta que a Câmara de Atibaia aprove projeto de alteração de regime jurídico do SAAE (de autarquia para empresa pública) o que possibilitaria, como em Guará, a contratação de uma Parceria Público Privada (PPP).

O esforço da Prefeitura é tamanho que, em meados de julho, antes de qualquer chamado para audiências públicas e com atropelamento do tempo que deveria ser direcionado a estudos minuciosos e debates amplos, o vice-prefeito em exercício, Ricardo dos Santos Antonio (PT) solicitou sessão extraordinária no Legislativo, em pleno recesso parlamentar, para votar a proposta.

A sessão foi recusada pelo presidente da Câmara, vereador Emil Ono. No entanto, na próxima segunda-feira, 5, é provável que o projeto seja votado pelos vereadores sem que algumas repostas consistentes e definitivas.

No caso da alteração de regime, embora a direção da empresa afirme que nada vai mudar para quem fez carreira no SAAE, a modificação coloca condições diferentes nas relações de trabalho, ameaçando empregos e direitos adquiridos, o que preocupa funcionários e consumidores. Por exemplo, existe a súmula 390, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que prevê a perda da estabilidade dos funcionários concursados se houver a mudança para regime de empresa pública.

Sobre as relações de consumo, se deixar de ser uma autarquia, a empresa perderá a isenção de diversos impostos, como PIS e Cofins, ligados à seguridade social. Essa diferença será ou não repassada para as tarifas cobradas da população? Não se sabe até o momento.

Guará: primeiro o esgoto;
depois a água 


A Companhia de Serviço de Água, Esgoto e Resíduos de Guaratinguetá (SAEG) é apontada pela atual administração atibaiense como exemplo de solução para atingir metas da lei federal de saneamento, bem como um instrumento capaz de sanar finanças.

Em Guará, o argumento para a mudança e a entrada do setor privado na gestão de saneamento era que o poder público não teria condições econômico-financeiras de manter a instituição após a sanção da lei federal em 2007.

Já em 2008, o Serviço Autônomo de Água, Esgoto e Resíduos de Guaratinguetá (SAAEG) mudou o regime jurídico – de autarquia para empresa de economia mista – tornou-se SAEG e instalou uma PPP.

O Grupo Queiroz Galvão, detentor da Companhia de Águas do Brasil (CAB Ambiental) em tese, seria a solução dos problemas da antiga autarquia de Guará. Não é o que se vê.

No último dia 1 de junho, o prefeito de Guaratinguetá, Junior Filippo (DEM) encaminhou à Câmara Municipal do município um projeto de lei solicitando autorização legislativa para a concessão da água na cidade. Trocando em miúdos, fazer da água uma mercadoria a ser vendida à população sob a tutela da iniciativa privada.

A alegação era de que a capacidade de investimento de Guará é baixa, por isso a decisão de estreitar relações com o setor privado. No dia 30 de junho, em sessão ordinária, os vereadores votaram e aprovaram o texto “em regime de urgência”, por oito votos a três.

A propósito, a CAB Ambiental é o elo das propostas de Atibaia e Guaratinguetá. Além de já estar presente no saneamento da SAEG de Guará, ela é quem fez o projeto de PPP para o SAAE de Atibaia.

Justiça rescinde
contrato da CAB no Paraná


A Justiça de Paranaguá, no Paraná, determinou a rescisão do contrato entre as empresas CAB Águas de Paranaguá S/A, sub-concessionária que administra o serviço de abastecimento e saneamento na cidade, a Companhia de Água e Esgotos de Paranaguá (CAGEPAR) e o município.

A decisão, de caráter liminar, atende ação civil pública apresentada em maio deste ano, pelo Ministério Público do Paraná. A Promotoria de Justiça da comarca sustenta que a empresa deixou de cumprir diversas obrigações contratuais, resultando em grave prejuízo financeiro aos cofres públicos, sem contar a má-qualidade do serviço que é oferecido à população e o desrespeito à legislação.

O juiz que acatou os argumentos do MP impôs prazo de oito meses para que a administração municipal volte a assumir o serviço hoje prestado pelas empresas. Em caso de descumprimento, a prefeitura deverá pagar multa diária de R$ 10 mil.

Os promotores de Justiça apontaram diversas ilegalidades, como o não pagamento de encargos aos cofres municipais e o descumprimento recorrente de várias cláusulas contratuais, que implicaram na não realização de investimentos em melhoria do serviço e, consequentemente, prejuízo direto para a população.

Na decisão, o juiz chega a transcrever trecho da medida do MP-PR, que resume a situação: “Aproximadamente 45 anos após a assinatura do contrato de concessão de exploração dos serviços de água e esgoto e, após 14 anos da assinatura do contrato de subconcessão destes serviços, nem a Cagepar e nem a Águas do Paraná executaram satisfatoriamente, nem o Município exigiu tal implemento”.

O juiz também destaca: “Frise-se, após 14 anos do contrato de sub-concessão, não há sequer 5% de rede reparadora de esgoto no município de Paranaguá”. Por contrato, a empresa deveria ter implantado 85% do sistema de atendimento de esgoto até 2003.

Além disso, a Águas de Paranaguá havia se comprometido a construir reservatórios com capacidade de 17mil m3 até 2001, sendo que, até 2005, instalou apenas um reservatório, com capacidade de 1 mil m3.
Em virtude disso e de outras situações, em março deste ano, quando houve uma enchente na região, os moradores da cidade ficaram sem abastecimento de água por vários dias. “As fortes chuvas do início do ano nos deram a prova material de que o sistema era de fato frágil e que a população corria risco”, afirmam os promotores de Justiça autores da ação.

