.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador igualdade racial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador igualdade racial. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A noviça rebelde e o paraíso racial*

Em 1994, Nelson Mandela tornou-se o primeiro Presidente negro da África do Sul, na culminância de uma biografia e um processo político que fazem dele, na minha opinião, o grande herói do nosso tempo. Não muito depois, o racismo e a desigualdade racial, sempre camuflados no Brasil, foram pela primeira vez reconhecidos por um Presidente da República, num pronunciamento oficial. Lembro-me do impacto que me causou ver e ouvir Fernando Henrique Cardoso dizer que o Brasil tinha uma dívida histórica com os negros, e que precisava tomar medidas importantes para começar a saldá-la.

O mandato de Mandela ia pela metade quando participei de um grande evento internacional em Salzburg, Áustria (num lugar onde eu me sentia dentro de “A noviça rebelde”, pronta pra encontrar Julie Andrews cantando no jardim). Estavam ali umas trezentas pessoas, de muitos países, sendo eu a única brasileira, para discutir estratégias de desenvolvimento durante cinco dias.

Como acontece frequentemente em reuniões desse tipo, as sessões de trabalho eram longas e burocráticas. Em bom brasileiro, um tédio. Era nos intervalos que as conversas e intercâmbios de fato aconteciam, e onde melhor se cumpriam os objetivos do seminário – o que também é muito frequente. É que as pessoas fazem muito enquanto conversam, mas acham que trabalhar “a sério” é colocar todo mundo dentro de uma sala escura e refrigerada e despejar sobre elas um falatório do qual praticamente nada se aproveita de verdade, e pouco fica registrado na memória individual. Mas aquele papo que rola no corredor, no almoço, no jardim, esse move as engrenagens.
O que mais me impressiona é a negação persistente do racismo, enquanto ele é incessantemente praticado, assim como a disseminada incapacidade de entender que a superação da discriminação e da desigualdade é boa para todos, e de maneira nenhuma implica favores descabidos. Aliás, a igualdade está na lei, o que mais custa é trazê-la para a vida.
Bom, então, as refeições eram todas feitas num grande salão, em mesas de doze lugares. Num determinado jantar, sentaram-se ao meu lado dois sul-africanos brancos. Como era de se esperar, Mandela e a extinção do odioso sistema do “apartheid” viraram o centro da conversa, até que alguém lhes fez a pergunta crucial: “como o seu país vai fazer pra superar o racismo?” De forma quase coordenada, eles responderam: “há vários caminhos e modelos, mas nós queremos que a referência seja o Brasil, onde se desenvolveu uma sociedade na qual não existem diferenças raciais”.

Eu quase caí da cadeira. Virei-me para o grupo e, declarando-me brasileira, comecei a falar sobre a extensão e profundidade da discriminação em nosso país, de como vinha sendo velada e negada desde sempre, mas que finalmente, poucos meses antes, fora pela primeira vez nomeada ao mais alto nível, sem eufemismos e sem panos quentes, e como era importante que a sociedade brasileira acordasse para o assunto e realmente começasse a agir no sentido de eliminá-la. Falei da luta incansável dos movimentos negros organizados e das dificuldades de combater um inimigo “inexistente”. E que, por favor, a África do Sul buscasse outro modelo, porque essa “democracia racial” era uma mentira completa.

Quando fiz uma pausa, todos me olhavam como se eu fosse um ET. Estavam chocados, mas curiosos, e começaram a fazer perguntas. A conversa se estendeu por mais umas duas horas.

Passaram-se vários anos desde esse episódio. Muita coisa já mudou, graças principalmente aos movimentos organizados e a iniciativas governamentais, sempre enfrentando muitas dificuldades. Aqui, não foi preciso um “apartheid” na lei para que os lugares dos negros fossem muito bem demarcados. O débito brasileiro nesta área ainda é enorme, mas poucos se dispõem a pagar o preço.

O que mais me impressiona é a negação persistente do racismo, enquanto ele é incessantemente praticado, assim como a disseminada incapacidade de entender que a superação da discriminação e da desigualdade é boa para todos, e de maneira nenhuma implica favores descabidos. Aliás, a igualdade está na lei, o que mais custa é trazê-la para a vida.

Esta não pode ser uma luta restrita aos negros ou outros grupos discriminados. É indispensável o engajamento dos brancos e de todas as pessoas que prezam a democracia e a igualdade como valores essenciais. O multiculturalismo é uma das características brasileiras mais apreciadas em todo o mundo. Nos últimos anos, estamos fazendo bonito em outras áreas também, e atraindo muita admiração e respeito.
Seríamos definitivamente irresistíveis se pudéssemos exibir, com muito orgulho, uma verdadeira democracia racial. Não aquela que é sem nunca ter sido, e que, se os sul-africanos tivessem copiado (será que realmente o cogitaram?), hoje teriam algo bem parecido com o que havia antes, mas sem nome.

*Este texto contou com a valiosa contribuição de Ana Carolina Querino. 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Igualdade racial é pra valer

Campanhas assim ainda são necessárias até que não sejam mais necessárias.

"Com o tema: Igualdade racial é pra valer, a campanha propõe uma mobilização por um País sem racismo, onde todas as pessoas tenham os mesmo direitos.

Um país onde mulheres e homens, independentemente da sua cor, possam crescer e exercer sua cidadania de forma plena, desfrutando igualmente dos direitos econômicos, culturais, sociais, civis e políticos, sem distinção. Um grande movimento para unir o Brasil de ponta a ponta, como uma grande nação.

Abrace essa causa.

Todos podem e devem participar. Empresas públicas e privadas, agente financeiros, clubes esportivos, indústrias, comércio, movimentos sociais, associações comunitárias e, sobretudo, todos os brasileiros. O importante é mobilizar o país, promover ações em todas as camadas sociais, conversar abertamente sobre o assunto, buscar soluções e dar um passo à frente nos caminhos pelo fim do racismo."

Acesse e participe: www.igualdadepravaler.com.br
Web Analytics