Eles estimam que, no total, o descumprimento de cláusulas contratuais que implicavam em investimentos na rede de água e esgoto e o não pagamento de encargos resultaram em um rombo de cerca de R$ 60 milhões aos cofres públicos.

Em comum com Atibaia e Guaratinguetá, a cidade de Paranaguá tem a mesma empresa como a parte privada – já instalada ou pretendida – dos serviços de água e esgoto: a CAB Águas de Paranaguá, empresa que a Justiça determinou a rescisão de contrato no Paraná, é um dos muitos braços da CAB Ambiental e do Grupo Galvão estendidos Brasil afora.

Como se vê, Foz do Brasil e CAB Ambiental, tentáculos de grandes corporações, vão expandindo as atividades na área de água e esgoto pelo país. Poucas empresas com interesses privados controlando recursos de tamanha importância estratégica e futura, colocam o Brasil, nesse setor, caminhando na contramão mesmo quando se fala de países ferrenhos defensores das privatizações.

Na Europa, experiência
negativa e volta atrás


O doutorando da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Juscelino Eudâmidas diz que, de acordo com pesquisas internacionais, até 2015, cerca de 60% da capacidade de abastecimento da América Latina estará privatizada. Contudo, ele destaca que, nos países ricos, onde a ideia da privatização surgiu, os governos estão voltando atrás.

"O Estado francês, onde surgiram as primeiras experiências de concessão do sistema de distribuição de água, está reestatizando todo o serviço. Eles viram que a qualidade do serviço e da água caíram, os preços subiram exorbitantemente e o serviço não foi universalizado", diz Eudâmidas.

Representantes do Movimento dos Atingidos Pelas Barragens destacam que a Itália, por meio de referendo, decidiu, em junho passado, que o sistema de água deve ser gerido por empresas públicas.

Onde está a
participação popular? 


Se na Itália a população do país foi consultada para votar o modelo de gerenciamento da água, em Atibaia não houve sequer uma audiência pública chamada para debater a mudança de regime jurídico do SAAE e a contratação da PPP. A ação de convocar os contribuintes seria um sinal de respeito à democracia, principalmente pelo papel fundamental da empresa na história da cidade.

Até mesmo na polemica envolvendo a cidade de Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, aqui narrada, o prefeito João Vitte disse que é praticamente impossível cancelar o contrato de concessão, já que ele foi amplamente discutido com a população por meio de audiências públicas. Além disso, o edital de licitação ficou um ano sob análise do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e foi elaborado conforme as regras do órgão.

Flagrante contradição

Evento curioso – e não menos contraditório e incoerente – ocorreu esta semana. O site oficial da Prefeitura de Atibaia exibia nota convocando para terça-feira, 6 de setembro, às 18h, no Fórum Cidadania, audiência pública para discutir a implantação do loteamento “Reserva de Atibaia”, na estrada dos Pires, bairro rio Abaixo.

O texto destaca que a “reunião é aberta” e que “audiências públicas são instrumentos que buscam colher subsídios para o processo de tomada de decisões do Poder Executivo. Elas também permitem aos cidadãos a oportunidade de encaminhar pleitos, sugestões e opiniões, além de darem publicidade a assuntos de interesse público”.

Enfim, uma incoerência, pois se audiências públicas existe para tratar de interesse público, porque o SAAE não as merece? Fica difícil compreender a noção de democracia se água e esgoto, temas de reflexos gigantescos para a saúde humana e ao meio ambiente, não são brindados com a possibilidade do debate franco e amplo.

Moriti Neto, jornalista, colunista do NR

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

reportagem especial

(Parte 4)

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.
Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos.
E Margatina aceitou os argumentos de Gabo?
“Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Título do livro foi presente
O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.
Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos. O filme estreou na Colômbia e Costa Rica no mês de abril. Não há previsão da estreia no Brasil.

- (leia a parte 1: Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores)
- (leia a parte 2: É preciso pinçar o que ele escreve)
- (leia a parte 3: Verdades do coração)
- (leia a parte 4 (final): Escritor recebeu pedido para mudar o final do livro)




Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Verdades do coração

reportagem especial

(Parte 3)

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costuma repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.
A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” - quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas, em 1928 é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3.000 que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.
Jaime Garcia conta que nos anos sessenta recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.
A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.
“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez.

- (leia a parte 1: Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores)
- (leia a parte 2: É preciso pinçar o que ele escreve)
 
Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.
Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã, sexta-feira, a parte 4, final, da reportagem especial "Escritor recebeu pedido para mudar o final do livro". 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

"É preciso pinçar o que ele escreve"

reportagem especial

(Parte 2)

 

A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, que quase nunca está, é Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor - que desde os anos 60 mora no México -, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles.
“Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.
Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.
A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 70. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.
Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.
“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.
“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.
Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”
Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.

- (leia a parte 1: Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores)


Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.

Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã, quinta-feira, a parte 3 da reportagem especial "Verdades do coração".

segunda-feira, 21 de junho de 2010

De como Gabo transforma mentiras em verdades

reportagem especial

As muralhas que protegem a cidade. O calor inclemente. As sacadas (balcones) das típicas casas do centro antigo. É difícil dizer qual a lembrança mais marcante que tenho de Cartagena de Índias. No um mês que estive na “cidade mais bela do mundo”, como Gabriel Garcia Márquez a chama, caminhei por lugares e conheci pessoas que fazem parte da obra do escritor colombiano. De lá trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo, e a história que a partir de agora conto em quatro partes, até sexta-feira, dia 25. 

(Parte 1)

Dizem que uma mulher de vermelho 

anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.
Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo - motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.
Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.
A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo
O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias,  foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.
“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.
Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.
“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.
Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.
A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.
O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há quinze anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

Ricardo Viel é jornalista e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã, quarta-feira, a parte 2 da reportagem especial "É preciso pinçar o que ele escreve". 
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